quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Os rios Senegal e Gâmbia na época das caravelas

 

Estamos abordando a época das caravelas, quando elas navegando e explorando a costa ocidental de África até ao golfo da Guiné davam novos mundos ao mundo. Possivelmente estou-me referindo à exploração portuguesa ao longo do rio Senegal e rio Gâmbia, onde "Bati" e "Niumi" podem ser pontos geográficos ao longo do rio da Gâmbia. Esse rio era uma rota importante durante a era das navegações das caravelas henriquinas, que depois outros exploradores europeus sulcaram em busca de novas oportunidades comerciais.

A Gâmbia, um pequeno país da África Ocidental que faz fronteira com o Senegal, tem apenas um estreito litoral na costa do Atlântico. A nação é conhecida por seus ecossistemas diversos ao redor do rio Gâmbia, que corre em seu centro. A vida selvagem é abundante, estando presente no Parque Nacional Kiang West e na Reserva Pantanosa de Bao Bolong. Ela inclui macacos, leopardos, hipopótamos, hienas e pássaros raros. A capital Banjul e a cidade vizinha de Serrekunda dão acesso a praias.



Estamos a falar do tempo de heróis lendários da navegação e cartografia - Diogo Gomes, Álvaro Fernandes de Dornelas, ou Alvise Cadamosto - os quais fizeram várias viagens à costa da África Ocidental. Álvaro Fernandes de Dornelas foi um dos capitães enviados por Dom Henrique para explorar a costa da Guiné no contexto das descobertas portuguesas. Ele é conhecido por ter participado de várias expedições ao longo da costa oeste da África, contribuindo para o conhecimento geográfico e comercial na região, muito proveitoso inicialemnte para os portugueses. A morte de Álvaro Fernandes de Dornelas, durante uma dessas expedições, é um exemplo das dificuldades e riscos enfrentados pelos exploradores marítimos dessa época.

Cadamosto faz então uma descrição relativamente correta do que se passava no interior da África e da natureza do comércio caravaneiro, o suficiente para sabermos que o conhecimento do Infante Dom Henrique da Geografia Africana naquele tempo já era substancial. Era o ouro vindo das profundezas misteriosas. O comércio era mudo quanto à troca de ouro que se fazia por sal. Por isso deu em lenda, uma lenda que de resto era muito antiga, já Heródoto falava dela. E os autores árabes continuavam pelos vistos a excitar a imaginação de quem os ouvia e lia.  A viagem prossegue, e Cadamosto chega ao rio Senegal onde habitam os negros chamados azenegues. Diz que ouviu dizer que este Rio é um dos cursos do Paraíso terrestre e que dele nasce o Nilo. Uma fantasia generalizada que demorou muito tempo a deslindar.

Alvise Cadamosto, como muitos de seus contemporâneos, tinha uma compreensão limitada da geografia africana, e havia várias concepções erróneas comuns na época. Uma dessas ideias era a crença de que o rio Senegal poderia ser uma extensão do rio Nilo, ou estar conectado a ele de alguma forma. No século XV, o conhecimento europeu sobre a geografia africana era bastante limitado. Muitos mapas e textos geográficos da época continham erros e conjecturas sobre as características e cursos dos rios africanos. A obra de Ptolomeu - "Geografia" - escrita no século II, foi uma das principais referências para os cartógrafos medievais e renascentistas. Ptolomeu descrevia o Nilo como tendo as suas fontes nas Montanhas da Lua, uma área nebulosa que muitos tentavam localizar. Durante as explorações na África Ocidental, Cadamosto navegou pelo rio Senegal e fez observações sobre a região. No entanto, ele e outros exploradores da época não tinham conhecimento preciso das bacias hidrográficas africanas. Cadamosto, como outros, pode ter sido influenciado pelas crenças de que grandes rios africanos, como o Senegal, poderiam estar conectados a sistemas fluviais maiores, como o Nilo. Eles não tinham informação precisa sobre essa geografia.



Foi somente com explorações mais detalhadas e cartografias mais precisas que essas concepções erróneas começaram a ser corrigidas. Exploradores como Mungo Park, no final do século XVIII, ajudaram a mapear a verdadeira extensão dos rios africanos, como o Níger, e a esclarecer que não havia conexão direta entre o rio Senegal e o rio Nilo. A melhoria nas técnicas de navegação e na ciência cartográfica ao longo dos séculos XVII e XVIII foi crucial para corrigir esses equívocos. Expedições terrestres e fluviais mais aprofundadas ajudaram a estabelecer uma compreensão mais precisa da hidrografia africana.

As crenças têm impactos, e as erróneas influenciavam tanto ou mais que as certas, tanto mais quando o segredo era, e sempre foi, a alma do negócio. A concorrência sempe foi tremenda. Muitos buscavam rotas fluviais que acreditavam serem atalhos para regiões ricas, mas que a maior parte das vezes eram apenas mitológicas. E à volta do mito do Preste João circulava o Nilo e a Etiópia. Tanto mais que na Etiópia havia um reino cristão cercado por um mundo islâmico. Essas concepções também alimentavam a imaginação e as narrativas sobre o continente africano, contribuindo para a rica tapeçaria de mitos e lendas sobre a geografia e os povos africanos.


Durante a Era dos Descobrimentos, a origem do ouro africano era envolvida em mistérios. A desinformação era tanto deliberada como acidental. Vários fatores contribuíram para isso. Os portugueses e outros europeus que chegaram à África estavam em intensa competição para controlar as fontes do ouro que vinha do interior das regiões subsarianas, que hoje é designado por Sahel e ainda muito dispotado por superpotências. Portanto, era crucial manter a localização exata da origem do ouro em segredo. Era uma estratégia bem gizada para desviar competidors rivais do caminho. Nos séculos XV e XVI, o conhecimento geográfico de África era limitado a muito pouca gente, e muitas vezes baseado em relatos duvidosos, num jogo do gato e do rato. Exploradores e comerciantes tinham de trabalhar as hipóteses sobre informação muito fragmentada entre marinheiros e comerciantes árabes. 

As histórias das riquezas douradas do rei Mansa Musa de Mali eram famosas. Essas lendas alimentavam a imaginação dos europeus, mas não forneciam informação precisa. Os próprios reinos africanos tinham motivos para manter a origem do ouro em segredo. Controlar o comércio do ouro era uma fonte significativa de poder e riqueza para muitos reinos e líderes africanos. Eles poderiam desinformar deliberadamente os europeus para proteger as suas fontes de riqueza. Muitos exploradores e comerciantes europeus tinham um entendimento limitado ou às vezes intencionalmente confuso sobre as rotas exatas e as origens do ouro que encontravam. 

As caravelas eram navios ágeis e manobráveis, projetados para navegação costeira e em águas interiores, como rios. Essas características permitiram aos exploradores portugueses navegar pelo rio Gâmbia e explorar o interior da África Ocidental. Diogo Gomes, em particular, é mencionado por ter subido o rio Gâmbia durante uma das suas viagens por volta de 1456. A exploração do rio Gâmbia e outras áreas ao longo da costa africana ajudou a expandir o conhecimento europeu sobre a geografia da região. É natural que uma caravela estrangeira subindo o rio Gâmbia atraísse a curiosidade do povo local. Naquela época, os encontros entre os europeus e as populações africanas eram eventos marcantes e cheios de novidades para ambos os lados. As caravelas representavam uma tecnologia naval avançada que provavelmente era desconhecida para muitas comunidades locais. A configuração e a capacidade de navegação desses navios eram impressionantes e naturalmente atraíam a atenção. As populações locais estariam interessadas nas possibilidades de comércio que os europeus poderiam oferecer. Tecidos e ferramentas de metal eram produtos de troca valiosos.

A chegada de estrangeiros com costumes diferentes, vestidos de outro tipo de roupa, seria acontecimento raro. As populações locais estariam interessadas em avaliar se os recém-chegados representavam uma ameaça ou uma oportunidade para alianças. Esse interesse estratégico era fundamental para a segurança e o bem-estar das comunidades. Os encontros proporcionavam oportunidades para trocas culturais e conhecimento mútuo. Essas interações iniciais entre os exploradores europeus e as populações africanas envolviam uma mistura de curiosidade, comércio, e naturalmente algum conflito como não podia deixar de ser. 

Em 1439, Tombuctu caiu sob o controlo dos tuaregues. Tombuctu, uma cidade histórica no Mali, era um importante centro de comércio. Fundada no século XI, Tombuctu floresceu como um ponto de encontro para comerciantes, intelectuais e viajantes, ponto nevrálgico pela sua localização estratégica nas rotas comerciais do Sahel. Os tuaregues, um povo berbere nómada do deserto do Saara, tomaram a cidade e imprimiram uma mudança significativa no controlo político da região. No entanto, não conseguiram manter a cidade por muito tempo. Em 1468, Tombuctu foi reconquistada pelo Império Songai sob o comando de Suni Ali Ber.

Esta sequência dos acontecimentos demonstra com era a natureza dinâmica da região de Tombuctu durante o período medieval. A cidade continuou a ser um centro vital de comércio e partilha de culturas e conhecimento científico, atraindo estudiosos de toda a região. Segundo os relatos de Diogo Gomes, após a sua estada em Cantor, atualmente identificada com a Ilha de Kunta Kinteh, no rio Gâmbia, retornou rio abaixo para a caravela que havia deixado em Wudi. Essas explorações foram parte dos esforços portugueses para mapear a costa da África Ocidental e estabelecer relações comerciais com os povos locais. A habilidade das caravelas em navegar nas águas rasas dos rios permitiu que exploradores portugueses penetrassem no interior africano e interagissem diretamente com as comunidades que encontravam ao longo do percurso. 

Durante as explorações de Diogo Gomes, parte da sua tripulação foi dizimada por doenças. A doença era uma ameaça constante para os marinheiros. Os europeus não estavam imunizados para as doenças tropicais que tinham de enfrentar em África, como a malária e a febre amarela. Essas doenças frequentemente afetavam gravemente os navegadores que não tinham imunidade natural. Por outro lado, as condições a bordo das caravelas eram muito insalubres, com pouco espaço, ventilação inadequada e má higiene, o que facilitava a propagação de doenças. O armazenamento inadequado de alimentos e água a bordo das embarcações podia levar à contaminação e doenças como o escorbuto, que resultava da deficiência de vitamina C. A exposição prolongada ao ambiente marítimo e a locais desconhecidos aumentava as chances de contrair doenças locais.

