domingo, 19 de novembro de 2023

Duas bíblias com iluminuras, editadas na Corunha: Bíblia de Kennicott + Bíblia de Cervera




Bíblia de Kennicott

A Bíblia de Kennicott, é uma cópia da Bíblia em língua hebraica manuscrita na cidade da Corunha em 1476. É uma iluminura obra prima da ilustração medieval. Manuscrito sefardita, muito luxuosamente ilustrado, redigido pelo calígrafo Moisés Ibn Zabarah e ilustrado por José ibne Haim. O seu nome deriva de 
Benjamin Kennicott, cónego da catedral da Igreja de Cristo de Oxford. Foi adquirido pela Biblioteca Bodleian em 1872. Na época, a cidade galega da Corunha contava com uma próspera comunidade judia que, segundo Cecil Roth, era uma das comunidades hebraicas mais ricas da Península Ibérica. Esta comunidade judia da Corunha possuía várias bíblias escritas em língua hebraica, entre as quais é citada uma outra Bíblia conhecida por Bíblia de Cervera, produzida por volta de 1300 pelo escriba Samuel ben Abraão ibn Natan, decorada pelo iluminador francês Joseph Hazarfati, e com micrografias de um certo Abraão ibn Gaon. A Corunha, para além da prosperidade económica, tinha uma relevante atividade cultural, destacando a maior escola de ilustradores judeus da Europa.



Bíblia de Cervera

Sucede que em 1492 os Reis Católicos assinaram em Granada o Decreto de Alhambra. Os judeus e pessoas que professassem a religião judaica tinham que abandonar a Espanha. Ou então só tinham como alternativa converter-se ao cristianismo. Este facto provocou o exílio de muitas famílias hebraicas. Foi assim que apelidos sefarditas começaram a aparecer por diferentes partes da Europa, bem como na Turquia e Palestina. Todavia, já em 1478, o Papa havia autorizado os monarcas espanhóis a nomear inquisidores. Nessa altura os judeus não convertidos não ficaram preocupados visto que a Inquisição só lidava com cristãos conversos, e não propriamente com os judeus. De facto, quando a Inquisição começou a atuar em Sevilha, houve de imediato uma fuga em massa de conversos para cidades e aldeias mais distantes, fora do alcance dos inquisidores. Mas também é certo que os próprios judeus caíram na tentação de se vingar de ex-vizinhos que tinham deixado a religião. Alguns judeus não perdoavam os apóstatas, a ponto de se disporem a intervir e prestar informações sobre eles aos inquisidores. É improvável que, quando Fernando e Isabel pediram ao papa Sisto IV que autorizasse a nomeação de inquisidores, alguém, inclusive os monarcas, tenha previsto a máquina de tortura monstruosa em que se tornou a Inquisição.

A Inquisição tinha independência para julgar, constituindo um Estado dentro do Estado, não subordinado a ninguém exceto ao Papa, à Coroa e a seu próprio conjunto de normas burocráticas. Além dos inquisidores e dos membros dos tribunais de interrogatório, havia um imenso exército de “irmãos do Santo Ofício” que era responsável pelo trabalho burocrático que oleava a máquina de terror. Por exemplo, eram tantas as normas, planeadas com esmero, que prescreviam a aplicação da tortura. D
epois que um inquisidor ter sido assassinado na catedral de Saragoça, por um grupo desesperado de conversos, Tomás de Torquemada nunca mais viajou sem ser escoltado pela sua própria segurança, uma espécie de exército em miniatura. 
Concedia poderes praticamente ilimitados para se extrair por tortura uma confissão  comprometedora. 

Surgiu assim na história o Estado dos denunciantes: criados, parentes e vizinhos eram intimidados e adulados para se tornarem informadores e espiões. E a Inquisição também inventou, num grau jamais visto desde os romanos, o espetáculo de punição pública como diversão de massa. Os dias de auto de fé foram declarados dias festivos e feriados, para que o maior número possível de pessoas pudesse assistir à procissão dos condenados impenitentes que não se reconciliavam com a Igreja. Eles caminhavam pelas ruas descalços, com o chapéu cónico e o sambenito, hábito em forma de saco, decorados com chamas, pois, como os inquisidores hipocritamente lembravam aos infelizes, era melhor serem consumidos pelas chamas neste mundo do que condenados a queimar no inferno por toda a eternidade. A aristocracia, e às vezes até o rei e a rainha, comparecia a essas cerimónias elaboradas, mordiscando guloseimas e levando uma caixinha de perfume ao nariz quando o cheiro se tornava desagradável. Quando se começou a exumar os ossos de hereges, muitas vezes às centenas, e queimá-los junto com os corpos vivos, o ar das cidades de imolação era um espesso manto de cheiro nauseabundo.

