domingo, 7 de julho de 2024

Depois do Congresso de Viena em 1815



O Congresso de Viena foram várias conferênciasque decorreram de 11 de novembro de 1914 a 9 de junho de 1815 entre monarcas da Europa após as Guerras Napoleónicas. Os países participantes foram: Áustria, Prússia, Rússia, Portugal, Grã-Bretanha e França.

Após o Congresso de Viena em 1815, o Reino da Polónia foi estabelecido como um estado cliente do Império Russo. No entanto, os Romanov não foram "recolocados" na Polónia. O trono da Polónia foi dado a um monarca nomeado pelos russos, que governava em nome do Czar. O Grão-Ducado de Varsóvia, estabelecido por Napoleão, foi dissolvido, e suas terras foram divididas entre o Império Russo, o Reino da Prússia e o Império Austríaco. A Polónia, portanto, em vez de se ter tornado um Estado independente, passou a ser uma entidade subordinada à Rússia.



A Europa depois de 1815

Depois de Napoleão os Habsburgos lideravam uma Confederação Alemã e asseguravam o Norte de Itália 

Após a queda de Napoleão e o Congresso de Viena em 1815, os Habsburgos desempenharam um papel significativo na reorganização da Europa. Eles lideraram a criação da Confederação Germânica, uma associação de estados alemães destinada a garantir estabilidade e segurança na região. Além disso, os Habsburgos receberam mandato sobre partes do Norte da Itália no âmbito do pacto de equilíbrio de poder estabelecido pelo Congresso de Viena. Essas medidas visavam conter o nacionalismo e manter a hegemonia austríaca na Europa Central e no Norte da Itália.

Após a derrota de Napoleão em 1814, os Bourbon foram remetidos ao trono da França. Luís XVIII, membro da Casa de Bourbon, foi proclamado rei da França em 1814, marcando o início da Restauração Bourbon. Esta restauração trouxe de volta a monarquia absoluta e as instituições anteriores à Revolução Francesa em muitos aspectos. No entanto, o retorno dos Bourbon não foi totalmente estável, pois o período do reinado de Luís XVIII foi marcado por tensões políticas e sociais que eventualmente culminaram na Revolução de 1830, que levou novamente à queda dos Bourbon.

Após o Congresso de Viena a Grã-Bretanha manteve o controlo sobre a Colónia do Cabo, localizada na extremidade sul de África, no chamado Cabo da Boa Esperança cujo nome remonta a Bartolomeu Dias. Este navegador português, em 1488, ficou célebre pelofeito de ter sido o primeiroeuropeu a dobrar este caco, ao qual lhe chamou das Tormentes, mas que o rei, Dom João II lhe chamou da Boa Esperança. A Colónia do Cabo era estrategicamente importante devido à sua posição como ponto de paragem imprecindível às rotas marítimas do Atlântico para o Índico, como destino para chegar à Índia. A Grã-Bretanha estava determinada a consolidar a sua influência na região e garantir o controlo sobre as rotas comerciais marítimas.

Napoleão, após o exílio na Ilha de Elba, ainda conseguiu escapar e retornar à França em março de 1815, evento que ficou conhecido como o "Período dos Cem Dias". Ele tentou recuperar o poder, mas foi finalmente derrotado pelas forças aliadas lideradas pelo Duque de Wellington na Batalha de Waterloo, em junho de 1815. Esta derrota marcou o fim definitivo do poder de Napoleão. Desta vez foi exilado na na Ilha de Santa Helena, onde vei a morrer em 1821.

Alexandre Dumas inspirou-se nesta história para o seu romance de grande fôlego: O Conde de Monte Cristo. O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, é uma obra de ficção clássica que incorpora elementos históricos e culturais da época. É possível que Dumas se tenha inspirado em eventos como o ocorrido em Marselha para criar parte da trama de seu romance. A ficção muitas vezes se baseia em eventos reais para adicionar profundidade e autenticidade à história.

Durante o período napoleónico haviam-se operado mudanças significativas nas leis e nas oportunidades económicas para os judeus na Europa. Com o surgimento de ideias de igualdade e liberdade, muitos países começaram a relaxar restrições legais e sociais que haviam sido impostas aos judeus durante séculos. Isso permitiu que alguns judeus prosperassem em áreas como a bancária e o comércio, incluindo investimentos na bolsa de valores. Este período viu o início de uma ascensão económica para certas comunidades judaicas na Europa.

Por outro lado o seu sucesso gerou invejas e novas tensões do medieval racismo antijudaico. O sucesso económico dos judeus durante esse período também gerou inveja e ressentimento entre algumas pessoas e comunidades. O antissemitismo, que já existia historicamente na Europa, ressurgiu em várias formas, alimentado pelo medo da concorrência económica, preconceitos religiosos e políticos e até mesmo por razões sociais. Essas tensões resultaram em episódios de discriminação, violência e restrições legais em algumas áreas, mostrando que, apesar das mudanças positivas, o antissemitismo persistia em muitas partes da sociedade europeia.

Nathan Rothschild e o seu cunhado Montefiore faziam campanha pelos direitos dos judeus. Nathan Rothschild e seu cunhado Moses Montefiore foram figuras proeminentes na comunidade judaica e estiveram envolvidos em várias iniciativas para promover os direitos e interesses dos judeus durante o século XIX. Ambos eram conhecidos por seu sucesso financeiro e influência nos círculos políticos e sociais da época. Eles dedicaram parte de seus recursos e esforços para defender a igualdade de direitos civis, religiosos e económicos para os judeus em diferentes países europeus. Suas campanhas e ativismo desempenharam um papel importante na luta contra o antissemitismo e na promoção da igualdade.


sábado, 6 de julho de 2024

A Pequena Idade do Gelo



Pequena Idade do Gelo é a designação dada ao período não tão curto assim, de arrefecimento do clima, entre os séculos XIV e XIX, com a sua maior intensidade verificada durante o século XVII. Durante esse período houve uma série de eventos climáticos extremos, como invernos rigorosos, geadas fora de época e colheitas fracassadas. Isso teve impactos significativos na agricultura, na economia e na vida quotidiana principalmente da Europa, mas também noutras partes do globo. É demonstrada pelo avanço dos glaciares e pela redução da temperatura média global. Este período também é associado a eventos históricos como a Peste Negra e a Guerra dos Trinta Anos.



Pintura de Pieter Bruegel, o Velho, 1565
O original está no Museu Kunsthistorisches, em Viena

Três caçadores e seus cães estão caminhando por uma paisagem coberta de neve. Uma aldeia pitoresca e um grupo de pessoas à beira de uma fogueira lá ao fundo. Há uma vasta natureza com um lago congelado que os envolve. Caçadores e os seus cães passam por um renque de árvores completamente despidas exceto os corvos e a neve nos ramos. Esta pintura a óleo de Bruegel, que faz parte de um conjunto de quatro a ilustrar as estações do ano é única na sua capacidade de capturar a natureza nos seus cenários da vida real de maneira harmoniosa. Mesmo o verde brilhante do céu em contraste com o branco da neve que nos faz sentir o frio.  

Não se confunda este período com o último período glacial, também referido como Idade do Gelo, Glaciação do Würmiano ou Laurenciano. Este perído teve lugar durante a última parte do Pleistoceno com episódios alternados de avanço e recuo dos glaciares em que o Último Máximo Glacial ocorreu entre 26.000 e 20.000 anos atrás. No entanto, as diferenças locais dificultam a comparação dos detalhes de continente para continente. Por exemplo, há cerca de 11.700 anos atrás terminou o Dryas Jovem que havia começado mil anos antes, ainda na época do Pleistoceno, ao qual se seguiu o Holoceno, que é a época geológica atual. 

Feito o esclarecimento, o Observatório da Terra da NASA, em relação à Pequena Idade do Gelo, observa três datas que assinalam picos particularmente frios: 1650; 1770; 850. Entre essas datas considerados intervalos de leve aquecimento. O Terceiro Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas considerou que o calendário e as áreas afectadas pela Pequena Idade do Gelo sugeriam alterações climáticas mais de tipo regional independentes do que alargadas ao resto do globo de uma forma globalmente sincrónica. No máximo, houve um modesto arrefecimento do Hemisfério Norte nesse período.

