sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Goa




 
Situado na costa do mar da Arábia, a 400 Km a sul de Bombaim, é atualmente o menor estado da Índia em território. e o 4º menor em população, apesar de ser o mais rico em PIB per capita. Entre 1510 e 1961, Goa esteve na posse do Estado português, que funcionou como capital do complexo império português na Índia, que englobava Goa, Damão e Diu. As suas igrejas e conventos são Património da Humanidade pela UNESCO, desde 1986. A cidade de Goa foi apelidada de "Roma do Oriente", sede da Arquidiocese de Goa e Damão e do Patriarcado das Índias Orientais.

Os séculos XVI e XVII foram a época áurea de Goa, que comandou um comércio florescente chegando a ter privilégios administrativos semelhantes aos de Lisboa. A partir de finais do século XVII, a concorrência comercial com holandeses e britânicos levou à decadência económica da Goa Velha, ao mesmo tempo que passou a ser o Brasil a colónia mais importante para Portugal. Além disso, várias epidemias assolaram a cidade. E o porto do rio Mandovi passou a ser inadequado para os navios mais modernos. O vice-rei mudou-se para Pangim (Nova Goa) em 1759. E foi assim que, em 1843, a Goa Velha perdeu oficialmente o estatuto de capital.

Missionários - Jesuítas franciscanos e de outras ordens religiosas - estabeleceram-se em Goa já no século XVI. A Companhia de Jesus chegou a Goa em 1542, sendo Francisco Xavier a figura mais relevante nestes primeiros tempos. Os colonizadores foram inicialmente tolerantes ao hinduísmo e outras religiões, mas a partir de 1560 a difusão do catolicismo foi reforçada pela chegada da Inquisição a Goa. Algum tempo depois, os jesuítas criaram um centro educativo religioso, o Colégio de São Paulo ou de São Roque, que contava com uma enorme biblioteca e tipografia. Este complexo foi destruído em 1830.

Nos dois primeiros séculos de presença portuguesa foram erguidas a maioria das igrejas e conventos que ainda hoje povoam a cidade. Enquanto as formas arquitetónicas seguem os cânones europeus, a decoração interna de altares, retábulos, pinturas e mobiliário refletem a mão-de-obra dos artistas locais. Isso foi possível pela grande tradição escultórica dos artistas indianos da região de Goa, que não fizeram com que fosse necessária a importação a grande escala de mão-de-obra artística.



A Sé de Goa é o maior edifício construído pelos portugueses na Ásia. A severa fachada, com três portais, possui uma só torre: a da direita foi destruída durante uma tempestade em 1766.


As naves da igreja são abobadadas e separadas por duas ordens de pilares. Da decoração interior destaca-se o magnífico retábulo da capela-mor em talha dourada.

A Ordem Franciscana foi a primeira a instalar-se em Goa, obtendo já em 1517 permissão do rei Dom Manuel para construir um convento. A primitiva igreja foi concluída em 1521, mas foi totalmente reedificada a partir de 1661, preservando-se, porém, um portal em estilo manuelino, incorporado à fachada maneirista da nova igreja. Este portal, em pedra escura, apresenta um perfil trilobado tipicamente manuelino e um remate ladeado por esferas armilares, símbolos de D. Manuel. A fachada é estreita e alta, com duas torres de secção octogonal. Em frente há um grande cruzeiro de granito.



O grande monumento jesuítico que sobreviveu é a Basílica do Bom Jesus, começada em 1594 e sagrada em 1605. O maior tesouro do interior da igreja é a capela do transepto onde se encontram, desde 1655, os restos de Francisco Xavier. A urna está localizada num mausoléu executado pelo artista florentino Giovanni Battista Foggini, em 1697.




No transcurso do século XVI ocorreu a expansão e estabilização na luta contra várias estruturas estatais asiáticas, comandadas por muçulmanos de origem árabe e turcos otomanos. No entanto, os portugueses nunca conseguiram exercer plenamente o poder nas zonas do estreito de Malaca ou dominar o mar Vermelho. Mas exerceram o monopólio, por muito tempo, sobre a única rota marítima de produtos orientais para os mercados europeus. Antes do século XVIII, o governador português ali estabelecido exercia a sua autoridade em todas as possessões portuguesas no oceano Índico, desde o cabo da Boa Esperança até Macau.

O declínio do domínio português na Ásia começou em nível económico na década de 1670 e, politicamente, desde o fim do século XVI, com a entrada de outros países europeus, especialmente os holandeses, no oceano Índico. Depois de um período de lutas ferozes nos três primeiros quartos do século XVII, nas quais os monarcas asiáticos desempenharam um papel importante, a superioridade portuguesa foi dissipada.

O Samorim preparou uma grande frota de navios para se opor aos portugueses, mas em março de 1506 Lourenço de Almeida (filho de Francisco de Almeida) foi vitorioso em uma batalha de mar na entrada do porto de Cananor, sendo a Batalha de Cananor, um revés importante para a frota do Samorim.

Em 1507 a missão de Almeida foi reforçada pela chegada da esquadra de Tristão da Cunha. A esquadra que Afonso de Albuquerque tinha, no entanto, separa-se da de Tristão da Cunha na África Oriental e foi conquistando territórios de forma independente no golfo Pérsico. Em março 1508, uma esquadra portuguesa, sob o comando de Lourenço de Almeida foi atacada por um combinado na Batalha de Chaul. Lourenço de Almeida perdeu a vida depois de uma briga feroz nesta batalha. A resistência de Mamluk foi, no entanto, definitivamente derrotada na Batalha de Diu.

Em 1510 Afonso de Albuquerque derrotou os sultões de Bijapur, numa disputa entre a soberania do território de Timayya, o que levaria ao estabelecimento dos portugueses em Goa. Goa tornava-se, assim, o centro do governo da Índia e o local de residência do vice-rei da Índia. Entretanto, os portugueses conquistavam vários territórios aos sultões do Guzerate. Damão é ocupada em 1531, formalmente cedido em 1539. Diu em 1535.

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Um pouco da história pregressa de Goa

Em 1347, Goa foi disputada por vários impérios em batalhas sangrentas. Por volta do século X, prosperando com o comércio dos árabes, caiu sob o domínio islâmico do Sultanato de Deli. Muitos templos a deuses hindus foram destruídos. A lembrança do Império Mauria (321–185 a.C.) há muito que se tinha esfumado. Em 1469, Goa foi conquistada pelo Sultanato de Bamani. Em 1490, é o Sultanato de Bijapur que passa a governar, inicialmente uma província do Sultanato de Bamani que declarou a independência. O seu fundador foi Iúçufe Adil Xá, que era chamado de Hidalcão pelos portugueses. Inicialmente, Bijapur ainda repeliu a invasão portuguesa de Goa. Mas em 1510 acabaria por perder para os portugueses após nova investida liderada por Afonso de Albuquerque. Embora geralmente rivais, os sultanatos aliaram-se em 1565 aos portugueses contra o reino hindu de Vijayanagar, a que os portugueses chamavam Bisnaga. Os sultanatos foram posteriormente conquistados pelo Império Mogol.

O Império Mogol, Império Mugal ou Império Mogul aqui esteve entre 1526 e 1857 (com um interregno entre 1540 e 1555), tendo dominado a Índia quase toda. A designação "Mogol" parece ter sido dada apenas no século XIX, dado o seu fundador - Babur - ser descendente de Gengis Khan. O Império Mogol foi estabelecido com a ajuda dos otomanos e os safávidas.
 Esta estrutura imperial durou até 1720, até pouco depois da morte do último grande imperador, Aurangzeb. Foi extinto em 1857 pelo Império Britânico. Os governantes de Deli que tinham fugido para o Leste da Índia em 1540. Mas os sucessores de Sher Xá revelaram-se incapazes de construir um império coeso no Norte da Índia, e os timúridas regressaram a Deli em 1555. Foi o reinado de Akbar (1555–1605), neto de Babur, que assistiu à verdadeira fundação do império Mogol dos timúridas. Akbar lançou-se numa série de conquistas territoriais que poria quase todo o subcontinente, exceto o extremo sul, sob seu domínio.

Esse domínio não seria um despotismo transitório, nem o império de um flibusteiro que se desintegraria tão depressa como fora erguido. Pelo contrário, Akbar recorreu às tradições timúridas para construir um sistema imperial mais imponente e duradouro do que todos os outros que os anteriores governantes muçulmanos na Índia tinham sido capazes de criar. Akbar apresentou-se, não como um rei-guerreiro muçulmano, mas como monarca absoluto de uma população vassala e diversificada. A sua genealogia oficial reivindicava a ascendência, não só de Tamerlão, mas também de Gengis Khan, e, por conseguinte, o seu legado como «conquistadores do mundo». 

