domingo, 21 de julho de 2024

A motivação para participar em marchas ou paradas



A participação de um homossexual em marchas de orgulho LGBT+ pode ser motivada tanto por razões individuais quanto grupais, e muitas vezes essas motivações se entrelaçam. Participar em marchas pode ser uma forma de afirmar e celebrar a sua própria identidade e orientação sexual em um ambiente acolhedor e afirmativo. Pode ser uma experiência que ajuda o indivíduo a sentir-se mais confiante e incluído.

Promove um sentimento de solidariedade e apoio mútuo, fortalecendo a coesão do grupo. As marchas são oportunidades para construir e reforçar laços dentro da comunidade. É comum que as razões individuais e grupais se sobreponham. Por exemplo, um indivíduo pode participar para afirmar a sua própria identidade (razão individual) enquanto também deseja apoiar a comunidade e lutar por direitos coletivos (razão grupal). As experiências pessoais de um indivíduo frequentemente se conectam com as experiências e desafios enfrentados pelo grupo, criando uma motivação mista para a participação.

Ao longo da evolução a cultura passou a evoluir de parceria com os genes de tal modo que traços que reforçassem a coesão de grupos tribais tinham valor adaptativo. E assim os instintos tribais foram-se reforçando ao ponto de nós adorarmos assinalar a pertença ao grupo. Daí não ser de admirar que cooperemos preferencialmente com os membros do nosso grupo independentemente de considerações de ordem moral racional que diga que não devíamos fazer isso por ser errado o que o nosso grupo está a fazer. Apesar de o grosso da natureza humana ter sido operada por seleção natural ao nível dos genes do indivíduo, há uma parte que nos últimos dez mil anos também foi moldada ao nível do grupo por força da cultura e do meio ambiente. E daí sermos indivíduos egoístas com um toque mais ou menos de altruísmo cuja percentagem em relação ao egoísmo tem uma variação circunstancial histórica.




A ontogénese do ser humano, ou seja, o desenvolvimento do indivíduo desde a concepção até à morte, está profundamente ligada ao grupo social em que ele se insere e à maneira como ele percebe e interage com o "estranho" ou "estrangeiro". Desde a infância, os seres humanos aprendem a se definir em relação aos outros. Essa definição em grupo é fundamental para o desenvolvimento da identidade pessoal e social. A convivência em grupo, com suas normas, valores e tradições, molda o comportamento e o pensamento do indivíduo, criando um sentido de pertencimento. No entanto, a presença do estranho ou do estrangeiro desempenha um papel crucial nesse processo. A interação com o que é diferente ou desconhecido desafia as normas e os valores estabelecidos, promovendo uma reflexão sobre a própria identidade e as próprias crenças. Essa interação pode gerar sentimentos variados, como curiosidade, medo, hostilidade ou admiração, mas é através dela que muitas vezes se reforça a coesão interna do grupo e se redefine a própria identidade. Portanto, a ontogénese do ser humano não ocorre de forma isolada, mas é um processo contínuo de construção em relação ao outro. A diferença com o estranho ou estrangeiro não apenas marca os limites do grupo, mas também promove o crescimento individual e coletivo ao instigar a reflexão e a adaptação a novas realidades.

Platão, na sua obra "A República", Livro II, põe Glaucon a narrar a história do "Anel de Giges". Glaucon utiliza essa narrativa para discutir a natureza da justiça e da moralidade humana. A história é a seguinte: Giges era um pastor que servia ao rei da Lídia. Um dia, após um terramoto, Giges descobriu uma caverna aberta na terra. Dentro dessa caverna, ele encontrou um cadáver que portava um anel de ouro. Giges pegou o anel e, mais tarde, descobriu por acaso que ao girá-lo em seu dedo, ele se tornava invisível. Com o poder da invisibilidade, Giges aproveitou-se da situação para cometer diversos atos injustos sem medo de ser descoberto ou punido. Ele seduziu a rainha, matou o rei e tomou o trono para si, governando a Lídia com o anel mágico.

Glaucon usa essa história para argumentar que a maioria das pessoas praticaria crimes se tivessem a garantia de não serem apanhadas. Ele sugere que as pessoas não praticam crimes não por uma inclinação natural, mas por medo das consequências e da punição. Assim, segundo Glaucon, a justiça é uma pura criação da sociedade enquanto tal, e não uma qualidade intrínseca do ser humano enquanto tal, enquanto entidade isolada. Ou seja não se trata de uma virtude intrínseca ao ser humano. É então quando Platão faz entrar em cena Sócrates.

Sócrates, refuta a perspectiva de Glaucon mais adiante na obra, defendendo que a justiça é uma virtude essencial e que uma vida justa é mais valiosa e satisfatória do que uma vida injusta, mesmo se esta última pudesse ser vivida sem punições. Portanto, já no tempo de Platão as pessoas se preocupavam muito com aquilo que estava mais certo, ou então, mutatis mutandis, o que era considerado errado não se devia fazer. Mas estas questões são as tais questões complexas que se arrastam até aos nossos dias sem uma conclusão definitva, porque tudo o que tem a ver com a subjetividade é complicado. Basta ver o que se passa nas diferentes sociedades. Por exemplo, os valores morais e culturais das sociedades asiáticas orientais são muito distintos dos ocidentais, de que faz parte o presente autor deste texto. Os Direitos Humanos não são entendidos de igual forma em toda a parte do mundo. E o mesmo se passa com a democracia. As instituições e sistemas de governo são moldados por contextos históricos específicos. A democracia liberal que prevalece na Europa é resultado de séculos de desenvolvimento histórico, cultural e político que pode não ser diretamente aplicável a outras regiões.

A pluralidade de perspetivas significa que diferentes modelos podem ter méritos e desvantagens. Por exemplo, a democracia liberal valoriza a liberdade individual e a participação política, enquanto outros sistemas podem enfatizar a estabilidade, a ordem social e o desenvolvimento económico. Sistemas políticos e sociais precisam ser adaptados às necessidades, condições e desejos específicos de suas populações. Um modelo que funciona bem em um contexto pode não ser eficaz em outro.

A interpretação e a implementação desses direitos podem variar. As avaliações de sistemas políticos muitas vezes consideram o bem-estar e a justiça que proporcionam aos seus cidadãos. Isso pode incluir considerações sobre liberdade, igualdade, prosperidade e segurança. O debate aberto e o diálogo entre diferentes culturas e sistemas políticos são cruciais para promover a compreensão mútua e a cooperação. A troca de ideias pode levar à melhoria de todos os sistemas envolvidos. As sociedades devem ter a capacidade de determinar seu próprio caminho de desenvolvimento político e social, respeitando os princípios de autodeterminação e soberania. Em suma, é importante reconhecer a complexidade e evitar julgamentos simplistas de "certo" ou "errado". Em vez disso, é mais produtivo considerar os méritos, desafios e contextos específicos de cada sistema, promovendo um diálogo respeitoso e construtivo que reconheça a diversidade e a multiplicidade de perspectivas humanas.

Democracia e Justiça

 

O sistema judiciário em Portugal tem enfrentado alguns desafios e irregularidades que têm afetado o seu prestígio e a confiança das instituições. Houve vários casos de corrupção envolvendo figuras públicas e instituições, que levantaram dúvidas sobre a imparcialidade e a eficácia do sistema judiciário. Casos como a "Operação Marquês", que envolveu o ex-primeiro-ministro José Sócrates, destacam-se por sua complexidade e pela percepção pública da morosidade e ineficácia. A morosidade judicial é uma crítica constante. Muitos processos demoram anos para serem resolvidos, o que afeta a confiança dos cidadãos na justiça e na capacidade do sistema de garantir um julgamento justo e em tempo adequado.

 A lentidão e a complexidade dos processos muitas vezes criam uma percepção de impunidade, especialmente quando se trata de crimes de colarinho branco. A percepção de que pessoas influentes ou com recursos financeiros conseguem evitar punições contribui para a desconfiança nas instituições judiciais. O sistema judiciário por sua vez queixa-se de falta de recursos humanos e materiais. A sobrecarga de trabalho e a falta de investimento em infraestrutura e tecnologia dificultam o funcionamento eficiente dos tribunais.

 Há uma necessidade crescente de maior transparência e melhor comunicação com o público. A falta de clareza sobre os procedimentos judiciais e as decisões pode aumentar a desconfiança e a sensação de injustiça entre os cidadãos. A perceção da independência do poder judicial é fundamental para a confiança nas instituições. Qualquer suspeita de influência política ou económica sobre as decisões judiciais pode minar essa confiança.