Não há consenso sobre quando a Pequena Idade do Gelo começou, mas uma série de eventos antes dos mínimos climáticos conhecidos têm sido frequentemente referenciados. No século XIII, o gelo começou a avançar para o sul no Atlântico Norte, assim como os glaciares na Gronelândia. Evidências anedóticas sugerem a expansão dos glaciares em quase todo o mundo. Com base na datação por radiocarbono de cerca de 150 amostras de material vegetal morto com raízes intactas que foram coletadas sob as calotes polares na Ilha de Baffin e na Islândia, Miller e colaboradores afirmam que os verões mais frios e o aumento do gelo começaram abruptamente entre 1275 e 1300, seguidos por "uma intensificação substancial" por volta de 1430 a 1455.

Vários eventos têm sido asociados ou correlacionados: baixas cíclicas da radiação solar; atividade vulcânica; mudanças na circulação das correntes oceânicas; variações na órbita da Terra; inclinação axial (força orbital); variações demográficas das populações não apenas humanas; migrações como as dos mongóis; Peste Negra; epidemias nas Américas com fortes quedas demográficas nas populações humanas depois do contacto com os europeus.

Os prolongados períodos frios e secos trouxeram fracas produções agrícolas e pecuárias, com as consquentes fomes e doenças. Baixa do emprego e consequentes dificuldades económicas. A doença e o desemprego geram ciclos de feedback positivo com consquências letais. Embora as comunidades tivessem alguns planos de contingência, como melhores misturas de culturas, stoques emergenciais de grãos e comércio internacional de alimentos, eles nem sempre se mostraram eficazes. Os crimes violentos aumentam pelo roubo e assaasinato. Os crimes sexuais também aumentaram. Os europeus, buscando explicações para os quatro cavaleiros do Apocalipse, tinham de encontrar os culpados, os tais bodes expiatórios. As ações violentas contra a minorias e grupos marginalizados aumentaram. 
Um exemplo de bode expiatório: o julgamento das bruxas por bruxaria. 

Antes da Pequena Idade do Gelo, a bruxaria era considerada um crime insignificante, e as vítimas (as supostas bruxas) raramente eram acusadas. Mas a partir da década de 1380 as populações europeias começaram a ficar muito inquietas com pogroms. E a partir de 1430 a caça às bruxas começa a aumentar. Na década de 1480 acreditava-se que as bruxas eram as culpadas do mau tempo. Os julgamentos visaram principalmente mulheres pobres, muitas delas viúvas. É claro que nem toda a gente concordava que eram as bruxas as culpadas. Nem que eram os judeus os culpados, outra versão muito frequente nessa altura. Portanto, também havia pessoas que eram contra as perseguições. Ainda assim havia quem argumentasse que não era que houvesse dúvidas quanto à existência de bruxas. A dúvida estava se eram elas as culpadas pelas alterações climáticas. Como é que elas tinham capacidade para controlar o clima? Por isso, as populações judaicas também foram culpadas pela deterioração climática durante a Pequena Idade do Gelo. 

Nos Estados da Europa Ocidental há uma coincidência, no auge da pequena Idade do Gelo, com o aumento do antissemitismo. No entanto, a atribuição da culpa aos judeus prendia-se mais com as doenças do que propriamente com o clima. Eram responsabilizados apenas pelas consequências indiretas, como é o caso das doenças. Os surtos da Peste Negra eram frequentemente atribuídos aos judeus. Em cidades da Europa Ocidental durante a década de 1300, populações judaicas foram assassinadas para impedir a propagação da Peste. Rumores se espalharam de que os judeus estavam envenenando poços ou dizendo aos leprosos para envenenar os poços. Para escapar da perseguição, alguns judeus se converteram ao cristianismo, enquanto outros migraram para as cidades do Império Otomano. 

No entanto, na Irlanda, gerou-se um fenómeno parecido, mas o bode expiatório passou a ser outro: os protestantes. Os católicos culparam a Reforma das desgraças que entretanro chegaram à ilha. Os Anais do Lago Cé, em sua entrada de 1588, descreve uma tempestade de neve e pleno verão. Culparam a presença de um "bispo perverso, herético, em Oilfinn", o bispo protestante de Elphin, John Lynch. 

O Mar Báltico congelou mais de duas vezes, em 1303 e 1306-1307, e anos se seguiram de "frio fora de época, tempestades e chuvas, e um aumento no nível do Mar Cáspio". Fazendas e aldeias nos Alpes suíços foram destruídas pela invasão de glaciares durante meados do século XVII. Canais e rios na Grã-Bretanha e Holanda eram frequentemente congelados profundamente o suficiente para apoiar a patinagem no gelo e festivais de inverno. Como o comércio precisava continuar durante o inverno prolongado, muitas vezes abrangendo 5 meses, os comerciantes equiparam seus barcos estilo boer com tábuas e patins (corredores), daí ter nascido o barco do gelo. O ri Tamisa gelava. As mudanças nas pontes e a adição do aterro do Tamisa afetaram a vazão e a profundidade do rio e diminuíram muito a possibilidade de novos congelamentos. Em 1658, um exército sueco marchou através da Dinamarca e através do Grande Cinturão para atacar Copenhague a partir do Ocidente.

O inverno de 1794-1795 foi particularmente duro: o exército de invasão francesa sob Pichegru marchou sobre os rios congelados dos Países Baixos, e a frota holandesa ficou bloqueada no gelo no porto de Den Helder. O gelo marinho ao redor da Islândia se estendia por quilómetros em todas as direções e fechava os portos para a navegação. A população da Islândia caiu para metade, mas isso pode ter sido causado pela fluorose óssea após a erupção do Laki em 1783. A Islândia também sofreu falhas nas culturas de cereais e as pessoas deixaram de ter uma dieta à base de cereais.

Depois que o clima da Gronelândia se tornou mais frio e tempestuoso por volta de 1250, a dieta dos assentamentos vikings nórdicos também mudaram. Por volta de 1300, a caça às focas fornecia mais de três quartos de sua alimentação. Em 1350, houve redução da demanda por suas exportações, e o comércio com a Europa caiu. O último documento dos assentamentos data de 1412 e, ao longo das décadas seguintes, os europeus remanescentes partiram no que parece ter sido uma retirada gradual, causada principalmente por fatores económicos, como o aumento da disponibilidade de fazendas nos países escandinavos. A Gronelândia foi em grande parte isolada pelo gelo de 1410 a 1720.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Garcia II do Congo

 


Em 1641, Garcia II do Congo liderou uma revolta contra os colonizadores portugueses, expulsando-os temporariamente da região. Essa revolta foi parte dos esforços dos líderes locais para resistir à colonização e preservar a autonomia do Reino do Congo. "Manikongo" era o título dado aos monarcas do Reino do Congo, uma região na África Central que hoje faz parte da República Democrática do Congo e de outros países vizinhos. O Manikongo era o líder supremo do reino e desempenhava um papel crucial na governança política, económica e social da região.

Garcia II foi o segundo rei da casa de Quinzala e poucos meses após subir ao trono, Luanda foi invadida e dominada pelos holandeses no contexto da Guerra dos Oitenta Anos. Rapidamente fez uma aliança com os holandeses, descartando a antiga aliança política e religiosa com os portugueses. Durante o início de seu reinado, o conde D. Daniel da Silva de Soyo declarou a separação do condado do resto do reino. Com isso deu-se início à Primeira Guerra Civil do Reino do Congo, 1641-1645, e o rei reconhece a soberania e independência de Soyo.

Em 15 de agosto de 1648, os portugueses reconquistam Luanda e tomam conhecimento da aliança dos invasores feita com o D. Garcia II. Os portugueses quase declararam guerra ao Congo, mas logo uma conferência de paz ocorre e é seguida de um acordo pouco tempo depois. No acordo o rei teve de ceder a soberania da Ilha de Luanda aos portugueses, ainda tendo que assinar um tratado onde o mesmo se comprometia a não realizar alianças e diplomacia com os Países Baixos e a Espanha, já que na época os reinos de Portugal e Espanha estavam em guerra. Outro comprometimento seria de ceder as montanhas do reino para a exploração portuguesa de metais preciosos, como prata e cobre.

