quarta-feira, 16 de agosto de 2023

De espião em Dresden a presidente em Moscovo



Por finais de 1999 a Rússia estava em estado de alerta devido a várias explosões em edifícios de diferentes cidades, que mataram mais de 300 pessoas. Vivia-se um clima de medo e desconfiança porque dizia-se à boca pequena que o FSB podia estar por trás dos vários atentados. A maior parte dos altos quadros do FSB tinham sido espiões do KGB, onde pontuava Vladimir Vladimirovitch Putin. Sim, aquele que havia montado uma teia de poder que começou no KGB há quase quatro décadas e que nos dias de hoje leva a cabo uma guerra na Ucrânia cujo desfecho ainda ninguém arrisca adivinhar.

O ano de 1999 começa com Boris Yeltsin ainda ao comando dos destinos da Rússia, um país onde ainda se ressentia o fim da União Soviética. Mas o Presidente já não tinha o vigor dos primeiros tempos. Vladimir Putin é o chefe do FSB. Durante a década de 1990, que estava a chegar ao fim, era Yury Ilyich Skuratov que ocupava o lugar de procurador-geral. Ele e a sua equipa andavam fortemente empenhados em investigações relacionadas com a forte corrupção que grassava na sociedade russa, onde se envolviam endemicamente altos funcionários do estado. 

Mas eis que em abril de 1999 rebenta um escândalo que deixa o procurador em muito maus lençóis. O ministro do interior, que então era Sergei Stepashin, concorda com Putin que seja divulgado na televisão o escândalo que comprometeria o procurador-geral: uma gravação filmada mostrando um homem nu, muito semelhante a Skuratov, na cama com duas mulheres num hotel da capital. Skuratov acaba por ser demitido do cargo apesar de ter começado de início por resistir à pressão.

O ano 2000 é ano de eleições para a presidência da Rússia, e Skuratov, já demitido do cargo de procurador-geral, concorre às eleições presidenciais russas. A campanha de Skuratov tinha como objetivo principal limpar o seu bom nome do escândalo, veiculando informação que tentava repor a sua boa reputação. A narrativa apresentava um homem de família decente e um marido fiel que havia sido vítima de "mentiras" e "invenções".

Grande parte das versões que se conhecem hoje acerca do caso, partem de declarações prestadas em entrevista de Vladimir Stanislavovich Milov, que havia sido vice-ministro da Energia da Federação Russa, e frequentava na altura os corredores do Kremlin. Depois passa para a oposição, tendo sido
 cofundador em 2008 do movimento de oposição Solidarnost. Em 2009 concorreu à Duma como candidato independente. A partir de 2016 passou a apoiar a candidatura presidencial de Alexei Navalny, sendo também coautor da plataforma de Navalny. Desde a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 que se encontra exilado algures no Ocidente. Milov não tem dúvidas que foi em finais de 1999 que Yeltsin tomou a decisão de promover Putin. Ele seria o homem que o iria defender das acusações que inevitavelmente seria alvo quando deixasse o poder. Putin iria garantir que ele não iria ser acusado. E que a sua família não iria ser acusada. E foi assim que quando em Setembro de 1999 dois agentes do FSB tinham sido apanhados em flagrante numa tentativa de colocação de bomba num prédio, algures numa cidade da Rússia, o caso foi abafado. À medida que o tempo passa, a teoria da conspiração adensa-se, e o advogado que investiga a possível ligação do FSB aos atentados é preso. E alguns deputados que se debruçam sobre o tema morrem em circunstâncias estranhas.

Mas Putin já não era diretor do FSB, as secretas russas. Por essa altura Yeltsin já o tinha nomeado primeiro-ministro. E o primeiro-ministro Vladimir Putin ainda não tinha mais do que 24 horas no cargo, já aviões militares russos começavam a bombardear a cidade de Grozni. Os atentados eram a justificação que faltava para avançar para uma nova guerra na Tchetchénia depois da primeira derrota russa no início da década de 90. Os relatos que vão chegando são aterradores. A artilharia do exército russo arrasa todos os edifícios. Os civis vivem fechados nos abrigos. Dia e noite os hospitais são bombardeados como se fossem edifícios militares e quando os soldados russos ocupam aldeias, o rasto de morte que deixam pelo caminho é visível, violações, tortura, decapitações.

Em 1968, Putin, ainda um adolescente, entra pelo seu próprio pé na sede do KGB em são Petersburgo. Volodia, como lhe chamam os amigos, pergunta o que é preciso para se tornar um agente. Tem 16 anos e vira um filme de espiões (O Escudo e a Espada) uma data de vezes porque havia ficado fascinado. Dizem-lhe que ali não são aceites voluntários. É preciso ser escolhido e é preciso ter um curso superior. Qual? – pergunta. Sugerem-lhe que vá para direito. Nunca abandona o sonho de vir a trabalhar no KGB, mas o convite só surgirá no quarto ano da universidade. Putin leva muito a sério a formação inicial no KGB, tão a sério que um dos instrutores chega a fazer piadas com o facto de ele aparecer sempre nas aulas de fato completo com colete, mesmo em dias de verão. Mas Vladimir não deixa grande marca, apesar de ser um estudante disciplinado.

No verão de 1976, o jovem Volodia, começa a trabalhar como agente do KGB. É colocado no departamento de contraespionagem. E em 1985 vai para uma das cidades mais destruídas pelos bombardeamentos na Segunda Guerra Mundial, uma das poucas regiões da Alemanha onde não chegavam canais de televisão ocidentais – Dresden.

Em 1989, tinha o Muro de Berlim acabado de cair quando em Dresden Vladimir tem de enfrentar uma manifestação que ameaça invadir as instalações onde trabalha e chefia. Telefona então para a unidade mais próxima do exército vermelho para pedir reforços. Do outro lado da linha um soldado informa-o de que vai pedir instruções a Moscovo. Sem ter obtido resposta, Putin volta a ligar. A voz que lhe chega do outro lado é perentória: «Não podemos fazer nada sem ordens de Moscovo, e Moscovo está em silêncio.» Moscovo estava em silêncio, e Vladimir Putin pensa: «O país já não existe. Desapareceu!». A União estava moribunda, tinha uma doença terminal, sem cura, uma paralisia do poder. Apodera-se de Putin um medo pessoal muito forte. De que é que Putin tem medo? Pura e simplesmente do poder das multidões. 
O poder das multidões foi o que Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa, viu em 2014 na praça Maidan, em Kiev. Aquilo que ele mais temia, no caso da Ucrânia, era o contágio.

sábado, 12 de agosto de 2023

Terceira Guerra Servil liderada por Espártaco - 73-71 a.C. - no tempo de Pompeu e Crasso



Embora livre de conflitos intestinos desde a derrota de Lépido, Roma não estava totalmente em paz. Em 73 a.C., um grupo de cerca de 80 gladiadores escapara de uma escola da profissão, em Cápua, e se refugiara nas encostas do monte Vesúvio. Atacando e saqueando a área vizinha, receberam reforços de muitos escravos fugitivos, até que o seu líder - Espártaco - viu-se no comando de um grande exército, sempre em crescimento. Pouco se sabe sobre esse homem, apenas se sabe que era da Trácia. Várias fontes afirmam que havia lutado contra os Romanos, fora capturado, acabando como auxiliar nas legiões romanas. Apesar de a segunda afirmação ser mais duvidosa, pois os Romanos orgulhavam-se de declarar que seus inimigos mais perigosos eram sempre aqueles que tinham treinado, exatamente como Jugurta, que aprendera a combater quando servira com Emiliano em Numância.

Seja qual for a verdade sobre as suas origens, ele demonstrou ser um génio de táticas, liderança e organização, transformando um bando - germânicos, trácios, gauleses e escravos de outras nacionalidades - num exército formidável. Os Romanos enviaram primeiro pequenas forças contra eles, mas foram derrotados. Então, reuniram exércitos completos sob comandantes consulares. Mas continuavam a ser vencidos por Espártaco. Em cada vitória capturava mais armas e armaduras para equipar os seus homens. Mas com o tempo, os escravos passaram a construir oficinas para fabricar equipamento militar.

Depois de tanta derrota o Senado passou o comando principal da luta a Marco Licínio Crasso, que fora pretor no ano anterior. Crasso era outro homem que apoiara Sula durante a guerra civil – seu pai e seu irmão mais velho tinham sido mortos no expurgo de Mário. Ele serviu Sula com distinção, embora não de forma espetacular como Pompeu. Comandara uma das alas do exército na Batalha de Porta Colina. Crasso recebeu muitas propriedades confiscadas das vítimas das proscrições. Converteu tais ganhos numa enorme fortuna por meio de investimentos audaciosos e atividades mercantis.