A cultura da corte Mogol, sobretudo a sua arte e literatura, inspirava-se em modelos persas ou centro-asiáticos. O persa era a língua da vida intelectual e do governo. A vida e a paisagem do Irão (e não as da Índia) inspiravam os poetas mogóis, que evocavam um mundo longe «das influências poluidoras dos povos subjugados». Tal como Tamerlão, Akbar empreendeu um grandioso projeto de construção: a efémera capital imperial em Fatehpur Sikri foi a sua obra mais admirável. O regime de Akbar era cosmopolita e eclético, honrando a influência da Ásia Central como grande entreposto cultural. É até possível que a sua tentativa frustrada de estabelecer um governo mais centralizado entre 1570/80 (que levou à grande revolta de 1580/82) tivesse sido indiretamente inspirada no sistema chinês de burocracia meritocrática retransmitido através de Samarcanda. Numa atitude que se tornou famosa, Akbar rejeitou a distinção islâmica entre os fiéis muçulmanos, a umma, e os infiéis. Aboliu a jizya (imposto individual sobre os não muçulmanos), e considerou até a instituição de uma nova síntese religiosa que juntava islamismo com hinduísmo.

Os comerciantes indianos mantinham uma vasta rede com Bukhara, Ispaão e até com a Astracã da Rússia moscovita. A manufatura artesanal, sobretudo de têxteis, estava amplamente disseminada pelas zonas rurais, e algumas estimativas indicam que a capacidade de fabrico da Índia era muito superior à da Europa. Os mogóis constituíram um estímulo não só para o comércio interno, mas também para o comércio externo. O comércio inter-regional tornou-se mais barato e mais fácil com a pax mogol, e a conveniência e segurança das viagens no interior do país foi notada pelos visitantes europeus. 
Na realidade, os governantes mogóis trouxeram consigo a tradição centro-asiática de proteger e promover o comércio (os governantes da Ásia Central eram os guardiões da Rota da Seda). Construíram fortalezas e caravançarais, fundaram novas cidades e expandiram antigos centros de comércio. À data da morte de Akbar [1542-1605], existiam poucas razões para pensar que as bases económicas do poder mogol se revelariam incapazes de sustentar um grande Estado imperial e a cultura islâmica que este representava.

sábado, 29 de julho de 2023

A Batalha de Sekigahara




A Batalha de Sekigahara, ou popularmente conhecida como a "Divisão do Reino", foi o conflito decisivo ocorrido em 15 de setembro de 1600 (data do antigo calendário chinês, que corresponde a 21 de outubro do atual calendário gregoriano), que abriu caminho para a ascensão do Xogum Tokugawa ao poder do Japão. Após o seu desfecho, demorariam apenas 3 anos para Tokugawa consolidar o seu poder sobre o clã Toyotomi, da casa de Osaka, e os outros daymios contrários à casa de Edo dos Tokugawa. A Batalha de Sekigahara é amplamente considerada como o começo não oficial do Xogunato Tokugawa - o último xogunato que exerceu controlo sobre o Japão. Após o conflito, o Japão viveu um longo período de paz.

É a partir deste acontecimento que James Clavell, escritor e diretor de cinema britânico de origem australiana, que escreve o romance Shōgun publicado em 1975, e que depois passou a uma série televisiva de 5 horas, vista pelos olhos de um piloto inglês - John Blackthorne - cujos atos heroicos lembram as façanhas de William Adams
John Blackthorne é capitão do Erasmus, um navio holandês que naufragou na costa do Japão. Ele e poucos dos sobreviventes da embarcação holandesa foram capturados por ordem do samurai Omi-san que os manteve aprisionados vários dias no buraco, até que os marinheiros soubessem se comportar de forma civilizada (pelos olhos dos japoneses). O daymio de Omi-san, Yabu-san, chega e resolve executar aleatoriamente um dos navegadores cozinhando-o vivo. Por sugestão de Omi, Yabu, decide guardar as armas e o dinheiro que estavam a bordo do Erasmus em favor próprio, mas é traído por um de seus samurais que o denuncia a Toranaga (futuramente senhor e daymio, mais poderoso que Yabu), o que faz com que Yabu dê todos os bens para o seu senhor. Como os japoneses não conseguiam pronunciar seu nome, Blackthorne foi chamado de Anjin, que significa piloto.

Por lá anda um padre jesuíta português, que faz o papel de tradutor quando o piloto é interrogado por Toranaga. 
Blackthorne, sendo originário de um país protestante, joga com isso para deixar ficar mal o padre jesuíta junto do daymioToranaga fica surpreendido ao saber que há dois tipos de cristianismo entre os países europeus que se odeiam. A entrevista acaba quando chega Ishido, o principal rival de Toranaga, que quer saber o que se passa com o "bárbaro" piloto.

Toranaga então manda o piloto para a cadeia acusado de pirataria para mantê-lo afastado de Ishido. Na prisão, Blackthorne conhece um padre franciscano que lhe conta detalhes sobre as conquistas jesuíticas e as trocas com o Navio Negro. Os japoneses necessitavam da seda chinesa, porém eles não podiam negociar com os chineses diretamente. Os portugueses atuavam como intermediários, embarcando as mercadorias no Navio Negro, e assim obtendo muito lucro. Com a ajuda do padre, Blackthorne começa a aprender o japonês básico. Após quatro dias de cativeiro, Blackthorne é tirado da prisão pelos homens de Ishido. Toranaga volta a capturar o piloto das mãos de seu rival. Em sua próxima entrevista, Toranaga utiliza Mariko como tradutora, uma japonesa convertida ao cristianismo que se sente dividida entre a nova fé e a sua lealdade a Toranagapor ser samurai.

Aos poucos Blackthorne vai-se adaptando aos japoneses e sua cultura, e muitas vezes aprendendo a respeitá-la. Os japoneses, por outro lado, se sentem cada vez mais incomodados com a presença de Blackthorne, mas ao mesmo tempo ele é de valor inestimável devido ao seu conhecimento do mundo. Algo que faz com que os japoneses comecem a pensar de outra forma. Blackthorne mostrou coragem de ter tentado suicídio para não perder a honra, o que deixou os japoneses impressionados. A partir daí os japoneses começaram a respeitá-lo mais e ele recebeu o estatuto de samurai e hatamoto. Quanto mais tempo Blackthorne passava com Mariko, mais ele a admirava. O piloto fica dividido entre sua afeição por Mariko (que é casada com um poderoso samurai, Buntaro), sua crescente lealdade para com Toranaga, e seu desejo de voltar a navegar a bordo do Erasmus para capturar o Navio Negro.

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William Adams, também conhecido no Japão como Anjin-sama, foi o primeiro navegador inglês a chegar ao Japão e aí morreu em 16 de maio de 1620 aos 55 anos de idade. 
Logo após chegar ao Japão, se tornou um importante conselheiro do xogum Tokugawa Ieyasu para a construção dos primeiros navios japoneses segundo as técnicas do Ocidente.

Na sua ascensão do Xogunato, Tokugawa Ieyasu redistribuiu as terras e feudos dos participantes, geralmente recompensando os que o ajudaram e desapropriando, punindo, ou exilando os que lutaram contra ele. Ao fazê-lo, ele ganhou controlo de muitos territórios que eram de Toyotomi.

Na época, a batalha fora considerada apenas como um conflito interno entre vassalos de Toyotomi. Entretanto, após Ieyasu se tornar Xogum, uma posição deixada vaga desde a queda do Xogunato Ashikaga 27 anos antes, a batalha foi vista como um evento de maior importância. Em 1664, Hayashi Gahö, historiador de Tokugawa e reitor de Yushima Seido, resumiu as consequências da batalha: "Malfeitores e bandidos foram expurgados e todo o território entregue ao Senhor Ieyasu, louvando o estabelecimento da paz e exaltando sua virtude marcial." Esta mudança na hierarquia oficial também inverteu a posição de subordinação do clã Tokugawa, tornando assim o clã Toyotomi subordinado do clã Tokugawa.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Utensílio encontrado na garganta de Olduvai, Tanzânia, com 2 milhões de anos





Esta pedra trabalhada, que está no Museu Britânico, era uma ferramenta de corte, um dos objetos mais antigos que os seres humanos produziram de forma consciente. Esta pedra lascada da África — onde hoje fica a Tanzânia — é o começo de tudo.

Em 1931, um jovem arqueólogo, chamado Louis Leakey, partiu numa expedição patrocinada pelo British Museum com destino à garganta de Olduvai, uma fenda profunda na savana do norte da Tanzânia, não muito longe da fronteira do Quénia. Ela faz parte do vale do Rift, no Leste da África, um imenso rasgão na superfície da Terra com milhares de quilómetros de comprimento. Foi em Olduvai que Leakey examinou camadas de rochas expostas que agem como uma série de cápsulas do tempo. Leakey alcançou uma camada em que as pedras eram moldadas também por algo mais: mãos humanas. Elas foram encontradas ao lado de ossos, e era óbvio que tinham sido transformadas em utensílios para cortar carne e quebrar ossos de animais mortos na savana. Em seguida, indícios geológicos estabeleceram, sem sombra de dúvida, que a camada em que os utensílios foram encontrados tinha mais ou menos dois milhões de anos.