Além das doenças, outros desafios ambientais, como o calor intenso, a humidade e as condições climáticas adversas, também contribuíram para as dificuldades enfrentadas pelos europeus na Guiné. Esses "maus ares" foram uma explicação simplificada na época para os perigos reais e complexos que os exploradores enfrentavam. Com o tempo, medidas como o uso de quinino para tratar a malária e o desenvolvimento de estratégias de higiene e saúde pública ajudaram a mitigar esses riscos, permitindo uma presença europeia mais sustentada na região. No entanto, os desafios iniciais na zona da Guiné marcaram profundamente a história das explorações europeias na África Ocidental.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Tumultos britânicos comentados em língua de pau





Keir Starmer convocou uma reunião urgente para falar sobre os tumultos violentos que estão tomando várias cidades do país e causando centenas de prisões. Ontem, dois hotéis, usados ​​para abrigar requerentes de asilo, foram atacados.

A motivação do protesto foi o assassinato de três jovens à facada por parte de um jovem de 17 anos, mas as causas são mais profundas, relacionadas com o mal-estar social que se tem vindo a agravar devido ao imparável movimento migratório ilegal de indivíduos oriundos do Médio Oriente e África subsariana. “Seja qual for a motivação aparente, isso não é protesto. É pura violência e não toleraremos ataques a mesquitas ou às nossas comunidades muçulmanas. A força total da lei será aplicada a todos aqueles que forem identificados", declarou Starmer. Portanto, este último assassinato é mais aquela gota que transborda de um copo que já está cheio há muito.

A "língua de pau" é um termo usado para descrever um estilo de comunicação política que é altamente padronizado, vazio e repleto de clichês e jargões, sem oferecer conteúdo substancial ou respostas claras. Essa forma de comunicação é comum em discursos de políticos e comunicados oficiais, onde as palavras são cuidadosamente escolhidas para evitar controvérsias, mas acabam por não transmitir as verdadeiras questões que estão em causa. Hoje temos as redes sociais, a ampliarem ainda mais as "línguas de pau". Comentários políticos que utilizam frases feitas, slogans e retórica vazia para atrair atenção ou apoio, mas que falham em abordar questões concretas ou em apresentar argumentos bem fundamentados. Não passam da superficialidade numa espécie de espuma.
“Como Keir disse, como toda a pessoa decente disse, eles são bandidos de extrema-direita que atacaram algumas das pessoas mais vulneráveis ​​em nossas comunidades e não há absolutamente nenhuma desculpa para isso. Não há justificação para tentar queimar até à morte 200 das pessoas mais vulneráveis ​​em nossa comunidade”.
Os manifestantes são membros de um movimento político e cultural mais vasto na Europa, e que enfatiza a identidade étnica e cultural como um elemento central de sua ideologia. O movimento identitário defende a preservação das tradições, cultura e identidade étnica dos povos nativos europeus. Associado a ideologias de extrema-direita, é criticado pelo seu racismo islamofóbico. Eles rejeitam essas acusações, alegando que o que está em causa é a preservação cultural e não o ódio. O seu ideário pode ser resumido:
Preservação Cultural e Étnica: argumentam que as culturas europeias tradicionais estão ameaçadas pela globalização, imigração em massa e a erosão de valores tradicionais.

Oposição à Imigração em Massa: Eles são fortemente contra a imigração em larga escala, que consideram uma ameaça à coesão social e à identidade nacional.

Soberania Nacional: Defendem a autonomia e a soberania dos estados-nação, resistindo à influência de organizações supranacionais como a União Europeia.

Crítica ao Multiculturalismo: veem o multiculturalismo como uma ideologia que dilui as identidades culturais e promove conflitos entre diferentes grupos étnicos.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Os princípios da progressividade e da proporcionalidade para o bem-estar social em equidade



Os princípios da progressividade e da proporcionalidade são essenciais para promover o bem-estar social e a equidade. Eles garantem que a distribuição de recursos e responsabilidades seja justa e equilibrada, permitindo que todos os membros da sociedade tenham a oportunidade de prosperar. Implementar esses princípios de maneira eficaz pode levar a uma sociedade mais justa e coesa, onde o bem-estar coletivo é uma prioridade central.


Princípio da Progressividade: O princípio da progressividade refere-se à ideia de que a carga tributária deve aumentar à medida que aumenta a capacidade contributiva do contribuinte. Ou seja, quem tem mais recursos financeiros deve pagar mais impostos, não apenas em termos absolutos, mas também em termos percentuais. Um exemplo clássico é o imposto do IRS, onde as taxas aumentam conforme aumenta a faixa de rendimento do contribuinte. Outro exemplo é o do IMI, em que as propriedades de maior valor são mais taxadas. A progressividade visa à justiça fiscal e à redistribuição, garantindo que os indivíduos e empresas mais abastados contribuam de maneira proporcionalmente mais para o financiamento dos serviços públicos e o bem-estar social.

Princípio da Proporcionalidade: O princípio da proporcionalidade é um princípio geral do direito que busca assegurar que as ações dos poderes públicos sejam adequadas, necessárias e equilibradas em relação aos fins que pretendem atingir. Esse princípio tem três subprincípios: Adequação – A medida deve ser apropriada para atingir o objetivo pretendido; Necessidade – A medida deve ser necessária, ou seja, não deve haver outra menos gravosa para alcançar o mesmo objetivo; Proporcionalidade em sentido estrito – A medida deve ser equilibrada, isto é, deve haver uma relação razoável entre os benefícios esperados e os custos ou sacrifícios impostos pela medida. Na aplicação de penas, as punições devem ser proporcionais ao crime cometido. Penas excessivas ou insuficientes em relação ao delito violam esse princípio. Na imposição de sanções administrativas, como multas ou outras penalidades, deve-se observar a proporcionalidade da medida em relação à infração cometida. O princípio da proporcionalidade visa garantir que as intervenções do Estado nos direitos dos cidadãos sejam justas e equilibradas, evitando excessos e abusos de poder.

Ambos os princípios buscam justiça e equilíbrio nas ações do Estado, seja na tributação, na aplicação de penas ou na imposição de outras medidas administrativas. O princípio da progressividade assegura que a carga tributária seja distribuída de forma justa, enquanto o princípio da proporcionalidade garante que as medidas adotadas pelo Estado sejam equilibradas e razoáveis, protegendo os direitos fundamentais dos cidadãos.

A esquerda, em termos gerais, tende a apoiar políticas de progressividade, especialmente no campo fiscal e social. Apoiar a justiça social e a redistribuição de renda para criar uma sociedade mais equitativa. A esquerda geralmente defende um sistema tributário progressivo, onde os ricos pagam uma proporção maior do seu rendimento em impostos do que os pobres. O objetivo é redistribuir a riqueza e reduzir as desigualdades económicas. Por outro lado, favorece o aumento dos gastos sociais, financiados por impostos progressivos, para fornecer serviços públicos como saúde, educação e assistência social, beneficiando principalmente as classes menos favorecidas.

A direita tende a enfatizar o princípio da proporcionalidade em vários aspetos, embora isso não signifique que se oponha completamente à progressividade. Muitos na direita preferem sistemas de imposto proporcional (taxa única), onde todos pagam a mesma percentagem sobre o rendimento, argumentando que é mais justo e menos punitivo para o sucesso económico. Ao mesmo tempo a direita geralmente defende menos intervenções do Estado na economia, e acredita que os indivíduos e empresas devem ter mais liberdade para gerir os seus recursos, com o argumento que assim os recursos são mais bem geridos, com mais eficácia e eficiência. Isso promove uma maior iniciativa, logo maior produção de riqueza.

Apesar das inclinações gerais, ambos os espectros políticos reconhecem a importância do princípio da proporcionalidade, especialmente no campo legal e administrativo. Nenhum dos lados defende medidas desproporcionais que sejam excessivas ou inadequadas. A esquerda utiliza a proporcionalidade para assegurar que as medidas de justiça social sejam adequadas e não excessivas. A direita utiliza a proporcionalidade para limitar o alcance das intervenções estatais e garantir que as políticas não sobrecarreguem desnecessariamente os cidadãos ou a economia.

Em resumo, enquanto a esquerda tende a apoiar a progressividade para promover a redistribuição do rendimento e a justiça social, a direita frequentemente prefere sistemas proporcionais para incentivar a eficiência económica e limitar a intervenção estatal. Ambos, no entanto, reconhecem a importância da proporcionalidade como um princípio que garante que as políticas públicas sejam equilibradas e razoáveis.

Podemos fazer uma oposição entre marxistas e liberais, especialmente no que se refere às suas visões sobre progressividade e proporcionalidade, embora seja importante reconhecer que as categorias "marxista" e "liberal" englobam uma variedade de pensamentos e abordagens dentro de cada corrente. Marxistas defendem a redistribuição radical da riqueza e a eliminação das desigualdades económicas através de políticas fortemente progressivas. Acreditam na abolição da propriedade privada dos meios de produção, propondo a propriedade coletiva ou estatal como forma de eliminar a exploração capitalista. Defendem um Estado intervencionista que controla os principais setores da economia para garantir que os recursos sejam distribuídos de acordo com as necessidades da população.

Altas Taxas de Impostos para Ricos é um dos mantaras da esquerda. Propostas de tributação fortemente progressiva, com altos impostos sobre os ricos e grandes empresas para financiar serviços públicos e programas sociais. Para todos os efeitos, se fosse levado à letra, rapidamente deixaria de haver ricos, o que eliminaria a sua razão de ser.

Os Liberais clássicos (ou neoliberais) acreditam na eficiência dos mercados livres e na mínima intervenção do Estado na economia. Defendem fortemente a propriedade privada e o direito dos indivíduos de acumular e gerir a sua riqueza. Proposta de um Estado mínimo, limitado às funções essenciais como segurança, justiça e infraestrutura básica.

Impostos Proporcionais ou Flat Tax: Tendem a preferir sistemas de impostos proporcionais ou taxas fixas (flat tax), onde todos pagam a mesma percentagem de imposto sobre o rendimento. argumentando que isso é mais justo e menos extorsionário. Apoiam a redução de impostos para incentivar o investimento, a inovação e o crescimento económico.