Crasso iniciou o seu comando na Terceira Guerra Servil ordenando que as legiões derrotadas pelos seus predecessores sofressem a arcaica punição da dizimação, em que era sorteado um soldado por cada dez a fim de ser espancado pelos colegas até à morte. A maioria dos legionários sofria apenas um castigo simbólico, recebendo uma ração de cevada em vez de trigo, e em alguns casos eram forçados a armar as tendas fora das paliçadas do acampamento do exército. Tal medida brutal era uma indicação do que representavam os escravos, em que Crasso era implacável. A essas duas legiões, ele acrescentou outras seis recém arregimentadas. 

Um grupo do exército principal de Espártaco afastara-se, acabando por ser derrotado. Crasso construiu uma imensa linha de fortificações, isolando o  exército principal de Espártaco no extremo sudoeste da Itália. Mas Espártaco conseguiu romper a linha de defesa. Finalmente, em 71 a.C., acabou por ser derrotado após um combate muito encarniçado. No início da ação, o antigo gladiador cortara a garganta do seu próprio cavalo. O animal, que havia sido capturado de um comandante romano derrotado, era naturalmente um cavalo de grande valor. Pois bem, isso foi para demonstrar a seus homens que não iria fugir, mas lutar e morrer com eles. O gesto foi semelhante à decisão de Mário de colocar-se à frente do pelotão em Águas Sêxtias.

Plutarco afirma que Espártaco foi morto quando tentava alcançar Crasso, tendo já matado dois centuriões que o enfrentaram juntos. Seis mil guerrilheiros de Espártaco foram feitos prisioneiros. Crasso mandou que todos fossem crucificados a intervalos regulares ao longo da Via Ápia (de Roma a Cápua), como uma tétrica demonstração do destino que aguardava os escravos rebeldes. Os Romanos, como sociedade, dependiam tanto da escravatura que a ideia de os escravos se rebelarem contra si aterrorizava-os. Assim, só ficaram mais descansados depois da morte de Espártaco, que se tinha mostrado ser um oponente de grande gabarito. 

Ora, quando o exército de Pompeu regressou à Itália, ainda veio a tempo de aniquilar vários milhares de escravos que tinham pertencido às fileiras de Espártaco. Isto foi o pretexto de Pompeu se vangloriar e celebrar. Pompeu afirmou ter sido o homem que pôs fim à 
Terceira Guerra Servil. Isso apenas aumentou a animosidade que já existia entre ele e Crasso, a qual datava da época em que Pompeu recebera uma posição mais proeminente de Sula, e despertara a inveja de Crasso. Pompeu estava agora com 35 anos e havia decidido, depois de muito tempo, participar formalmente na política ativa, tratando de se eleger como cônsul. 

Crasso, que era oito ou nove anos mais velho que Pompeu, e cuja carreira desde a guerra civil tinha sido deveras convencional, também estava ansioso por obter o posto mais alto da magistratura. E deu-se o caso de os dois homens estacionarem os seus exércitos perto de Roma. Estava-se mesmo a ver que os dois ensaiavam o propósito de entrar triunfalmente em Roma. Em algum momento dos últimos meses de 71 a.C. os dois comandantes vitoriosos terão enterrado a sua animosidade para anunciarem que se haviam unido para uma campanha eleitoral conjunta. 

O Senado rapidamente percebeu que tal combinação não poderia ser enfrentada. Assim, permitiu que Pompeu concorresse apesar de ainda não ter a idade mínima estabelecida pela lei de Sula. Os dois homens concorreram in absentia, uma vez que nenhum deles recebeu permissão para entrar na cidade até ao dia em que seriam ovacionados pelo seu triunfo. A popularidade de Pompeu e o dinheiro de Crasso, faziam muita coisa. É claro, combinado com as suas realizações genuínas e, possivelmente, com o medo dos seus exércitos. Seja como for, a entrada de Pompeu pela Via Sacra foi estrondosa em 29 de dezembro de 71 a.C., iniciando o seu consulado, e tornando-se senador, tudo no mesmo dia.

Havia um último ato de Pompeu para que a sua posição fosse legitimada na vida pública romana. Era uma cerimónia já ultrapassada, mas que o povo romano adorava. Era tradição que os censores eleitos a cada cinco anos fizessem um ato formal a qualquer membro da classe equestre que tivesse chegado ao fim do seu serviço militar, detalhando as suas ações com louvor e circunstância. Por esta altura essa prática era considerada arcaica, uma vez que os membros da classe equestre não mais forneciam a cavalaria para as legiões. E apenas uma parte dessa classe escolhia servir como tribuno ou outro cargo. Mas não era a diminuição da sua relevância que levava os romanos a abandonarem as cerimónias tradicionais.

Chegou então o dia de os censores iniciarem a tarefa quando Pompeu chegou montado num cavalo que simbolizava o antigo papel militar, acompanhado de doze lictores que seguiam o cônsul. Este ordenou que seus lictores abrissem caminho para ele chegar até aos censores. Estes ficaram tão atrapalhados que ainda demoraram algum tempo para articularem as palavras tradicionais, inquirindo o cavaleiro se tinha cumprido as suas obrigações para com a República. Pompeu respondeu, com uma voz que alcançou a multidão, que servira sempre que o Estado lhe pedira, e sempre obedecera ao seu comando. Entre hurras e aplausos, os censores acabaram por cumprir as formalidades, acompanhando o cônsul até à sua casa, como prova de respeito.

sábado, 5 de agosto de 2023

A complexidade de Israel nos dias de hoje





Israel está num impasse, no dealbar de uma guerra "entre judeus e israelitas". Duas nações se confrontam: no parlamento, em férias, a extrema-direita organiza os próximos passos, enquanto o protesto nas ruas continua e ameaça multiplicar-se se os homens de Netanyahu prosseguirem a ofensiva contra a justiça. Os próximos meses podem ser uma batalha.

Em qualquer análise política há sempre mais do que uma narrativa. Então em relação a Israel nem vale a pena duvidar. Neste diferendo entre Netanyahu e os juízes, a narrativa dos apoiantes de Netanyahu é ser ele o representante da democracia, enquanto os juízes prolongam a "hegemonia asquenaze". Mas as mudanças demográficas podem deixar de funcionar a favor da extrema-direita. Os ideólogos do lado de 
Netanyahu inventaram a distinção entre o "Primeiro Israel", asquenaze e secular, e o "Segundo Israel", o dos mizrahim, que está do lado de Netanyahu.

Netanyahu é o "político amado" dos mizrahim, que alegam que o sistema judicial quer minar todo o sistema político e "persegue mais agressivamente os representantes do Segundo Israel." Este "Segundo Israel" são os mizrahim, judeus orientais, outrora denominados sefarditas, que quando foram expulsos de Espanha e Portugal emigraram para Marrocos, Grécia, Turquia, um pouco por todo o Próximo Oriente. Os asquenazes são os judeus da Europa central e oriental que inventaram o sionismo e fundaram o atual Israel.

Os judeus mizrahim, que em hebraico quer dizer “orientais”, acabam, portanto, por ser os judeus aculturados pelo mundo islâmico. Trata-se de comunidades fortemente arabizadas nas suas tradições linguísticas, alimentares e culturais. As suas línguas tradicionais são o árabe, o pársi (aqueles que foram para o Irão) e um dialeto do aramaico (para os que foram para o Curdistão). Com a fundação do Estado de Israel em 1948, a maior parte dos mizrahim migraram para o novo estado nos anos que se seguiram, em alguns casos fugindo a perseguições árabes. Eles representaram a maioria da população israelita até à grande migração de judeus da Europa Oriental que se seguiu à queda da União Soviética. Tentativas de fixá-los nos moshavim revelaram-se infrutíferas, já que a maioria dos mizrahim não tinha na agricultura a sua ocupação principal, mas sim no comércio.

No passado, durante as crises existenciais e as guerras árabes, os israelitas foram capazes de ultrapassar as suas profundas divisões. Mas, a partir da vitória na Guerra dos Seis Dias (1967), as divergências começaram a manifestar-se. Os judeus ortodoxos punham em causa a natureza laica do Estado. Por sua vez, os mizrahim/ sefarditas sentiam-se desprezados pela elite asquenaze que os remetia para a parte pobre da sociedade. Um trabalhador asquenaze ganhava o dobro de um sefardita. Agora note-se que os cidadãos árabes israelitas, ou beduínos, ainda são mais discriminados. 

Um dos primeiros movimentos de protesto sefardita foi um movimento de jovens de esquerda da segunda geração: o movimento "Panteras negras de Israel", fundado em 1971. Depois, o grande partido da direita nacionalista, liderado por Menahem Begin, vence as eleições em 1977, e põe termo à longa hegemonia trabalhista. Mas, tanto o Partido Trabalhista como o Likud representavam a velha elite asquenaze, ainda que ideologicamente dividida. Em boa verdade, o Likud sempre foi dominado pela aristocracia da extrema-direita asquenaze. A imigração maciça dos mizrahim após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, é que veio baralhar o espetro da direita, na medida em que os mizrahim valorizam muito mais a identidade do que a democracia.

