terça-feira, 9 de abril de 2024

Abderramão II de Córdoba e Zubaida, a das Mil e Uma Noites




Estátua de Abderramão II em Múrcia 

Abderramão II de Córdoba foi o oitavo emir Omíada de Córdoba, reinando de 822 a 852. Durante o seu reinado, o Califado de Córdoba alcançou uma era de grande prosperidade cultural, científica e económica no Al-Andalus.

O Emir de Córdoba em 822 já era independente do Grande Califado. Em sua juventude, tomou parte do chamado "massacre da vala", quando vieram prestar homenagem aos príncipes mortos por ordem de seu pai. Ao ascender ao trono, continuou as campanhas militares e esteve em estado permanente de guerra contra Afonso II das Astúrias. O Califado de Córdoba conseguiu travar o avanço dos cristãos, que se tinham acantonado a Norte, em direção ao sul, pelo menos até 842.

Em 837 Abderramão havia esmagado uma revolta dos chamados "povos do livro" em Toledo. Ele emitiu um decreto proibindo os cristãos de buscar o martírio, que foi concretizado ao forçar a realização de um sínodo na cidade de Córdoba, em 839. O encontro foi presidido por Recafredo, arcebispo de Sevilha. As execuções iniciadas em seu reinado culminariam na canonização dos Mártires de Córdoba.

Em 844, Abderramão repeliu um ataque montado pelos vikings que haviam desembarcado em Cádis. Os vikings chegaram a conquistar Sevilha, e atacaram a própria capital do emirado, Córdoba. Para evitar novas incursões, construiu uma frota e um arsenal naval em Sevilha. Também respondeu ao chamamento de Guilherme de Septimânia que lhe pediu ajuda na sua luta contra as nomeações de Carlos, o Calvo.

Abderramão II foi um poeta muito talentoso, e elegante, a quem são atribuídos os Anais da Espanha. Fomentou as artes, as ciências e a agricultura, tendo dotado a capital de águas, banhos públicos, escolas e excelentes vias, embelezando-a com os formosos monumentos.




Zubaidah bint Ja'far ibn al-Mansur, e Harun al-Rashid, de Bagdade, fazem parte das bases de “As Mil e Uma Noites”. Zubaida, um ano mais nova que Harun, apenas se sabe da data do seu falecimento: 7 de julho de 831. Era neta do califa al-Mansur. Diz-se que o palácio de Zubaida "soava como uma colmeia" porque ela empregava cem empregadas que haviam memorizado o Alcorão.

Em sua quinta peregrinação a Meca, ela viu que uma seca havia devastado a população e reduzido o Poço Zamzam a um fio de água. Assim ordenou que o poço fosse aprofundado, tendo gastado mais de 2 milhões de dinares melhorando o abastecimento de água de Meca e da província circundante. Isso incluiu a construção de um aqueduto a partir da nascente de Hunayn, 95 Km a leste, bem como a famosa "Primavera de Zubaida" na planície de Arafat, um dos locais rituais do Hajj. Quando seus engenheiros a alertaram sobre a despesa, atendendo às dificuldades técnicas, ela respondeu que estava determinada a realizar o trabalho mesmo que cada golpe de picareta custasse um dinar.

Zubaida também melhorou a rota peregrina através de 900 Km de deserto entre Kufa e Meca. A estrada foi pavimentada e desobstruída de pedregulhos. E mandou colocar depósitos de água ao longo do percurso. As caixas de água também serviam de cisterna, captando o excedente de água da chuva das das periódicas tempestades que ocasionalmente afogavam quase tudo. Ibn Batuta, referindo-se a Zubaidah: "cada reservatório, piscina ou poço nesta estrada que vai de Meca a Bagdade é devido à sua generosidade". Essa estrada não seria utilizável por ninguém se Zubaida não se tivesse empenhado na execução de tais benfeitorias. Ele menciona especificamente os reservatórios de água em Birkat al-Marjum e al-Qarurah.

Zubaida contratou uma equipa de assistentes para administrar as propriedades e atuar em seu nome em inúmeros empreendimentos comerciais, independentes de Harun. Sua casa particular também era administrada de maneira luxuosa. Suas refeições eram apresentadas em pratos de ouro e prata em vez da simples bandeja de couro comumente usada na época, e introduziu a tendência da moda de usar sandálias costuradas com pedras preciosas. Também se fazia circular num palanquim feito de prata, ébano e forrado a seda.

Construiu um palácio com um grande salão de banquetes acarpetado e apoiado por pilares feitos de marfim e ouro. Versos do Alcorão foram gravados nas paredes em letras douradas. O palácio foi cercado por um jardim cheio de animais e pássaros incomuns. Ela tinha um macaco de estimação vestido como soldado de cavalaria e contratou 30 servos para atender às necessidades do macaco. Os visitantes de Zubaida, incluindo generais de alto escalão, foram obrigados a beijar a mão do macaco. Além disso, uma série de escravas seguiam por onde ela passava, e cada uma fazia recitações do Alcorão de cor. Reconstruiu Tabriz depois de ter sido devastada por um terramoto, em 791.

Seu marido, Harun al-Rashid morreu em março de 809 enquanto estava em Tus. Sucedeu-lhe o filho Muhammad al-Amin que continuou as políticas progressistas encetadas pelo pai. Os dois primeiros anos de seu reinado foram geralmente pacíficos, no entanto, al-Amin tentou remover o meio-irmão da herança, o que desembocou numa guerra civil. Ganharam os partidários de al-Ma'mun, em 813, o qual ocupou o lugar. 

A Bagdade dos abássidas, especialmente durante o período áureo, era conhecida por sua riqueza cultural e intelectual, e o sexo fazia parte da vida quotidiana da sociedade islâmica da época. No entanto, devido à natureza conservadora das fontes históricas disponíveis, as descrições específicas do prazer sexual na Bagdade abássida foram ocultadas. As referências à sexualidade na literatura da época, como a poesia erótica e os contos das Mil e Uma Noites, oferecem algum vislumbre de como seria a sexualidade na sociedade abássida, mas é importante reconhecer que essas obras são ficcionais, e podem não refletir totalmente a realidade histórica.

sábado, 6 de abril de 2024

Extremistas e moderados



Extremistas e moderados opõem-se num espectro de opiniões e comportamentos. Os extremistas tendem a adotar posições radicais e inflexíveis, muitas vezes recorrendo à violência ou à exclusão de quem discorda de suas ideias. Enquanto isso, os moderados buscam um equilíbrio que geralmente estão abertos ao diálogo e à negociação. Mas q
uando as tensões e os ressentimentos entre grupos étnicos, religiosos, culturais e políticos se intensificam, está criado o clima propício para o conflito, que em muitos casos termina em guerra.

Por conseguinte é crucial a promoção do entendimento mútuo, a tolerância e a resolução pacífica de conflitos para evitar que se instale o ódio, que por sua vez vai dar origem à violência. Daí ser necessário evitar dentro de cada país o ódio entre partidos políticos. Embora a discordância e o debate político sejam naturais numa democracia saudável, o ódio e a hostilidade exacerbados podem levar a uma polarização prejudicial, dificultando a cooperação para uma boa governação. É essencial promover o diálogo construtivo, o respeito mútuo e o compromisso para encontrar soluções que beneficiem a sociedade como um todo. Mas hoje vivem-se tempos distópicos, entre uma revolução científica e tecnológica que assusta, e uma dissolução de certos princípios éticos que faz lembrar a barbárie de outros tempos. Repare-se na seguinte descrição de um cientista "freelancer" dos Estados Unidos da América: 
Hoje, na América, quem quiser editar genes num laboratório, pode comprar Cas9 na internet. Pode, inclusivamente, comprar os ARN-guias. O site da IDT disponibiliza kits preparados para serem inseridos em células humanas a partir de 95 dólares. Por exemplo: prepara-se um pouco de Cas9 com um ARN-guia criado para eliminar o gene de bactéria (um trecho de ADN) que resiste ao antibiótico ampicilina. Com pipetas, um pedaço de ADN é incubado com a enzima Cas9 e depois o ARN é guiado de modo a cortá-lo na posição desejada. É adicionado um corante que ajuda a visualizar os resultados pela técnica da eletroforese em gel que separa as moléculas de ADN de tamanhos distintos. A impressão daí resultante revela bandas em diferentes pontos ao longo do gel, indicando como eles foram cortados pelo Cas9.
Eu vejo a pessoa humana como um ser corpóreo inserido na sociedade, a qual dita mais ou menos o seu destino conforme a hierarquização de dois valores: justiça e liberdade. E assim se definem as suas circunstâncias conforme a sociedade é mais liberal, mas menos justa; ou mais comunitária, mas mais justa. Há um aspeto que é real: a Federação Russa confronta-se com alguns casos de reivindicação de autonomia política por parte de minorias com autoria de atentados terroristas. A questão que se levanta é se atos terroristas têm cabimento na conceção da guerra justa. O princípio da autodeterminação é compatível com a reivindicação de uma guerra justa?

Os países surgiram historicamente como formas de organização política e administrativa que ajudam a organizar territórios, otimizar os recursos e gerir as populações sob uma estrutura de governo, serviços e leis que regulam as relações entre pessoas e entidades. Ao longo da história, os países surgiram como uma maneira de estabelecer fronteiras. Isso muitas vezes ocorreu para proteger grupos de pessoas da escravidão, da conquista ou da exploração por parte de outros grupos. Os países fornecem uma estrutura legal e política para garantir direitos e proteções aos seus cidadãos.

