domingo, 12 de abril de 2020

Angelus Novus


Angelus Novus de Paul Klee, 1920. Desenho em papel a nanquim, aguarela e giz pastel, atualmente fazendo parte da coleção do Museu de Israel em Jerusalém. 
Walter Benjamin (1892-1940) adquiriu o quadro em 1921. Após a morte de Benjamin, que se suicidou em setembro de 1940, Gershom Scholem (1897-1982), um notável estudioso do misticismo judaico, e grande amigo de Benjamin, herdou o desenho. Segundo Scholem, Benjamin tinha uma espécie de identificação mística com o Angelus Novus e incorporou isso em seus escritos sobre o Anjo da História, numa melancólica visão do processo histórico como um incessante ciclo de desespero. Segundo a tradição hebraica, um "Anjo Novo" é criado para executar uma ordem de Deus ou cantar um cântico novo e se extinguir em seguida. Walter Benjamin explica isso na apresentação da revista Angelus Novus: "Uma lenda talmúdica nos diz que uma legião de anjos novos é criada a cada instante para, depois de entoar o seu hino diante de Deus, terminar e dissolver-se no nada. Otto Karl Werckmeister observa que a interpretação de Benjamin sobre o Anjo Novo de Klee fez com que a imagem se tornasse "um ícone da esquerda". O nome e o conceito do Anjo também inspiraram artistas e músicos.

Walter Benjamin
IX - Sobre o Conceito da História
em O Anjo da História
da Assírio & Alvim

A minha asa está pronta para o voo altivo:
se pudesse, voltaria;
pois ainda que ficasse tempo vivo
pouca sorte teria.
(G. Scholem, Grus von Angelus)

Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se retém nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Essa tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Este vendaval é o que chamamos progresso.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Ser Mortal



Há pessoas que mudam o nosso imaginário. Encontramo-las nos lugares mais inesperados. E neste momento, nos meios que aparentemente estavam adormecidos aos olhos mundanos, saltaram para o mundo numa vibração clamorosa. 
Refiro-me às Unidades de Cuidados Intensivos (UCI), e às Residências para idosos. Essas pessoas estão a agora a aparecer em todo o lado, e bem. A nossa batalha, por sermos mortais, é a batalha para preservarmos a integridade da vida. A doença e a velhice já tornam a luta suficientemente difícil. Por isso, os profissionais e as instituições, a quem pedimos ajuda, têm bem a noção que não estão lá para dificultar ainda mais as coisas. Isto não significa que temos de sacrificar a nossa autonomia, só porque precisamos de ajuda, embora existam diferentes noções de autonomia. Uma delas é a autonomia como liberdade de ação: viver de maneira totalmente independente, sem coação e limitações.

De resto, devo lembrar que as nossas vidas estão inerentemente dependentes umas das outras, e sujeitas a forças e circunstâncias que escapam ao nosso controlo. A quantidade de liberdade que temos na vida não serve de bitola para aferir o valor dessa mesma vida. Assim como a segurança é um objetivo vazio, e inclusive contraproducente para nos servir de rumo na vida, o mesmo acaba por acontecer com a autonomia. O importante é que a autonomia nos proporcione a liberdade necessária para sermos os próprios autores do rumo das nossas vidas. Aconteça o que acontecer, queremos manter a liberdade de moldarmos a nossa vida de maneira coerente com o nosso feitio e lealdades.

Quem melhor tem idealizado e posto a funcionar casas de repouso para idosos, tem verificado que as melhores são casas pequenas e comunitárias, não mais de doze residentes, o mais aproximado das casas de família alargada, em que convivem no mesmo espaço os avós, filhos e netos. A sala as refeições é comum, mas os quartos são individuais. Refeições familiares tomadas à volta de uma mesa grande. E este modelo é compatível com a privacidade que cada um precisa. Perder a privacidade é uma das coisas, para a maioria das pessoas, que mais as assusta. As pessoas gostam de ter os seus momentos de solidão. Isso não significa isolamento. Há momentos em que as pessoas gostam de pensar assim: "Não tardará muito, mas também não há nada que eu possa fazer”. Às vezes as pessoas ficam fartas da doença e da velhice: “Vou morrer, e daí?”

À medida que as capacidades das pessoas se deterioram, por causa da idade, ou da progressão de uma qualquer patologia, a nossa tentação é fazer tudo para o medicalizar em excesso. Mas é preciso refrear a obstinação para mexer, consertar, controlar, isto é, usando uma metáfora corriqueira, para fazer obras num corpo em ruínas por dá cá aquela palha. O raciocínio chave é: quando é que devemos tentar reparar e quando é que devemos deixar o corpo sossegado.

O dia-a-dia numa UCI dos dias de hoje é muito semelhante em todas elas. Mas muito diferente dos outros dias antes da pandemia. Vejamos a descrição de outros dias passados de uma médica de uma UCI, a inteirar outro colega não intensivista da situação: "Estou a gerir um armazém de moribundos. Dos dez doentes aqui internados só dois têm hipótese de sobreviver e ter alta para suas casas. De resto é uma senhora de oitenta com uma pneumonia; outra de setenta com cancro e metástases pulmonares; outra de oitenta e muitos com insuficiência respiratória e renal, já estando aqui há duas semanas. A doente do cancro, tinha decidido não fazer mais tratamentos, mas o oncologista insistiu para que mudasse de ideias.”

As pessoas com uma doença grave e terminal têm prioridades além de simplesmente prolongarem a vida. As suas principais preocupações incluem evitar o sofrimento, reforçar laços com a família e os amigos, estar mentalmente alerta, não ser um fardo para os outros e alcançar uma sensação de que a sua vida valeu a pena porque teve um sentido. Mas muitas vezes acontece que são os filhos que se recusam a deixar morrer um seu familiar nessa situação, pedindo aos médicos que façam tudo: cânulas, tubos, traqueotomia …

A questão, que não é apenas de custos, que é, também é de criar um sistema de cuidados de saúde que ajude efetivamente as pessoas a alcançarem o que é mais importante para elas no fim da vida. Países que costumam ter boas estatísticas, e que fazem contas como a Holanda, a Suíça ou os Estados Unidos, chegam todos a números semelhantes: no último ano de vida das pessoas, 5% gasta 25% do orçamento da saúde; as doenças incuráveis representam uma grande parte desses custos.

