segunda-feira, 20 de abril de 2020

Não deixemos que os falsos profetas nos desviem do caminho


Nestes dias de anormalidade nos conteúdos noticiosos, veiculados pelos órgãos de informação institucionais, é frequente vir-nos à memória momentos parecidos vividos no passado, como o 25 de abril de 1974, nos meus 21 anos, ou ainda reminiscências muito mais nebulosas de acontecimentos no país vividos com idades ainda mais verdes: sejam os noticiários de 1968, que durante vários dias ditavam os boletins de saúde de Sua Exa. O Senhor Presidente do Conselho – António de Oliveira Salazar –, nos meus 15 anos; sejam as comunicações ao país pela rádio – Emissora Nacional – em 1961, quando eu apenas tinha 8 anos, mas recordo-me muito bem de estar ao lado da minha avó e do meu pai, encostados ao aparelho de rádio com um ar sério e muito apreensivo, a ouvir as notícias do assalto ao paquete de Santa Maria; ou o discurso de Salazar a anunciar o envio de tropas para Angola rapidamente e em força, em que a Emissora terminava o noticiário com aquelas palavras de ordem marchadas "Angola … é nossa!, Angola … é nossa!, …"; ou a invasão da Índia às colónias portuguesas na Índia, e a palavra de ordem "Os sinos de Goa e as bombardas de Diu serão sempre portuguesas".

Fui aos Arquivos da RTP e da Fundação Mário Soares. Desses tempos deixo-vos aqui alguns links e resumos dos acontecimentos mais marcantes:

Dos Arquivos da RTP:

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/aniversario-de-antonio-de-oliveira-salazar/

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/discurso-de-antonio-de-oliveira-salazar/

Gravações filmadas que ocorreram aquando do 80º aniversário de Salazar em 28 de abril de 1969. População deposita flores no jardim e no átrio da residência oficial de São Bento em Lisboa; António de Oliveira Salazar lê mensagem (a primeira após a sua doença) de saudação e agradecimento aos portugueses que se interessaram pelo seu estado de saúde. Consta que nesse dia também, terá recebido a visita de um grupo de estudantes de Coimbra, a quem lhes terá oferecido um brinde com Vinho do Porto. Das fotos que lhe tiraram há uma em que ele está com o dedo apontado para os estudantes, em jeito de mestre-escola a ensinar meninos.

Dos Arquivos da Fundação Mário Soares, no ano de 1961: 

Janeiro: Publicação de "O Cristo Cigano", de Sophia de Mello Breyner Andersen; quarta-feira, 4 - Visita do presidente do Brasil Jânio Quadros que faz contactos com sectores oposicionistas. Jânio Quadros, presidente eleito do Brasil, visita Portugal e mantém contactos com sectores da oposição, designadamente Mário Soares e Acácio Gouveia; sábado, 21 - Assalto ao paquete "Santa Maria", chefiado por Henrique Galvão.


Fevereiro: sábado, 4 - Ataque à Casa de Reclusão Militar, o Quartel da PSP e a Emissora Nacional em Luanda por elementos do MPLA; domingo, 5 - Nota oficiosa, de Salazar, publicada na imprensa sobre o assalto ao "Santa Maria".

Março: segunda-feira, 13 - O delegado americano Addai Stevenson vota, no Conselho de Segurança da ONU, com os afro-asiáticos contra Portugal; 
quarta-feira, 15 - Início da guerra colonial depois dos ataques da UPA no Norte de Angola. Ataques levados a cabo pela UPA, de Holden Roberto, no Norte de Angola; quinta-feira, 23 - Início da discussão da situação de Angola na Assembleia Geral da ONU, tendo Portugal abandonado a sessão; terça-feira, 28 - Botelho Moniz encontra-se com Salazar; sexta-feira, 31 - Eleição de Álvaro Cunhal para Secretário Geral do Partido Comunista Português, na mesma reunião do Comité Central em que se critica o "desvio de direita".

Abril: Greve dos pescadores de Peniche e de Matosinhos. Os pescadores de Peniche e de Matosinhos entraram em greve, por razões salariais e de contrato de trabalho. quarta-feira, 5 - Encontro entre o Presidente da República e o Ministro da Defesa Botelho Moniz para discutir a carta enviada, por este último, a Salazar. O Presidente da República recebe o Ministro da Defesa Nacional, Botelho Moniz. Na base deste encontro está a carta elaborada pelo titular, e enviada a Salazar, em que a situação política nacional é qualificada de muito grave. No decorrer da entrevista, Botelho Moniz reafirma a análise já feita. Alguns dias depois, a 11, em nova reunião, desta vez acompanhado pelo Ministro do Exército, pede a demissão do Chefe do Governo, em nome do interesse nacional. A 12 o Presidente da República informa o ministro da Defesa ter reiterado a sua confiança no Presidente do Conselho; quarta-feira, 12 - Yuri Gagarine é o primeiro cosmonauta satelizado a bordo do Vosiok; quinta-feira, 13 - Tentativa para derrubar Salazar, liderada pelo Ministro da Defesa, Botelho Moniz, conhecida como "Abrilada"; Remodelação governamental passando Salazar a deter a pasta da Defesa e Adriano Moreira e Mário Silva ocupam, respectivamente, o Ultramar e o Exército. Salazar dirige uma «Declaração ao País». "(...) andar rapidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão (...)"; domingo, 16 - Fracassado desembarque anti-castrista na Baía dos Porcos

Maio: Prisão de subscritores do "Programa para a Democratização da República". 
Começam a ser detidos pela policia política os 62 subscritores do Programa para a Democratização da República. Mário Soares cumpre seis meses de prisão; quinta-feira, 4 - Apelo feito no jornal "Avante!" para que os soldados desertem e não embarquem para a guerra em África; Remodelação governamental com a entrada de Santos Júnior, Franco Nogueira, Gonçalves de Proença e Lopes de Almeida, para as pastas do Interior, Negócios Estrangeiros, Corporações e Previdência Social e Educação Nacional; domingo, 28 - Criação da Amnistia Internacional. A criação da Amnistia Internacional prende-se directamente com a vida política portuguesa, já que a sua origem está relacionada com uma notícia no jornal inglês "The Observer", na qual se relatava a prisão de estudantes que tinham gritado "Viva a Liberdade!". O advogado Peter Benenson apelou para que se organizasse ajuda para os homens e mulheres presos por questões políticas, religiosas ou devido a preconceitos raciais ou linguísticos. Este apelo teve sucesso. 

Junho: Imposto sobre consumos tidos como supérfulos ou de luxo, para financiar o esforço de guerra; quinta-feira, 22 - Remodelação governamental com a entrada de Correia de Oliveira para ministro de Estado Adjunto do Presidente do Conselho e Kaúlza de Arriaga para secretário de Estado da Aeronáutica

Julho: segunda-feira, 3 - Concursos de apostas mútuas desportivas organizados e explorados em esclusividade pela Santa Casa da Misericórdia. A Santa Casa da Misericórdia começa a organizar e a explorar, em regime de exclusividade para a metrópole e para os ultramar, os concursos de apostas mútuas desportivas.

Agosto: terça-feira, 1 - A República de Daomé (Benin) exige a retirada de portugueses do Forte de São João Baptista de Ajudá e o representante português incendeia o forte. As autoridades do Daomé exigiram aos dois portugueses residentes o abandono do Forte de São João Baptista de Ajuda. Agostinho Borges e Meneses Ayres incendiaram o forte. O pequeno enclave português do forte de São João Baptista de Ajudá, situado na República do Daomé; sábado, 12 - Construção do muro de Berlim, durante a noite de 12 para 13.

Outubro: sexta-feira, 13 - Carta aberta de Amílcar Cabral ao Governo português, reclamando a independência da Guiné e de Cabo Verde

Novembro: sexta-feira, 10 - Palma Inácio é o responsável pela "Operação Vago", desviando um avião da TAP que sobrevoa Lisboa e outras localidades, lançando panfletos denunciando a "burla das eleições". Durante a campanha para as eleições legislativas, um pequeno "comando" de partidários de Henrique Galvão, chefiado por Hermímo de Palma Inácio desvia em pleno voo um avião da TAP e obriga-o a sobrevoar Lisboa e outras localidades do País, lançando panfletos a denunciar a "burla das eleições".