É correto dizer que um partido político é do "centro" se ele adota uma posição ideológica que busca equilibrar elementos da esquerda e da direita, promovendo políticas moderadas e pragmáticas. Alguns partidos políticos são explicitamente identificados como de centro devido às suas plataformas e agendas políticas. Alguns exemplos de partidos políticos do centro ao redor do mundo incluem: o Partido Democrata nos Estados Unidos; o Partido Liberal no Canadá; o Partido Democrático Liberal no Japão; o Partido Democrata na Itália; o Partido Social Democrata na Alemanha; o Partido Democrata Cristão na Holanda; o Partido Democrata Cristão na Noruega. Esses são apenas alguns exemplos e a classificação dos partidos como do centro pode variar dependendo do contexto político e das ideologias predominantes em cada país.

A sociedade se fortalece na solidariedade. Uma sociedade é mais saudável e mais justa quando é ao mesmo tempo pluralista e cultiva valores compartilhados de liberdades individuais e direitos civis. Há, contudo, um certo pensamento designado por relativista, uma espécie de dogma em que o indivíduo é independente e livre de compromissos para com a restante sociedade. Mas um outro pensamento chamado comunitarismo, que cria melhores sociedades do que o liberalismo. Mais ainda em tempos de guerra, o Estado não pode abster-se e ser neutro em relação a certos pilares essenciais à coesão social.
Uma coisa é: a esquerda criticar a Primavera por granizar os cravos em abril. Outra coisa é chegar a casa, depois de ter colocado no prego o serviço da Companhia das Índias, e dizer aos filhos que comam a sardinha diretamente da lata, porque é um dia a menos para a fome, não importa serem ricos, um dia em que se não come é um dia a menos para a morte. Há sempre um dia em que voltaremos a ser apenas pó das estrelas. Afinal, isso vem escrito na Bíblia, graças a Todos os Santos pelo terramoto de Lisboa. Hoje é comummente aceite que os autos-de-fé não impedem os terramotos. Em abono da verdade, o que mais lhes resta? Os filhos em casa precisam de comer.
A extrema-direita muitas vezes usa memes apocalípticos para promover a sua agenda e espalhar desinformação. Esses memes podem retratar visões extremistas sobre temas como imigração, mudanças climáticas, globalização e outras questões sociais e políticas. Eles são projetados para instigar medo, raiva e divisão, muitas vezes distorcendo factos ou simplificando questões complexas para promover uma narrativa específica.

O termo "Ocidente político" geralmente se refere às nações e regiões do mundo que compartilham sistemas políticos democráticos, valores liberais, estado de direito e economias de mercado. Isso inclui grande parte da Europa, América do Norte e algumas partes da Oceania. Esses países tendem a ter sistemas políticos mais abertos e pluralistas em comparação com outras partes do mundo. Enquanto ideia, o Ocidente é, portanto, o produto de cinco revoluções que ocorreram nos últimos dois milénios. Veja-se, por exemplo, o que se está a passar no norte de Moçambique com as atrocidades do denominado “Estado Islâmico”. Ou noutras zonas de África com a Rússia, por procuração, através do grupo Wagner.

Os princípios a serem respeitados no contrato social entre partidos políticos podem incluir transparência, democracia interna, respeito à diversidade de opiniões, compromisso com o bem comum, prestação de contas aos eleitores e comprometimento com os valores democráticos e constitucionais do país. O contrato social é uma teoria política que aborda como as pessoas concordam em viver em sociedade e estabelecer regras e governo. A tolerância é um princípio que promove o respeito e aceitação das diferenças entre os membros dessa sociedade, garantindo a convivência pacífica e o respeito aos direitos individuais. Em muitas teorias políticas, a tolerância é vista como uma parte essencial do contrato social, pois permite que pessoas com diferentes crenças e valores coexistam em harmonia dentro de uma sociedade.

Um compromisso entre instituições e eleitorado é essencial para uma democracia saudável. Isso envolve instituições governamentais atuando de forma responsável, transparente e representativa, enquanto o eleitorado participa ativamente no processo político, exercendo seus direitos e responsabilidades de forma informada e engajada. Esse compromisso pode ser alcançado através de eleições justas, prestação de contas, transparência nas decisões políticas e diálogo constante entre representantes e cidadãos. Para além de possíveis erros táticos, os governantes não podem perder de vista os princípios da justiça. E por maioria de razão, tratando-se o governo da instituição mais efetiva na vida das pessoas, o seu exemplo não pode deixar de estar alinhado com o que uma sociedade justa exige.

Ora, sendo o bem comum o maior bem, os agentes deviam sobrepor planos racionais aos planos dos desejos e das ideologias para alinharem este bem com os princípios da justiça. E neste caso, é justo que o resultado final menos desejável dos votos dos eleitores, ainda que cegados pelo véu de ignorância, mas sem ter resultado de manobras fraudulentas, tem de ser respeitado. 
Existem várias razões pelas quais as pessoas podem acreditar nas declarações de Donald Trump, mesmo que sejam falsas. Algumas pessoas podem identificar-se ideologicamente com ele e, portanto, estar inclinadas a aceitar as suas afirmações. Além disso, a repetição frequente de certas declarações pode fazer com que pareçam mais verdadeiras, mesmo que não sejam. Também pode haver uma falta de acesso a fontes de informação confiáveis, levando as pessoas a confiarem no que ele diz.

Em política, o mal muitas vezes prevalece sobre o bem devido a uma série de fatores complexos, como interesses pessoais, poder, corrupção e manipulação das massas. Oportunidades de corrupção, falta de transparência e a capacidade de manipular informações são algumas das razões pelas quais o mal pode ter uma vantagem. Além disso, as pessoas nem sempre têm acesso a informações precisas ou são facilmente influenciadas por discursos emocionais e promessas vazias. A visão hobbesiana da natureza humana tende a ser pessimista, caracterizada pela ideia de que os seres humanos são inerentemente egoístas, competitivos e propensos à violência. Thomas Hobbes, um filósofo político do século XVII, argumentava que, na ausência de um governo forte para impor ordem e segurança, a vida dos indivíduos seria "solitária, pobre, sórdida, brutal e curta". Essa perspetiva pessimista sobre a natureza humana fundamentou a defesa do contrato social e da necessidade de um Estado forte para garantir a paz e a estabilidade.

A questão da natureza humana é debatida há séculos. Alguns argumentam que os seres humanos têm uma tendência inata para o mal, enquanto outros defendem que há uma inclinação para o bem. Na realidade, é uma combinação complexa de ambos, e o comportamento humano é influenciado por uma variedade de fatores, incluindo genética, ambiente, cultura e experiências pessoais.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

A guerra, a tropa, e as teorias da conspiração



Se Gouveia e Melo tem legitimidade para apelar ao regresso do SMO, muitos de nós não. Em Portugal, a obrigação legal de prestação de serviços às Forças Armadas terminou efetivamente em 2004, altura em que foi substituída pelo Dia da Defesa Nacional e pelo apoio patriótico à seleção de futebol, à época comandada pelo sargentão Scolari. Os jovens que hoje seriam chamados para prestar o serviço nasceram todos depois do seu fim. Tanto a geração que se baldava por causa de alegadas dores nas costas, como a minha, que foi meramente convidada a fazer uma visita de estudo à base naval do Alfeite, com direito a sandes mista em forma de triângulo, não têm autoridade para obrigar os putos de hoje a acordar às seis da manhã para fazer a cama. Não é concebível convocarmos os outros para o dever quando só conhecemos as armas pelo Call of Duty.

Em dezembro de 2023, o Ministro de defesa alemão, um socialista, disse que a Europa se devia preparar para o risco de guerra até ao final da década. Em finais de março de 2024 foi Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, conservador e ex-presidente do Conselho Europeu, que veio dizer que entrámos em modo de pré-guerra. Não porque esteja iminente, mas porque pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial o risco de conflito no continente é real. 

Em fevereiro de 2024 já Ursula Von der Leyen tinha dito, em Estrasburgo, que “o risco de guerra não é iminente, mas não é impossível”. Nessa altura também o ministro da defesa da Dinamarca, um liberal e conservador, havia dito que não se podia descartar que daqui a três a cinco anos a Rússia pusesse à prova o Artigo 5º e a solidariedade da NATO. Nos últimos tempos, chefes militares noruegueses disseram coisas parecidas, a Estónia está a fazer bunkers, a Letónia repôs o Serviço Militar Obrigatório e a Lituânia discute alargar a base de recrutamento do serviço militar.

O que importa retirar de todas estas declarações de políticos e militares de países geograficamente próximos da Rússia não é uma tese conspirativa, uma suspeita de haver gente com vontade de mandar ir para a guerra ou entrar em pânico. 
Na luta pelo poder há sempre quem conspire. Assim, um político detentor do poder, por razões de Estado, precisa de ter algumas qualidades, como a dissimulação, seja por Razões de Estado, seja por razões do interesse de todos. Os conspiradores, geralmente contrários ao interesse nacional, boicotam. Agora, se são as teorias da conspiração que fabricam paranoicos, ou se são os paranoicos que são dados a fabricar teorias da conspiração, é já um assunto para especialistas em idiossincrasias do domínio da mente humana.

O que é verdadeiramente impressionante é a perceção partilhada por estes atores de que a Rússia de Putin pode se sentir tentada a concretizar objetivos políticos pela força das armas, convencida que a Europa, e a NATO, não estarão disponíveis para combater por gente e territórios que antes de 1989 estavam do outro lado do Muro de Berlim. A Rússia, em fevereiro de 2022 não esteve com meias medidas, e invadiu a Ucrânia. A Ucrânia era território que lhe pertencia, ou melhor, sempre foi russo.  Para além de não querer no território muito próximo de Moscovo uma democracia liberal de feição ocidental, quando percebia que se estava a desmoronar numa dissolução decadente. Mas os atuais líderes europeus também perceberam muito bem o que Putin quer. 