À medida que o nosso tempo se começa a esgotar, todos procuramos conforto em pequenos prazeres: companheirismo, rotinas diárias, o sabor de boa comida, o calor do sol no rosto. Passamos a interessar-nos menos pelas recompensas de conquistar e acumular. São recompensas mais simples como ser e estar. Mas apesar de nos sentirmos eventualmente menos ambiciosos, há uma preocupação: o nosso legado. E temos uma necessidade profunda de identificar objetivos fora de nós próprios que nos deem a sensação de que a vida valeu a pena ser vivida porque teve um sentido. Todos buscamos causas, umas maiores do que nós, outras nem tanto: família, país, valores morais; ou apenas uma casa, uma árvore, um animal de estimação. O importante é ao atribuirmos valor à causa, e ao considerarmos que ela merece sacrifícios, darmos um sentido à nossa vida. Isto é o oposto do individualismo. O individualista coloca os seus próprios interesses acima de tudo. Para um individualista a lealdade a uma causa, que não tenha nada a ver com o interesse próprio, é uma noção estranha.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O espaço do nosso confinamento, na perspetiva do xamã e Michel Foucault



https://www.sabado.pt/video/detalhe/coronavirus-na-india-o-confinamento-limpou-a-poluicao-do-ar?ref=VID_ultimos_video

Com o espaço aéreo mais limpo, não apenas de poluição, mas também de aeronaves, já se ouve de novo o clamor dos xamãs. O espaço para os xamãs é uma região onde decorre toda a sua atividade. Para nós outros uma região abstrata, bem entendido, para eles mais acessível, alguma coisa da realidade. Os xamãs nunca viram o tempo e o espaço como abstrações obscuras, como nós os vemos. Para eles, tanto o tempo como o espaço, ainda que incompreensíveis em suas formulações, eram uma parte integrante do viver humano. Os xamãs têm uma outra unidade cognitiva chamada a "roda do tempo". O tempo, como um túnel de comprimento e largura infinitos, um túnel com sulcos de reflexão. Um número infinito deles. As criaturas vivas obrigadas, pela força da vida, a seguir um determinado sulco. Ligado a ele, para viver através dele. O xamã e o guerreiro, por meio de um ato de profunda disciplina, focalizam a sua atenção plena na "roda do tempo", com o propósito de fazê-la girar. Os guerreiros que conseguirem fazer girar a "roda do tempo" podem olhar em qualquer sulco e tirar dele o que quiserem. Estar livre da força enfeitiçadora de olhar somente num desses sulcos significa que os guerreiros podem olhar em qualquer direção: quer o tempo recue ou avance sobre eles. 

Michel Foucault trata a questão do espaço como uma espacialidade ambivalente. Toda essa abordagem está patente - desde a “História da loucura na idade clássica” (1961) até às suas últimas obras sobre a “História da sexualidade” (1978), embora ele tenha resistido
 a ser chamado de geógrafo pós-moderno. Em todo o caso, as suas observações mais explícitas, e reveladoras da importância relativa do espaço e do tempo, entretanto, aparecem, não nas suas grandes obras publicadas, mas sim, de maneira quase inócua, nas palestras e, após algumas indagações persuasivas, em duas entrevistas reveladoras: “Questions on Geography” [Perguntas sobre geografia], 1980; e “Space, Knowledge, and Power” [Espaço, saber e poder], 1984.

Afastando-se do “espaço interno” da brilhante poética de Bachelard (1969), e das descrições regionais intencionais dos fenomenólogos, Foucault concentrou a nossa atenção numa outra espacialidade da vida social, num “espaço externo” - o espaço efetivamente vivido (e socialmente produzido) dos locais e das relações entre eles: o espaço em que vivemos, que nos retira de nós mesmos, no qual ocorre o desgaste da nossa vida, nossa época e nossa história, o espaço que nos dilacera e corrói, é também, em si mesmo, um espaço heterogéneo. Em outras palavras, não vivemos numa espécie de vazio dentro do qual possamos situar indivíduos e coisas. Não vivemos num vazio passível de ser colorido por matizes variados de luz, mas num conjunto de relações que desenham localizações irredutíveis umas às outras, que não se sobrepõem entre si. 

Esses espaços heterogéneos de localizações e relações – as heterotopias de Foucault – são constituídos em todas as sociedades, mas assumem formas muito variadas e se modificam ao longo do tempo, à medida que “a história se desdobra” na sua espacialidade inerente. Foucault identifica muitos desses locais: o cemitério e a igreja, o teatro e o jardim, o museu e a biblioteca, a feira e a “cidade das férias”, o quartel e a prisão, a sauna escandinava e o bordel. Ele contrasta esses “lugares reais” com os “espaços fundamentalmente irreais” das utopias, que apresentam a sociedade numa “forma aperfeiçoada” ou “virada de cabeça para baixo”. O seu papel consiste em criar um outro espaço real, tão perfeito, meticuloso e bem-disposto, quanto o nosso é desarrumado, mal construído e confuso. Este último tipo seria a heterotopia, não da ilusão, mas da compensação. Com esses comentários, Foucault expôs muitos dos instigantes rumos que iria tomar no trabalho de sua vida inteira e, indiretamente, levantou um poderoso argumento contra o historicismo – e contra as abordagens vigentes do espaço nas ciências humanas.

Voltando ao clamor do xamã, a roda do tempo é uma influência poderosa que atinge a sua vida. Vida, espaço e tempo, parecem ligados por uma conexão semelhante a uma mola que tem vida própria. Essa conexão, conforme a explicação dada pelo conhecimento dos xamãs, é precisamente aquilo a que eles chamam a "roda do tempo". Esse é o entendimento dos xamãs, não somente o entendimento do Universo, mas os processos de viver e coexistir num Mundo. E mais importante ainda, apontam para a possibilidade de usar dois sistemas de cognição: Universo e Mundo. Ora aqui está, o espaço heterogéneo e relacional das heterotopias de Foucault. Não é nem um vazio desprovido de substância, a ser preenchido pela intuição cognitiva, nem um repositório de formas físicas a serem descritas em toda a sua resplandecente variabilidade fenomenológica. Trata-se de uma espacialidade efetivamente vivida e socialmente criada no contexto das práticas sociais, simultaneamente concreta e abstrata. É um espaço raramente visto, pois tem sido obscurecido por uma visão bifocal que, tradicionalmente, encara o espaço como uma construção mental ou uma ilusão dual.