Dezembro: segunda-feira, 4 - Vários dirigentes comunistas (Francisco Miguel, José Magro, Costa Carvalho, António Gervásio, Domingos Abrantes, Ilídio Esteves) fogem da prisão de Caxias, utilizando um carro blindado, e dias depois, são presos vários membros do PCP. Utilizam um carro blindado que durante a guerra fora oferecido por Hitier a Salazar. Dias depois Pires Jorge, Octávio Pato, Carlos Costa, entre outros membros do Secretariado do Comité Central do PCP são presos; segunda-feira, 18 - Ocupação de Goa, Damão e Diu por tropas da União Indiana; terça-feira, 19 - É morto pela PIDE o escultor e militante comunista, José Dias Coelho numa rua de Alcântara; quinta-feira, 21 - Tschombé aceita pôr termo à secessão do Katanga Congo;  A 24 a ONU manifestara o seu apoio ao governo central e a sua intenção de agir contra a secessão do Katanga; domingo, 31 - Revolta militar falhada em Beja, sendo morto o secretário de Estado do Exército, Filipe Fonseca, comandada por Varela Gomes e com a presença de Humberto Delgado que reentrara clandestinamente no país para comandar a revolta. O malogro da operação faz com que abandone novamente o País. Varela Gomes, no comando dos elementos em revolta, é ferido e preso.


domingo, 19 de abril de 2020

Quem sabe para onde se vai?


Em 19 de abril de 2020 Portugal - 20.206 / 714 / 610; Suécia - 14.385 / 1.540 / ---; Grécia - 2.235 / 113 / 269.


 A Natureza é por natureza não-linear. O vírus não descobriu nada par nos lixar, porque o vírus não tem inteligência. Na realidade, aqui não há inteligência nenhuma. É a Natureza que é assim, matemática, digamos assim, ela não se estrutura linearmente. Mas nós, seres humanos, sapiens sapiens, temos inteligência suficiente para conseguir contrariar a ordem não-linear da Natureza.

As epidemias são matemáticas. E a Economia, que também é matemática, liga-se inextricavelmente às epidemias. Mas a Economia não é tudo: hospitais, escolas, farmácias, máscaras, luvas e viseiras.

Nesta pandemia por covid-19, as pessoas com mais de 75 anos de idade são as mais atingidas. E destas, há mais mulheres atingidas do que homens, numa relação de 3 para 1. É um facto que na população portuguesa a relação de homens /mulheres com mais de 75 anos de idade é de 3 para 5. Mas com este covid-19 são mais os homens do que as mulheres, desse grupo etário, a morrerem. A explicação deve estar na mesma razão porque há mais mulheres que homens com mais de 75 anos de idade, quando à nascença há mais homens que mulheres. Ou seja, os hábitos de vida, que envolve o vício do cigarro e do álcool, deve ser um factor desfavorável à sobrevivência.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Chile - mundo do fim do mundo



A morte de Luís Sepúlveda, ontem, levou-me de novo a revisitar as minhas memórias do ano de 1973, quando a minha monitora das práticas de Anatomia Descritiva me narrou as atrocidades que se estavam a passar no Chile depois do golpe militar sangrento que derrubou Salvador Allende. Luís Sepúlveda, que havia aderido ao Partido Socialista Chileno depois de ter sido expulso da Juventude Comunista, encontrava-se no Palácio de La Moneda, a fazer guarda ao Presidente Allende, aquando dos trágicos acontecimentos que levaram à morte Allende, que segundo dizem, ter-se-á suicidado com uma metralhadora que lhe havia sido oferecida por Fidel Castro. Portanto, membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, teve de abandonar o país após o golpe militar que levou ao poder Augusto Pinochet, que havia de durar 17 anos.

Tudo isso obriga-nos a pensar como pôde um país, até então democrático, chegar ao ponto a que chegou. Refiro-me à crueldade e sadismo de muitas pessoas que assassinaram muitos dos seus compatriotas após tortura, sem que se encontre uma explicação para isso. É certo que os desígnios marxistas, e as ligações cubanas de Allende, haviam deixado as Forças Armadas num estado de paranoia incomensurável, marcada pelos acontecimentos dos mísseis com ogivas nucleares soviéticos a servir de ameaça ao poder americano, tendo na altura como presidente John Kennedy, no início dos anos 60.

Seja como for, é muito surpreendente como foi possível, ainda para mais Pinochet tudo fez para fazer passar uma imagem de pessoa de bem, católico e pai de família. Pinochet é o protótipo dos líderes políticos maléficos que marcaram a diferença no rumo da História, sem que muito boa gente se tenha apercebido. Ou, ainda mais do que isso, nunca tenham acreditado que tenha sido o principal ordenador das torturas e mortes, em suma da grande carnificina que vitimou muitos chilenos no início da sua ditadura.

Infelizmente, e a propósito, estou a lembrar-me do recente caso do cidadão Ucraniano que foi assassinado após tortura numa dependência do Aeroporto de Lisboa às mãos dos agentes do SEF português. Isto é para estarmos cientes de que todos os países têm milhares de sociopatas que cometem atos tão tenebrosos, ao ponto de nem sequer termos coragem de os descrever, e sem que esses atos lhes tenham sido ordenados por um qualquer princípio patriótico como aqueles que nos são narrados em cenários de guerra bárbaros. Quem já esteve detido, mesmo em países como o Reino Unido e os Estados Unidos, e não é preciso invocar Guantanamo, pode muitas vezes testemunhar o infortúnio que teve com as experiências de sadismo dos guardas prisionais e dos agentes da Lei, sem que tenham recebido ordens específicas para serem sádicos. Imagine-se com seria o comportamento desses agentes caso recebessem ordens explícitas para serem sádicos. Que foi o que se passou no Chile às ordens de Pinochet. 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Da astúcia eufemística


Se a astúcia eufemística não fosse a arte da política, não sei o que seria … o Senhor Presidente sabe do que estou a falar e como as paredes têm ouvidos... falo-lhe, até para me certificar do seu modo de pensar.

Bem me queria parecer que havia alguém por detrás ... diga lá a esse amigo, sem nome, que gostaria de o ver antes de morrer. No ocaso da vida, uma réstia de esperança por estes dias: sair e dar uns passeios de carro. Não expressemos preferência por itinerários, a não ser que nos proponham o mar. E assim foi hoje, com uma diferença: estava extremamente mal disposto, por causa dos cortes à OMS. Brinquei com o motorista, inventei um trocadilho a partir de uma palavra ouvida a uma enfermeira. Quis saber que era feito da primeira dama, que não aparecia há mais de uma semana. Bem, sentia-me lúcido, como há muito não me sentia.

A tosse obrigou-me a fazer uma pausa, quando ia falar da sua astúcia política, quer para os assuntos da política interna, quer da ordem internacional. Ele comentou que da missa eu nem sabia a metade. Teria havido conivência de alguém? Talvez. Estas coisas são sempre um tanto obscuras. Neste caso, se bem me lembro, comprovou-se a conivência de um elemento das forças que tinham a segurança a seu cargo.

Ele ia mexendo num paninho de crochet, pousado sobre o braço da poltrona em que estava sentado. Como eu também nada dissesse, pareceu-me que era altura de atacar e perguntar, quer dizer, queria saber o que lhe havia dito o seu amigo, o ilustre Lampeduza. A resposta foi seca. E o brilho do olhar flamejante deu para entender que estava comprometido.

Um amigo meu também me contou que um dia o Senhor Presidente teria feito uma observação, que muito o intrigou. Ao seu amigo, de facto, não escapa nada. Se a política não fosse a arte da astúcia, eu diria que esse homem, às vezes, parecia movido por forças sobrenaturais. Demoníacas, divinas. A cada um, a sua interpretação, claro.

Quando eu quis saber se me autorizava a reproduzir o essencial da nossa conversa, sob a forma de texto, a sua reação foi vaga, algo como um gesto de indiferença. Por isso, aqui estou eu, no silêncio da noite que envolve a casa, a escrever estas frases malucas, numa tentativa esforçada de recriar um outro mundo, para que conste lá no fundo das brumas da memoria. A escrever em desconforto, certamente, pois não poderei deixar de lamentar o desinteresse que o seu gesto implicava. A todas as críticas tem ele conseguido resistir, a todos os ataques que lhe têm sido movidos por toda a oposição do mundo, incluindo o Secretário-geral das Nações Unidas.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O emaranhamento do mundo




Estas são imagens do tráfego aéreo no mundo, já depois de o Covid-19 (SARS-CoV-2) estar a viajar pelo mundo.