Foi assim que o Likud conseguiu fazer uma sólida aliança com os sefarditas ortodoxos ultra do partido Shas, e com os asquenazes do Judaísmo da Torá. O Shas, fundado em 1980, visava criar uma identidade mizrahim. Nos seus períodos pragmáticos, fez alianças à esquerda e à direita. Mas, no fundo, sempre foi teocrático e fundamentalista. Num passado não muito distante, o campo da extrema-direita continha elementos liberais e até seculares. Hoje o cimento ideológico do campo da extrema-direita é aquilo a que o sociólogo Nissim Leon chamou ‘nacionalismo teo-etnocrático’. Trata-se de um nacionalismo antiliberal e antidemocrático, que centra a sua luta na identidade judaica do Estado. O outro lado da extrema-direita é representado pelo Partido Sionista Religioso. Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança, com cadastro criminal, herdeiro da sinistra figura de Meir Kahane, que visa a destruição do sistema de justiça; o apartheid dentro de Israel; a segregação racial nos hospitais, nas universidades e na administração pública; a discriminação de género; o reforço ultra dos códigos religiosos ortodoxos.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Goa




 
Situado na costa do mar da Arábia, a 400 Km a sul de Bombaim, é atualmente o menor estado da Índia em território. e o 4º menor em população, apesar de ser o mais rico em PIB per capita. Entre 1510 e 1961, Goa esteve na posse do Estado português, que funcionou como capital do complexo império português na Índia, que englobava Goa, Damão e Diu. As suas igrejas e conventos são Património da Humanidade pela UNESCO, desde 1986. A cidade de Goa foi apelidada de "Roma do Oriente", sede da Arquidiocese de Goa e Damão e do Patriarcado das Índias Orientais.

Os séculos XVI e XVII foram a época áurea de Goa, que comandou um comércio florescente chegando a ter privilégios administrativos semelhantes aos de Lisboa. A partir de finais do século XVII, a concorrência comercial com holandeses e britânicos levou à decadência económica da Goa Velha, ao mesmo tempo que passou a ser o Brasil a colónia mais importante para Portugal. Além disso, várias epidemias assolaram a cidade. E o porto do rio Mandovi passou a ser inadequado para os navios mais modernos. O vice-rei mudou-se para Pangim (Nova Goa) em 1759. E foi assim que, em 1843, a Goa Velha perdeu oficialmente o estatuto de capital.

Missionários - Jesuítas franciscanos e de outras ordens religiosas - estabeleceram-se em Goa já no século XVI. A Companhia de Jesus chegou a Goa em 1542, sendo Francisco Xavier a figura mais relevante nestes primeiros tempos. Os colonizadores foram inicialmente tolerantes ao hinduísmo e outras religiões, mas a partir de 1560 a difusão do catolicismo foi reforçada pela chegada da Inquisição a Goa. Algum tempo depois, os jesuítas criaram um centro educativo religioso, o Colégio de São Paulo ou de São Roque, que contava com uma enorme biblioteca e tipografia. Este complexo foi destruído em 1830.

Nos dois primeiros séculos de presença portuguesa foram erguidas a maioria das igrejas e conventos que ainda hoje povoam a cidade. Enquanto as formas arquitetónicas seguem os cânones europeus, a decoração interna de altares, retábulos, pinturas e mobiliário refletem a mão-de-obra dos artistas locais. Isso foi possível pela grande tradição escultórica dos artistas indianos da região de Goa, que não fizeram com que fosse necessária a importação a grande escala de mão-de-obra artística.



A Sé de Goa é o maior edifício construído pelos portugueses na Ásia. A severa fachada, com três portais, possui uma só torre: a da direita foi destruída durante uma tempestade em 1766.


As naves da igreja são abobadadas e separadas por duas ordens de pilares. Da decoração interior destaca-se o magnífico retábulo da capela-mor em talha dourada.

A Ordem Franciscana foi a primeira a instalar-se em Goa, obtendo já em 1517 permissão do rei Dom Manuel para construir um convento. A primitiva igreja foi concluída em 1521, mas foi totalmente reedificada a partir de 1661, preservando-se, porém, um portal em estilo manuelino, incorporado à fachada maneirista da nova igreja. Este portal, em pedra escura, apresenta um perfil trilobado tipicamente manuelino e um remate ladeado por esferas armilares, símbolos de D. Manuel. A fachada é estreita e alta, com duas torres de secção octogonal. Em frente há um grande cruzeiro de granito.



O grande monumento jesuítico que sobreviveu é a Basílica do Bom Jesus, começada em 1594 e sagrada em 1605. O maior tesouro do interior da igreja é a capela do transepto onde se encontram, desde 1655, os restos de Francisco Xavier. A urna está localizada num mausoléu executado pelo artista florentino Giovanni Battista Foggini, em 1697.




No transcurso do século XVI ocorreu a expansão e estabilização na luta contra várias estruturas estatais asiáticas, comandadas por muçulmanos de origem árabe e turcos otomanos. No entanto, os portugueses nunca conseguiram exercer plenamente o poder nas zonas do estreito de Malaca ou dominar o mar Vermelho. Mas exerceram o monopólio, por muito tempo, sobre a única rota marítima de produtos orientais para os mercados europeus. Antes do século XVIII, o governador português ali estabelecido exercia a sua autoridade em todas as possessões portuguesas no oceano Índico, desde o cabo da Boa Esperança até Macau.

O declínio do domínio português na Ásia começou em nível económico na década de 1670 e, politicamente, desde o fim do século XVI, com a entrada de outros países europeus, especialmente os holandeses, no oceano Índico. Depois de um período de lutas ferozes nos três primeiros quartos do século XVII, nas quais os monarcas asiáticos desempenharam um papel importante, a superioridade portuguesa foi dissipada.

O Samorim preparou uma grande frota de navios para se opor aos portugueses, mas em março de 1506 Lourenço de Almeida (filho de Francisco de Almeida) foi vitorioso em uma batalha de mar na entrada do porto de Cananor, sendo a Batalha de Cananor, um revés importante para a frota do Samorim.

Em 1507 a missão de Almeida foi reforçada pela chegada da esquadra de Tristão da Cunha. A esquadra que Afonso de Albuquerque tinha, no entanto, separa-se da de Tristão da Cunha na África Oriental e foi conquistando territórios de forma independente no golfo Pérsico. Em março 1508, uma esquadra portuguesa, sob o comando de Lourenço de Almeida foi atacada por um combinado na Batalha de Chaul. Lourenço de Almeida perdeu a vida depois de uma briga feroz nesta batalha. A resistência de Mamluk foi, no entanto, definitivamente derrotada na Batalha de Diu.

Em 1510 Afonso de Albuquerque derrotou os sultões de Bijapur, numa disputa entre a soberania do território de Timayya, o que levaria ao estabelecimento dos portugueses em Goa. Goa tornava-se, assim, o centro do governo da Índia e o local de residência do vice-rei da Índia. Entretanto, os portugueses conquistavam vários territórios aos sultões do Guzerate. Damão é ocupada em 1531, formalmente cedido em 1539. Diu em 1535.

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Um pouco da história pregressa de Goa

Em 1347, Goa foi disputada por vários impérios em batalhas sangrentas. Por volta do século X, prosperando com o comércio dos árabes, caiu sob o domínio islâmico do Sultanato de Deli. Muitos templos a deuses hindus foram destruídos. A lembrança do Império Mauria (321–185 a.C.) há muito que se tinha esfumado. Em 1469, Goa foi conquistada pelo Sultanato de Bamani. Em 1490, é o Sultanato de Bijapur que passa a governar, inicialmente uma província do Sultanato de Bamani que declarou a independência. O seu fundador foi Iúçufe Adil Xá, que era chamado de Hidalcão pelos portugueses. Inicialmente, Bijapur ainda repeliu a invasão portuguesa de Goa. Mas em 1510 acabaria por perder para os portugueses após nova investida liderada por Afonso de Albuquerque. Embora geralmente rivais, os sultanatos aliaram-se em 1565 aos portugueses contra o reino hindu de Vijayanagar, a que os portugueses chamavam Bisnaga. Os sultanatos foram posteriormente conquistados pelo Império Mogol.

O Império Mogol, Império Mugal ou Império Mogul aqui esteve entre 1526 e 1857 (com um interregno entre 1540 e 1555), tendo dominado a Índia quase toda. A designação "Mogol" parece ter sido dada apenas no século XIX, dado o seu fundador - Babur - ser descendente de Gengis Khan. O Império Mogol foi estabelecido com a ajuda dos otomanos e os safávidas.
 Esta estrutura imperial durou até 1720, até pouco depois da morte do último grande imperador, Aurangzeb. Foi extinto em 1857 pelo Império Britânico. Os governantes de Deli que tinham fugido para o Leste da Índia em 1540. Mas os sucessores de Sher Xá revelaram-se incapazes de construir um império coeso no Norte da Índia, e os timúridas regressaram a Deli em 1555. Foi o reinado de Akbar (1555–1605), neto de Babur, que assistiu à verdadeira fundação do império Mogol dos timúridas. Akbar lançou-se numa série de conquistas territoriais que poria quase todo o subcontinente, exceto o extremo sul, sob seu domínio.