Para ilustrar a sua interpretação inovadora do espaço e do tempo, e para esclarecer algumas das polémicas, amiúde confusas, que vinham surgindo em torno dela, Foucault voltou-se então para os debates corriqueiros sobre o estruturalismo, uma das mais importantes vias do século XX para a reafirmação do espaço na teoria social crítica. Foucault reconhecia, no desenvolvimento do estruturalismo, uma visão diferente e instigante da história e da geografia, uma reorientação crítica que estava vinculando o espaço e o tempo de maneiras novas e reveladoras. O estruturalismo, ou, pelo menos, aquilo que se reúne sob essa denominação um tanto genérica demais, é o esforço de estabelecer, entre elementos que poderiam ligar-se num eixo temporal, um conjunto de relações que faz com que eles apareçam justapostos, contrabalançados uns com os outros, em suma, como uma espécie de configuração.

Na verdade, o estruturalismo não implica uma negação do tempo; implica uma certa maneira de lidar com o que chamamos tempo e com o que chamamos história. Essa “configuração” sincrónica é a espacialização da história, a feitura da história entremeada com a produção social do espaço, a estruturação de uma geografia histórica. Isso não constituiu uma simples mudança de preferência metafórica, como frequentemente parecia acontecer com Althusser e outros, que estavam mais à vontade com o rótulo de estruturalistas do que Foucault. Tratou-se da abertura da história para uma geografia interpretativa. No intuito de enfatizar o caráter central do espaço para o olhar crítico, especialmente no tocante ao momento contemporâneo.

Seja como for, a angústia do nosso tempo de confinamento está fundamentalmente relacionada com o "espaço", sem dúvida muito mais do que com o "tempo". Provavelmente, o "tempo" se nos afigura como sendo apenas uma das várias operações distributivas possíveis dos elementos dispostos no "espaço".

terça-feira, 7 de abril de 2020

A minha esperança é que seja possível, ao menos, reconstruir a memória do futuro a partir daqui


Esta epígrafe é uma metáfora a evocar Borges – Jorge Luís Borges. Borges, em conversa com um escritor português, lembrou um seu poema que termina assim: sou o rei que no místico deserto / se perdeu, e sou o que jura que ele não morreu. Perguntou que idade tinha D. Sebastião quando morreu em Alcácer Quibir. Ao ser-lhe dito que morreu com vinte e quatro anos, ficou admirado. “Tem a certeza?” – insistiu. Foi-lhe dito que era a certeza que se podia ter quando se falava do Desejado. De seguida Borges disse: “Mas então tudo muda! Não é o 'místico' deserto de que falo. Devia ter escrito: o rei que o 'mágico' deserto se perdeu e não o 'místico' deserto. Com essa idade há mais de mágico do que de místico na atitude de um rei.”

Noutro dia, antes deste estado de incerteza em quarentena, dizia uma amiga para outra amiga na sala dos professores: "É que por brincadeira fui a um astrólogo. Para aí em setembro. E então eu contei ao astrólogo que andava muito triste com o meu marido, e andava a precisar de elevar o astral." Era o seguinte: apesar de já não fazer nada, o marido ou passava o tempo no escritório a ler, ou com os amigos a jogar bridge. Um intelectual, portanto, que ainda por cima, para além do ordenado que recebia do estado, sem fazer nada, vivia dos rendimentos de uma herança paterna. O problema era que ele tinha resolvido requerer a reforma antecipada. E ela estava farta de tratar de tudo, desde o governo da casa à educação dos filhos. Para abreviar, o astrólogo disse-lhe a certa altura que em breve ia fica viúva. Ou que, pelo menos, o marido iria ficar inutilizado. E ela tinha que se ir preparando para ficar a tomar conta dele. É claro que não o levou a sério. Chegou a casa e disse ao marido e aos filhos onde tinha ido, por causa de uma amiga. E numa grande risota começou a contar o que lá se tinha passado, até que disse: "só vos digo que vou ficar viúva! Disse-me ele!" A verdade é que em novembro o marido morreu, de enfarte do miocárdio, a dar cartas para mais uma rodada de bridge. Ela ficou muito abatida com aquela morte. Não descansou enquanto não telefonou ao astrólogo, para lhe contar o que sucedeu, e para saber mais das razões daquilo tudo. Ela ligou, e identificou-se, perguntando-lhe se se lembrava dela. E ele respondeu logo que sim, que se lembrava. E de seguida perguntou-lhe se o marido tinha morrido. Ela disse que sim. O outro comentou de lá como se fosse evidente: “Pois é. Mas ele também já não andava cá a fazer nada…"

Por cá, às vezes, penso nas motivações da juventude da Europa. A Europa podia ser algo de muito mais entusiasmante se possuísse uma juventude disposta a entusiasmar-se. Mas a Europa continua a perder jovens. E as elites de qualidade estão a emigrar. De Portugal vão para a Inglaterra ou a Alemanha. E os da Alemanha altamente qualificados partem para outras paragens do mundo, incluindo a China, porque estão insatisfeitos com o tipo de trabalho que lhes é oferecido. A estagnação demográfica da Europa é acompanhada por uma espécie de diminuição do papel e do potencial intelectual deste continente. Isto é o que explica a melancolia generalizada que percorre os europeus. Estamos demograficamente em queda livre e, nesta situação, não podemos imaginar como é que a Europa pode falar de um novo papel no teatro do mundo. Os intelectuais da política, que nos anos de 1960 se agitavam, como peixes na água, agora estão em terreno seco. 
Eu procuro não começar estas conversas com aquela velha frase : "No meu tempo é que era", ou "Eu sou do tempo em que ...". Mas, nos anos sessenta, nós éramos uma minoria em Braga. Os que liam livros e conversavam a caminhar às voltas - da rua do Souto, rua da Lusitana, rua dos Capelistas à Arcada. E dia-sim-dia-não ao cinema à noite - no "galinheiro" do Teatro Circo e na plateia do São Geraldo. A Rodovia era o limite, um deserto que para lá só havia campos de milho e as fábricas, para além das motorizadas da Pachancho, e dos sabonetes da Confiança do lado de cá, havia a Sarotos e a Grundig do lado de lá. Nos finais dos anos de 1960 já se via aqui e ali um ou outro sem um pé, sem uma perna, perdidas em África no estouro das minas. Toda a explosão do comunismo vem um pouco daí.