Em 1650 o papa Gregório XV envia um grupo de padres capuchinhos para realizar missões no Congo. Na mesma época o rei entra numa disputa com os nobres e o Conselho Real, já que a monarquia congolesa ainda dependia de um conselho de nobres e eleitores do rei. Garcia tentou obter apoio de Roma para a sua campanha de tonar hereditária a monarquia e exilou o seu sobrinho e herdeiro Pedro de Sundi. Mesmo assim, todos os seus esforços foram em vão. Em 1654, o rei entra em conflito com os capuchinhos, já que o padre italiano Jacinto de Vetralla criticou o rei e afirmou que ele tinha "má conduta" e era adepto de "crendices tradicionais", coisa que o irritou profundamente. O manicongo acusou os capuchinhos ao governo de Luanda de traição.

Garcia teve muitas decisões tirânicas em seu reinado, pois odiava os portugueses e todos que declarassem apoio aos mesmos eram executados, inclusive seu filho e herdeiro, D. Afonso, que foi condenado à morte por supostamente conspirar contra o pai com o apoio lusitano. O rei também chegou a uma quase guerra com os portugueses devido ao não cumprimento da clausula assinada em 1649 que cedia as montanhas do reino à exploração. Garcia II do Congo faleceu em 1660 com 45 anos, sendo sucedido por seu sobrinho AntónioI.

Durante o século XVII, os holandeses estiveram também envolvidos em conflito com os portugueses no Brasil, em uma série de guerras conhecidas como as Invasões Holandesas. Esses conflitos resultaram na ocupação temporária de partes do nordeste brasileiro pelos holandeses, principalmente nas regiões de Pernambuco e Bahia. As batalhas entre portugueses e holandeses no Brasil foram parte do contexto mais amplo das disputas coloniais europeias pelo controlo de territórios e recursos ultramarinos. Garcia II do Congo havia sido educado por missionários portugueses, o que provavelmente teve uma influência significativa na sua cultura. A influência cultural dos colonizadores europeus acabava por gerar nestes líderes um relacionamento complexo e ambivalente com os colonizadores.

Daí que não seja de estranhar que Garcia II do Congo se tenha envolvido no comércio de escravos, assim como muitos outros líderes africanos da época. O comércio de escravos era uma prática comum na região e era muitas vezes incentivado pelos próprios colonizadores europeus, que lucravam com essa atividade. Apesar de algumas tentativas de resistência à escravidão por parte de líderes africanos, muitos deles acabavam participando do comércio de escravos devido às pressões económicas e políticas da época.

Durante o período colonial muitos colonos portugueses casaram-se com mulheres africanas, especialmente em regiões onde havia uma presença significativa de colonos portugueses e interações com comunidades locais. Esses casamentos frequentemente resultavam em famílias mestiças, e as mulheres africanas muitas vezes desempenhavam papéis importantes como esposas, mães e até mesmo como parceiras comerciais dos colonos portugueses. Essa prática também contribuiu para uma mistura cultural e étnica em algumas áreas colonizadas pelos portugueses. Sim, ao longo da história colonial em África, houve uma mistura de crenças e práticas religiosas entre os colonos portugueses e as populações africanas. Muitas vezes, isso resultou em uma sincretização de diferentes tradições religiosas, onde elementos do catolicismo eram combinados com crenças e práticas tradicionais africanas, como o vodu. Esse sincretismo religioso era uma forma de adaptar as crenças religiosas às realidades locais e muitas vezes servia como uma forma de resistência cultural contra a imposição da fé católica pelos colonizadores.


A escarificação era uma prática comum em muitas culturas africanas, incluindo aquelas influenciadas pela presença portuguesa. A escarificação envolve fazer cortes na pele e aplicar substâncias para criar cicatrizes decorativas ou simbólicas. Essa prática era realizada por uma variedade de razões, incluindo expressão cultural, identidade étnica, status social e beleza. Durante o período colonial, algumas comunidades adotaram e mantiveram essa tradição, mesmo em meio à influência cultural européia.

E os "pombeiros" eram os intermediários ou traficantes de escravos que operavam no interior de África durante o período do tráfico transatlântico de escravos. Eles eram frequentemente africanos locais que estabeleciam relações comerciais com os europeus e facilitavam a captura e o comércio de escravos, muitas vezes atuando como intermediários entre as comunidades africanas que capturavam os escravos e os comerciantes europeus que os compravam. Os pombeiros desempenhavam um papel central na cadeia de abastecimento do comércio de escravos e eram frequentemente motivados por incentivos financeiros fornecidos pelos comerciantes europeus.

O surgimento dos Jagas e dos Imbangalas teve um impacto significativo e muitas vezes devastador na região do Congo. Os Jagas e Imbangalas eram grupos guerreiros originários de outras regiões, como Angola, que invadiram o Congo e causaram estragos através de saques, destruição e escravização de pessoas. Suas invasões contribuíram para o enfraquecimento dos reinos africanos locais, incluindo o Congo, e desestabilizaram a região, levando ao colapso de estruturas políticas e sociais estabelecidas. Esses eventos foram parte do contexto mais amplo das mudanças políticas e sociais que ocorreram na África Central durante o período pré-colonial.

Tempo da Exposição Universal e da Guerra da Crimeia

 


Olympia, de Édouard Manet, 1863
óleo sobre tela - 130,5x190
Museu d'Orsay, Paris

Em 1863, Édouard Manet expôs seu famoso quadro "Olympia" no Salão de Paris. A obra causou grande controvérsia devido à representação ousada de uma mulher nua e ao desafio das convenções artísticas da época. "Olympia" é considerada uma das obras mais importantes da história da arte moderna.

Estava ainda a decorrer a Guerra da Crimeia e era inaugurada em 1855, em Paris, A Exposição Universal. A Guerra da Crimeia foi um conflito que se estendeu de 1853 a 1856, na península da Crimeia (no mar Negro), no sul da Rússia e nos Balcãs. Envolveu, de um lado o Império Russo e, de outro, uma coligação integrada pelo Reino Unido, a França, o Reino da Sardenha — formando a Aliança Anglo-Franco-Sarda — e o Império Otomano (atual Turquia). Esta coligação, que contou ainda com o apoio do Império Austríaco, foi formada como reação às pretensões expansionistas da Rússia. Nessa guerra, foi importante o papel da marinha de corso, pela França e Reino Unido.Em 1854, a Grã-Bretanha e a França se haviam unido na Guerra da Crimeia contra a Rússia. Essa guerra foi travada principalmente na península da Crimeia, no Mar Negro, e foi motivada por disputas territoriais e pela influência política na região do Mar Negro e do Mediterrâneo Oriental.

Napoleão III organizou a Exposição Universal em 1855, seguindo o exemplo de seu tio, Napoleão Bonaparte, que havia organizado exposições semelhantes durante seu reinado. Essas exposições eram eventos importantes para mostrar o progresso industrial, cultural e tecnológico de um país, além de servirem como vitrines para o mundo. 



Exposição Universal 1855, Paris

Ajudados pelos italianos do Piemonte e pelos otomanos, desembarcaram na Crimeia buscando a base naval de Sebastopol. Sebastopol era uma cidade estratégica e uma importante base naval russa na península da Crimeia. Os aliados, incluindo os britânicos, franceses, italianos do Reino da Sardenha (Piemonte) e os otomanos, realizaram um desembarque na Crimeia com o objetivo de capturar Sebastopol e enfraquecer a influência russa na região do Mar Negro.

Era o tempo de Palmerston e a Rainha Vitória. Durante a Guerra da Crimeia, a Grã-Bretanha era liderada pelo primeiro-ministro Lord Palmerston e a Rainha Vitória reinava como monarca. Este período, conhecido como a era Vitoriana, foi marcado por uma grande expansão do Império Britânico e importantes desenvolvimentos industriais, tecnológicos e culturais. E o rei Leopoldo da Bélgica, tio de Vitória, fez da Europa um viveiro de casamentos.