 Em uma democracia, quando juízes derrubam governos com pulsões justicialistas, ocorrem várias questões complexas e preocupantes. A separação de poderes é um princípio fundamental numa democracia. Quando o Judiciário intervém de forma excessiva ou politicamente motivada, isso pode desiquilibar essa separação, colocando em risco a integridade do sistema democrático. A legitimidade dos juízes pode ser questionada. Se a sociedade percebe que os juízes estão agindo com motivação política, a confiança no sistema judicial pode ser erodida. A confiança pública é essencial para a eficácia do Judiciário. A intervenção judicial pode gerar uma crise institucional, com conflitos entre os poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Isso pode levar a instabilidade política e dificuldades na governação.

A interferência judicial excessiva pode abrir precedentes para medidas autoritárias. Governos futuros podem usar o Judiciário para perseguir opositores, minando a democracia. Juízes são esperados para serem imparciais. Atos justicialistas sugerem uma tomada de partido, o que compromete essa imparcialidade e pode ser visto como uma forma de ativismo judicial. Dependendo da percepção pública, a ação dos juízes pode gerar protestos e resistência popular. Em casos extremos, isso pode resultar em manifestações de rua e até violência. Portanto, juízes derrubando governos com pulsões justicialistas representam um desafio sério para a democracia, podendo levar à desestabilização do sistema democrático, perda de confiança pública, e até ao surgimento de práticas autoritárias.

Não é apropriado justificar ou absolver alguém que cometeu um crime apenas por piedade. A justiça deve ser baseada em princípios de responsabilidade, equidade e respeito às leis, e não apenas em sentimentos de compaixão. Quando uma pessoa comete um crime, ela deve ser responsabilizada por suas ações. Isso é essencial para manter a ordem social e dissuadir futuros comportamentos criminosos. A justiça deve ser aplicada de maneira equitativa e consistente. Tratar criminosos de maneira diferente com base em sentimentos de piedade pode resultar em injustiças e desigualdades. Aplicar a lei de forma justa e imparcial ajuda a proteger a sociedade, garantindo que aqueles que cometem crimes enfrentem consequências apropriadas.

 Embora piedade por si só não justifique um crime, os tribunais podem considerar circunstâncias atenuantes que explicam por que um crime foi cometido, como coerção, necessidade extrema ou problemas de saúde mental. No entanto, isso deve ser feito dentro dos parâmetros da lei e não de maneira arbitrária. Sentimentos de compaixão podem influenciar a abordagem à reabilitação dos criminosos. Em vez de focar apenas na punição, o sistema de justiça pode buscar formas de ajudar os infratores a se reformarem e reintegrarem-se na sociedade.

 Sentir piedade por alguém não deve ser confundido com justificar suas ações criminosas. O crime deve ser reconhecido e tratado conforme a lei. Compreender as motivações por trás de um crime pode ser importante para a justiça, mas não deve levar à absolvição automática. Isso pode ajudar a criar soluções mais eficazes e prevenir futuros crimes. É importante manter um equilíbrio entre a aplicação justa da lei e a consideração de fatores humanitários. A piedade e a compaixão podem ter um papel na maneira como abordamos a reabilitação e o tratamento dos criminosos, mas não devem servir como base para justificar ou absolver crimes. A justiça deve sempre buscar ser imparcial, equitativa e focada na responsabilidade, garantindo a proteção e o bem-estar da sociedade.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

As viagens - século XIV e XV




Reprodução do Planisfério de al-Idrisi
Museu da Civilização Islâmica, Sharjah, Emirados Árabes Unidos


Por volta de 1138, o rei normando da Sicília, Rogério II, convidou Al-Idrisi, um geógrafo muçulmano, para sua corte em Palermo, em busca de ajuda para prosseguir a sua agenda política. O vibrante ambiente multicultural da Sicília levou al-Idrisi a aceitar o convite do rei Rogério para sua corte. Durante a reunião, Al-Idrisi informou Rogério II sobre sua familiaridade e experiências pessoais das viagens pelo norte da África e Europa Ocidental, o que levou Rogério II a encomendar um atlas de Al-Idrisi. Para produzir o trabalho, Al-Idrisi começou a coletar informações para os mapas, entrevistando viajantes experientes sobre seu conhecimento do mundo, mantendo "apenas a parte sobre a qual havia total concordância e parecia crível, excluindo o que era contraditório".

Muhammad al-Idrisi [Ceuta, 1110 - Sicília, 1165], nascido provavelmente Sebta, atual Ceuta, pertencia a uma nobre família de Andaluz. Cresceu em Córdoba, sob o Império Almorávida. Em 1154 confecionou um grande mapa-múndi, orientado em sentido inverso ao utilizado atualmente, conhecido como a Tabula Rogeriana, acompanhado por um livro, denominado Geografia. O rei Rogério II da Sicília deu a estas obras o nome conjunto de Nuzhat al-Mushtak, ainda que al-Idrisi as tenha batizado como Kitab Rudjar ("O Livro de Rogério"). A obra compreende uma descrição da Itália, da Sicília, do Andaluz, do norte da Europa, da África e do Império Bizantino, beneficiando-se da situação específica do reino normando da Sicília do século X e do sincretismo entre as civilizações bizantina, normanda e árabe que o caracterizava.

al-Idrisi, Ceuta

Em 1161 realizou uma segunda edição ampliada, com o notável título de Os Jardins da Humanidade e o Entretenimento da Alma, a qual teve todas as suas cópias perdidas. Uma versão abreviada desta edição, chamada Jardim dos Gozos, ainda que mais conhecida como Pequeno Idrisi, foi publicada em 1192. Muhammad al-Idrisi divide o mundo em sete faixas paralelas ao equador que chama climas ou zonas. Cada uma delas subdivide em dez secções contadas do Ocidente para o Oriente. Ao prescindir da representação cónica habitual nessas linhas paralelas, realizou uma verdadeira revolução científica, antecipando-se em quatro séculos à cartografia de Mercator. Descreve Lisboa e os principais portos de Portugal desde o rio Guadiana, a que chama "Iana", até à Galiza. Assinala ainda dois itinerários para Compostela, quatro "Caminhos de Santiago" se os definirmos por mar ou por terra, onde no mapa se pode identificar perfeitamente São Jacub como ponto de chegada, em que um deles parte da Baiona francesa e outro de Coimbra.

"Tabula Rogeriana" é um mapa criado pelo geógrafo árabe Al-Idrisi no século XII. Este mapa é um dos mais importantes da Idade Média e representa uma das tentativas mais avançadas da época de descrever o mundo conhecido. O mapa foi encomendado pelo rei normando Rogério II da Sicília e elaborado por Muhammad al-Idrisi, um geógrafo, cartógrafo e viajante árabe. Al-Idrisi nasceu em Ceuta e estudou em Córdoba. A "Tabula Rogeriana" foi concluída em 1154 e é considerada uma das representações mais precisas do mundo conhecido até aí na Europa medieval. Ela descreve detalhadamente a Europa, a Ásia e o Norte da África, com informações sobre cidades, rios, montanhas e rotas comerciais.

Al-Idrisi combinou informações de fontes escritas e orais, incluindo relatos de viajantes e comerciantes. Ele também usou conhecimentos geográficos dos antigos gregos e romanos, bem como de estudiosos islâmicos. O mapa de Al-Idrisi teve uma enorme influência na cartografia medieval e foi utilizado por muitos exploradores e estudiosos europeus. Sua precisão e nível de detalhe eram excecionais para a época. A referência a Carignano no contexto do mapa pode se referir a uma das representações detalhadas das regiões italianas e seus centros urbanos importantes. No entanto, o foco principal do trabalho de Al-Idrisi era criar uma visão abrangente do mundo conhecido, mais do que detalhar a cidade específica de Carignano.



Tabula Rogeriana

Em 1351, o papa Clemente VI emitiu uma bula papal conhecida como "Romanus Pontifex", na qual concedia as Ilhas Canárias como feudo ao nobre castelhano Luís de La Cerda. A concessão das Ilhas Canárias como feudo a Luís de La Cerda pelo papa Clemente VI é um exemplo fascinante das dinâmicas europeias no século XIV à volta das ilhas do Atlântico Norte. Esta concessão foi feita como uma forma de recompensar Luís de La Cerda por seu apoio à Santa Sé. Na época, as Ilhas Canárias eram disputadas pelos reinos cristãos da Península Ibérica, principalmente Castela e Portugal. A concessão papal foi uma tentativa de influenciar e pacificar os conflitos sobre o controlo das ilhas.

A concessão das Ilhas Canárias, como feudo a Luís de La Cerda, como seria de esperar, provocou controvérsias e disputas entre os dois reinos. Tanto Castela como Portugal reivindicaram direitos sobre as ilhas, e naturalmente a bula papal seria contestada por esses dois estados. E, por conseguinte, a concessão papal não resolveu nada. As Ilhas Canárias continuaram a ser um pomo de discórdia. As ilhas acabaram nas mãos da Coroa de Castela após décadas de conflitos e expedições militares. Este episódio revela como na Idade Média o Papa se arvorava não apenas a arbitrar, mas a influenciar a política pela via diplomática. 