O Príncipe, de Maquiavel, é um dos manuais políticos mais estudados no Ocidente, e tido em conta pela maioria de todos os líderes políticos depois dele. Descreve as estratégias mais eficazes para se chegar ao poder, e depois de alcançado, como o príncipe o deve manter. Não se deve confundir “maquiavélico” com mefistofélico”. Mefistófeles é uma personagem demoníaca do Fausto de Goethe. A expressão “maquiavélico” está para Maquiavel, assim como a expressão “marxista” está para Marx. Pouco tem a ver com eles. São conceções deturpadas. Daí dizer-se: nem Marx seria marxista, e Maquiavel nunca foi maquiavélico.

A principal ideia em "O Príncipe" é que um governante deve estar disposto a usar qualquer meio, se for necessário, para manter o poder a fim de garantir a estabilidade do Estado. Ora, “o necessário” pode ser algo que envolva ações antidemocráticas e amorais para salvar a integridade do Estado. Maquiavel é enfático na importância da astúcia, da força, e da habilidade política para governar eficazmente.


Em tempos de crise, é comum que as pessoas sintam mais ansiedade e preocupação, o que pode levar algumas delas a desenvolverem sintomas de paranoia. A incerteza e o medo do desconhecido podem intensificar esse tipo de comportamento em algumas pessoas. No entanto, nem todas as pessoas reagem da mesma maneira às crises; algumas podem lidar melhor com a incerteza do que outras.

Existem certos traços de personalidade e condições psicológicas que podem tornar uma pessoa mais suscetível à paranoia. Alguns desses fatores incluem traços de personalidade pré-existentes como personalidade paranoica, desconfiança excessiva, sensibilidade à crítica, baixa autoestima e dificuldade em confiar nos outros. Na síndrome pós-traumática, indivíduos que passaram por experiências traumáticas no passado, como abuso físico, emocional ou sexual, podem ter uma predisposição maior para desenvolver sintomas de paranoia. Situações de stress, como crises financeiras, problemas de saúde, conflitos interpessoais ou eventos traumáticos também podem desencadear ou exacerbar sintomas de paranoia em algumas pessoas.

É importante notar que a paranoia pode variar em gravidade e manifestação de pessoa para pessoa, e nem todas as pessoas com os fatores acima desenvolverão sintomas de paranoia. O tratamento adequado, como terapia cognitivo/comportamental e, em alguns casos, medicação, pode ajudar a gerenciar os sintomas e melhorar a qualidade de vida das pessoas que sofrem de paranoia.

É comum pessoas com tendências paranoicas serem mais suscetíveis a teorias da conspiração. Isso ocorre porque a paranoia pode levar alguém a interpretar eventos de forma distorcida e acreditar em explicações complexas e conspiratórias para o que está acontecendo ao seu redor, mesmo na ausência de evidências sólidas. Teorias da conspiração são explicações alternativas e muitas vezes sem embasamento factual para eventos históricos, políticos, sociais ou científicos. Elas sugerem que um grupo secreto de pessoas ou entidades está conspirando para manipular eventos em benefício próprio, frequentemente envolvendo supressão de informações, manipulação dos órgãos de comunicação social e controlo da sociedade. Essas teorias geralmente carecem de evidências sólidas e são amplamente consideradas como especulações infundadas ou crenças irracionais. Suas crenças podem variar amplamente, desde teorias sobre governos mundiais secretos. Alguns teóricos da conspiração são motivados por um desejo de entender melhor o mundo, enquanto outros podem ser impulsionados por paranoia ou desconfiança extrema.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Os moderados de 1938. Munique e a questão dos Sudetos

 

Em novembro de 1937, Halifax, líder da Câmara dos Lordes que em breve se tornaria secretário do Exterior, preparava-se para visitar Hitler. Esperava chegar a um acordo com o ditador alemão em relação à Europa Central. Era o primeiro passo numa política de apaziguamento mais ativa, que refletia a iniciativa do novo primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, que substituíra Baldwin em 28 de maio. Em dezembro do ano anterior, o rei Eduardo VIII, mais tarde conhecido como Duque de Windsor, renunciou ao trono em 20 de janeiro de 1936, em favor de seu irmão Jorge VI, para se casar com uma americana divorciada, Wallis Simpson. 



Halifax aquando da visita a Hitler

Ao se avistar com Hitler em 19 de novembro, o próprio Halifax deu a entender que o governo britânico aceitaria uma mudança mediante a “evolução pacífica” da situação da Áustria, da Checoslováquia e de Danzig, embora desejasse evitar “perturbações de maiores consequências”. Isso era tudo o que Hitler queria ouvir. Respondeu que não tinha o menor desejo de anexar a Áustria ou torná-la politicamente dependente da Alemanha. Nos bastidores, porém, continuou a trabalhar com esse objetivo. Halifax registou em seu diário que considerou Hitler “muito sincero” e desejoso de relações amistosas com a Inglaterra. O culto aristocrata britânico estava sem dúvida nenhuma fora de seu habitat natural ao tratar com um líder político cuja solução para os problemas da Inglaterra na Índia era, declaradamente, abrir fogo contra Gandhi e várias centenas de membros do Partido do Congresso Nacional Indiano até a ordem ser restaurada. De volta a Londres, Halifax garantiu aos ministros que Hitler não tinha em mente nenhuma “aventura imediata” e sugeriu dar-lhe de presente algum território colonial para torná-lo mais tratável na Europa.

Duas semanas antes da renúncia de Baldwin, a coroação de um novo rei, Jorge VI, pai da que viria a ser a rainha Isabel II, fora uma momentânea exibição de união patriótica no país, que se recuperava da depressão económica e evitara o extremismo político que tomava conta de grande parte da Europa.



O rei Jorge VI com Churchill

Chamberlain considerou a visita “um êxito completo”. Numa carta privada, escreveu à irmã que, embora os alemães desejassem dominar a Europa Oriental, ele não via motivo para não chegar a um acordo caso a Inglaterra desse garantias de que nada faria para impedir mudanças por via pacífica e a Alemanha rejeitasse o uso da força no trato com a Áustria e a Checoslováquia. O ministro que mais se opunha a essa nova forma, mais ativa, de apaziguamento — a busca de um entendimento com a Alemanha mediante relações bilaterais e a aceitação de mudanças territoriais na Europa Central — era o secretário do Exterior, Anthony Eden, que desde janeiro de 1938 se encontrava doente e convalescia no sul da França. Em sua ausência, a condução das relações exteriores estava nas mãos do próprio Chamberlain. Desgastado e em conflito permanente com o primeiro-ministro, Eden renunciou ao cargo em 20 de fevereiro de 1938. Seu sucessor foi Halifax.

Quando os franceses perguntaram se a Checoslováquia, poderia contar com o apoio da Inglaterra, assim como o da França, caso viesse a ser alvo de agressão, Chamberlain evitou comprometer-se, limitando-se a dizer que a Checoslováquia ficava a “uma distância muito grande” e era um país “com o qual não tínhamos muita coisa em comum”. A Itália estava sendo atraída cada vez mais para o abraço de ferro da Alemanha. Em janeiro de 1938, o Exército italiano recebeu, pela primeira vez, uma diretriz que previa um alinhamento dos dois países contra a Inglaterra e a França. Conscientes da precariedade de seu programa de rearmamento, as Forças Armadas italianas só podiam pedir aos céus que a guerra não viesse logo.

Em Moscovo, Stálin passara grande parte de 1937 demolindo o comando do Exército Vermelho com os expurgos. Para os observadores externos, parecia rematada loucura. Essa era a opinião de Hitler. “Deve ser exterminado”, comentou ele com Joseph Goebbels, seu ministro da Propaganda. Contudo, a União Soviética não estava ainda nos cenários que exibira aos comandantes militares um mês antes. Para os dirigentes soviéticos, era inevitável a guerra com as potências capitalistas, entre as quais eles incluíam a Alemanha e a Itália. Viam o fascismo como a forma mais extrema e agressiva de capitalismo. 
A única dúvida era quanto à data em que ocorreria a guerra. Quanto mais pudesse ser protelada, melhor seria para a União Soviética. Havia um longo caminho a percorrer antes que sua máquina militar estivesse pronta.

Nas capitais dos países da Europa Central e Oriental, em fins de 1937, os governantes locais estavam mais que conscientes de uma drástica alteração do equilíbrio de poder e da limitação de suas próprias opções. Era óbvio que dependiam de iniciativas das grandes potências europeias, que eles não podiam controlar. A ideia de segurança coletiva por meio da Liga das Nações estava morta e enterrada havia muito, como mostrara a invasão da Abissínia. A França, antes fiadora de proteção por meio de sua rede de alianças, estava gravemente debilitada. Suas divisões internas e seus problemas económicos saltavam aos olhos. A Inglaterra, evidentemente, deixou de se interessar pela Europa Central, e a influência política e económica da Alemanha estava preenchendo o vazio deixado. Interesses nacionais, assim como suspeitas ou inimizades mútuas, representavam entraves à cooperação militar. Enquanto isso, o poderio alemão crescia visivelmente, sendo a Europa Central o alvo mais óbvio de quaisquer ações expansionistas. A Áustria, que não tinha mais a proteção da Itália, seria, quase com certeza, o primeiro alvo da Alemanha. Um movimento nesse sentido certamente ocorreria em breve.

Desde julho de 1937, o Japão, cada vez mais beligerante, vinha travando uma guerra feroz contra a China. O mundo assistia, chocado, às atrocidades cometidas, entre as quais, em dezembro, a horrenda chacina, em Nanquim, de civis chineses por enlouquecidas tropas japonesas. Esses factos contribuíam para um declínio paulatino, embora vagaroso, da atitude isolacionista dos Estados Unidos, onde o presidente Roosevelt já havia chamado a atenção, três meses antes, para a necessidade de “pôr em quarentena” as potências agressoras que ameaçavam a paz mundial. Por ora, e para a frustração dos britânicos (cujos interesses no Extremo Oriente seriam ameaçados diretamente por agressões japonesas), os Estados Unidos não esboçavam reação alguma. Ainda assim, o ano de 1937 assistiu ao começo do confronto no Pacífico entre o Japão e os Estados Unidos, que acabaria levando os dois países a um conflito global. E foi também em 1937 que Roosevelt começou a perceber a necessidade de persuadir a opinião pública americana de que qualquer agressão alemã na Europa não deixaria de ter consequências para os Estados Unidos.

