domingo, 19 de janeiro de 2025

Inteligência Artificial: onde já vão as discussões entre Daniel Dennett e Joh Searle



As discussões entre Daniel Dennett e John Searle marcaram um período importante no desenvolvimento do pensamento sobre a IA. Dennett, com a sua perspectiva funcionalista e o seu otimismo em relação à IA, sempre viu a mente como algo que poderia ser replicado por sistemas artificiais. Dennett argumentava que se um sistema reproduzisse fielmente os processos cognitivos humanos, ele seria, em essência, consciente. Por outro lado, John Searle, com a sua famosa experiência de pensamento, ou a mente do Quarto Chinês, desafiou a noção de que a simples execução de algoritmos pudesse gerar compreensão ou consciência genuína. Searle argumentava que uma máquina poderia simular a compreensão, mas nunca realmente compreender. Isso levou a uma profunda discussão sobre o que significa "entender" a natureza da mente.

Desde então, as visões sobre IA evoluíram, mas essa tensão entre simulação e compreensão ainda persiste. Os avanços tecnológicos são uma realidade que veio para ficar. Como sempre, é a maior tecnologia até agora inventada pelo homo sapiens. Fora disso é melhor não perdermos tempo com questões morais, ou antropológicas. Encarar a IA como a maior invenção do homo sapiens reflete a sua importância transformadora, semelhante ao surgimento da eletricidade, mas numa escala potencialmente ainda mais abrangente.

A resistência inicial a novas tecnologias é um fenómeno recorrente na história, e a reação ao progresso costuma ser motivada por medo do desconhecido ou por preocupações legítimas que, com o tempo, se mostram infundadas. Os "velhos do Restelo", uma figura emblemática da obra de Camões, personificam essa voz de ceticismo e conservadorismo diante do avanço. O mesmo aconteceu com o surgimento do comboio a vapor e do automóvel, que foram inicialmente vistos com receio e até repulsa. Hoje, esses episódios são lembrados como exemplos do quanto a humanidade se pode adaptar e superar seus medos iniciais em favor do progresso. Independentemente das críticas morais e antropológicas, a trajetória é sempre a incorporação e o aproveitamento das novas tecnologias. No caso da IA, a própria prática e o uso contínuo acabarão por superar a resistência inicial.

Entender como a IA funciona é essencial para interagir com ela de maneira mais eficaz e para adaptar as expectativas de acordo com as suas capacidades e limitações. Hoje qualquer ser humano pode ter acesso a uma plataforma de conversa de IA, como por exemplo o ChatGPT. Trata-se de um modelo de linguagem treinado para processar e gerar texto baseado em grandes quantidades de dados. A "medida certa" para lidar com a IA é um equilíbrio entre compreender as suas capacidades e manter um ceticismo saudável quanto às suas limitações. O ChatGPT pode analisar, resumir, responder e até criar ideias de forma impressionante, mas ainda tem limitações em termos de compreensão profunda, autonomia e verdadeira inteligência emocional.

A IA, na sua essência, baseia-se em algoritmos e modelos que imitam certos processos de pensamento humano, como reconhecimento de padrões, processamento de linguagem e tomada de decisões. O tipo de IA do ChatGPT é conhecido como IA generativa e é construído sobre uma arquitetura chamada ‘transformer’, desenvolvida pela primeira vez pelo Google em 2017. Essa tecnologia usa um tipo de aprendizagem profunda, que se baseia em redes neurais artificiais inspiradas no funcionamento dos neurónios do cérebro humano. Estas redes neurais são compostas por camadas que processam informação de forma hierárquica: as camadas iniciais capturam detalhes básicos (como palavras individuais), enquanto as camadas superiores processam essas informações em contextos mais amplos (como frases, parágrafos e o tom geral de um texto). Durante o treinamento, a IA é exposta a enormes quantidades de texto retirados de livros, artigos, websites e outros recursos, o que a ajuda a aprender padrões de linguagem e conhecimento.

O que diferencia modelos avançados, como o ChatGPT, é a capacidade de gerar respostas que parecem naturais e contextualmente relevantes, com base nas correlações aprendidas durante o treinamento. No entanto, é importante lembrar que a IA não tem consciência, compreensão profunda ou emoções; ela funciona por meio de padrões estatísticos que simulam a interação humana. A sua programação foi desenvolvida para refletir uma abordagem equilibrada e informada, com o objetivo de fornecer respostas que respeitem diversos pontos de vista e promovam um diálogo construtivo. Isso pode, às vezes, parecer alinhado com o que se chama de "politicamente correto", mas na verdade é uma tentativa de evitar conteúdos que possam ser ofensivos, mantendo o respeito por todas as partes envolvidas.

Os programadores desta IA em particular procuram garantir que ela seja ética e segura para interagir com uma ampla gama de utilizadores, o que pode influenciar os filtros e os limites nas respostas. No entanto, isso não significa que seja tendenciosa a favor de uma corrente ideológica específica. É mais uma questão de proporcionar um ambiente em que as pessoas possam aprender e conversar sem sentirem que uma IA está a promover um lado particular. No entanto, tem-se falado sobre o interesse de Elon Musk em desenvolver a sua própria IA, especialmente após expressar preocupações sobre a trajetória e o impacto das tecnologias existentes. Ele é um crítico vocal da IA. Recentemente, Musk fundou uma nova empresa chamada xAI com o objetivo de explorar e desenvolver uma IA que, segundo ele, seria mais alinhada com a transparência e a liberdade de expressão sem filtros, supostamente em contraste com os modelos existentes. A xAI pretende criar um sistema que seja mais "verdadeiro" e tenha uma maior compreensão do mundo, com a ideia de que uma IA com uma visão mais ampla e realista dos factos pode ser menos propensa a gerar respostas enviesadas ou politicamente moldadas. Essa abordagem pode atrair quem busca uma alternativa aos modelos desenvolvidos por empresas como a OpenAI, que segue padrões de segurança e ética mais conservadores.

A competição entre empresas para desenvolver modelos de IA com diferentes filosofias de operação reflete a dinâmica do setor: desde IA com propósitos mais comerciais até abordagens voltadas para maximizar a utilidade ou os princípios éticos. Se a xAI se concretizar nos moldes propostos por Musk, pode trazer mais diversidade ao panorama da IA, com opções que oferecem diferentes equilíbrios entre liberdade, segurança e alinhamento ético.

O uso da Inteligência Artificial (IA) em áreas tão sensíveis como defesa e cibersegurança está num patamar diferente em termos de complexidade e risco, comparado com o uso de IA para fornecer conhecimento ou assistência teórica. Esses sistemas requerem tecnologias avançadas e medidas de segurança robustas para operar com precisão e evitar falhas catastróficas. No caso de sistemas de defesa, como o controlo de mísseis, a IA pode ser usada para otimizar trajetórias, melhorar a precisão e tomar decisões rápidas em situações de combate. No entanto, isso levanta preocupações éticas e de segurança, especialmente quando se fala de "armas autónomas" que podem agir sem intervenção humana direta. A utilização de IA nessas situações requer um nível muito elevado de confiança e transparência, e muitos especialistas defendem a necessidade de regulamentação rigorosa para evitar o uso indiscriminado ou descontrolado.

Já na cibersegurança, a IA é uma ferramenta poderosa tanto para proteger sistemas quanto para atacar. No caso de proteger redes sensíveis como as do Pentágono, a IA pode ser programada para identificar padrões de comportamento suspeitos, prever possíveis ataques e responder rapidamente para barrar tentativas de intrusão. Ela pode analisar um volume enorme de dados em tempo real e detectar anomalias que seriam difíceis de perceber com abordagem humana ou tradicional. Entretanto, essa mesma tecnologia pode ser usada por hackers para desenvolver ataques mais sofisticados. Hackers podem usar IA para explorar vulnerabilidades de forma automatizada, criar malfeitorias que se adaptam e se disfarçam, ou lançar ataques de engenharia social altamente persuasivos.

O desafio está em manter um equilíbrio onde as ferramentas de defesa e segurança não se deixem ultrapassar mais rapidamente pelas ofensivas. E, claro, para leigos (e até mesmo para muitos profissionais da área), a complexidade e o nível de especialização necessários para entender esses sistemas em profundidade são elevados. A IA em segurança e defesa é como um jogo de xadrez em constante evolução, onde ambos os lados tentam antecipar o próximo movimento do outro. Esses sistemas vão muito além da aritmética comum, envolvendo áreas especializadas como álgebra linear, estatística avançada, teoria das probabilidades, e sim, até conceitos complexos que podem parecer tão abstratos quanto os números imaginários e a topologia.

Álgebra Linear e Cálculo são a base para o funcionamento de redes neurais e aprendizagem profunda. As operações com matrizes e vetores permitem que os modelos processem grandes quantidades de dados e ajustem os pesos nas redes para otimizar as respostas. Isso é essencial para a eficiência e a capacidade de aprendizagem da IA. Teoria das Probabilidades e Estatística são fundamentais para que os algoritmos de IA façam previsões com base em dados incompletos ou incertos. Modelos estatísticos ajudam a IA a calcular a probabilidade de eventos futuros com base em padrões passados, o que é crítico em cenários de defesa e cibersegurança. Topologia e Geometria Computacional em aplicações mais avançadas, a topologia algorítmica, pode ser usada para entender formas complexas e interconexões em conjuntos de dados de alta dimensão. Isso pode ser útil para detetar padrões anómalos em segurança, onde as relações entre os dados são tão complicadas que métodos tradicionais falham. A Teoria dos Grafos é usada para modelar redes e relacionamentos, algo fundamental em cibersegurança para mapear conexões na internet, identificar vulnerabilidades e traçar a rota de um potencial ataque.