Na Idade Média, Europa e África eram dois mundos bastante distintos e separados por grandes barreiras geográficas, culturais e políticas. A interação entre esses dois continentes era limitada e frequentemente indireta. A geografia desempenhava um papel fundamental na separação entre Europa e África. O Mar Mediterrâneo, por exemplo, servia como uma fronteira natural entre o sul da Europa e o norte da África, mas também como uma rota de comércio e interação cultural. O conhecimento mútuo entre Europa e África era limitado. Os europeus tinham informações fragmentadas e muitas vezes imprecisas sobre as terras além do Mediterrâneo, baseadas em relatos de viajantes, missionários, comerciantes e exploradores.

 As rotas comerciais através do Mediterrâneo facilitavam algum contacto entre europeus e africanos, especialmente nas cidades costeiras e nos pontos de comércio como o Egito, o norte da África e mais tarde ao longo da costa oeste da África. A falta de conhecimento direto levava frequentemente a imaginações e estereótipos sobre o outro continente. Por exemplo, o mito do Preste João, um rei cristão fabuloso que supostamente governava um reino poderoso no Oriente ou na África, foi amplamente difundido na Europa medieval. As Cruzadas e as primeiras explorações marítimas, como as dos portugueses ao longo da costa africana, começaram a ampliar lentamente o entendimento europeu sobre a África, mas isso era um processo gradual e muitas vezes motivado por interesses comerciais e religiosos.

Portanto, durante a Idade Média, Europa e África eram de facto mundos separados e distintos, com interações limitadas e um conhecimento mútuo fragmentado. Esse contexto histórico contribuiu para uma percepção de separação e distinção entre os dois continentes até que as explorações e o intercâmbio comercial começaram a ampliar as fronteiras.

A partir do século XV, as explorações portuguesas ao longo da costa africana, lideradas por figuras como Henry, o Navegador, começaram a alterar gradualmente essa dinâmica. As descobertas de ouro, novas rotas comerciais e o impulso para encontrar um caminho marítimo para as Índias aumentaram o interesse europeu pela África. Até o final do século XV, o Oriente, com suas riquezas e rotas comerciais estabelecidas, capturava muito mais a imaginação e o interesse dos europeus do que a África, que permanecia em grande parte desconhecida e inexplorada além das fronteiras do Saara. As explorações marítimas portuguesas marcam um ponto de viragem significativo nessa dinâmica.

Durante a Idade Média e o início da Idade Moderna, houve uma proliferação de livros de viagens fictícios ou semi-fictícios, nos quais os autores frequentemente descreviam lugares exóticos e distantes sem terem realmente visitado esses locais. Esses relatos muitas vezes misturavam elementos de fantasia, mitologia e exagero, alimentando a curiosidade europeia por terras desconhecidas. Autores como John Mandeville (cujo nome era provavelmente fictício) escreveram obras como "A Viagem de John Mandeville", onde descreviam terras distantes como a Índia, China e o Médio Oriente com detalhes fantasiosos. Mandeville afirmava ter viajado extensivamente, mas hoje é amplamente aceite que suas histórias eram em grande parte fictícias.

Esses relatos eram frequentemente criados para entreter e educar os leitores europeus sobre o mundo além de suas fronteiras. Eles capitalizavam o crescente interesse por novas culturas e geografias, mesmo que baseados em informações limitadas ou inexistentes. Os autores desses livros frequentemente incluíam elementos fantásticos, como monstros, cidades de ouro e estranhos costumes, que capturavam a imaginação do público europeu. Essas narrativas ajudavam a construir uma imagem mítica e distorcida de terras distantes. Apesar de sua natureza fictícia, esses relatos contribuíram para a formação do imaginário europeu sobre o mundo além de suas fronteiras. Eles influenciaram a literatura, a arte e até mesmo as explorações reais ao inspirar exploradores a buscar novas rotas e descobertas.

 Com o tempo, muitos desses relatos foram desmascarados como ficções ou exageros, especialmente com o avanço das explorações geográficas e científicas. No entanto, eles continuam a ser estudados como reflexos das atitudes e curiosidades da época.

Ibn Battuta é reconhecido como um dos maiores viajantes da história, e sua obra, "Rihla" (ou "Rihlat Ibn Battuta"), é uma das mais importantes e detalhadas crónicas de viagem já escritas. Ibn Battuta nasceu em Tânger, Marrocos, em 1304, e iniciou a jornada de viagem em 1325, aos 21 anos de idade. Ele viajou extensivamente por mais de 30 anos, visitando territórios que hoje abrangem mais de 40 países, desde o norte da África até ao interior da Ásia, e relatou suas experiências detalhadamente em "Rihla".

Começou a jornada com o objetivo de realizar uma peregrinação a Meca (hajj), um dever religioso para os muçulmanos. No entanto, sua curiosidade e desejo de conhecer novos lugares e culturas o levaram a expandir significativamente suas viagens além da peregrinação inicial. Ao contrário de relatos de viagens fictícios da época, "Rihla" é considerado um testemunho autêntico e detalhado das regiões e pessoas que Ibn Battuta encontrou em suas viagens. Ele descreveu aspectos geográficos, políticos, sociais, econôómicos e culturais dos lugares visitados. "Rihla" teve um impacto duradouro na compreensão do mundo islâmico dessa época. Suas observações e relatos fornecem insights valiosos sobre as condições e interações sociais da época, além de detalhar as rotas comerciais e os centros intelectuais e religiosos.

Ibn Battuta é celebrado por sua coragem, curiosidade intelectual e capacidade de se adaptar a diferentes culturas e ambientes. Sua obra inspirou gerações posteriores de viajantes e exploradores, e continua a ser estudada como um importante registro histórico e cultural. Portanto, Ibn Battuta é considerado um dos maiores viajantes de todos os tempos não apenas por causa da extensão de suas viagens, mas também pela profundidade e precisão de suas observações em "Rihla", que o distinguem de muitos outros viajantes da época.

Durante a Idade Média, os muçulmanos do Magrebe, e do mundo islâmico em geral, estavam significativamente à frente dos cristãos europeus em termos de conhecimento geográfico e científico. Os estudiosos muçulmanos preservaram e expandiram significativamente o conhecimento científico e geográfico da Antiguidade Clássica, herdado dos gregos, romanos e persas. Isso incluiu trabalhos de geógrafos como Ptolomeu, cujas obras foram traduzidas para o árabe e posteriormente desenvolvidas e aprimoradas. O Islão incentivou a peregrinação a Meca (hajj), o que levou muitos estudiosos e viajantes a explorar vastas áreas do mundo conhecido na época. Ibn Battuta é um exemplo proeminente dessa tradição de viajantes muçulmanos que documentaram as suas viagens detalhadamente.

 Centros de estudo, como Bagdade, Córdoba, Cairo e Fez, tornaram-se importantes locais onde o conhecimento geográfico e científico era estudado, ensinado e aprimorado. Universidades e bibliotecas abrigavam vastas coleções de manuscritos e livros que eram consultados por estudiosos de todo o mundo islâmico. Os geógrafos e cartógrafos muçulmanos desenvolveram técnicas avançadas de cartografia, incluindo projeções de mapas e métodos de medição astronómica, que eram superiores aos utilizados na Europa medieval. O mundo islâmico serviu como um ponto de encontro cultural e intelectual entre o Oriente e o Ocidente, facilitando a tradução de obras antigas e a transmissão de conhecimento científico e geográfico para a Europa através da Espanha islâmica (al-Andalus).

 Esses fatores combinados fizeram com que os muçulmanos do Magrebe, e do mundo islâmico em geral, estivessem à frente dos europeus cristãos na época medieval no que diz respeito ao conhecimento geográfico, científico e cultural. Esse legado teve um impacto profundo no desenvolvimento posterior da ciência e da exploração geográfica em todo o mundo. Houve exceções notáveis na cartografia medieval feita por judeus, como o caso da cartografia maiorquina. Durante a Idade Média, alguns judeus na Europa, especialmente na Península Ibérica e nas ilhas do Mediterrâneo, desempenharam um papel significativo no desenvolvimento e na prática da cartografia. A Península Ibérica, sob domínio muçulmano (al-Andalus), proporcionou um ambiente relativamente tolerante onde judeus, cristãos e muçulmanos coexistiam e compartilhavam conhecimentos.

Os judeus, com sua educação em línguas, matemática e astronomia, frequentemente atuavam como tradutores e intermediários culturais entre diferentes comunidades. Isso facilitou a transmissão de conhecimentos geográficos e científicos entre culturas. Maiorca, uma ilha no Mediterrâneo, se destacou como um centro importante para a cartografia medieval. A Escola Cartográfica de Maiorca, que floresceu nos séculos XIII e XIV, produziu mapas que combinavam tradições cartográficas árabes, judaicas e europeias. Os judeus desempenharam papéis chave nesse contexto, contribuindo com seu conhecimento técnico e linguístico.