E esta imagem é de 13 de julho de 2018, em que cruzaram os céus mais de 200.000 aviões só num dia. Entre 1990 e 2015, o total mundial de chegadas de turistas internacionais (definidos como visitantes que ficam pelo menos uma noite) subiu de 440 milhões para 1,4 mil milhões de viajantes, sendo agora a China a maior fonte de viajantes. O total das viagens de passageiros disparou de cerca de 500 milhões em 1990 para mais de 3,2 mil milhões em 2015.

Viajar é o mais antigo impulso humano. Vejamos algumas narrativas históricas, a começar pelo tempo dos Descobrimentos, que foi o tempo também do Renascimento, em que um povo de um país pequeno, um dos mais velhos países do mundo com as suas fronteiras estáveis, se tornou grande ao desafiar o Adamastor na ponta sul de África, e o mundo se abriu para novas rotas marítimas nunca antes navegadas.

Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar à China e ao Japão, 1514 e 1542 respectivamente. Só depois foram seguidos pelos holandeses, espanhóis e britânicos. É claro que o interesse estava nas trocas comerciais. Mas no caso do Japão, isso não consistiu em trocas directas entre o Japão e a Europa. O comércio realizava-se com entrepostos localizados na costa chinesa, como foi o caso de Macau, e em outros pontos do Sudeste Asiático.

Consta que quando os primeiros portugueses chegaram ao Japão em 1542, abateram patos com as suas armas de fogo, ainda muito rudimentares. Os observadores japoneses ficaram de tal modo impressionados que viriam a desenvolver sofregamente as próprias armas de fogo. Assim, em 1600, o Japão contava com mais e melhores armas do que qualquer outro país do mundo. Os primeiros missionários cristãos chegaram em 1549, e em 1600 o Japão tinha já 300.000 cristãos. Mas, entre 1636 e 1639, mandou crucificar milhares de cristãos japoneses, e cortou os laços com a maior parte dos europeus. O Cristianismo foi banido. E a maioria dos japoneses foi proibida de viajar para fora do país. Assim, até 1853, ano em que rebentou uma crise e que se intensificou com a Restauração Meiji de 1868, o contacto do Japão com o exterior foi limitado e sempre controlado pelo governo japonês.

Até à Restauração Meiji, o verdadeiro governante do Japão era o xogum, um ditador militar cujo poder era hereditário. À semelhança da Europa medieval, o Japão de 1853 era ainda uma sociedade hierárquica feudal, dividida em vários domínios, cada um controlado por um senhor chamado dámio, cujo poder ultrapassava o de um senhor medieval europeu, ainda assim precisava de autorização do xogum para casar, para mudar de residência ou para fazer obras. Portanto, os xoguns eram uma linhagem Tokugawa, que apesar de terem permanecido no poder muito tempo, criavam muitos problemas à urbanização e à classe mercantil em ascensão. O choque da sua queda só foi possível graças à chegada dos europeus. A 8 de julho de 1853, o comodoro Matthew Perry, a mando do presidente americano, entrou com a sua frota na baía Edo (baía de Tóquio) e entregou uma carta com exigências. E declarou que esperava uma resposta quando regressasse, no ano seguinte. Quando Perry regressou no ano seguinte, desta vez com uma frota de nove navios de guerra, o xogum assinou o primeiro tratado do Japão com um país ocidental.

Entre 1499 e 1559, enquanto as cidades mais urbanizadas de Itália se envolviam em conflitos armados, Lisboa e Sevilha quintuplicaram a sua população. A urbanização traz muitos benefícios, mas também traz novos riscos. No oriente, Constantinopla já havia sido conquistada pelos Otomanos em 1453. E Veneza, Florença e Roma haviam recebido milhares de gregos fugidos dos turcos. Mais uma crise, que em si é sempre um perigo e uma oportunidade. Em 1478, Fernando e Isabel de Espanha começaram a perseguir e a expulsar milhares de judeus e muçulmanos em nome da unidade nacional e da pureza católica. Os muçulmanos do norte de África, que haviam ocupado extensas zonas do sul da Península Ibérica, agora eram hóspedes indesejados na sua própria casa. O sultão otomano 
Bayezid II enviou a sua própria marinha para ajudar a transferir os judeus da Península Ibérica para o seu império, salientando mais tarde que a postura anti-imigração dos católicos havia empobrecido o país deles e enriquecido o seu.

E é a partir daqui que faço entrar de novo na cena da História os vírus. Com a chegada dos portugueses e espanhóis ao Novo Mundo, também levaram consigo vírus que os corpos dos indígenas desconheciam, como por exemplo o vírus da varíola. E devido a isso, mas não só, a mortandade de Sul-americanos nativos foi imensa.

Assim, no ano de 1600 foram transportados cerca de 400 mil africanos e postos ao serviço de cerca de 250 mil europeus nas suas colónias. Mas este empreendimento sinistro apenas começara, e viria a aumentar muito mais nos anos seguintes. Os escravos locais poderiam ter saído mais baratos, mas os vírus europeus já haviam feito o seu serviço. Entretanto, no norte da Europa estava a passar-se um novo cataclismo religioso, desta vez em resultado da Reforma de Lutero. A violenta divisão da Cristandade entre católicos e protestantes deu origem a uma migração em grande escala para a América do Norte.

Voltando de novo aos dias de hoje, até agora, globalmente, havia cerca de 17 milhões de pessoas a mudar de país todos os anos ao abrigo de várias categorias de vistos. E apesar do recrudescimento dos nacionalismos xenófobos, havia um consenso entre os economistas: os migrantes são uma fonte fundamental de inovação e de trabalho, logo, de riqueza. E isto prendia-se com um problema: o da demografia. Portugal é um dos cinco países do mundo com mais idosos, estando em primeiro lugar o Japão, seguido depois da Itália, Grécia e Finlândia. O índice de envelhecimento em Portugal, 2018 (número de idosos por cada 100 jovens) - era de 157,4. Note-se que em 1961 era de 27,5. Uma pessoa é idosa a partir dos 65 anos. O Japão, não é por acaso, quer passar a considerar idoso só depois dos 75 anos de idade, tendo em conta os ganhos na esperança de vida.



terça-feira, 14 de abril de 2020

Os 4 cavaleiros do Apocalipse



O que está por trás dos símbolos, e qual é a real mensagem de mitos pretéritos que podem ser contextualizados nos dias de hoje? Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse: é sem dúvida uma das mensagens Bíblicas mais intrigantes, pelo simbolismo que encerra. A história tratou de destacá-los da Bíblia, transformando-os num mito que recebeu diversas interpretações ao longo dos séculos. Assim como o Génesis é a porta de entrada da Bíblia, que se inicia com a descrição da criação, relatada pelos sacerdotes do exílio Babilónico, tendo como figura central o Deus que cria ex nihillo, podemos dizer também que o Apocalipse é a porta de saída da Bíblia, em que é montado um grande palco, com um cenário espetacular, em que os personagens simbólicos são animais e pessoas que se misturam, entrando e saindo de cena a todo instante, com direito a trovoadas, terramotos e toques de trombetas, tendo como ponto máximo, a figura central mais importante desse drama que narra toda a história da humanidade. 

O livro do Apocalipse é um livro enigmático, de difícil leitura e interpretação. Para muitos é um livro intocável, somente acessível a teólogos. Não são poucos os que fazem uma leitura conveniente, tirando dele passagens que justificam esta ou aquela atitude. Há muita confusão quanto à sua leitura, em função de uma linguagem cifrada, codificada e simbólica que esse livro encerra. Por exemplo, na 
linguagem simbólica do Apocalipse, quando o autor se refere ao Cordeiro, logicamente ele associa essa imagem à pessoa de Jesus à espera de que os cristãos daquela época, quando ouvissem a palavra Cordeiro, logo percebessem que se tratava de Jesus e não do animal em si. O símbolo tem, portanto, essa capacidade de evocar, de manifestar, de revelar aquilo que está oculto.