O rei Leopoldo I dos Belgas, que era tio da Rainha Vitória do Reino Unido, por meio de estar casado com a princesa Carlota de Gales, desempenhou um papel significativo na promoção de casamentos entre as famílias reais da Europa. Esses casamentos frequentemente visavam fortalecer alianças políticas e dinásticas entre os diversos países europeus. Esta prática era comum, e contribuía para a complexa teia de relações entre as monarquias europeias.Vitória ficou deslumbrada com Alberto.

A Rainha Vitória do Reino Unido ficou profundamente encantada e emocionalmente ligada ao seu primo, o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, e casou com ele em 1840. O casamento deles foi considerado um conto de fadas, à época, e o seu relacionamento foi marcado com amor e parceria. O príncipe Alberto desempenhou um papel significativo como consorte da rainha, influenciando-a em muitos aspectos políticos e culturais. E Maria II de Portugal ficou deslumbrada com Fernando Sax-Coburgo.

Maria II de Portugal casou-se com o príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, mais tarde conhecido como Fernando II de Portugal, em 1836. O casamento foi arranjado como parte dos esforços para consolidar alianças políticas e dinásticas na Europa. Maria II e Fernando II tiveram uma relação próxima e ele desempenhou um papel ativo na política portuguesa durante o seu reinado.

Em 1855 Napoleão III e Eugénia fazem uma visita a Windsor. Em 1855, o imperador Napoleão III da França e sua esposa, Eugénia de Montijo, visitaram Windsor, a residência oficial da monarquia britânica. Esta visita foi parte dos esforços diplomáticos para fortalecer as relações entre a França e o Reino Unido durante o reinado da Rainha Vitória. A sorte foi que Napoleão falou em alemão com Alberto. Durante a visita de Napoleão III e Eugénia a Windsor, houve um episódio memorável em que Napoleão III, que falava fluentemente o alemão, pôde conversar com o Príncipe Alberto em sua língua nativa. Isso ajudou a facilitar a comunicação e contribuiu para um clima mais amistoso durante a visita.

E a guerra da Crimeia lá continuava até que terminou com a derrota dos russos e a tomada de Sebastopol. A Guerra da Crimeia terminou com a derrota dos russos e a tomada de Sebastopol pelas forças aliadas, composta principalmente pela Grã-Bretanha, França, Reino da Sardenha (Piemonte), Império Otomano e alguns outros aliados menores. A queda de Sebastopol em setembro de 1855 foi um momento crucial na guerra e contribuiu para o desfecho favorável para os aliados. O tratado de paz que encerrou a guerra foi o Tratado de Paris, assinado em 1856.

Foi já o filho de Nicolau I, Alexandre II, que com a assinatura do Tratado de Paris perdia temporariamente o Mar Negro. Foi o czar Alexandre II, filho de Nicolau I, que perdeu temporariamente o controle do Mar Negro como resultado do Tratado de Paris, que encerrou a Guerra da Crimeia em 1856. O tratado impôs uma série de restrições à Rússia na região do Mar Negro, incluindo a proibição de manter uma frota de guerra no Mar Negro e a neutralização do Mar Negro, tornando-o uma área desmilitarizada. Essas medidas limitaram temporariamente a influência russa na região e foram parte das condições de paz impostas pelos vencedores da guerra.

Em 1862 foi estabelecida a colónia francesa da Cochinchina ao retomarem Saigão. As tentativas iniciais das tropas francesas de tomar Saigon em 1859 foram repelidas, mas em 1862, durante o reinado de Napoleão III, as tropas francesas conseguiram retomar Saigon e estabeleceram a colónia francesa da Cochinchina. Isso marcou um marco importante na expansão colonial francesa no Vietnme, estabelecendo uma base para a futura colonização da região. Depois a França alargou o domínio ao Camboja e Sião, formando uma Indochina imperial que durou até 1954, quando a derrota francesa na Batalha de Dien Bien Phu e os Acordos de Genebra levaram à retirada francesa e à divisão do Vietname em duas partes, Norte e Sul.

Napoleão III foi responsável por expandir o domínio francês no Senegal durante o século XIX. A França estabeleceu uma presença significativa na região, principalmente para fins comerciais e coloniais. Esta expansão no Senegal fazia parte da estratégia mais ampla de Napoleão III de aumentar a influência francesa em África.


Virginia Oldoini - Condessa de Castiglione

A condessa de Castiglione, conhecida por sua beleza e influência, teve um papel intrigante na vida de Napoleão III. Ela era uma figura proeminente na sociedade italiana e manteve um relacionamento com o imperador francês. Sua influência e o relacionamento com ela podem ter contribuído para o interesse de Napoleão III na política italiana, especialmente durante o período de tumultos do Risorgimento, quando a unificação italiana estava em andamento. Virginia Oldoini, Condessa de Castiglione foi uma aristocrata e agente secreta italiana, célebre por ter sido a amante do imperador Napoleão III de França. Em parte, ela foi responsável pela unificação italiana, devido à influência que adquiriu sobre o imperador.

Virginia Oldoini, nascida em Florença em 1837, foi uma figura extraordinária que se destacou em sua época como uma das mulheres mais belas e intrigantes da corte. Sua relação peculiar com a fotografia, me faz arriscar dizer que foi a primeira pessoa a desenvolver a linguagem da fotografia de moda, criando conceitos que utilizamos ainda hoje na produção editorial.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

O século XIX e o tempo dos autocratas




Nicolau I da Rússia

Nicolau I da Rússia, irmão de Alexandre I, foi conhecido por consolidar o poder autocrático na Rússia durante o século XIX. Ele reforçou o controlo do governo sobre a sociedade e implementou políticas conservadoras que limitavam a liberdade individual. Nicolau I abraçou uma missão imperial. Nicolau I acreditava firmemente no conceito de "autocracia iluminada", onde ele via o seu papel como imperador como uma missão divina para governar e modernizar o império russo. Ele buscava promover o poder imperial e expandir a influência russa tanto a nível interno como no cenário internacional.

Nicolau I esmagou a revolta polaca em 1830. Nicolau I enfrentou uma grande revolta na Polónia em 1830, que buscava a independência do domínio russo. Ele reprimiu brutalmente essa revolta, demonstrando sua determinação em manter o controlo sobre as regiões sob o domínio russo. É verdade que durante o reinado de Nicolau I da Rússia, houve expansão russa no Cáucaso, incluindo a região que é hoje a Chechénia. A área estava sob domínio persa, e a Rússia gradualmente a anexou ao longo do século XIX, culminando no Tratado de Turkmenchay de 1828, que formalizou a cedência da região à Rússia por parte do Império Persa. Este foi parte do processo de expansão russa no Cáucaso, que teve implicações significativas para as populações locais e para a geopolítica da região.



Luís Filipe de França

Em 1830, houve a Revolução de Julho na França, que resultou na queda do regime monárquico de Carlos X e na ascensão de Luís Filipe. Esse evento marcou o fim da Restauração Bourbon na França e o início do período conhecido como Monarquia de Julho, que durou até à Revolução de 1848. Luís Filipe governou como um monarca constitucional, tentando equilibrar as demandas da classe média com os interesses da aristocracia. Luis Filipe era conhecido por promover uma imagem de "rei-cidadão", tentando se retratar como um monarca próximo do povo.



James Rothschild
fundador do ramo francês dos Rothschild

A família Rothschild, em particular James Rothschild, desempenhou um papel significativo no financiamento e desenvolvimento da indústria ferroviária na França durante o século XIX. Eles investiram em várias empresas ferroviárias e foram importantes impulsionadores do crescimento desse setor. Além disso, é conhecido que a família Rothschild tinha interesse na produção de vinhos, incluindo os vinhos Château Lafite, que eram altamente valorizados. Suas conexões financeiras e investimentos em diferentes setores frequentemente se entrelaçavam.

Houve especulações de que o personagem Vautrin em "Le Père Goriot" de Balzac foi inspirado em James Rothschild. Vautrin é retratado como um homem influente e astuto, cujas origens e riqueza são misteriosas, características que alguns associaram com James Rothschild. No entanto, Balzac nunca confirmou oficialmente essa inspiração, e é difícil afirmar com certeza.