As escavações de Leakey apresentaram os mais antigos objetos produzidos pelo homem de que se tem notícia em qualquer parte do mundo, em qualquer época, e demonstraram que não apenas os seres humanos tinham origem na África, mas a cultura humana também. Esta ferramenta de corte feita de pedra foi um dos objetos que Leakey encontrou. Ao pegá-lo, a primeira reação é achá-lo muito pesado, e é claro que o peso dá potência ao golpe. A segunda é perceber que cabe sem dificuldade na palma da mão, e numa posição em que um ângulo afiado vai do dedo indicador ao punho. Os primeiros humanos a usarem utensílios de corte como este provavelmente não eram caçadores, mas oportunistas brilhantes: esperavam que leões, leopardos ou outros animais matassem suas presas e então entravam em cena com suas ferramentas de corte, garantiam a carne e o tutano e levavam como prémio a proteína. Gordura de tutano é bastante nutritiva — combustível não apenas para a força física, mas também para um grande cérebro. O cérebro é um mecanismo extremamente faminto de energia. Embora corresponda a apenas 2% do peso do corpo, consome 20% de toda a energia que ingerimos e requer alimentação constante.

Nossos ancestrais de quase dois milhões de anos atrás garantiam o futuro dando ao cérebro o alimento de que ele precisava para crescer. Quando predadores mais fortes, mais rápidos e mais ferozes descansavam à sombra depois de matar suas presas, os humanos primitivos podiam sair à procura de comida. Usando ferramentas como esta para obter tutano, a parte mais nutritiva da carcaça, deram início a um antigo círculo virtuoso. Esse alimento para o corpo e para a mente significava que os indivíduos mais astutos, de maior cérebro, sobreviveriam para gerar crianças de cérebro maior, capazes, por sua vez, de fabricar utensílios mais complexos.

O cérebro humano continuou a evoluir durante milhões de anos. Um dos mais importantes avanços foi ficar assimétrico à medida que passava a lidar com todo um novo conjunto de diferentes funções: lógica, língua, os movimentos coordenados necessários para fabricar ferramentas, imaginação e pensamento criativo. Os hemisférios esquerdo e direito do cérebro humano adaptaram-se para se especializar em diferentes habilidades e tarefas — bem diferente do que ocorreu com o cérebro dos macacos, que continua não apenas menor, mas simétrico. Esta ferramenta de corte representa o momento em que nos tornamos distintamente mais espertos, movidos por um impulso não só de fazer coisas, mas também de imaginar como “melhorar” as coisas.

Este objeto está na base de um processo que se tornou quase obsessivo entre os seres humanos. É algo criado a partir de uma substância natural com um propósito específico, e, de certa maneira, quem fez o objeto tinha uma noção do que era preciso fazer. Aquelas lascas extras no gume da ferramenta de corte revelam que, desde o início, nós — ao contrário de outros animais — sentimos o desejo de fazer coisas mais sofisticadas do que o necessário. Objetos transmitem poderosas mensagens sobre quem os produz, e a ferramenta de corte é o começo de uma relação entre os seres humanos e as coisas que criaram.

A partir do momento em que nossos ancestrais começaram a fabricar ferramentas como esta, ficou impossível para as pessoas sobreviver sem os objetos que produzem; nesse sentido, fabricar coisas é o que nos torna humanos. As descobertas de Leakey na terra quente do vale do Rift tiveram como resultado mais do que simplesmente obrigar os humanos a recuar no tempo: deixaram claro que todos nós descendemos desses ancestrais africanos e que cada um de nós é parte de uma gigantesca diáspora africana — todos trazemos a África nos genes, e todas as nossas culturas começaram ali.

As informações de que dispomos nos dizem que viemos de algum ponto no Leste da África. De tão acostumados que estamos a ser divididos por fronteiras étnicas, seguindo fronteiras raciais, e a procurar razões para sermos diferentes uns dos outros, deve ser surpreendente para alguns perceber que o que nos diferencia é quase sempre muito superficial, como a cor da pele, a cor dos olhos, a textura do cabelo, mas que, essencialmente, todos viemos do mesmo tronco, temos a mesma origem.


quinta-feira, 20 de julho de 2023

O tempo em que Roma passou a Império com pirataria à mistura


A pirataria foi traço marcante da vida no Mediterrâneo durante a maior parte da Antiguidade Clássica. Quando havia reinos com poderosas marinhas, os piratas eram normalmente reduzidos a um mínimo e até, por curto período, erradicados. Contudo, quando Roma derrotou a Macedónia e o Império Selêucida, aliado ao inexorável declínio do Egito Ptolemaico, deu fim às armadas que tinham controlado a pirataria no Mediterrâneo. Muitas das comunidades costeiras da Ásia Menor, especialmente na Cilícia, em Creta e em ilhas menores, começaram a fazer incursões marítimas que propiciavam altos lucros no saque e no pagamento de resgates, uma adição bem compensatória dada as magras receitas da pesca e da agricultura. 
A propagação da pirataria foi estimulada quando Mitrídates, do Ponto, deu aos chefes piratas dinheiro e navios de guerra para auxiliá-lo na sua guerra contra Roma. Apesar de virem de muitas comunidades diferentes, e de não possuírem hierarquia política, os piratas raramente lutaram entre si e, quase sempre, enviavam forças ou dinheiro para auxiliar seus pares sob ameaça. 

Em 74 a.C., o Senado de Roma enviou o pai de Marco António para combater os piratas. Para isso, recebeu amplos poderes e consideráveis recursos. Mas dada a sua inabilidade foi malsucedido, tendo sido derrotado numa batalha naval travada nas costas de Creta em 72 a.C.. Ele morreu pouco depois da sua derrota, e, em 69 a.C., o cônsul Quinto Cecílio Metelo foi enviado para derrubar as fortalezas de Creta. Ele demonstrou ser um comandante competente, mas a campanha envolvia sitiar uma cidade murada após outra, e o progresso foi lento. Apesar do seu sucesso, o problema provocado pelos piratas tornou-se ainda pior, e, uma ocasião, dois pretores foram sequestrados juntamente com os seus lictores. Toda a sua escolta foi atacada quando viajavam pela região costeira da Itália, ao passarem pela cidade de Ostia.

Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) enquanto jovem foi apenas um dos romanos proeminentes a ser tomado como refém e a ter de pagar resgaste aos piratas. Viajar tornava-se difícil. O comércio começou a ser afetado. A população da Itália e, em especial, da cidade de Roma, precisava de mais produtos para além do que produzia localmente. Dependia maciçamente da importação de cereais da Sicília, do Egito e do norte da África. As atividades dos piratas começaram a afetar essa linha de abastecimento, o que tornava os preços dos produtos incomportáveis.

Em meados da década de 60 a.C., Pompeu (106 a.C. - 48 a.C.) juntou-se a Crasso e a Júlio César na aliança político/militar extraoficial conhecida como Primeiro Triunvirato. Esta aliança foi selada com o casamento de Pompeu com Júlia, a filha de Júlio César. A aliança entre Pompeu e Crasso não durou muito, e o mandato de ambos não produziu nada de significativo. Pompeu cumpriu a promessa de restaurar o poder dos tribunos, retirando as restrições que Sula havia estabelecido durante o seu mandato. Como os dois cônsules tinham concluído uma guerra bem-sucedida, nenhum demonstrou desejo de tomar uma província após a conclusão do seu ano no cargo. Pompeu havia, agora, conferido legitimidade política à sua riqueza e ao seu prestígio e estava satisfeito, naquele momento, com a posição que conquistara, a de um dos membros mais proeminentes do Senado. Logo descobriu, como havia acontecido com Cipião Africano, que a juventude passada no campo de batalha e à frente do exército não lhe tinha dado tempo para adquirir uma educação formal necessária para lidar com a política em Roma.

No começo do seu consulado, Pompeu pedira a Marco Terêncio Varro, descendente do homem que perdera a Batalha de Canas, sábio notável que escrevera vários estudos abrangentes, que lhe preparasse um manual sobre os procedimentos e convenções senatoriais. Agora que não podia mais exigir obediência nem derrotar seus oponentes em batalha, Pompeu encontrou dificuldades em conseguir o que queria ao transformar o seu prestígio e riqueza em influência política real. Crasso usou o seu dinheiro, com grande habilidade, emprestando-o a muitos senadores que lutavam para atingir os altos cargos da carreira política, e, com o tempo, conseguiu que a imensa maioria do Senado lhe ficasse nas mãos. 

Pompeu não tinha nem experiência, nem instinto para o uso de estratagemas a fim de subir as escadas da elite. Sua oratória era medíocre e, conforme o tempo corria, ele ficava cada vez menos no Senado e raramente intervinha a favor de quem quer que fosse nos tribunais. Muito sensível a críticas e hostilidades, preferiu evitar qualquer dano ao seu prestígio afastando-se da vida pública. Entretanto, os anos iam passando e alimentando o ritmo da sua frustração. Os grandes feitos que realizara não lhe garantiram a proeminência que acreditava merecer. Como Mário, percebeu que a adulação do povo apenas durava enquanto voltasse periodicamente à cidade vitorioso do campo de batalha. Enquanto estivesse travando uma grande guerra conseguia eclipsar verdadeiramente o restante Senado. Assim, Pompeu teve de procurar outra guerra importante a travar. A oportunidade surgiu em 67 a.C. A escassez de trigo tornou-se crítica e o tribuno Aulo Gabínio propôs a recriação da grande província. De início, Gabínio não pensou em Pompeu, a pessoa obviamente mais qualificada para receber tal comando. Mas já havia uma forte ligação entre os dois homens. Segundo Cícero, Gabínio estava muito endividado, e Pompeu aproveitou para conquistar o apoio de Gabínio ajudando-o financeiramente. A Lex Gabinia foi aprovada pela Assembleia Popular e Pompeu recebeu o imperium proconsular não apenas do Mediterrâneo, mas também de uma margem de 80 Km da costa até ao interior. Não está bem claro se seu imperium era igual ou superior ao dos outros procônsul, mas era provavelmente superior.