Que lendários cavaleiros?  Que mensagem? Escrito por volta do ano 95, tinha por finalidade o consolo e a exortação à perseverança na fé dos cristãos que estavam sofrendo com a perseguição do Império Romano, pelo facto de se negarem à adoração da imagem do imperador da época, Domiciano, a besta apocalíptica por excelência. Para se proceder a uma leitura correta de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, é necessário conhecer o tipo de literatura da época em que foi escrito o livro, no qual esse texto está contido. Sem dúvida, o apocalíptico exerce uma fascinação mórbida sobre a mente humana. 

Além de ser o último livro da Bíblia, o Apocalipse é o único livro profético do Novo Testamento. Apocalipse em grego significa tirar o véu ou desvendar. O livro é uma Revelação, da qual Jesus Cristo é ao mesmo tempo, autor e figura principal e central, para o qual converge toda a Revelação referente ao passado, presente e futuro, pois Ele é o vértice de tudo o que está escrito. É consenso no meio literário bíblico que existe mais de um autor do Apocalipse. Mas, para todos os efeitos, o nome de João, como autor e personagem desse livro, é o que vigora. Trata-se de um escritor radicado no Oriente, de grande fantasia, um profeta que vislumbra os destinos humanos num horizonte de eternidade, um vidente que presencia o último acontecimento do mundo: o choque entre o bem e o mal. João usou como recurso metodológico um género literário que fazia parte daquela época: a apocalíptica desenvolvida entre os séculos II a.C. e I d.C.  

É um livro com forte conotação político-religiosa, pois os escritos apocalípticos são caracterizados por uma visão pessimista da história, entre um presente catastrófico, e um futuro radioso e redentor. As catástrofes neles descritas, que afetam todo o Universo, precedem o estabelecimento do Reino de Deus no mundo. Os textos apocalípticos têm um caráter revolucionário e subversivo, pois se trata de uma crítica velada ao opressor do momento. Havia várias razões para o uso da linguagem simbólica pelos autores: ocultar dos estranhos e revelar aos iniciados; impressionar e causar um efeito dramático e emocional; dirigir a obra à imaginação (não à razão); descrever o indescritível; ser ambíguo. Para entender o Apocalipse, portanto, é preciso descobrir o que está por trás das palavras, dos símbolos. O Apocalipse está repleto de simbolismo. João usa e abusa dos símbolos na transmissão de acontecimentos, de ideias e sentimentos, que de outra forma não poderiam passar. A pretensão do autor apocalíptico era apresentar de alguma forma o inimaginado para nos sugerir a grandiosidade do divino.  Assim, ao seguir uma tradição de género apocalíptico já presente no Antigo Testamento, principalmente no livro de Daniel, João lança mão de uma linguagem simbólica envolvendo elementos da natureza, números, cores, sons, objetos e animais, para levar a mensagem de Deus ao seu povo perseguido pelas forças do mal. 

O ser humano é um ser simbólico. Tudo aquilo que produz está de alguma maneira impregnado de simbolismo e isso o diferencia dos animais irracionais. Assim, o ser humano em suas experiências quotidianas, está continuamente a produzir símbolos, não apenas na linguagem, mas em todas as suas manifestações afectivas. Sistemas simbólicos aos quais se associa o sistema religioso, que ocupa lugar especial. Símbolo vem do grego sum-ballo ou sym-ballo, que significa juntar, associar. Seu contrário é o dia-ballo (diabo), separar. A função do símbolo é a junção (união) de dois elementos que embora separados, se evocam, se iluminam, se complementam mutuamente. O símbolo é uma maneira especial de ler a realidade, pois o mesmo revela uma dimensão mais profunda que a olho nu não se vê. Ao juntar dois elementos separados, por essa junção, iluminam-se mutuamente. Entender o que seja o símbolo é importante, no que se refere à leitura do Apocalipse, porque o mesmo é uma chave para ler a realidade de outra maneira. Revela uma dimensão mais profunda que a olho nu não se vê.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, juntamente com os seus cavalos, correspondem aos quatro primeiros selos de um dos cinco setenários que compõem o Apocalipse. A história cuidou de destacá-los daquele livro, como se fosse uma história em particular, transformando-o num mito que ao longo dos séculos foi motivo de diversas interpretações. Por todas as desgraças que anunciam, os quatro cavalos e cavaleiros sempre foram vistos como sinal do fim do mundo. E durante a Primeira Guerra Mundial, muitas seitas protestantes acreditaram ter chegado o fim. 
As previsões escatológicas anunciadas pelos quatro cavaleiros também se encontram nos evangelhos sinópticos, como anúncios de guerra, de conflitos mundiais, de tremores de terra, de fomes, de perseguições e de perturbações celestes. Isso demonstra haver um paralelismo entre esses textos, a que João recorre para ilustrar o cenário a partir do qual irá descrever suas visões desses quatro cavaleiros extraordinários, revestidos de toda uma simbologia, por trás da qual se encontra a mensagem que queria passar ao povo da época. A desconstrução do mito que se criou em torno desses cavaleiros é assim um desvelar do que está por trás dos símbolos que o texto apocalíptico apresenta.

Os números são os elementos simbólicos mais constantes no Apocalipse. O número 7 aparece 470 vezes em toda a Bíblia, sendo que no Apocalipse aparece 51 vezes. Indica totalidade, plenitude. O número 7 é a composição dos números 3 e 4, indicando plenitude, perfeição, totalidade. O 3 é o número de Deus que na língua hebraica compõe o superlativo Três vezes Santo, que significa santidade. E o 4, é um número cósmico que se refere aos quatro cantos da terra, significando também o número dos elementos do Universo: terra, fogo, água e ar. Desse número também se origina a palavra quadrangular, que é sinal de plenitude e perfeição. Quatro também são os seres vivos, que Indicam os seres mais fortes que presidem ao governo do mundo físico, indicando de igual modo os quatro elementos que formam o ser humano: touro (instinto), leão (sentimento), águia (intelecto), homem (rosto). A associação desses quatro elementos formavam o ser mitológico da Babilónia, chamado Karibu ou Querubim, e a Esfinge do antigo Egito, além de evocar as visões de Isaías e, sobretudo, de Ezequiel. 4 também são os cavalos e cavaleiros do Apocalipse. O simbolismo do cavalo na Bíblia costuma ser sinal do poder opressor [uma arma de guerra] que vem correndo, arrasando com tudo. Venha! Esse grito evoca a palavra criadora de Deus que chamava as criaturas e elas vinham, se apresentavam e começavam a existir e no Apocalipse, essa invocação "venha" refere-se ao começo de uma nova criação.

"Venha!. Vi então quando apareceu um cavalo branco." No oriente o branco é um sinal do luto, que no ocidente é o preto. O primeiro cavaleiro tinha um arco, e deram-lhe uma coroa. Ele partiu, vitorioso e para vencer ainda mais. Por ter em mãos uma arma de guerra, o primeiro cavaleiro é uma força negativa, geradora de morte. Tanto a cor do cavalo como a coroa são símbolos da vitória. O arco simboliza o poder dos exércitos. Devido à simbologia da cor branca desse primeiro cavalo e pelo facto de o mesmo vir montado por um cavaleiro triunfante invencível, muitos o atribui a Cristo, mas ao contrário do que pensam, não se trata de Cristo pois até aquele momento Ele é o Cordeiro pascal sacrificado, vindo a aparecer somente no capítulo 19, versículo 11, de forma triunfante e invencível montado num cavalo branco. Na realidade, esse primeiro cavaleiro com toda probabilidade simboliza o Anticristo, que continua vitorioso até que Cristo venha desarmá-lo. Por isso, ele está vestido de branco, como Cristo, a quem procura imitar. É o lobo em pele de cordeiro. Os personagens desse primeiro selo, o cavalo branco e seu cavaleiro, portador de um arco, remete aos Partos, cujo império rivalizava com o de Roma. Os Partos eram conhecidos como criadores de cavalos brancos, chamados de feras da terra, e tinham como arma de guerra o arco. Os Partos tinham a pretensão de conquistar tudo pela força, sendo por isso o símbolo da ganância e eram ameaça constante para os Romanos. João imaginava que uma vitória maciça contra Roma. Assim, embora os Partos fossem perigosos e temidos por todos, inclusive pelos cristãos perseguidos naquela época, no entanto estes viam neles uma esperança pela possibilidade que representavam, de uma derrota do Império Romano. A mensagem de Jesus que João queria passar, escondida por trás desses símbolos, é que os cristãos perseguidos deveriam abrir os olhos a fim de descobrirem que na origem de todas as relações sociais se instalaram a cobiça e o desejo de dominar. 