O jovem Isaac Braga deve ter-se sentido fascinado, quando em 1476 contemplou pela primeira vez o resultado da sua encomenda: a Bíblia de Cervera. Um texto bíblico manuscrito e iluminado por volta do ano1300. Foi executada em Cervera, província de Lérida, que atualmente se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal. 




A obra encontrava-se no início do século XIX nos Países Baixos, para onde muitos judeus de Portugal tinham emigrado durante o reinado de Dom Manuel I, principalmente depois do Massacre de Lisboa de 1506. Entrou em Portugal por iniciativa de António Ribeiro dos Santos, Bibliotecário-Mor da Real Biblioteca Pública da Corte, fundada em 1796.Um livro paradisíaco, viajara muito, passando algum tempo em Córdoba no fim do século XIV, antes de ir parar à Corunha à família de Salomão Braga, pai de Isaac Braga 

A Bíblia de Cervera, a que os hebreus preferem chamar Tanakh, é a coleção dos principais textos sagrados do judaísmo, para além do tratado Sefer Mikhlol, do letrado David Kimchi, sobre gramática hebraica bíblica, que o escriba, Moisés ibn Zabara, fez questão de incluir. Pela antiguidade e excelência do trabalho é a mais importante obra do género existente em Portugal, e das mais importantes a nível mundial. Foi peça central durante a exposição: Medieval Jewish Art in Context no Metropolitan Museum of Art, de 22 de novembro de 2011 a 16 de janeiro de 2012. 

Se em muitos aspetos a Bíblia de Cervera tem um ar encantadoramente arcaico, isso ocorre também porque o cliente e o escriba queriam, ao que se presume, dizer alguma coisa a respeito da vitalidade da tradição. O trabalho fulge com cores intensas e brilhantes de ouro e prata, lápis-lazúli e encarnado, como também de impetuosa animação narrativa com falanges de gatos a darem caça aos camundongos inimigos. Seria bom imaginar aquele júbilo do jovem Isaac com a Bíblia de Cervera na posse da família Braga, sem o mau augúrio do que os Reis Católicos estavam a cogitar. Em 1483, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, unidos como rei e rainha da Espanha desde 1474, levavam por diante a grande extinção da vida judaica na Hispânia sefardita. Houve promotores, como foi o caso do dominicano Vicente Ferrer e do franciscano Alonso de Espina.

Ambos estavam convencidos de que os cristãos-novos sempre estariam tentados a se reconverter ao judaísmo enquanto houvesse judeus por perto. Como a Igreja estava mortalmente ameaçada pela presença desses cristãos de fé vacilante em seu seio, os Reis Católicos fizeram com que todos os judeus fossem expulsos da Andaluzia (Córdoba e Sevilha), considerada a província, como eles diziam "mais infetada pela peste judaizante". Toledo tinha-se tornado um dos lugares mais fecundos da coexistência cultural entre o islão e o judaísmo. Era a filosofia e a ciência, bem como a literatura da cultura árabe e hebraica. 

Os judeus tiveram que se retirar, quase da noite para o dia, de cidades onde estavam radicados havia muito tempo. Foi dado apenas um prazo de oito dias. As autoridades designaram novas áreas onde eles teriam de residir, quase sempre na periferia da cidade, onde se encontravam os bairros mais pobres e sórdidas das cidades. Para além disso eram deslocados deliberadamente para zonas distantes das lojas e oficinas onde trabalhavam e comerciavam. A intenção era arruiná-los para os obrigar à conversão. Eles foram forçados a vender as suas propriedades ao peço da chuva.