Marxistas veem a redistribuição da riqueza como essencial para a justiça social, enquanto liberais acreditam que a acumulação de capital e a liberdade econômica promovem o crescimento e a prosperidade geral. Marxistas defendem um papel central do Estado na economia, enquanto liberais defendem a mínima intervenção estatal e a liberdade dos mercados. Marxistas favorecem a progressividade fiscal para reduzir desigualdades, enquanto liberais muitas vezes preferem a proporcionalidade (ou uma menor progressividade) para evitar desincentivos económicos e promover a eficiência. A oposição entre marxistas e liberais pode ser claramente delineada em termos de suas abordagens à progressividade e proporcionalidade, refletindo suas visões divergentes sobre a economia, o papel do Estado e a justiça social. Marxistas defendem uma intervenção estatal significativa e políticas progressivas para redistribuir a riqueza e eliminar a desigualdade, enquanto liberais promovem a liberdade económica, a propriedade privada e um Estado limitado, preferindo abordagens mais proporcionais na tributação.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Diogo Gomes

 

Monumento a Diogo Gomes - Praia, Cabo Verde

Diogo Gomes (c.1420 – c.1500) foi um navegador, explorador e escritor português do tempo do Infante D. Henrique. Suas memórias foram ditadas no final de sua vida a Martin Behaim. Embora às vezes inconsistente, é uma das principais fontes da historiografia dos Descobrimentos. Ele explorou e subiu o rio Gâmbia, na África Ocidental, e descobriu algumas das ilhas de Cabo Verde.

Provavelmente natural de Lagos, começou como pajem na casa do Infante D. Henrique e, posteriormente, ascendeu ao posto de cavaleiro em 1440. Diogo Gomes participou na incursão de 1445 nas margens do Arguin, liderada pelo Lançarote de Freitas, na captura de indígenas para o tráfico de escravos.

Por volta de 1456, foi enviado por Dom Henrique ao comando de três navios na costa da África Ocidental. Gomes afirma que estava acompanhado de Jacó, um intérprete mal conhecido. Entrou no rio Gâmbia e subiu a uma distância considerável, cerca de 50 léguas (250 milhas), chegando até à grande cidade mercantil de Cantor, um entreposto do comércio de ouro do Mali. É provável que Alvise Cadamosto também tivesse navegado por aqui com sucesso nesse mesmo ano. Em Cantor, Gomes colheu muitas informações sobre as minas de ouro e os padrões comerciais do alto Senegal e do alto Níger, das cidades de Kukia e Tombuctu e das rotas comerciais através do Sara que se estendiam até à costa marroquina.

Região já fortemente islamizada, há a referência a um chefe chamado Numimansa que aderiu ao cristianismo. Era o cacique dos Nomi Bato, e pode ter sido o mesmo chefe responsável pelas mortes dos exploradores anteriores onde estava Nuno Tristão em c.1447. Os Nomi Bato são provavelmente ancestrais do atual povo Niominka do delta do rio Saloum, e embora atualmente classificados como uma tribo Serer, provavelmente eram de origem Mandinka, nessa época.

Após a morte do Infante Dom Henrique, em 1460, Diogo Gomes retirou-se da exploração ativa e prosseguiu uma carreira com o sobrinho e herdeiro de Henrique, Fernando de Viseu, e a corte real. Em 1463, foi nomeado escudeiro do rei Afonso V de Portugal. Em 1466, assegurou uma generosa pensão de 4.800 reais, à qual foram anexadas funções de magistrado em Sintra (juiz das cousas e feitorias contadas de Sintra). Em data incerta, foi também nomeado magistrado nas proximidades de Colares. A data de sua morte é incerta, embora alguns a datem de 1485. O historiador Peter Russell sugere que ele viveu até pelo menos 1499. Há a confirmação de que ele certamente estava morto em 1502, a partir do registo de uma indulgência para a sua alma paga pela viúva.

Já em idade avançada, Diogo Gomes ditou oralmente as suas memórias ao cartógrafo alemão Martin Behaim durante a sua estada em Portugal. A data é incerta, mas provavelmente ocorreu pouco antes de sua morte. O historiador Peter Russell data a entrevista por volta de 1499, já que o relato se refere à morte de António de Noli, ocorrida nessa data. É provável que Gomes tenha ditado em português através de um intérprete, e Behaim o tenha escrito em latim (ou, alternativamente, em alemão, e só depois transcrito para o latim). As memórias resultantes, sob o título De prima inuentione Guineae (Da primeira descoberta da Guiné), são o único manuscrito contemporâneo sobrevivente, fora da crónica oficial de Gomes Eanes de Zurara o qual dá um relato cronológico de todas as descobertas henriquinas. O manuscrito tem duas outras partes, De insulis primo inventis in mare Occidentis (um relato das Ilhas Canárias e da Madeira) e De inventione insularum de Açores (contendo o único registo detalhado da descoberta portuguesa das ilhas dos Açores).


As memórias são notáveis por iluminar o caráter e o propósito do Infante Dom Henrique, atribuindo ao príncipe um deliberado propósito científico e comercial na exploração. Gomes observa que Henrique enviou suas caravelas para procurar novas terras (ad quaerendas terras) a partir de seu desejo de conhecer as partes mais distantes do oceano ocidental, e na esperança de encontrar ilhas ou terra firme além dos limites estabelecidos por Ptolomeu (ultra descriptionem Tolomei); por outro lado, suas informações sobre o comércio nativo de Túnis para Tombuctu e a Gâmbia ajudaram a inspirar a sua persistente exploração da costa da África Ocidental para buscar essas terras por meio do mar. Na época da primeira viagem de Gomes, Henrique mantinha correspondência com um mercador de Orã, que o mantinha informado sobre os acontecimentos até mesmo no interior da Gâmbia; e, antes da descoberta do Senegal e de Cabo Verde, em 1445, Gomes afirma que o Príncipe Real já havia obtido informações confiáveis da rota para Tombuctu. Gomes faz um relato comovente da última doença e morte do Príncipe Henrique.


Duarte Pacheco Pereira, outro importante explorador e navegador português do final do século XV e início do século XVI, mencionou em suas obras o "grande comércio" na costa africana. Este comércio refere-se ao florescimento das atividades comerciais entre os europeus e os povos africanos, principalmente no contexto do tráfico de escravos, ouro, marfim, e outros bens valiosos. Pacheco Pereira, em sua obra "Esmeraldo de Situ Orbis" (escrita por volta de 1505-1508), descreve detalhadamente as riquezas da costa africana e a importância estratégica das várias rotas comerciais que os portugueses estavam explorando e estabelecendo.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

O mapa de Fra Mauro e a Confederação Aq-Quyunlu





O mapa de Fra Mauro é um mapa da autoria de um monge veneziano - Fra Mauro - datado entre 1457 e 1459. É
 uma representação do mundo que era conhecido até à data em que foi feito. Com quase 180 cm de diâmetro, foi pintado em pergaminho e colado em painéis de madeira. É um dos mais famosos mapa-múndi da Idade Média. É um detalhe da Europa, África e da Ásia, em que o Japão aparece representado. Hoje, o mapa de Fra Mauro é valorizado tanto por seu valor histórico quanto artístico, preservado na Biblioteca Marciana em Veneza. A Europa é mostrada com razoável precisão para a época, incluindo detalhes sobre cidades e estados importantes. E a Ásia é descrita extensivamente, refletindo as influências das viagens de exploradores e mercadores. A África é representada com informações surpreendentemente precisas sobre a costa oriental e interior, sugerindo fontes detalhadas e relatos de viajantes. Ele representa o conhecimento geográfico antes das grandes explorações encetadas pelos europeus sob a encomenda do português Infante Dom Henrique. O mapa de Fra Mauro é considerado uma obra prima da cartografia, continuando ainda a ser objeto de estudo e admiração por historiadores e entusiastas da cartografia.

Frei Mauro nasceu por volta de 1400, e aparece registado no Mosteiro de São Miguel com a data de 1409. Em sua juventude, Mauro havia viajado pelo Oriente como comerciante, e depois como soldado. Como membro leigo do mosteiro, Mauro foi contratado como cartógrafo. Nos registos do mosteiro o seu principal trabalho foi registado como coletor das rendas do mosteiro, mas a partir da década de 1450 ele também é mencionado como o criador de uma série de mapas-múndi. Embora não estivesse mais livre para viajar, devido ao seu estatuto religioso, ele frequentemente consultava os mercadores da cidade quando regressavam das suas viagens. O seu grande mapa-múndi inclui extensos comentários que acrescentam ainda mais conhecimento geográfico. 

Diferente dos mapas modernos, o mapa de Fra Mauro é orientado com o Sul no topo. O mapa é altamente detalhado, com descrições textuais em latim e italiano, ilustrando terras, cidades, rios, montanhas e outros detalhes geográficos. Ele reflete tanto a tradição cartográfica europeia como as influências islâmicas e asiáticas, demonstrando a troca de conhecimento entre diferentes culturas. O mapa, com a sua forma circular, é centrado no Oceano Índico. Fra Mauro parece ter utilizado relatos de vários viajantes, inclusivamete os de Marco Polo. 

Hulegu Khan [1217-1265] neto de Genghis Khan, liderou uma expedição que resultou na queda do Califado Abássida em 1258, marcando o fim de um dos califados islâmicos mais influentes. Ele fundou o Ilcanato na região da Pérsia, estabelecendo um novo poder mongol no Médio Oriente. O Califado Abássida, que teve a capital em Bagdad, foi um importante centro de poder e cultura islâmica antes de ser destruído pelos mongóis. 

No mapa de Fra Mauro, Tamerlão é frequentemente mencionado devido à sua reputação como um dos grandes conquistadores de seu tempo. Suas campanhas militares e a fundação de um império significativo eram temas de grande interesse para os europeus. As menções a Tamerlão também indicam o impacto de seu império nas rotas comerciais e nas interações culturais entre o Oriente e o Ocidente. O controlo de Tamerlão sobre importantes centros comerciais influenciou o fluxo de mercadorias e conhecimentos entre a Ásia e a Europa. Tamerlão, ou Timur, foi um conquistador turco-mongol do século XIV que fundou o Império Timúrida na Pérsia e na Ásia Central. A sua presença marcante nas legendas do mapa de Fra Mauro reflete a sua enorme influência e o impacto de suas conquistas na geopolítica e nas perceções europeias da época. O mapa menciona várias regiões e cidades associadas a Tamerlão e seu império, refletindo a extensão de seu domínio. Isso inclui áreas da Ásia Central, Pérsia e partes da Índia.