Para assisti-lo, Pompeu recebeu 24 legados. Todos tinham exercido um comando militar no passado ou, pelo menos, haviam sido pretores. Cada qual auxiliado por dois questores. Suas forças viriam a constituir uma armada de 500 navios de guerra, apoiada por um exército composto por uma infantaria de 120 mil homens e uma cavalaria de 5 mil cavaleiros, além de dinheiro e recursos em alimentos e outros materiais essenciais para manter tal força. Muitas dessas tropas não eram, provavelmente, bem treinadas e disciplinadas, mas arregimentadas à pressa entre a população local. Apesar da vasta escala, essa seria uma ação essencialmente policial. Pompeu precisava de grande quantidade de soldados de modo a poder pressionar os piratas em todas as direções simultaneamente. Apenas uma pequena fração das suas forças deveria enfrentar combates árduos.

Foi o prestígio de Pompeu que garantiu que tantos recursos fossem colocados à sua disposição, um comando sem precedentes em termos daquela escala. De maneira surpreendente, os tribunos conferiram-lhe poderes de cônsul durante este mandato. Apenas uma minoria de generais tinham tal apoio popular suficiente para subverter o comum processo senatorial de alocação de províncias e recursos, como foi dado a Pompeu. A fé que o povo tinha nele era tanta que o preço dos cereais no Fórum caiu logo que ele foi nomeado. Mesmo os muitos senadores - que eram relutantes em conceder tantos poderes a um único homem, tanto mais um homem cujo prestígio e riqueza suplantavam o de todos os seus rivais - parecem ter reconhecido que essa era a melhor maneira de enfrentar o flagelo da pirataria. Os legados de Pompeu formavam um grupo muito distinto, constituído basicamente de homens vindos de famílias nobres, tradicionais e estabelecidas.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

A Batalha de Adrianópolis





A Segunda Batalha de Adrianópolis (atualmente Edirne na Turquia) foi travada entre os romanos liderados pelo imperador Valente e tribos germânicas, em agosto de 378, em que os romanos saíram derrotados. Foi uma estrondosa derrota em que o próprio imperador Valente perdeu a vida numa província romana semiárida do Oriente, na Trácia. Este acontecimento encorajou os godos mais tarde, em 410, a saquearem Roma, prenunciando o colapso final do Império Romano do Ocidente.

Muitos historiadores concordam que boa parte da culpa pela trágica derrota se deveu à má liderança do imperador Valente, e não à inépcia do exército romano. Em sua História Romana, o historiador do século IV d.C. Amiano Marcelino disse: "Os anais não registam outro massacre em batalha como esse, à exceção daquele em Canas, embora mais de uma vez os romanos, enganados pelos ventos adversos da fortuna, tenham adentrado numa época de insucessos nas suas guerras...".

As hostilidades entre os godos e os romanos começaram de maneira bem inofensiva. À medida que os hunos se moviam pela Ásia em direção a Oeste causando destruição, os visigodos, que somavam mais de 200.000 indivíduos, saíram do atual território da Ucrânia em direção à fronteira do Império Romano e, em 376 d.C., cruzaram o rio Danúbio e se estabeleceram na Trácia. Como os hunos continuaram a avançar, as lideranças godas e romanas fizeram uma aliança, de modo que às tribos fosse, enfim, dada a permissão de aí se estabelecerem permanentemente. Era uma aliança impopular entre muitos romanos. No entanto, a permissão foi dada com uma condição: em troca de terras e provisões, os godos comprometiam-se a enviar soldados ao exército romano. Outras exigências foram feitas logo depois por inescrupulosos comandantes romanos (Lupicino e Máximo): enviar as crianças para trabalharem como escravos e entregar todas as armas.

Encarando as provisões inadequadas que levou à fome generalizada, os godos se insurgiram contra os romanos. Após a malograda tentativa de assassinar os líderes godos Fritigerno e Alavivo, o dito Fritigerno e seus companheiros tervíngios entregaram-se a pilhar os campos. Conforme as incursões continuavam, os romanos e os godos acabaram por se enfrentar na Batalha de Marcianópolis em 376 d.C. e na Batalha Ad Salices (ou Batalha dos Salgueiros) em 377 d.C. Em 378 d.C., os contínuos reveses se mostraram demasiado embaraçosos para os líderes romanos, em especial para o imperador Valente, que estava envolvido em batalhas mais a leste contra os persas. Porém, quando os godos se aproximaram de Constantinopla, Valente atendeu aos apelos desesperados dos seus cidadãos regressando à cidade para marchar contra Fritigerno.

A derrota em Adrianópolis viria a ser o capítulo final de um reinado turbulento. Em 364 d.C., o imperador romano Valentiniano I (r. 364-375 d.C.) havia indicado o seu irmão mais novo para ser imperador em dueto, e governar o Oriente em Constantinopla. A impopularidade de Valente advinha, sobretudo, do seu apoio aos cristãos arianos que enfureceu tanto os não cristãos como os cristãos tradicionais. Com a morte de Valentiniano em 375 d.C., quem lhe sucedeu foi Graciano, seu filho com 16 anos de idade. Embora fosse considerado de início muito jovem e inexperiente, Graciano provaria ser um líder hábil e, ao lado de hábeis comandantes, obteve considerável sucesso na Gália. Infelizmente para Valente, ele não conseguira enviar ajuda contra os godos em Adrianópolis.

Assim, convergiram para a derrota vários fatores entre os quais: baixo moral - o exército romano estava cansado, faminto e sedento quando chegou a Adrianópolis; reconhecimento insuficiente e inadequado - Valente não tinha qualquer apetência para avaliar o potencial dos 10.000 cavaleiros que se juntariam depois a Fritigerno; a inadequadamente treinada cavalaria romana - a cavalaria romana realizou uma série de ataques desorganizados e malogrados contra os godos. Esses ataques malogrados deixaram o flanco esquerdo romano desprotegido. Quando Fritigerno e seus homens atacaram os romanos pela frente e pelo lado, o caos se instalou. Os esmagadores números das forças dos godos fizeram com que os soldados romanos fugissem do campo de batalha. Valente foi deixado sozinho com apenas um punhado de homens; seu corpo jamais foi encontrado.

Em 382 d.C., o imperador Teodósio I e os godos acordaram a paz por meio de uma aliança que garantia terras em troca de soldados para servirem no exército romano. A derrota em Adrianópolis demonstrou a fraqueza militar dos romanos, de modo que nas décadas seguintes o Império Romano Ocidental prosseguiu numa espiral descendente até que Alarico, líder visigodo e ex-comandante romano, viu que tinha o caminho aberto para saquear Roma em 410 d.C. O último imperador do Ocidente, Rómulo Augusto, abriu mão do trono em 476 d.C. Mas o Império Oriental persistiu até ser tomado pelos turcos otomanos em 1453.

A partir do século III em diante Roma foi declinando lenta e progressivamente, de modo que o ano de 476 representa o epílogo de uma morte anunciada confirmada pelo último imperador ocidental, Rómulo Augusto. Para o dia-a-dia da maioria da população o evento em si teve pouco impacto. Os imperadores vinham perdendo o seu poder real. Este acontecimento do lado ocidental do império não pode ser o verdadeiro acontecimento responsável pelas grandes transformações que se verificaram no Império Romano a partir dessa data. Roma é saqueada pelos godos em 410 d.C., guerreiros germânicos que já tinham entrado no exército romano. De modo que o contexto era mais de uma guerra civil do que de uma invasão estrangeira. Durante o século V, as províncias ocidentais do império, como, por exemplo, a Britânia, já haviam seguido o seu próprio rumo. Ou foram invadidas e transformadas em reinos liderados por chefes guerreiros germânicos, muitos dos quais que tinham estado ao serviço de Roma. Dessa forma, foi assim que: os visigodos tomaram conta da Hispânia; os francos da Gália; os ostrogodos da Itália; os vândalos da Sicília e do Norte de África. Enquanto o Império Romano do Ocidente ruía, o do Oriente continuava com a sua capital em Constantinopla a administrar um território que incluía os Bálcãs, a Grécia, a Ásia Menor, o Egito e a Síria. De diversas maneiras, passava a ser uma unidade mais coerente.

O Império Romano do Oriente (normalmente chamado, pela convenção moderna, de Império Bizantino) veio a ter de novo a estabilidade política que faltara durante muito tempo. Por volta do século VI era raro que um imperador comandasse em pessoa uma campanha, e sua preocupação em outorgar o comando de seus exércitos a outros é uma indicação da maior segurança pessoal de que gozavam. As atividades dos generais eram observadas de perto em busca do menor sinal de deslealdade. Os imperadores orientais eram capazes de conduzir ativamente a guerra em mais de um palco simultaneamente, de uma maneira que dificilmente fora possível durante séculos.