Talvez não fosse isso que a família Braga na Corunha, e outros judeus em Toledo, Córdoba, Saragoça e Girona, estivessem à espera dos novos monarcas. Isso era típico de reinados com soberanos fracos, o que não parecia o caso, com 
Aragão e Castela unidos, e Fernando e Isabel aparentemente simpáticos a conversos. Mas a expulsão era o sonho dos cristãos fanáticos. Como o reino poderia se haver sem o dinheiro judeu quando estava para lançar uma cruzada contra o reino fortificado e obstinadamente inconquistável de Granada? Assim, embora as ideias do confessor de Isabel, Tomás de Torquemada, fossem bem conhecidas e assustadoramente alinhadas com a solução judaica de Espina, nada havia na década de 1470 que induzisse pânico nos judeus, como a expulsão do reino de Espanha.

Desde 2015, a comunidade judia galega, principalmente mediada pela Comunidade Judia Bnei Israel da Galiza, reclamou o regresso do manuscrito original da 
Bíblia de Kennicott, à cidade da Corunha, sendo um dos assuntos tratados pela comunidade judia galega durante a visita à cidade do tesoureiro da delegação europeia da União Mundial do Judaísmo Progressista David Pollak em 2015. A Corunha conta com um exemplar fac-símile que foi adquirido pela Junta da Galiza e que se encontra exposto na Academia de Belas Artes. A Comunidade Bnei Israel defende a devolução à cidade do manuscrito fundamentando na justiça moral e histórica e o valor histórico que o livro tem para a cidade.


quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O que diria Hannah Arendt hoje em Jerusalém




Hannah Arendt ingressa na Universidade de Berlim em 1924, numa época de grande efervescência intelectual na República de Weimar. Lá foi aluna de Heidegger e Jaspers, grandes influências em sua vida e obra. Forçada à emigração quando Hitler ascende ao poder, primeiro vai para França, e depois para os Estados Unidos, entrando na New School for Social Research, em Nova York, como docente. 
Foi presa pela polícia alemã em 1933 por suas atividades ilegais no envolvimento com o movimento sionista, e investigações sobre o antissemitismo na sociedade alemã. Refugiada sem documentos, no Campo de Gurs em França, daí fugiu para Lisboa a fim de obter visto de ingresso nos Estados Unidos da América. Morre em 1975 de um ataque cardíaco, quando jantava com amigos. Os seus convivas para o jantar eram o seu velho amigo, o historiador Salo W. Baron, e sua mulher Jeanette. Como se lê no depoimento de Jeanette Baron, o tema do jantar foi a situação de Israel e o projeto de publicação, a ser patrocinado pela Jewish Social Studies, de uma coletânea de ensaios do historiador judeu Phillip Friedmann, falecido em 1960 e que Hannah Arendt considerava “o pai da historiografia do holocausto”.

A Heidegger Hannah Arendt deve a sua visão da relação entre o ser e a temporalidade. E também é tributária da influência de Karl Jaspers. Só se dispôs efetivamente a fazer uma crítica profunda a Heidegger naquilo que veio a ser 'The life of the mind', mais precisamente em 1974, quando reviu os textos de suas “Gifford lectures” e estava certa de que Heidegger, aos 85 anos, velho e próximo da morte, não mais a leria. O início de seu contacto com Karl Jaspers, também o deve a Heidegger. Tal encontro só aconteceu depois de ter seguido os cursos de Husserl em Freiburg. Em Jaspers, Hannah Arendt encontrou uma personalidade de excepcional estatura moral, em plena maturidade intelectual e que não foi apenas o diretor de sua tese de doutoramento sobre Santo Agostinho, defendida e apresentada em Heidelberg. Foi também, e sobretudo, a pessoa que, através de sua atitude exemplar nos tempos obscuros dos desastres morais do nazismo, permitiu a Hannah Arendt, posteriormente, reconciliar-se com aquela dimensão da tradição germânica que era legitimamente sua. Daí o papel que Hannah Arendt sempre lhe atribuiu, com filial reverência, gratidão e amizade, de esclarecedor das coisas e de orientador em matéria de discussão racional. Colaboraram intelectualmente de maneira intensa e permanente, depois da Segunda Guerra Mundial, e Hannah Arendt sentiu a morte de seu mestre em 1969, como Jaspers também sentira a de Max Weber em 1920. 