Quando Tamerlão [1336-1405] começou as suas campanhas na região, ele enfrentou os Kara Koyunlu em várias batalhas. Em 1400, Tamerlão invadiu o território dos Kara Koyunlu e capturou Van, a capital, após derrotar o seu líder, Kara Yusuf. Como resultado, os Kara Koyunlu foram forçados a se submeter temporariamente à autoridade de Tamerlão. Kara Yusuf fugiu para o Egito, onde recebeu refúgio dos mamelucos. Após a morte de Tamerlão em 1405, a confederação Kara Koyunlu recuperou o poder. Kara Yusuf voltou e, em 1406, retomou o controlo da situação derrotando os governantes locais que haviam sido instalados por Tamerlão. Sob a liderança de Kara Yusuf e, posteriormente, de seu filho Jahan Shah, os Kara Koyunlu conseguiram expandir o seu domínio, estabelecendo um forte estado que controlava partes significativas do Irão, Azerbaijão e o leste da Anatólia.

Uthman Beg, ou Osman Beg, também conhecido como Qara Yuluk Uthman, [1356-1435] foi um líder importante da confederação tribal Aq-Qoyunlu que desempenhou um papel crucial na consolidação e expansão do poder dos Aq Qoyunlu durante o século XV. Usman Beg assumiu a liderança dos Aq Qoyunlu após a morte de seu pai, Fakhr al-Din Qutlu Beg. Sob sua liderança, os Aq Qoyunlu se tornaram uma força política e militar significativa na região. Usman Beg teve que lidar com a ameaça representada por Tamerlão. Embora tenha sido forçado a reconhecer a autoridade de Tamerlão temporariamente, ele continuou a fortalecer a sua posição e a expandir o controlo territorial sempre que possível. A sua habilidade em manter o controlo e resistir à completa submissão a Tamerlão ajudou a preservar a autonomia dos Aq Qoyunlu durante este período turbulento. Usman Beg é lembrado pelo seu papel na transformação dos Aq Qoyunlu, uma confederação tribal, numa entidade política mais estruturada e poderosa.



Confederação Aq-Quyunlu - [1378 - 1501]

As tribos Aq-Quyunlu (também conhecida como Turcomanos da Ovelha Branca) e Qara-Quyunlu (Turcomanos da Ovelha Negra) foram duas confederações tribais turcomanas que dominaram partes significativas do Médio Oriente entre os séculos XIV e XV, após a queda do Califado Abássida e do Ilcanato. Os Turcomanos da Ovelha Negra, em 1375, fundaram o seu estado com a capital em Tabriz, no atual Irão. Governaram uma área que incluía partes do atual Irão, Azerbaijão, Arménia e Iraque. O líder mais notável foi Jahan Shah, que expandiu o território do Qara-Quyunlu. Em 1467 foi derrotado por Uzun Hasan dos Aq-Quyunlu

Os Turcomanos da Ovelha Branca, surgiram como uma potência dominante na região logo após o declínio dos Qara-Quyunlu (Ovelha Negra). O seu domínio começou a se expandir significativamente sob o governo de Uzun Hasan no século XV. Conquistaram os territórios do Qara-Quyunlu e estabeleceram um império que incluía partes do atual Irão, Turquia e Iraque. O governo dos Aq-Quyunlu foi marcado por conflitos contínuos com outras potências regionais, incluindo os otomanos e os safávidas. Essas duas tribos jogaram um papel crucial na história do Médio Oriente durante esse período de transição, após o fim do domínio mongol e antes do estabelecimento de estados mais centralizados, como o Império Safávida e o Império Otomano.

domingo, 28 de julho de 2024

Populismo


Populismo é um termo que se refere a um estilo de política que visa mobilizar as massas e apelar diretamente aos interesses e sentimentos do "povo" contra uma elite percebida. Este conceito pode ser aplicado a uma variedade de contextos e ideologias políticas, tanto de esquerda quanto de direita. O populismo de direita enfatiza o nacionalismo, a identidade cultural e a segurança, em que Donald Trump ou Marine Le Pen são exemplos atuais. O populismo de esquerda foca em questões de justiça social, desigualdade económica e distribuição de riqueza exemplificado pela Venezuela de Nicolás Maduro.

Os líderes populistas geralmente se apresentam como defensores do povo comum, em contraste com uma elite corrupta e distante. O "povo" é frequentemente retratado como homogéneo e virtuoso. O alvo da crítica é a elite política, económica ou intelectual, acusada de ser responsável pelos problemas do país e de estar desconectada das necessidades e desejos do povo.

O populismo frequentemente se centra em torno de um líder carismático que é visto como a personificação dos interesses do povo e que promete resolver os problemas do país de maneira direta e eficaz. A comunicação populista tende a ser simplificada e direta, utilizando uma linguagem acessível e emocional para conectar-se com as massas. Populistas costumam acentuar a divisão entre o povo e a elite, criando uma narrativa de "nós contra eles" que polariza a sociedade. O populismo pode levar ao autoritarismo, já que líderes populistas frequentemente tentam concentrar poder em suas próprias mãos e enfraquecer os mecanismos de controlo e equilíbrio.




As eleições de hoje na Venezuela, 28 de julho de 2024, estão a destacar-se das anteriores pelo tom agressivo adotado recentemente pelo Presidente chavista. “Na semana passada, ouviam-se muitas propagandas na rádio, em que o tom dele era muito conciliador. Dizia que amava o seu país, o seu povo, que daria a vida por ele. Agora, nos últimos dias, realmente mudou”. Durante um comício, o chefe de Estado venezuelano avisou que se a população quiser evitar que “a Venezuela caia num banho de sangue, numa guerra civil fratricida, produto dos fascistas”, terá de garantir-lhe “a maior vitória da história eleitoral” do país. Maduro sucedeu a Hugo Chávez, de quem era vice-presidente, após a morte deste último, em 2013. Chávez governava desde 1999. “Já não gera o receio que gerava há uns anos. Algumas pessoas podem ficar coagidas por essas declarações, mas penso que estão tão fartas do regime que se perpetua já por mais de 25 anos, que não estão a ligar demasiado a estas ameaças”, afirma Andreina Pereira, a respeito das proclamações de Maduro.

Não é possível entender o populismo sem entender a soberania popular. Ou seja, a história do populismo está intimamente ligada à história da soberania popular e à ideia de que a soberania pertence ao povo. Mas também não se pode esquecer que é de onde provém a desordem e o caos nas revoluções, a partir de baixo. Por isso, é à elite que está reservado o papel do demagogo, que tem como papel controlar a turba a partir de cima.

Na Grécia Antiga o Demagogo, como guia do povo, era visto como perigoso para o “bom governo” e para os interesses das elites, sempre receosas da instabilidade das massas. Elas tinham de ser controladas a partir “de cima” e não manipuladas “por baixo”. A crítica aos demagogos era uma crítica aristocrática.

A democracia do pós-guerra, por causa da experiência totalitária, é uma democracia especial. É aquilo que se chama de “democracia constrangida”, com os poderes separados, com pesos e contrapesos, em que os tribunais escapam ao controlo popular. E é uma democracia que modera a excessiva soberania popular quando esta tem a ideia de governos populares. São democracias controladas por elites.

Os populistas são gente das elites enraizadas nos lugares em sintonia com o povo, que se opõem às atuais elites desenraizadas que são os agentes da globalização. A tendência de fundo dos populismos é a de sempre falar em nome do povo soberano. Em Portugal existe uma crise de confiança nas instituições – no parlamento e nos partidos políticos. Existe muito a ideia de que a democracia portuguesa é, sobretudo, um feudo de partidos – partidos-carteis que colonizam o Estado e a administração pública. No fundo, a ideia de que a partidocracia serve “os de cima” contra os interesses dos “de baixo”. E depois há casos sem fim de promiscuidade do mundo político e do mundo financeiro, e os casos de corrupção que envolvem políticos e até altas figuras do Estado. Episódios que só minam a confiança das pessoas nas elites que nos governam.

Mas para além das razões que alimentam os populismos de protesto existem os populismos identitários de defesa do povo numa vertente mais histórico-cultural e étnica. Essas razões estão ligadas às mudanças demográficas no país, com a adoção do multiculturalismo como modelo de sociedade, com o aumento quer de populações de origem imigrante quer de novos imigrantes, assim como mudanças profundas da lei da nacionalidade e o aumento exponencial do número de novos portugueses. Portugal tem longas filas de espera nos serviços de registo e notariado incapazes de gerir tantos pedidos de nacionalização. Sem surpresa, Portugal subiu ao topo dos países europeus que mais concedem a nacionalidade por naturalização.

Numa nação as comunidades são de cultura. Existe uma dimensão cultural, emocional, ontológica até, e mais ampla e profunda do que um simples papel. Essa dimensão tem a ver com a ligação passado-presente-futuro, com a transmissão geracional, com a memória coletiva e tradições. Enfim, com a ideia e o sentimento de que fazemos parte de uma corrente.

Ora, a consequência maior da liberalização acentuada da nossa lei da nacionalidade é esta: Portugal está a ir demasiado na direção legal (a ligação à nação apenas através de um documento) e a afastar-se demasiado da direção cultural. Seremos ingénuos se pensarmos que esta viragem, a médio e a longo prazo, não tem potenciais consequências negativas para a coesão social, comunitária e nacional. Sobretudo nos últimos anos, tem havido um claro desleixo e leviandade na abordagem deste tema por parte dos nossos dirigentes políticos. Repare-se como Portugal, ao contrário de outros países europeus, nem sequer testes de cidadania tem. A ligação efetiva à comunidade nacional tem sido cada vez mais descurada.

A menos que partamos do princípio de que Portugal é uma terra mágica imune a problemas que outros países europeus sentem, em termos de convivência entre diferentes populações dentro do seu território, teremos que admitir a possibilidade no futuro, numa sociedade cada vez mais tribalizada entre diferentes comunidades, com as suas identidades e reivindicações, do crescimento de populismos identitários de defesa do povo português como entidade física e enraizada. Não há em Portugal um debate sobre este assunto. Nos meios urbanos, políticos e mediáticos, os custos de se falar em assuntos desconfortáveis excedem os benefícios – e a maior parte das pessoas quer ter uma vida quieta. A maior parte das pessoas não quer ter uma vida de inquietações. Mas mais cedo ou mais tarde, a realidade impõe-se ao desconforto de se falar nela.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Os Identitários




A Nova Direita Identitária é um termo utilizado para descrever um conjunto de movimentos políticos contemporâneos que emergiram no final do século XX e início do século XXI, geralmente caracterizados por sua oposição ao status quo político e social estabelecido. Embora suas características variem conforme o contexto nacional, alguns traços comuns podem ser observados: nacionalismo e populismo; ceticismo em relação à globalização; posturas conservadoras; críticas ao multiculturalismo; manipulação da informação nas redes sociais.