Por estes dias ninguém pensa em comprar o supérfluo. Só apenas os produtos de primeira necessidade. O que é absolutamente essencial. Só se pode despojar quem já conheceu a abundância. Seria bom para futuro, que esta experiência nos levasse a ter outra relação com as coisas. Um novo espírito do tempo.

“Podemos medir os anticorpos, mas isso não significa que a pessoa esteja protegida.”



Akiko Iwasaki é professora no Departamento de Imunobiologia e Departamento de Biologia Molecular, Celular e de Desenvolvimento da Universidade de Yale. Ela também é pesquisadora principal no Howard Hughes Medical Institute.

© Excerto de uma entrevista dada ao Jornal Público:
[...] Quão mortal será o SARS CoV-2? Porque é que alguns países têm taxas de mortalidade para a covid-19 mais altas do que outros?
Tem a ver com a distância social. Alguns países só a implementaram demasiado tarde. Isso inclui os Estados Unidos.


Assistimos a muitas mudanças de políticas de saúde pública, como as que mencionou nos Estados Unidos mas também no Reino Unido. Porque é que este vírus provoca tantas abordagens diferentes e tanta confusão?
Porque há muitas mensagens contraditórias. Os governos têm de liderar, tomar decisões rápidas e comunicar essas decisões às pessoas. Isso não está a acontecer em sítios como a América.


Mas não era suposto estarmos preparados para este tipo de situação?
Sem dúvida, mas não estamos.


Os virologistas e epidemiologistas já falavam desta possibilidade há muito tempo. O que é que aconteceu para se ter tornado tão difícil pôr as medidas como o distanciamento social a funcionar?
Alguns países como a China foram muito rápidos, colocando cidades de quarentena. Essa é a razão para a China ter tão poucos casos quando comparada com países como os Estados Unidos, onde em alguns locais ainda não foram implementadas medidas rigorosas. Isso está a levar a este crescimento exponencial. O problema é que os virologistas e os epidemiologistas deviam estar mesmo a influenciar os políticos, mas muitos não os ouvem.


Na sua opinião, então, o que é que devemos fazer?
Por agora o distanciamento social é a única forma de combater esta infecção. Temos de ter uma abordagem conjunta para desenvolver essa protecção — uma ordem para ficar em casa em todo o lado. Isso fará uma grande diferença. Mas em sítios como Nova Iorque já é demasiado tarde.


Tem uma ideia de quanto tempo vai durar? Eu sei que é uma pergunta de um milhão de dólares…
Sem uma vacina ou um antiviral, este vírus não vai desaparecer. Depende mesmo do tipo de medidas que pudermos desenvolver.


Voltando ao início, podemos esperar que algum tipo de teste de anticorpos permita a algumas pessoas circular primeiro?
Isso é colocado como hipótese em países como o Reino Unido [e Portugal]. Não tenho a certeza se um teste de pesquisa de anticorpos é suficiente para saber quem está protegido. Ainda não conhecemos a resposta imunitária deste vírus. Não sabemos simplesmente se os anticorpos sozinhos vão ser capazes de nos proteger de uma reinfecção pelo vírus.


Usa uma máscara protectora?
Não, porque não vou a lado nenhum. Mas se fosse usava.


Se não usarmos as máscaras cirúrgicas, que são necessárias nos hospitais, que tipo de material, de tecido, é melhor?
De facto, as máscaras cirúrgicas são precisas nos hospitais e os cidadãos normais não precisam desse tipo de protecção. Mas qualquer coisa que permita fazer múltiplas camadas de tecido é bom e melhor do que nada.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A verdade e a mão invisível



Marta Temido diz que se compromete com a verdade. E os economistas liberais dizem que se comprometem com a mão invisível de Adam Smith. Os pós-modernos, também chamados pós-metafisicos, não acreditam na noção de verdade de uma metafísica pesada de crentes e não crentes (céticos). Gianni Batimo, um pós-moderno, opina que já não acredita num cristianismo como dogma ou crença numa Verdade maior - como ditava Ratzinger, antes de ser Papa Emérito, de fundamento natural e metafísico - mas apenas em provas de amor cristão.

Espinosa foi um dos primeiros a falar da inteligência da Natureza, ou Substância. Ou seja, a trama eterna de causas e efeitos que, por sua vez, carece de causa exterior e que abrange todo o real, do qual fazemos parte sem bonificação nem privilégio. Conhecemos e sabemos aquilo que a nós cabe saber, em virtude da nossa condição. Por conseguinte, jamais conseguiremos saber toda a Verdade, nas suas infinitas facetas. O vírus de agora, ou o fogo do outro dia, ou o último tsunami - nada têm de mal em si mesmo, mas apenas o são para nós porque nos prejudicam. Já os nossos erros, as falsas ideias na demanda do que mais no convém, para Espinosa, era uma outra conversa. O mau e o bom é o que faz sentido, para cada um dos seres, e não o bem e o mal, que não existem. Devemos viver de acordo com o que determina a nossa condição racional e social. Nada há mais útil para um homem, do que outro homem.

Depois de Espinosa, veio Hegel concluir a conceptualização de Deus no seu sistema. Converteu os dogmas cristãos em metáforas especialmente significativas das abstrações que o seu trabalho intelectual estabeleceu na sua tarefa titânica de pensar o real e o ideal no seu devir histórico. O que preocupa cada ser humano é a sua salvação quando sabe que vai morrer. E não se conforma com a mera compreensão daquilo que o aniquila. Cada ser humano, na sua faceta de crente, deseja algo que o faça escapar à perdição. E é aqui que entra o filósofo, o sábio, não para consolar, nem para alimentar falsas esperanças de uma salvação pessoal, porque é irracional ou ininteligível, mas para transmitir a serenidade necessária, a equanimidade, nos termos de Espinosa. Aquela igualdade de ânimo, tanto na prosperidade como na adversidade.