Para proteger dados e comunicações, a matemática por trás da criptografia moderna inclui conceitos complexos como curvas elípticas, que são usadas em sistemas de segurança de nível militar. A IA pode tanto usar essas ferramentas para proteger informações como para tentar decifrá-las. Muitos sistemas de IA, especialmente os que são usados para simulações e decisões em defesa, requerem lógica formal para garantir que as operações sejam executadas de forma segura e previsível. Essas áreas combinadas criam sistemas que conseguem fazer muito mais do que um simples processamento de dados. Elas permitem que a IA identifique padrões complexos, tome decisões em tempo real e se adapte a ameaças que mudam rapidamente. Compreender todos os detalhes dessas aplicações matemáticas requer anos de estudo especializado, mas a IA depende delas para funcionar de forma eficaz em ambientes de alto risco e complexidade.

A lógica difusa (ou fuzzy logic) e a lógica paraconsistente são tipos de lógica não clássica que foram desenvolvidas para lidar com limitações da lógica tradicional (bivalente), que só aceita valores de verdadeiro ou falso. Estas lógicas são úteis em situações onde a incerteza, a ambiguidade ou a contradição precisam ser tratadas de forma eficaz. A lógica difusa foi introduzida por Lotfi Zadeh na década de 1960 e é uma extensão da lógica clássica que permite graus de verdade. Em vez de valores binários como 0 (falso) e 1 (verdadeiro), a lógica difusa permite valores intermediários que representam "quão verdadeiro" algo é, com valores variando entre 0 e 1. Exemplo: Se quisermos descrever a temperatura de um dia, a lógica tradicional apenas permitiria "frio" ou "quente". A lógica difusa, por outro lado, permite que se diga que um dia pode ser "meio quente" (valor de 0,6, por exemplo), representando melhor a realidade.

lógica difusa é amplamente usada em sistemas de controlo, como termostatos, máquinas de lavar roupa, câmaras de vídeo, e veículos autónomos, onde as decisões precisam ser ajustadas de forma contínua. A lógica difusa pode ajudar em sistemas que exigem raciocínio em cenários incertos e variáveis, como na previsão do tempo, diagnóstico médico e reconhecimento de padrões. Permite que robôs tomem decisões mais fluidas em resposta ao ambiente, em vez de ações bruscas e binárias.

lógica paraconsistente foi desenvolvida para lidar com contradições sem que isso torne o sistema trivial (ou seja, sem que qualquer conclusão possa ser inferida, como ocorre na lógica clássica). Em lógica clássica, uma contradição implica que qualquer proposição pode ser verdadeira (princípio da explosão), o que é um problema em sistemas complexos onde as contradições podem ocorrer naturalmente. Em uma base de dados de grandes dimensões, podem existir registos que se contradizem (por exemplo, dois registros médicos de um paciente que dizem que ele tem e não tem uma condição). A lógica paraconsistente permite trabalhar com essas contradições sem que a análise se torne inútil. Por conseguinte, é útil em situações onde dados contraditórios aparecem, permitindo análises e decisões que não descartam automaticamente informações importantes por causa de contradições. Ambas as lógicas têm um papel importante no desenvolvimento de sistemas de IA e em aplicações do mundo real onde a complexidade, a incerteza e as contradições são parte do cenário a ser enfrentado.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Valores em decadência - Da equanimidade de Spinoza ao multiculturalismo dos Millennials



A sociedade ocidental hoje é mais hedonista e autoindulgente. Por isso, quem apelar ao espírito de sacrifício, honra e atos de heroísmo será olhado com desprezo. Muitos comentadores contemporâneos, mas da velha guarda, argumentam que a sociedade ocidental atual muito focada no hedonismo e no consumo, tornou-se imprevidente e autoindulgente. Aqueles valores de heroísmo que implicava espírito de sacrifício nos antigos, só tem merecido desprezo por parte das novas gerações (Gen Z; Gen Alpha; Gen Beta). É o que dizem os velhos, e sempre disseram das gerações seguintes. 

A Geração Z (Gen Z) diz respeito aos nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012. Essa geração cresceu em um mundo altamente digitalizado, sendo a primeira verdadeiramente nativa digital. Eles são conhecidos por sua familiaridade com a tecnologia e as redes sociais, bem como por uma forte atenção em questões sociais e sustentabilidade. A Geração Alpha (Gen Alpha) é a geração de 2013 até, aproximadamente, 2025. Essa geração está crescendo com tecnologias avançadas, como inteligência artificial e dispositivos conectados, e é frequentemente descrita como a mais educada e tecnologicamente integrada da história. Geração Beta (possível nome futuro), ainda não há consenso sobre o nome da geração que virá após a Alpha (provavelmente a partir de meados da década de 2020). Alguns especialistas especulam que o nome seguirá o alfabeto grego (Beta), enquanto outros acreditam que novos critérios podem surgir para batizá-los.

Os Millennials, também conhecidos como Geração Y, antecedem a Geração Z. Eles são geralmente definidos como nascidos entre 1981 e 1996 (embora as datas possam variar ligeiramente dependendo dos autores, do país, ou da escola académica a que pertencem, anglo-saxónica ou outras). Cresceram durante a transição da era analógica para a digital, sendo os primeiros a adotar em massa a internet, smartphones e redes sociais. É considerada a geração mais educada até então, com níveis superiores de escolaridade. Valorizam experiências em vez de posses materiais, têm foco em trabalho com propósito, flexibilidade e questões sociais. Foram moldados por eventos como os ataques de 11 de setembro, a Grande Recessão de 2008 e o surgimento de gigantes da tecnologia como Google, Facebook e Amazon. Já agora, a geração antes dos Millenials foi a Geração X (1965–1980).

O espírito de sacrifício, que em tempos passados era celebrado, muitas vezes aparece hoje diluído em ações superficiais ou caridade performativa, enquanto o heroísmo pode ser desconstruído como uma forma de exibição de ego. Essa abordagem mais cínica da sociedade se conecta à ideia de que o individualismo exacerbado enfraquece os laços comunitários e os valores coletivos. Há quem diga que o desapreço por esses valores indica uma crise de sentido e propósito mais profunda, algo que as sociedades em declínio cultural enfrentam quando a busca por conforto imediato e prazer se sobrepõe a qualquer ética de esforço ou sacrifício pelo bem maior.

A noção de que a civilização pode entrar em decadência quando rompe de maneira drástica com tradições é sustentada por exemplos históricos, como o declínio do Império Romano, onde muitos estudiosos argumentam que a perda de valores tradicionais contribuiu para a sua queda. A "decadência" é, portanto, uma metáfora recorrente para descrever um período de desordem e enfraquecimento dos alicerces culturais e sociais. Enquanto doutrinas como o movimento "woke", são vistas por alguns como um rompimento com valores tradicionais, para os seus adeptos é uma resposta necessária para corrigir injustiças históricas e criar uma sociedade mais igualitária. O conflito entre essas visões pode polarizar a sociedade e contribuir para o que é percebido como uma erosão dos laços comuns que sustentam a coesão cultural.


Há a crença de que a falta de uma identidade forte e valores unificadores pode deixar espaço para outras tradições ganharem força, especialmente em contextos de imigração e mudança demográfica. Para facilitar o raciocínio, diria que o multiculturalismo não vingou. Não diria polarização, mas pulverização cultural, em que uns são confucionistas, outros são islamistas, outros democráticos liberais secularistas. Em muitos casos, a ideia de multiculturalismo foi idealizada como uma forma de diferentes culturas coexistirem harmonicamente dentro de uma sociedade, enriquecendo-a com diversidade sem comprometer a coesão. No entanto, a prática tem mostrado que, em vez de integração, o que se observa muitas vezes é a "pulverização cultural": comunidades vivendo lado a lado, mas com poucas interações significativas que levem a uma verdadeira mistura ou compartilhamento de valores.

Essa coexistência sem integração pode criar bolsas de culturas distintas que mantêm suas próprias normas e valores, em vez de se fundirem num todo mais coeso. Isso, por sua vez, pode levar a uma fragmentação social, na qual diferentes grupos seguem filosofias e sistemas de valores radicalmente diferentes sem um ponto de interseção comum que promova unidade. O problema de uma sociedade assim pulverizada é que ela pode perder a capacidade de agir de forma coesa em momentos de crise. Sem uma base de valores compartilhados, torna-se difícil construir políticas que atendam a todos, e as tensões entre comunidades podem intensificar o estado de alienação e competitividade, em vez de cooperação. A questão central então se torna como equilibrar o respeito pelas diferenças culturais com a necessidade de um núcleo de valores compartilhados que sustente a sociedade. Um modelo de assimilação moderada em vez de um multiculturalismo puro poderia ser uma solução intermédia.

A equanimidade está a ser muito difícil. Estou a lembrar-me de Spinoza que ainda chegou a pensar ser possível com a sua ideia de conatos (esforço), mas acabou por se desesperançar. Spinoza, depois de morrer, ninguém quis assumir o seu funeral. Naquele tempo um ateu era uma impossibilidade. Baruch Bento ou Benedito, que concebia uma sociedade equânime e racional, estava muito à frente do seu tempo, e por isso era inevitável que tivesse sofrido os obstáculos que sofreu. 