A efervescência e a criatividade intelectual da cultura da República de Weimar é algo que não pode ser ignorado na obra de 
Hannah Arendt. Ela deve à universidade alemã do tempo de estudante o seu método: uma espécie de fenomenologia, que assume a palavra como ponto de partida, ao detectar na historicidade dos seus significados o reportório das percepções passadas. Essa hermenêutica não se perde, no entanto, em abstrações conceptuais, por força do seu gosto pelo concreto. Ela se vê complementada pela análise dos factos. Estes, na metodologia de Hannah Arendt, iluminam o passado e esclarecem o presente sem a camisa-de-força de rígidos determinismos. São estudados como cristalizações percebidas como uma organização de relações inteligíveis, próprias a um conjunto histórico e a uma sucessão de acontecimentos. É o caso, por exemplo, do antissemitismo e do imperialismo totalitário.

Com efeito, a tradição da vida contemplativa, na qual Hannah Arendt se formou, é a do distanciamento das coisas como condição de reflexão. Esse distanciamento, no entanto, afasta o filósofo da experiência do mundo e tende a nele provocar uma visão de cima e de fora da política, que distorce a realidade. Hannah Arendt não incidiu nesse equívoco porque se viu confrontada com o mundo por força da questão judaica — tema sobre o qual começou a pensar, efetivamente, desde 1926, quando conheceu Kurt Blumenfeld numa conferência sobre sionismo em Heidelberg, promovida pelo seu amigo e colega Hans Jonas.

Kurt Blumenfeld (1884-1963) foi uma eminente figura do sionismo alemão, cuja análise sobre as dimensões psicológicas e sociológicas da resposta judaica ao antissemitismo marcaram Hannah Arendt e aguçaram o seu sentido de identidade. Converteu-se, a partir desse encontro em 1926, num grande amigo e interlocutor, a quem Hannah Arendt muito deve em matéria de análise política. Esse débito foi sempre reconhecido, inclusive publicamente, quando ela dedicou à sua memória a edição francesa, que é de 1973, de seu livro Sobre o antissemitismo que constitui a primeira parte de As Origens do Totalitarismo.

Hannah Arendt nunca se sentiu talhada, por temperamento e inclinação, para a vida pública. Experimentou, no entanto, a ação graças à sua militância na política judaica, sobre a qual largamente refletiu. Testemunham sua militância as atividades que exerceu na França, na década de 1930, como uma das responsáveis pela imigração de jovens judeus para a Palestina (Youth Aliyah) e nos Estados Unidos, na década de 1940 e início dos anos 1950, nas suas funções como diretora da Conference on Jewish Relations e diretora executiva da Jewish Cultural Reconstruction, além de suas responsabilidades intelectuais na Schocken Books, importante editora nova-iorquina, especializada em temas judaicos. Testemunham a sua reflexão não apenas as discussões sobre a questão judaica e o antissemitismo que permeiam As Origens do Totalitarismo, ou o polémico livro sobre o processo Eichmann e a banalidade burocrática do mal no regime nazi, como também a biografia de Rahel Varnhagen e muitos artigos esparsos sobre política e identidade judaicas, hoje em parte recolhidos no livro postumamente editado em 1978 por Ron A. Feldmann intitulado The Jew as Pariah.

O holocausto e o genocídio dos judeus pelos nazis determinaram a visão de vocação universal de Hannah Arendt sobre o mal e a sua pesquisa do vínculo entre o bom homem e o bom cidadão. Daí a pergunta que informa a sua reflexão: como construir uma polis em que o homem — qualquer homem — não seja visto como supérfluo? A liberdade e a justiça, dizia Hannah Arendt no seu documento de 1942, são os princípios da política. Esta, como condição de dignidade, exige a pluralidade e requer a rejeição da ação vista apenas como um processo de meios e fins. Com efeito, o entendimento da ação como um jogo de meios e fins estrutura uma relação manipulativa, que aguça interações do tipo dominantes/dominados e provoca nas lideranças, mesmo nas melhores, uma perda do senso comum. O senso comum só pode subsistir numa partilha de valores compartilhados em liberdade e pensamento.