O segundo cavaleiro Vi quando o Cordeiro abriu o segundo selo. E ouvi o segundo Ser vivo dizer: Venha. Apareceu então outro cavalo, era vermelho. Seu cavaleiro recebeu poder para tirar da terra a paz, a fim de os homens se matarem uns aos outros. E entregaram para ele uma grande espada. O segundo cavaleiro, a exemplo do primeiro, tem também em mãos uma arma de guerra, uma espada, com a qual derrama sangue. O cavalo vermelho simboliza os poderes hostis a Deus que desencadeiam guerras civis no seio dos povos e fazem que as pessoas se voltem contra seus próprios irmãos e se degolem mutuamente. Muitas guerras civis haviam acontecido no Império Romano entre 41 d.C. e 69 d.C. Portanto, esse cavaleiro por todos os símbolos que o acompanham, significa nitidamente a guerra e a violência na história. A cor do cavalo vermelho se encaixa perfeitamente à realidade da época, em que pela força da espada os romanos espalhavam o terror, derramando sangue inocente, com a pretensão de impor a paz no mundo. A pax romana era uma paz de cemitério, imposta goela abaixo sem qualquer oposição, porque qualquer sinal de reação poderia significar a perda da vida. Com a descrição do conjunto simbólico desse segundo selo, o Apocalipse critica fortemente a pax romana, dizendo que o segundo cavaleiro tira da terra a paz, pois se impõe pela violência. Se o primeiro cavaleiro simboliza a ganância de poder, o segundo cavaleiro é filho do primeiro, pois a violência é filha da ganância, enfim, são duas forças aliadas do mal que atuam juntas ao longo da história. O que a mensagem apocalíptica quer mostrar é que uma sociedade fundada sob a ganância tem no alto da pirâmide os poderosos que esmagam os pobres, os pequenos. O segundo cavaleiro tem o poder de tirar a paz da terra, a fim de que os homens se destruam uns aos outros. Isso é o que acontece quando se elege a ganância como princípio que regula as relações sociais, as pessoas se matam entre si para ter mais.

 O terceiro cavaleiro Vi quando o Cordeiro abriu o terceiro selo. E ouvi o terceiro Ser vivo dizer: Venha!. Apareceu então um cavalo preto. O cavaleiro tinha na mão uma balança. Ouvi uma voz que vinha do meio dos quatro Seres vivos, e dizia: Um quilo de trigo por um dia de trabalho! Três quilos de cevada por um dia de trabalho! Não danifiquem o óleo e o vinho. O cavaleiro desse terceiro selo, ao invés de uma arma (como os dois primeiros), traz na mão direita uma balança. A balança é símbolo do comércio. É um instrumento para pesar os alimentos. Tanto o cavalo preto, como o cavaleiro e a balança simbolizam a injustiça social da época. Simbolizam a fome e a carestia que normalmente assola a população pobre, em tempos de guerra. A cor preta desse terceiro cavalo simboliza a fatalidade à qual estava destinado o povo sofredor e que não tinha o que comer. Um denário, por um dia inteiro de trabalho dava unicamente para comprar um litro de trigo. A situação era de apertar o cinto mesmo. João quer mostrar que o terceiro cavaleiro, juntamente com o seu cavalo, são responsáveis por esvaziar o bolso do povo, apertando o cinto a quem trabalha, que não tem como defender a vida. Isso é resultado da ganância que gera a violência, que por sua vez provoca a exploração económica. É o poder da balança, desmascarada pela denúncia profética (a voz que vem do meio dos 4 Seres vivos). A escassez dos alimentos básicos do pobre, o trigo e a cevada, se dá pelo facto de que o imperialismo romano havia roubado todas as terras dos povos conquistados, tornando o império o grande latifúndio do imperador. Com isso, ao invés de plantar cevada e trigo para seu próprio sustento, o povo dominado produzia óleo e vinho para a capital romana. Isso fez com que o trigo e a cevada se tornassem produtos escassos, com um preço exorbitante. Desta forma, enquanto o rico se fartava com o supérfluo, o povo morria de fome. Deixou-se de produzir para uma economia de sobrevivência (trigo e cevada) e o povo teve de trabalhar a terra do governo para exportar e sustentar os poderosos. Em Ezequiel (4,9), encontramos uma situação semelhante, devido à infidelidade do povo de Deus. Trigo, vinho e azeite eram sinal da abundância que Deus oferece ao seu povo. Mas estas coisas iriam faltar, caso o povo não fosse fiel à lei de Deus. Verifica-se na descrição desse terceiro cavaleiro a falta dos alimentos básicos, enquanto o óleo e o vinho ainda são preservados. João quer mostrar que o poder do opressor tem um limite e que Deus continua protegendo o seu povo, afinal, basta uma carestia para mostrar toda a fragilidade de seu poder e o castigo do opressor será tanto maior quanto mais sobrarem os bens supérfluos e mais faltarem os necessários, indicados pelo óleo e pelo vinho. 

O quarto cavaleiro Vi quando o Cordeiro abriu o quarto selo. E ouvi o quarto Ser vivo dizer: Venha!. Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro era a morte. E vinha acompanhado com o mundo dos mortos. Deram-lhe poder sobre a quarta parte da terra, para que matasse pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra. O quarto cavaleiro tem três coisas que o diferenciam dos primeiros: não porta qualquer arma nas mãos; é o único que tem um nome: a morte ou a peste e tem um acompanhante simbólico, o Hades (morada dos mortos), o que equivale dizer que esse cavaleiro é seguido por todos os poderes hostis ao projeto de Deus. A cor esverdeada do cavalo por ele montado, é a cor de cadáver que apodrece, simbolizando a morte. Normalmente após as guerras e a fome que delas resulta, seguem-se períodos de epidemia, pandemia, peste que muitas vezes levam à morte. É o que esse cavalo e cavaleiro, com o seu companheiro de caminhada simboliza. Este cavaleiro encarna em si, como uma síntese, todos os outros três cavaleiros: a ganância (primeiro cavalo/cavaleiro), que gera a violência (segundo cavalo/cavaleiro), que por sua vez provoca a exploração (fome) (terceiro cavalo/cavaleiro) que leva à morte. No entanto, a morte não terá a última palavra. Ela acaba com um quarto da humanidade, ou seja, o seu poder é limitado. 

 O mito dos quatro cavaleiros, como portadores de catástrofes que remetem ao fim do mundo, ao longo da história, a conclusão à qual chegamos é a de que não dá para fazer uma leitura correta do mesmo, sem considerarmos o período histórico ao qual se refere, não podendo ser destacado dos demais textos do Apocalipse, porque todos os capítulos desse livro formam um conjunto único. Os quatro cavaleiros do Apocalipse portanto, só se complementam com a abertura dos três restantes selos: o quinto, representando o trono de Deus transformado em templo celestial semelhante ao templo de Jerusalém, no qual as comunidades ao ouvirem o grito angustiado dos mártires que se encontram debaixo do altar, degolados que foram pelo testemunho da Palavra de Deus, clamando por justiça, reconhecem o tempo presente, o tempo de perseguição no qual estão vivendo, mas que em breve acabará, pois Deus não tarda com sua justiça que virá com o sétimo selo. Antes, porém, a abertura do sexto selo lembra as previsões do capítulo 13 de São Marcos, cuja narrativa faz eco às descrições dos profetas sobre a chegada do Dia do Senhor no Antigo Testamento. Os perseguidores fogem apavorados: reis, militares, magnatas, poderosos, todos perdendo o sentido da existência e buscando o impossível: escondem-se da face de Deus. É a descrição simbólica do fim do mundo, em que o mundo de baixo se desintegra. O sol perde o brilho, a lua fica como sangue, as estrelas caem, o céu se enrola, as montanhas e as ilhas são removidas de seu lugar. Desta forma, a antiga criação se desestabiliza e começam as dores de parto da nova criação. É a chegada do Dia de Javé e fica a pergunta no ar: Nesse cataclismo universal, o que acontecerá com as comunidades?  