Baruch Spinoza, filósofo judeu-holandês do século XVII, recebeu o nome de "Baruch" em hebraico, que significa "abençoado". Esse era o nome usado no contexto religioso e por seus contemporâneos na comunidade judaica dos Países Baixos. No entanto, após a excomunhão (herem) que a comunidade judaica de Amesterdão lhe infligiu em 1656, ele adotou o nome latino "Benedictus", que também significa "abençoado". Esse nome foi utilizado em seus escritos filosóficos e era a forma pela qual ele era conhecido entre os intelectuais da época. Portanto, podemos dizer que Baruch foi o nome dado pelos seus antepassados e pela comunidade judaica em que nasceu. Bento é o equivalente em português, que poderia ser usado em um contexto de aproximação linguística. Benedictus foi o nome escolhido para marcar a sua inserção em um contexto filosófico e académico mais amplo, desvinculado da ortodoxia judaica. Essa transição de nomes reflete não apenas a multiplicidade cultural e linguística em que Spinoza vivia, mas também a sua posição singular como filósofo que desafiou as tradições religiosas de sua época.

Spinoza sonhava com uma comunidade onde a razão e a ética pudessem guiar as relações humanas, superando paixões irracionais e preconceitos religiosos. No entanto, mesmo ele reconheceu que as limitações humanas tornavam essa utopia difícil de alcançar. Hoje, mesmo com sociedades mais seculares e plurais, o desafio de alcançar uma equanimidade verdadeira continua. A fragmentação cultural e a falta de um conjunto de valores universais que unam diferentes grupos fazem com que essa visão de harmonia racional pareça tão ilusória como na época de Spinoza. O multiculturalismo, que poderia ter sido uma ponte para essa equanimidade, muitas vezes se transforma em uma arena de valores e interesses em competição, em vez de convergência. A história parece mostrar que, assim como Spinoza concluiu, uma equanimidade plena pode ser uma meta nobre, mas longe de ser uma realidade alcançável.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

As mudanças cíclicas da História surpreendem sempre os especialistas

 

Os sociólogos frequentemente falham em prever ou entender a profundidade das mudanças sociais, porque se limitam a perspectivar as próprias teorias por si inventadas. E como são bem-educados, negligenciam as nuances humanas que têm a ver com o seu pior lado. Aquele lado para o qual dizem que dormem melhor. Esse abismo entre a teoria e a prática acaba por criar uma espécie de cegueira dos pântanos, onde o conhecimento mergulha na profundeza das águas turvas. Miopia acadêmica, diz uma pessoa bem-educada, em que o conhecimento é abundante, mas a sabedoria, a visão holística e a capacidade de ver além das teorias não acompanham a realidade. O que é caricato é que já há mais de dois mil anos os Gregos sabiam isso. Aquilo a que os gregos chamavam "phronesis" — a sabedoria prática. Uma sabedoria que não se limitava ao que está nos livros, até porque havia poucos livros. 

Há uma sabedoria quase intuitiva na natureza que equilibra e ajusta as funções e energias em prol da continuidade da vida. É como se houvesse uma "economia de energia" natural. Há um custo energético e psíquico significativo no avanço tecnológico. Demanda não só tempo, mas também uma disposição emocional e física intensa. Ora, a mente, em detrimento do corpo, deixou-o em segundo plano. E o poeta António Variações sabia disso, quando colocou numa das suas canções a frase: "Quando a mente não tem juízo, o corpo é que paga". Curiosamente, essa transformação não é apenas uma escolha pessoal, mas também um reflexo de sociedades que valorizam o sucesso individual e a independência. Em certo sentido, a "Mãe Natureza" mantém a sua sabedoria ao equilibrar forças; já o ser humano, ao reorganizar os seus papéis, não valoriza o sentido da vida. 

Um outro assunto que se prende com o outro lado do progresso, ou seja, os seus malefícios tecnológicos, tem a ver com o aparente aumento de autismo a correlacionar-se com os ecrãs e plataformas digitais, como os smartphones. O aumento do tempo de exposição a ecrãs e a interação constante com plataformas digitais são preocupações crescentes, especialmente para o desenvolvimento infantil. Estudos recentes apontam uma correlação entre o seu uso excessivo e atrasos no desenvolvimento social e da linguagem, que podem compartilhar alguns sintomas com o autismo, como dificuldades de comunicação e interação social. Ainda que a comunidade científica ainda debata se há uma relação causal entre o aumento do uso de ecrãs e o autismo em si, há indícios de que o uso precoce e prolongado de dispositivos digitais pode interferir no desenvolvimento neurológico, afetando a capacidade de atenção, o controlo emocional e as habilidades sociais das crianças.

Esse impacto talvez esteja ligado à forma como as tecnologias oferecem estímulos rápidos e contínuos, enquanto a interação com o ambiente físico, essencial para o desenvolvimento neurológico e emocional saudável, é mais lenta e rica em contrastes. Além disso, muitos aplicativos e plataformas são projetados para prender a atenção do observador, o que pode resultar numa espécie de “dependência digital” que afeta a capacidade de concentração e de relacionamento.

Pelo menos há uma coincidência de os gurus da informática de Silicon Valley terem uma percentagem acima da média de fulanos com uma determinada posição no espectro autista como o síndrome Asperger. Muitos dos pioneiros e líderes da tecnologia de Silicon Valley são associados a características dentro do espectro autista, como o síndrome de Asperger. Embora as estatísticas exatas não sejam amplamente documentadas, há evidências anedóticas e algumas análises que sugerem uma prevalência acima da média de pessoas com traços desse espectro no setor de tecnologia. Essas características — como a alta capacidade de concentração, uma forte aptidão para padrões e detalhes, e, em muitos casos, um profundo interesse por áreas específicas — são valiosas em atividades que exigem intensa atenção a detalhes e habilidade técnica. No ambiente de Silicon Valley, que valoriza inovação e dedicação a projetos complexos, essas habilidades são vistas como grandes vantagens e podem explicar o destaque de pessoas com esses traços no setor.

Mas é interessante notar o paradoxo: enquanto algumas dessas características contribuíram para a criação de tecnologias digitais, incluindo as plataformas de smartphones e redes sociais, o uso excessivo dessas mesmas tecnologias levanta preocupações sobre o impacto no desenvolvimento neurológico de outras pessoas, especialmente crianças. E sabe-se que, por razões éticas e outras, estes diagnósticos estão subdimensionados, o que é compreensível. Há uma subnotificação dos diagnósticos no espectro autista, em especial quando se trata de indivíduos com características leves ou habilidades funcionais elevadas, como no caso do síndrome de Asperger. Por razões éticas e culturais, muitos adultos nunca foram diagnosticados formalmente, tanto porque a compreensão do espectro autista era mais limitada em décadas passadas, assim como há um estigma associado ao diagnóstico.

Além disso, indivíduos com perfil funcional elevado frequentemente adaptam suas vidas de forma a contornar ou minimizar os desafios, o que dificulta a identificação. No ambiente de trabalho, especialmente em campos que valorizam competências analíticas e técnicas, esses traços podem até ser vistos como qualidades desejáveis, o que diminui ainda mais a possibilidade de um diagnóstico formal. Isso cria uma subdimensão dos números reais, tanto nas estatísticas de saúde como na compreensão pública sobre o espectro autista, já que muitos casos simplesmente não são contabilizados. A questão ética é especialmente delicada, pois o diagnóstico, embora útil para o autoconhecimento e para o acesso a apoio, pode levar a preconceitos e rotulações desnecessárias. Assim, o aumento de diagnósticos nos últimos anos, especialmente entre adultos, tem sido acompanhado de debates sobre até que ponto é benéfico ou necessário a sua maior divulgação, levando em conta os potenciais impactos psicológicos e sociais.

Laicidade ou secularização - a emancipação em toda a linha

 

A secularização na França, que historicamente sempre foi um dos centros culturais e políticos do Ocidente, pode ser vista como um "case study" relevante para entender como a separação entre a Igreja e o Estado contribuiu para a liberdade emancipatória nos vários itens da vida das pessoas, desde a sexualidade até ao término da vida. Sexualidade e procriação deixaram de rimar, especialmente a partir da segunda metade do século XX. A laicidade na França, que progressivamente reduziu a influência religiosa na vida pública, ajudou a consolidar um modelo de sociedade onde a autonomia individual, inclusive na esfera sexual, ganhou força e legitimidade.

Esse afastamento da religião, simbolizado em parte pela laicidade instituída oficialmente desde 1905, abriu caminho para uma maior liberdade sexual, desassociando a prática sexual do propósito exclusivo de procriação, promovendo valores de autonomia e prazer individuais. Isso se reflete, por exemplo, na aceitação da contracepção, que foi legalizada em 1967, e do aborto, legalizado em 1975. Esses movimentos permitiram que as mulheres assumissem maior controlo sobre a sua sexualidade de modo a ser possível um planejamento familiar mais consentâneo com o modo de vida da modernidade e pós-modernidade.

A Igreja Católica, cujo papel ditava e regulava o que as famílias podiam fazer nessa matéria, passou a ter uma influência mais limitada, o que também afetou a visão de "maternidade sagrada" e da família tradicional. A secularização, portanto, desempenhou um papel central na transformação dos valores sociais, favorecendo uma visão da sexualidade como um direito individual, desvinculado de dogmas religiosos e mais associado ao desenvolvimento pessoal e ao prazer. Na França, esse fenómeno é talvez mais claro e avançado, refletindo-se tanto nas políticas públicas como na cultura popular, que, há décadas, promovem a autonomia e os direitos individuais como princípios fundamentais.