Hannah Arendt, como ela mesma disse numa carta de 1963 a Gershom Scholem, a propósito da polémica em torno de seu livro sobre Eichmann, não foi uma intelectual que teve a sua origem na esquerda alemã. Teve, no entanto, acesso privilegiado às experiências e às pessoas da esquerda alemã. O primeiro marido de Hannah Arendt foi Günther Anders, com quem casou em 1929 e de quem se separou em 1936. Günther Anders — um intelectual de talento que se doutorou com Husserl e cujos projetos de carreira universitária, em Frankfurt, esbarraram na má vontade de Adorno — acabou se convertendo em jornalista incumbido da secção cultural do Börsen-Courrier, de Berlim, graças ao apoio inicial de Brecht. 
É depois de 1936 o início do romance de Hannah Arendt com Heinrich Blücher, que veio a ser o seu segundo marido e de quem enviuvou em 1970.

O círculo de amigos de Günther Anders em Berlim era integrado por artistas, jornalistas e intelectuais que gravitavam em torno do Partido Comunista. Esse círculo complementava os contactos de Hannah Arendt, que na época frequentava os círculos sionistas onde era conhecida pela pouco sionista alcunha de Palas Atenas. Datam de 1931 as primeiras leituras de Hannah Arendt de Marx e Trotski e o seu interesse pela cena contemporânea. Hannah Arendt havia sido apresentada a Brecht e a Arnold Zweig por Anders. E graças à amizade com Raymond Aron, frequentou os célebres seminários de Alexandre Kojève sobre Hegel na École de Hautes Études, onde conheceram Sartre, de quem nunca foram próximos, e Alexandre Koyré, que posteriormente se tornou grande amigo de Hannah Arendt. Anders era primo distante de Walter Benjamin e o casal intensificou relações quando já tinham saído da Alemanha e viviam todos em Paris. 

Em 1936 Hannah Arendt começou a participar de um grupo de estudos de pessoas formadas na escola marxista da teoria e da práxis. Esse grupo, que geralmente se reunia no apartamento de Walter Benjamin, 10 Rue Dombasle, incluía, além do próprio Benjamin e ocasionalmente seus colegas, membros do Institut für Sozialforschung, de Frankfurt: Erich Cohn-Bendit, advogado e pai do famoso Daniel Cohn-Bendit da revolução estudantil francesa de maio de 1968; o psicanalista Fritz Fränkel; o pintor Karl Hendenreich; Chanan Kienbort, o único judeu da Europa oriental entre esses berlinenses, e Heinrich Blücher, que ao contrário de Anders, não era escritor. Vinha de família proletária, tinha sido spartaquista e membro do Partido Comunista alemão e era, naquela época, um refugiado político sem trabalho e documentos. Blücher — um autodidata de forte personalidade, sedutor nas suas relações com as mulheres, grande orador e conversador e que nos Estados Unidos virou professor do Bard College — marcou decisivamente a vida e a obra de Hannah Arendt. Intelectualmente, ela deve ao pensamento político e à observação histórica de Heinrich Blücher a sua visão cosmopolita, pois, antes do seu encontro com ele, a sua preocupação política concentrava-se na questão judaica. Essa afirmação, que é da própria Hannah Arendt numa carta a Jaspers, dez anos depois de seu encontro com Blücher,

Hannah Arendt, em 27 de junho de 1968, escreveu uma carta de apoio a Daniel Cohn-Bendit, dizendo-lhe que seu pai, um companheiro e amigo do casal, Erich Cohn-Bendit, teria visto com satisfação as atividades do filho. E oferece ao jovem revolucionário, caso necessitasse, auxílio e dinheiro. Uma revolução não é uma omelete para a qual se quebram ovos impunemente. Daí a brilhante crítica de Arendt, no seu estudo sobre a violência, a Marx, Sorel e Sartre, e a ênfase que dá à efetividade da ação não violenta e ao poder visto não como força, mas sim como um recurso que deriva da criatividade da ação conjunta de homens livres.