Esse domínio não seria um despotismo transitório, nem o império de um flibusteiro que se desintegraria tão depressa como fora erguido. Pelo contrário, Akbar recorreu às tradições timúridas para construir um sistema imperial mais imponente e duradouro do que todos os outros que os anteriores governantes muçulmanos na Índia tinham sido capazes de criar. Akbar apresentou-se, não como um rei-guerreiro muçulmano, mas como monarca absoluto de uma população vassala e diversificada. A sua genealogia oficial reivindicava a ascendência, não só de Tamerlão, mas também de Gengis Khan, e, por conseguinte, o seu legado como «conquistadores do mundo». 

A cultura da corte Mogol, sobretudo a sua arte e literatura, inspirava-se em modelos persas ou centro-asiáticos. O persa era a língua da vida intelectual e do governo. A vida e a paisagem do Irão (e não as da Índia) inspiravam os poetas mogóis, que evocavam um mundo longe «das influências poluidoras dos povos subjugados». Tal como Tamerlão, Akbar empreendeu um grandioso projeto de construção: a efémera capital imperial em Fatehpur Sikri foi a sua obra mais admirável. O regime de Akbar era cosmopolita e eclético, honrando a influência da Ásia Central como grande entreposto cultural. É até possível que a sua tentativa frustrada de estabelecer um governo mais centralizado entre 1570/80 (que levou à grande revolta de 1580/82) tivesse sido indiretamente inspirada no sistema chinês de burocracia meritocrática retransmitido através de Samarcanda. Numa atitude que se tornou famosa, Akbar rejeitou a distinção islâmica entre os fiéis muçulmanos, a umma, e os infiéis. Aboliu a jizya (imposto individual sobre os não muçulmanos), e considerou até a instituição de uma nova síntese religiosa que juntava islamismo com hinduísmo.

Os comerciantes indianos mantinham uma vasta rede com Bukhara, Ispaão e até com a Astracã da Rússia moscovita. A manufatura artesanal, sobretudo de têxteis, estava amplamente disseminada pelas zonas rurais, e algumas estimativas indicam que a capacidade de fabrico da Índia era muito superior à da Europa. Os mogóis constituíram um estímulo não só para o comércio interno, mas também para o comércio externo. O comércio inter-regional tornou-se mais barato e mais fácil com a pax mogol, e a conveniência e segurança das viagens no interior do país foi notada pelos visitantes europeus. 
Na realidade, os governantes mogóis trouxeram consigo a tradição centro-asiática de proteger e promover o comércio (os governantes da Ásia Central eram os guardiões da Rota da Seda). Construíram fortalezas e caravançarais, fundaram novas cidades e expandiram antigos centros de comércio. À data da morte de Akbar [1542-1605], existiam poucas razões para pensar que as bases económicas do poder mogol se revelariam incapazes de sustentar um grande Estado imperial e a cultura islâmica que este representava.

sábado, 29 de julho de 2023

A Batalha de Sekigahara




A Batalha de Sekigahara, ou popularmente conhecida como a "Divisão do Reino", foi o conflito decisivo ocorrido em 15 de setembro de 1600 (data do antigo calendário chinês, que corresponde a 21 de outubro do atual calendário gregoriano), que abriu caminho para a ascensão do Xogum Tokugawa ao poder do Japão. Após o seu desfecho, demorariam apenas 3 anos para Tokugawa consolidar o seu poder sobre o clã Toyotomi, da casa de Osaka, e os outros daymios contrários à casa de Edo dos Tokugawa. A Batalha de Sekigahara é amplamente considerada como o começo não oficial do Xogunato Tokugawa - o último xogunato que exerceu controlo sobre o Japão. Após o conflito, o Japão viveu um longo período de paz.

É a partir deste acontecimento que James Clavell, escritor e diretor de cinema britânico de origem australiana, que escreve o romance Shōgun publicado em 1975, e que depois passou a uma série televisiva de 5 horas, vista pelos olhos de um piloto inglês - John Blackthorne - cujos atos heroicos lembram as façanhas de William Adams
John Blackthorne é capitão do Erasmus, um navio holandês que naufragou na costa do Japão. Ele e poucos dos sobreviventes da embarcação holandesa foram capturados por ordem do samurai Omi-san que os manteve aprisionados vários dias no buraco, até que os marinheiros soubessem se comportar de forma civilizada (pelos olhos dos japoneses). O daymio de Omi-san, Yabu-san, chega e resolve executar aleatoriamente um dos navegadores cozinhando-o vivo. Por sugestão de Omi, Yabu, decide guardar as armas e o dinheiro que estavam a bordo do Erasmus em favor próprio, mas é traído por um de seus samurais que o denuncia a Toranaga (futuramente senhor e daymio, mais poderoso que Yabu), o que faz com que Yabu dê todos os bens para o seu senhor. Como os japoneses não conseguiam pronunciar seu nome, Blackthorne foi chamado de Anjin, que significa piloto.

Por lá anda um padre jesuíta português, que faz o papel de tradutor quando o piloto é interrogado por Toranaga. 
Blackthorne, sendo originário de um país protestante, joga com isso para deixar ficar mal o padre jesuíta junto do daymioToranaga fica surpreendido ao saber que há dois tipos de cristianismo entre os países europeus que se odeiam. A entrevista acaba quando chega Ishido, o principal rival de Toranaga, que quer saber o que se passa com o "bárbaro" piloto.

Toranaga então manda o piloto para a cadeia acusado de pirataria para mantê-lo afastado de Ishido. Na prisão, Blackthorne conhece um padre franciscano que lhe conta detalhes sobre as conquistas jesuíticas e as trocas com o Navio Negro. Os japoneses necessitavam da seda chinesa, porém eles não podiam negociar com os chineses diretamente. Os portugueses atuavam como intermediários, embarcando as mercadorias no Navio Negro, e assim obtendo muito lucro. Com a ajuda do padre, Blackthorne começa a aprender o japonês básico. Após quatro dias de cativeiro, Blackthorne é tirado da prisão pelos homens de Ishido. Toranaga volta a capturar o piloto das mãos de seu rival. Em sua próxima entrevista, Toranaga utiliza Mariko como tradutora, uma japonesa convertida ao cristianismo que se sente dividida entre a nova fé e a sua lealdade a Toranagapor ser samurai.

Aos poucos Blackthorne vai-se adaptando aos japoneses e sua cultura, e muitas vezes aprendendo a respeitá-la. Os japoneses, por outro lado, se sentem cada vez mais incomodados com a presença de Blackthorne, mas ao mesmo tempo ele é de valor inestimável devido ao seu conhecimento do mundo. Algo que faz com que os japoneses comecem a pensar de outra forma. Blackthorne mostrou coragem de ter tentado suicídio para não perder a honra, o que deixou os japoneses impressionados. A partir daí os japoneses começaram a respeitá-lo mais e ele recebeu o estatuto de samurai e hatamoto. Quanto mais tempo Blackthorne passava com Mariko, mais ele a admirava. O piloto fica dividido entre sua afeição por Mariko (que é casada com um poderoso samurai, Buntaro), sua crescente lealdade para com Toranaga, e seu desejo de voltar a navegar a bordo do Erasmus para capturar o Navio Negro.

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William Adams, também conhecido no Japão como Anjin-sama, foi o primeiro navegador inglês a chegar ao Japão e aí morreu em 16 de maio de 1620 aos 55 anos de idade. 
Logo após chegar ao Japão, se tornou um importante conselheiro do xogum Tokugawa Ieyasu para a construção dos primeiros navios japoneses segundo as técnicas do Ocidente.

Na sua ascensão do Xogunato, Tokugawa Ieyasu redistribuiu as terras e feudos dos participantes, geralmente recompensando os que o ajudaram e desapropriando, punindo, ou exilando os que lutaram contra ele. Ao fazê-lo, ele ganhou controlo de muitos territórios que eram de Toyotomi.

Na época, a batalha fora considerada apenas como um conflito interno entre vassalos de Toyotomi. Entretanto, após Ieyasu se tornar Xogum, uma posição deixada vaga desde a queda do Xogunato Ashikaga 27 anos antes, a batalha foi vista como um evento de maior importância. Em 1664, Hayashi Gahö, historiador de Tokugawa e reitor de Yushima Seido, resumiu as consequências da batalha: "Malfeitores e bandidos foram expurgados e todo o território entregue ao Senhor Ieyasu, louvando o estabelecimento da paz e exaltando sua virtude marcial." Esta mudança na hierarquia oficial também inverteu a posição de subordinação do clã Tokugawa, tornando assim o clã Toyotomi subordinado do clã Tokugawa.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Utensílio encontrado na garganta de Olduvai, Tanzânia, com 2 milhões de anos





Esta pedra trabalhada, que está no Museu Britânico, era uma ferramenta de corte, um dos objetos mais antigos que os seres humanos produziram de forma consciente. Esta pedra lascada da África — onde hoje fica a Tanzânia — é o começo de tudo.