O Apocalipse, se bem lido e interpretado, sempre terá o seu valor para o nosso tempo. Ao contrário do que muitos pensam ou interpretam erroneamente, o Apocalipse foi escrito para aquela época, mas os seus ensinamentos permanecem  até aos dias de hoje, valendo, portando para os nossos dias, mas sempre em vista do que aconteceu naquela época. Sua mensagem, escondida atrás dos símbolos, é de uma riqueza tão grande, que muito tem a nos dizer nos dias de hoje, não eliminando, portanto, interpretações actualizadas dos quatro cavalos e dos quatro cavaleiros que os montam, pelo contrário, é bom que, em cada época, o homem reflicta sobre quais são os cavalos e os cavaleiros do mal, e que cores têm. Isso tudo leva-nos a afirmarmos que destacar apenas uma parte de um todo, sem conhecer os demais textos que com ele se correlacionam, é incorrer no erro de interpretações isoladas que nada tem a ver com o que é real, quando visto em todo o seu conjunto. Foi o que aconteceu com os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, que ao longo da história transformou-se num mito, cujo significado se distancia muito do seu significado original.


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Sobre a Natureza e o conceito de justiça natural sem culpa


All the best, bad is the best 

Até há muito pouco tempo, para a maior parte das pessoas, a morte só nos levava depois de uma longa luta médica. A morte era certa, mas a hora da sua chegada era disputada. A pandemia Covid-19 veio mostrar como tudo muda de um dia para o outro. A dada altura os médicos já não sabiam muito bem o que significava estar a morrer. Nas últimas décadas a ciência médica havia tornado obsoletos séculos de experiência, dificultando à humanidade a reverência especial ao ato de morrer. Enquanto na medicina curativa, se o objetivo já não ia a tempo de curar, ao menos prolongaria a vida; na medicina paliativa, o objetivo é fazer com que os últimos dias de vida do doente sejam passados com o menor sofrimento possível. Os cuidados paliativos têm tentado oferecer um novo ideal para a maneira como morremos. Embora nem toda a gente tenha aceitado de braços abertos os seus rituais, as pessoas que a aceitaram adotaram uma espécie de ars moriendi do nosso tempo. Para isso é necessário um conatus e uma equanimidade infinita para enfrentar a motivação imparável para a medicalização da morte nos últimos dias de vida.

Temos ainda alguns exemplos admiráveis, como o do senhor B.J., na fase terminal de um cancro. Morreu em casa, em paz e rodeado pela família depois de ter passado um mês nos cuidados paliativos, com um doseador de morfina instalado no seu corpo. Mas temos também, por outro lado, exemplos para dar no sentido oposto: M.L., também na fase terminal de um cancro, que nunca aceitou a incurabilidade da sua doença. Por isso, quando a família a encontrou em paragem cardíaca, ligou para o 112. Vieram: o INEM; os Bombeiros; e a Polícia. Arrancaram-lhe a roupa e fizeram as habituais manobras de ressuscitação: massagem cardíaca; intubação na garganta; e tentaram reanimá-la com um desfibrilador. Mas estes esforços raramente resultam em doentes terminais. E ela não foi exceção.

Mas a história da Sofia toca-nos comoventemente, dada a sua ainda jovem idade, e um bebé de poucos meses nos braços. Na manhã em que o marido acordou a vê-la sentada na cama, com uma falta de ar descomunal, que parecia que se estava a afogar, ele não teve dúvidas que tinha de a levar para o hospital. No hospital diagnosticaram uma pneumonia. A família ficou muito pesarosa por não o terem evitado, porque pensaram que tinham feito tudo ao retirar-lhe o bebé ao mais pequeno sinal de pingo no nariz; e terem lavado as mãos com frequência. Mas o sistema imunitário da Sofia, e a sua capacidade para expelir a expetoração ficara muito enfraquecida com a radioterapia e a quimioterapia, bem como a própria neoplasia, claro está, com metástases por todo o corpo, incluindo o cérebro. Ainda chegou ao dia seguinte. Mas, ao chegar a noite, ela disse: “já não consigo pensar em mais nada de esperançoso”. Só mais tarde é que a família reflectiu que estas foram as últimas palavras que ela proferiu. A equipa médica só tinha uma opção: ligá-la a um ventilador. A Sofia era uma lutadora, não era? Então, o próximo passo para os lutadores é passar para os Cuidados Intensivos. Mas os médicos decidiram que não.

Estas são as tragédias modernas, repetidas milhões de vezes, pelo menos nos países do dito "primeiro mundo ocidental". Quando não sabemos quanto tempo a nossa vida vai durar - e quando imaginamos que dispomos de muito mais tempo do que é verdade -, todos os nossos instintos nos impelem a lutar, a morrer com quimioterapia nas veias; ou com um tubo na garganta; ou com feridas suturadas na carne ainda recentes. São os familiares, mais do que os próprios doentes, a pedir aos médicos que façam mais alguma coisa. E eles fazem porque não se prepararam para dizer que já não há mais nada a fazer. Há sempre mais uma coisa a fazer. Até que venha finalmente a Natureza ditar a última sentença.

Nesta crise pandémica que estamos a atravessar, há um aspecto a termos em conta: a capacidade de toleramos a incerteza, a ambiguidade e a dificuldade para encontrarmos a melhor opção. É improvável que haja alguém, nesta crise, que tenha acertado à primeira a melhor maneira de lidar com as situações. Pelo contrário, ainda vão ser necessárias várias tentativas e muitos erros até acertarmos. Para isso são precisas duas coisas: paciência e flexibilidade. Quem não tolera a incerteza e o fracasso, tem menos hipóteses de sair disto sem traumatismo. Uma personalidade flexível ajuda muito em tempos de crise. Quem pensa que só há uma maneira de fazer as coisas, terá mais dificuldades em vencer sem ajuda. Por exemplo, é bom que enquanto crianças tenhamos tido a liberdade de dizer coisas fora da caixa sem grande ridicularização, e de fazer experiências fora das normas sem grande obstrução. A flexibilidade pode advir do facto de se ter podido fazer escolhas próprias ao longo do nosso amadurecimento antes da vida adulta.

Há atitudes que certos líderes políticos têm tomado nesta crise da pandemia que se têm revelado péssimas na minimização dos danos. É o caso do presidente dos EUA, Donald Trump, ao se eximir às suas responsabilidades de tomar medidas que devia te tomado em devido tempo e não tomou, por mera tática populista. Posteriormente, quando já era tarde, teve a sua habitual desfaçatez de endossar a sua negligência a terceiros. Quando verificou que as coisas não estão a correr bem. Confrontado com a necessidade da ajuda da China, escolheu a OMS como bode expiatório de todos os males. Uma outra atitude negativa, que tem a ver com a inflexibilidade para a resolução da crise económica, secundária à crise sanitária da pandemia, é a de alguns líderes europeus, em particular o ministro holandês da economia, ao ser demasiado rígido em viabilizar a solução que melhor serve a maioria dos países da zona euro, e que consiste na mutualização das dívidas soberanas. Há quem encontre na cultura calvinista dos Países Baixos a razão para uma atitude dessas. Portugal ainda mal se havia refeito da crise financeira de 2008. É claro que as nações também podem aprender com a experiência de crises anteriores, e com os erros alheios. Tal como os indivíduos, as nações podem, ou não, ser honestas nas suas autoavaliações. Para isso, um certo grau de consenso nacional ajuda. Felizmente, para já, é o que está a acontecer em Portugal.

Miguel Monjardino, na crónica do Expresso desta semana, pergunta se a Covid-19 é um sinal do recomeço ou da continuidade da História. Diz que há duas maneiras de tentar responder a esta pergunta. Uma delas, que parece dominante nesta fase inicial da pandemia nos países europeus, Estados Unidos e Canadá, aponta para a convicção de que a pandemia é um momento de rutura. A partir deste ponto singular, a História recomeçará. Henry Kissinger defendeu que “o mundo nunca mais será o mesmo depois do coronavírus”. Para lá de ser urgente gerir eficazmente a crise de saúde pública, é urgente começar a pensar na transição para uma nova ordem internacional pós-coronavírus. A outra maneira de ver o problema sugere que, depois da pandemia passar, haverá mais continuidade do que rutura. Washington tem vindo a executar uma estratégia de adaptação ao que considera ser o desafio chinês à sua posição dominante. No centro desta estratégia tem estado a proteção à sua base tecnológica e uma maior presença naval avançada no Pacífico Ocidental, Mar do Norte e Ártico. A prioridade no ocidente atlântico deverá ser a saúde pública e a defesa das bases tecnológicas e logísticas nacionais ou regionais. Em certas regiões do mundo haverá mais espaço estratégico disponível. Resta saber como e por quem será aproveitado.