Leopoldo I, rei dos Belgas
por Samuel William Reynolds


Leopoldo I foi o primeiro rei que se deve dizer dos Belgas, e não da Bélgica. Ele reinou de 1831 até à sua abdicação em 1865. O título de "rei dos Belgas" foi escolhido para indicar a natureza constitucional e limitada de sua autoridade, em contraste com os monarcas absolutos de outras épocas. Tanto Luís Filipe, como rei dos franceses durante a Monarquia de Julho na França, como Leopoldo I desempenharam papéis importantes na estabilização de seus países durante seus reinados. Eles trabalharam para promover o desenvolvimento económico, político e social, contribuindo para a estabilidade interna de suas nações.

Leopoldo era da família de Saxe-Coburgo e Gotha, uma casa nobre europeia com fortes laços históricos com várias monarquias, incluindo a família real britânica e portuguesa. Fernando II (nome completo em alemão: Ferdinand August Franz Anton Koháry von Sachsen-Coburg-Goth [Viena, 29 de outubro de 1816 – Lisboa, 15 de dezembro de 1885) foi o segundo marido da rainha D. Maria II e Príncipe Consorte de Portugal, de 1836 até 1837, altura em que se tornou Rei de Portugal e Algarves por direito de sua esposa. Era o filho mais velho do príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota e da sua esposa, a princesa Maria Antónia de Koháry.


Fernando II de Portugal

Durante esse período, em que a Grécia estava sob o domínio otomano, houve vários levantamentos e revoltas gregas contra o domínio turco. O sultão Mahmud II foi obrigado a suprimir essas revoltas para manter o controlo sobre a região. Esses eventos foram parte do movimento pela independência grega, que eventualmente levou à guerra de independência grega no século XIX. Durante a guerra de independência grega, os gregos buscaram apoio internacional para combater o domínio otomano. Eles receberam ajuda significativa da Rússia, França e Inglaterra, que viram a oportunidade de enfraquecer o Império Otomano e expandir a sua influência na região. Essas potências forneceram apoio militar, diplomático e, em alguns casos financeiro, que permitiu aos gregos aguentar a guerra na sua luta pela independência.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Kit Carson

 



Kit Carson[1809-1868] nascido no Condado de Madison, Kentucky de uma família de origem irlandesa, Kit transfere-se já em 1811 para Missouri, ainda um território semisselvagem. Em agosto de 1826, cansado do trabalho de aprendiz de seleiro, foge para agregar-se a uma caravana, indo direto para o Novo México. Carson torna-se general e dá baixa em 1867. No ano seguinte é superintendente para os negócios indígenas no Colorado. Morre em 23 de maio de 1868.

 Em 1861 torna-se coronel de um regimento de voluntários do Novo México: toma parte em várias campanhas contra os índios, como aquela, entre 1863 e 1864, contra os Navajos, índios que foram os seus mais difíceis inimigos, e, ao invés de comportar-se como o leal herói dos nossos livrinhos de cobóis, os constringe à rendição, destruindo as suas reservas invernais de alimento e expondo assim guerreiros, mulheres e crianças a uma morte horrível. Carson os deportou depois para um campo de concentração no Novo México, de onde os Navajos poderiam voltar ao Arizona após cinco anos de prisão e somente para estarem confinados em uma reserva.



Caçador e guia do Oeste Americano, foi envolvido em numerosos conflitos com os Apaches. Em 1849, Carson participou de campanhas militares contra os Apaches enquanto servia como guia e soldado nas forças armadas dos Estados Unidos. Os Apaches eram uma das tribos indígenas mais formidáveis e resistentes da região, e Carson e outros enfrentaram desafios significativos ao tentar subjugar ou controlar sua atividade hostil. As campanhas militares contra os Apaches continuaram por muitos anos e foram marcadas por conflitos intensos e guerras intermitentes.

As expedições dos Texas Rangers desempenharam um papel importante na libertação de cativos capturados por tribos indígenas, como os Comanches e os Apaches, durante os anos de colonização do Texas e do Oeste Americano. Os Texas Rangers eram uma força de segurança especializada, inicialmente formada para proteger os colonos e combater ameaças indígenas, bandidos e outros perigos na fronteira. Eles frequentemente conduziam expedições para resgatar cativos brancos capturados por tribos indígenas durante ataques ou incursões. Essas operações muitas vezes envolviam combates e negociações delicadas com as tribos indígenas, e ajudaram a libertar muitos cativos ao longo do tempo.

E os comanches tentaram negociar entregando escravos brancos em troca pelo reconhecimento da Comancheria. Os Comanches, como muitas tribos indígenas, tentaram negociar com os colonos e as autoridades americanas em troca de várias concessões, incluindo o reconhecimento de territórios ou tratados favoráveis. Uma das estratégias que os Comanches empregaram foi oferecer a devolução de cativos brancos em troca de concessões políticas ou territoriais. Isso era parte de um padrão mais amplo de negociações entre as tribos indígenas e as autoridades coloniais ou governamentais. No entanto, essas negociações nem sempre foram bem-sucedidas ou respeitadas por todas as partes envolvidas, e as relações entre os colonos e as tribos indígenas frequentemente envolviam conflitos e tensões.

Mas os Comanches foram traídos o que levou à vingança de Buffalo Hump. Houve casos em que os Comanches sentiram que foram traídos por tratados ou negociações que foram violados pelas autoridades coloniais ou pelos colonos brancos. Isso muitas vezes levou a sentimentos de raiva e desejo de vingança por parte dos líderes Comanches, como o famoso guerreiro Buffalo Hump. Buffalo Hump liderou ataques retaliatórios contra os colonos e os assentamentos brancos como forma de buscar justiça pelos tratados quebrados e outras injustiças percebidas. Essas ações faziam parte de um ciclo contínuo de conflito e violência entre as tribos indígenas e os colonos brancos na fronteira do Oeste Americano.



James Kirker

Os mexicanos contrataram James Kirker, o ágil homem das montanhas. James Kirker era um personagem histórico conhecido por suas habilidades como batedor e caçador de recompensas durante o século XIX no oeste dos Estados Unidos e no norte do México. Contratá-lo seria uma escolha interessante para os mexicanos, dada sua reputação de conhecer bem a região montanhosa e sua experiência em lidar com situações desafiadoras. 

Em 1834 Astor vendeu o que tinha devido à crise do negócio das peles. Em 1834, John Jacob Astor, um dos principais empresários do comércio de peles nos Estados Unidos, vendeu seus interesses comerciais devido à crise no negócio das peles. A indústria estava passando por mudanças significativas naquela época, incluindo a redução da demanda por peles de castor e as dificuldades resultantes do declínio das populações de animais de pele. Essa venda marcou o fim de uma era na história do comércio de peles na América do Norte.

Havia cada vez menos castores. Uma das razões pelas quais a indústria de peles entrou em crise foi a redução drástica no número de castores disponíveis para caça. Durante os séculos XVIII e XIX, a demanda por peles de castor era alta na Europa e na América do Norte, levando à exploração intensiva desses animais. Como resultado, as populações de castores diminuíram significativamente devido à caça excessiva e à destruição de habitats. Isso contribuiu para a crise económica na indústria de peles e foi um dos fatores que levaram a Astor vender seus interesses comerciais.

Era o tempo dos escalpes. O período em que ocorreu a venda dos interesses comerciais de Astor, em 1834, foi uma época marcada por conflitos e tensões entre os povos nativos americanos e os colonos europeus e americanos. Durante esse tempo, houve casos de violência e guerra entre as diferentes comunidades, e os escalpos eram ocasionalmente tomados como troféus de guerra em certos confrontos. No entanto, é importante notar que a prática de coletar escalpos não era generalizada e era mais comum em certas tribos e situações específicas.