O primeiro curso de Hannah Arendt como professora na New School for Social Research, de Nova York, em 1967, intitulava-se “Experiências políticas do século XX”. 
Durante dezoito anos — de 1933, data da fuga da Alemanha nazista, a 1951, ocasião em que se converteu em cidadã americana — Hannah Arendt foi, juridicamente, uma apátrida. A experiência da privação da cidadania — que significa a perda do direito a um espaço público em virtude da inexistência do vínculo jurídico com um Estado — marcou muito o modo de ser de Hannah Arendt. Quando as pessoas não pertencem a uma comunidade política, não têm mais direitos humanos. Na inexistência da tutela jurídica organizada, são os acidentes da simpatia, a força da amizade ou a graça do amor os únicos elementos que oferecem a um refugiado a base precária que confirma a sua dignidade humana. Hannah Arendt tinha a vocação da amizade, que a experiência de refugiada, acima mencionada, aguçou e reforçou. O casal Blüncher organizou e manteve, em torno de si, uma tribo de amigos. Estes incluíam, na condição de predecessores, a amiga de adolescência de Hannah, Anna Mendelsohn Weil — a quem a biografia de Rahel Varnhagen é dedicada — e o companheiro de juventude em Berlim de Heinrich, o compositor e poeta Robert Gilbert; abrangia os amigos da Europa, transplantados para os Estados Unidos, como o filósofo Hans Jonas e o eminente especialista de relações internacionais Hans Morgenthau; e incorporava também os que, nos Estados Unidos, foram se agregando, por força das afinidades, filosóficas, literárias ou políticas, como Randall Jarrell, Alfred Kazin, Dwight MacDonald, Philip Rahv, Robert Lowell, Harold Rosenberg, J. Glenn Gray e Mary McCarthy. 

Os manuscritos de Walter Benjamin, que haviam sido confiados a Heinrich Blücheros, foram entregues a Adorno, em Nova York, por vontade de Benjamim. A demora de Adorno em publicar os manuscritos de Benjamin — que só foram reunidos em livro em 1955 — e de quem Hannah Arendt não gostava, desde o tempo em que dificultou a carreira universitária de seu primeiro marido, Günther Anders, em Frankfurt, irritou-a profundamente. Ela também se ressentia do facto de que, em vida de Benjamin, os frankfurtianos o consideravam um mau marxista, não suficientemente dialético, tendo Benjamin revisto alguns de seus textos para apaziguá-los. É esse o contexto, que não discutiu publicamente, a partir do qual, com admiração combinada a lealdade, ela editou, em 1968, um volume em inglês de textos de Benjamin — Illuminations — para o qual escreveu um fundamental e inspirado estudo introdutório, também incluído neste livro. Em 1975, ano de sua morte, em plena redação de The life of the mind, Hannah Arendt estava trabalhando na edição, em inglês, de um segundo volume de textos de Benjamin — Reflections.

É ainda a amizade, sob o signo da lealdade, que fez Hannah Arendt preparar e apresentar, em 1955, com importante estudo introdutório — igualmente presente neste livro —, a edição em alemão, publicada na Suíça, dos ensaios do romancista e pensador austríaco Hermann Broch. Hannah Arendt conheceu Broch em Nova York, em 1946, e ficaram amigos próximos até sua morte, em 1951. Hannah Arendt o admirava sobretudo como romancista, considerando-o uma espécie de elo entre Proust e Kafka. Foi, sem dúvida, no mesmo espírito de lealdade e amizade que Mary McCarthy editou os manuscritos de Hannah Arendt, preparando a edição póstuma do seu testamento filosófico: The life of the mind. Enquanto modo de ser, Hannah Arendt sempre se sentiu constrangida em ser tida como uma mulher excepcional. A posição de exceção lembrava-a da situação de alguns judeus na sociedade europeia do século XX, que ela estudou em 'As Origens do Totalitarismo'.

Hannah Arendt tinha, no campo dos amores, a abertura de quem viveu em Berlim na época da República de Weimar. 
Sempre discreta nesses assuntos, revelou, privadamente, uma simpatia e uma boa vontade não convencional para com a vida e os amores mais complexos do seu círculo de amigos e até mesmo, embora com algumas nuvens, do seu próprio marido. Para Hannah Arendt a velhice é o tempo da meditação. Não é acidental, por isso mesmo, que seu último livro tivesse sido uma volta à vida contemplativa e um ajuste com a tradição filosófica da qual se originou. Hannah Arendt sempre viu o reconhecimento público como uma tentação que dificulta o juízo. Não era, evidentemente, uma pessoa fácil, mas foi sem dúvida uma personalidade fascinante. Sempre teve a capacidade de maravilhar-se diante do espetáculo do mundo.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Setembro de 1939, soldados alemães passam a fronteira rumo a Varsóvia



Enquanto em Berlim, logo de manhã, o dia se mostrava cinzento e abafado, já os aviões de guerra sulcavam o céu em direção aos bombardeamentos na Polónia.  Nuvens pairavam sobre a cidade, oferecendo proteção contra bombardeios, que eram esperados, mas não vieram. O povo nas ruas mantinha-se calmo, apesar das notícias pela rádio serem tonitruantes. O povo alemão ainda estava atónito, ao levantar-se naquela primeira manhã de setembro, ao achar-se envolvido numa guerra que eles estavam convencidos de que o Führer evitaria. Não podiam acreditar que tal coisa estivesse a acontecer. 