Em 1931, um jovem arqueólogo, chamado Louis Leakey, partiu numa expedição patrocinada pelo British Museum com destino à garganta de Olduvai, uma fenda profunda na savana do norte da Tanzânia, não muito longe da fronteira do Quénia. Ela faz parte do vale do Rift, no Leste da África, um imenso rasgão na superfície da Terra com milhares de quilómetros de comprimento. Foi em Olduvai que Leakey examinou camadas de rochas expostas que agem como uma série de cápsulas do tempo. Leakey alcançou uma camada em que as pedras eram moldadas também por algo mais: mãos humanas. Elas foram encontradas ao lado de ossos, e era óbvio que tinham sido transformadas em utensílios para cortar carne e quebrar ossos de animais mortos na savana. Em seguida, indícios geológicos estabeleceram, sem sombra de dúvida, que a camada em que os utensílios foram encontrados tinha mais ou menos dois milhões de anos.

As escavações de Leakey apresentaram os mais antigos objetos produzidos pelo homem de que se tem notícia em qualquer parte do mundo, em qualquer época, e demonstraram que não apenas os seres humanos tinham origem na África, mas a cultura humana também. Esta ferramenta de corte feita de pedra foi um dos objetos que Leakey encontrou. Ao pegá-lo, a primeira reação é achá-lo muito pesado, e é claro que o peso dá potência ao golpe. A segunda é perceber que cabe sem dificuldade na palma da mão, e numa posição em que um ângulo afiado vai do dedo indicador ao punho. Os primeiros humanos a usarem utensílios de corte como este provavelmente não eram caçadores, mas oportunistas brilhantes: esperavam que leões, leopardos ou outros animais matassem suas presas e então entravam em cena com suas ferramentas de corte, garantiam a carne e o tutano e levavam como prémio a proteína. Gordura de tutano é bastante nutritiva — combustível não apenas para a força física, mas também para um grande cérebro. O cérebro é um mecanismo extremamente faminto de energia. Embora corresponda a apenas 2% do peso do corpo, consome 20% de toda a energia que ingerimos e requer alimentação constante.

Nossos ancestrais de quase dois milhões de anos atrás garantiam o futuro dando ao cérebro o alimento de que ele precisava para crescer. Quando predadores mais fortes, mais rápidos e mais ferozes descansavam à sombra depois de matar suas presas, os humanos primitivos podiam sair à procura de comida. Usando ferramentas como esta para obter tutano, a parte mais nutritiva da carcaça, deram início a um antigo círculo virtuoso. Esse alimento para o corpo e para a mente significava que os indivíduos mais astutos, de maior cérebro, sobreviveriam para gerar crianças de cérebro maior, capazes, por sua vez, de fabricar utensílios mais complexos.

O cérebro humano continuou a evoluir durante milhões de anos. Um dos mais importantes avanços foi ficar assimétrico à medida que passava a lidar com todo um novo conjunto de diferentes funções: lógica, língua, os movimentos coordenados necessários para fabricar ferramentas, imaginação e pensamento criativo. Os hemisférios esquerdo e direito do cérebro humano adaptaram-se para se especializar em diferentes habilidades e tarefas — bem diferente do que ocorreu com o cérebro dos macacos, que continua não apenas menor, mas simétrico. Esta ferramenta de corte representa o momento em que nos tornamos distintamente mais espertos, movidos por um impulso não só de fazer coisas, mas também de imaginar como “melhorar” as coisas.

Este objeto está na base de um processo que se tornou quase obsessivo entre os seres humanos. É algo criado a partir de uma substância natural com um propósito específico, e, de certa maneira, quem fez o objeto tinha uma noção do que era preciso fazer. Aquelas lascas extras no gume da ferramenta de corte revelam que, desde o início, nós — ao contrário de outros animais — sentimos o desejo de fazer coisas mais sofisticadas do que o necessário. Objetos transmitem poderosas mensagens sobre quem os produz, e a ferramenta de corte é o começo de uma relação entre os seres humanos e as coisas que criaram.

A partir do momento em que nossos ancestrais começaram a fabricar ferramentas como esta, ficou impossível para as pessoas sobreviver sem os objetos que produzem; nesse sentido, fabricar coisas é o que nos torna humanos. As descobertas de Leakey na terra quente do vale do Rift tiveram como resultado mais do que simplesmente obrigar os humanos a recuar no tempo: deixaram claro que todos nós descendemos desses ancestrais africanos e que cada um de nós é parte de uma gigantesca diáspora africana — todos trazemos a África nos genes, e todas as nossas culturas começaram ali.

As informações de que dispomos nos dizem que viemos de algum ponto no Leste da África. De tão acostumados que estamos a ser divididos por fronteiras étnicas, seguindo fronteiras raciais, e a procurar razões para sermos diferentes uns dos outros, deve ser surpreendente para alguns perceber que o que nos diferencia é quase sempre muito superficial, como a cor da pele, a cor dos olhos, a textura do cabelo, mas que, essencialmente, todos viemos do mesmo tronco, temos a mesma origem.


quinta-feira, 20 de julho de 2023

O tempo em que Roma passou a Império com pirataria à mistura


A pirataria foi traço marcante da vida no Mediterrâneo durante a maior parte da Antiguidade Clássica. Quando havia reinos com poderosas marinhas, os piratas eram normalmente reduzidos a um mínimo e até, por curto período, erradicados. Contudo, quando Roma derrotou a Macedónia e o Império Selêucida, aliado ao inexorável declínio do Egito Ptolemaico, deu fim às armadas que tinham controlado a pirataria no Mediterrâneo. Muitas das comunidades costeiras da Ásia Menor, especialmente na Cilícia, em Creta e em ilhas menores, começaram a fazer incursões marítimas que propiciavam altos lucros no saque e no pagamento de resgates, uma adição bem compensatória dada as magras receitas da pesca e da agricultura. 
A propagação da pirataria foi estimulada quando Mitrídates, do Ponto, deu aos chefes piratas dinheiro e navios de guerra para auxiliá-lo na sua guerra contra Roma. Apesar de virem de muitas comunidades diferentes, e de não possuírem hierarquia política, os piratas raramente lutaram entre si e, quase sempre, enviavam forças ou dinheiro para auxiliar seus pares sob ameaça. 

Em 74 a.C., o Senado de Roma enviou o pai de Marco António para combater os piratas. Para isso, recebeu amplos poderes e consideráveis recursos. Mas dada a sua inabilidade foi malsucedido, tendo sido derrotado numa batalha naval travada nas costas de Creta em 72 a.C.. Ele morreu pouco depois da sua derrota, e, em 69 a.C., o cônsul Quinto Cecílio Metelo foi enviado para derrubar as fortalezas de Creta. Ele demonstrou ser um comandante competente, mas a campanha envolvia sitiar uma cidade murada após outra, e o progresso foi lento. Apesar do seu sucesso, o problema provocado pelos piratas tornou-se ainda pior, e, uma ocasião, dois pretores foram sequestrados juntamente com os seus lictores. Toda a sua escolta foi atacada quando viajavam pela região costeira da Itália, ao passarem pela cidade de Ostia.

Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.) enquanto jovem foi apenas um dos romanos proeminentes a ser tomado como refém e a ter de pagar resgaste aos piratas. Viajar tornava-se difícil. O comércio começou a ser afetado. A população da Itália e, em especial, da cidade de Roma, precisava de mais produtos para além do que produzia localmente. Dependia maciçamente da importação de cereais da Sicília, do Egito e do norte da África. As atividades dos piratas começaram a afetar essa linha de abastecimento, o que tornava os preços dos produtos incomportáveis.

Em meados da década de 60 a.C., Pompeu (106 a.C. - 48 a.C.) juntou-se a Crasso e a Júlio César na aliança político/militar extraoficial conhecida como Primeiro Triunvirato. Esta aliança foi selada com o casamento de Pompeu com Júlia, a filha de Júlio César. A aliança entre Pompeu e Crasso não durou muito, e o mandato de ambos não produziu nada de significativo. Pompeu cumpriu a promessa de restaurar o poder dos tribunos, retirando as restrições que Sula havia estabelecido durante o seu mandato. Como os dois cônsules tinham concluído uma guerra bem-sucedida, nenhum demonstrou desejo de tomar uma província após a conclusão do seu ano no cargo. Pompeu havia, agora, conferido legitimidade política à sua riqueza e ao seu prestígio e estava satisfeito, naquele momento, com a posição que conquistara, a de um dos membros mais proeminentes do Senado. Logo descobriu, como havia acontecido com Cipião Africano, que a juventude passada no campo de batalha e à frente do exército não lhe tinha dado tempo para adquirir uma educação formal necessária para lidar com a política em Roma.