David Crockett





David Crockett [1786 – 1836] foi um herói norte-americano muitas vezes referido na cultura popular como o "Rei da Fronteira Selvagem". Ele representou o Tennessee na Câmara dos Representantes dos EUA e serviu na Revolução do Texas. Ganhou uma reputação de caça em contos de histórias. Ele foi feito um coronel na milícia do Condado de Lawrence, Tennessee e foi eleito para a legislatura do estado do Tennessee em 1821. Em 1827 foi eleito para o Congresso dos EUA, onde se opôs veementemente a muitas das políticas do presidente Andrew Jackson, especialmente a Lei de Remoção de Índios. A oposição de Crockett às políticas de Jackson levou à sua derrota nas eleições de 1831. Foi reeleito em 1833, depois perdeu por pouco em 1835, levando à sua fuga furiosa para o Texas (então o estado mexicano de Tejas) pouco depois. No início de 1836, ele participou da Revolução do Texas e morreu na Batalha do Álamo. Não está claro se ele morreu em batalha ou foi executado após ser capturado pelo Exército mexicano. Após a morte, ele continuou a ser creditado com atos de proporção mítica.



Crockett era frequentemente retratado usando um gorro de pele de guaxinim, que se tornou uma parte icónica de sua imagem. Este tipo de chapéu é conhecido como "coonskin cap" em inglês. O gorro de pele é amplamente associado à imagem de Crockett e tornou-se um símbolo de sua persona lendária.

Crockett foi um dos defensores do Forte Alamo durante a Revolução do Texas contra o México em 1836. Ele foi morto durante o cerco e a batalha final do Alamo, que foi liderada pelo presidente mexicano, General Santa Anna. Crockett e outros defensores bravamente resistiram aos ataques por treze dias, mas foram finalmente superados pelas forças mexicanas. A morte de Crockett no Alamo contribuiu para a sua fama e mitologia como um herói do folclore americano.




O atraso no cerco ao Alamo deu tempo para que outros líderes, como Sam Houston, organizassem forças para combater o avanço das tropas mexicanas sob o comando de Santa Anna. O tempo ganho durante a resistência no Alamo permitiu que Houston reunisse e treinasse um exército texano mais substancial. Isso acabou sendo crucial para a vitória dos texanos sobre as forças mexicanas na Batalha de San Jacinto, que levou à independência do Texas. Sam Houston desempenhou um papel fundamental na liderança durante este período de conflito.

Sam Houston serviu como governador do Tennessee antes de se mudar para o Texas. Ele foi eleito como o sétimo governador do Tennessee em 1827 e serviu até 1829. Houston teve uma carreira política significativa antes de se tornar uma figura central na história do Texas, onde desempenhou um papel fundamental na luta pela independência e na fundação do estado.

Após enfrentar problemas pessoais e políticos no Tennessee, Sam Houston viveu por algum tempo com a tribo Cherokee no Território Indígena no que é hoje o estado de Oklahoma. Ele foi adotado pela tribo e recebeu o nome de "Raven". Durante esse período, Houston aprendeu muito sobre a cultura e a política dos nativos americanos, e desenvolveu laços estreitos com muitos membros da tribo Cherokee. Essa experiência teve um impacto duradouro em sua vida e em sua visão política.

Após a sua chegada ao Texas, Sam Houston emergiu rapidamente como uma figura proeminente na política texana. Ele entrou em disputa com Stephen F. Austin, outro líder importante da época, pelo controle e direção do movimento pela independência do Texas. Houston acabou se tornando uma figura central no processo de independência, liderando o exército texano na Batalha de San Jacinto, onde derrotou as forças mexicanas sob o comando de Santa Anna. Após a independência do Texas, Houston serviu como presidente da República do Texas e, mais tarde, como governador do estado após a sua anexação aos Estados Unidos.

Durante os anos de 1840, os Comanches, uma poderosa tribo indígena das Grandes Planícies, tinham uma prática de capturar e escravizar mexicanos durante seus ataques e incursões no território mexicano. Esses cativos mexicanos eram frequentemente usados como escravos pelos Comanches. É difícil fornecer números exatos, mas é plausível que os Comanches pudessem ter milhares de cativos mexicanos em seu poder durante esse período. Essa prática era uma fonte significativa de tensão e conflito entre os Comanches e os colonos mexicanos na região.

terça-feira, 2 de julho de 2024

Napoleão Bonaparte depois de 18 de Brumário


Napoleão Bonaparte voltou a Paris em outubro de 1799 e encontrou o governo do Diretório em crise. Isso levou à queda do Diretório e ao estabelecimento do Consulado, com Napoleão assumindo o poder como Primeiro Cônsul. Esse evento marcou o início da ascensão de Napoleão ao poder na França. O golpe de 18 de Brumário (9 de novembro de 1799) não correu conforme o planeado inicialmente. Houve alguns contratempos e momentos de incerteza durante o golpe, mas, seja como tenha sido, o que é certo é que Napoleão conseguiu consolidar o poder, emergindo como líder supremo. Ele foi capaz de superar os obstáculos e estabilizar a situação política, levando ao estabelecimento do Consulado e ao início de um regime que foi avassalador por toda a Europa.

Depois de 18 de Brumário, Napoleão no poder como Primeiro Cônsul, então modou-se para os aposentos reais no Palácio das Tulherias em Paris, e levou consigo Josefina. Este palácio tornou-se a residência oficial de Napoleão, Primeiro Cônsul, e mais tarde como Imperador dos Franceses. Tulherias eram um importante centro de poder e símbolo da autoridade governamental na época.




Napoleão não perdeu tempo após assumir o poder como Primeiro Cônsul. Em 1800, ele liderou as tropas francesas através dos Alpes e obteve uma importante vitória sobre as forças austríacas na Batalha de Marengo, em junho daquele ano. Essa vitória consolidou ainda mais o seu domínio na França e solidificou a sua reputação como um líder militar talentoso. Após a vitória na Batalha de Marengo, Napoleão conseguiu negociar a paz com a Áustria por meio do Tratado de Lunéville, assinado em fevereiro de 1801. Este tratado encerrou oficialmente a guerra entre a França e a Áustria. Além disso, Napoleão também conseguiu fazer as pazes com a Espanha por meio do Tratado de Amiens, assinado em março de 1802, encerrando temporariamente as hostilidades entre os dois países. Esses tratados ajudaram a consolidar a posição de Napoleão no poder e trouxeram um período de relativa estabilidade para a França e para a Europa.

Em 1801, Toussaint Louverture, líder da Revolução Haitiana, assegurou a Napoleão Bonaparte a lealdade da colónia de Saint-Domingue (hoje Haiti). Toussaint havia estabelecido o controlo da colónia e negociou com Napoleão para garantir a continuidade da autonomia e liberdade dos habitantes de Saint-Domingue, sob a condição de que a administração da colónia permanecesse sob sua liderança. No entanto, em 1802, Napoleão enviou uma expedição militar para a ilha com o objetivo de retomar o controlo total da colónia, levando ao conflito entre os franceses e os rebeldes haitianos. É possível que você esteja falando sobre Toussaint Louverture enfrentou as tropas lideradas por Charles Leclerc, cunhado de Napoleão Bonaparte. Louverture resistiu ferozmente, mas eventualmente foi capturado e deportado para a França. Toussaint Louverture liderou uma guerrilha muito eficaz contra as tropas francesas, causando grandes perdas e dificultando significativamente os esforços de reconquista francesa do Haiti. Sua habilidade tática e o apoio popular foram fundamentais para a resistência haitiana.

A batalha de Trafalgar foi travada entre as marinhas britânica e franco-espanhola em 1805. Nelson liderou a Marinha Real Britânica e obteve uma vitória decisiva, impedindo a frota combinada franco-espanhola de ameaçar a Grã-Bretanha. A frota de Napoleão foi enfraquecida, mas não dizimada, já que Napoleão continuou a ter outras batalhas e desafios marítimos pela frente.

Napoleão Bonaparte adotou uma estratégia de alianças matrimoniais e nomeações de membros de sua família para posições de poder em vários países europeus. Essa estratégia foi conhecida como o "Sistema Napoleónico" e visava consolidar o seu controlo sobre a Europa e garantir alianças políticas estáveis. Membros de sua família foram colocados no trono de diferentes reinos e principados, como o Reino da Espanha, o Reino de Nápoles, o Reino da Itália, entre outros. Essas nomeações e alianças ajudaram a estabelecer uma rede de influência napoleónica em toda a Europa. Napoleão atribuiu o Reino da Vestfália a Jerónimo Bonaparte, seu irmão mais novo. O Reino da Vestfália foi criado em 1807 a partir de territórios anteriormente pertencentes a vários estados alemães e foi governado por Jerónimo Bonaparte até 1813, quando Napoleão foi derrotado na Batalha de Leipzig e o reino foi dissolvido. Hesse, por outro lado, era um estado alemão separado e não foi diretamente atribuído a Jerónimo por Napoleão.