Os recursos militares disponíveis tinham diminuído, mas ainda eram consideráveis. Em termos de território, o Império do Oriente era mais ou menos equivalente ao seu maior rival, a Pérsia sassânida, embora os romanos – pois era assim que os bizantinos se viam e se chamavam – fossem mais populosos e provavelmente mais ricos. A redução do seu território alterou a atitude dos imperadores romanos em relação ao mundo exterior, e havia certamente uma tendência a dirigirem-se ao rei persa como um igual. Tal disposição fazia contraste marcante com a diplomacia de séculos anteriores, a qual sempre buscara enfatizar a enorme superioridade de Roma sobre as outras nações. Contudo, pelo menos alguns imperadores orientais continuaram a nutrir a ambição de reviver o antigo poderio do império, e, durante o reinado de Justiniano (527-565 d.C.), um esforço concentrado foi feito no sentido de reconquistar os territórios perdidos no Mediterrâneo ocidental. O Norte de África, a Sicília e a Itália foram reconquistados numa série de campanhas, embora tais conquistas não tenham sido duradouras. Um dos comandantes mais proeminentes dessas operações foi Belisário, que teve a sua primeira experiência como general nas guerras da fronteira oriental.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Entre o Cáucaso e a Anatólia - desde os protoindo-europeus






O nome protoindo-europeus que foi dado aos povos que no início do século XX foi designado por caucasianos, é filiado no trabalho dos linguistas ou filólogos que se basearam no estudo etimológico das línguas faladas para os delimitar à cultura e etnia dos povos. Assim, a língua indo-europeia foi a língua derivada de um povo pré-histórico da Idade do Cobre e do Bronze que emergiu de uma área incerta à volta da região a que foi dado o nome de Cáucaso.




No entanto, hoje admite-se que a reconstrução linguística está repleta de tantas incertezas significativas que se presta para uma larga margem de especulação. De acordo com alguns arqueólogos, os falantes de protoindo-europeu não podem ser considerados como sendo um povo ou tribo, única e identificável, mas antes um grupo impreciso de populações ancestrais ainda parcialmente pré-históricas, distintas dos indo-europeus da Idade do Bronze. Os protoindo-europeus terão vivido há 6.000 anos no extremo da estepe para lá do Mar Negro e do Mar Cáspio. Há cerca de 4.000 anos os seus descendentes desdobrados em várias tribos atravessaram o Mar Cáspio, desceram o Cáucaso, atravessaram a Anatólia e chegaram à Grécia. De muita coisa que pensamos saber hoje recebemo-lo da civilização da Grécia Clássica ou Antiga.




Por volta de 1300 a.C., os Cimérios, que viviam a norte do Cáucaso, chegaram à Anatólia empurrados pelos Citas. Os Cimérios provavelmente saquearam Urartu, por volta de 714 a.C. Porém, em 705 a.C., após serem repelidos por Sargão II da Assíria, rumaram para a Anatólia, onde, cerca de 695 a.C. conquistaram a Frígia. Em 652 a.C., após conquistar Sárdis, capital da Lídia, atingiram o seu apogeu. Seguiu-se então um período de rápido declínio, até à sua derrota final, na década de 630 a.C., quando foram derrotados pelo rei lídio Aliates. Deixam então de ser mencionados pelas fontes históricas, tendo-se fixado, provavelmente por esta altura, na Capadócia.




 Há um outro povo que merece ser aqui falado, que é o povo eslavo. Os eslavos são um outro povo que se ramificou do povo de língua indo-europeia que se estendeu por toda a Europa Oriental até aos Balcãs, e que posteriormente também migrou até à Sibéria. Os povos eslavos são classificados geográfica e linguisticamente em eslavos ocidentais [checos, eslovacos, morávios, polacos, silesianos e sórbios]; eslavos orientais [bielorrussos, russos, rutenos e ucranianos]. De acordo com um estudo genético feito em 2007 baseado nos haplogrupos do cromossoma Y, o grupo de homens eslavos se divide em dois grupos principais; um abrange todos os eslavos ocidentais, eslavos orientais e duas populações eslavas meridionais masculinas (croatas ocidentais e eslovenos), enquanto que o outro grupo abrange todos os homens eslavos meridionais restantes.

Ora, acontece que esta região, ocupada pelos eslavos, é mais tarde, entre os séculos X e XII, invadida pelos Víquingues, também conhecidos por Varegues, o povo da Escandinávia que seguindo o curso dos rios atravessou o leste europeu até chegarem a Constantinopla e Bagdade. Entretanto acabaram por se fixar onde hoje é a Bielorrússia, a Ucrânia e parte da Rússia ocidental. 




De acordo com a Primeira Crónica da Rússia de Kiev compilada por volta de 1113 os Rus' eram viquingues que haviam partido de Uplândia, que fica onde hoje é a Suécia. Rurik deu início à dinastia que do qual resultou o nome Rus'. Envolvendo-se em atividades de comércio e pirataria com recurso a mercenários, os varegues desciam os rios da Gardarícia, nome que eles davam às terras do Rus' nas sagas nórdicas. Controlavam a rota comercial do rio Volga - que ligava o Mar Báltico ao Mar Cáspio. E a rota comercial do rio Dniepre que levava a Constantinopla e o Mar Negro. Coincidindo com o declínio geral da Era Viquingue, o influxo dos nórdicos foi diminuindo até serem assimilados pelos russos. Na Rússia, o termo 'varegue' continuou a ser um sinônimo para sueco até ao fim do século XVI. Contrastando com a intensa influência escandinava na Normandia e nas Ilhas Britânicas, a cultura varegue não sobreviveu no Leste. Ao contrário, as classes dominantes varegues das duas poderosas cidades-estado de Kiev e Novogárdia sofreram um intenso processo de aculturação eslávica no fim do século X. O nórdico antigo ainda foi falado num determinado distrito de Novgorod até ao século XIII.

Depois veio a invasão empreendida por um vasto exército de nómadas mongóis iniciada em 1223 contra os Estados de Rus'. Tal invasão precipitou a sua fragmentação e influenciou o desenvolvimento e ascensão do principado de Moscovo, a partir do qual se constrói a História da Rússia. A campanha começou pela Batalha do Rio Calca em maio de 1223, que resultou na vitória dos mongóis sobre as forças de diversos principados da Rus'. Os mongóis recuaram, mesmo assim. Uma invasão completa da Rus' por Batu Cã aconteceu de 1237 a 1242. A invasão acabou com o processo de sucessão após a morte de Oguedai Cã. Todos os principados de Rus' foram forçados a se submeter e fazer parte do Império da Horda de Ouro. Em alguns desses principados a dominação durou até 1480.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O choque da expansão dos russos com os cultos xamânicos da Sibéria

 


Vasili Surikov
A Conquista da Sibéria por Iermak

Depois de os russos terem derrotado o kanato da Sibéria, em 1582, primeiro foram os caçadores de peles a entrar pela Sibéria dentro. Atrás deles foram mercenários, como os cossacos, comandados pelo herói russo Iermak, que foram tomando as ricas minas dos Urais para o seu patrono Stroganov. Só depois é que os soldados do czar se atreveram a construir fortalezas para cobrar tributos às tribos nativas. E mais tarde apareceram os missionários da igreja ortodoxa para catequizar o cristianismo aos siberianos, privando-os dos seus ancestrais cultos xamanísticos.

A Conquista da Sibéria por Iermak, do pintor Surikov, 1885, é uma movimentada cena de batalha entre os cossacos, com mosquetes e ícones, e os pagãos das tribos siberianas, com arco e flecha, a que não faltam os seus xamãs pra tocar os tambores. Esta obra de arte terá sido a que mais contribuiu para firmar essa imagem mítica do Império na consciência do povo russo. Inicialmente, o verdadeiro propósito era mais a conversão dos xamãs do que a conquista de terras. À semelhança dos missionários católicos em África e no Novo Mundo, essa conquista religiosa da estepe asiática foi muito importante para o Império russo.

Os Montes Urais, que oficialmente dividiam a estepe europeia da asiática, fisicamente não passavam de uma série de grandes colinas com extensas terras de estepe a separá-las. E o viajante que as atravessasse teria de perguntar onde ficava a cordilheira dos tão famosos Montes Urais. Isso se tornou muito importante no século XVIII, quando a Rússia se apresentou ao Ocidente como império europeu. Se queria intitular-se "Estado ocidental", a Rússia precisava construir uma fronteira cultural clara para se destacar do seu “outro asiático oriental”. A religião era a mais fácil dessas categorias. Todas as outras tribos não cristãs eram para todos os efeitos os "Tártaros", fosse qual fosse a sua origem e a sua fé (muçulmana, xamânica, budista). 