Salvamos a vida, mas não salvamos a saúde dessas pessoas, dizem os intensivistas. Porque é que 80% das pessoas infetadas passam incólumes sem sintomas? E, porque é que dos restantes 20% de infetados, que são sintomáticos, uma minoria desses entra nos Cuidados Intensivos? Se não morrerem, quando saírem de lá vão ter de continuar por muito tempo, se calhar para sempre, com uma péssima qualidade de vida, não apenas com dificuldade respiratória, mas também com debilidades orgânicas de toda a ordem. Agora é preciso tempo e atenção, porque ainda é muito cedo para prognósticos. Os doentes, sobretudo os graves, têm de ser monitorizados nos 6 a 12 meses subsequentes. Para avaliar os efetivos estragos da doença, as ditas sequelas, é preciso realizar repetidamente muitos exames dispendiosos. E isso é um problema, porque não há sistema de saúde que consiga acomodar tanta solicitação num período tão curto de tempo.

Nas tradicionais fábulas, habituamo-nos a não levar a sério as cruas mensagens, acerca da "sábia Natureza", na forma de alegoria ou metáfora. É assim: a Natureza arranjou este vírus para o utilizar como vassoura demográfica, para corrigir o atrevimento que a espécie humana andou a fazer no último século, com o seu artifício, errado, de se autoprolongar em tempo de vida para além do que lhe era devido. E essa loucura fez com que a Terra se fartasse de tanta gente geronte, porque isso ia contra as "leis da Natureza". Assim, havia que repor o certo estado das coisas. Um homem velho no leito de morte revela aos filhos que há um tesouro escondido na sua vinha. Tudo o que tinham a fazer era cavar. Os filhos puseram-se a cavar, mas do tesouro nem sombra. Quando o outono chegou, porém, a vinha deu uma colheita como nunca se tinha visto. E foi então que os filhos perceberam que o pai lhes legara uma experiência: a bênção não está no ouro, mas no trabalho. Onde é que se encontram ainda pessoas capazes de contar histórias como deve ser? Quem é que ainda acha que pode deixar como legado para os vindouros a sua experiência de indigente?


domingo, 12 de abril de 2020

Angelus Novus


Angelus Novus de Paul Klee, 1920. Desenho em papel a nanquim, aguarela e giz pastel, atualmente fazendo parte da coleção do Museu de Israel em Jerusalém. 
Walter Benjamin (1892-1940) adquiriu o quadro em 1921. Após a morte de Benjamin, que se suicidou em setembro de 1940, Gershom Scholem (1897-1982), um notável estudioso do misticismo judaico, e grande amigo de Benjamin, herdou o desenho. Segundo Scholem, Benjamin tinha uma espécie de identificação mística com o Angelus Novus e incorporou isso em seus escritos sobre o Anjo da História, numa melancólica visão do processo histórico como um incessante ciclo de desespero. Segundo a tradição hebraica, um "Anjo Novo" é criado para executar uma ordem de Deus ou cantar um cântico novo e se extinguir em seguida. Walter Benjamin explica isso na apresentação da revista Angelus Novus: "Uma lenda talmúdica nos diz que uma legião de anjos novos é criada a cada instante para, depois de entoar o seu hino diante de Deus, terminar e dissolver-se no nada. Otto Karl Werckmeister observa que a interpretação de Benjamin sobre o Anjo Novo de Klee fez com que a imagem se tornasse "um ícone da esquerda". O nome e o conceito do Anjo também inspiraram artistas e músicos.

Walter Benjamin
IX - Sobre o Conceito da História
em O Anjo da História
da Assírio & Alvim

A minha asa está pronta para o voo altivo:
se pudesse, voltaria;
pois ainda que ficasse tempo vivo
pouca sorte teria.
(G. Scholem, Grus von Angelus)

Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se retém nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Essa tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Este vendaval é o que chamamos progresso.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Ser Mortal



Há pessoas que mudam o nosso imaginário. Encontramo-las nos lugares mais inesperados. E neste momento, nos meios que aparentemente estavam adormecidos aos olhos mundanos, saltaram para o mundo numa vibração clamorosa. 
Refiro-me às Unidades de Cuidados Intensivos (UCI), e às Residências para idosos. Essas pessoas estão a agora a aparecer em todo o lado, e bem. A nossa batalha, por sermos mortais, é a batalha para preservarmos a integridade da vida. A doença e a velhice já tornam a luta suficientemente difícil. Por isso, os profissionais e as instituições, a quem pedimos ajuda, têm bem a noção que não estão lá para dificultar ainda mais as coisas. Isto não significa que temos de sacrificar a nossa autonomia, só porque precisamos de ajuda, embora existam diferentes noções de autonomia. Uma delas é a autonomia como liberdade de ação: viver de maneira totalmente independente, sem coação e limitações.

De resto, devo lembrar que as nossas vidas estão inerentemente dependentes umas das outras, e sujeitas a forças e circunstâncias que escapam ao nosso controlo. A quantidade de liberdade que temos na vida não serve de bitola para aferir o valor dessa mesma vida. Assim como a segurança é um objetivo vazio, e inclusive contraproducente para nos servir de rumo na vida, o mesmo acaba por acontecer com a autonomia. O importante é que a autonomia nos proporcione a liberdade necessária para sermos os próprios autores do rumo das nossas vidas. Aconteça o que acontecer, queremos manter a liberdade de moldarmos a nossa vida de maneira coerente com o nosso feitio e lealdades.

Quem melhor tem idealizado e posto a funcionar casas de repouso para idosos, tem verificado que as melhores são casas pequenas e comunitárias, não mais de doze residentes, o mais aproximado das casas de família alargada, em que convivem no mesmo espaço os avós, filhos e netos. A sala as refeições é comum, mas os quartos são individuais. Refeições familiares tomadas à volta de uma mesa grande. E este modelo é compatível com a privacidade que cada um precisa. Perder a privacidade é uma das coisas, para a maioria das pessoas, que mais as assusta. As pessoas gostam de ter os seus momentos de solidão. Isso não significa isolamento. Há momentos em que as pessoas gostam de pensar assim: "Não tardará muito, mas também não há nada que eu possa fazer”. Às vezes as pessoas ficam fartas da doença e da velhice: “Vou morrer, e daí?”

À medida que as capacidades das pessoas se deterioram, por causa da idade, ou da progressão de uma qualquer patologia, a nossa tentação é fazer tudo para o medicalizar em excesso. Mas é preciso refrear a obstinação para mexer, consertar, controlar, isto é, usando uma metáfora corriqueira, para fazer obras num corpo em ruínas por dá cá aquela palha. O raciocínio chave é: quando é que devemos tentar reparar e quando é que devemos deixar o corpo sossegado.

O dia-a-dia numa UCI dos dias de hoje é muito semelhante em todas elas. Mas muito diferente dos outros dias antes da pandemia. Vejamos a descrição de outros dias passados de uma médica de uma UCI, a inteirar outro colega não intensivista da situação: "Estou a gerir um armazém de moribundos. Dos dez doentes aqui internados só dois têm hipótese de sobreviver e ter alta para suas casas. De resto é uma senhora de oitenta com uma pneumonia; outra de setenta com cancro e metástases pulmonares; outra de oitenta e muitos com insuficiência respiratória e renal, já estando aqui há duas semanas. A doente do cancro, tinha decidido não fazer mais tratamentos, mas o oncologista insistiu para que mudasse de ideias.”

As pessoas com uma doença grave e terminal têm prioridades além de simplesmente prolongarem a vida. As suas principais preocupações incluem evitar o sofrimento, reforçar laços com a família e os amigos, estar mentalmente alerta, não ser um fardo para os outros e alcançar uma sensação de que a sua vida valeu a pena porque teve um sentido. Mas muitas vezes acontece que são os filhos que se recusam a deixar morrer um seu familiar nessa situação, pedindo aos médicos que façam tudo: cânulas, tubos, traqueotomia …

A questão, que não é apenas de custos, que é, também é de criar um sistema de cuidados de saúde que ajude efetivamente as pessoas a alcançarem o que é mais importante para elas no fim da vida. Países que costumam ter boas estatísticas, e que fazem contas como a Holanda, a Suíça ou os Estados Unidos, chegam todos a números semelhantes: no último ano de vida das pessoas, 5% gasta 25% do orçamento da saúde; as doenças incuráveis representam uma grande parte desses custos.