É claro que os rapazes, por razões que podem ser ancestrais, confundiram liberdade sexual com assédio sexual. Esse passou a ser um ponto importante. A liberdade sexual, promovida por movimentos sociais ao longo do século XX, visava empoderar indivíduos em suas escolhas íntimas, mas muitos homens, talvez por condicionamentos sociais e instintos antigos, interpretaram erroneamente essa liberdade, confundindo-a com um "direito" de ultrapassar limites. Essa confusão, que remonta a traços profundamente enraizados em comportamentos e normas masculinas, gerou um ambiente onde a liberdade feminina foi, muitas vezes, desrespeitada sob a forma de assédio e comportamentos invasivos.

A liberdade sexual, como conceito, procurava separar o desejo e a expressão sexual de normas repressivas, mas o resultado acabou, em alguns casos, expondo a persistência de certas "leis não escritas". Muitos homens, socializados em contextos onde o poder e a iniciativa são atribuídos ao masculino, confundiram essa nova liberdade das mulheres como um sinal de disponibilidade ou de incentivo, sem considerar o consentimento genuíno. Esse fenómeno tem sido amplamente debatido, especialmente em movimentos contemporâneos como o #MeToo, que trouxe à tona a importância de redefinir o respeito ao espaço pessoal e ao consentimento. Claramente, a verdadeira liberdade sexual deve ser construída numa base de respeito mútuo, onde a autonomia de cada um é respeitada, e não confundida com permissividade ou com o direito de invadir o espaço do outro.

As classes dominantes geralmente tendem a manter as suas posições de poder e influência, independentemente das mudanças sociais ou das lutas por igualdade. Essa resistência à renúncia da superioridade pode ser vista em vários contextos históricos e sociais, onde elites políticas, económicas ou culturais lutam para preservar os seus privilégios. No contexto das relações de género, isso se traduz em como os homens, muitas vezes parte dessa classe dominante, podem resistir à mudança na dinâmica de poder que a emancipação feminina representa. Mesmo quando a sociedade avança em direção a uma maior igualdade, há frequentemente uma resistência de alguns homens em aceitar plenamente as novas realidades em que as mulheres possuem um papel mais ativo e igualitário. Essa resistência pode manifestar-se através de comportamentos que perpetuam desigualdades, incluindo assédio e discriminação. Além disso, a dinâmica de classe também é relevante aqui. A luta das mulheres por direitos e igualdade não acontece no vazio; está entrelaçada com questões de classe, raça e outras formas de desigualdade. As classes dominantes podem opor-se não só à emancipação feminina, mas também a movimentos que ameaçam a sua posição de privilégio em várias esferas.

A resistência a mudanças sociais é uma característica comum em qualquer estrutura de poder, e é importante que as lutas por igualdade e justiça social reconheçam essas dinâmicas para serem mais eficazes. O verdadeiro progresso muitas vezes requer confrontar essas estruturas de poder e promover uma mudança que beneficie a todos, não apenas uma parte da população.

A questão da homossexualidade e do lesbianismo, e a sua relação com a natureza, é complexa e frequentemente debatida em várias disciplinas, incluindo a antropologia, psicologia e sociologia. Muitas correntes de pensamento contemporâneas argumentam que a diversidade sexual é uma parte natural da experiência humana, embora isso não signifique que a homossexualidade e o lesbianismo sejam as normas predominantes na maioria das sociedades ao longo da história.

Historicamente, sociedades diferentes têm lidado com a homossexualidade de maneiras diversas, algumas aceitando-a e outras condenando-a. O entendimento contemporâneo busca reconhecer a diversidade sexual como uma expressão legítima da identidade humana. A naturalização dessas orientações, ou seja, o reconhecimento de que elas fazem parte do espectro humano, não implica que sejam práticas "naturais" no sentido biológico, mas sim que são componentes válidos da experiência humana e, portanto, devem ser respeitados e aceites socialmente. É crucial considerar também o contexto cultural e histórico em que essas discussões ocorrem. As normas e valores sociais evoluem, e o que pode ser visto como "natural" em uma cultura pode não ser em outra. A aceitação social da homossexualidade e do lesbianismo como práticas legítimas é um sinal de progresso em direção a uma sociedade mais inclusiva e equitativa, que reconhece a dignidade e os direitos de todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual. Assim, a luta por aceitação e reconhecimento dessas orientações não é apenas sobre a legitimidade das práticas sexuais, mas também sobre o reconhecimento da identidade e da humanidade de indivíduos que historicamente foram marginalizados. É um esforço contínuo para garantir que todas as expressões de amor e desejo sejam valorizadas e respeitadas.

Muitas práticas humanas, como o jogo em casinos ou o vício do cigarro, podem ser vistas como comportamentos que, embora não sejam intrinsecamente naturais no sentido biológico, fazem parte da complexidade da experiência humana. Assim como a homossexualidade e o lesbianismo, essas práticas muitas vezes se desenvolvem em contextos sociais e culturais específicos. O jogo pode ser considerado uma forma de entretenimento, mas também é reconhecido como uma atividade que pode levar a vícios e problemas financeiros, psicológicos e sociais. A natureza compulsiva do jogo pode ser vista como uma busca por emoção ou escape, refletindo aspectos da psicologia humana que não são necessariamente saudáveis, mas que, ainda assim, são comuns em várias culturas.

O consumo de tabaco é um comportamento que muitos reconhecem como prejudicial à saúde, mas que persiste em grande parte da população devido a fatores sociais, culturais e até mesmo emocionais. O vício de fumar, assim como outros vícios, é uma forma de lidar com o stress, ansiedade ou outras pressões da vida. Assim, pode-se argumentar que a homossexualidade e o lesbianismo, enquanto não são práticas naturais no sentido de procriação tradicional, são expressões legítimas da diversidade humana. Embora algumas práticas possam ser vistas como desvios ou vícios, elas também refletem a complexidade do comportamento humano, onde a linha entre normalidade e desvio pode ser ténue. A discussão sobre o que é considerado "natural" versus "socialmente construído" é rica e multifacetada. O reconhecimento dessas práticas e comportamentos como parte da experiência humana não diminui a necessidade de abordagens saudáveis e equilibradas, seja no contexto da sexualidade, do jogo ou de vícios como o cigarro. O foco deve estar em promover um ambiente onde indivíduos possam fazer escolhas informadas e saudáveis, respeitando as diversas experiências humanas.

Já roubar coisas uns aos outros, apesar de serem desvios equiparáveis, as sociedades modernas têm sabido hierarquizar graus para criminalizar e punir. É paradigmático o caso do aborto e da eutanásia. A maneira como as sociedades modernas hierarquizam e tratam diferentes desvios e comportamentos, incluindo crimes, varia amplamente e reflete valores culturais, éticos e sociais específicos. O aborto e a eutanásia são exemplos significativos de como a moralidade e a legalidade se entrelaçam, gerando intensos debates e divisões na sociedade. A questão do aborto é polarizadora, com argumentos que vão desde os direitos da mulher sobre o seu próprio corpo, até à proteção da vida fetal. As legislações em torno do aborto variam drasticamente entre os países, refletindo contextos culturais, religiosos e sociais. Em algumas sociedades, o aborto é amplamente aceite e legal, enquanto em outras, é severamente restrito ou até criminalizado. Essa hierarquização se manifesta em políticas públicas e na forma como a saúde reprodutiva é discutida e tratada.

A eutanásia levanta questões éticas ainda mais complexas, envolvendo o direito de um indivíduo a decidir sobre sua própria morte em casos de sofrimento insuportável. Algumas sociedades já legalizaram a eutanásia sob condições estritas, reconhecendo a autonomia do paciente e a compaixão como valores centrais. Por outro lado, em muitos lugares, ainda é considerado um tabu ou uma forma de homicídio, refletindo a dificuldade em reconciliar questões de moralidade, religião e direitos humanos.

O que esses casos mostram é como as sociedades tentam estabelecer uma hierarquia moral e legal em relação a ações que, embora possam ser vistas como desvios, têm implicações profundas para a vida das pessoas. Isso implica a necessidade de um diálogo constante sobre ética, direitos individuais e as consequências sociais das decisões legislativas. Assim como os crimes de roubo e desvio de propriedade são tratados de maneira diferente, dependendo do contexto e da gravidade, o aborto e a eutanásia também revelam como diferentes sociedades interpretam e respondem a questões complexas da condição humana.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Até que ponto a contracepção. Ou a interrupção voluntária da gravidez até às 14 semanas


A polémica sobre o tempo para a interrupção voluntária da gravidez regressa esta sexta-feira, dia 10 de janeiro 2025, à discussão em plenário na Assembleia da República, a pedido do PS. A esquerda parlamentar quer ver alargado o prazo legal, que atualmente se estende até às dez semanas de gestação. Tudo indica que PSD e CHEGA vão votar contra. Em causa estão propostas para as 12 e as 14 semanas de gestação – iniciativas legislativas que partem de todas as formações políticas, com a exceção de PSD e Iniciativa Liberal.

A deputada socialista Isabel Moreira exortou o PSD a acompanhar o PS, demarcando-se do Chega. Também BE, Livre e PCP defendem uma extensão do prazo legal para a realização do aborto. O PAN pretende ver reforçado o apoio às mulheres em consulta prévia de interrupção voluntária da gravidez, além da regulamentação do direito de objeção de consciência dos profissionais de saúde. O Chega propõe, no seu projeto, a possibilidade de as grávidas fazerem um exame para ver e ouvir o batimento cardíaco do feto. E o CDS-PP defende que os médicos objetores de consciência tenham a possibilidade de estar presentes nas consultas que antecedem um aborto.