 A cartografia maiorquina incorporou técnicas avançadas de projeção de mapas, conhecimentos astronómicos e precisão na representação geográfica. Isso influenciou o desenvolvimento da cartografia europeia, especialmente durante a expansão marítima e as descobertas geográficas dos séculos seguintes. O trabalho dos cartógrafos judeus em Maiorca e em outras partes da Península Ibérica deixou um legado duradouro na história da cartografia. Suas contribuições ajudaram a melhorar a precisão e o detalhamento dos mapas medievais, influenciando a forma como o mundo era compreendido e representado na época. Portanto, os cartógrafos judeus, especialmente aqueles associados à Escola Cartográfica de Maiorca, representam uma exceção significativa na história medieval, contribuindo de maneira substancial para o avanço do conhecimento cartográfico na Europa medieval.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Os eunucos


Nos antigos impérios, em que o Império Otomano é paradimático para este tema, os eunucos ocupavam posições de confiança e poder. Mas os eunucos existiam tanto no Império Romano, sobretudo no Bizantino, como nas sucessivas dinastias imperiais chinesas. Como não podiam ter filhos naturais, as questões de herança ou traição dinástica não se colocavam. Além disso, a sua condição física muitas vezes os tornava mais confiáveis em certos papéis, como guardiões de haréns e lugares de confiança próximos de governantes.

O que arrepia em começo de conversa é o método físico utilizado para o efeito. Existiam vários métodos para a castração e formação de eunucos, mas geralmente envolviam a remoção dos testículos ou de ambos os testículos e o pénis. Isso poderia ser feito por cirurgia, mas muitas vezes, para além da castração química, as técnicas eram mais rudimentares. Se do ponto de vista político o objetivo residia na inexistência de descendência, é claro que nos ecossistemas dos haréns trazia conveniências acrescidas. No entanto, a sobrevivência depois dos procedimentos como não estava garantida devido aos efeitos secundários da agressão, tais operações eram acompanhadas de uma ritualidade muito especial. 



O Harém Ağası, eunucos negros do Harém Imperial Otomano

Os otomanos davam-se ao luxo de ter um para cada função: responsável pelas roupas do sultão; serviço de bebidas; serviço de carregamento de armas; ajudante para montar o seu cavalo; um era responsável por fazer o seu turbante; outro fazia de barbeiro. No palácio havia também um grande número de mordomos que levavam comida, água e madeira por todo o palácio e acendiam as lareiras e braseiros. Os porteiros (Kapıcı) contavam com várias centenas e eram responsáveis por abrir as portas em todo o palácio. O porteiro-chefe era responsável por escoltar convidados importantes até ao sultão.

O harém estava sob a administração dos eunucos, dos quais havia duas categorias: eunucos negros; eunucos brancos. Uma figura importante na corte otomana era o Eunuco Negro Chefe (Kızlar Ağası ou Harem Ağası). No controlo do harém havia uma rede perfeita de espiões. O eunuco chefe envolvia-se em quase todas as intrigas palacianas e poderia assim ganhar poder sobre o sultão ou um de seus vizires, ministros ou outros oficiais da corte.


Cariye - concubina imperial

Cariye era uma mulher escravizada. Os direitos da mulher escravizada eram regulados dentro da lei islâmica. E o Kizlar Agha, Kızlarağası, também conhecido como o "Eunuco Negro Chefe" - era responsável pela guarda do harém imperial. Na lei islâmica, pela escravização de uma mulher, era o único caso em que o concubinato era legalmente permitido. Uma mulher tomada como concubina cariye tinha que obedecer ao seu dono masculino como se fosse um marido. No entanto, os filhos, homens ou mulheres, de uma concubina cariye eram legalmente livres. 

O harém imperial otomano, que era o harém do sultão otomano – composto pelas esposas, servos (tanto escravas quanto eunucos), parentes do sexo feminino e concubinas do sultão – ocupava uma grande ala do palácio que ficava isolada (seraglio). O harém era uma instituição. Desempenhou uma importante função social dentro da corte otomana, e exerceu considerável autoridade política nos assuntos otomanos, especialmente durante o longo período conhecido como o Sultanato das Mulheres entre 1533 e 1656. Historiadores afirmam que o sultão era frequentemente pressionado por membros do harém de diferentes origens étnicas ou religiosas quando estavam em causa certas geografias nas guerras otomanas de conquista. 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A família Krupp


A família Krupp é uma das mais proeminentes da Alemanha, conhecida por seu papel na indústria pesada, especialmente na região do Ruhr. Eles eram proprietários da Krupp AG, uma das maiores empresas de produção de aço e armamento do mundo. A família desempenhou um papel significativo na história industrial e política da Alemanha, especialmente durante os séculos XIX e XX.

Gustav Krupp von Bohlen und Halbach (Haia, 7 de agosto de 1870 — Schloss Blühnbach, 16 de janeiro de 1950) - diplomata e empresário alemão, e Wehrwirtschaftsführer no regime nazi. Era o quinto de sete crianças de Gustav von Bohlen und Halbach (1831-1890) e Sophie Bohlen (1837-1915). Foi educado em Karlsruhe antes de ir estudar leis e política. Foi senador da Sociedade Kaiser Wilhelm, desde sua fundação em 1911 até 1937. Processado no Tribunal de Nuremberg, depois da Segunda Guerra Mundial, não chegou a ser condenado, pois na época do julgamento já estava incapaz de responder pelos seus atos.



Gustav Krupp com a família

Helene Amalie Krupp, conhecida como "Tante Amalie", comprou uma fundição de ferro falida em Essen, Alemanha, em 1811. Ela foi uma figura crucial nos estágios iniciais da empresa familiar Krupp, que mais tarde se tornaria uma das maiores e mais influentes empresas siderúrgicas do mundo. Helene Amalie Krupp também investiu em minas de carvão para garantir o suprimento necessário de matéria-prima para as operações siderúrgicas da empresa. Esse investimento estratégico ajudou a consolidar a posição da família Krupp no setor industrial e a garantir um fornecimento estável de carvão, um componente essencial na produção de aço. Faleceu aos 97 anos em 25 de fevereiro de 1850. Ela desempenhou um papel fundamental no estabelecimento e crescimento inicial da empresa siderúrgica Krupp, contribuindo significativamente para o sucesso da dinastia Krupp.

Helene Amalie Krupp deixou uma considerável fortuna para seu neto, Friedrich Krupp, que posteriormente se tornaria uma figura central na expansão e consolidação da empresa siderúrgica Krupp. Essa herança financeira proporcionou a base para o crescimento contínuo da empresa e para a ascensão da dinastia Krupp como uma das mais poderosas da Alemanha. Apesar da herança substancial deixada por sua avó, Friedrich Krupp enfrentou dificuldades financeiras significativas na gestão da empresa. Ele tomou uma série de decisões financeiras arriscadas e investimentos mal-sucedidos, levando a perdas consideráveis e à quase falência da empresa Krupp. Foi um período difícil para a família Krupp e para a empresa, mas a empresa acabou por sobreviver sob o comando de outros membros da família.

Sob a liderança de Alfried Krupp, filho de Friedrich, a empresa recuperou e se tornou um dos principais fornecedores de equipamentos militares para o regime nazi, incluindo armas, munições e maquinaria. Isso determinou a posição da empresa Krupp como potência industrial na Alemanha durante a Alemanha nazi. A empresa foi pioneira em técnicas de produção em larga escala e desenvolveu novos métodos de fabricação de aço, contribuindo assim para o rápido crescimento da indústria metalúrgica durante esse período de transformação económica e tecnológica.

A Revolução Industrial teve um impacto significativo nas economias globais, mas não foi responsável por "destronar" a China e a Índia do domínio mundial. Enquanto a Europa e, mais tarde, os Estados Unidos se industrializavam rapidamente durante esse período, a China e a Índia continuaram a ser importantes centros econômicos e culturais. Foi depois do impacto do imperialismo, colonialismo e a ascensão do capitalismo industrial, que se deram as mudanças nas dinâmicas de poder a nível global, inicialmente da Europa e a seguir dos Estados Unidos. Apesar do avanço da Revolução Industrial na Europa, o poder político e económico estava bastante fragmentado entre as diferentes nações europeias. Durante o século XIX, a Europa estava dividida em várias potências, como o Reino Unido, França, Alemanha, Áustria-Hungria e Rússia. Essa fragmentação levou a competições intensas entre as potências europeias por recursos, mercados e territórios coloniais. No entanto, a industrialização e o desenvolvimento económico acabaram fortalecendo certos estados, como o Reino Unido, França e Alemanha, que se tornaram líderes industriais e políticos dentro do continente europeu.