A Nova Direita frequentemente enfatiza o nacionalismo e adota uma retórica populista, opondo-se às elites políticas e defendendo os interesses do "povo comum". Há uma forte crítica à globalização económica e cultural, que é vista como prejudicial às identidades e economias nacionais. A Nova Direita promove valores conservadores em questões sociais, como a religião e a família tradicional. A Nova Direita tende a se opor ao multiculturalismo, argumentando que ele enfraquece a coesão social e a identidade nacional. Esses movimentos utilizam extensivamente as redes sociais para mobilização, divulgação de suas ideias e combate ao que chamam de mainstream.

Recentemente, na sequência das últimas eleições para o Parlamento Europeu, a extrema-direita reagrupou-se de uma nova forma com o Patriotas pela Europa - passando a constutuir o teceiro maior agrupamento da 10ª Legislatura do Parlamento Europeu. É um grupo político populista de direita e soberanista, que foi anunciado numa conferência de imprensa em Viena, em 30 de junho de 2024 pelo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán (Fidesz), pelo antigo primeiro-ministro checo Andrej Babiš, e o ex-ministro do Interior da Áustria, Herbert Kickl e pelo eurodeputado Harald Vilimsky (ambos do Partido da Liberdade da Áustria). O grupo inclui quase todos os ex-membros do Partido Europeu Identidade e Democracia.

Exemplo de outros partidos que se podem incluir sob o guarda-chuva da Nova Direita, que são também designados pelo termo “Identitários”, incluem o atual Rassemblement National na França, a Liga na Itália, o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) e o movimento MAGA nos Estados Unidos, associado a Donald Trump. Esses grupos têm ganhado influência política significativa, refletindo uma reação às mudanças sociais e económicas dos últimos anos. Por conseguinte, os Identitários são um movimento político que faz parte da Nova Direita, com raízes na Europa, particularmente na França, onde surgiu o movimento Génération Identitaire. Eles são conhecidos por suas posições em defesa da identidade étnica e cultural europeia, pela oposição à imigração em massa, e oposição ao multiculturalismo. As principais características dos Identitários incluem: Defesa da Identidade Étnica e Cultural; Anti-Islamismo; Nacionalismo; Rejeição ao Multiculturalismo; Ações Militantes e Simbólicas; Uso Eficaz das Redes Sociais.

Os Identitários promovem a preservação das identidades culturais e étnicas dos povos europeus, argumentando que a imigração em massa ameaça essas identidades. Frequentemente se opõem ao islamismo, vendo-o como uma ameaça à cultura e valores europeus. Advogam por políticas nacionalistas que enfatizam a soberania nacional e a preservação das culturas nacionais. Criticam o multiculturalismo como uma ideologia que dilui as identidades culturais e étnicas, promovendo a assimilação de imigrantes ao invés da integração harmoniosa. Os Identitários realizam protestos simbólicos e campanhas mediáticas para chamar a atenção para as suas causas. Por exemplo, ocupações de mesquitas ou bloqueios de fronteiras para protestar contra a imigração. Assim como outros grupos da Nova Direita, os Identitários utilizam as redes sociais para organizar eventos, disseminar sua mensagem e recrutar novos membros. O movimento Identitário
espalhou-se para outros países europeus e, em menor medida, para outras partes do mundo, adaptando suas mensagens ao contexto local. Eles atraem principalmente jovens que estão insatisfeitos com o status quo político buscando uma identidade clara e um forte sentido de pertença.

Nova Direita busca oferecer uma alternativa ao liberalismo e ao socialismo tradicionais, propondo uma visão de mundo baseada na preservação das identidades culturais e na crítica às forças uniformizadoras da modernidade e da globalização. Há algumas áreas de coincidência entre as ideias da Nova Direita e as "posições defendidas por alguns dos Partidos Comunistas europeus contemporâneos". No entanto não se devem confundir as suas motivações e fundamentos ideológicos. Tanto a Nova Direita como muitos Partidos Comunistas criticam a globalização económica e o neoliberalismo. Ambos veem a globalização como um fenómeno que favorece grandes corporações e elites financeiras à custa dos trabalhadores e das comunidades locais. É comum a crítica ao poder das multinacionais e à destruição das economias locais. Ambos defendem a soberania nacional. 

Os partidos comunistas frequentemente argumentam que a soberania nacional é essencial para proteger os trabalhadores. A proteção das identidades culturais e a resistência à hegemonia cultural do capitalismo fast food norte-americano é essencial. Portanto, Nova Direita e Partidos Comunistas são críticos do liberalismo político e económico. Existe uma valorização das comunidades locais e da descentralização do poder, mas enquanto para a Nova Direita isso está ligado à preservação das culturas locais, para os partidos comunistas a questão está na organização das bases e no empoderamento dos trabalhadores. No entanto, é importante destacar que essas coincidências são mais superficiais do que profundas. As bases ideológicas e os objetivos finais dos dois grupos são bastante divergentes nas suas bases ideológicas e nos seus objetivos finais. 

Por outro lado, não devemos confundir os Partidos Comunistas com o partido de Jean-Luc Mélenchon - La France Insoumise. Este uma posição política distinta que pode ser interpretada de várias maneiras, mas é importante destacar alguns pontos para uma compreensão precisa. Embora La France Insoumise tenha elementos antiautoritários e críticas à centralização do poder, eles não se identificam como anarquistas. O movimento busca uma transformação democrática e social dentro do sistema, ao invés de uma abolição total do Estado, como os anarquistas tradicionalmente defendem. Mélenchon e seu partido promovem a ideia de uma "Revolução Cidadã", que envolve formas mais participativas e diretas de democracia. Isso inclui referendos, assembleias populares e maior poder de decisão para os cidadãos, mas ainda dentro de um quadro institucional. 

Há críticas e controvérsias associadas a alguns membros do partido e suas declarações sobre Israel e o sionismo, que alguns críticos interpretam como antissemitas. Mélenchon e seu partido argumentam que suas críticas são direcionadas à política do Estado de Israel e não aos judeus como grupo religioso ou étnico. La France Insoumise apoia os direitos dos palestinos e critica as políticas do governo de Benjamin Netanyahu. Isso tem levado a tensões com grupos pró-Israel, mas eles insistem que essa posição é uma questão de direitos humanos e justiça internacional. 

O partido de Mélenchon é geralmente classificado como de esquerda radical, com uma plataforma que inclui redistribuição de renda, proteção ambiental, redução da jornada de trabalho, aumento dos direitos dos trabalhadores e reforma das instituições democráticas. Mélenchon é crítico das políticas neoliberais da União Europeia, mas não é um nacionalista no sentido tradicional. Ele advoga por uma Europa dos povos e por políticas que devolvam a soberania aos estados-membros sem romper completamente com a UE. La France Insoumise é um partido complexo, com influências de várias tradições da esquerda, incluindo o socialismo democrático e o ecossocialismo. A sua postura contra o antissemitismo é clara, embora as suas críticas a Israel possam ser controversas. Sua ênfase em formas participativas de democracia distingue-se do anarquismo clássico, posicionando-se mais como uma força reformista radical dentro do sistema democrático.

Nova Direita frequentemente vê o Islão como uma ameaça à identidade cultural e aos valores europeus. Essa crítica se manifesta tanto em termos culturais como políticos, com uma forte oposição à imigração muçulmana. Muitos na Nova Direita consideram o islamismo um inimigo civilizacional que deve ser combatido para preservar a cultura e os valores ocidentais. Essa visão é frequentemente articulada em termos de um choque de civilizações. Ao passo que os partidos comunistas europeus, de modo geral, tendem a adotar uma posição neutra ou até de apoio em relação ao Islão e aos muçulmanos, especialmente no contexto da imigração. Os comunistas veem os trabalhadores muçulmanos como parte do proletariado global, que se deve unir na luta contra o capitalismo. Assim, os comunistas enfatizam a solidariedade de classe acima das divisões religiosas e culturais. Os partidos comunistas geralmente se posicionam contra qualquer forma de discriminação religiosa e racial, opõem-se à islamofobia, vendo isso como uma estratégia das elites para dividir a classe trabalhadora.

 A Nova Direita é movida por uma preocupação com a preservação da identidade cultural e étnica, enquanto os comunistas se focam nas lutas económicas e sociais, com menos ênfase nas identidades culturais e religiosas. É nacionalista, preocupada com a soberania nacional e a identidade cultural específica, enquanto os comunistas são internacionalistas, preocupados com a união dos trabalhadores de todas as nações contra o capitalismo. A Nova Direita frequentemente advoga por políticas de imigração restritivas, especialmente em relação a imigrantes muçulmanos, enquanto os partidos comunistas geralmente defendem políticas de imigração mais abertas e a proteção dos direitos dos imigrantes. O discurso da Nova Direita tende a incluir retórica anti-islâmica, enquanto os partidos comunistas se focam em temas de justiça social e económica, evitando ou condenando retóricas que possam ser vistas como islamofóbicas. Essas diferenças refletem as distintas prioridades e fundamentos ideológicos de cada grupo, apesar de algumas coincidências superficiais em suas críticas à globalização e ao neoliberalismo.

Alain de Benoist é um filósofo e escritor francês, frequentemente associado à Nouvelle Droite (Nova Direita na França). Suas ideias são complexas e abrangem várias áreas da política, filosofia e cultura. Algumas das principais ideias de Alain de Benoist incluem: Crítica à Modernidade e ao Liberalismo; Identidade e Comunidade; Crítica à Globalização. Benoist é crítico da modernidade, especialmente do liberalismo económico e político, que ele vê como promotores de uma cultura homogénea e consumista que destrói as identidades culturais. Ele argumenta que o liberalismo leva à atomização social, à perda de coesão comunitária e à dominação do mercado sobre todas as esferas da vida. Benoist defende a importância das identidades culturais e étnicas, argumentando que a diversidade cultural é uma riqueza que deve ser preservada. Promove uma visão comunitarista da sociedade, onde as comunidades locais e regionais têm um papel central na vida social e política. É um crítico feroz da globalização, que considera uma força destrutiva para as culturas locais e a soberania nacional. A globalização, na visão de Benoist, promove um mundo unidimensional dominado por valores mercantilistas e pela hegemonia cultural ocidental, especialmente americana. 


Benoist opõe-se ao multiculturalismo de Estado e à imigração em massa, argumentando que eles ameaçam a coesão social e a identidade cultural dos países europeus. Defende políticas que promovam a integração dos imigrantes nas culturas locais em vez de promover a coexistência de múltiplas culturas dentro de um mesmo território. Mostra interesse em reviver tradições pagãs e pré-cristãs da Europa, como uma forma de resistir ao que ele vê como a homogeneização cultural imposta pelo cristianismo e pela modernidade. Advoga por uma sociedade secular onde a religião não domine a esfera pública, mas as tradições culturais podem ser celebradas e mantidas. Propõe a substituição da democracia representativa por formas de democracia direta e participativa, onde os cidadãos têm um papel mais ativo na tomada de decisões. Benoist também defende um federalismo integral, onde as regiões têm maior autonomia e poder em relação ao governo central, permitindo uma governança mais próxima das necessidades e desejos das comunidades locais.

