terça-feira, 29 de setembro de 2026

Quantas estátuas teve Lenine?


As estimativas são necessariamente aproximadas, porque nunca existiu um inventário único de todas as estátuas de Lenine. Além disso, é preciso distinguir monumentos de estátuas em praças. Estátuas de tamanho natural de bustos. Se falarmos apenas de estátuas e monumentos tridimensionais, uma estimativa plausível para o final da década de 1980 seria: União Soviética: 20.000 a 40.000; Países do Pacto de Varsóvia (Alemanha Oriental, Polónia, Checoslováquia, Hungria, Bulgária, Roménia) + Cuba, Mongólia e outros países socialistas = 5.000 a10.000. 
Se incluirmos todos os bustos existentes em escolas, fábricas, quartéis, sedes do partido e instituições públicas, o número aumenta muito e pode aproximar-se das dezenas de milhares adicionais.


Berlim do lado oriental em agosto de 1989

Em agosto de 1989, quando atravessei o Checkpoint Charlie para visitar o Museu de Pérgamo, Berlim Oriental ainda estava repleta de simbologia comunista. Uma das mais conhecidas era a enorme estátua de Vladimir Lenine na antiga Leninplatz, desmontada pouco depois da reunificação alemã. Em poucos anos, milhares de estátuas semelhantes foram removidas em toda a Europa de Leste, embora algumas tenham sido preservadas em museus ou parques de escultura como testemunho histórico.



O exemplo das estátuas de Vladimir Lenine é especialmente ilustrativo porque mostra como muitos regimes procuram materializar a sua legitimidade no espaço público. A proliferação de monumentos não era apenas uma homenagem histórica; era também uma forma de comunicar, todos os dias, quem detinha a autoridade, qual era a narrativa oficial e que valores deveriam ser venerados.

O culto da personalidade não é exclusivo de uma ideologia. Embora tenha atingido níveis extremos nos regimes comunistas do século XX, fenómenos semelhantes ocorreram em regimes fascistas, nacionalistas e até, em menor grau, em democracias quando líderes passam a ser vistos como figuras providenciais. Pode ser útil distinguir entre ideologia (que fornece uma justificação teórica para o exercício do poder) e a psicologia do poder, que pode levar dirigentes de qualquer orientação a desenvolver traços como autoconvicção excessiva, intolerância à crítica, personalização das instituições e necessidade de perpetuar a própria imagem.

Há uma frase frequentemente atribuída ao historiador John Emerich Edward Dalberg-Acton que resume bem essa preocupação: "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente." Embora seja uma simplificação, continua a ser um excelente ponto de partida para discutir como diferentes sistemas políticos tentam limitar os efeitos do poder sobre quem o exerce.

A procura de legitimidade, prestígio e permanência é bastante mais universal do que qualquer ideologia em particular. Um ingrediente matricial da Política, em qualquer tempo e lugar. Essa abominável Política, demasiado humana, parafraseando Nietzsche, que se legitima sempre por linhas tortas, em nome de um fim maior: "Nós o Povo". É uma reflexão com uma longa tradição na filosofia política. A ideia de que a política é "demasiado humana" aproxima-se, de facto, da desconfiança de Friedrich Nietzsche relativamente às pretensões morais universais, embora a expressão "demasiado humana" remeta diretamente para a sua obra Humano, Demasiado Humano.

A fórmula "Nós, o Povo" tem uma ambivalência interessante. Em princípio, exprime a soberania popular; na prática, porém, pode tornar-se um poderoso instrumento de legitimação. Ao longo da história, regimes muito diferentes - democráticos, autoritários e totalitários - afirmaram agir em nome do povo, da nação, da classe, da raça ou da humanidade. A questão decisiva passa então a ser: quem define o que é "o povo" e quem fala em seu nome?

A política tende a transformar meios em fins. A ideologia nasce, muitas vezes, como instrumento para interpretar a realidade, mas facilmente se converte numa justificação para conservar ou ampliar o poder. Nesse processo, o adversário deixa de ser apenas alguém com uma opinião diferente e passa a ser um obstáculo ao "bem maior". É uma tentação recorrente da política, sem concluir que toda a política se reduz a isso. Há também uma tradição, de Aristóteles a Hannah Arendt, que vê a política como o espaço da deliberação, do pluralismo e da resolução não violenta dos conflitos. A história mostra exemplos de ambas as faces: a política como técnica de dominação e a política como arte de convivência. Talvez seja precisamente essa tensão que torna o tema tão relevante: o poder é inevitável; o abuso do poder não é. A grande questão das instituições políticas consiste em domesticar uma inclinação profundamente humana para concentrar, justificar e perpetuar o poder, qualquer que seja a bandeira ideológica sob a qual ele se apresente.

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