Em 4 de fevereiro de 1938, foram anunciadas em Berlim importantes mudanças na cúpula do Reich alemão. O ministro da Guerra, Blomberg, e o comandante supremo do Exército, Fritsch, tinham sido destituídos. O próprio Hitler assumira a chefia do alto-comando reestruturado da Wehrmacht. Por conta disso, sua supremacia tornou-se ainda maior, ao passo que a posição do comando militar ficou muito enfraquecida. O número daqueles que manifestavam temores de ser arrastados a uma guerra contra as potências ocidentais era enormemente inferior ao dos correligionários de Hitler, conquistados pelos gigantescos gastos em rearmamento, pela recuperação do prestígio e pela afirmação da posição internacional da Alemanha. A política externa agressiva, que explorava as fraquezas e as divisões das democracias ocidentais, havia feito com que o líder caísse nas boas graças do povo. As massas lhe conferiram o apoio plebiscitário que incrementava o seu prestígio no país e no exterior. O potencial de resistência organizada fora sufocado havia muito tempo. Somente um golpe militar poderia desafiar de facto o poder de Hitler. E disso ainda não havia sinal.

Hitler tinha agora representantes em posições chave, homens sintonizados com a sua política externa de alto risco. Ribbentrop era conhecido por replicar as ideias de Hitler. Outras mudanças ocorreram nos altos escalões da burocracia e do corpo diplomático. O governo austríaco rendeu-se à intensa pressão de Berlim, tropas alemãs cruzaram a fronteira da Áustria e as leis que incorporariam o país a uma Grande Alemanha foram preparadas. Em 15 de março, diante de uma multidão em êxtase na Heldenplatz, em Viena, Hitler anunciou “a entrada de minha terra natal no Reich Alemão”. Como ele previra, as democracias ocidentais protestaram timidamente, porém nada fizeram. Tampouco a brutal perseguição de judeus austríacos e de adversários políticos dos nazis, que logo se seguiu, provocou alguma reação em Paris ou Londres ou anulou as esperanças de Neville Chamberlain de que talvez fosse possível “para nós, um dia, retomar negociações de paz com os alemães”.

O caso da Checoslováquia era diferente. A posição geográfica lhe conferia uma importância vital. O país tinha uma aliança com a França e outra com a União Soviética. E a França era aliada da Inglaterra. Um ataque à Checoslováquia poderia precipitar uma guerra europeia generalizada. Da perspectiva alemã, os vínculos da Checoslováquia, um país da Europa Central, com o oeste e o leste do continente constituíam um problema estratégico potencialmente sério. Suas matérias-primas e seus armamentos seriam valiosíssimos para os preparativos bélicos da Alemanha. Entretanto, atacar a Checoslováquia era uma aventura de alto risco, que poderia arrastar o país à guerra com as democracias ocidentais — uma guerra que alguns de seus comandantes militares, como o general Ludwig Beck, chefe do Estado-Maior do Exército, tinham a certeza de que o país não poderia vencer.

A Checoslováquia, porém, não podia contar com proteção. Mesmo enquanto a Alemanha engolia a Áustria, o ministro da Defesa francês, Édouard Daladier, avisava a seu governo que a França não poderia oferecer nenhuma ajuda militar direta; da mesma forma, os comandantes militares soviéticos descartavam qualquer possibilidade de o Exército Vermelho socorrer a Checoslováquia. Semanas depois, o governo francês soube que a Inglaterra não daria garantia alguma de empreender ações militares se os alemães atacassem a Checoslováquia. Em meados de 1938, as potências ocidentais tomaram posição. A França, por mais que afirmasse seu apoio à Checoslováquia, não agiria sem a Inglaterra; e a Inglaterra não acenaria com nenhuma perspectiva de intervenção militar. Os checos estavam entregues à própria sorte.


Entrada triunfal de Hitler nos Sudetos

E havia o problema dos Sudetos. Quando Hitler alegou que não desejava nada além de trazer os alemães perseguidos “de volta ao Reich”, foi como se, mais uma vez, ele não passasse de um político nacionalista, embora extremado e absolutamente intransigente, em busca do objetivo limitado de incorporar ao Reich outro bloco étnico alemão. A falta de compreensão das motivações de Hitler era um componente crucial da crescente tragédia da Checoslováquia. A agressividade da Alemanha, a impotência da Checoslováquia e a apatia anglo-francesa desempenharam um papel no drama que estava levando a Europa em direção a outra guerra. Os preparativos para o ataque previam a data de 1 de outubro, no mais tardar. Para consumo público, Hitler aumentou o volume de suas agressões verbais cada vez mais desabridas ao governo checo e afirmou em público que não tinha outras exigências territoriais na Europa além da solução do problema dos Sudetos.

Acreditando que desejava a incorporação dos Sudetos à Alemanha e nada além disso, Neville Chamberlain viajou duas vezes a Berlim, em meados de setembro, para reunir-se com o ditador. Ao retornar de sua primeira viagem, no dia 15, mostrou-se otimista quanto à perspectiva de um acordo próximo: os checos cederiam os Sudetos e Hitler renunciaria ao uso da força. Em conversas reservadas, opinou que o alemão, embora duro e implacável, “era um homem em cuja palavra se podia confiar”. Muito em breve o primeiro-ministro britânico se desiludiria quanto à presunção da boa-fé de Hitler. Em 21 de setembro, com imensa relutância e um profundo sentimento de terem sido traídos, os checos enfim capitularam ao diktat anglo-francês. Para Hitler, contudo, isso não bastou. Em sua segunda reunião com Chamberlain, em 22 de setembro, ele repudiou o que o primeiro-ministro britânico julgara ser um acordo, definido uma semana antes. Agora exigia que os checos aceitassem a ocupação alemã dos Sudetos em 1 de outubro; caso contrário, tomaria a área à força. E ainda declarou ser indiferente às advertências da Inglaterra de que isso poderia levar à guerra com as potências ocidentais.

Hitler tinha ido além dos limites toleráveis por certos membros do gabinete de Chamberlain, entre os quais o secretário do Exterior, Lord Halifax. Em 25 de setembro, eles se opuseram à aceitação do ultimato alemão. Franceses e britânicos concordaram em enviar um emissário a Berlim a fim de advertir Hitler de que, se atacasse a Checoslováquia, haveria guerra. Os franceses começaram a se mobilizar, assim como os soviéticos. Os britânicos prepararam a esquadra. A guerra parecia cada vez mais provável. Fizeram-se tensos esforços para convocar uma conferência que levasse a um acordo. Por fim, Mussolini interveio para intermediar uma conferência entre Alemanha, Itália, Inglaterra e França. A União Soviética, que não contava com a confiança de ninguém, ficou de fora. Com isso, abriu-se o caminho para o desfecho do drama no Acordo de Munique, assinado em 30 de setembro de 1938. Os checos não estiveram representados no encontro das grandes potências, reunidas para dividir o país. As duas democracias ocidentais forçaram outra democracia a se submeter à intimidação de um ditador.

A Inglaterra e a França não teriam obtido melhores resultados lutando em 1938, apesar das advertências dos comandantes militares, do que esperando mais um ano? De facto, só em 1939 os gastos militares dos dois países quase igualaram os da Alemanha, e apenas naquele ano as duas democracias iniciaram um sério planeamento de guerra. Todavia, também a Alemanha se rearmou fortemente em 1939, e ficou muito mais equipada para a guerra do que estivera. Esse estado de coisas foi reforçado pela destruição do poderio militar checo e pela aquisição de novas fontes de matérias-primas e de armamento na antiga Checoslováquia. O desastre de Munique podia ter sido evitado. Winston Churchill, que durante muito tempo se manifestara contra o apaziguamento, mas como uma voz bastante isolada, defendera abertamente, em 1938, uma “grande aliança” com a União Soviética e os países da Europa Oriental para deter Hitler. 

segunda-feira, 25 de março de 2024

Arthur Koestler, na sua passagem por Lisboa




Arthur Koestler nasceu em Budapeste, na Hungria, em 1905, no seio de uma família judaica. Foi escritor, jornalista e ativista político, tendo passado pela Palestina, pela União Soviética e por Espanha, onde, participando da Guerra Civil, foi condenado à morte pelas tropas de Franco. Com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, radicou-se em Londres e cortou com o Partido Comunista após as purgas estalinistas. Entre mais de duas dezenas de obras publicadas, destaca-se Eclipse do Sol, uma crítica acutilante ao despotismo estalinista, considerado por George Orwell um dos poucos livros que poderão mudar a História. Em 1983, suicida-se na sua casa, em Londres.

Estávamos em 1940, já em plena guerra, quando Arthur Koestler passou umas semanas em Lisboa bem tranquilo, deixado à vontade pela PVDE e agentes alemães que operavam na cidade. Koestler chegara de navio, no dia 17 de setembro de 1940, e ficara sete semanas na cidade. Para a primeira onda de refugiados, pouco se fez no sentido de uma ajuda organizada ou de grupos humanitários para atendê-los. Conforme a guerra prosseguiu, e dada a importância de Lisboa como o último portão de saída da Europa, a organização de grupos de resgate de emergência ganhou velocidade.