O capitalismo financeiro desempenhou um papel crucial no financiamento da Revolução Industrial. Durante esse período, houve um aumento significativo na disponibilidade de capital para investimento em novas indústrias, tecnologias e infraestruturas. Os investidores, muitos dos quais eram provenientes da classe mercantil e financeira emergente, direcionaram os seus recursos para empreendimentos industriais, como fábricas, ferrovias, minas e empresas de manufatura. Os mercados financeiros, especialmente na Inglaterra, forneceram o capital necessário para financiar esses empreendimentos, por meio de empréstimos, emissão de ações e outros instrumentos financeiros. O surgimento de bancos comerciais e de investimento também facilitou o acesso ao crédito e ao capital para empresários e empreendedores. Assim, o capitalismo financeiro, juntamente com a acumulação de capital proveniente do comércio, da agricultura e de outras atividades económicas, foi fundamental para impulsionar o crescimento económico e a transformação industrial durante o período da Revolução Industrial.

Thomas Jefferson em Paris


Durante o tempo em que Thomas Jefferson esteva em Paris, como embaixador dos Estados Unidos, a França estava a passar por um período turbulento de mudança política, social e cultural. A Revolução Francesa estava em curso, marcada por agitação política, conflitos internos e mudanças radicais na estrutura de poder.


Uma gravura da Champs-Élysées vista através da Grille de Chaillot
A casa de Jefferson aparece à esquerda

Em 7 de maio de 1784, Jefferson foi nomeado pelo Congresso da Confederação para se juntar a Benjamin Franklin e John Adams em Paris como Ministro Plenipotenciário para Negociar Tratados de Amizade e Comércio com a Grã-Bretanha e outros países. Com a sua filha Patsy e dois criados, ele partiu em julho de 1784, chegando a Paris no mês seguinte. Jefferson colocou Patsy na Abadia de Pentemont, tendo em vista a sua educação. Menos de um ano depois, ele recebeu a tarefa adicional de suceder Franklin como ministro das Relações Exteriores da França. Durante seus cinco anos em Paris, Jefferson desempenhou um papel de liderança na formação da política externa dos EUA.

Em 1786, ele conheceu e se apaixonou por Maria Cosway, uma talentosa musicóloga ítalo-inglesa de 27 anos. Ela retornou à Grã-Bretanha depois de seis semanas, mas eles mantiveram uma correspondência ao longo da vida. Durante o verão de 1786, Jefferson chegou a Londres para se encontrar com John Adams, o embaixador dos EUA na Grã-Bretanha. Adams tinha acesso oficial a Jorge III, pelo que conseguiu um encontro entre Jefferson e o rei. Mais tarde, Jefferson descreveu a recepção do rei como "ingrata". De acordo com o neto de Adams, Jorge III virou as costas para ambos num gesto de indiferença. Jefferson regressou à França em agosto.

Enquanto esteve em França, Jefferson foi um companheiro regular do Marquês de Lafayette, um herói francês da Revolução Americana. Jefferson usou sua influência para obter acordos comerciais com a França. Quando a Revolução Francesa começou, ele permitiu que sua residência em Paris, o Hôtel de Langeac, fosse usado para reuniões de Lafayette e outros republicanos. Ele estava em Paris quando se deu a tomada da Bastilha. Jefferson viu muitas vezes a sua correspondência devassada por carteiros. Então resolveu inventar um código cifrado para a sua correspondência, o "Wheel Cipher"; Ele passou a escrever as suas comunicações mais importantes em código. Jefferson apoiou a Constituição. Em 1789 regressou à América, era setembro. Mas foi um firme defensor da Revolução Francesa, embora se tenha oposto aos seus elementos mais violentos. A Revolução Francesa não foi ocupada apenas por gente radical. Alguns indivíduos abraçavam ideias liberais, e outros ainda permaneciam fiéis aos valores tradicionais.


Thomas Jefferson, embora fosse um defensor da liberdade e igualdade, foi proprietário de escravos ao longo da sua vida, incluindo o tempo em que esteve como embaixador dos Estados Unidos na França. Jefferson possuía uma grande plantação na Virgínia e era dono de numerosos escravos que trabalhavam em suas terras. Quanto a Sally Hemings, ela era uma mulher escravizada que pertencia à família de Jefferson e que se juntou a ele em Paris enquanto ele servia como embaixador. Durante seu tempo em Paris, há especulações de que um relacionamento romântico se tenha desenvolvido entre Jefferson e Sally Hemings. Parece que ambos tiveram um filho juntos. O relacionamento entre Jefferson e Hemings tem sido objeto de debate e controvérsia ao longo dos anos, especialmente por causa da disparidade de poder entre um proprietário de escravos branco e uma mulher escravizada negra. A questão do envolvimento de Jefferson com Hemings levanta questões complexas sobre escravidão, poder e hipocrisia na história americana.

terça-feira, 16 de julho de 2024

As rotas dos vietcongues durante a Guerra do Vietname

 


Durante a Guerra do Vietname os vietcongues usaram pelo menos duas rotas de abastecimento: a Rota de Sihanouk, e a Rota de Ho Chi Minh. Essas rotas desempenharam um papel crucial no conflito. A Rota de Sihanouk, através do Camboja, que era neutro, foi uma das principais vias pelas quais a China fornecia apoio aos vietcongues. Isso permitiu que suprimentos e armas chegassem aos combatentes vietcongues no sul do Vietname, desafiando os esforços dos Estados Unidos para interromper o fornecimento de recursos. Enquanto os Estados Unidos iam enviando mais tropas, Sihanouk recrutava para o seu governo um marxista formado na Sorbone, chamado Khieu Samphan.

O líder cambojano, Norodom Sihanouk, recrutou Khieu Samphan, um marxista formado na Sorbonne, para o seu governo. Khieu Samphan desempenhou um papel significativo no regime de Sihanouk antes de se tornar um dos líderes do Khmer Vermelho, que mais tarde liderou o regime brutal no Camboja. Richard Nixon tomou posse como presidente dos Estados Unidos em janeiro de 1969, e o seu primeiro grande desafio em relação ao Vietname foi como acabar com a guerra. A sua estratégia incluía a retirada gradual das tropas americanas e a transferência da responsabilidade pelo desenrolar dos acontecientos a partir daí para as forças armadas sul-vietnamitas.

Henry Kissinger desempenhou um papel crucial na formulação e implementação da política externa dos Estados Unidos durante o governo de Nixon, incluindo a estratégia para terminar com a Guerra do Vietname. Ele desempenhou um papel central nas negociações de paz com o Vietname do Norte, culminando nos Acordos de Paz de Paris em 1973, que acabaram formalmente com o envolvimento dos EUA na guerra. Nixon tinha outra proridade, que consistia no primeiro homem a colocar os pés na Lua. Isso vei a concretizar-se em 20 de  julho de 1969. Durante o mandato de Richard Nixon, a missão Apollo 11 realizou a primeira colocação de um homem na Lua, com Neil Armstrong e Edwin "Buzz" Aldrin se tornando os primeiros seres humanos a caminhar na superfície lunar. Este foi um marco histórico significativo tanto para os Estados Unidos quanto para a humanidade como um todo. Nixon presidiu o país durante esse evento marcante na história da exploração espacial.

Henry Kissinger, como conselheiro de segurança nacional e posteriormente como Secretário de Estado dos Estados Unidos durante a administração Nixon, argumentou que uma saída abrupta do Vietname poderia prejudicar a credibilidade internacional dos Estados Unidos. Ele defendia uma abordagem gradual e diplomática para encerrar o envolvimento dos EUA na guerra, a fim de preservar a influência e o prestígio do país no cenário mundial. Essa abordagem acabou sendo refletida na estratégia de "paz com honra" de Nixon para encerrar a Guerra do Vietname.

Assim, Kissingir achava que primeiro devia tentar afastar a China da Rússia. Aproximar da China para enfraquecer a Rússia. Essa abordagem foi conhecida como "diplomacia do pingue-pongue" e culminou na histórica visita de Nixon à China em 1972. Ao normalizar as relações com a China, os Estados Unidos buscaram criar uma dinâmica de competição entre a China e a União Soviética, visando enfraquecer a influência soviética no cenário global. Essa política de realpolitik foi uma das características distintivas da administração Nixon em que Kissinger desempenhou um papel fundamental nesse processo.

