Uzbequistão é um dos grandes centros históricos da Ásia Central.Foi durante séculos um eixo fundamental da Rota da Seda entre a China, a Pérsia, a Índia e o Mediterrâneo. Hoje combina cidades monumentais islâmicas, herança soviética e paisagens de deserto e montanha. O Uzbequistão fica no coração da Ásia Central e faz fronteira com: Cazaquistão; Quirguistão; Tajiquistão; Afeganistão; Turquemenistão. A região fazia parte de civilizações antigas como Sogdiana e Bactriana. Foi conquistada por Alexandre Magno no século IV a.C. Mais tarde tornou-se um centro comercial crucial da Rota da Seda. A partir do século VIII chegaram os árabes e o Islão difundiu-se progressivamente.
Tasquente, a capital, é uma cidade moderna, marcada pela arquitetura soviética e avenidas largas. Samarcanda é a joia histórica do país; uma das cidades mais famosas da Rota da Seda. Bucara, é uma cidade antiga extremamente bem preservada. Khiva parece quase um museu medieval ao ar livre. O verão uzbeque pode ser muito quente, sobretudo em julho/agosto: 38 a 45 °C em zonas desérticas. Cidades como Samarcanda e Bucara tornaram-se centros intelectuais do mundo islâmico. Dali vieram estudiosos célebres como Avicena e Al-Khwarizmi. O nome “algoritmo” deriva de Al-Khwarizmi. A maioria da população é uzbeque, um povo turcófono de tradição islâmica sunita. Há também minorias russas, tadjiques, cazaques e coreanas. O uzbeque é a língua oficial, mas o russo continua muito usado, sobretudo nas cidades. A culinária mistura influências turcas, persas e nómadas.
Samarcanda
No século XIII, a região foi devastada pelas invasões mongóis de Gengis Khan. No século XIV emergiu Tamerlão (Timur), que fez de Samarcanda a capital do seu império. Foi a idade dourada arquitectónica da região: mosaicos azuis, madraças monumentais e observatórios astronómicos. O neto de Timur, Ulugh Beg, foi um dos grandes astrónomos do século XV. No século XIX, o Império Russo conquistou progressivamente a região. Depois da Revolução Russa, o Uzbequistão integrou a União Soviética.
Samarcanda, Bucara e outras cidades eram nós de uma rede intelectual continental muito antes da ascensão atlântica da Europa moderna. Para um português numa finisterra, é de facto impressionante ver o contraste com uma civilização de encruzilhada de rotas comerciais entre oriente e ocidente. Basta olhar ainda hoje para Samarcanda e Bucara, duas almas da Ásia Central. Samarcanda e Bucara são quase arquétipos dessa civilização terrestre. Mas têm personalidades muito diferentes. Samarcanda personifica o sonho imperial, a cidade do esplendor. Samarcanda é uma das cidades míticas da história mundial, ao nível simbólico de uma Constantinopla. Antes do Islão já era importante. Era a capital da Sogdiana, centro mercantil da Rota da Seda. Os sogdianos eram extraordinários mediadores culturais: falavam várias línguas, negociavam entre impérios, espalhavam religiões e técnicas. Samarcanda já era cosmopolita quando grande parte da Europa pós-romana estava fragmentada.
Bucara
Bucara é a cidade da continuidade. Se Samarcanda é teatral e imperial, Bucara é íntima e civilizacional. Bucara foi durante séculos um dos grandes centros religiosos e intelectuais do Islão sunita. Bucara impressiona menos pela escala e mais pela textura: ruas de barro, pátios interiores, caravancerais, mercados cobertos, sombra e poeira. É mais fácil imaginar: mercadores, estudiosos, peregrinos e sufis vivendo ali continuamente ao longo de séculos. Embora hoje o país seja turcófono, Bucara conserva fortíssima herança persa. Historicamente a língua culta era persa. A poesia era persa. A burocracia era persa. A alta cultura era persa. Muitos habitantes antigos da cidade seriam culturalmente mais próximos de Isfahan do que das estepes turcas.
A era soviética trouxe o desastre ecológico do Mar de Aral. O país tornou-se independente em 1991, após o colapso soviético. Durante décadas foi governado por Islam Karimov, com um regime bastante autoritário. Nos últimos anos houve abertura moderada ao turismo e ao investimento estrangeiro. O Mar de Aral tornou-se um dos maiores desastres ecológicos do século XX. Durante a era soviética, os rios foram desviados para irrigação intensiva do algodão; o lago perdeu a maior parte da sua superfície.
Pão num mercado em Samarcanda
Os sogdianos eram os “fenícios” das estepes asiáticas. Antes dos turcos e dos mongóis, havia os Sogdiana. Os sogdianos foram os grandes comerciantes da Rota da Seda entre os séculos IV e VIII. Transportavam seda chinesa, prata persa, vidro romano, religiões, ideias e técnicas. Foram provavelmente os maiores mediadores culturais da Eurásia pré-moderna. A Rota da Seda não era apenas comércio. Normalmente imagina-se a Rota da Seda como circulação de mercadorias. Mas o mais importante talvez fossem as ideias. Por estas rotas viajaram: budismo; islamismo; cristianismo nestoriano; maniqueísmo; matemática indiana; astronomia grega; papel chinês. A Ásia Central funcionava como um gigantesco “sistema nervoso” da Eurásia.