A atitude da polícia política - PVDE - foi tática. Era preciso fazer os refugiados estarem o menos tempo possível na capital. Sem intimidação, o que interessava era saírem o mais rápido possível da cidade. Para os refugiados que chegaram mais tarde já havia mais funcionários nos consulados britânico e americano, o que no mínimo reduziu bastante o tempo necessário para resolver a questão dos vistos de entrada. Lisboa ainda era uma experiência difícil, muitas vezes assustadora para os refugiados. Mas pelo menos enfraquecera o choque inicial sentido pelos portugueses, que continuaram a trata-los com uma estranha mistura de hospitalidade cristã, tingida, sempre que possível, com um certo grau de exploração financeira.

Uma vez passado o choque inicial da chegada de milhares de refugiados à capital, a PVDE concluiu que, de modo geral, eles representavam pouca ou nenhuma ameaça ao Estado Novo, e estavam simplesmente em trânsito. Em resumo, não podiam permanecer em Portugal, a não ser que Salazar lhes desse sua bênção pessoal, que reservava para vários membros de famílias reais europeias que continuaram em Lisboa, em exílio permanente.

Ao contrário de muitos refugiados em Lisboa, Koestler não tinha problemas de dinheiro, graças aos pagamentos de direitos de autor regulares do seu editor nos Estados Unidos. Seu problema foi outro: convencer as autoridades britânicas a permitirem que ele voltasse à Grã-Bretanha. Com dinheiro para custear um estilo de vida simples, porém confortável, pouca coisa lhe restava fazer, senão visitas frequentes ao consulado britânico.

Koestler hospedou-se no modesto hotel Frankfort, no Rossio. Mais tarde, conforme a provável extensão de sua estada em Lisboa se tornava mais evidente, ele mudou para a pensão Leiriense, mais barata. A pensão era um lugar bastante degradado, repleto de refugiados. Mas com o preço dos hotéis de Lisboa terrivelmente inflacionados em 1940, a pensão foi a melhor opção para o orçamento de Koestler.

Apesar do aparente bem-estar financeiro, Koestler preocupava-se com a possibilidade de as autoridades portuguesas o entregarem aos espanhóis, e esse medo pairou sobre ele durante toda a sua estada em Lisboa. Num subsequente interrogatório pelas autoridades britânicas, ele declarou ter tido muito medo em Lisboa. Seu evidente temor tinha origem na série de artigos que havia escrito, nos quais se dizia exposto a elementos simpatizantes dos alemães na administração portuguesa: ele temia que as autoridades portuguesas o extraditassem para a Espanha, onde seria torturado e depois executado. Devido ao que acontecera com Berthold Jacob no ano seguinte, em Lisboa, poderia muito bem ter-se tornado realidade.

Com o olhar aguçado de escritor, observando os acontecimentos e personalidades em Lisboa, encetou uma série de pesquisas para o livro Arrival and Departure, que foi publicado em 1943. Um romance baseado nas experiências de Koestler em Lisboa, com o personagem central, Peter Slavek, como uma versão fictícia do próprio Koestler. O romance, bem recebido pela crítica, foi o primeiro que Koestler escreveu em inglês. Arrival and Departure contém muitos personagens pitorescos, mas, na realidade, Koestler era uma espécie de lobo solitário em Lisboa. Ele teve um breve caso amoroso com uma americana, Ellen Hill, mas, fora isso, costumava vagar sozinho pelas ruas no centro de Lisboa e tomar café no Chave d’Ouro, no Rossio. Encontrou muitos colegas intelectuais refugiados na cidade, mas, como muitos dos supostos refugiados políticos, ele era vigiado de perto pela PVDE, caso tentasse encontrar grupos dissidentes locais. Uma atividade normal da PVDE, muito preocupada para que a chegada desses refugiados, que se supunha ser comunistas, não desestabilizasse a situação política de Lisboa.

Em sua maioria, ao chegar a Lisboa, os refugiados políticos estavam exaustos e com frequência muito assustados para criar confusão, mesmo se quisessem. O que aparentemente unia todos era o desejo de sair de Lisboa o mais rápido possível para seu destino final. Quando os britânicos perguntaram a Ricardo Espírito Santo por que é que a PVDE, no início, parecia tratar os refugiados com tanta severidade, ele argumentou que a polícia secreta pensava que os refugiados, em sua maioria, eram comunistas ou simpatizantes dos soviéticos. Observou que o Consulado dos Estados Unidos em Lisboa também havia tratado muitos deles com rispidez pela mesma razão. Até à chegada dos refugiados, Portugal era um país muito fechado.




O Duque de Windsor com Ricardo Espírito Santo lendo as notícias da guerra.

Durante sua estada em Cascais, o duque de Windsor e a duquesa aproveitaram o tempo ao máximo. A PVDE, responsável por sua segurança, apresentava relatórios detalhados ao capitão Lourenço, cujas partes importantes eram transmitidas a Salazar. De início, o duque passava boa parte do seu tempo na embaixada britânica, que retinha seu passaporte. Após um jogo de golfe no Estoril, quando lhe pediram para posar para fotografias e ser filmado, ele recusou, afirmando não querer ser visto a jogar golfe quando a Inglaterra estava em guerra. Mas ele aceitou posar na residência em Cascais, ao lado de Ricardo Espírito Santo.

Ricardo Espírito Santo fez jogo duplo com os dois lados até receber ordens em contrário de Salazar. Muitos dos rumores da suposta tendência a favor da Alemanha, por parte de Espírito Santo, tinham origem em fontes britânicas. O relacionamento de Ricardo Espírito Santo com Salazar era de uma grande amizade pessoal, obviamente para além dos interesses de negócios. O alcance dos negócios de Espírito Santo ia bem além do mundo financeiro e ele queria ficar bem com Salazar a fim de desenvolver o império comercial, em rápida expansão, de sua família.

Os jantares eram as ocasiões sociais mais importantes da época para o duque e a duquesa. Espírito Santo era naturalmente bem relacionado, tanto na sociedade portuguesa como na internacional, e providenciava para cada jantar que oferecia ou organizava em homenagem a seus visitantes com figuras ilustres, como era o caso do barão e a baronesa de Rothschild.  O duque de Windsor num jantar com amigos, no hotel Aviz, anuncia publicamente a decisão de aceitar o posto que Churchill lhe ofereceu nas Bahamas. O duque e a duquesa de Windsor embarcam no SS Excalibur, sem os seus pertences que haviam ficado retidos em Madrid. Foi um alívio para Churchill, na visão de Churchill ele longe da Europa causaria menos danos ao esforço de guerra britânico, uma vez conhecida a sua simpatia pelos nazis, para além das muitas intrigas que se geravam à sua volta. E um alívio para Agostinho Lourenço, o chefe da PVDE encarregue de lhe garantir a segurança em Lisboa.

Koestler desejava ir para a Grã-Bretanha, mas o MI-5 e o Ministério dos Negócios Interiores britânico continuavam insistindo que era um imigrante indesejável e que sua entrada no país estava barrada por questões de segurança. Koestler implorou a vários amigos britânicos e americanos influentes. Jornalistas importantes, editores e Harold Nicolson, do Ministério das Informações, também fizeram lobby, mas de nada adiantou. Cada vez mais desesperado, com a sua saúde mental rapidamente se deteriorando em Lisboa, Koestler descobriu que seu nome estava na lista de importantes intelectuais judeus a serem resgatados de Varian Fry. Apesar dos esforços da equipa de Fry para exercer influência a favor de Koestler, não houve chance na política britânica.

Finalmente, e com alguma ajuda não oficial de Henry King, cônsul-geral britânico em Lisboa, Koestler embarcou no avião da BOAC em Lisboa, sem a documentação correta, no dia 6 de novembro, em direção a um futuro incerto na Inglaterra. Koestler chegou ao aeroporto de Whitchurch, perto de Bristol, às 11:40 da manhã do dia 6 de novembro, e, quando questionado, anunciou que estava com medo de que o mandassem prender por não ter visto. Koestler foi interrogado e narrou a sua história em detalhes e com grande dramaticidade. No final da entrevista, o inquiridor concluiu que Koestler era um terço génio, um terço patife e um terço lunático. O relatório foi encerrado com o comentário de que Koestler era quase certamente judeu, mas que não lhe haviam feito essa pergunta pela possibilidade de haver repercussões legais por parte de seus poderosos patrões no News Chronicle. Mesmo sem conseguir impressionar as autoridades, no início interessadas em mandá-lo de volta para Lisboa, Koestler acabou por se estabelecer em Londres depois de uma estada na prisão de Sua Majestade, em Pentonville.

sexta-feira, 22 de março de 2024

Terapia génica



A edição genética refere-se à técnica de modificar o DNA de um organismo de forma precisa. O sistema CRISPR/Cas9 marca a viragem no campo do tratamento de doenças genéticas e epigenéticas devido à sua versatilidade e simplicidade de manuseamento em laboratório.

A sigla CRISPR - que significa a integração de pequenas porções de material genético externo em regiões de sequências repetitivas - resultou do conhecimento de um mecanismo, que as bactérias possuem, de transferir genes sob a mediação por transdução, transformação ou conjugação com elementos móveis quando sujeitas a infeções por bacteriófagos e outros elementos genéticos.

O "Cas" da sigla, corresponde a uma proteína específica à qual se liga um pequeno fragmento de RNA, que a vai orientar para um local específico do DNA, por exemplo, de um vírus invasor, a fim de o seccionar. Ora, tal sistema tornou-se numa extraordinária ferramenta de edição génica. Ou seja, uma forma de substituir um gene defeituoso por um gene funcional.



As nucleases são enzimas capazes de quebrar as ligações existentes entre bases nucleotídicas em edição genética. São feitos cortes em locais específicos do DNA. Ora, a endonuclease – Cas9 – faz parte do sistema imunitário adaptativo da bactéria streptococus pyogenes. A nucleasse – Cas9 – é direcionada por uma pequena sequência de RNA que reconhece o DNA alvo, por complementaridade, tornando-o acessível à ação da Cas9. Hoje, o melhor método de transporte e entrega às células alvo é feito por ribonucleoproteínas (RNPs).