Alain de Benoist baseia as suas ideias em um conjunto de valores culturais e identitários que rejeitam o igualitarismo universalista. Ele é fortemente influenciado pelo comunitarismo e pelo paganismo europeu. Os partidos comunistas, por outro lado, são fundamentados no marxismo, que promove o internacionalismo proletário, a abolição das classes sociais e a luta contra o capitalismo. Benoist visa a preservação das identidades culturais europeias e a resistência à homogeneização cultural. Os comunistas buscam a revolução socialista, a abolição da propriedade privada dos meios de produção, e a construção de uma sociedade sem classes. Embora haja pontos de interseção nas críticas à globalização e ao neoliberalismo, as diferenças fundamentais em termos de ideologia e objetivos fazem com que as semelhanças entre Alain de Benoist e os partidos comunistas europeus sejam limitadas e contextuais. Por isso também há diferenças significativas entre a Nova Direita, representada por figuras como Alain de Benoist, e os partidos comunistas europeus.

Guillaume Faye foi um escritor e teórico francês conhecido por suas ideias e publicações sobre temas como identidade europeia, etnopluralismo, e o futuro da Europa. Nascido em 7 de novembro de 1949 e falecido em 6 de março de 2019, Faye foi uma figura controversa associada a movimentos da Nova Direita europeia e fundador da Nouvelle Droite na França.

Um cartaz polaco contra o multiculturalismo, citando Guillaume Faye e seu conceito de "etnomasoquismo".

Faye defendia a preservação da identidade cultural e étnica europeia contra o que ele via como ameaças, incluindo imigração em massa e globalização. Ele promoveu a ideia de etnopluralismo, que sugere que diferentes grupos étnicos e culturais devem ser preservados, mas que devem viver separados para evitar conflitos e preservar suas respetivas identidades. Faye alertou sobre o que ele chamava de "islamização" da Europa, afirmando que a imigração de países muçulmanos poderia transformar significativamente a demografia e a cultura europeias. Entre suas obras mais conhecidas estão "L'Archéofuturisme" (1998) e "La Colonisation de l'Europe" (2000), nas quais expõe suas visões sobre o futuro da Europa e os desafios que ela enfrenta. Faye foi uma figura polarizadora, acusado por críticos de promover ideias racistas e xenófobas. Seus seguidores, no entanto, o consideram um pensador visionário preocupado com a sobrevivência cultural e demográfica da Europa. Guillaume Faye é um exemplo de um pensador cuja obra suscita debates intensos sobre identidade, cultura e política na Europa contemporânea.

Pierre Vial, nascido em 25 de dezembro de 1942, é uma figura destacada nos círculos nacionalistas franceses e europeus. É historiador e medievalista, tendo lecionado em universidades francesas. Sua formação académica deu-lhe uma base sólida para seus escritos e ideias sobre identidade cultural e história europeia. Ele é um dos fundadores do movimento GRECE (Groupement de Recherche et d'Études pour la Civilisation Européenne), uma organização influente da Nova Direita fundada em 1968, que promove uma visão europeísta e etnopluralista da civilização. Vial defende a preservação das identidades culturais e étnicas europeias, argumentando contra a globalização e a imigração em massa. 

Pierre Vial em 2012

Pierre Vial acredita que cada grupo étnico deve preservar sua identidade e viver em seu próprio espaço cultural. Tal como Guillaume Faye, Vial promove a ideia de etnopluralismo, que sustenta que diferentes culturas e etnias devem coexistir separadamente para evitar conflitos e preservar suas respectivas identidades. Vial é associado a várias publicações e organizações de direita e nacionalistas na França. Ele tem escrito extensivamente sobre história europeia, identidade cultural e política. Como outros intelectuais da Nova Direita, Vial é uma figura controversa, acusado por críticos de promover ideias xenófobas e racistas. Seus apoiantes, no entanto, veem suas ideias como uma defesa necessária da identidade e cultura europeias. Pierre Vial continua a ser uma figura influente e polarizadora no panorama político e intelectual europeu, especialmente entre aqueles preocupados com questões de identidade cultural e demográfica.

Terre et Peuple (T&P ou TP) é um grupo de identidade fundada em novembro de 1994 pelo historiador medieval Pierre Vial, uma antiga figura da GRÉCIA4 e ex-membro da Frente Nacional. Foi lançado oficialmente em abril de 1995 com um escritório composto por Vial, Christophe Bordon da Renovação Estudantil e Pierre Giglio, da Frente Nacional. Defendendo reflexões metapolíticas que o tornaram uma estrutura do movimento identitário, ele reivindica o paganismo, "identidades enraizadas" e reivindica a herança intelectual da Revolução Conservadora Alemã, particularmente seu chamado movimento völkisch. A Terre et Peuple pretende atuar principalmente no nível cultural e não participa das eleições. Em 2007, este pequeno grupo reuniu cerca de 200 pessoas na França.

Pierre Vial funda em 1994 a revista "Terre et Peuple", uma publicação francesa associada aos Identitários e à Nova Direita. Os Identitários como corrente de pensamento que enfatiza a preservação das identidades culturais e étnicas europeias. A revista aborda temas como etnopluralismo, identidade europeia, crítica ao multiculturalismo, defesa das tradições e heranças culturais da Europa. "Terre et Peuple" é conhecida por sua posição contra a globalização e a imigração em massa, defendendo a ideia de que cada povo deve preservar e cultivar a sua própria identidade cultural e étnica. A revista também frequentemente critica as políticas de integração e a homogeneização cultural promovidas por governos e instituições supranacionais. A publicação é um ponto de encontro para intelectuais, escritores e ativistas que compartilham essas ideias, oferecendo artigos, ensaios e análises sobre política, história, cultura e sociedade dentro desse contexto ideológico.

Tudo isto são preocupações sobre a identidade biocultural europeia frente ao inverno demográfico e ao aumento da migração de povos islâmicos com altas taxas de natalidade. É a baixa taxa de natalidade em muitos países europeus, acompanhando uma população envelhecida, que preocupa devido ao potencial declínio da Europa como cultura. A imigração seria a única solução para evitar a decadência. Mas o problema é que a imigração é proveniente na sua maioria de países com populações predominantemente islâmicas, com uma cultura não apenas diferente da cultura cristã europeia, mas culturas que são frontalmente hostis. Os europeus que pensam as ideias da Nova Direita, ou dos Identitários, veem que a longo prazo a Europa vai descaracterizar-se na medida das taxas de natalidade mais altas das populações islâmicas. A identidade biocultural sofrerá uma transformação radical inevitavelemente. E essas pessoas com sentimento de nativos europeus não gostam disso. Temem que a imigração e as diferentes taxas de natalidade diluam a cultura europeia tradicional. As discussões sobre como integrar novos imigrantes sem perder aspetos fundamentais da identidade cultural europeia são intensas. O debate - entre o multiculturalismo que preserva as culturas de origem / versus / assimilação por adoção do imigrante da cultura dominante - é o debate entre universalistas e nacionalistas. É um debate de grande complexidade porque reúne pontos de vista contraditórios, que inclui: aspetos económicos, sociais, culturais e políticos, refletindo as diversas perspetivas sobre como vai ser a futura identidade da Europa.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Um mundo multipolar


Pequim tem reclamado um papel maior para a China na resolução de questões internacionais. No ano passado, a diplomacia chinesa mediu também as negociações que culminaram num acordo entre Arábia Saudita e Irão para o restabelecimento das relações diplomáticas. De acordo com o Presidente chinês, Xi Jinping, a China deve "participar ativamente na reforma e construção do sistema de governação global" e promover "iniciativas de segurança global". A China avançou também com um plano para a paz na Ucrânia, que os países ocidentais desvalorizaram, por pôr "agressor e vítima" ao mesmo nível. Em particular, a China defende a noção de "comunidade com um futuro partilhado", que visa contrariar a arquitetura de segurança erguida pelo Ocidente depois da Segunda Guerra Mundial. Pequim acusa a doutrina ocidental de estimular o confronto entre blocos e minar a estabilidade em diferentes partes do mundo.


A ideia de um sistema de poder multipolar, onde múltiplas grandes e médias potências compartilham influência e poder global, tem sido um tema recorrente nas relações internacionais. A viabilidade e a eficácia de tal sistema são objeto de debate. Os argumentos a favor de um sistema multipolar veem vantagem por prevenir a dominação de uma única potência, pois os equilíbrios de poder são sempre melhores para prevenir abusos de poder. Um mundo multipolar garante melhor a diversidade de interesses que é o que existe na realidade. Portanto, promove a existência de um mundo mais inclusivo e equitativo. A presença de múltiplas potências pode criar um sistema internacional mais resiliente e flexível, capaz de se adaptar às mudanças que fazem parte do parmenete caminho da História. O sucesso ou fracasso desse sistema dependerá de como os atores internacionais navegam nas suas complexidades em busca de soluções cooperativas para os problemas globais. A História e as circunstâncias contemporâneas sugerem que, com a abordagem correta, um sistema multipolar pode ser mais funcional, logo, benéfico.

Mas há quem considere que no passado, sempre que se caminhava para a multipolaridade, portanto, sem que houvesse uma superpotência a mandar no mundo, os conflitos e as guerras se impunham com mais frequência. A competição intensa por recursos, sem freios, tende a arrastar a ordem para a desordem, anarquia e caos. Multiplicidade de conflitos regionais, como ocorreu nas eras multipolares do passado, as eras das revoluções, do poder na rua. 
A ausência de uma hegemonia clara pode dificultar a coordenação em questões globais, como mudanças climáticas, terrorismo, pandemias e crises económicas. Diferentes potências podem ter agendas conflitantes, dificultando a formulação de políticas coerentes e eficazes. Um sistema multipolar pode aumentar a insegurança global, pois as nações podem sentir a necessidade de aumentar as suas capacidades militares e formar alianças instáveis para proteger seus interesses. Esse ambiente pode resultar em uma corrida armamentista e em uma maior instabilidade. A diplomacia se torna mais complexa e difícil num mundo multipolar, onde cada potência busca maximizar os seus interesses. A formação e a manutenção de alianças e acordos podem ser prejudicadas pela presença de múltiplos atores com interesses divergentes. Assim, a eficácia de um sistema multipolar depende de vários fatores, incluindo a capacidade das potências saberem gerir as suas rivalidades de forma pacífica com a ajuda de instituições internacionais eficazes. Tudo isso está dependente da vontade dos estados cooperarem em questões globais.