No começo do seu consulado, Pompeu pedira a Marco Terêncio Varro, descendente do homem que perdera a Batalha de Canas, sábio notável que escrevera vários estudos abrangentes, que lhe preparasse um manual sobre os procedimentos e convenções senatoriais. Agora que não podia mais exigir obediência nem derrotar seus oponentes em batalha, Pompeu encontrou dificuldades em conseguir o que queria ao transformar o seu prestígio e riqueza em influência política real. Crasso usou o seu dinheiro, com grande habilidade, emprestando-o a muitos senadores que lutavam para atingir os altos cargos da carreira política, e, com o tempo, conseguiu que a imensa maioria do Senado lhe ficasse nas mãos. 

Pompeu não tinha nem experiência, nem instinto para o uso de estratagemas a fim de subir as escadas da elite. Sua oratória era medíocre e, conforme o tempo corria, ele ficava cada vez menos no Senado e raramente intervinha a favor de quem quer que fosse nos tribunais. Muito sensível a críticas e hostilidades, preferiu evitar qualquer dano ao seu prestígio afastando-se da vida pública. Entretanto, os anos iam passando e alimentando o ritmo da sua frustração. Os grandes feitos que realizara não lhe garantiram a proeminência que acreditava merecer. Como Mário, percebeu que a adulação do povo apenas durava enquanto voltasse periodicamente à cidade vitorioso do campo de batalha. Enquanto estivesse travando uma grande guerra conseguia eclipsar verdadeiramente o restante Senado. Assim, Pompeu teve de procurar outra guerra importante a travar. A oportunidade surgiu em 67 a.C. A escassez de trigo tornou-se crítica e o tribuno Aulo Gabínio propôs a recriação da grande província. De início, Gabínio não pensou em Pompeu, a pessoa obviamente mais qualificada para receber tal comando. Mas já havia uma forte ligação entre os dois homens. Segundo Cícero, Gabínio estava muito endividado, e Pompeu aproveitou para conquistar o apoio de Gabínio ajudando-o financeiramente. A Lex Gabinia foi aprovada pela Assembleia Popular e Pompeu recebeu o imperium proconsular não apenas do Mediterrâneo, mas também de uma margem de 80 Km da costa até ao interior. Não está bem claro se seu imperium era igual ou superior ao dos outros procônsul, mas era provavelmente superior.

Para assisti-lo, Pompeu recebeu 24 legados. Todos tinham exercido um comando militar no passado ou, pelo menos, haviam sido pretores. Cada qual auxiliado por dois questores. Suas forças viriam a constituir uma armada de 500 navios de guerra, apoiada por um exército composto por uma infantaria de 120 mil homens e uma cavalaria de 5 mil cavaleiros, além de dinheiro e recursos em alimentos e outros materiais essenciais para manter tal força. Muitas dessas tropas não eram, provavelmente, bem treinadas e disciplinadas, mas arregimentadas à pressa entre a população local. Apesar da vasta escala, essa seria uma ação essencialmente policial. Pompeu precisava de grande quantidade de soldados de modo a poder pressionar os piratas em todas as direções simultaneamente. Apenas uma pequena fração das suas forças deveria enfrentar combates árduos.

Foi o prestígio de Pompeu que garantiu que tantos recursos fossem colocados à sua disposição, um comando sem precedentes em termos daquela escala. De maneira surpreendente, os tribunos conferiram-lhe poderes de cônsul durante este mandato. Apenas uma minoria de generais tinham tal apoio popular suficiente para subverter o comum processo senatorial de alocação de províncias e recursos, como foi dado a Pompeu. A fé que o povo tinha nele era tanta que o preço dos cereais no Fórum caiu logo que ele foi nomeado. Mesmo os muitos senadores - que eram relutantes em conceder tantos poderes a um único homem, tanto mais um homem cujo prestígio e riqueza suplantavam o de todos os seus rivais - parecem ter reconhecido que essa era a melhor maneira de enfrentar o flagelo da pirataria. Os legados de Pompeu formavam um grupo muito distinto, constituído basicamente de homens vindos de famílias nobres, tradicionais e estabelecidas.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

A Batalha de Adrianópolis





A Segunda Batalha de Adrianópolis (atualmente Edirne na Turquia) foi travada entre os romanos liderados pelo imperador Valente e tribos germânicas, em agosto de 378, em que os romanos saíram derrotados. Foi uma estrondosa derrota em que o próprio imperador Valente perdeu a vida numa província romana semiárida do Oriente, na Trácia. Este acontecimento encorajou os godos mais tarde, em 410, a saquearem Roma, prenunciando o colapso final do Império Romano do Ocidente.

Muitos historiadores concordam que boa parte da culpa pela trágica derrota se deveu à má liderança do imperador Valente, e não à inépcia do exército romano. Em sua História Romana, o historiador do século IV d.C. Amiano Marcelino disse: "Os anais não registam outro massacre em batalha como esse, à exceção daquele em Canas, embora mais de uma vez os romanos, enganados pelos ventos adversos da fortuna, tenham adentrado numa época de insucessos nas suas guerras...".

As hostilidades entre os godos e os romanos começaram de maneira bem inofensiva. À medida que os hunos se moviam pela Ásia em direção a Oeste causando destruição, os visigodos, que somavam mais de 200.000 indivíduos, saíram do atual território da Ucrânia em direção à fronteira do Império Romano e, em 376 d.C., cruzaram o rio Danúbio e se estabeleceram na Trácia. Como os hunos continuaram a avançar, as lideranças godas e romanas fizeram uma aliança, de modo que às tribos fosse, enfim, dada a permissão de aí se estabelecerem permanentemente. Era uma aliança impopular entre muitos romanos. No entanto, a permissão foi dada com uma condição: em troca de terras e provisões, os godos comprometiam-se a enviar soldados ao exército romano. Outras exigências foram feitas logo depois por inescrupulosos comandantes romanos (Lupicino e Máximo): enviar as crianças para trabalharem como escravos e entregar todas as armas.

Encarando as provisões inadequadas que levou à fome generalizada, os godos se insurgiram contra os romanos. Após a malograda tentativa de assassinar os líderes godos Fritigerno e Alavivo, o dito Fritigerno e seus companheiros tervíngios entregaram-se a pilhar os campos. Conforme as incursões continuavam, os romanos e os godos acabaram por se enfrentar na Batalha de Marcianópolis em 376 d.C. e na Batalha Ad Salices (ou Batalha dos Salgueiros) em 377 d.C. Em 378 d.C., os contínuos reveses se mostraram demasiado embaraçosos para os líderes romanos, em especial para o imperador Valente, que estava envolvido em batalhas mais a leste contra os persas. Porém, quando os godos se aproximaram de Constantinopla, Valente atendeu aos apelos desesperados dos seus cidadãos regressando à cidade para marchar contra Fritigerno.

A derrota em Adrianópolis viria a ser o capítulo final de um reinado turbulento. Em 364 d.C., o imperador romano Valentiniano I (r. 364-375 d.C.) havia indicado o seu irmão mais novo para ser imperador em dueto, e governar o Oriente em Constantinopla. A impopularidade de Valente advinha, sobretudo, do seu apoio aos cristãos arianos que enfureceu tanto os não cristãos como os cristãos tradicionais. Com a morte de Valentiniano em 375 d.C., quem lhe sucedeu foi Graciano, seu filho com 16 anos de idade. Embora fosse considerado de início muito jovem e inexperiente, Graciano provaria ser um líder hábil e, ao lado de hábeis comandantes, obteve considerável sucesso na Gália. Infelizmente para Valente, ele não conseguira enviar ajuda contra os godos em Adrianópolis.

Assim, convergiram para a derrota vários fatores entre os quais: baixo moral - o exército romano estava cansado, faminto e sedento quando chegou a Adrianópolis; reconhecimento insuficiente e inadequado - Valente não tinha qualquer apetência para avaliar o potencial dos 10.000 cavaleiros que se juntariam depois a Fritigerno; a inadequadamente treinada cavalaria romana - a cavalaria romana realizou uma série de ataques desorganizados e malogrados contra os godos. Esses ataques malogrados deixaram o flanco esquerdo romano desprotegido. Quando Fritigerno e seus homens atacaram os romanos pela frente e pelo lado, o caos se instalou. Os esmagadores números das forças dos godos fizeram com que os soldados romanos fugissem do campo de batalha. Valente foi deixado sozinho com apenas um punhado de homens; seu corpo jamais foi encontrado.

Em 382 d.C., o imperador Teodósio I e os godos acordaram a paz por meio de uma aliança que garantia terras em troca de soldados para servirem no exército romano. A derrota em Adrianópolis demonstrou a fraqueza militar dos romanos, de modo que nas décadas seguintes o Império Romano Ocidental prosseguiu numa espiral descendente até que Alarico, líder visigodo e ex-comandante romano, viu que tinha o caminho aberto para saquear Roma em 410 d.C. O último imperador do Ocidente, Rómulo Augusto, abriu mão do trono em 476 d.C. Mas o Império Oriental persistiu até ser tomado pelos turcos otomanos em 1453.