A introdução dos componentes do CRISPR/Cas9 num zigoto ou numa fase embrionária precoce permite modificar o genoma em todas as células do organismo, incluindo as da linha germinativa.





Há um manancial de problemas na saúde humana, seja ela física, seja psíquica ou mental, em que os cientistas da engenharia genética esperam poder resolver num futuro já não tão longínquo como os filmes de ficção científica nos fariam pensar. Por exemplo, até ao momento, não foi identificado um único gene responsável pela adição a drogas. A tendência à dependência de substâncias é influenciada por uma combinação complexa de fatores genéticos, ambientais e sociais. No entanto, estudos sugerem que há variantes genéticas suscetíveis de poderem contribuir para a dependência química, e sendo assim, é uma questão de tempo, o apetite dos cientistas para resolver problemas é infinito.

O primeiro uso terapêutico da transferência génica, bem como a primeira inserção direta do DNA humano no genoma nuclear, foi realizado por French Anderson em um ensaio iniciado em setembro de 1990. Nem todos os procedimentos médicos que introduzem alterações na composição genética de um paciente podem ser considerados terapia génica. Descobriu-se que o transplante de medula óssea e os transplantes de órgãos em geral introduzem DNA estranho nos pacientes.

Após os primeiros avanços na engenharia genética de bactérias, células e pequenos animais, os cientistas começaram a considerar como aplicá-lo à medicina. Duas abordagens principais foram consideradas: substituir ou interromper genes defeituosos. Os cientistas se concentraram em doenças causadas por defeitos de um único gene, como fibrose cística, hemofilia, distrofia muscular, talassemia e anemia de células falciformes.

O DNA deve ser administrado, atingir as células danificadas, entrar na célula e expressar ou interromper uma proteína. A abordagem inicial incorporou o DNA num vírus projetado para entregar o DNA (a porção de DNA que exprime um gene que faz com que uma proteína necessária seja expressa) no cromossoma. Mais recentemente, o aumento da compreensão da função da nuclease levou a uma edição mais direta do DNA usando a ferramenta CRISPR.


Na terapia génica germinativa, as células germinativas (espermatozoides; óvulos) são modificadas pela introdução de genes funcionais em seus genomas. A modificação de uma célula germinativa faz com que todas as células do organismo contenham o gene modificado. A mudança é, portanto, hereditária e passada para as gerações posteriores. Se, por exemplo, uma mutação em um determinado gene causa a produção de uma proteína disfuncional resultando (geralmente recessivamente) em uma doença hereditária, a terapia génica poderia ser usada para entregar uma cópia desse gene que não contém a mutação deletéria e, assim, produz uma proteína funcional. Essa estratégia é conhecida como terapia de reposição génica.

Em maio de 2019, a FDA aprovou o onasemnogene abeparvovec (Zolgensma) para o tratamento da atrofia muscular espinhal em crianças abaixo dos dois anos de idade. Em maio, a EMA aprovou o betibeglogene autotemcel (Zynteglo) para o tratamento da talassemia beta para pessoas com doze anos de idade ou mais. Em julho, a Allergan e a Editas Medicine anunciaram o ensaio clínico de fase I/II do AGN-151587 para o tratamento da amaurose congénita de Leber10. Este é o primeiro estudo de uma terapia de edição genética humana in vivo utilizando a ferramenta CRISPR onde a edição ocorre dentro do corpo humano. A primeira injeção do Sistema CRISPR-Cas foi confirmada em março de 2020.

Em maio de 2020, o onasemnogene abeparvovec (Zolgensma) foi aprovado pela União Europeia para o tratamento da atrofia muscular espinhal em pessoas que apresentam sintomas clínicos de AME tipo 1 ou que não têm mais de três cópias do gene SMN2, independentemente do peso corporal ou da idade. Em agosto, a Audentes Therapeutics relatou que três de 17 crianças com miopatia miotubular ligada ao X que participaram do ensaio clínico de um tratamento de terapia génica AT132 baseado em AAV8 morreram. Foi sugerido que o tratamento, cuja dosagem é baseada no peso corporal, exerce um efeito desproporcionalmente tóxico em pacientes mais pesados, uma vez que os três pacientes que morreram eram mais pesados do que os outros. Em 15 de outubro, o Comité dos Medicamentos para Uso Humano (CHMP) da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) adotou um parecer positivo, recomendando a concessão de uma autorização de introdução no mercado do medicamento Libmeldy (população autóloga enriquecida em células CD34+ que contém células estaminais hematopoéticas e células progenitoras transduzidas ex vivo utilizando um vector lentiviral que codifica o gene da arilsulfatase A humana), uma terapia gênica para o tratamento de crianças com as formas "infantil tardia" (LI) ou "juvenil precoce" (EJ) de leucodistrofia metacromática (DML). A substância ativa do Libmeldy consiste nas próprias células estaminais da criança que foram modificadas para conter cópias funcionais do gene ARSA. Quando as células modificadas são injetadas de volta no paciente como uma infusão única, espera-se que as células comecem a produzir a enzima ARSA que quebra o acúmulo de sulfatidas nas células nervosas e outras células do corpo do paciente. Libmeldy foi aprovado para uso médico na UE em dezembro de 2020. Em 15 de outubro, a Lysogene, uma empresa biotecnológica francesa, relatou a morte de um paciente que recebeu LYS-SAF302, um tratamento experimental de terapia génica para mucopolissacaridose tipo IIIA (síndrome de Sanfilippo tipo A).

Em maio de 2021, um novo método utilizando uma versão alterada do HIV como vetor de lentivirus foi relatado no tratamento de 50 crianças com ADA-SCID, obtendo resultados positivos em 48 delas. Espera-se que esse método seja mais seguro do que os vetores de retrovírus comumente usados em estudos anteriores de SCID, onde o desenvolvimento de leucemia foi geralmente observado e já havia sido usado em 2019, mas em um grupo menor com X-SCID. Em junho, um ensaio clínico em seis pacientes afetados com amiloidose por transtirretina relatou uma redução na concentração da proteína transtirretina perdida (TTR) no soro por meio da inativação do gene TTR em células hepáticas por CRISPR observando reduções médias de 52% e 87% entre os grupos de dose mais baixa e mais alta. Isso foi feito in vivo, sem tirar as células do paciente para editá-las e reinfundi-las mais tarde. Em julho, os resultados de um pequeno estudo de fase I de terapia génica foram publicados relatando a observação da restauração de dopamina em sete pacientes entre 4 e 9 anos de idade afetados pela deficiência de L-aminoácido aromático descarboxilase ou deficiência de AADC.


domingo, 17 de março de 2024

Ideologias


A social-democracia é uma ideologia política que busca combinar princípios democráticos com políticas sociais voltadas para promover a igualdade e a justiça social. Ela defende um sistema económico misto, que inclui uma economia de mercado regulada pelo Estado para garantir o bem-estar social, acesso igualitário a serviços públicos essenciais e proteção social para os cidadãos. Mas, ser social-democrata, geralmente é considerado estar à esquerda do espectro político. Embora a social-democracia compartilhe algumas semelhanças com a ideologia de centro, como a defesa da economia de mercado, ela também enfatiza fortemente políticas sociais redistributivas e intervenção estatal para promover a igualdade e o bem-estar social, o que a coloca mais à esquerda. No entanto, é importante notar que a posição exata de um partido ou indivíduo dentro do espectro político pode variar de acordo com o contexto político e as políticas específicas defendidas.

A ideologia de esquerda se caracteriza por uma ênfase na igualdade social, justiça distributiva, defesa dos direitos das minorias, preocupação com o bem-estar social e uma visão mais favorável à intervenção do Estado na economia para promover igualdade de oportunidades. Isso pode incluir políticas como programas de assistência social, acesso universal à saúde e à educação, proteção dos direitos dos trabalhadores e uma abordagem mais progressista em questões sociais e culturais.

A ideologia de direita se caracteriza por uma ênfase na liberdade individual, na iniciativa privada, na livre empresa, na minimização da intervenção do Estado na economia e na promoção de valores tradicionais e conservadores. Isso pode incluir políticas como redução de impostos, desregulamentação económica, defesa da propriedade privada, ênfase na segurança nacional e uma abordagem mais conservadora em questões sociais e culturais.

Um partido de extrema-direita é um partido político cuja ideologia tende a ser caracterizada por uma ênfase na hierarquia social, nacionalismo étnico, conservadorismo social, autoritarismo e, em alguns casos, xenofobia e racismo. Esses partidos muitas vezes defendem políticas que visam restringir a imigração, promover valores tradicionais e fortalecer o controlo do governo sobre a economia e a sociedade. Abominam multiculturalismo e os direitos das minorias.

É importante realçar que a nossa discordância, em relação à doutrina de um partido político, não significa que tenhamos de o tratar como um inimigo, que implique resistência ou luta armada. Enquanto é aceitável a crítica e oposição às políticas de um partido de extrema-direita, tratá-lo como um inimigo, quando ele é amplamente sufragado em eleições livres e justas, é errado porque além de extremar posições e alimentar a polarização, é suscetível de acicatar o ódio e aumentar ainda mais a balbúrdia social. Em vez disso, é mais construtivo promover o diálogo e buscar entendimento mútuo, mesmo com aqueles com os quais discordamos fortemente.

Em termos políticos, geralmente não se identifica alguém como sendo simultaneamente de direita e de esquerda, pois essas ideologias têm tão diferentes visões sobre questões fundamentais, que em muitos casos são até antagónicas. Outra coisa diferente é um cidadão eleitor umas vezes escolher votar num partido de direita, e outras vezes votar num partido de direita. Ou, também possível, uma pessoa nuns setores da governação preferir políticas de direita, e noutros sectores preferir políticas de esquerda.