Quando o Islão chegou no século VIII, a região não se tornou apenas “muçulmana”. Tornou-se um dos grandes centros intelectuais do Islão. Aqui floresceram: filosofia, medicina, álgebra, astronomia, geografia. Nela pontuaram alguns gigantes intelectuais como Avicena - filósofo, médico e metafísico - que tentou unir Aristóteles com o neoplatonismo e a teologia islâmica. A sua influência sobre a medicina europeia durou séculos. Outro gigante foi Al-Khwarizmi - Da palavra “al-jabr” deriva “álgebra”. Do seu nome deriva “algoritmo”. Foi decisivo na transmissão dos numerais indo-arábicos para o Ocidente. O observatório de Samarcanda produziu medições astronómicas extremamente precisas no século XV. É um dos casos raros de uma corte imperial profundamente dedicada à astronomia e à matemática.
As invasões de Gengis Khan, que foram devastadoras, tiveram efeitos paradoxais porque deram segurança à circulação comercial e intelectual. Paradoxalmente, destruiu cidades, mas unificou a Eurásia. Tamerlão ou Timur, incorpora essa ambiguidade, fazendo conviver destruição e violência extrema com o esplendor artístico sofisticado. As mesmas campanhas que devastavam cidades traziam para Samarcanda - arquitetos, artesãos, matemáticos, calígrafos. Daí resultou uma das cidades mais belas do mundo islâmico. Em 1220, Gengis Kahn destruiu brutalmente a cidade. Mas a Samarcanda que hoje impressiona nasceu depois, com Tamerlão, ou Timur. Tamerlão compreendeu algo profundamente oriental e imperial: o poder precisa de assombro visual. As cúpulas gigantes, os mosaicos azuis e as proporções monumentais serviam para impressionar embaixadores, intimidar rivais, representar ordem cósmica, ligar o soberano ao divino, A arquitetura timúrida não é apenas decorativa: é cosmologia política. O azul de Samarcanda é um fenómeno curioso. Quase toda a memória visual da cidade é azul. Isso vem dos azulejos vidrados persas, do simbolismo celeste, da luz seca da Ásia Central. O azul timúrida tenta transformar edifícios em fragmentos do céu. O Registan talvez seja a praça mais impressionante do mundo islâmico. O Registan não era apenas praça: era máquina de prestígio imperial. As madraças representavam: saber, religião, legitimidade, sofisticação urbana. Ali sente-se uma civilização que acreditava profundamente na geometria, na ordem matemática, na relação entre beleza e conhecimento. Ulugh Beg, neto de Timur, o príncipe, era astrónomo. Quase um anti-conquistador, preferia astronomia à guerra. O seu observatório em Samarcanda foi um dos mais avançados do mundo no século XV. Shah-i-Zinda, é provavelmente o lugar mais emocionalmente poderoso de Samarcanda. É uma necrópole sagrada. Corredores estreitos, mosaicos quase irreais, silêncio, sensação funerária e celeste ao mesmo tempo. Ali percebe-se como a arte islâmica usa a repetição geométrica. É luz, cor, caligrafia - para sugerir infinito.
O mausoléu de Tamerlão, também chamado Mausoléu do Emir (Gur-e-Amir), é o mausoléu do emir timúrida Tamerlão (r. 1370–1405), em Samarcanda. Serviu de inspiração aos mausoléus mogóis, como o Taj Mahal de Xá Jeã (r. 1628–1658).
Depois veio o declínio relativo. A partir do século XVI, a centralidade da Ásia Central diminuiu porque as rotas marítimas substituíram as caravanas. E Portugal tem algo a ver com isso. Deu aso a que potências atlânticas mudassem o eixo económico global. Talvez tenha sido por isso que na China a dinastia Ming se tenha fechado parcialmente. O comércio terrestre perdeu a importância que teve no tempo áureo da Rota da Seda. A região tornou-se mais isolada. E depois vieram os russos. O Império Russo, e depois a União Soviética, transformaram profundamente a região numa civilização de encruzilhada. Uma ideia importante: a história europeia tradicional fez parecer que a civilização greco-romana e a tradição judaica/cristã, que formataram a Europa moderna, tinha sido o alfa e o ómega do pináculo civilizacional. Mas a Ásia Central lembra-nos que durante muitos séculos o verdadeiro centro de circulação de conhecimento esteve muito mais a leste. Para um português herdeiro de uma cultura voltada para o Atlântico, a experiência pode ser realmente forte: em vez de horizonte marítimo, encontra-se um mundo organizado em torno de caravanas, desertos e corredores continentais.
Hoje a Ásia Central parece periférica no mapa mental europeu. Mas durante muitos séculos foi precisamente o contrário: uma das regiões mais centrais da civilização afro-eurasiática. O atual Uzbequistão estava quase no meio das grandes rotas entre: China, Índia, Pérsia, mundo árabe, estepes turco-mongóis, Mediterrâneo. Isso criou uma civilização extraordinariamente híbrida. A Ásia Central nunca foi uma civilização fluvial compacta, como o Egito ou a Mesopotâmia. Era um mosaico: estepes nómadas, cidades-oásis, corredores comerciais, desertos imensos. As cidades sobreviviam graças ao comércio das caravanas. Quem controlava os oásis controlava o trânsito entre Oriente e Ocidente. O encontro entre nómadas e urbanos é talvez o elemento mais importante. Os povos das estepes foram hábeis na cavalaria que lhe proporcionavam grande mobilidade num curo espaço de tempo. Os turcos e mongóis dominavam sobre os povos urbanos. Ao passo que os persas dominavam a escrita, a ciência e a arquitetura. A civilização centro-asiática nasce precisamente desta fusão.





Sem comentários:
Enviar um comentário