Como Napoleão anulara Hesse-Cassel, Rothschild passou em segredo a sua fortuna para Inglaterra. Napoleão de facto tinha políticas que afetavam as finanças, levando os Rothschilds a transferir a sua fortuna para a Inglaterra como medida de segurança. A família Rothschild era conhecida por sua habilidade em adaptar-se a circunstâncias políticas turbulentas. A indústria textil e a guerra levou a que a família Rothschild dominaria durante um século. A ascensão da indústria têxtil e as oportunidades comerciais decorrentes da guerra foram fatores-chave que contribuíram para a ascensão da família Rothschild como uma das mais influentes famílias bancárias da Europa por cerca de um século. Seu controlo sobre as finanças, especialmente durante períodos de conflito, permitiu-lhes acumular vasta riqueza e influência política. A família Rothschild é amplamente associada ao século XVIII e ao século XIX, quando Mayer Amschel Rothschild estabeleceu o negócio bancário em Frankfurt, Alemanha. Mayer Amschel Rothschild nasceu em 1744 e fundou a empresa bancária que se tornaria a famosa Casa Rothschild. Enquanto a família Rothschild era de origem judaica, sua ascensão ao poder e influência começou principalmente no final do século XVIII e se expandiu significativamente no século XIX.

Carlos IV de Espanha era fraco e Napoleão convenceu-o na invasão a Portugal. Carlos IV da Espanha era frequentemente considerado um monarca fraco e influenciável. Napoleão aproveitou essa fraqueza para convencer Carlos IV a permitir a passagem das tropas francesas pela Espanha para invadir Portugal, como parte de seus esforços para impor o bloqueio continental à Inglaterra durante as Guerras Napoleónicas. Esse evento é conhecido como a Invasão Francesa da Península Ibérica. Napoleão impôs bloqueios económicos à Inglaterra, o que levou Portugal e Espanha a se unirem contra a Inglaterra, aliando-se ao Império Francês. Isso resultou em conflitos e tensões geopolíticas significativas durante as Guerras Napoleónicas.

Após a derrota na Batalha de Austerlitz e a dissolução do Sacro Império Romano-Germânico, Francisco II mudou seu título para Francisco I, Imperador da Áustria, em 1804, antes mesmo da assinatura do Tratado de Pressburg em 1805. Esta mudança refletiu a reorganização geopolítica da região e a ascensão do Império Austríaco como uma potência central na Europa Central, em oposição à influência decrescente do Sacro Império. Da assinatura do Tratado de Pressburg, em dezembro de 1805, Francisco II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, viu seu império desintegrar-se. Em 1806, ele renunciou formalmente ao título de Sacro Imperador Romano-Germânico e proclamou-se Francisco I da Áustria. Além disso, o Sacro Império Romano-Germânico foi substituído pela Confederação do Reno, uma aliança de estados alemães liderada por Napoleão Bonaparte. Este foi um dos muitos eventos que contribuíram para a reorganização política da Europa durante as Guerras Napoleônicas.

Alexandre I, czar da Rússia na época das Guerras Napoleónicas, inicialmente buscou manter relações cordiais com Napoleão. No entanto, houve uma crescente tensão entre os dois líderes, resultando eventualmente na invasão da Rússia por Napoleão em 1812. A Finlândia não foi obtida por Alexandre em colaboração com Napoleão; na verdade, a Finlândia foi anexada pela Rússia em 1809, como resultado da Guerra Finlandesa, durante a qual a Rússia derrotou a Suécia. Isso ocorreu antes da invasão da Rússia por Napoleão.

Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord [1754-1838] foi o chefe da diplomacia de Napoleão durante os anos em que as vitórias militares francesas trouxeram um Estado europeu após o outro sob a hegemonia francesa. No entanto, na maior parte do tempo, Talleyrand trabalhou pela paz para consolidar os ganhos da França. Ele conseguiu obter a paz com a Áustria através do Tratado de Lunéville de 1801 e com a Grã-Bretanha no Tratado de Amiens de 1802. Ele não conseguiu impedir a renovação da guerra em 1803, mas em 1805 opôs-se às novas guerras de seu imperador contra a Áustria, Prússia e Rússia. Ele renunciou ao cargo de ministro das Relações Exteriores em agosto de 1807, mas manteve a confiança de Napoleão. Ele conspirou para minar os planos do imperador através de negócios secretos com o czar Alexandre I da Rússia e o ministro austríaco Klemens von Metternich. Talleyrand buscou uma paz segura negociada para perpetuar os ganhos da Revolução Francesa. Napoleão rejeitou a paz; quando caiu em 1814, Talleyrand apoiou a Restauração Bourbon decidida pelos Aliados. Ele desempenhou um papel importante no Congresso de Viena em 1814-1815, onde negociou um acordo favorável para a França e desempenhou um papel no desenrolar das Guerras Napoleónicas.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

De Zheng Zhilong a Zheng He


Zheng Zhilong [1604-1661] foi um líder militar e pirata chinês que inicialmente apoiou a dinastia Ming durante a invasão dos Manchus. Ele se tornou conhecido por sua resistência aos invasores Manchus no sul da China. Mais tarde ele migrou para a Manchúria e fundou a dinastia Zheng. Depois o filho, Koxinga, fundou o reino pró-Ming de Tungning, em Taiwan, conhecido por Casa de Koxinga.

 


Durante seu reinado, ele controlou uma enorme e capaz frota de piratas que mais tarde se juntou à marinha da dinastia Ming, onde ele então se tornou um almirante Ming que controlava todo o comércio e segurança nas águas do sul da China. Ele detinha um poderoso império marítimo que controlava mais o mar do que a terra. Após a sua deserção, ele recebeu títulos nobres do governo Qing, mas acabou sendo executado por causa da resistência contínua de seu filho contra o regime Qing.




Zheng Zhilong na pintura do holandês Peter van Der (aquele que veste verde)


Koxinga, de seu nome Zheng Chenggong, liderou um exército leal aos Ming que expulsou os holandeses de Taiwan em 1662, estabelecendo o domínio chinês na ilha. Ele é uma figura histórica importante na história de Taiwan. Zheng Chenggong era um líder militar habilidoso e foi capaz de liderar o poderoso cartel pirata Shibazhi, que consistia em cerca de 800 navios, em campanhas marítimas na região. Sua capacidade de unir e comandar essa grande frota contribuiu significativamente para as suas conquistas militares.

Fujian, uma importante província da China, caiu nas mãos da dinastia Qing (Manchu) durante a conquista do resto da China no século XVII. A dinastia Qing foi a última dinastia imperial da China, que governou de 1644 a 1912. A conquista de Fujian foi parte do processo de unificação do território chinês sob o domínio Qing.

Zheng He foi outro almirante da melhor frota da dinastia Ming. Ele fez uma érie de expedições no Oceano Índico até à costa leste de África. D
urante o reinado da dinastia Ming, essas expedições eram compostas por uma grande frota de navios e tinham o objetivo de estabelecer relações diplomáticas, e expandir o comércio sob o patrocínio e influência chinesa em outras partes da Ásia e do Oceano Índico. As expedições de Zheng He eram notáveis por sua escala impressionante e por terem alcançado várias regiões distantes, incluindo o Sudeste Asiático, a Índia, o Golfo Pérsico e a costa leste da África. Essas viagens desempenharam um papel importante na história das relações comerciais e diplomáticas na região.



Mapa da Guangdong, Fujian e Taiwan

Paul Ricœur


Paul Ricœur (1913-2005), nascido numa família protestante, órfão da Primeira Grande Guerra,  estudava na Alemanha quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. É aí que passa a guerra, num campo de prisioneiros. Sobreviveu e iniciou a sua carreira ensinando regularmente nos EUA e no Canadá, e não apenas em França. Teve a oportunidade de conhecer em primeira mão a filosofia analítica. Crítico de aspectos do sistema académico francês, foi um dos impulsionadores da criação da nova Universidade de Paris X (Nanterre), onde tinha responsabilidades de direcção no Maio de 68. Os problemas por que então passou conduziram-no a um exílio voluntário. Daí que muitos dos seus escritos apareçam em inglês.