A descontinuidade civilizacional a Ocidente, com a queda do Império Romano do Ocidente no século V d.C., deveu-se à perda de contacto com a cultura que já vinha do tempo dos clássicos gregos. Houve um declínio significativo na organização política, económica e cultural que sustentava as instituições de ensino e cultura. Os movimentos migratórios na parte final do Império Romano do Ocidente marcaram o início que a História designou por Idade Média. O colapso das estruturas sociais e económicas interrompeu o fluxo de conhecimentos que sustentavam o Império Romano. Por outro lado, a ascensão do Cristianismo trouxe mudanças na filosofia e na educação. Alguns textos clássicos gregos foram considerados pagãos ou não alinhados com a teologia cristã, o que afetou a sua preservação e estudo. Deixou de haver interesse em preservar os textos clássicos. É importante notar que, por paradoxal que possa parecer à luz da época que estamos agora a atravessar, foi a Oriente que os textos gregos clássicos continuaram a ser preservados e que continuaram a ser estudados pelos islâmicos. E foi assim que de uma forma quase fulminante a civilização islâmica floresceu e se impôs durante alguns séculos à ignorância da Europa Ocidental. 

Por conseguinte, para podermos avaliar as vantagens e desvantagens dos váris tipos de sistemas de poder a nível internacional, é imprecindível consultarmos a História. Que lições importantes podemos retirar do estudo das dinâmicas de poder internacional do passado. O sistema que tem estado em vigor desde a queda do Muro de Berlim é um sistema unipolar liderado por uma única Superpotência - Estados Unidos da América - e ao mesmo tempo algumas potências emergentes a tentrem implantar um sistema multipolar. O exemplo fragrante é o conhecido grupo dos BRICS. Já se percebeu o que é que a China quer. A predominância dos EUA desde o fim da Guerra Fria tem proporcionado um grau de estabilidade, com uma potência dominante capaz de mediar conflitos e influenciar normas e regras internacionais. Os EUA têm desempenhado um papel central em instituições internacionais pela via do seu financiamento. E é sob a máxima "manda quem paga" que os Estados Unidos da América têm argumentado para fazer valer o seu poder ao nível da governança global. O mesmo se passou no tempo do Império Romano, que teve altos níveis de comércio internacional, inovação tecnológica e crescimento económico.

O tempo da Guerra Fria é considerado o paradigma do sistema bipolar. E a verdade é que se verificou um equilíbrio de poder entre EUA e URSS, o que evitou que uma única potência dominasse completamente. E isso foi benéfico para uma certa estabilidade estrutural sobretudo no mundo ocidental ou Norte Global. A existência de alianças claras como a NATO e o Pacto de Varsóvia ajudou a organizar as relações internacionais e a reduzir a incerteza. É claro que esteve muito longe de ser perfeito. Avultaram os conflitos por procuração. A rivalidade entre as superpotências levou a conflitos por procuração em várias partes do mundo (Vietname, Coreia, Afeganistão), causando destruição e instabilidade. A competição incessante resultou na corrida armamentista nuclear perigosa, aumentando o risco de destruição mútua.

O século que precedeu a Pré-Primeira Guerra Mundial é considerado um período mais parecido com o de um sistema multipolar, que enquanto durou foi bom por ter ptomovido um certo tempo de paz. A diversidade de grandes potências europeias promovia uma distribuição mais equilibrada de poder e influência. A diplomacia ativa e a formação de alianças complexas (Tríplice Aliança, Tríplice Entente) buscavam manter o equilíbrio de poder. Mas depois a competição entre múltiplas potências e a complexidade das alianças contribuíram para a eclosão da Primeira Guerra Mundial, um conflito devastador. A multiplicidade de interesses e a falta de uma hegemonia clara dificultaram a cooperação e a coordenação das crises.

Podemos concluir que cada sistema tem as suas próprias vantagens e desvantagens, e nenhum é inerentemente superior aos ouros em todos os aspetos. A eficácia de um sistema de poder depende em grande parte da capacidade das potências envolvidas de gerenciar as suas relações de forma estável e cooperativa. Um sistema multipolar pode funcionar desde que existam mecanismos eficazes de gestão de conflitos e cooperação internacional. Por outro lado, um sistema unipolar ou bipolar pode proporcionar estabilidade, mas também enfrenta desafios únicos que podem levar à instabilidade e ao conflito. A chave para qualquer sistema de poder mundial bem-sucedido é a capacidade de adaptação, a criação de instituições robustas e a promoção de normas e práticas que incentivem a cooperação pacífica e o desenvolvimento sustentável. E cada tempo histórico tem as suas próprias especificidades às quais não são alheias as idiossincrasias da espécie humana.

O poder unipolar nesta altura está a ser muito contestado. A responsabilidade global pode sobrecarregar a potência dominante, levando ao esgotamento de recursos e influenciando o seu declínio relativo ao longo do tempo. Antes dos tempos modernos, o caso do Império Romano deve ter sido o mais estudado em todos os tempos. A Pax Romana é uma espécie de paradigma, em que o Império Romano proporcionou segurança, estabilidade e prosperidade económica em vastas regiões da Europa, Norte da África e Médio Oriente. Roma construiu uma extensa infraestrutura (estradas, aquedutos, cidades) com a difusão e promoção cultural e tecnológica de uma dimensão nunca superável. Mas a incapacidade de sustentar a defesa das fronteiras e as invasões bárbaras contribuíram para o colapso do império.

Algumas teorias históricas sugerem que o declínio de civilizações pode estar ligado à deterioração de valores culturais e sociais que são essenciais para a coesão e o funcionamento saudável da sociedade. Isso pode incluir a perda de ética de trabalho, coesão social, respeito pelas instituições e normas morais. Do ponto de vista evolutivo e adaptativo, as sociedades que conseguem manter valores e práticas que promovem a cooperação, a inovação, a resiliência e a sustentabilidade estão mais aptas a prosperar e se desenvolver. Alguns estudiosos apontam para exemplos históricos onde a corrupção moral, decadência cultural ou a perda de valores fundamentais coincidiram com períodos de declínio ou colapso civilizacional. O Império Romano colapsou por via da corrupção política, causadora de desigualdades sociais. São as tensões internas que enfraquecem a estrutura das instituições. Em contextos contemporâneos, a análise de sociedades e comunidades frequentemente destaca a importância de normas sociais e culturais que promovem a coesão, justiça social, e a sustentabilidade ambiental como fundamental para o bem-estar e a prosperidade a longo prazo.

É claro que este é mais um daqueles assuntos tão complexos que quanto mais se estuda mais se adensa  nevoeiro. A metáfora do nevoeiro é um oxímoro porque diz que quanto mais se vê, menos vemos. O declínio de civilizações geralmente é resultado de múltiplos fatores inter-relacionados, incluindo mudanças climáticas, pressões demográficas, conflitos internos e externos, além de mudanças nas normas culturais e sociais. A corrupção de costumes é apenas um aspecto dentro de um contexto mais amplo. Normas sociais e valores evoluem ao longo do tempo, e as interpretações sobre o que é moralmente aceitável também mudam. Seguindo uma grelha instrumental de análise, como é a grelha da evolução de matriz darwinista, a adptação e a resiliência são critérios fundamentais. Nem todas as mudanças culturais são necessariamente prejudiciais. As sociedades que são capazes de adaptar seus valores e instituições às novas realidades sociais, económicas e ambientais podem demonstrar maior resiliência e capacidade de se adaptar a desafios emergentes.

Mesmo em regimes democráticos de pendor socialista ou social-democrata, quando os cidadãos se juntam para trabalhar em parceria, geralmente acham justo que os trabalhadores mais esforçados sejam mais bem remonerados. Os socialistas querem igualdade de rendimentos, mas partindo do princípio que as contribuições são iguais. Quando as pessoas partilham a recompensa em dinheiro, a igualdade é subordinada ao princípio da proporcionalidade. Quando alguns membros de um grupo contribuem muito mais do que outros, já para não falar de poucos que não contribuíram nada, a maioria não quer que os benefícios sejam igualmente distribuídos, porque isso não é justo.

Faz parte da evolução adaptativa a existência de elementos que desafiam as regras colhendo os frutos da cooperação através da boleia. A cooperação dentro das comunidades é vigiada pelo mexerico. O castigo teve de vir depois. A comunidade tem de se proteger dos batoteiros, dos mandriões, sob pena de não sobreviver. Caso lhes fosse permitido manter esses comportamentos sem serem punidos, os outros iriam fazer o mesmo, e deixar de contribuir. O que levaria ao desmoronamento da sociedade. O fundamento da equidade tem de se apoiar na raiva justa, quando alguém engana outro. 
Os desencadeadores atuais do fundamento da equidade variam em função do tamanho do grupo, bem como de outras circunstâncias históricas e económicas. Numa grande sociedade industrial, e com uma rede social de segurança, os desencadeadores atuais são propensos a incluir pessoas que confiaram na rede de segurança, sem que para isso alguma vez tenham sido salvas por ela. 

segunda-feira, 22 de julho de 2024

As viagens e os livros de Ramon Llull

  

Ramon Llull viajou para a Tunísia para continuar sua missão. É nessa jornada que ele escreveu Liber de Deo et de mundo ("Livro sobre Deus e o mundo") e Liber de maiore fine intellectus amoris et honoris ("Livro sobre o fim maior da inteligência: amor e honra"). Ambos são datados de dezembro de 1315 e seriam suas últimas obras. A data exata de sua morte é desconhecida. Considera-se que morreu entre 1315 e 1316, quando voltava de sua viagem da Tunísia para Maiorca. Alguns cronistas afirmaram que ele foi linchado por uma multidão de muçulmanos furiosos em Bejaia, dos quais não há prova formal, apesar de ter sofrido prisão, espancamentos e insultos. Ele está na Basílica de São Francisco em Palma de Maiorca.



Basílica de São Francisco em Palma de Maiorca.