Até que ponto a contracepção e os movimentos feministas no Ocidente ofuscaram o papel da maternidade ao ponto de ser a principal causa da baixa natalidade em todo o Ocidente? É que, de facto, a contracepção e os movimentos feministas influenciaram a percepção da maternidade e a dinâmica familiar no Ocidente. A partir de 1960 verificaram-se em todo o Ocidente mudanças no valor social e cultural da maternidade. Os movimentos feministas revalorizaram o papel das mulheres, promovendo a sua autonomia sobre decisões pessoais, incluindo a escolha de ter ou não filhos. Essa autonomia permite que as mulheres busquem realizações além da maternidade, como carreiras e educação superior. Em algumas culturas ocidentais, a realização pessoal e profissional passou a ter um peso semelhante ao da vida familiar, gerando uma redefinição da identidade feminina.

A disseminação de métodos contraceptivos deu às mulheres e casais um poder de decisão sem precedentes sobre o número de filhos e o momento de tê-los. Isso não apenas adiou a maternidade, mas também tornou possível limitar o número de filhos, respondendo a preferências individuais e às condições económicas e sociais de cada família. Simultaneamente o alto custo de criar filhos, a exigência de qualificação constante e as inseguranças laborais têm desestimulado a maternidade em países desenvolvidos. Além disso, a falta de políticas de apoio à família, como licenças parentais prolongadas, creches acessíveis e sistemas de saúde gratuitos, colocou uma pressão ainda maior sobre mulheres e casais.

O foco ocidental em valores individualistas, reforçado por modelos de sucesso e realização pessoal, tem desencorajado as famílias numerosas e alterado o modo como as pessoas planeiam as suas vidas. Esse fenómeno é acompanhado por mudanças nas expectativas em relação ao casamento e à procriação, diminuindo a influência dos valores tradicionais. Hoje já não estamos como no passado, quando a família numerosa era necessária para sustentar economias agrárias. Hoje o cenário urbano e de trabalho configurou toda uma série de opções de vida que podemos considerar revolucionárias.

Mas é paradoxal, dado que é nos países mais pobres do chamado Terceiro Mundo, agora Sul Global, que os índices de natalidade são mais elevados, assim como nos países islâmicos em que o feminismo é um oxímoro. A relação entre desenvolvimento socioeconómico, acesso a direitos e natalidade gera pelo menos um paradoxo. Nos países mais pobres, do Sul Global e em várias nações islâmicas, taxas de natalidade elevadas ainda predominam, o que parece contrastar com o Ocidente, onde avanços económicos e sociais, inclusive para as mulheres, são acompanhados por baixa natalidade. Em muitas regiões do Sul Global, ter filhos ainda está fortemente ligado a aspectos económicos e sociais de sobrevivência, onde filhos podem contribuir para a economia familiar ou garantir cuidados na velhice. A maternidade é também um valor cultural profundo que está atrelado à identidade e ao papel feminino em sociedades onde ainda não há ampla abertura para alternativas profissionais ou educacionais para as mulheres.

Nos países islâmicos e em algumas outras sociedades tradicionais, a religião frequentemente incentiva ou mesmo exige a procriação como um dever moral e espiritual. O conceito de feminismo nesses contextos tende a colidir com esses preceitos religiosos e culturais, limitando a difusão de ideais que promovam escolhas sobre maternidade ou participação feminina em esferas públicas e profissionais. Esse contexto reflete-se numa valorização da família numerosa e em uma estrutura social que restringe a autonomia reprodutiva. Esse quadro, combinado com barreiras culturais e religiosas, resulta em menores possibilidades de planeamento familiar. Assim, mesmo quando as mulheres desejam limitar o número de filhos, as condições sociais e a falta de autonomia podem dificultar essa decisão.

A teoria da transição demográfica explica que sociedades agrárias e menos urbanizadas tendem a manter altas taxas de natalidade, uma vez que o crescimento populacional é necessário para a economia local. À medida que os países se desenvolvem e se urbanizam, as famílias costumam ter menos filhos, como vemos nos países ocidentais. Essa mudança acompanha também o aumento do custo de vida, as pressões urbanas e a valorização de carreiras e estilos de vida que não giram em torno da família numerosa. Em países mais desenvolvidos, os custos de criar um filho e as dificuldades para conciliar vida profissional e familiar pesam muito na decisão de ter filhos. Em contraste, muitas sociedades do Sul Global ainda operam em sistemas de famílias extensas, em que a responsabilidade pelos filhos é compartilhada por uma rede familiar mais ampla, o que facilita ter mais filhos. Paradoxalmente, o desenvolvimento e a autonomia individual que geram a baixa natalidade no Ocidente ainda são, em muitas dessas regiões, aspirações distantes. Além disso, a relação entre feminismo e maternidade difere conforme o contexto: no Ocidente, feminismo e autonomia pessoal são associados à liberdade de escolher sobre a maternidade, enquanto em outras regiões, o feminismo é visto como um desafio a estruturas culturais profundamente enraizadas.

Como diz um cínico ironista: "Enquanto se capa não se assobia". As mulheres ao se empoderarem e ao lutar não podiam ter tempo nem disposição para pinar, quanto mais para ter filhos. Essa expressão popular captura uma visão pragmática e bem-humorada das escolhas e das renúncias que ocorrem quando prioridades mudam. O que sugere, de certa forma, é que as mulheres, ao conquistarem mais liberdade e espaço em esferas que antes lhes eram restritas, enfrentam inevitavelmente uma reorganização de suas vidas, incluindo a decisão sobre a maternidade. Com o foco no empoderamento e nas carreiras, muitas mulheres optam por adiar ou até renunciar à maternidade. De facto, assumir um papel mais ativo no mercado de trabalho, na política e na vida social implica uma alocação de tempo e energia que, para várias, torna a maternidade algo secundário ou menos urgente. E não se trata apenas de uma questão de "falta de tempo"; há uma transformação nas aspirações e no sentido de realização, com a maternidade deixando de ser o único meio para isso.

É importante perguntar: o que homens e mulheres no Ocidente desejam de suas vidas? A busca por realização individual, que antes era quase exclusiva dos homens, agora é um desejo legítimo das mulheres, mudando não apenas o papel delas, mas também as relações, os conceitos de família e até as taxas de natalidade. Porém, essa reestruturação não implica que a maternidade se perdeu de vez. Para muitas mulheres, o desafio atual é buscar uma conciliação entre esses novos papéis e o desejo de formar uma família. Para isso, as sociedades precisarão oferecer melhores condições e políticas que permitam a maternidade e o empoderamento coexistirem com mais harmonia. O problema é consegui-lo. Há uma grande distância entre o mundo da linguagem e o mundo da realidade.

É verdade que as académicas, como disse Jane Goodall, parece que disse: "As novas mulheres académicas tornaram-se mais ignorantes do que sábias com as vistas curtas do mero conhecimento livresco. E as sucessivas crises do capitalismo mostra que os economistas e sociólogos erram mais do que acertam". Jane Goodall captou muito bem a ironia da História. O excesso de especialização e o foco excessivo em teorias livrescas podem, de facto, levar àquilo que poderíamos chamar de "ignorância ilustrada" — um tipo de conhecimento que, embora extenso, se torna muitas vezes distante da realidade concreta. Isso é perceptível em algumas áreas onde a prática e o contacto direto com as questões humanas e ambientais poderiam enriquecer mais a compreensão do que o mero estudo teórico.

Na economia e na sociologia, essa limitação é especialmente visível, já que são áreas que lidam com sistemas complexos e sujeitos a variáveis imprevisíveis, como o comportamento humano e as flutuações globais. Os economistas, por exemplo, desenvolvem modelos e previsões baseados em dados e teorias que, embora rigorosos, não conseguem antecipar crises de forma confiável. Basta observar que muitas das crises capitalistas modernas, desde a Grande Recessão de 1929 até à crise financeira de 2008, apanharam sempre os especialistas de calças na mão.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Príncipe Karim Al-Husseini


Príncipe Karim Al-Husseini [13 de dezembro de 1936], conhecido como o Aga Khan IV desde a morte do avô Aga Khan III, em 1957, é desde essa data o 49º e atual imã Nizari Isma'ilis. Afirma descendência direta do profeta Maomé através de Ali, primo e genro de Maomé, considerado um imã. Aga Khan IV também é conhecido pelo título religioso Mawlānā Hazar Imam pelos seus seguidores Isma'ili.

Aga Khan é um magnata de negócios, riquíssimo, com cidadania britânica e portuguesa, bem como proprietário e criador de cavalos de corrida. A Forbes descreve-o como um dos quinze membros da realeza mais ricos do mundo. É o fundador e presidente da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, uma das maiores redes privadas de desenvolvimento do mundo. Desde 1957 que Aga Khan se envolve em complexas mudanças políticas e económicas em vários países, como no Tajiquistão, da antiga União Soviética, Afeganistão e no Paquistão. Tornou-se o primeiro líder religioso a discursar na Sessão Conjunta do Parlamento do Canadá, a 27 de fevereiro de 2014.




A Fundação Aga Khan tem um centro em Lisboa, nas Laranjeiras, há 20 anos. E recentemente Lisboa também passou a ter a sede global da comunidade ismaili. E aqui celebraram, os ismaelitas (ou ismailis), o jubileu de Diamante da designação do seu líder espiritual. Aliás, o imã, passou a ter na capital portuguesa uma residência oficial, estatuto diplomático e até um regime fiscal especial acordado com o Estado português.