O filósofo, ou o sábio, existe para nos dizer que o ser humano habita o mundo como prisioneiro da necessidade e da contingência, o irremediável acaso e necessidade, submetido à injustiça, ao esmagamento dos mais débeis … e à fatalidade da morte. O seu destino, aparentemente inevitável, não é mais do que ter alegrias nos prazeres da vida, e padecimentos no sofrer, para depois desaparecer para sempre.

O cientista, por sua vez, explica-nos que as leis vigentes no Universo são as mesmas para todos – pedras, árvores, animais . . . e que contra elas não há lugar à rebelião. Resta-nos acatar a lógica do Universo, e inventar uma ética que mais nos convenha, ainda que não sendo para atingir a felicidade, seja para encontrar as melhores regras morais consentâneas com a virtude e a dignidade humana. Dentro da liberdade possível, sim, mas não a nutrir a ambição de um reino de superioridade e de domínio das forças da Natureza. Esse tem sido o maior erro, pecado para os crentes, que o tornou escravo da sua própria soberba.

domingo, 5 de abril de 2020

Hegel de volta


A pandemia começou no Extremo Oriente, onde somente um homem é livre, o déspota. Depois ela expandiu-se pelo Médio Oriente, onde apenas uns poucos são livres, os senhores de escravos e as oligarquias, para finalmente chegar ao Ocidente, artificialmente nivelado de igualdade, conforme demandado pelos democratas, não apenas uma categoria económica.

O mundo de Hegel é um mundo do Estado, leis, disciplina, de obediência àqueles que a História designou para serem líderes: e ele faz soar uma nota que então reverberou cada vez mais alto nos séculos XIX e XX : desprezo por aqueles que se revoltam contra os sistemas como tais, que desejam opor o seu senso moral pessoal e privado à marcha da História. Ele fala do destino terrível mas inevitável de gente trivial que busca a felicidade pessoal, pessoas benévolas e mentalmente confusas de todo o tipo, que prepararam para si um vulcão condenado pela História. Hegel está ao lado da lava, e contempla-a com uma alegria perversa. 

As regras metafísicas de Hegel foram desacreditadas por muitos anos. A sua identificação da causa e efeito com a vontade e consequência foi um erro lógico. Sua pressuposição de que as instituições podiam ser racionais no sentido em que as pessoas o são, que existe um espírito histórico real - uma personalidade - que se encarna no mundo das coisas tanto quanto no mundo das pessoas, é uma peça de mitologia difícil de ser levada a sério hoje em dia. Mas a perspectiva geral de Hegel é uma força muito poderosa, talvez ainda mais no presente que em seu próprio tempo. As suas categorias históricas levaram certamente a grandes avanços no tratamento histórico de muitos temas. Ao representar tudo evoluindo de acordo com a razão, e inteligível apenas nesses termos, ele aumentou enormemente a importância do conceito de História. Hoje nas academias ninguém liga às perguntas daquelas pessoas que insistem naquela frase batida: "isto anda tudo ligado", ou naquele slogan bacoco: "não há coincidências". Há pessoas que estabelecem um fio condutor que liga a viragem do século e do milénio com a queda simbólica das torres gémeas no 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque; seguido da série de atentados terroristas e a guerra na Síria; a aceleração do degelo e o aquecimento global; e agora a pandemia. 

Parece-me que a “discussão sobre os direitos” tem a função de permitir que as pessoas exijam uma esfera de soberania pessoal, no qual a sua escolha se torna a lei. E, por sua vez, as esferas de soberania pessoal têm uma função que, mais precisamente, é a de nos possibilitar aceitar obrigações de forma livre quando se estabelecem por relações consensuais. São os limites atrás dos quais as pessoas se podem posicionar, não podendo ser ultrapassados sem transgressão. Portanto, a função primária da ideia de um direito é identificar algo como dentro do limite do que se é e do que se tem. Se eu tenho o direito de andar na rua, então Vossa excelência não me pode mandar fechar em casa sem uma causa de força maior e justificável. Ao determinar tais direitos, definimos os pontos fixos, os lugares de segurança, dos quais as pessoas podem acatar e concordar. Sem esses pontos fixos, acordo livre dificilmente ocorreria. Logo, os direitos nos permitem estabelecer uma sociedade em que as relações consensuais são a norma, e elas fazem isso definindo para cada um de nós a esfera de soberania pessoal. Um direito é parte da cerca que define o território em que tenho de ficar confinado.

O conceito de um direito é baseado na metafísica do Self. É um instrumento fundamental de compreensão humana, definindo um caminho de conflito e de conciliação que ocorre no Lebenswelt (o mundo em que vivemos). O quadro final é este: eu existo como um sujeito, isto é, como um ser autoconsciente, com conhecimento imediato de um domínio interior. Mas isso pressupõe que eu existo num mundo com o qual eu me identifico. Por sua vez, a referência ao redor pressupõe outras pessoas com as quais eu compartilho uma linguagem e, portanto, uma perspetiva em primeira pessoa. E a linguagem pressupõe um mundo compartilhado (Lebenswelt), no qual os outros são representados como sujeitos, como eu. Em suma, a autoconsciência pressupõe todos aqueles estágios “tardios” de alienação do outro, e de reconciliação com o outro, como eles são descritos na narrativa de Hegel.

Para Hegel, o Universo é uma entidade panteísta que pensa, sente e deseja, cheio de ideias com tudo aquilo que contém: pedras, plantas, animais, homens, comunidades, Igrejas, Estados. Mas é no processo histórico que o Universo se autorreconhece. Toda a mudança, toda a ação ocorre de acordo com leis, e todas as leis são em última análise, como as leis da lógica, transparentemente inteligíveis. Como são as leis que regem aqueles processos pelos quais o Universo se realiza e obtém o que quer, elas são autoimpostas. Compreender tudo é compreender por que tudo deve ser como é. Agir livremente é agir de acordo com uma vontade que persegue fins para os quais não há alternativas.