A Guerra do Vietname foi altamente condenada nos Estados Unidos, e Nixon enfrentou uma forte contestação interna durante o seu mandato. O movimento anti-guerra cresceu significativamente durante os anos 1960 e início dos anos 1970, com protestos em todo o país e críticas cada vez mais vocais contra a guerra e a política externa dos EUA. Isso colocou pressão sobre Nixon para encontrar uma solução para a guerra e retirar as tropas americanas de forma responsável. A contestação interna desempenhou um papel importante na moldagem da política em relação ao Vietname e influenciou as decisões de Nixon sobre como lidar com o conflito.

A situação no Camboja representava um grande desafio para a administração Nixon durante a Guerra do Vietname. Nixon autorizou secretamente bombardeios e incursões terrestres no Camboja em 1969, na tentativa de atingir bases vietcongues do Exército do Vietname do Norte. No entanto, essas ações provocaram uma reação violenta e levaram ao fortalecimento do movimento Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot. Os Khmers Vermelhos assumiram o controlo do Camboja em 1975, resultando numa tragédia humanitária com milhões de mortes. A intervenção no Camboja tornou-se um ponto de controvérsia na história da política externa dos Estados Unidos e contribuiu para a crítica da administração Nixon em relação à sua gestão da Guerra do Vietname.

Pol Pot foi a Pequim pedir ajuda militar para uma revolução comunista que já não era segredo para ninguém. Pol Pot e os Khmers Vermelhos buscaram apoio militar e político da China comunista, liderada por Mao Zedong, na sua luta contra o governo do Camboja. A China era vista como uma aliada potencial dos Khmers Vermelhos para o derrube do governo cambojano, e estabelecer aí um regime comunista radical. A China, por sua vez, viu o Camboja como uma oportunidade de estender a sua influência na região, e desafiar a União Soviética com a qual tinha tensões políticas. A relação entre os Khmers Vermelhos e a China desempenhou um papel significativo na história do Camboja durante esse período.

Quando o príncipe Shianouk foi de visita a Moscovo, em março de 1970, o general Lon Nol, um pró-americano, tomou o poder em Phnom Penh. Essa mudança no governo do Camboja teve consequências significativas para o país e para a Guerra do Vietname. Lon Nol tornou-se um aliado dos Estados Unidos na luta contra os Khmers Vermelhos. A instabilidade política resultante desse golpe contribuiu para o caos que se seguiu nos anos seguintes e levou os Khmers Vermelhos ao poder em 1975. No entanto, o prestígio da monarquia era tal que os camponeses se revoltaram e mararam o irmão de Lon Nol. Isso levou a uma série de revoltas e resistência contra o novo governo. Em algumas áreas rurais, os camponeses se uniram em apoio ao príncipe Norodom Sihanouk, que estava no exílio. Essa instabilidade política e a oposição interna contribuíram para a fragilidade do governo de Lon Nol e para o caos que se seguiu no Camboja durante os anos seguintes.

Sihanouk teve a ingenuidade de ir a Pequim pedir apoio. Daí resultou uma aliança com o movimento Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot. Sihanouk estava descontente com o governo de Lon Nol, que assumiu o poder após o golpe de 1970, e viu na China uma aliada potencial na luta contra Lon Nol e os Estados Unidos. No entanto, essa decisão acabou por ter consequências imprevisíveis. A escalada do conflito culminou com a ascensão dos Khmers Vermelhos e a tomada do poder no Camboja.

O governo chinês de Mao Zedong apoiou os Khmers Vermelhos de Pol Pot, fornecendo-lhes assistência militar, financeira e política. No entanto, é amplamente reconhecido que Mao e seus assessores estavam mais interessados em usar os Khmers Vermelhos como peões em sua rivalidade com a União Soviética do que preocupados com o bem-estar do povo cambojano. A tragédia que se seguiu, com a ascensão dos Khmers Vermelhos e o subsequente genocídio no Camboja, resultou de toda uma política radical protagonizada por Pol Pot. Embora Mao e a China tenham apoiado inicialmente os Khmers Vermelhos, eles não estavam diretamente envolvidos na tomada de decisões do regime cambojano e, posteriormente, condenaram as suas ações quando a magnitude do genocídio se tornou conhecida internacionalmente.

Houve relatos e teorias da conspiração sobre uma suposta tetativa de homicídio de Mao Zedong envolvendo Lin Biao e seu filho, Lin Liguo, em setembro de 1971. Lin Biao era um dos principais líderes do Partido Comunista Chinês e era considerado o herdeiro político de Mao na época. No entanto, em setembro de 1971, Lin Biao morreu num acidente de avião na Mongólia, enquanto supostamente tentava fugir para a União Soviética após um suposto fracasso de uma conspiração contra Mao. Os detalhes exatos do que aconteceu, se é que tenha havido realmente uma tentativa de assassinato, permanecem obscuros e controversos. O governo chinês sob Mao Zedong tratou o incidente como uma traição e uma tentativa de golpe, mas muitos detalhes específicos nunca foram completamente esclarecidos. A morte de Lin Biao e os eventos que a cercam são frequentemente mencionados em histórias e análises sobre a política chinesa durante a Revolução Cultural e o período posterior. Foi um drama que confundiu o mundo durante décadas.

O incidente levantou muitas questões sobre as verdadeiras circunstâncias da morte de Lin Biao, bem como sobre os motivos por trás dela. Além disso, o episódio teve um impacto significativo na política interna e externa da China, influenciando as relações entre o governo chinês e outras potências mundiais, bem como a dinâmica dentro do Partido Comunista Chinês. A morte de Lin Biao e as suspeitas de uma conspiração interna continuam a ser objeto de estudo e debate entre historiadores e analistas políticos.

O confronto de tropas chinesas e soviéticas no rio Ussuri encorajou Mao a pôr à prova Lin Biao. O confronto entre tropas chinesas e soviéticas ao longo do rio Ussuri em 1969, conhecido como Conflito Fronteiriço Sino-Soviético, foi um ponto de viragem nas relações entre a China e a União Soviética. Esse conflito exacerbou as tensões já existentes entre os dois países e levou Mao Zedong a desconfiar dos soviéticos. O que pode ter contribuído para a decisão de testar a lealdade de Lin Biao e outros líderes dentro do Partido Comunista Chinês. Alguns acreditam que Mao viu Lin Biao como uma possível ameaça à sua liderança, especialmente após o conflito com a União Soviética. Isso pode ter desempenhado um papel na suposta conspiração e subsequente tentativa de fuga de Lin Biao em 1971. No entanto, os detalhes exatos e as motivações por trás desses eventos permanecem objeto de especulação e controvérsia.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

A Palestina após a Segunda Guerra Mundial


Atlee não proibiu a emigração de judeus britânicos para a Palestina com o objetivo de entregar a região a um Estado árabe. A política britânica em relação à Palestina após a Segunda Guerra Mundial foi complexa e influenciada por vários fatores, incluindo as tensões entre árabes e judeus na região, bem como considerações geopolíticas mais amplas. 
O que foi então que se passou para a Inglaterra ter deixado de apoiar os judeus na constituição de um Estado judaico independente? 

A mudança na política britânica em relação à criação de um Estado judaico independente na Palestina foi influenciada por vários fatores, incluindo pressões políticas e diplomáticas, bem como eventos regionais e globais. Alguns dos principais motivos tinham a ver com tensões entre árabes e judeus na Palestina. O aumento das tensões e dos conflitos entre as comunidades árabe e judaica na Palestina levou a uma revisão da política britânica. Os interesses geopolíticos britânicos na região mudaram ao longo do tempo, com considerações sobre o equilíbrio de poder no Médio Oriente na relação com outros países da região.

Esses fatores combinados levaram a uma mudança na postura britânica em relação à criação de um Estado judaico independente na Palestina. A 29 de Novembro de 1947 a ONU votou pela partição da Palestina em dois Estados: um árabe e outro judeu. Jerusalém seria uma zona internacional administrada pelas Nações Unidas. Esta resolução foi um marco significativo no caminho para a criação do Estado de Israel. No entanto, a resolução não foi aceite por todas as partes envolvidas, e isso levou a uma guerra entre árabes e judeus na região em 1948. David Ben-Gurion, líder da comunidade judaica na Palestina na época, aceitou o compromisso da partição proposto pela Resolução 181 da ONU. Ele viu isso como uma oportunidade para estabelecer um estado judeu independente. No entanto, os líderes árabes rejeitaram a resolução, considerando-a injusta, o que acabou numa guerra entre árabes e judeus após a declaração de independência de Israel em 1948.

Após a aprovação da Resolução 181 da ONU, os líderes árabes da Palestina e os líderes árabes da maioria dos países do Médio Oriente rejeitaram o plano de partição, preferindo lutar pela totalidade da Palestina como um Estado árabe único. Eles viam a partição como injusta e uma violação de seus direitos sobre a terra. Ainda antes, durante o período que antecedeu a declaração de independência de Israel em 1948, grupos paramilitares árabes atacaram comunidades judaicas na Palestina. Os ataques foram uma das manifestações da tensão e violência que caracterizaram esse período turbulento na história da região.