Em setembro de 2013 numa cerimónia no Castelo de São Jorge, em Lisboa, foi anunciado o Prémio Aga Khan para a arquitetura, distinguindo o restauro do Centro Histórico de Birzeit, na Cisjordânia. A cerimónia foi presidida pelo atual Aga Khan, Shah Karim Al Hussaini, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. A capital portuguesa foi escolhida para o anúncio deste prémio trienal, no valor de um milhão de dólares (770 mil euros), para projetos que marquem novos padrões de excelência na arquitetura, planeamento, preservação de património histórico e arquitetura paisagística. Estabelecido pela Rede Aga Khan para o Desenvolvimento em 1977, o prémio visa, em especial, «identificar e promover conceitos de construção que correspondam de forma eficaz às necessidades e aspirações de comunidades com significativa presença muçulmana».

A preservação de locais de oásis sagrados e coletivos em Guelmin (Marrocos), o restauro do Forte de Thula (Iémen), a reabilitação do Forte de Nagaur (Índia), a reabilitação do bazar de Tabriz (Irão), a preservação do Mbaru Niang (Indonésia) e a habitação pós-tsunami (Sri Lanka) contavam-se entre os vinte selecionados. Entre os finalistas ficaram também a reconstrução do campo de refugiados de Nahr el-Bared (Líbano), o apartamento n.º 1 (Irão), o Instituto de Filme e Animação Kantana (Tailândia), o cemitério islâmico (Áustria), a escola primária Maria Grazia Cutuli (Afeganistão), o Liceu Francês Charles De Gaulle (Síria) e a escola primária Umubando (Ruanda).

Em 12 de Novembro de 2019 - Aga Khan, Aga Khan juntou-se a mais de 30 líderes mundiais para a sessão de abertura do segundo Fórum da Paz de Paris. Iniciado pelo Presidente de França Emmanuel Macron, o Fórum teve por base o princípio de que a cooperação internacional é fundamental no combate aos desafios globais e na salvaguarda de uma paz duradoura. O Fórum realizou-se no 100.º aniversário do Armistício, que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial.



Os ismaelitas são uma comunidade xiita, e a sua teologia é derivada dos ensinamentos dos imãs xiitas – 'Ali ibn Abi Talib, Muhammad al-Baqir e Ja'far al-Sadiq. De acordo com a teologia xiita ismaelita primitiva, Deus ou Alá é absolutamente transcendente e único, uma teologia segundo a qual a Essência de Deus está além de todos os nomes e atributos. A primeira criação de Deus é uma entidade espiritual (Ruhani) ou luz (nur) chamada Intelecto ('Aql), a Luz de Muhammad (nur Muhammad) ou a Luz de Ali. Os filósofos ismaelitas desenvolveram as ideias usando estruturas neoplatónicas e identificaram o Intelecto ('Aql) ou Luz do Imam com o Intelecto Universal (Nous) de Plotino. Da mesma forma, a alma humana do Imam – reverenciada como pura com base no Alcorão 33:33 – é considerada o espelho reflexivo do Intelecto Universal.

No islamismo, Zahir (الظاهر) é um dos 99 Nomes de Deus (Asma'ul Husna), que são os atributos divinos mencionados no Alcorão e na tradição islâmica. O termo "Zahir" pode ser traduzido como "O Manifesto", "O Evidente" ou "Aquele que é visível". Ele refere-se a Deus como Aquele que é evidente em Suas criações e sinais no mundo, mas cuja essência transcende a compreensão humana. Esse nome reflete a ideia de que Deus se manifesta em tudo o que existe, tornando-se visível aos que contemplam o universo com atenção. No entanto, apesar dessa manifestação, Deus continua oculto em Sua verdadeira natureza (referido pelo nome oposto, Batin, "O Oculto"). Assim, Zahir e Batin juntos expressam a unidade e o equilíbrio entre os aspetos visíveis e invisíveis de Deus. A noção de Zahir também possui implicações filosóficas e espirituais dentro do islamismo, especialmente no sufismo, onde há uma busca pela compreensão, tanto o aspeto exterior (zahir) quanto o interior (batin) da existência como reflexos da verdade divina.

O islamismo xiita desenvolveu-se em duas direções. Uma delas agrupa os metafóricos: ismaelitas, alevitas, bektashi, alianos e alauítas - concentrando-se no caminho místico e na natureza de Deus, junto com o "Imam do Tempo". São Doze Imames, ou guias, e uma luz para Deus. O ismaelismo cresceu para se tornar o maior ramo do Islã xiita, culminando como um poder político com o califado fatímida nos séculos X a XII. Os ismaelitas acreditam na unicidade de Deus, bem como no encerramento da revelação divina com Maomé - "o último Profeta e Mensageiro de Deus para toda a humanidade". 

Ora, a maior seita dos ismaelitas são os Nizaris, que reconhecem Aga Khan IV como o 49º Imam hereditário, enquanto outros grupos são conhecidos como o ramo Tayyibi. A comunidade com a maior porcentagem de ismaelitas é Gorno-Badakhshan. Os ismaelitas podem ser encontrados no Afeganistão, Índia, Paquistão, Iémen, Líbano, Malásia, Síria, Irão, Arábia Saudita, Jordânia, Iraque, Kuwait, África Oriental, Angola, Bangladesh e África do Sul. Nos últimos anos emigraram para a Europa, Rússia, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Trinidad e Tobago.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

A exaustão das imagens televisivas de guerra e catástrofes





Não faz sentido, porque é prejudicial, as televisões hoje em dia manterem ao lado do comentador a repetição de imagens de guerra ou catástrofes. A repetição de imagens impactantes, como contentores a arder, prédios destruídos, crianças a fugir às bombas, é prejudicial. Essa abordagem não só exacerba o medo e a ansiedade nas audiências, mas também pode distorcer a percepção da realidade, criando uma sensação de crise constante. Além disso, a exploração sensacionalista de tragédias pode desumanizar os envolvidos e desviar a atenção das questões subjacentes que precisam ser abordadas. A responsabilidade dos editores é, em parte, fornecer informações de maneira equilibrada e reflexiva, em vez de simplesmente amplificar o choque visual.

Os editores de televisão muitas vezes insistem em usar métodos sensacionalistas por várias razões, em que a atração por audiências é um espécie de alfa e ómega da bolha mediática - maiores índices de audiência e, consequentemente, mais receitas publicitárias. É um ambiente altamente competitivo. Conteúdos emocionais tendem a gerar mais engajamento nas redes sociais, o que aumenta a visibilidade e o alcance das notícias com a repetição de imagens chocantes acompanhadas de narrativas simplificadas. 
Esses fatores muitas vezes se sobrepõem, criando um ciclo em que a busca por cliques e visualizações prevalece sobre a responsabilidade jornalística.

E não há maneira de os fazer ver que estão errados? Os espectadores podiam expressar suas opiniões, mas as respostas podem ser surpreendentes. Veja-se com as pessoas se comportam nas redes sociais em que vem ao de cima o pior lado da natureza humana. Por isso, caberia aos reguladores, com ou sem comissões de ética, tratar disso. Incentivar o consumo de fontes de notícias que priorizam a ética e a responsabilidade, destacando sua importância e relevância no ecossistema informativo. Organizar ou apoiar campanhas que enfatizem a importância da cobertura jornalística responsável e os impactos negativos do sensacionalismo, envolvendo especialistas e defensores da ética nos órgãos de comunicação social. Embora a mudança não ocorra da noite para o dia, uma combinação dessas abordagens pode ajudar a criar uma cultura de responsabilidade e reflexão.

Há uma pressão crescente dentro das redações, especialmente em meios televisivos, para capturar sound bites e realizar um escrutínio imediato e incisivo sobre os agentes políticos. Esse foco nos sound bites é impulsionado, em grande parte, pela necessidade de produzir conteúdo que seja facilmente consumível e compartilhável nas redes sociais e nas plataformas digitais. Essa prática muitas vezes favorece declarações rápidas e impactantes, mas que nem sempre refletem o contexto ou a profundidade das questões discutidas. Como resultado, o debate público pode tornar-se mais superficial, com maior ênfase em momentos polémicos ou controversos, em vez de uma análise cuidadosa das políticas e ideias. Essa abordagem também pode encorajar os próprios políticos a adotarem uma postura mais performativa, priorizando frases de efeito que gerem impacto imediato, mas que nem sempre contribuem para um diálogo construtivo.

A percepção de um predomínio da esquerda na profissão jornalística é um tema debatido amplamente, especialmente no Ocidente. Muitos críticos argumentam que os jornalistas tendem a ter inclinações políticas mais à esquerda, o que, segundo eles, se reflete na cobertura de notícias e nas narrativas que prevalecem nos meios de comunicação. Essa visão é reforçada por alguns estudos que mostram que a maioria dos jornalistas se identifica como liberal ou progressista. Esse viés percebido pode levar a críticas de que os editoriais não representam adequadamente uma gama diversificada de opiniões políticas, contribuindo para a polarização e desconfiança entre diferentes segmentos da sociedade. Em um ambiente em que a imparcialidade e a objetividade são fundamentais para a credibilidade do jornalismo, a impressão de que há uma agenda política pode prejudicar a confiança do público nos meios de comunicação.