Em termos mais gerais, Sibéria, Cáucaso, e Ásia Central, eram conotadas como as terras dos  "bárbaros", segundo a nómina grega, que era sinónimo de “atraso”. A imagem do Cáucaso foi orientalizada, com as histórias que os viajantes contavam acerca das suas tribos selvagens. Os mapas do século XVIII consignavam o Cáucaso ao oriente muçulmano, embora em termos geográficos ficasse ao sul e em termos históricos fosse parte da antiga Arménia e Geórgia. O Cáucaso continha civilizações cristãs que datavam do século IV, quinhentos anos antes de os russos se converterem ao cristianismo. Foram os primeiros a adotar a fé cristã, mesmo antes de Constantino converter o nome da cidade Bizâncio ao nome de Constantinopla, em sua honra, que doravante passaria a ser a capital do Império Romano do Oriente.

Na imaginação do século XVIII, os Urais eram vistos como uma vasta cadeia de montanhas, como se criadas por Deus no meio da estepe para marcar o limite do mundo civilizado com o Oriente. Os russos do lado oeste dessas montanhas eram cristãos nos seus costumes, enquanto os asiáticos do lado leste eram descritos pelos viajantes russos como “selvagens”. Nos atlas russos do século XVIII a Sibéria era “Sibir” e se referiam a ela como “Grande Tartária”, título tomado emprestado do léxico geográfico ocidental. Os escritores sobre viagens falavam das suas tribos como os tungus, iacutos e buriatos, sem sequer mencionar a população russa instalada na Sibéria, embora já fosse considerável.  
Essa visão da Sibéria foi reforçada pela sua transformação num vasto campo de prisioneiros, os Gulag. Em expressões coloquiais, a palavra “Sibéria” tornou-se sinónimo de servidão penal. Onde quer que ocorresse, só havia crueldade e vida dura.

Os próprios russos de São Petersburgo mais instruídos amaldiçoavam o “atraso asiático” do seu país. Ansiavam por serem aceites como iguais pelo Ocidente, por entrar e fazer parte da linha principal da vida europeia. Mas, quando rejeitados ou quando sentiam que os valores da Rússia tinham sido subestimados pelo Ocidente, até o mais ocidentalizado intelectual russo tendia a se ressentir e a dar uma guinada para o orgulho chauvinista, asiático e ameaçador. Pushkin, por exemplo, era totalmente europeu na sua criação e, como todos os homens do Iluminismo, via o Ocidente como o destino da Rússia. Mas, quando a Europa condenou a Rússia por sufocar a insurreição polaca de 1831, ele escreveu um poema nacionalista, “Aos caluniadores da Rússia”, em que enfatizava a natureza asiática da sua terra natal, “dos penhascos frios da Finlândia aos penhascos fogosos de Colchis” (nome grego do Cáucaso).

No entanto, havia muito mais do que simples ressentimento com o Ocidente nessa orientação asiática. O Império Russo cresceu pela colonização, e os russos que foram para as zonas de fronteira, alguns para plantar ou comerciar, outros para fugir do domínio czar, tinham tanta probabilidade de adotar a cultura nativa quanto de impor o seu modo de vida russo às tribos locais. Os Aksakov, por exemplo, que se instalaram na estepe perto de Oremburgo, no século XVIII, usavam remédios tártaros quando adoeciam. Eles guardavam koumis, umas ervas especiais, numa bolsa de couro de cavalo, que consumiam acompanhado de uma dieta de gordura de carneiro. O comércio e o casamento eram formas universais de intercâmbio cultural na estepe siberiana, mas quanto mais se deslocavam para leste, mais os russos mudavam o seu modo de vida. Em Iakutsk, por exemplo, no nordeste da Sibéria, todos os russos falam a língua iacuta.

 Mikhail Volkonski, filho do dezembrista que teve papel importante na conquista e povoamento russo da bacia do Amur nos anos 1850, recorda ter estacionado um destacamento de cossacos numa aldeia local para ensinar russo aos buriatas. Um ano depois Volkonski voltou para ver como os cossacos estavam se saindo. Nenhum buriata conseguia conversar em russo, mas todos os duzentos cossacos falavam buriata fluentemente. O Império Russo se foi desenvolvendo pela imposição da cultura russa à estepe asiática, mas nesse mesmo processo muitos colonizadores também se tornaram asiáticos. Uma das consequências desse encontro foi uma solidariedade cultural com as colónias.

Potenkin, príncipe de Tauride, por exemplo, deliciava-se com a mistura étnica da Crimeia, que a Rússia arrancou das mãos do último kanato mongol em 1783. Para comemorar a vitória, o príncipe de Tauride construiu para si um palácio no estilo turco-moldavo, com cúpula e quatro minaretes, como uma mesquita. Na verdade, era típico que, exatamente naquele momento em que os soldados russos marchavam para leste e esmagavam os infiéis, os arquitetos de Catarina construíssem em Tsarskoie Selo aldeias e pagodes chineses, grutas orientais e pavilhões em estilo turco.

Grigori Volkonski, pai do famoso dezembrista, reformou-se como herói da cavalaria de Suvorov e foi para governador de Oremburgo, de 1803 a 1816. Na época, Oremburgo era um baluarte importante do Império Russo. Aninhada no sopé sul dos Montes Urais, era a porta de entrada na Rússia para todas as principais rotas comerciais entre a Ásia central e a Sibéria. Caravanas de camelos com mercadorias preciosas da Ásia, gado, tapetes, algodões, sedas e joias, passavam por Oremburgo a caminho dos mercados da Europa. Era dever do governador tributar, proteger e promover esse comércio. Ali Volkonski foi extremamente bem-sucedido, desenvolvendo novas rotas para Khiva e Bukhara, reinos algodoeiros importantes, que abriram caminho para a Pérsia e a Índia. Mas Oremburgo também era o último posto avançado do Estado imperial, uma fortaleza para defender os agricultores russos nas estepes do Volga das tribos nómadas: nogais e basquírios; calmuques e quirguizes. 

No decorrer do século XVIII, os pastores basquírios rebelaram-se numa série de revoltas contra o Estado czar quando colonos russos começaram a invadir os seus antigos pastos. Muitos basquírios se uniram ao líder cossaco Pugachev na rebelião contra o duro regime de Catarina, a Grande, em 1773–74. Sitiaram Oremburgo (história contada por Pushkin em "A filha do capitão") e capturaram todas as outras cidades entre o Volga e os Urais, saqueando propriedades e aterrorizando os habitantes. Depois de suprimida a rebelião, as autoridades czaristas reforçaram a cidade de Oremburgo. A partir dessa fortaleza, realizaram uma campanha violenta de pacificação contra as tribos da estepe. Essa campanha foi continuada por Volkonski, que também teve de lidar com um grave levantamento dos cossacos dos Urais. No trato com os dois, foi duríssimo. Por ordem de Volkonski, várias centenas de líderes rebeldes basquírios e cossacos foram publicamente açoitados, marcados na testa, e mandados para campos de prisioneiros no Extremo Oriente. Entre os basquírios, o governador passou a ser conhecido como “Volkonski o Severo”.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

A coexistência pacífica do tempo de Khrushchev





Em 1959, Khrushchev fez uma visita aos EUA, onde se encontrou com o presidente Eisenhower e cativou os americanos com a simpatia dos homens comuns. Foi propor que os países socialistas e capitalistas deixassem de lado a competição militar entre eles e se concentrassem na competição económica. Os dois sistemas (capitalismo e socialismo) podiam dar a seus cidadãos melhores condições de vida. Essa proposta foi bem recebida no Ocidente, mas gerou muitas desconfianças nos países socialistas. A China acusaria a URSS de ter abandonado a via revolucionária com a doutrina da coexistência pacífica. Segundo os maoistas da época, não havia possibilidade de conciliação com o capitalismo, pois esse é inimigo direto do socialismo e somente poderia ser derrubado pela força. E assim, nos primeiros anos da década de 1960, a China rompeu abertamente a colaboração que até aí tinha sido operada com a URSS.

A economia da URSS nas décadas de 1930, 1940 e 1950 tinha crescido a taxas três vezes superiores às dos Estados Unidos. Quando no XXI Congresso do PCUS, em 1961, Khrushchev afirmou que em vinte anos a URSS ultrapassaria os EUA economicamente (e entraria na fase do comunismo propriamente dito), o cálculo não estava de todo errado. Se realmente as taxas de crescimento dos dois países continuassem no mesmo ritmo das três décadas anteriores, em menos de vinte anos o Produto Interno Bruto da URSS ultrapassaria o dos EUA. Além disso, a URSS naquela época deu dois grandes sustos tecnológicos que apanharam de surpresa os americanos: em 1957 enviou o primeiro satélite artificial ao espaço (o Sputnik I) e em abril de 1961 o soviético Yuri Gagarin se tornou o primeiro astronauta a ir ao espaço. A URSS tinha ultrapassado os EUA no campo tecnológico mais avançado da época.