A partir do século III em diante Roma foi declinando lenta e progressivamente, de modo que o ano de 476 representa o epílogo de uma morte anunciada confirmada pelo último imperador ocidental, Rómulo Augusto. Para o dia-a-dia da maioria da população o evento em si teve pouco impacto. Os imperadores vinham perdendo o seu poder real. Este acontecimento do lado ocidental do império não pode ser o verdadeiro acontecimento responsável pelas grandes transformações que se verificaram no Império Romano a partir dessa data. Roma é saqueada pelos godos em 410 d.C., guerreiros germânicos que já tinham entrado no exército romano. De modo que o contexto era mais de uma guerra civil do que de uma invasão estrangeira. Durante o século V, as províncias ocidentais do império, como, por exemplo, a Britânia, já haviam seguido o seu próprio rumo. Ou foram invadidas e transformadas em reinos liderados por chefes guerreiros germânicos, muitos dos quais que tinham estado ao serviço de Roma. Dessa forma, foi assim que: os visigodos tomaram conta da Hispânia; os francos da Gália; os ostrogodos da Itália; os vândalos da Sicília e do Norte de África. Enquanto o Império Romano do Ocidente ruía, o do Oriente continuava com a sua capital em Constantinopla a administrar um território que incluía os Bálcãs, a Grécia, a Ásia Menor, o Egito e a Síria. De diversas maneiras, passava a ser uma unidade mais coerente.

O Império Romano do Oriente (normalmente chamado, pela convenção moderna, de Império Bizantino) veio a ter de novo a estabilidade política que faltara durante muito tempo. Por volta do século VI era raro que um imperador comandasse em pessoa uma campanha, e sua preocupação em outorgar o comando de seus exércitos a outros é uma indicação da maior segurança pessoal de que gozavam. As atividades dos generais eram observadas de perto em busca do menor sinal de deslealdade. Os imperadores orientais eram capazes de conduzir ativamente a guerra em mais de um palco simultaneamente, de uma maneira que dificilmente fora possível durante séculos.

Os recursos militares disponíveis tinham diminuído, mas ainda eram consideráveis. Em termos de território, o Império do Oriente era mais ou menos equivalente ao seu maior rival, a Pérsia sassânida, embora os romanos – pois era assim que os bizantinos se viam e se chamavam – fossem mais populosos e provavelmente mais ricos. A redução do seu território alterou a atitude dos imperadores romanos em relação ao mundo exterior, e havia certamente uma tendência a dirigirem-se ao rei persa como um igual. Tal disposição fazia contraste marcante com a diplomacia de séculos anteriores, a qual sempre buscara enfatizar a enorme superioridade de Roma sobre as outras nações. Contudo, pelo menos alguns imperadores orientais continuaram a nutrir a ambição de reviver o antigo poderio do império, e, durante o reinado de Justiniano (527-565 d.C.), um esforço concentrado foi feito no sentido de reconquistar os territórios perdidos no Mediterrâneo ocidental. O Norte de África, a Sicília e a Itália foram reconquistados numa série de campanhas, embora tais conquistas não tenham sido duradouras. Um dos comandantes mais proeminentes dessas operações foi Belisário, que teve a sua primeira experiência como general nas guerras da fronteira oriental.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Entre o Cáucaso e a Anatólia - desde os protoindo-europeus






O nome protoindo-europeus que foi dado aos povos que no início do século XX foi designado por caucasianos, é filiado no trabalho dos linguistas ou filólogos que se basearam no estudo etimológico das línguas faladas para os delimitar à cultura e etnia dos povos. Assim, a língua indo-europeia foi a língua derivada de um povo pré-histórico da Idade do Cobre e do Bronze que emergiu de uma área incerta à volta da região a que foi dado o nome de Cáucaso.




No entanto, hoje admite-se que a reconstrução linguística está repleta de tantas incertezas significativas que se presta para uma larga margem de especulação. De acordo com alguns arqueólogos, os falantes de protoindo-europeu não podem ser considerados como sendo um povo ou tribo, única e identificável, mas antes um grupo impreciso de populações ancestrais ainda parcialmente pré-históricas, distintas dos indo-europeus da Idade do Bronze. Os protoindo-europeus terão vivido há 6.000 anos no extremo da estepe para lá do Mar Negro e do Mar Cáspio. Há cerca de 4.000 anos os seus descendentes desdobrados em várias tribos atravessaram o Mar Cáspio, desceram o Cáucaso, atravessaram a Anatólia e chegaram à Grécia. De muita coisa que pensamos saber hoje recebemo-lo da civilização da Grécia Clássica ou Antiga.




Por volta de 1300 a.C., os Cimérios, que viviam a norte do Cáucaso, chegaram à Anatólia empurrados pelos Citas. Os Cimérios provavelmente saquearam Urartu, por volta de 714 a.C. Porém, em 705 a.C., após serem repelidos por Sargão II da Assíria, rumaram para a Anatólia, onde, cerca de 695 a.C. conquistaram a Frígia. Em 652 a.C., após conquistar Sárdis, capital da Lídia, atingiram o seu apogeu. Seguiu-se então um período de rápido declínio, até à sua derrota final, na década de 630 a.C., quando foram derrotados pelo rei lídio Aliates. Deixam então de ser mencionados pelas fontes históricas, tendo-se fixado, provavelmente por esta altura, na Capadócia.




 Há um outro povo que merece ser aqui falado, que é o povo eslavo. Os eslavos são um outro povo que se ramificou do povo de língua indo-europeia que se estendeu por toda a Europa Oriental até aos Balcãs, e que posteriormente também migrou até à Sibéria. Os povos eslavos são classificados geográfica e linguisticamente em eslavos ocidentais [checos, eslovacos, morávios, polacos, silesianos e sórbios]; eslavos orientais [bielorrussos, russos, rutenos e ucranianos]. De acordo com um estudo genético feito em 2007 baseado nos haplogrupos do cromossoma Y, o grupo de homens eslavos se divide em dois grupos principais; um abrange todos os eslavos ocidentais, eslavos orientais e duas populações eslavas meridionais masculinas (croatas ocidentais e eslovenos), enquanto que o outro grupo abrange todos os homens eslavos meridionais restantes.

Ora, acontece que esta região, ocupada pelos eslavos, é mais tarde, entre os séculos X e XII, invadida pelos Víquingues, também conhecidos por Varegues, o povo da Escandinávia que seguindo o curso dos rios atravessou o leste europeu até chegarem a Constantinopla e Bagdade. Entretanto acabaram por se fixar onde hoje é a Bielorrússia, a Ucrânia e parte da Rússia ocidental. 




De acordo com a Primeira Crónica da Rússia de Kiev compilada por volta de 1113 os Rus' eram viquingues que haviam partido de Uplândia, que fica onde hoje é a Suécia. Rurik deu início à dinastia que do qual resultou o nome Rus'. Envolvendo-se em atividades de comércio e pirataria com recurso a mercenários, os varegues desciam os rios da Gardarícia, nome que eles davam às terras do Rus' nas sagas nórdicas. Controlavam a rota comercial do rio Volga - que ligava o Mar Báltico ao Mar Cáspio. E a rota comercial do rio Dniepre que levava a Constantinopla e o Mar Negro. Coincidindo com o declínio geral da Era Viquingue, o influxo dos nórdicos foi diminuindo até serem assimilados pelos russos. Na Rússia, o termo 'varegue' continuou a ser um sinônimo para sueco até ao fim do século XVI. Contrastando com a intensa influência escandinava na Normandia e nas Ilhas Britânicas, a cultura varegue não sobreviveu no Leste. Ao contrário, as classes dominantes varegues das duas poderosas cidades-estado de Kiev e Novogárdia sofreram um intenso processo de aculturação eslávica no fim do século X. O nórdico antigo ainda foi falado num determinado distrito de Novgorod até ao século XIII.

Depois veio a invasão empreendida por um vasto exército de nómadas mongóis iniciada em 1223 contra os Estados de Rus'. Tal invasão precipitou a sua fragmentação e influenciou o desenvolvimento e ascensão do principado de Moscovo, a partir do qual se constrói a História da Rússia. A campanha começou pela Batalha do Rio Calca em maio de 1223, que resultou na vitória dos mongóis sobre as forças de diversos principados da Rus'. Os mongóis recuaram, mesmo assim. Uma invasão completa da Rus' por Batu Cã aconteceu de 1237 a 1242. A invasão acabou com o processo de sucessão após a morte de Oguedai Cã. Todos os principados de Rus' foram forçados a se submeter e fazer parte do Império da Horda de Ouro. Em alguns desses principados a dominação durou até 1480.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O choque da expansão dos russos com os cultos xamânicos da Sibéria

 


Vasili Surikov
A Conquista da Sibéria por Iermak

Depois de os russos terem derrotado o kanato da Sibéria, em 1582, primeiro foram os caçadores de peles a entrar pela Sibéria dentro. Atrás deles foram mercenários, como os cossacos, comandados pelo herói russo Iermak, que foram tomando as ricas minas dos Urais para o seu patrono Stroganov. Só depois é que os soldados do czar se atreveram a construir fortalezas para cobrar tributos às tribos nativas. E mais tarde apareceram os missionários da igreja ortodoxa para catequizar o cristianismo aos siberianos, privando-os dos seus ancestrais cultos xamanísticos.