A interpretação é o grande foco da sua obra. Por vezes e num certo contexto (por exemplo, o contexto da teoria crítica no mundo anglófono), Ricœur e Derrida aparecem em competição, enquanto figuras inspiradoras das disciplinas da interpretação. No mundo de língua francesa, Ricœur aparece frequentemente como uma resposta da hermenêutica ao estruturalismo. A sua carreira filosófica tem início na fenomenologia existencial, com o interesse por autores próximos da religião, como o filósofo alemão Karl Jaspers (1883-1969) e o filósofo francês Gabriel Marcel (1889-1973), sobre quem escreve. Uma questão que sempre o atraiu foi o problema do mal, numa combinação de fenomenologia com hermenêutica. 

Assim se inicia a sua obra, nos anos 1950, com Philosophie de la volonté: Le volontaire et l’involontaire, o seu materialismo cristão leva-o a acentuar a importância de se ser um corpo, e a possibilidade do "eu" participar directamente no mistério da mente corpórea, da mente da carne. Dada a nossa corporeidade, o voluntário e o involuntário são complementares na existência humana. Está em causa na vontade o decidir, escolher, mover-se para a acção. No involuntário, está em causa o ente corpóreo, o insonciente.

Na evolução do seu pensamento, aliás tal como tantos outros, dá-se aquilo que é designado por "viragem epistemológica", uma viragem da fenomenologia para a hermenêutica. Poder-se-ia também pensar no conjunto da sua obra como propondo uma antropologia filosófica, que dá um grande espaço à questão do autoconhecimento (veja-se um dos seus últimos livros, O Si-Mesmo como Outro, 1990). Para Ricœur não há um eu transparente a si ou em pleno domínio de si. A via do autoconhecimento é longa e tortuosa. Ao contrário de um filósofo existencialista como Sartre, o foco de Ricœur quando persegue o autoconhecimento não é a consciência, mas sim a acção, daí o seu interesse pelos temas do voluntário e do involuntário. 

Ricœur interessa-se não tanto directamente pela existência humana enquanto interpretação. É importante ter claro que a noção ricœuriana de interpretação não tem por objecto a linguagem tout court, a linguagem entendida como qualquer coisa dita, como Aristóteles, em Da Interpretação, nos pode ter feito pensar. A noção ricœuriana de interpretação entra em cena apenas com os fenómenos de duplo sentido. Estes têm lugar quando há linguagem já em funcionamento (os fundadores da tradição analítica, em contraste, estudariam a linguagem no sentido aristotélico de qualquer coisa que é dita). Ricœur é cuidadoso a fazer essa distinção. Além disso, em oposição à «via curta» de Heidegger (i.e., a ontologia hermenêutica de Ser e Tempo), Ricœur defende uma «via longa» para a hermenêutica. Na prática, isto significa que ele defende que a filosofia de orientação hermenêutica deve ser feita em contacto com as disciplinas da interpretação, como a psicanálise, a crítica literária e a teologia. Os temas que então se erguem serão os temas da filosofia de Ricœur: 

O conflito das interpretações, a natureza da narrativa, a natureza da metáfora ou a natureza do discurso religioso são os temas de eleição na filosofia de Ricœur. Há significação e há significado da existência. É com esta intuição que defende as suas posições contra o estruturalismo, a desconstrução e a psicanálise. Ricœur interessa-se também por compreender aquilo que vê como a natureza frágil e paradoxal da existência e da liberdade humanas, e o que poderá ser uma vontade má e actos maus. Somos fragilmente livres, defende, podemos usar mal a nossa vontade; a vontade má é simplesmente uma realidade. Há uma desproporção entre o infinito da nossa racionalidade e a finitude da nossa realidade corpórea.

Ricœur é, assim, levado a interessar-se pela falibilidade do humano e pelas dimensões da desproporção do humano relativamente a si próprio: a imaginação, o carácter, o sentimento, temas de Philosophie de la volonté: Finitude et culpabilité. Segundo Ricœur, é necessário, para entender a realidade humana, compreender a existência e a realidade do mal, e também para isso a interpretação é essencial. Ao analisar a simbologia do mal, Ricœur faz fenomenologia da religião (e pensa que toda a fenomenologia da religião é fenomenologia do sagrado). Ora, segundo a fenomenologia da religião, há uma verdade dos símbolos. É em última análise esta convicção que o opõe a uma outra orientação hermenêutica do pensamento contemporâneo a que Ricœur chamou «hermenêutica da suspeita» expressão que remonta a Marx, Freud e Nietzsche. 

A expressão popularizou-se e as posições de Ricœur sobre estes autores, que foram a bandeira incontestada de um certo pensamento francês e da geração do estruturalismo, têm o interesse especial de lhes apontar directamente os pontos fracos. O livro sobre Freud (De l’interpretation: Essai sur Freud, 1965), violentamente contestado pelo milieu lacaniano, é disso exemplo. O que distingue afinal o ponto de vista da hermenêutica ricœuriana do ponto de vista da psicanálise, se em ambas as circunstâncias está em causa interpretação? 

Segundo Ricœur, a arqueologia do sujeito e da cultura levada a cabo pela psicanálise é sem dúvida necessária, mas não nos diz nada acerca do que é para um ser humano ser livre e capaz. Ora, isto é algo que se impõe fazer a quem, como Ricœur, acredita no significado da existência humana. O contrário da suspeita, propõe Ricœur, é a fé. Um outro ponto fraco da hermenêutica da suspeita para Ricœur é o facto de esta visar, em última análise, alargar a consciência, uma vez curada e desmistificada. Isso redunda, na sua perspectiva, numa cegueira perante o núcleo mítico-poético do humano que é, segundo Ricœur, inerradicável.

O aspecto mais propriamente simbólico da hermenêutica ricœuriana, centrado em textos, é acompanhado noutras obras por análises mais próximas da natureza da linguagem. O estudo da metáfora feito em A Metáfora Viva, por exemplo, passa pela palavra e pela frase até chegar ao discurso. Ricœur considera que, já no plano dos fenómenos de transporte e deslocamento de palavras, o mecanismo metafórico é mais do que substituição mecânica — envolve transgressão categorial, recategorização, e evidencia por isso de alguma forma a própria natureza (criativa) do pensamento enquanto processo do qual provêm as classificações e os conceitos estáveis (estes são instituídos devido a uma semelhança que teve de ser primeiro «vista»). O aspecto original da proposta de Ricœur é a inserção da análise da metáfora numa tarefa hermenêutica geral. 

Ricœur vê no discurso metafórico a libertação de um «poder de referência de segundo grau», que tem como condição a suspensão da referência literal. Para Ricœur, o discurso metafórico não é auto-referencial e centrado em si mesmo, mas antes ocasião de «referência desdobrada». A análise da metáfora conduz Ricœur a pensar sobre a natureza da inovação no pensamento e sobre a natureza da imaginação criadora, capaz de redescrever a realidade do mundo habitável, em termos éticos e estéticos. Fugindo ao logos apofântico, i.e., à primazia de dizer o verdadeiro de forma descritiva, a metáfora é o processo retórico pelo qual o discurso liberta o poder de redescrever a realidade. De novo Ricœur se coloca em alternativa a Derrida.

Os temas da memória, da história, do esquecimento, do tempo e da narrativa, do justo e do reconhecimento ocupam as últimas obras de Ricœur (Le juste I e II, 1995, 2001; Tempo e Narrativa I, II e III, 1983–1985; A Memória, a História, o Esquecimento, 2002; Parcours de la reconnaissance, 2004). Ocupa-o o facto de a nossa finitude ser visível na nossa natureza histórica, o que clarifica afinal a ideia de liberdade finita. Nestas condições, o auto-entendimento procurado por cada humano acontecerá apenas através dos sinais depositados na memória e na imaginação, nomeadamente pela grande tradição literária. A análise desta está sempre presente em Ricœur.