Em conclusão: a divisão do eleitorado em direita e esquerda ainda é uma estrutura relevante em muitos sistemas políticos ao redor do mundo. Embora as definições e as características específicas de direita e esquerda possam variar conforme o contexto cultural e histórico, essas ideologias continuam a influenciar a política, a formação de partidos políticos e as preferências dos eleitores. No entanto, é importante notar que a política contemporânea também pode ser influenciada por outras divisões, sejam elas de ordem cultural ou identitária.


sábado, 9 de março de 2024

Como todos os regimes do passado, as democracias também se desfazem



O nacionalismo - que começou por ser uma extraordinária ideia cívica e emancipadora em finais do século XVIII, e durante grande parte do século XIX - tornou-se, gradualmente, uma ideologia destrutiva. As duas grandes guerras europeias da primeira metade do século XX, as quais adquiriram dimensão mundial pela influência europeia, mostram bem isso. Hoje, com distanciamento histórico, sabemos que as sementes dessa engrenagem destrutiva estavam lá desde o início do movimento dos nacionalismos. 

A ideia de nação no início foi boa, pois foi libertadora da opressão do Antigo Regime. Pertencer à nação, ser um cidadão nacional, significava ter direitos fundamentais, poder escolher os seus governantes, não ser propriedade de um monarca absoluto, nem estar sujeito à total arbitrariedade de quem governava. Foi assim que o Império da Áustria, mais tarde Austro-Húngaro, e o Império Otomano, desapareceram. Foi assim que em Portugal se depôs a monarquia. Quanto ao Império, o seu desaparecimento só aconteceu muito mais tarde depois de 13 anos de guerra em África desencadeada pelos movimentos de libertação. Agora não é a nação, nem o nacionalismo radical, ao contrário do que muitos julgam, que está a minar a democracia. O que não significa que não persistam movimentos nacionalistas radicais importantes. Há múltiplas instituições e vários mecanismos criados contra o seu ressurgimento, desde logo a União Europeia.

A questão é saber se a ideia de identidade promovida por movimentos de certa intelectualidade académica - à semelhança do que aconteceu no passado com a ideia de nação, originalmente libertadora e emancipadora, a qual se transformou em nacionalismo agressivo - não estará a transformar-se num movimento radical e destrutivo. 
Em termos de movimentos, a teoria pós-colonial abrange o estudo e a análise das obras produzidas tanto em países que foram colonizadores como colonizados. É o exemplo de Edward Said e a sua análise de Joseph Conrad no âmbito das relações entre ingleses e africanos no século XIX.

Há hoje uma ideologia identitária que corre numa grande vaga pelo mundo a partir da América, onde foi criada. É uma ideologia que exacerba uma determinada identidade social e de grupo. Hoje há uma fratura na direita, espaço ideológico onde trava uma verdadeira luta pelo poder. A tradicional fratura ideológica esquerda/direita está a diluir-se para uma coisa diferente, chamemos-lhes de um lado partidos identitários tribais e do outro partidos de causas emergentes. Está a emergir um novo padrão político no qual a esquerda e a direita se confrontam cada vez menos segundo linhas ideológicas clássicas, normais numa democracia pluralista.

As implicações sociais e políticas são vastas e potencialmente destrutivas da coesão social. Há, assim, demasiados sinais que apontam para que a ênfase na identidade, ideia originalmente emancipadora e libertadora da discriminação social e racial, esteja, gradualmente, a transformar-se numa ideologia destrutiva. A democracia que se estruturou a partir da Revolução Francesa, a qual pressupõe uma identidade nacional partilhada, sem tribalismos identitários, está em crise.


quarta-feira, 6 de março de 2024

A Espanha 1931/36 antes da Guerra Civil 1936/39





A Segunda República na Espanha era de fundação recentíssima, pois datava apenas de abril de 1931. Tinha sido obra da esquerda e era fundamentalmente rejeitada por quase toda a direita, cada vez mais extremada contra o socialismo, visceral e generalizado. A aversão à esquerda se inseria com facilidade na trama de valores católicos ferrenhos que caracterizavam grande parte da Espanha provinciana e que a direita tinha incorporado à sua imagem da nação espanhola. Essa hostilidade era secundada, naturalmente, pelos membros das tradicionais elites dominantes, os que mais tinham a perder no caso da ascensão do temido regime socialista — os proprietários de terras, os grandes industriais, a Igreja católica e, em especial, setores significativos da oficialidade do Exército. O poder dessas elites vinha caindo, mas ainda se mantinha intacto. Derrubar a república usando de força era uma opção. Afinal, a ditadura de Primo de Rivera só acabara alguns anos antes, em janeiro de 1930, e o golpe militar há muito que ocupava o seu lugar na política espanhola. Em março de 1936, os generais espanhóis conspiravam para tentar outra vez derrubar um governo eleito.

O fracasso da esquerda na França começou a ser eclipsado pela tragédia muito maior, que foi a derrota da esquerda na Espanha. Com muito apoio popular e os recursos do Estado à sua disposição, a esquerda espanhola se dispunha a lutar para defender o regime republicano. No entanto, estava seriamente debilitada por terríveis divisões faccionais, conflitos destrutivos e dissensões ideológicas, a que se sobrepunham separatismos regionais mais vigorosos do que em qualquer outra parte da Europa Ocidental (sobretudo na Catalunha e no País Basco, regiões relativamente desenvolvidas do ponto de vista económico). Ainda mais lesiva para a esquerda era a antiga e profunda polarização da sociedade espanhola. Muito mais do que na França, um abismo separava os agrupamentos ideológicos da esquerda e da direita na Espanha. As lealdades republicanas não eram tão arraigadas como na França.

O triunfo da esquerda socialista e republicana nas eleições de 1931 foi um fenómeno efémero. Em novembro de 1933, quando houve novas eleições, a direita tinha recuperado as forças. A esquerda sofreu uma derrota para uma coligação de direita liderada por Alejandro Lerroux, que se tornou primeiro-ministro. Os dois anos seguintes puseram fim, e em muitos casos subverteram, os modestos avanços sociais feitos desde a fundação da república. Para a esquerda, esse período foi o biénio negro, de crescente ameaça fascista e forte repressão.

Desmantelada a coligação de direita governante, derrubada por escândalos financeiros e discórdias políticas, novas eleições foram convocadas para fevereiro de 1936. Nesse intervalo, a esquerda formara uma Frente Popular, coligação eleitoral de republicanos (cujos eleitores pertenciam basicamente à classe média) e socialistas — as duas maiores forças —, apoiada, com graus variados de entusiasmo, por comunistas, separatistas catalães e sindicatos socialistas e anarquistas.

Apuradas as urnas, a Frente Popular obteve uma vitória histórica. O governo, formado apenas por republicanos, era fraco desde o começo. Os socialistas, eles mesmos desunidos, recusaram-se a participar. O partido estava dividido entre sua ala reformista, chefiada pelo moderado Indalecio Prieto, e a Unión General de Trabajadores, cada vez mais revolucionária, liderada por Francisco Largo Caballero, que adorava ser chamado de “o Lenine espanhol”, designação que lhe foi dada pela imprensa soviética. O Movimento Juventude Socialista, assim como a organização sindicalista, também viam o futuro em termos de uma revolução em grande escala, e não de reformismo fragmentário. Eram evidentes os atrativos do Partido Comunista, que ainda era pequeno, mas crescia depressa.

O governo começou a restaurar as mudanças sociais e económicas, libertou presos políticos, expropriou latifúndios e devolveu a autonomia à Catalunha (prometendo o mesmo aos bascos). Entretanto, o controlo do país ia escapando. Camponeses pobres e trabalhadores agrícolas ocuparam grandes propriedades no sul da Espanha. Ocorreram greves em centros urbanos. Os incêndios de igrejas — símbolos da mão opressora da Igreja Católica — tornaram-se mais comuns do que em 1931 e alimentaram a propaganda da direita. Foram numerosos os assassinatos, cometidos tanto pela esquerda como pela direita. As posições iam-se extremando dos dois lados. A Falange, antes uma pequena facção da direita, viu-se de repente ganhando novos filiados, muitos deles pertencentes ao movimento de juventude da Confederação Espanhola da Direita Autónoma (CEDA), que apoiava uma posição antirrepublicana mais agressiva do que a defendida por muitos membros mais velhos do partido. Enquanto isso, sem que o governo percebesse, a conspiração fermentava.

Alguns comandantes do Exército, entre eles Franco, tinham aventado um golpe logo depois da eleição. Entretanto, o momento não era propício, e eles preferiram observar e esperar. Na tentativa de neutralizar possíveis problemas causados pelos militares, o governo afastou Franco da chefia do Estado-Maior e deu-lhe um comando nas ilhas Canárias. O general Emilio Mola, sabidamente hostil à república (e, na verdade, o principal instigador do golpe planeado), também foi posto fora de cena. Surpreendentemente, porém, Mola foi trazido de volta de um comando no Marrocos espanhol e posto à frente de uma guarnição em Pamplona, no norte da Espanha — de onde poderia forjar vínculos fortes com figuras que apoiavam o golpe de forma clandestina. Alguns falangistas foram presos, mas teriam sido capazes de levar adiante seus planos mesmo na cadeia. Mas o governo, em sua fraqueza, tomou poucas medidas além dessa para evitar problemas.

O putsch teve início no Marrocos espanhol e nas Canárias, em 17 de julho de 1936, e se espalhou para o território continental da Espanha nos dois dias seguintes. Os conspiradores contavam com um golpe rápido e a imediata tomada do poder pelos militares, mas logo ficou evidente que isso não iria acontecer. Em algumas áreas, unidades militares e grande parte da população apoiaram os rebeldes. A nomeação de três primeiros-ministros em dois dias foi um sinal claro de que o governo estava em pânico. Mola sentiu-se confiante o suficiente para rejeitar um pedido de trégua. Em outros lugares, porém, o Exército e a polícia se mantiveram leais à república, embora com frequência fizessem jogo duplo. Em Madrid, Barcelona e San Sebastián, no País Basco, trabalhadores pegaram em armas. Em questão de dias, a Espanha estava completamente dividida, tanto quanto estivera na eleição de fevereiro.