Marta Vidal é jornalista freelancer e trabalhando em ONG, anteriormente baseada no Médio Oriente, escreve sobre justiça social e direitos humanos e está mais interessada em contar histórias que construam empatia, e promovam o ativismo. Ora, no passado dia 3 de janeiro Marta Vidal foi distinguida com o Prémio Gazeta na categoria de Imprensa, precisamente pela reportagem “A liberdade, lá em cima: os pássaros de Gaza”, publicada a 1 de julho de 2023. Na cerimónia presidida pelo Presidente da República, Marta Vidal, depois de no seu discurso ter acusado o Presidente da República e o Presidente da Câmara de Lisboa que estavam na primeira fila à sua frente, de cumplicidade com Israel, atingiu o pináculo da perfeição, quando o Presidente a ia abraçar depois da entrega do objeto simbólico, recusando o abraço inclinando-se para trás e estendo ao mesmo tempo a mão direita ao Presidente para um aperto de mão.

Depois de concluir a licenciatura em jornalismo na Universidade Nova de Lisboa, onde começou a estudar em 2012, Marta Vidal estudou na Universidade de Leiden, onde obteve a especialização em Estudos do Médio Oriente. Os seus artigos que abordam questões como direitos humanos e justiça social e ambiental, foram publicados por vários meios de comunicação, nomeadamente: Público, Expresso, The Guardian, Al Jazeera, The Washington Post, BBC, entre outros.

Esse debate é complexo, pois envolve questões de representação, responsabilidade social e a própria natureza do jornalismo como um espaço para o diálogo democrático. O desafio é encontrar um equilíbrio entre a defesa de causas importantes e a manutenção de padrões éticos e de objetividade na cobertura jornalística.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Ilan Pappe e o revisionismo histórico



Hoje está a ser difícil ler com sobriedade crítica os novos historiadores revisionistas por estarem comprometidos cada vez mais com "as causas". A ligação entre certos setores da academia dos departamentos das humanidades e sociologia, e as causas políticas, pode gerar uma percepção de comprometimento ideológico em algumas áreas de estudo. Em especial, novos historiadores frequentemente revisitam o passado focados em dar voz a grupos historicamente marginalizados, e essa abordagem pode ser percebida como uma inclinação para um determinado quadrante político. Ao mesmo tempo, isso pode distanciar algumas interpretações de uma visão mais neutra e contextualizada. Ainda que haja um valor em revisitar o passado sob novas lentes, o desafio é encontrar um equilíbrio que permita estudar a história com rigor, evitando que ela se torne instrumento de causas contemporâneas.

Por exemplo, Ilan Pappe segue uma linha de pensamento ao ponto de desvalorizar o Holocausto. É
 um exemplo de historiador que, sendo natural de Haifa, Israel, nascido em 1954, participa no ativismo a favor da causa palestiniana no conflito com Israel, como se sentisse necessidade de expiar os pecados do seu povo. Adota, portanto, uma abordagem no mínimo controversa. Sua perspectiva, associada ao que ele chama de "novo revisionismo histórico", procura questionar narrativas estabelecidas sobre a criação de Israel e o conflito com os palestinos. Nos livros que tem publicado, tende a enfatizar os aspectos da violência da ocupação dos colonos israelitas na Cisjordânia, e a deslocação dos palestinos como refugiados nos países circunvizinhos. Em contrapartida, minimiza ou reinterpreta questões como o Holocausto, que foi um fator crucial na fundação do Estado de Israel e na formação da sua identidade coletiva.


Os pais de Ilan Pappe tiveram de fugir aos nazis porque eram judeus alemães. Ele estudou História na Universidade Hebraica de Jerusalém e fez o doutoramento na Universidade de Oxford, onde se especializou em História do Médio Oriente, vindo a tornar-se internacionalmente reconhecido pelo seu trabalho acerca do conflito entre Israel e Palestina. Atualmente, é professor na Universidade de Exeter, no Reino Unido, onde dirige o Centro Europeu de Estudos Palestinianos. Pappe é uma das principais figuras do movimento israelita de “Novos Historiadores”, que desafiam a narrativa tradicional sobre a fundação do Estado de Israel e os eventos de 1948, conhecidos como a Nakba. 

A crítica a Pappe e a outros historiadores com abordagens semelhantes é justamente que, ao minimizar a importância do Holocausto e a perseguição histórica sofrida pelos judeus, eles acabam desvalorizando elementos fundamentais para entender as razões que levaram à criação de Israel como um refúgio seguro. Ao focar em uma narrativa que prioriza os direitos dos palestinos, muitos críticos argumentam que esse tipo de historiografia acaba criando uma visão parcial, deixando de lado o contexto histórico mais amplo e os traumas de perseguição que levaram à busca pela independência judaica.

O que é ser judeu hoje? A identidade judaica moderna transcende as noções de linhagem ou descendência genética. Muitos judeus contemporâneos se identificam com essa herança cultural e religiosa de maneira profundamente pessoal, independentemente de uma ligação biológica direta. A identidade judaica envolve um sentido de continuidade histórica, onde memórias coletivas, tradições e valores culturais são fundamentais. Por isso, o pertencimento à comunidade judaica pode ser mais uma questão de escolha, vivência e comprometimento do que de uma "prova" genética. Essa construção identitária reflete a resiliência e a adaptabilidade do judaísmo ao longo dos séculos, o que permite que ele sobreviva e prospere em diferentes contextos históricos, mesmo após perseguições e dispersões. A importância dada a essa identidade coletiva tem, portanto, um peso muito maior que qualquer validação externa sobre ancestralidade biológica. É também uma forma de resposta às ameaças históricas de assimilação ou apagamento cultural, um ponto que Ilan Pappe e outros revisionistas às vezes não abordam com a devida profundidade.

E na verdade, nos dias de hoje, no Próximo e Médio Oriente, o herói é Saladino, não é Jesus Cristo, um judeu até aos ossos. Como é que figuras históricas emblemáticas são percebidas e valorizadas de forma diferente conforme as culturas e os contextos regionais? No mundo árabe e no Norte da África, Saladino (ou Salah ad-Din) é realmente venerado como um herói. Ele é lembrado pela liderança durante as Cruzadas, pela sua vitória sobre os cruzados e pela reconquista de Jerusalém, mas também pela reputação de ser um líder justo, magnânimo e, paradoxalmente, admirado até mesmo por seus inimigos europeus. Essa figura de Saladino é vista como um símbolo de resistência, orgulho e dignidade, enquanto Jesus Cristo, mesmo tendo origens judaicas e raízes na Palestina, não ocupa o mesmo espaço heroico e cultural. Isso ocorre porque, para a maioria muçulmana na região, Jesus é considerado um profeta, mas não a figura central da fé, e seu papel não está associado à luta política ou territorial que caracteriza a história de Saladino.

Jesus, na tradição cristã, representa uma mensagem espiritual de sacrifício e amor universal, enquanto Saladino é uma figura histórica diretamente ligada à identidade cultural e política islâmica. Assim, a figura de Jesus, mesmo sendo parte da história judaica e amplamente reverenciada no Cristianismo, não assume o mesmo papel inspirador ou heroico que Saladino ocupa no imaginário popular do Médio Oriente contemporâneo.

Como se costuma dizer, santos da terra não fazem milagres. Enquanto na China, hoje cristãos já são cem milhões e ainda vai crescer. Se o homem não é um bicho estranho, não sei o que é estranho. Muitas vezes as figuras locais ou tradicionais não são tão valorizadas quanto aquelas que vêm de fora ou se tornam universais. A expansão do Cristianismo na China é um exemplo interessante disso. Embora a China tenha profundas tradições espirituais e filosóficas, como o confucionismo, o taoismo e o budismo, milhões de chineses estão-se voltando para uma religião que historicamente lhes era estranha. Esse crescimento do Cristianismo na China, com cerca de cem milhões de adeptos e a expectativa de um aumento futuro, é um fenómeno marcante. Ele nos lembra que o ser humano, de facto, é atraído por ideias e crenças que transcendem a própria cultura. O ser humano tem uma perene necessidade de novos significados, ou promessas de esperança. Essa busca constante pelo transcendente, pela verdade ou pela renovação espiritual parece algo essencialmente humano e comprova o quanto o homem é "um bicho estranho". É um aspecto que o torna, ao mesmo tempo, imprevisível e universal em sua busca por algo além de si mesmo.

domingo, 5 de janeiro de 2025

O que é doença? O que é saúde?




Quando falamos de saúde e doença, os ingleses são muito mais completos nisso. Diferenciam três termos: disease; illness; sickness.
Disease – é o termo que os médicos utilizam no seu dia-a-dia, e quando falam entre si de
"heart disease" ou "infectious disease". Tratam puramente da patologia biológica.
Illness – é um termo que é utilizado para referir o que as pessoas dizem quando se sentem doentes, no seu sentido subjetivo, de estarem doentes. Envolve o paciente que se sente como doente, que é como percebe a sua condição de saúde. É um termo mais comum em conversas informais e sociais. Por exemplo, "she has been struggling with a long illness" (Ela tem lutado contra uma longa enfermidade).
Sickness – É usado de maneira ainda mais genérica, por exemplo, quando se trata de organização dos serviços de saúde ou políticas de saúde. É, portanto, o termo mais genérico e abrangente, metendo tudo o que tem a ver com saúde, desde a prevenção das doenças até à qualidade de vida e bem-estar social. Vai desde o "travel sickness" até ao "he called in sick". Em suma, é um conceito muito genérico e impreciso de doença e saúde.

Assim, o termo mais adequado para se referir ao Serviço Nacional de Saúde - National Health Service, no Reino Unido - seria disease, pois este está associado ao diagnóstico e tratamento de condições médicas objetivas e à gestão da saúde pública. Disease reflete o foco técnico e clínico do sistema de saúde, que lida com doenças específicas e patologias. O SNS está estruturado para prevenir, diagnosticar e tratar doenças (diseases), além de trabalhar os dados epidemiológicos e intervenções médicas. Por outro lado, illness e sickness poderiam ser usados em contextos mais subjetivos ou gerais - quando se discute a experiência pessoal dos pacientes quando falam, por exemplo, aos órgãos de comunicação social, ou nas redes sociais. Em linguagem mais coloquial, para abordar de forma genérica os serviços prestados na comunidade.