Os judeus na Palestina 
também tinham a sua milícia: Haganá. A diferença é que estava melhor organizada. E isso é que fez a diferença no sentido de Israel ter levado sempre a melhor sobre os árabes. Aliás, estabeleceram várias organizações paramilitares, sendo a mais conhecida a Haganá. A Haganá era uma organização clandestina de autodefesa judaica que se formou durante o Mandato Britânico na Palestina. Ela se concentrava na proteção das comunidades judaicas contra ataques árabes e no treino de milicianos para a defesa. Com o tempo, a Haganá tornou-se uma força militar mais organizada e disciplinada do que alguns dos grupos árabes rivais, o que foi um fator importante durante a guerra que levou à criação do Estado de Israel em 1948.

No Egito, entretanto, enquanto Farouk aprendia o nacionalismo árabe, Hassan al-Banna formava a Irmandade Muçulmana. Os seguidores da Irmandade Muçulmana estavam entre aqueles que se opunham à imigração judaica para Jerusalém e à presença judaica na região, o que contribuiu para as tensões entre árabes e judeus na Palestina. Os judeus, embora não fossem maioritários na Palestina, eram-no em Jerusalém. Durante o período do Mandato Britânico na Palestina, os judeus não eram a maioria da população em toda a região, mas em certas áreas, como Jerusalém, eles formavam uma parte significativa da população e, em alguns casos, eram maioritários. Jerusalém, em particular, tinha uma população judaica considerável, com uma presença histórica e religiosa significativa para a comunidade judaica. Isso contribuiu para as tensões étnicas e religiosas na cidade e na região como um todo.

Mas a Irmandade Muçulmana, por seu lado no Egito, começou a assassinar ministros de Farouk. Hassan al-Banna, envolveu-se em atividades violentas no Egito durante esse período. Isso incluía ataques e assassinatos de políticos e autoridades do governo. A Irmandade Muçulmana via o regime de Farouk como corrupto e opressivo, e buscava derrubá-lo para estabelecer um estado islâmico baseado na sharia. Essa violência contribuiu para a instabilidade política no Egito durante o reinado de Farouk. E foi então que em dezembro de 1947, no Cairo, Farouk organizou uma nova Liga Árabe de sete países que decidiram fazer guerra aos israelitas. Na verdade, foi em dezembro de 1945, durante a Conferência do Cairo, que o rei Farouk do Egito propôs a criação da Liga Árabe, que mais tarde foi oficializada. A Liga Árabe não declarou guerra a Israel até à declaração de independência de Israel. O que Farouk não estava à espera era que Abdullah, rei da Jordânia, fizesse jogo duplo.

Abdullah, o rei da Jordânia na época, estava envolvido em negociações secretas com líderes judeus e britânicos, o que foi visto como uma traição pelos outros líderes árabes. Essas negociações acabaram resultando num acordo de paz com Israel, conhecido como Acordo de Armistício de 1949, que encerrou formalmente a guerra de 1948-1949. Essa ação surpreendeu muitos líderes árabes, incluindo Farouk, que esperavam um apoio unificado contra Israel. 

Inicialmente, Stalin e a União Soviética apoiaram a criação do Estado de Israel. Essa postura era baseada em vários fatores estratégicos e ideológicos. A União Soviética via a criação de Israel como uma maneira de enfraquecer a influência britânica no Médio Oriente. Houve um sentimento de solidariedade com os judeus sobreviventes do Holocausto, muitos dos quais estavam entre os fundadores e defensores do novo Estado de Israel. A União Soviética apoiou o Plano de Partilha da ONU de 1947, que propunha a criação dos dois estados: árabe e judeu na Palestina.

Em termos práticos, o apoio soviético foi manifestado através da aprovação da resolução da ONU que recomendava a partilha da Palestina e a subsequente criação de Israel. Além disso, a Checoslováquia, então um estado satélite soviético, forneceu armas significativas ao novo Estado de Israel, o que foi crucial para a sua sobrevivência nos primeiros meses de combate. No entanto, após a guerra, as relações entre Israel e a União Soviética começaram a azedar, especialmente devido ao alinhamento de Israel com os Estados Unidos e as potências ocidentais durante a Guerra Fria. Além disso, a União Soviética começou a apoiar os estados árabes em suas disputas contínuas com Israel, fornecendo armas e apoio político.

O resultado desta guerra foi catastrófica para os palestinos. Foi a Nakba, com mais de setecentos mil palestinos exilados. Nakba, que significa "catástrofe" em árabe. Mais de setecentos mil palestinos foram deslocados de suas casas e se tornaram refugiados, enquanto outras comunidades palestinas foram dispersas ou destruídas. A Nakba teve um impacto duradouro na história e na consciência coletiva do povo palestino, e suas consequências continuam a ser sentidas até hoje.

Por seu turno, judeus sefarditas que viviam há seculos nesses estados árabes tiveram de fugir precisamente para o Israel acabado de se formar. Muitos judeus sefarditas que viviam em países árabes há séculos enfrentaram discriminação e perseguição após a criação do Estado de Israel em 1948. Isso levou a uma onda de migração em massa dessas comunidades judaicas para Israel, conhecida como a "diáspora sefardita". Esses judeus foram integrados à população de Israel e contribuíram para a formação e desenvolvimento do país.

O líder da Irmandade Muçulmana, Hassan al-Banna, foi assassinado em fevereiro de 1949, provavelmente por agentes do governo egípcio. Isso ocorreu durante o reinado de Farouk, que enfrentava crescente oposição política, incluindo da Irmandade Muçulmana, devido à sua incompetência e corrupção. Embora Farouk tenha sobrevivido a esse evento, sua imagem e autoridade foram severamente comprometidas, e isso contribuiu para a crescente instabilidade política que acabou por resultar na Revolução Egípcia de 1952 e na queda da monarquia.

A incompetência de Farouk e a traição do rei da Jordânia, Abdullah, certamente tiveram um impacto significativo na derrota árabe na primeira guerra entre árabes e israelitas. A falta de coordenação e liderança eficaz entre os líderes árabes, juntamente com conflitos internos e agendas políticas divergentes, enfraqueceu a resistência árabe contra Israel. Isso contribuiu para a rápida ascensão e sucesso militar de Israel durante o conflito. Um coronel egípcio chamado Nasser, viria mais tarde a planear um golpe contra Farouk. Gamal Abdel Nasser, um coronel do exército egípcio na época, desempenhou um papel crucial no golpe que depôs o rei Farouk em 1952. Esse golpe, conhecido como Revolução Egípcia de 1952, resultou na abolição da monarquia e na ascensão de Nasser ao poder como líder da recém-formada República Árabe Unida (que mais tarde se tornou a República Árabe do Egito). O golpe foi motivado por vários fatores, incluindo o descontentamento popular com o regime de Farouk, a corrupção no governo e a percepção de que o Egito precisava de reformas sociais e políticas profundas.

A Síria não estava melhor, com as sus rivalidades étnicas internas. A Síria também enfrentava desafios internos significativos, incluindo rivalidades étnicas, religiosas e políticas. Na época, o país era uma colónia francesa e estava passando por uma transição tumultuosa em direção à independência. As divisões étnicas e religiosas entre os árabes sunitas, alauítas, drusos, cristãos e curdos, entre outros grupos, contribuíram para a instabilidade política e social. Essas rivalidades étnicas internas continuaram a ser uma fonte de tensão e conflito mesmo após a independência da Síria em 1946.

Abdullah da Jordânia, também vencedor, tomou conta de Jerusalém oriental e parte dos lugares sagrados dos cristãos. Conseguiu tomar o controlo de Jerusalém Oriental, incluindo a Cidade Velha, que continha locais sagrados para cristãos, judeus e muçulmanos. A Jordânia também controlou a Cisjordânia, incluindo Belém e outras áreas de importância religiosa. Esse controlo durou até à Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel capturou Jerusalém Oriental e a Cisjordânia. Durante o período em que a Jordânia controlava Jerusalém Oriental, houve alguma liberdade de acesso aos locais sagrados para os cristãos.

Sayyid Qutb no Egito


Sayyid Qutb, um teórico islâmico influente e membro proeminente da Irmandade Muçulmana, tornou-se cada vez mais crítico do regime secular de Nasser, no Egito, que era visto como contrário aos princípios islâmicos. Sayyid Qutb defendia a necessidade de uma revolta islâmica para restaurar o Islão como a fonte central de autoridade política. Qutb e seus seguidores chegaram a conspirar para assassinar Nasser. Em outubro de 1954, um membro da Irmandade Muçulmana tentou assassinar Nasser durante uma parada militar no Cairo, mas o atentado fracassou. Este incidente levou a uma forte repressão contra a Irmandade Muçulmana e seus membros, incluindo Qutb, que foi preso e posteriormente executado.