Ramon Llull nasceu em Palma de Maiorca por volta de 1232. Filósofo, poeta, místico, teólogo e missionário leigo próximo dos franciscanos. Ele é considerado um dos primeiros escritores a usar uma língua neolatina, o catalão, para expressar conhecimento filosófico, científico e técnico. Conhecido em seu tempo pelos apelidos de Doutor Inspiratus (Médico Inspirado), Doutor Illuminatus (Médico Iluminado) ou Arabicus Christianus (Árabe Cristão), Llull foi uma das figuras mais avançadas nos campos espiritual, teológico e literário da Idade Média. Foi de facto um autor e pensador catalão muito importante na Idade Média.

Segundo Umberto Eco, o local de nascimento foi decisivo para Llull, já que Maiorca era uma "encruzilhada na época das três culturas, cristã, islâmica e judaica, a ponto de a maioria de suas 280 obras reconhecidas terem sido inicialmente escritas em catalão e árabe". Antes de se casar, ela entrou para a corte do rei Jaime I de Aragão. Por volta de 1267, aos 30 anos, a vida de Ramon sofreu uma reviravolta importante: ele mesmo descreve como teve uma série de cinco visões de Cristo crucificado em cinco noites consecutivas. A profunda impressão que essas visões lhe causaram levou-o a vender as suas propriedades. Sua fase de nove anos de formação teológica e moral durou até 1275: na cidade de Maiorca, ele conheceu e comprou um escravo muçulmano que usou como professor para aprender árabe.

Em 1274, o infante Jaime (que reinaria como Jaime II de Maiorca), antigo aluno de Llull, chamou-o para o seu castelo em Montpellier, onde, sob o patrocínio do príncipe, o erudito pôde escrever a sua Ars demostrativa ("A Arte Demonstrativa"), obra que lhe valeu dinheiro que investiu de imediato na construção do mosteiro de Miramar em sua ilha natal. O objetivo deste mosteiro era treinar missionários para cristianizar os árabes, ensinando-lhes técnicas missionárias, métodos para repudiar a filosofia islâmica. Decidiu empreender a sua própria cruzada pessoal, que o levaria à Europa (Alemanha, França e Itália), à Terra Santa, à Ásia Menor e ao Magrebe. Ele estava muito interessado em converter os muçulmanos e judeus daquelas regiões, por isso não hesitou em pregar nas portas das mesquitas e sinagogas, o que nem sempre foi recebido com prazer pelos fiéis daqueles templos.

Em 1286, Ramon Llull recebeu seu diploma de professor universitário (magister) da Universidade de Paris. Um ano depois, viajou a Roma para apresentar seus planos de reforma da Igreja a pontífices e dignitários, mas, mais uma vez, ninguém o ouviu, porque ele ia pedir financiamento para a Cruzada que ele aspirava poder converter todos os infiéis da Terra Santa. Vendo que seus apelos não obtiveram o eco que esperava, entrou para a ordem franciscana em 1295. Foi aceito na Ordem Terceira Franciscana.

Em 1307, Ramon Llull viajou para o norte da África para continuar as pregações, mas foi mal recebido, como se costuma dizer, foi corrido à pedrada. Entre 1308 e 1311 deambulou pela Europa ao sabor de Clemente V, consultando a hipótese de uma nova Cruzada e se seria apropriado entregar os Templários ao braço secular para serem executados na fogueira. Ramon Llull foi convocado e esteve presente nas três sessões do Conselho, mas nenhuma notícia chegou até nós sobre como ele votou em cada um dos assuntos sérios que foram discutidos lá. Sabemos que a Cruzada e a reforma eclesiástica lhe interessavam particularmente, pois haviam sido objeto de suas pregações e orações por décadas. No entanto, em relação à punição dos Templários, inúmeras dúvidas permanecem.

 

 Ramon Llull - Monasterio de Santa Maria de la Real
Palma de Maiorca

Seguidor, como bom franciscano, do pensamento de Roger Bacon e São Boaventura, Llull introduziu uma grande inovação. Insistiu na doutrina da Imaculada Conceição de Maria, contra a opinião, então maioritária, de São Tomás de Aquino. A essência divina teve que assumir uma primeira matéria perfeita para formar o corpo de Jesus. Isso era impensável se a própria Maria tivesse nascido sujeita ao pecado original, então ela tinha de ter sido concebida sem pecado. Essas ideias levaram o inquisidor Nicolas Aymerich a perseguir postumamente as obras de Ramon Llull. No entanto, o rei Pedro, o Cerimonioso, protegeu a memória dos beatos e expulsou o inquisidor do reino de Aragão e, finalmente, a Igreja Católica acabou estabelecendo a opinião de Llull como dogma.

Escrevia e falava perfeitamente em catalão, latim e árabe; e ele usou qualquer uma dessas línguas indistintamente para se dirigir a quem a entendesse melhor. Se o público de seu novo livro era de baixa condição, ele não hesitou em expressar os mais altos conceitos filosóficos em versos alegres, e sempre defendeu a conversão dos infiéis. Estudiosos cristãos do século XIII celebraram a descoberta lógica de Llull, embora logo tenham detetado os problemas do raciocínio de Llull. Embora seja verdade que ambas as ciências estão geralmente de acordo – porque o que é verdadeiro na filosofia não pode ser falso para o teólogo – ambas chegam à verdade por caminhos diferentes: a teologia se baseia na razão e na revelação divina, enquanto o filósofo está sozinho diante do problema, provido apenas de sua própria razão. Os árabes foram além: criticaram a Ars Magna dizendo que, segundo eles, o que é falso na filosofia "pode perfeitamente ser verdade na teologia", porque nada é impossível para Deus e Ele pode muito bem ultrapassar as limitações da ciência. Esse conceito é conhecido como "Verdade de Duplo Nível" ou "Teoria da Dupla Verdade".

Em sua ânsia de refutar os muçulmanos, Llull exagerou o conceito no sentido oposto: ele acreditava que a dupla verdade era impossível, já que teologia e filosofia eram de facto a mesma coisa. Dessa forma, ele igualou e identificou a fé com a razão. O incrédulo não era capaz de raciocinar, e o homem de fé aplicava a razão perfeita. Dessa forma, acreditava ter resolvido, graças às provas dos significados lógicos e, claro, ao seu mecanismo, uma das maiores controvérsias da história do conhecimento. O problema com esses postulados era que eles varriam a diferença entre verdades naturais e sobrenaturais. Como Llull era essencialmente um filósofo místico, para ele a razão não pode lidar com as mais altas verdades. Para isso, é necessário, em todas as circunstâncias, fazer uso da fé. Desta forma, afirmou que a fé iluminou a razão, por exemplo, para desvendar o mistério da Santíssima Trindade: só há um Deus verdadeiro representado em três pessoas, que apesar de tudo não são nem podem ser "três deuses". Ele acreditava, por mecanismos semelhantes, que poderia provar o motivo de todos os mistérios e as razões de todos os artigos de fé. Se a razão requer fé para ajudá-la, a segunda também precisa da primeira, porque a fé por si só pode levar ao erro. Llull acreditava que o homem dotado de fé, mas não de razão, era como um cego: ele pode encontrar certas coisas pelo toque, mas não todas as vezes.

A hierarquia católica não via com bons olhos a difusão dessa doutrina, porque imediatamente compreendeu o perigo de dissolver a diferença entre uma verdade natural e um sobrenatural. Dois papas condenaram formalmente o lulianismo: Gregório XI em 1376 e Paulo IV no século xvi. Como resultado, o beato nunca foi canonizado, embora o processo tenha sido reativado recentemente. Não o estudo aprofundado, mas a mera enumeração das obras de Ramon Llull ultrapassa as dimensões e os limites deste artigo. Ele escreveu 243 livros que incluíam assuntos tão diversos como filosofia (Ars magna), ciência (Arbre de sciència, Tractat d'astronomia), educação (Blanquerna, que inclui o Llibre de Amic e Amat), misticismo (Llibre de contemplació), gramática catalã (Retòrica nova), cavalaria (Libro del Orden de Caballería), romances (Llibre de meravelles, que inclui o Llibre de les bèsties), e muitos outros tópicos e recursos (como o provérbio Llibre dels mil proverbis, ou o silogismo (Llibre de la disputa de Pere i de Ramon, el Fantàstic. La ciutat del món), que o mesmo autor traduziu imediatamente para o árabe e o latim.

Blanquerna (Llibre d'Evast e Blaquerna) é um romance idealista, de enorme influência na narrativa da Idade Média e particularmente em certos escritores posteriores. Ele é escrito em catalão. Começou a ser escrito em 1283 e foi concluído em 1286. É uma pintura vívida da vida medieval: o protagonista, conduzindo sua vida através de sua vocação religiosa, tenta alcançar a perfeição espiritual. Para isso, o autor o faz embarcar em uma jornada vital que o levará por todas as etapas do homem na sociedade: do homem casado que costumava ser, ele entrará em um mosteiro, será prelado, se tornará papa e, finalmente, renunciará ao trono pontifício para se dedicar à contemplação e à meditação em um eremitério isolado. A obra inclui ainda o Llibre d'amic e amat, uma peça de prosa poética que combina elementos de fontes muito diversas: o Cântico dos Cânticos, a poesia provençal, a teologia árabe e outras influências que a enriquecem e matizam. Seus 366 versículos expressam o amor da alma humana por Deus e traçam uma delicada filigrana de elevação e sentimento espiritual.

Livro da Ascensão e Descida do Entendimento. Escrito em latim em Montpellier em 1304, o "Livro da Ascensão e Descida do Entendimento" ("Liber de ascensu et descensu intellectus") desenvolve o famoso método de "escala" do pensamento de Llull: existem "escalas místicas" que determinam "escalas de conhecimento" pelas quais se pode subir ou descer como se fossem escadas largas. Para ascender, é preciso passar do sensível (aquilo que é percebido através dos sentidos, isto é, do conhecimento empírico) para o inteligível, e do inteligível para o intelectual. Por meio de outro processo paralelo e simultâneo ao anterior, ascende-se do particular ao geral e do geral ao universal.

Llull dedicou pelo menos três obras para expor com considerável detalhe como seu novo modelo de missão deveria ser posto em prática: o Liber de passagio ("Livro da Cruzada") de 1292 (que, por sua vez, é dividido em duas pequenas obras de origem independente: o Quomodo Terra Sancta recuperi potest ["Como a Terra Santa pode ser restaurada"] e o Tractatus de modo convertendi infideles ["Tratado sobre o caminho da conversão dos mártires" infiéis"]); o Liber de fine ("Livro sobre o Fim/Propósito") de 1305 e o Liber de acquisitione Terra Sanctae ("Livro sobre a Conquista da Terra Santa") de 1309. As três obras tratam dos mesmos temas, embora com algumas variações, bastante estratégicas, que respondem principalmente às mudanças políticas da época.