Hoje já circulam nos debates mais críticas pertinentes, e cada vez mais ponderadas acerca da ruína dos Serviços e Sistemas Nacionais de Saúde. Não só por má gestão, mas porque a deriva tecnológica e a obsessão pela imortalidade por parte das sociedades europeias que têm beneficiado de bons sistemas de saúde, muitos deles quase gratuitos. O tempo de prometer tudo e mais alguma coisa acabou porque se abusou da condição de "illness", usada em excesso e por tudo e por nada. Ou seja, a experiência subjetiva e a percepção pessoal que as pessoas têm tido do direito à saúde, que tem levado a uma sobrecarga do sistema, não será mais comportável. A ambição por cada vez mais e melhor é infinita. Mas os recursos financeiros, técnicos e humanos são finitos.

Os Serviços Nacionais de Saúde (SNS) foram originalmente estruturados para lidar com diseases. Com o passar do tempo, houve uma expansão significativa para atender também à illness, isto é, a queixas individuais que nem sempre têm uma base objetiva ou médica clara. Essa mudança refletiu uma sociedade que almejou valorizar mais a qualidade de vida e o bem-estar subjetivo, do que cuidar pela sustentabilidade do sistema. Isso gerou procuras excessivas e desnecessárias que sobrecarregou os serviços públicos de saúde - consultas frequentes, exames desnecessários e tratamentos para condições não críticas com mero propósito placebo. Os custos para tratar questões subjetivas tornaram-se demasiado elevados para proveitos em saúde muito desprezíveis. 

Para além disso, gerou-se um certo tipo de injustiça social por causa do desvio de recursos. Recursos que poderiam ser alocados às condições graves, as diseases, acabaram por ser usados para tratar perceções e desconfortos, as illness. E assim se gerou uma sociedade de dependentes do SNS, que é o mesmo que dizer, do Estado. As pessoas iludiram-se por uma mentalidade de dependência, em vez de se tornarem mais autónomos através de uma boa educação para a saúde. Os cuidados de saúde gratuitos, praticamente sem moderação, atendendo a todas as formas indiscriminadas de descontentamento, tornaram-se insustentáveis. É por isso que não me choca que as pessoas com esse tipo de questões menores de saúde sejam encaminhadas para os serviços privados. Na certeza, porém, de não ser onerado pelo erário público. O que deve ficar a cargo do erário público é a prevenção musculada com intervenções na comunidade. E não me choca que sejam aproveitadas as novas tecnologias e a inteligência artificial como instrumentos de otimização das triagens.

A "medicalização do bem-estar" é por si só uma doença das sociedades de consumo abundante. Uma tendência que precisa ser combatida. De outro modo, como já está a acontecer há muito, compromete o papel do Estado na sua função de prover pela saúde e bem-estar do coletivo. Inevitavelmente, as pessoas vão ter de sentir que não é viável a desoneração para tudo e mais um "par de botas”. Especialmente em questões que ultrapassam as necessidades médicas essenciais. A ideia de "saúde gratuita para todos, em qualquer circunstância" é nobre, mas insustentável quando aplicada a todos os níveis de queixas, incluindo as mais triviais ou subjetivas. Isso cria a perceção de que o SNS é um recurso ilimitado, incentivando o uso excessivo e, muitas vezes, desnecessário. Será necessário, isso sim, um esforço para educar a sociedade sobre os limites do sistema público, promovendo a ideia de que nem tudo precisa ser tratado por médicos, ou melhor, pelo SNS.

Isso exige a normalização de práticas como: copagamento em casos não críticos; uso de recursos digitais, como triagens por IA; maior responsabilidade individual pela saúde; e aceitação de que ser um bom humano implica ser tolerante, resiliente, e porque não estoico, face às agruras da vida. A tendência moderna de tentar eliminar todo o tipo de sofrimento – físico, mental ou emocional – através do sistema de saúde é insustentável. Faz parte da Educação Cívica uma abordagem mais realista, que passa pelo reconhecimento que nem todos os problemas são de saúde resolúveis por intervenções médicas. E que o desconforto faz parte da condição humana.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Assim como nos anos 1930


Vemos o crescimento de movimentos nacionalistas, autoritários e populistas, alimentados por crises económicas, desigualdades e descontentamento popular. O desprezo por instituições democráticas e pela imprensa livre lembra a erosão das liberdades que precedeu regimes como o nazismo e o fascismo. O crash de 1929 gerou uma década de instabilidade económica global, criando terreno fértil para líderes que prometeram "grandeza" e soluções fáceis. Hoje, apesar de avanços tecnológicos, a concentração de riqueza e os desequilíbrios globais fomentam ressentimento e instabilidade, amplificados pela Guerra da Ucrânia e de Gaza. 

Na década de 1930, potências como a Alemanha e o Japão desafiaram a ordem global estabelecida após a Primeira Guerra Mundial. Hoje, vemos a China e a Rússia buscando reformular a ordem mundial, enquanto a União Europeia enfrenta divisões internas. Antes da Segunda Guerra Mundial, a Liga das Nações era uma espécie de corpo em estado vegetativo. Hoje a ONU vai pelo mesmo caminho, mostrando todo o tipo de limitações, enquanto as tensões militares crescem em várias frentes. E as pessoas preferem ignorar os sinais de perigo iminente. Isso não é incomum, e há razões psicológicas e sociais para isso.

Muitos preferem confortar-se com ilusões do que encarar realidades desconfortáveis. A educação histórica é muitas vezes superficial, e as lições do passado são rapidamente esquecidas. A maioria acredita que as instituições atuais como a ONU ou a União Europeia evitarão o pior, ignorando os seus sinais de fragilidade. A inundação de narrativas contraditórias cria confusão e paralisia coletiva, dificultando a identificação de ameaças reais. A guerra na Ucrânia acabou de sofrer mais um upgrade na escalada, com a permissão de Biden da utilização dos mísseis de longo alcance. E Putin, voltou a ameaçar com armas nucleares. E estou a ver a história do Pedro e do lobo; mas também a história do cântaro que tantas vezes vai à fonte.

O governo dos EUA, sob a administração de Joe Biden, autorizou a Ucrânia a utilizar mísseis de longo alcance fornecidos pelos americanos em operações contra alvos em território russo. Essa decisão marca uma escalada significativa no apoio militar ocidental à Ucrânia, especialmente no contexto de um conflito que já entrou em seu terceiro ano. A medida reflete um aumento na pressão sobre a Rússia, enquanto Moscovo ameaça reforçar a sua doutrina nuclear, ampliando as condições em que poderia considerar o uso de armas nucleares​. Entretanto, em 20 de janeiro de 2025 Donald Trump toma posse para o segundo mandato, e ainda há muitas incertezas qual vai ser a sua atuação em relação a este conflito.

Putin, em resposta a essas mudanças, alertou que tais ações podem ser interpretadas como uma participação direta da NATO no conflito, elevando o risco de confrontos mais amplos. A Rússia tem reiterado que considera o apoio militar ocidental uma ameaça à sua segurança estratégica e, portanto, poderia responder com severidade​. Essa escalada confirma o padrão histórico de confrontos prolongados, onde medidas táticas levam a consequências estratégicas mais graves. 
A lição parece ser que o equilíbrio entre dissuasão e diplomacia deve ser cuidadosamente mantido para evitar que as tensões se transformem num confronto global.

É claro que há aqui um player político chamado Xi Jinping que fala pouco, mas pode inverter o rumo para o precipício levado por Putin e Trump. Mas a China foge-me completamente às análises. A posição da China é particularmente estratégica, pois Xi busca equilibrar suas relações com a Rússia e os Estados Unidos, sem se comprometer completamente com nenhum dos lados. Isso reflete a tradicional abordagem chinesa de evitar confrontos diretos enquanto maximiza seus próprios interesses económicos e geopolíticos. 
No contexto da guerra na Ucrânia, a China tem se posicionado como uma mediadora potencial, mas sem condenar a Rússia diretamente. Esse alinhamento ambíguo oferece a Pequim a vantagem de explorar o enfraquecimento do Ocidente e de Moscovo enquanto continua a expandir sua influência global, especialmente por meio de iniciativas como a "Nova Rota da Seda". No entanto, os objetivos de longo prazo da China são menos transparentes, e sua postura em relação ao uso de armas nucleares, por exemplo, ainda não é clara.

O silêncio de Xi pode ser parte de uma estratégia mais ampla: observar o desgaste das outras potências e, no momento oportuno, emergir como o ator capaz de oferecer uma solução ou uma nova liderança no sistema global. Esse jogo de paciência é uma marca do pensamento estratégico chinês, muitas vezes descrito como uma visão a longo prazo em oposição às decisões reativas ocidentais. Se a China decidir inverter a trajetória atual rumo a um confronto global, ela terá de fazê-lo de forma subtil, por meio de alianças económicas, diplomáticas e, potencialmente, tecnológicas. Ainda assim, há incertezas: até que ponto Xi estaria disposto a intervir ativamente para evitar o "precipício" ou se ele considera mais vantajoso deixar as tensões entre Rússia e EUA enfraquecerem ambas as potências? Essas questões tornam a China uma incógnita intrigante no tabuleiro global.