Hegel traça a ascensão do homem desde a condição em que ele é guiado pelas operações ocultas da razão ainda não plenamente consciente de si mesma, assumindo assim que no princípio eram os instintos puramente apetitivos, que mais tarde se submeteram aos princípios da razão. Só o que é verdadeiramente racional é verdadeiramente real. E por "racional" Hegel quer dizer algo muito maior que a razão que rege o pensamento consistente, ou o tipo de compreensão que ocorre com o senso comum ou com a ciência. A razão move-se por contradições dialéticas: entre o conhecimento acumulado que se consolida gradualmente; e o conhecimento que se dá por saltos revolucionários. A razão é a senhora do Universo, ao mesmo tempo o fundamento no qual todos os acontecimentos, estados e situações se explicam. O padrão em termos do qual tão somente algo possui significado, em termos do qual a sua função pode ser discernida, de modo que em última análise tudo está interligado e forçado a ser o que é por sua posição única no sistema.

A lei, é o que cria aqueles sentimentos de lealdade às instituições. Se torna obediência racional à marcha da História, da qual somos uma parte intrínseca, e à qual damos o nosso contributo. A célebre proposição de que o real é o racional e o racional o real deve ser compreendida nesse sentido: que só o que pertence ao plano global é racionalmente necessário. Esse processo de reconhecimento é sempre a perceção das relações inevitáveis que tornam as coisas e as pessoas o que elas são em termos de algum sistema ou contexto mais amplo a que pertencem e a que são intrínsecas.

Usando essa distinção nítida entre o nível racional e a consciência meramente utilitária ou outras formas de consciência pré-racional, Hegel desenvolve a sua noção de Estado e o seu conceito de grandeza. Como a liberdade é para ele a expansão da personalidade, o Estado parece-lhe ser a organização totalmente racional das vidas dos seres humanos. Cada um condiciona a vida dos outros e ocupa um lugar único no sistema social. Conhecemos as leis, compreendemos o conjunto social de que fazemos parte. O Estado é a estrutura perfeitamente racional em que os homens compreendem de forma plena as suas relações inevitáveis entre si e com tudo o mais, e que eles perpetuam desejando-o livremente, porque são seres racionais com vontades racionais, isto é, que só desejam o que verdadeiramente satisfaz as suas naturezas. De acordo com Hegel, a dialética é uma estrutura que podemos elucidar em todas as práticas em que há liberdade, consciência ou conhecimento como metas a serem alcançadas. Tais práticas “começam” de um momento de imersão, no qual o sujeito tem uma consciência que é “imediata” e “abstrata”. O sujeito avança em direção ao conhecimento concreto apenas por meio de um movimento que vai para fora, em direção àquilo que “limita” e “determina” as fronteiras do Self. O sujeito experimenta esse fator limitador como alguma coisa que é um outro, um objeto genuíno de conhecimento e não simplesmente como um aspeto do Self.

A procura por conhecimento gera conflito, sem o qual não pode haver nenhum reconhecimento de um mundo objetivo, ou do lugar do sujeito dentro desse mesmo mundo. O conflito é então superado, transcendido a um novo nível de liberdade, do qual o processo dialético pode começar novamente. A trajetória completa da vida consciente pode ser, e de facto deve ser descrita nesses termos, como movimentos sucessivos que vão do abstrato e do imediato ao concreto e ao determinado, indo através do conflito até o momento de transcendência quando a oposição é superada e reconciliada. Nesse quadro, o padrão de unidade inocente, seguida pela separação culposa, depois a reconciliação num estado de conhecimento, é apresentada como a estrutura fundamental da consciência.

Se olharmos a dialética hegeliana como um “mito de origem”, tudo isso passa a ter uma nova compreensão. Não se trata de ver as coisas descritas como “momentos” ou “estágios” que se sucedem no tempo, mas sim que eles se desdobram na mente, numa relação de dependência mútua. Segundo a narrativa dialética, a autoconsciência começa na perceção imediata (“sem critério”) de um mundo unificado, onde o interior e o exterior ainda não estão diferenciados. Mas essa perceção exige um objeto, e o objeto da perceção, uma vez “postulado”, está fora do Self e também entra em conflito com ele ao apresentar uma fronteira e um limite aos desejos subjetivos. Os objetos são “para serem usados”. E esse reconhecimento abre o caminho de volta para a alienação. Ou então para o caminho na direção de uma nova forma de unidade. Tal unidade não é a do Self no seu interior, a autoidentidade vazia da qual o processo se iniciou, mas uma unidade do Self e do Outro, a reconciliação nas condutas mútuas dos sujeitos que se reconhecem como seres livres. É nesse ponto que a vida moral, a vida em sociedade, começa.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

É de declínio que se fala, do nosso estado de incerteza


Depois de os especialistas analisarem a complexidade, ponderarem as suas razões, e apresentarem as suas conclusões, alguém tem de assumir o simples, e por isso mesmo muito difícil. Vamos atacar, vamos continuar à espera … sim ou não? Esse é o papel do chefe, cujos fundamentos nunca se esgotam nas razões dos especialistas. Cabe aos especialistas apresentar a situação na sua complexidade, e ao chefe simplificá-la sob a forma de uma decisão.

A necessidade do chefe faz-se sentir especialmente em situações de crise profunda como esta. Nesta, como em muitas outras situações, o rebanho divide-se: de um lado os que acham que se deve atacar já, que se deve mudar o que está, e coisa assim; e do outro lado os que acham que se deve esperar, que se deve manter tudo como está, e coisas assim. E a função do chefe é encarnar a divisão, como única via de uma verdadeira unidade. 


Os estados de emergência não podem durar muito por causa do cansaço. É um momento de intensa participação coletiva num espírito de comunidade. Mas o cansaço não é apenas da ordem psicológica, é também da ordem ontológica da vida em sociedade. Acresce a isso o facto de ainda não nos termos recuperado completamente da crise de 2008. O sistema entrou em colapso, e dirigiu toda a sua agressividade contra a sociedade. Poderá o Serviço Nacional de Saúde sobreviver? Tem de sobreviver, assim como o Estado Social. É hoje evidente que a forma tradicional do Estado Social tem de ser modificada, na medida em que, para além da deterioração do estado social, ficou patenteado nesta crise de pandemia vírica, que os privados na saúde, na educação e segurança, só têm a sua razão de ser numa concertação de coadjuvação. A defesa do Estado Social, e a garantia da sua sustentabilidade por meio de um financiamento justo, transparente e recíproco, é uma das necessidades fundamentais que devemos defender para uma verdadeira coesão social.