Sayyid Qutb na prisão

Nasser após ter assumido  poder, inicialmente buscou alianças com diversos grupos políticos, incluindo a Irmandade Muçulmana, uma organização islâmica influente no Egito. No entanto, as relações entre Nasser e a Irmandade rapidamente se deterioraram devido a diferenças ideológicas e disputas de poder. Sayyid Qutb, um escritor islâmico, e destacado membro da Irmandade Muçulmana, inicialmente também apoiou Nasser, mas acabou por se tornar um crítico ferrenho de seu governo, especialmente após o fracasso de uma revolta islâmica em 1954. Qutb foi preso, e epois executado em 1966. O que é certo é que as suas ideias influenciaram profundamente o movimento islâmico radical no Egito, e não só, que prevalece ainda nos dias de hoje. 

Sayyid Qutb foi julgado e condenado à morte em 1966, sendo enforcado pelas autoridades egípcias. No entanto, a sua execução não acabou com o fanatismo religioso ou o ativismo islâmico no Egito. Pelo contrário, Qutb tornou-se uma figura mártir para muitos islâmicos radicais e suas ideias continuaram a exercer influência sobre o movimento islâmico global. O legado de Qutb persistiu e suas obras, como "Milestones" ("Ma'alim fi al-Tariq"), continuaram a inspirar e justificar ações extremistas em nome do islão.

Qutb, portanto um fundamentalista da jiahd, radicalizando-se contra o secularismo de Nasser, contratou um membro da Irmandade para o matar, mas falhou. O que Nasser fez, foi mais inteligente, reforçou o Mukhabarat, com a ajuda da CIA, para purgar os jihadistas. Após o atentado contra sua vida em 1954, Nasser intensificou a repressão contra grupos islâmicos, incluindo a Irmandade Muçulmana, que ele considerava uma ameaça ao seu governo secular. Ele fortaleceu o aparelho de segurança do Estado, incluindo o Mukhabarat, a agência de inteligência egípcia, com a ajuda de assistência militar e treinamento dos Estados Unidos, incluindo a CIA. Essa cooperação ajudou Nasser a identificar e eliminar potenciais opositores, incluindo membros da Irmandade Muçulmana e outros grupos islâmicos. Essas ações consolidaram ainda mais o poder de Nasser, ajudando-o a reprimir efetivamente os movimentos islâmicos no Egito durante um certo tempo.

Irão: xá Pahlavi + Navab Safavi + Mossadegh

 

 xá Reza Pahlavi teve de lutar com um partido comunista em ascensão, o Tudeh. Durante o reinado do xá Reza Pahlavi, o partido Tudeh, um partido comunista, cresceu em influência e popularidade. O Tudeh ganhou força especialmente após a Segunda Guerra Mundial, quando os comunistas iranianos se envolveram em atividades políticas e sindicais. O partido defendia a justiça social, a reforma agrária e a nacionalização das indústrias, ganhando apoio entre os trabalhadores, camponeses e intelectuais descontentes com o governo do xá. No entanto, Pahlavi e seus aliados, incluindo os Estados Unidos, reprimiram brutalmente o Tudeh e outros movimentos de esquerda, temendo a expansão do comunismo no país. O Tudeh foi proibido em 1949, e enfrentou perseguição constante ao longo do reinado do xá Pahlavi.

O xá também tinha de lidar com o Ayatollah Kashani que apoiava o movimento terrorista Fadayan-e Islam. Reza Pahlavi enfrentava a oposição de figuras religiosas, onde se incluía o Ayatollah Abol-Ghasem Kashani, que era uma figura proeminente no mundo religioso e político do Irão na época. Kashani era conhecido por seu nacionalismo islâmico e suas críticas ao governo do xá, especialmente em questões como a secularização e a ocidentalização do país. Ele tinha uma base de apoio significativa entre os setores mais tradicionais da sociedade iraniana, incluindo muitos membros da classe religiosa e conservadora.



Navvab Safavi

O movimento Fadayan-e Islam, liderado por Navvab Safavi, era uma organização radical islâmica que se opunha ao regime do xá Pahlavi e buscava a criação de um estado islâmico no Irão. Realizou uma série de ataques violentos contra figuras do governo, funcionários públicos e outras pessoas consideradas inimigas do islão. Isto constituía um desafio para o governo do xá Pahlavi tendo contribuído para o clima de instabilidade política e social no país. Ali Razmara, que o xá havia nomeado para negociar com os britânicos a questão do petróleo, foi assassinado. Ele era visto como favorável aos interesses ocidentais e foi criticado por grupos nacionalistas e religiosos, incluindo o movimento Fadayan-e Islam, que se opunham à influência estrangeira no Irão. O assassinato de Razmara demonstrou a violência e a instabilidade política que caracterizaram o período pré-revolucionário no Irão. E o Majlis votou a favor da nacionalização do petróleo. 

Após o assassinato de Ali Razmara, o parlamento iraniano, conhecido como Majlis, votou a favor da nacionalização do petróleo em 1951. O primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, que havia sido nomeado após a morte de Razmara, mobilizou os esforços para nacionalizar a indústria petrolífera do Irão, uma medida que contou com amplo apoio popular e parlamentar. A nacionalização do petróleo era uma questão importante para muitos iranianos que viam a exploração petrolífera por empresas estrangeiras como uma forma de exploração e domínio estrangeiro sobre os recursos naturais do país. A decisão de nacionalizar o petróleo marcou um momento importante na história do Irão moderno, e teve repercussões significativas tanto internamente como internacionalmente.

Mossadegh, para consolidar o poder, dado não ter o apoio da oposião no parlamento, suspendeu-o, governando por decreto. Essa abordagem autocrática, que o alienou de muitos setores da sociedade iraniana, fez com que tivesse perdido o apoio de algumas facções que inicialmente o apoiaram.




Mossadegh, apesar disso, e de não ter o apoio do xá, era muito querido das massas populares. A sua posição firme em relação à nacionalização do petróleo, e a luta contra a influência britânica, granjeou-lhe um forte apoio dos iranianos que viam nele um líder nacionalista e defensor dos interesses do país. Mossadegh era visto como um político honesto e incorruptível, que lutava pelos direitos e interesses do povo iraniano. Sua popularidade era especialmente forte entre os setores mais pobres e desfavorecidos da sociedade, que viam nele um campeão da justiça social e da independência nacional. No entanto, o conflito com o xá Reza Pahlavi acabaram por levar à sua queda em 1953.

Os comunistas tentaram tomar o poder quando o 
Ayatollah Kashani afrontou Mossadegh. O governo de Mossadegh estava ameaçado por uma série de tensões políticas e confrontos entre diferentes facções: comunistas, nacionalistas e grupos religiosos. O Ayatollah Kashani, que era uma figura proeminente no cenário político e religioso do Irão, opôs-se a Mossadegh em várias questões como a sua secularização e abertura à influência comunista. O partido Tudeh, partido comunista iraniano, estava ativo e buscava aumentar a influência durante esse período de agitação política. Os comunistas viram a crise política como uma oportunidade para avançar os seus próprios objetivos, tentando capitalizar o desconforto popular. 

O conflito entre Mossadegh e Kashani, bem como outros grupos políticos e religiosos, culminou no golpe de estado de 1953, apoiado pela CIA e pelo MI6 britânico. Os ingleses e os americanos detetaram que estava em marcha um golpe orquestrado por parte dos soviéticos. Tanto os britânicos como os americanos estavam preocupados com a crescente influência comunista no Irão, e temiam que o governo de Mossadegh se tornasse uma ameaça aos interesses ocidentais na região. Além disso, havia preocupações de que a União Soviética pudesse tentar explorar a instabilidade política no Irão para aumentar a sua influência. Como resultado, os serviços de inteligência dos Estados Unidos, particularmente a CIA, e os britânicos, através do MI6, decidiram intervir no Irão para derrubar Mossadegh e restaurar o poder do xá Reza Pahlavi. 

Zahedi, um oficial iraniano ambicioso que havia sido afastado do governo por Mossadegh, foi identificado como um aliado potencial pelos serviços de inteligência ocidentais, dado o seu desejo em regressar ao poder. A CIA e o MI6 forneceram apoio financeiro e logístico a Zahedi e outros conspiradores, incluindo fundos para pagar partidários e organizar manifestações anti-Mossadegh. Zahedi desempenhou um papel importante no golpe de estado de 1953. Após o sucesso da operação, ele foi nomeado primeiro-ministro do novo governo iraniano. E o poder do xá Reza Pahlavi foi restaurado. O golpe de estado teve consequências de longo alcance para o Irão e para a região. Alterou a dinâmica política e social do país e moldou as relações entre o Irão e o Ocidente.