A Conquista da Sibéria por Iermak, do pintor Surikov, 1885, é uma movimentada cena de batalha entre os cossacos, com mosquetes e ícones, e os pagãos das tribos siberianas, com arco e flecha, a que não faltam os seus xamãs pra tocar os tambores. Esta obra de arte terá sido a que mais contribuiu para firmar essa imagem mítica do Império na consciência do povo russo. Inicialmente, o verdadeiro propósito era mais a conversão dos xamãs do que a conquista de terras. À semelhança dos missionários católicos em África e no Novo Mundo, essa conquista religiosa da estepe asiática foi muito importante para o Império russo.

Os Montes Urais, que oficialmente dividiam a estepe europeia da asiática, fisicamente não passavam de uma série de grandes colinas com extensas terras de estepe a separá-las. E o viajante que as atravessasse teria de perguntar onde ficava a cordilheira dos tão famosos Montes Urais. Isso se tornou muito importante no século XVIII, quando a Rússia se apresentou ao Ocidente como império europeu. Se queria intitular-se "Estado ocidental", a Rússia precisava construir uma fronteira cultural clara para se destacar do seu “outro asiático oriental”. A religião era a mais fácil dessas categorias. Todas as outras tribos não cristãs eram para todos os efeitos os "Tártaros", fosse qual fosse a sua origem e a sua fé (muçulmana, xamânica, budista). 

Em termos mais gerais, Sibéria, Cáucaso, e Ásia Central, eram conotadas como as terras dos  "bárbaros", segundo a nómina grega, que era sinónimo de “atraso”. A imagem do Cáucaso foi orientalizada, com as histórias que os viajantes contavam acerca das suas tribos selvagens. Os mapas do século XVIII consignavam o Cáucaso ao oriente muçulmano, embora em termos geográficos ficasse ao sul e em termos históricos fosse parte da antiga Arménia e Geórgia. O Cáucaso continha civilizações cristãs que datavam do século IV, quinhentos anos antes de os russos se converterem ao cristianismo. Foram os primeiros a adotar a fé cristã, mesmo antes de Constantino converter o nome da cidade Bizâncio ao nome de Constantinopla, em sua honra, que doravante passaria a ser a capital do Império Romano do Oriente.

Na imaginação do século XVIII, os Urais eram vistos como uma vasta cadeia de montanhas, como se criadas por Deus no meio da estepe para marcar o limite do mundo civilizado com o Oriente. Os russos do lado oeste dessas montanhas eram cristãos nos seus costumes, enquanto os asiáticos do lado leste eram descritos pelos viajantes russos como “selvagens”. Nos atlas russos do século XVIII a Sibéria era “Sibir” e se referiam a ela como “Grande Tartária”, título tomado emprestado do léxico geográfico ocidental. Os escritores sobre viagens falavam das suas tribos como os tungus, iacutos e buriatos, sem sequer mencionar a população russa instalada na Sibéria, embora já fosse considerável.  
Essa visão da Sibéria foi reforçada pela sua transformação num vasto campo de prisioneiros, os Gulag. Em expressões coloquiais, a palavra “Sibéria” tornou-se sinónimo de servidão penal. Onde quer que ocorresse, só havia crueldade e vida dura.

Os próprios russos de São Petersburgo mais instruídos amaldiçoavam o “atraso asiático” do seu país. Ansiavam por serem aceites como iguais pelo Ocidente, por entrar e fazer parte da linha principal da vida europeia. Mas, quando rejeitados ou quando sentiam que os valores da Rússia tinham sido subestimados pelo Ocidente, até o mais ocidentalizado intelectual russo tendia a se ressentir e a dar uma guinada para o orgulho chauvinista, asiático e ameaçador. Pushkin, por exemplo, era totalmente europeu na sua criação e, como todos os homens do Iluminismo, via o Ocidente como o destino da Rússia. Mas, quando a Europa condenou a Rússia por sufocar a insurreição polaca de 1831, ele escreveu um poema nacionalista, “Aos caluniadores da Rússia”, em que enfatizava a natureza asiática da sua terra natal, “dos penhascos frios da Finlândia aos penhascos fogosos de Colchis” (nome grego do Cáucaso).

No entanto, havia muito mais do que simples ressentimento com o Ocidente nessa orientação asiática. O Império Russo cresceu pela colonização, e os russos que foram para as zonas de fronteira, alguns para plantar ou comerciar, outros para fugir do domínio czar, tinham tanta probabilidade de adotar a cultura nativa quanto de impor o seu modo de vida russo às tribos locais. Os Aksakov, por exemplo, que se instalaram na estepe perto de Oremburgo, no século XVIII, usavam remédios tártaros quando adoeciam. Eles guardavam koumis, umas ervas especiais, numa bolsa de couro de cavalo, que consumiam acompanhado de uma dieta de gordura de carneiro. O comércio e o casamento eram formas universais de intercâmbio cultural na estepe siberiana, mas quanto mais se deslocavam para leste, mais os russos mudavam o seu modo de vida. Em Iakutsk, por exemplo, no nordeste da Sibéria, todos os russos falam a língua iacuta.

 Mikhail Volkonski, filho do dezembrista que teve papel importante na conquista e povoamento russo da bacia do Amur nos anos 1850, recorda ter estacionado um destacamento de cossacos numa aldeia local para ensinar russo aos buriatas. Um ano depois Volkonski voltou para ver como os cossacos estavam se saindo. Nenhum buriata conseguia conversar em russo, mas todos os duzentos cossacos falavam buriata fluentemente. O Império Russo se foi desenvolvendo pela imposição da cultura russa à estepe asiática, mas nesse mesmo processo muitos colonizadores também se tornaram asiáticos. Uma das consequências desse encontro foi uma solidariedade cultural com as colónias.

Potenkin, príncipe de Tauride, por exemplo, deliciava-se com a mistura étnica da Crimeia, que a Rússia arrancou das mãos do último kanato mongol em 1783. Para comemorar a vitória, o príncipe de Tauride construiu para si um palácio no estilo turco-moldavo, com cúpula e quatro minaretes, como uma mesquita. Na verdade, era típico que, exatamente naquele momento em que os soldados russos marchavam para leste e esmagavam os infiéis, os arquitetos de Catarina construíssem em Tsarskoie Selo aldeias e pagodes chineses, grutas orientais e pavilhões em estilo turco.

Grigori Volkonski, pai do famoso dezembrista, reformou-se como herói da cavalaria de Suvorov e foi para governador de Oremburgo, de 1803 a 1816. Na época, Oremburgo era um baluarte importante do Império Russo. Aninhada no sopé sul dos Montes Urais, era a porta de entrada na Rússia para todas as principais rotas comerciais entre a Ásia central e a Sibéria. Caravanas de camelos com mercadorias preciosas da Ásia, gado, tapetes, algodões, sedas e joias, passavam por Oremburgo a caminho dos mercados da Europa. Era dever do governador tributar, proteger e promover esse comércio. Ali Volkonski foi extremamente bem-sucedido, desenvolvendo novas rotas para Khiva e Bukhara, reinos algodoeiros importantes, que abriram caminho para a Pérsia e a Índia. Mas Oremburgo também era o último posto avançado do Estado imperial, uma fortaleza para defender os agricultores russos nas estepes do Volga das tribos nómadas: nogais e basquírios; calmuques e quirguizes. 

No decorrer do século XVIII, os pastores basquírios rebelaram-se numa série de revoltas contra o Estado czar quando colonos russos começaram a invadir os seus antigos pastos. Muitos basquírios se uniram ao líder cossaco Pugachev na rebelião contra o duro regime de Catarina, a Grande, em 1773–74. Sitiaram Oremburgo (história contada por Pushkin em "A filha do capitão") e capturaram todas as outras cidades entre o Volga e os Urais, saqueando propriedades e aterrorizando os habitantes. Depois de suprimida a rebelião, as autoridades czaristas reforçaram a cidade de Oremburgo. A partir dessa fortaleza, realizaram uma campanha violenta de pacificação contra as tribos da estepe. Essa campanha foi continuada por Volkonski, que também teve de lidar com um grave levantamento dos cossacos dos Urais. No trato com os dois, foi duríssimo. Por ordem de Volkonski, várias centenas de líderes rebeldes basquírios e cossacos foram publicamente açoitados, marcados na testa, e mandados para campos de prisioneiros no Extremo Oriente. Entre os basquírios, o governador passou a ser conhecido como “Volkonski o Severo”.