Em Alice do Outro lado do Espelho: A questão é – disse Alice – se se pode fazer com que as palavras queiram dizer tantas coisas diferentes. A questão é saber – disse Humpty Dumpty – quem é o chefe, e é tudo. A velha lição de Humpty Dumpty é a este propósito mais pertinente do que nunca. Em Portugal o chefe é o António Costa. Agora temos de saber quem é o chefe da Europa. Não podemos continuar por muito mais tempo com esta Europa. A Europa será democrática e social ou deixará de existir. Precisamos, portanto, de uma mudança de direção histórica. Para que isso aconteça, os povos da Europa, através das suas lutas de rupturas, precisam de mais solidariedade. Por isso têm de tomar em suas mãos o controlo da situação. Será através de todas as formas de resistência social que um rumo novo e alternativo se poderá afirmar para o conjunto da Europa.

Já não podemos continuar a pensar que o chefe é a Sra. Merkel. É necessária uma nova hegemonia. E torna-se agora evidente que a solução tem de vir do Sul da Europa. São os países do Sul da Europa, que para além dos tradicionais patos feios das crises, também deve envolver a França e os Balcãs ex - iugoslavos. Que são os que estão em melhores condições de encaminhar as lutas sociais e a indignação no sentido da construção de uma outra Europa. Uma Europa capaz de produzir novas linguagens políticas e novos imaginários culturais. 

São os movimentos sociais de resistência que reescrevem a história, pois, se assim não fosse, teríamos o mesmo sistema de relações de poder inalterado, durante séculos. Perante o Norte, os países do Sul equivalem-se enquanto igualmente indesejáveis. É esse o sentido da metáfora de Alice, se se pode fazer com que as palavras queiram dizer tantas coisas diferentes. O que temos aqui é uma versão inexcedível do tipo de humor e brincadeira que se fazia no tempo da União Soviética. Três recém-chegados ao Gulag começam a falar sobre as razões que ali os levaram: “Eu costumava chegar ao trabalho com cinco minutos de atraso, e fui acusado de sabotagem” – disse o primeiro. “Não admira, eu chegava ao trabalho cinco minutos adiantado, e acusaram-me de espionagem” – disse o segundo. A seguir, ficaram a olhar para o terceiro numa expectativa ansiosa. “Pois bem, eu sempre fui pontual, e eles suspeitaram que o meu relógio era suíço”.

Quando interrogam o oficial nazi responsável pelos campos de concentração na Polónia ocupada, ele explica: "Nós fazemos a concentração e os polacos dão o campo". Consta que Karl Radek teria criado diversas piadas políticas sobre Estaline. Daí haver muitas variantes desta anedota pondo em cena três prisioneiros numa cela do quartel-general do KGB: o primeiro pergunta ao segundo porque o prenderam, e o outro responde: “Porque critiquei Karl Radek”. Ao que o primeiro retorque: “Mas eu estou aqui por me ter pronunciado favoravelmente sobre Radek!” Depois os dois homens olham para o terceiro, que se mantém calado a um canto da cela. Perguntam-lhe por que motivo o prenderam também. E ele responde: “Eu sou Karl Radek.”

Durante a Primeira Guerra Mundial, Karl Radek envolveu-se em negociações secretas com o Estado-Maior alemão sobre financiamento aos bolcheviques e foram organizadores da Operação Copenhague, bem como mediadores entre Lenine e os alemães, que autorizaram a passagem do líder revolucionário num comboio blindado sob a promessa de retirar a Rússia da guerra. Radek viveu na Suíça e na Suécia durante a guerra, e apoiou os bolcheviques. Entrou para o partido em 1917. E esteve na Alemanha entre 1918 e 1920 para ajudar a organizar a Revolta Espartaquista com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Em 1920, Radek voltou para a Rússia e entrou para o Comintern, mas a sua influência diminuiu, tendo sido expulso do partido em 1927. Entretanto foi readmitido em 1930, para depois ser preso na grande purga estalinista. Terá morrido na prisão.

A hegemonia neoliberal está manifestamente em declínio. O neoliberalismo atual não faz mais do que imaginar que acredita em si próprio e exigir que o mundo imagine o mesmo. A maior parte dos montantes gigantescos que os governos do Sul da Europa tiveram que despender a título de resgate, voltou a ir parar às mãos dos génios da criatividade especulativa financeira que falhou. As escolhas são arriscadas, dizem eles. Mas a verdade é esta: os gestores financeiros fazem a escolha, enquanto é o zé pagode com os seus impostos, e as suas hipotecas que arrisca. 

Imagens de microscopia eletrónica do COVID-19


Sanitarista tranquiliza foliões sobre risco de coronavírus no ...

O COVID-19 tem o formato de uma esfera, com um diâmetro que varia entre 60 e 140 nm (nanómetros). e a membrana glicoproteica, que envolve o material genético, está revestida por espículas proteicas com a espessura que varia entre 9 e 12 nm; que é o que permite ao vírus entrar na célula.


1 nm (nanómetro) - é um milésimo do μm (micrómetro) = 0,001; e um milionésimo do mm (milímetro) = 0,000001.


O ångström (Å) é a unidade de medida comumente utilizada na Física para lidar com grandezas da ordem do átomo ou dos espaçamentos entre dois planos cristalinos. O ångström equivale a 0,1 nanómetros.