À medida que o nosso tempo se começa a esgotar, todos procuramos conforto em pequenos prazeres: companheirismo, rotinas diárias, o sabor de boa comida, o calor do sol no rosto. Passamos a interessar-nos menos pelas recompensas de conquistar e acumular. São recompensas mais simples como ser e estar. Mas apesar de nos sentirmos eventualmente menos ambiciosos, há uma preocupação: o nosso legado. E temos uma necessidade profunda de identificar objetivos fora de nós próprios que nos deem a sensação de que a vida valeu a pena ser vivida porque teve um sentido. Todos buscamos causas, umas maiores do que nós, outras nem tanto: família, país, valores morais; ou apenas uma casa, uma árvore, um animal de estimação. O importante é ao atribuirmos valor à causa, e ao considerarmos que ela merece sacrifícios, darmos um sentido à nossa vida. Isto é o oposto do individualismo. O individualista coloca os seus próprios interesses acima de tudo. Para um individualista a lealdade a uma causa, que não tenha nada a ver com o interesse próprio, é uma noção estranha.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O espaço do nosso confinamento, na perspetiva do xamã e Michel Foucault



https://www.sabado.pt/video/detalhe/coronavirus-na-india-o-confinamento-limpou-a-poluicao-do-ar?ref=VID_ultimos_video

Com o espaço aéreo mais limpo, não apenas de poluição, mas também de aeronaves, já se ouve de novo o clamor dos xamãs. O espaço para os xamãs é uma região onde decorre toda a sua atividade. Para nós outros uma região abstrata, bem entendido, para eles mais acessível, alguma coisa da realidade. Os xamãs nunca viram o tempo e o espaço como abstrações obscuras, como nós os vemos. Para eles, tanto o tempo como o espaço, ainda que incompreensíveis em suas formulações, eram uma parte integrante do viver humano. Os xamãs têm uma outra unidade cognitiva chamada a "roda do tempo". O tempo, como um túnel de comprimento e largura infinitos, um túnel com sulcos de reflexão. Um número infinito deles. As criaturas vivas obrigadas, pela força da vida, a seguir um determinado sulco. Ligado a ele, para viver através dele. O xamã e o guerreiro, por meio de um ato de profunda disciplina, focalizam a sua atenção plena na "roda do tempo", com o propósito de fazê-la girar. Os guerreiros que conseguirem fazer girar a "roda do tempo" podem olhar em qualquer sulco e tirar dele o que quiserem. Estar livre da força enfeitiçadora de olhar somente num desses sulcos significa que os guerreiros podem olhar em qualquer direção: quer o tempo recue ou avance sobre eles. 

Michel Foucault trata a questão do espaço como uma espacialidade ambivalente. Toda essa abordagem está patente - desde a “História da loucura na idade clássica” (1961) até às suas últimas obras sobre a “História da sexualidade” (1978), embora ele tenha resistido
 a ser chamado de geógrafo pós-moderno. Em todo o caso, as suas observações mais explícitas, e reveladoras da importância relativa do espaço e do tempo, entretanto, aparecem, não nas suas grandes obras publicadas, mas sim, de maneira quase inócua, nas palestras e, após algumas indagações persuasivas, em duas entrevistas reveladoras: “Questions on Geography” [Perguntas sobre geografia], 1980; e “Space, Knowledge, and Power” [Espaço, saber e poder], 1984.

Afastando-se do “espaço interno” da brilhante poética de Bachelard (1969), e das descrições regionais intencionais dos fenomenólogos, Foucault concentrou a nossa atenção numa outra espacialidade da vida social, num “espaço externo” - o espaço efetivamente vivido (e socialmente produzido) dos locais e das relações entre eles: o espaço em que vivemos, que nos retira de nós mesmos, no qual ocorre o desgaste da nossa vida, nossa época e nossa história, o espaço que nos dilacera e corrói, é também, em si mesmo, um espaço heterogéneo. Em outras palavras, não vivemos numa espécie de vazio dentro do qual possamos situar indivíduos e coisas. Não vivemos num vazio passível de ser colorido por matizes variados de luz, mas num conjunto de relações que desenham localizações irredutíveis umas às outras, que não se sobrepõem entre si. 

Esses espaços heterogéneos de localizações e relações – as heterotopias de Foucault – são constituídos em todas as sociedades, mas assumem formas muito variadas e se modificam ao longo do tempo, à medida que “a história se desdobra” na sua espacialidade inerente. Foucault identifica muitos desses locais: o cemitério e a igreja, o teatro e o jardim, o museu e a biblioteca, a feira e a “cidade das férias”, o quartel e a prisão, a sauna escandinava e o bordel. Ele contrasta esses “lugares reais” com os “espaços fundamentalmente irreais” das utopias, que apresentam a sociedade numa “forma aperfeiçoada” ou “virada de cabeça para baixo”. O seu papel consiste em criar um outro espaço real, tão perfeito, meticuloso e bem-disposto, quanto o nosso é desarrumado, mal construído e confuso. Este último tipo seria a heterotopia, não da ilusão, mas da compensação. Com esses comentários, Foucault expôs muitos dos instigantes rumos que iria tomar no trabalho de sua vida inteira e, indiretamente, levantou um poderoso argumento contra o historicismo – e contra as abordagens vigentes do espaço nas ciências humanas.

Voltando ao clamor do xamã, a roda do tempo é uma influência poderosa que atinge a sua vida. Vida, espaço e tempo, parecem ligados por uma conexão semelhante a uma mola que tem vida própria. Essa conexão, conforme a explicação dada pelo conhecimento dos xamãs, é precisamente aquilo a que eles chamam a "roda do tempo". Esse é o entendimento dos xamãs, não somente o entendimento do Universo, mas os processos de viver e coexistir num Mundo. E mais importante ainda, apontam para a possibilidade de usar dois sistemas de cognição: Universo e Mundo. Ora aqui está, o espaço heterogéneo e relacional das heterotopias de Foucault. Não é nem um vazio desprovido de substância, a ser preenchido pela intuição cognitiva, nem um repositório de formas físicas a serem descritas em toda a sua resplandecente variabilidade fenomenológica. Trata-se de uma espacialidade efetivamente vivida e socialmente criada no contexto das práticas sociais, simultaneamente concreta e abstrata. É um espaço raramente visto, pois tem sido obscurecido por uma visão bifocal que, tradicionalmente, encara o espaço como uma construção mental ou uma ilusão dual.

Para ilustrar a sua interpretação inovadora do espaço e do tempo, e para esclarecer algumas das polémicas, amiúde confusas, que vinham surgindo em torno dela, Foucault voltou-se então para os debates corriqueiros sobre o estruturalismo, uma das mais importantes vias do século XX para a reafirmação do espaço na teoria social crítica. Foucault reconhecia, no desenvolvimento do estruturalismo, uma visão diferente e instigante da história e da geografia, uma reorientação crítica que estava vinculando o espaço e o tempo de maneiras novas e reveladoras. O estruturalismo, ou, pelo menos, aquilo que se reúne sob essa denominação um tanto genérica demais, é o esforço de estabelecer, entre elementos que poderiam ligar-se num eixo temporal, um conjunto de relações que faz com que eles apareçam justapostos, contrabalançados uns com os outros, em suma, como uma espécie de configuração.

Na verdade, o estruturalismo não implica uma negação do tempo; implica uma certa maneira de lidar com o que chamamos tempo e com o que chamamos história. Essa “configuração” sincrónica é a espacialização da história, a feitura da história entremeada com a produção social do espaço, a estruturação de uma geografia histórica. Isso não constituiu uma simples mudança de preferência metafórica, como frequentemente parecia acontecer com Althusser e outros, que estavam mais à vontade com o rótulo de estruturalistas do que Foucault. Tratou-se da abertura da história para uma geografia interpretativa. No intuito de enfatizar o caráter central do espaço para o olhar crítico, especialmente no tocante ao momento contemporâneo.

Seja como for, a angústia do nosso tempo de confinamento está fundamentalmente relacionada com o "espaço", sem dúvida muito mais do que com o "tempo". Provavelmente, o "tempo" se nos afigura como sendo apenas uma das várias operações distributivas possíveis dos elementos dispostos no "espaço".