O leste e o sul do país mantiveram-se, de modo geral, ao lado dos republicanos. Entretanto, os rebeldes conseguiram avanços rápidos no Sudoeste, no Oeste e em grande parte da área central do país. Do ponto de vista militar, as forças da república e as dos rebeldes eram bastante equivalentes; as mais importantes áreas industriais ainda estavam nas mãos do governo. Até mesmo nas aldeias as pessoas tomavam partido: esquerda ou direita, a república ou o fascismo. A espiral de violência não parava de crescer. Já nos primeiros dias, registaram-se atrocidades infames dos dois lados. Nas áreas que dominaram, os rebeldes mataram ou executaram sumariamente grande número de pessoas. Não há como determinar a quantidade exata de mortes, mas com certeza chegaram a milhares. Do lado republicano foram comuns atos de violência contra partidários da sublevação ou inimigos de classe. Houve acerto de contas. A aplicação da “justiça revolucionária” em tribunais improvisados levou a numerosas execuções. O clero foi alvo de violências hediondas. Mais de 6 mil religiosos — sacerdotes, monges e freiras — foram assassinados, enquanto se queimavam igrejas e se destruíam imagens religiosas. O golpe já se estava transformando numa guerra civil em grande escala, embora não houvesse um vencedor claro à vista.

segunda-feira, 4 de março de 2024

A questão da historicidade bíblica





Do ponto de vista histórico, a historicidade da Bíblia é encarada de um modo diferente das pessoas que, de um ponto de vista religioso, a tomam como uma narrativa verdadeira tal como se se tratasse de um livro histórico. A História 
é uma disciplina que lida com o estudo de vestígios e documentos de épocas pretéritas tendo por vista pensar, interpretar e reconstruir o passado. A Bíblia é um livro considerado sagrado por diversas denominações religiosas. Por séculos foi vista como um documento derivado diretamente da inspiração divina, e por isso o que ela narrava era tido como verdade inquestionável, e mesmo suas narrativas puramente "históricas" eram consideradas relatos fidedignos do que acontecera no passado. Não importava, então, o contexto cultural, político e social em que havia sido escrita, uma vez que o estudo deste livro estava limitado ao debate teológico, moral e doutrinal.

Mas à medida que a civilização ocidental foi caminhando com o desenvolvimento do método científico para se aproximar da verdade de um modo mais fidedigno, certas passagens dos textos, designados como canónicos, a sua veracidade passou a ser questionada. A crítica historiográfica baseada na abordagem científica ganhou força quando uma série de descobertas, entre elas o deciframento da escrita hieroglífica egípcia, em 1822, e o deciframento da escrita cuneiforme acadiana, em 1857, complementado pelas pesquisas sistematizadas dos arqueólogos, passou a vir à luz do dia muta informação que até aí estava escondida do conhecimento moderno. E foi assim que a Bíblia deixou de ser um documento exclusivo das exegeses teológicas para passar a ser estudada segundo o método da ciência histórica das universidades.

Desde então, muito do seu conteúdo histórico passou a ser encarado como fazendo parte do domínio do mito, lenda e alegoria. Além disso, há muitas contradições internas e larga porção está baseada em alegações de milagres e intervenções divinas, aspeto que não tem nada de científico.  Hoje os livros da Bíblia são tratados como documentos iguais a quaisquer outros, devendo ser lidos criticamente e comparados com outras fontes (textuais, arqueológicas, epigráficas, etc.), para distinguir-se o que têm de informação valiosa para elucidar alguns factos e eventos e entender como a tradição religiosa e cultural da região se articulou e desenvolveu, e o que não é confiável, possuindo elementos fantasiosos, tendenciosos e de redação tardia em relação aos factos narrados.

É claro que toda esta abordagem tem implicações mais amplas do que o mero exercício erudito, se considerarmos o que ainda hoje se passa no Médio Oriente por causa das reivindicações que os fundamentalistas religiosos fazem em Israel pela posse de terra na Palestina. Hoje, a história antiga, tem de ser feita com os contributos da crítica textual, dos registos arqueológicos e a comparação de fontes diferentes para a sua reconstrução. Philip Davies, por exemplo, entende que os textos bíblicos são necessários para se reconstruir uma história do pensamento israelita. William G. Dever, Israel Finkelstein e Amihai Mazar fornecem análises sobre os interesses ideológicos e o contexto social, cultural e político que influíram na redação. Para Mario Liverani a história de Israel se divide entre uma história "normal", construída a partir de uma diversidade de fontes, entre elas as arqueológicas, e uma história "inventada", a forma como os redatores bíblicos reinterpretaram o passado.

Por conseguinte, a questão de considerar a Bíblia como um documento histórico é complexa e frequentemente discutida. A Bíblia é certamente um texto antigo que contém relatos de eventos e figuras históricas, mas a sua historicidade varia de acordo com diferentes contextos e relatos. A Bíblia menciona várias figuras e eventos que são corroborados por evidências históricas fora das Escrituras. Por exemplo, figuras como os reis David e Salomão, bem como eventos como o cativeiro da Babilónia, têm confirmação histórica em registros arqueológicos e escritos de outras fontes antigas.
Por seu turno, a interpretação da historicidade bíblica muitas vezes depende do contexto em que os eventos são colocados e das interpretações dos estudiosos. Alguns eventos podem ser interpretados literalmente como históricos, enquanto outros podem ser vistos como mitos, lendas ou parábolas com significados simbólicos.

A Bíblia foi escrita por várias pessoas ao longo de séculos, com diferentes propósitos e perspectivas. Isso pode influenciar a forma como os eventos são relatados e interpretados. Alguns autores podem ter usado linguagem figurativa ou simbólica para transmitir mensagens espirituais ou teológicas, mesmo ao descrever eventos históricos. Ao longo dos séculos, a Bíblia passou por várias edições e traduções, o que pode introduzir variações nos relatos históricos. Erros de tradução ou interpolações podem afetar a precisão histórica de certos textos. Certos eventos e personagens bíblicos é apoiada por evidências arqueológicas e fontes históricas externas, mas nem todos os eventos bíblicos têm confirmação externa.
Ainda que a Bíblia contenha narrativas que envolva figuras que realmente existiram, e eventos históricos que tenham acontecido, a sua historicidade carece sempre de confronto com outros elementos externos que os contextualizem.

Seja como for, é importante notar que a discussão sobre a veracidade da narrativa bíblica é complexa e multifacetada, envolvendo interpretações teológicas, históricas, arqueológicas e científicas. As visões sobre a Bíblia variam significativamente entre diferentes tradições religiosas e indivíduos, e há um amplo espectro de opiniões sobre o assunto. Veja-se, só para dar um exemplo, o caso de Pedro. Há quem defenda que é uma lenda inventada no século III. O que é da narrativa canónica da Igreja é que Pedro, o apóstolo Pedro, viveu em Roma entre 42 e 67 desta era. Por exemplo, Ralph Woodrow, no livro Babilónia, relata que o Novo Testamento diz que ele foi para Antioquia, Samaria, Jope, Cesareia e outros lugares menos Roma. Em 42, no tempo de Herodes Agripa, esteve detido em Jerusalém. Entre 49 e 50 esteve com Paulo em Jerusalém. Pedro exerceria o apostolado entre os judeus e Paulo entre os gentios (Gálatas 2.7,9,10). Depois apareceu em Antioquia, onde Paulo lhe resistiu frontalmente (Gálatas 2.11). E no ano 55 é mencionado como "evangelista itinerante" (1Coríntios 9.5). Neste período, evangelizou o Ponto, a Galácia, a Capadócia, a Ásia, a Bitínia e Babilónia. Anos 61 a 63 - Paulo esteve preso em Roma por 2 anos, mas nunca Pedro o visitou. Na Segunda Epístola a Timóteo, escrita na prisão, no ano 63, Paulo queixou-se dos discípulos e amigos que se ausentaram: "Só Lucas está comigo". Pedro devia estar na Babilónia, de onde escreveu a sua Primeira Epístola (1Pedro 5.13). Em 67 Pedro escreveu as suas epístolas. Não há nenhum sinal da sua presença em Roma.

Por fim, faço aqui uma breve referência, de passagem, aos célebres Apócrifos da Bíblia. Os apócrifos bíblicos são uma coleção de textos religiosos que foram escritos durante o período intertestamentário, entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento, e que não foram incluídos no cânone bíblico judaico ou protestante, mas que são reconhecidos por algumas denominações cristãs, como a Igreja Católica, a Igreja Ortodoxa Oriental e algumas denominações protestantes. Esses textos incluem livros como Tobit, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (também conhecido como Sirácida), Baruque, 1 e 2 Macabeus, além de acréscimos aos livros de Ester e Daniel, entre outros. Os apócrifos são considerados parte do cânon bíblico por algumas tradições cristãs, mas não por outras.

As razões para a exclusão dos apócrifos do cânone judaico e protestante variam, mas geralmente incluem considerações como a falta de reconhecimento pelos líderes religiosos da época, questões doutrinárias e canónicas, além de dúvidas sobre a autenticidade e autoridade desses textos. No entanto, os apócrifos são considerados valiosos por algumas denominações cristãs por sua contribuição para a compreensão da história e teologia judaico-cristãs, bem como por seu valor devocional e espiritual. A Igreja Católica, em particular, considera os apócrifos como parte do cânone bíblico e os inclui em suas versões da Bíblia. É importante notar que o reconhecimento dos apócrifos varia entre as diferentes tradições cristãs, e suas opiniões sobre esses textos podem diferir significativamente.