Khrushchev, para resolver a questão do aumento da oferta de alimentos, implementou, a partir de 1954, o grande esquema das “terras virgens”. O objetivo era ocupar rapidamente as fronteiras agrícolas ainda não exploradas de modo intensivo na URSS, principalmente no Cazaquistão e na região de Altai, na Rússia. Esta campanha enorme levou 300 mil pessoas de todo o país para abrir fazendas com uma área equivalente a toda a região cultivada do Canadá. Inicialmente, a experiência parecia ter sido bem-sucedida, já que a primeira colheita com o novo esquema, em 1956, foi gigantesca: cerca de metade das 125 milhões de toneladas vieram das novas terras e com alta produtividade. Entretanto, com o passar do tempo, problemas ecológicos de erosão (devido ao caráter apressado e sem planeamento das consequências ecológicas do modo como foi feita a ocupação), dificuldades logísticas (falta de silos de armazenamento suficientes e outras estruturas causaram a perda de parte excessiva das colheitas) e questões de financiamento levaram a que em anos seguintes os resultados finais se revelassem baixos em relação aos custos elevadíssimos da empreitada.

Outra grande reforma de Khrushchev também se mostrou problemática: a passagem da administração económica das empresas de bases ministeriais para bases regionais, entre 1957 e 1965. Até ali a administração das empresas estatais era feita através dos ministérios centrais. Assim, cada fábrica siderúrgica respondia ao ministério da Siderurgia, independentemente de sua localização no país. O diagnóstico de Khrushchev é que isso levava a um excesso de centralização e falta de coordenação local. Confiando que os líderes locais conheciam melhor as peculiaridades de cada região do que um ministro em Moscou, Khrushchev criou Conselhos Regionais de Economia (Sovnarkhozy), aos quais as empresas de cada região, independentemente do ramo, estariam subordinadas. Dessa forma, haveria maior integração regional. Os Sovnarkhozy, porém, acabaram levando à formação de pequenos “feudos” burocráticos regionais e particularismos. Apesar dos grandes avanços tecnológicos, a impetuosidade excessiva com que se lançava em vários esquemas novos levara a alguns erros caros.

O que derrubou Khrushchev, porém, foi a política, especialmente internacional. Os primeiros grandes problemas começaram logo após o famoso discurso de 1956 em que colocava o estalinismo no banco dos réus. Naquele mesmo ano, em parte estimulados pela atmosfera de discussão crítica dos erros do passado na construção socialista, dois países do Leste Europeu se insubordinaram contra a URSS. O primeiro foi a Polónia. Em junho de 1956, protestos populares na cidade de Poznan catalisaram um processo de autocríticas e revisões internas dentro do próprio Partido Comunista. Como consequência, um novo líder, bem mais liberal e nacionalista, foi elevado ao poder: Wladyslaw Gomulka. Em 19 de outubro de 1956, Khrushchev e outros líderes soviéticos viajaram a Varsóvia para resolver de vez a questão da rebeldia. Um compromisso foi firmado. Os polacos manteriam autonomia para conduzir seus próprios assuntos internos, desde que se mantivessem alinhados ao socialismo como linha geral e com a URSS em sua política externa. A solução de autonomia interna e alinhamento externo evitou que a situação na Polónia se transformasse em uma revolta aberta contra a URSS.

No entanto, em outro país socialista do Leste Europeu a situação se transformou em revolta aberta. Na Hungria, o XX Congresso do PCUS também provocou um movimento de discussão crítica. Em julho de 1956, o estalinista Matyas Rakosi foi afastado da liderança do partido e substituído por um apagado Erno Gero. Debates internos profundos dentro do partido e na sociedade levaram a clamores por uma liderança mais liberal e um afastamento do rígido modelo soviético. Em 23 de outubro, manifestações estudantis irromperam pela cidade trazendo demandas por abertura. A esse movimento se juntaram outras camadas da população. Logo, barricadas populares estavam por toda a parte nas grandes cidades. Várias fábricas foram tomadas pelos próprios trabalhadores organizados em conselhos de autogestão. Pressionado, o partido trouxe de volta ao poder, como primeiro-ministro, o comunista liberal Imre Nagy. Nagy ficou pressionado pelas diversas correntes: as que queriam liberalização dentro do regime socialista, as que queriam uma liberalização para fora do regime socialista e as pressões dos russos para que controlasse as desordens e mantivesse a Hungria no campo socialista. Pressionado destes vários lados, em 10 de novembro Nagy tomou uma decisão radical: retirou a Hungria do Pacto de Varsóvia (a aliança militar dos países socialistas do Leste Europeu) e declarou a neutralidade do país. Dois dias depois anunciou a criação de um governo de coligação incluindo comunistas, sociais-democratas e membros de partidos camponeses. Em 4 de novembro, os russos enviaram seus tanques para invadir a Hungria e terminar com a revolta. Nagy foi deposto e substituído por um líder pró-Moscovo, Janos Kadar.

Esses acontecimentos explosivos em 1956, logo no início do processo de desestalinização aberta, assustaram os líderes soviéticos e fragilizaram a posição de Khrushchev como líder. Em 1957, houve uma tentativa, por parte de Malenkov, Molotov e Kaganovich, de depor Khrushchev em uma reunião esvaziada do Presidium do partido. Com ajuda do general Zhukov, Khrushchev conseguiu fazer voar a Moscovo os membros do Comité Central, que reverteram a decisão do Presidium. Os três rebeldes foram denominados o “grupo anti partido” e foram “exilados” informalmente para cargos de importância secundária em regiões distantes (Malenkov, por exemplo, tornou-se embaixador na Mongólia). O destino dado a este grupo “anti partido” era um sinal dos novos tempos: perderam os cargos, mas não foram presos.

Mais problemas sérios aguardavam Khrushchev na cena internacional. Como vimos, a China não se conformou com os rumos do XX Congresso do PCUS e rompeu definitivamente com a URSS no início dos anos 1960. Mao Tsé-Tung provavelmente temia que um ataque contra o seu próprio culto à personalidade pudesse se desenvolver no país. No campo socialista internacional houve, então, a cisão entre os pró-russos e pró-chinas. A maioria dos partidos socialistas no poder se alinharam pelo Kremlin. A Albânia, porém, ficou ao lado da China. E a Jugoslávia de Tito se manteve independente e não alinhada.

A guerra-fria aqueceu, quase ferveu, com a crise dos mísseis em Cuba em outubro de 1962. Fidel Castro tomou o poder em 1959 e instaurou um regime socialista. Em 1962, Moscovo tentou secretamente instalar mísseis nucleares soviéticos em Cuba. Descoberto o esquema, o presidente americano John Kennedy ordenou um bloqueio naval de Cuba para impedir os navios soviéticos de passarem. Por alguns dias, o mundo suspendeu a respiração com medo de um confronto nuclear entre os dois países. Mas Khrushchev, deu primeiro o pisca e depois fez inversão de marcha, perante a promessa de Kennedy não mais tentar invadir Cuba e retirar os mísseis nucleares americanos da Turquia.

O episódio minou seriamente o prestígio do líder russo, já bastava o cisma comunista internacional e as dificuldades económicas. Em outubro de 1964 Khrushchev foi deposto do poder, acusado de ser voluntarista demais. Pode-se dizer que ele foi vítima do seu grande momento: abriu a caixa de Pandora com o discurso da desestalinização em 1956. O facto de o movimento comunista internacional ter aberto uma fissura com Stalin foi uma estupidez imperdoável por parte de Khrushchev. Os estalinistas (e mesmo vários ex-estalinistas) não o perdoaram pela cisão. A partir da China viriam as acusações de que a doutrina da coexistência pacífica de socialismo e capitalismo era, na verdade, um abandono da via revolucionária. Atacado por esses flancos importantes, ele conseguiu sobreviver ao golpe de 1957 dentro de seu próprio partido, mas não ao de 1964.



sábado, 17 de junho de 2023

Os cossacos


Os cossacos foram uma casta especial de soldados russos que, desde o século XVI, viviam nas fronteiras sul e leste do império, em comunidades autogovernadas nas regiões do Don e do Kuban ao longo do rio Terek, no Cáucaso, na estepe de Oremburgo e, em povoados estrategicamente mais importantes, perto de Omsk, do lago Baikal e do rio Amur, na Sibéria. Esses guerreiros pouco se distinguiam das tribos tártaras das estepes orientais e do Cáucaso, de quem realmente podem ter descendido. Cossaco é uma 
palavra turcomana que significa cavaleiro. Tanto os cossacos como os tártaros exibiam grande coragem em defesa da sua liberdade; ambos tinham ternura e espontaneidade naturais; ambos amavam a boa vida. Gogol enfatizou o caráter “asiático” e “sulista” dos cossacos ucranianos no conto “Taras Bulba”; na verdade, usou esses dois adjetivos de forma intercambiável. Num texto relacionado - “Um olhar sobre a formação da Pequena Rússia” - isto é, a Ucrânia.