A origem dos vírus não é totalmente clara. Porém, foram propostas algumas hipóteses:

Evolução química: Os vírus podem representar microrganismos extremamente reduzidos, formas primordiais de vida que apareceram separadamente na sopa primordial que deu origem às primeiras células. Com base nisto as diferentes variedades de vírus teriam tido origens diversas e independentes. No entanto, esta hipótese tem pouca aceitação.
Evolução retrógrada: Os vírus teriam surgido a partir de microrganismos parasitas intracelulares que ao longo do tempo perderam partes do genoma responsáveis pela codificação de proteínas envolvidas em processos metabólicos essenciais, mantendo-se apenas os genes que garantiriam aos vírus a sua identidade e capacidade de replicação.
Auto-replicação doADN: Os vírus originaram-se a partir de sequências de ADN autorreplicantes (plasmídeos e transposons) que assumiram uma função parasita para sobreviverem na natureza.
Origem celular: Os vírus podem ser derivados de componentes de células de seus próprios hospedeiros que se tornaram autónomos, comportando-se como genes que passaram a existir independentemente da célula. Algumas regiões do genoma de certos vírus assemelham-se a sequências de genes celulares que codificam proteínas funcionais. Esta hipótese é apontada como a mais provável para explicar a origem dos vírus

Diversos são os processos responsáveis por gerar variabilidade genética dentro de uma população viral. Entre tais processos, estão: mutações, recombinações, rearranjos genéticos em coinfeções, entre outros. A fidelidade e a frequência dos processos de replicação, as taxas de ocorrência de coinfecções, o modo de transmissão, o tamanho e a estrutura das populações (virais e de hospedeiros) são fatores que influenciam a geração da variabilidade genética viral. Quando os vírus se reproduzem no interior de uma célula, o material genético viral pode sofrer mutações, originando uma grande diversidade genética a partir de um único tipo de vírus. 

Vírus de ARN, que dependem das enzimas ARN polimerase ou transcriptase reversa para se replicar, que é o caso do COVID-19, apresentam taxas de mutação mais elevadas, se comparados a vírus de ADN. Isto ocorre porque tais enzimas não são capazes de corrigir os erros provocados no decorrer da replicação. O que parece paradoxal neste novo coronavírus COVID-19 é ter uma grande eficiência em corrigir erros. Ao passo que os vírus de ADN, que usam a maquinaria enzimática celular, apresentam taxas reduzidas de mutações genéticas, pois utilizam enzimas celulares que possuem a habilidade de reparar os erros gerados durante a síntese de ADN.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Um inimigo invisível - [1]


Um inimigo invisível chegou de rompante às nossas vidas e obrigou-nos a mudar muitos hábitos. Mas, em caso de infeção, como é que o coronavírus SARS-Cov-2 nos afeta? E porque é que pode afetar as pessoas de forma diferente? Ou por que razão as crianças têm uma forma menos grave da infeção? Ainda são muitas as questões que se colocam aos cientistas sobre este vírus. Mas as perguntas ainda são mais embaraçosas, tanto para cientistas como para teólogos, se quisermos saber como é que o Universo chega a uma situação destas, em que um objeto tão minúsculo, praticamente invisível, inferniza tanto a vida humana. A ignorância científica atual, para uma pergunta destas, é da mesma grandeza da ignorância teológica acerca dos desígnios do Ser Supremo. É inabarcável, insondável, inefável, imprevisível ... os seus desígnios são para os teólogos incompreensíveis, pelo que louvá-lo como bom ou justo é submetê-lo ao leito de Procustes da nossa contingência axiológica. A única descrição que assenta no Ser Supremo é pela via da negativa, que na sua linguagem os teólogos chamam apofática.


O cancro, a inundação ou o incêndio são fenómenos naturais eticamente neutros, ainda que constituam ameaças para os humanos. Nós sermos atacados por um leão é em si mesmo uma coisa boa, na medida em que nós não somos mais do que uma refeição para o leão que precisa de se alimentar para sobreviver, segundo a lógica do Ser Supremo. O capitão Ahab comete uma loucura quando confunde a Moby Dick com a essência do Mal. A sua perseguição é uma blasfémia aberrante, como o censura Starbuck numa célebre passagem do grande romance de Melville. Tudo isto faz parte das causas e efeitos naturais, pelo que não comprometem de modo algum a justiça divina. Mais difícil, porém, é alargarmos este critério até às enfermidades provocadas pela pandemia de um vírus que atingem os mais velhos indefesos sem misericórdia. A degeneração humilhante imposta pela velhice.


Tudo isto é natural e o decurso da Natureza, ao que parece, não pode prescindir de tantos horrores. Mas o que não se percebe é porque outros males que correspondem inequivocamente à perversidade intencional: a tortura, a escravidão, os campos de concentração, as chacinas constantes que ensanguentam as páginas da História escapam à justiça divina. Será que o Ser Supremo preservou Estaline e Hitler para que não percamos a referência do que é o bem e do que é o mal? Simon Blackburn, filósofo britânico, chamou a isto o argumento 007. Na primeira novela de James Bond- Casino Royal - a personagem criada por Ian Fleming, lamenta ter acabado com o seu inimigo Le Chiffre, pois assim privara o Diabo de um dos seus mais distintos divulgadores. Ao pobre Diabo não lhe damos nem uma oportunidade. Existe um Livro de Deus sobre o bem, como ser bom e tudo isso. Mas não existe um Livro do Mal sobre o mal e como ser mau. O Diabo não tem profetas que redijam os seus Dez Mandamentos, nem uma equipa de autores para escrever a sua biografia. De maneira que, os malfeitores deste mundo são como apóstolos bravios do Maligno, cuja função é a de não nos deixar esquecer em que consiste o mal. Acabar com eles levar-nos-ia a perder as referências. Talvez Deus partilhe este critério de James Bond.

Um pequeno milagre que fizesse desaparecer do mapa os Hitlers e os Estalines pareceria muito mais útil do que transformar a água em vinho num festejo matrimonial particular, argumenta um humorista quando lhe apresentam o milagre das Bodas de Caná. Porquê esses milagres, e porquê precisamente nessa altura. Todas estas questões muito sérias, apesar de tudo, não escapam ao bom humor das anedotas. Em finais do século XIX, o evangelista inglês George Borrow viajou por Espanha distribuindo bíblias protestantes às pessoas mias humildes do campo. Mas um dia teve de enfrentar um camponês andaluz; quando este soube a que Igreja pertencia, negou-se a continuar a escutá-lo com o seguinte argumento irrefutável: "Escute, eu não acredito na religião católica que é a verdadeira, muito menos vou acreditar na sua, que é falsa. Confrontados com objeções, os crentes refugiam-se no mistério inescrutável da vontade divina, esse asilo de toda a ignorância, como disse Espinosa. Os crentes mais ingénuos aceitam-na sem especial dificuldade. Basta praticar os rituais e cultos tradicionais, sem enveredar por estudos teológicos muito complexos.


Termino com a mesma interpelação em relação ao inimigo invisível, ser invisível é incomparavelmente mais interessante do que toda a essência palpável que conhecemos por mais inenarrável e indizível que seja.