Os cossacos são um povo ao mesmo tempo europeu e asiático no modo de vida, nos costumes e modo de vestir. São um povo em que duas partes opostas do mundo, dois espíritos opostos estranhamente se reúnem: prudência europeia e abandono asiático; simplicidade e esperteza; uma forte noção de atividade e amor ao ócio; um impulso para o desenvolvimento e a perfeição e, ao mesmo tempo, um desejo de parecer desdenhoso de toda a perfeição. Gogol tentou vincular a natureza dos cossacos às ondas periódicas de migração nómada que varreram a estepe desde os hunos na antiguidade. Ele defendia que só um povo enérgico e belicoso como os cossacos seria capaz de sobreviver na planície. Os cossacos cavalgavam à moda asiática pela estepe. Precipitavam-se com a “rapidez de um tigre ao sair dos esconderijos quando lançavam um ataque”. Tolstoi, que conhecera os cossacos quando oficial do exército, também dizia que eles tinham uma costela asiática. Em "Os Cossacos", 1863, mostrou com detalhes etnográficos que os cossacos russos, do lado norte do rio Terek, tinham um modo de vida praticamente indistinto das tribos das colinas chechenas no lado sul do mesmo rio.

Lermontov era um aguarelista talentoso e, num autorretrato, ele se pinta com uma espada bem segura na mão, o corpo envolto numa capa caucasiana e um estojo de cartuchos usado pelos homens das tribos da montanha preso à frente do uniforme da Guarda. Essa mesma identidade mista, meio russa, meio asiática, foi atribuída por Lermontov a Pechorin, protagonista de "O herói do nosso tempo". Inquieto, cínico e desiludido com a alta sociedade de São Petersburgo, Pechorin sofre uma transformação ao ser transferido, como oficial da Guarda, para o Cáucaso. Apaixona-se por Bela, filha de um chefe circassiano, aprende a sua língua turcomana e usa roupas circassianas para declarar o seu amor a ela. Em certo momento, o narrador o compara-o a um bandido checheno. Parece que aí essa era a questão essencial: não havia fronteira clara entre o comportamento dos colonos russos e os atos “bárbaros” das tribos asiáticas.

Lermontov não foi o único russo a adotar o Cáucaso como seu “lar espiritual”. O compositor Balakirev foi outro “filho das montanhas”. O fundador da “escola de música russa” vinha de antiga linhagem tártara e se orgulhava dela, a julgar pela frequência com que posava para retratos com roupas caucasianas. Em Os circassianos”: não conheço roupa melhor do que a do circassiano. 
Rimski-Korsakov descreveu Balakirev como “meio russo e meio tártaro no seu caráter”.  Os recursos musicais que Balakirev usou vinham principalmente do acervo de “sons orientais” — escalas cromáticas sensuais, ritmos de dança sincopados e harmonias langorosas que visavam evocar o mundo exótico de prazer hedonista que o povo do Ocidente associava havia muito tempo ao Oriente.  Esse elemento oriental foi um dos marcos da escola de música russa desenvolvida pelos kuchkistas — o “poderoso punhado” (kuchka) de compositores nacionalistas que incluía Balakirev, Mussorgski, Borodin e Rimski-Korsakov. 

Para Stassov, a importância da característica oriental da arte russa ia bem além da decoração exótica. Ela era uma comprovação do facto histórico de que a Rússia descendia das antigas culturas do Oriente. Stassov acreditava que a influência da Ásia era “manifesta em todos os campos da cultura russa: na língua, na vestimenta, nos costumes, na construção, na mobília e nos utensílios quotidianos, em ornamentos, em melodias e harmonias e em todos os contos de fadas”. Stassov começou a delinear a discussão da sua tese sobre a origem da ornamentação russa durante a década de 1860. Ao analisar os manuscritos medievais da Igreja russa, ele vinculou a ornamentação das capitulares a motivos semelhantes (losangos, rosetas, suásticas, padrões quadriculados e certos tipos de desenhos florais e animais) da Pérsia e da Mongólia. Encontravam-se motivos comparáveis em outras culturas de Bizâncio nas quais a influência persa também era marcante; mas, enquanto os bizantinos tinham tomado emprestado somente alguns ornamentos persas, os russos adotaram quase todos.

Havia, por exemplo, semelhança fora do comum na imagem ornamental da árvore que, segundo Stassov, estava vinculada ao facto de que tanto os persas quanto os russos pagãos tinham “idealizado a árvore como culto sagrado”. Em ambas as tradições, a árvore tinha base cônica, uma espiral em torno do tronco e galhos nus com flores magnoliáceas na ponta. A imagem aparecia com frequência em rituais pagãos do culto da árvore, que, como Kandinski descobrira, ainda era encontrado no povo komi nas últimas décadas do século XIX. Stassov a encontrou até como o tronco caligráfico da letra “Б” (“B”) num evangelho de Novgorod do século XIV, no qual um homem se ajoelha em oração ao pé de uma árvore. Aí está uma ilustração perfeita da mistura complexa de elementos asiáticos, pagãos e cristãos que forma as principais tendências da cultura folclórica russa.


quinta-feira, 8 de junho de 2023

O mistério da complexidade das sociedades humanas



As sociedades humanas são Sistemas Complexos, agregado de um grande número de elementos, que à medida que interagem entre si se organizam num complexo sistema de movimentos que vão da educação à economia até formarem uma cultura sui generis, com identidade própria que se costuma designar por 'um povo'. 
As suas propriedades fundamentais decorrem de uma emanação que resulta da da interação coletiva de seus múltiplos elementos individuais não apenas no seu interior como também com outros povos circundantes. O desenvolvimento do enquadramento científico destes sistemas só passou a receber uma exata compreensão quando a comunidade científica percebeu que o clássico método reducionista não se adequava às grandes questões das sociedades humanas no seu conjunto diverso. Foi na base desse pressuposto que a corrente dominante da neurociência deu um salto qualitativo nos finais do século XX ao olhar para o funcionamento do cérebro como uma estrutura holista resistente à abordagem reducionista, que dividia o cérebro em regiões individuais com uma alta densidade de neurónios.

Tal como se estuda hoje o nosso cérebro, uma gigantesca comunidade de neurónios articulados entre si numa grande sinfonia, o mesmo se aplica ao estudo das várias expressões da natureza humana ao longo da sua história, desde as pinturas rupestres de nossos antepassados pré-históricos, passando por prodigiosas produções de um Beethoven ou um Einstein, até chegarmos hoje ao expoente tecnológico da ida a Marte e da Inteligência Artificial.  Todo o substrato é o mesmo, a sociedade, a cultura, nada disto existiria sem o nosso cérebro. Nenhum dos inúmeros comportamentos vitais para a sobrevivência e prosperidade da nossa espécie poderia ser resultado de uma única pessoa.

Durante o século XX o mundo teve de lidar com duas guerras mundiais e a chamada “Guerra Fria”, em que durante quase quatro décadas duas superpotências nucleares ditaram as regras do jogo da geopolítica mundial. De um lado a hegemonia de uma democracia capitalista; do outro, a ditadura de partido único, comunista, que chegou ao fim em 1991 sem legado, depois de uma incompreensível megalomania com graus equivalentes de arrogância e incompetência, minada pela corrupção. Acima de tudo, pela violência abominável e atroz infligida àqueles que se opunham com o desterro do Gulag.  Passadas três décadas o mundo ainda está a sofrer as suas sequelas com a guerra na Ucrânia, que começou a bem dizer em 2014 com a anexação da Crimeia e que se agudizou a partir de fevereiro de 2022 com a invasão da Ucrânia que Vladimir Putin batizou de "operação especial".

Ao mesmo tempo, noutras latitudes e longitudes, como na França, milhares de pessoas repetidamente ocupam as ruas das cidades, sobretudo a capital, com manifestações violentas e batalhas campais entre os manifestantes e a polícia. 
As últimas como contestação a medidas reformistas do governo em prol pela sustentação da segurança social nos próximos anos.

A esperança era que, uma vez que um grande número de neurónios e suas conexões, áreas e núcleos neurais fossem estudados exaustivamente para além da informação já acumulada, permitisse explicar como o funcionamento do cérebro como um todo. Tal desiderato levou a que uma boa parte de neurocientistas se empenhassem numa tarefa multidisciplinar de juntar anatomistas, fisiologistas,  bioquímicos moleculares como se o cérebro fosse uma orquestra sinfónica. Entretanto, após a entrada na segunda década do século XXI esse entusiasmo tem esmorecido à medida que a Inteligência Artificial vai tomando conta da agenda com o regresso dos herdeiros dos físicos da mecânica quântica.

Milhões de milhões de conexões, sejam elas ao nível dos neurónios, sejam ao nível de seres humanos, é o modelo compreensivo do funcionamento dos Sistemas Complexos. Na realidade, mais uma vez a comunidade científica, como havia teorizado Thomas Kuhn, se perdeu no labirinto do novo paradigma para lidar com a Complexidade: sistemas formados por um grande número de elementos que interagem entre si, coisas como um movimento popular, o mercado financeiro mundial, a internet, o sistema imune, o clima do planeta ou mesmo uma colónia de formigas = Sistemas Complexos. Organizações cujas propriedades mais fundamentais tendem a “emergir” por meio da interação coletiva de seus múltiplos elementos individuais. Tinha-se chegado à conclusão que os Sistemas Complexos não revelavam os seus segredos mais íntimos abordados pelo clássico método reducionista. Mas, na verdade, outras abordagens alternativas também ainda não conseguiram que a Natureza revelasse esse seu grande segredo, a que os Clássicos greco-latinos chamaram Mistério