As ruas estavam desertas quando o chefe nazi saiu da chancelaria, pouco antes das 10h, para dirigir-se ao Reichstag a fim de falar à nação sob os graves acontecimentos, que ele mesmo provocara deliberada e insensivelmente. Até mesmo os membros do Reichstag, que na maioria eram meros autómatos, vendidos ao partido nazi, não encontraram forças para demonstrar entusiasmo, quando o ditador apresentou as suas explicações sobre os motivos pelos quais a Alemanha estava em guerra a partir daquela madrugada. Os aplausos foram moderados. A explicação sobre as razões alegadas pelo aliado italiano para eximir-se da obrigação automática de vir em seu auxílio não convenceu sequer aquele auditório fantoche.

O ataque à estação de rádio alemã em Gleiwitz tinha sido executado pelos homens da S.S., vestidos com uniformes polacos sob o comando de Naujocks. Hitler invocava esse facto para justificar a sua cínica agressão contra a Polónia. Na verdade, logo nos primeiros comunicados o Alto Comando alemão empregava o termo “contra-ataque” ao referir-se às operações militares. Até Weizsäcker se esforçou para cooperar nesta simulação. Nesse dia, do Ministério do Exterior expediu uma circular a todas as missões diplomáticas alemães no exterior, instruindo-as sobre o modo de proceder: «Defendendo-se de ataques polacos, tropas alemãs entraram em ação. Essa ação não devia ser descrita como guerra, mas apenas como manobras necessárias em virtude dos ataques polacos.» Hitler difundiu também a sua mentira sobre os soldados alemães, que sabiam muito bem quem fizera o ataque na fronteira polaca.

Numa grandiosa proclamação ao exército alemão, no dia 1 de setembro, o Führer disse que o Estado polaco havia repelido o acordo pacífico que era do seu desejo. A série de violações da fronteira, intolerável para uma grande potência, provava que a Polónia não queria mais respeitar as fronteiras do Reich. Mas, ao menos por uma vez, naquele dia, Hitler perante o Reichstag disse a verdade. Não pedia a nenhum alemão que fizesse mais do que ele mesmo sempre esteve pronto a fazer durante os quatro anos. A partir daquele momento ele seria o primeiro soldado do Reich. Não deixaria a farda até ao dia da vitória. Caso contrário, sucumbiria com a Alemanha. Num trecho do discurso, Hitler apontou Göring como seu sucessor, caso algo lhe acontecesse.

Hitler não estava de modo algum convencido de que teria de combater a Inglaterra. Depois do meio-dia as colunas alemãs haviam penetrado vários quilómetros no território polaco e avançavam rapidamente. A maioria das cidades, incluindo Varsóvia, tinha sido bombardeada. Era grande o número de civis mortos sob os bombardeamentos. Mas àquela hora, ainda não havia nenhuma reação vinda de Londres. No entanto, de Paris, tinham vindo pronunciamentos de que a Inglaterra e a França honrariam, prontamente, a palavra empenhada com a Polónia.

Henderson, o embaixador inglês transmitira docilmente a Londres as mentiras de Göring dizendo que os polacos começaram o ataque. Hitler, porém, não chamou Henderson depois de sair do Reichstag, e por esse motivo o embaixador sentia-se um tanto desanimado. Mas não completamente. Às 10:45 transmitiu por telefone outra mensagem para Halifax. Uma nova ideia nascia no seu cérebro fértil e confuso, quando disse pelo telefone de que, embora julgasse pouco provável a sua realização, no seu entender, a única esperança de paz residia na possibilidade de o marechal polaco, Smigly-Rydz, anunciar a sua decisão de ir imediatamente à Alemanha, como soldado e plenipotenciário, para discutir com o marechal-de-campo Göring toda a questão. Parece que a este singular embaixador inglês não ocorreu a hipótese de que o marechal Smigly-Rydz poderia estar agora ocupadíssimo na tarefa de repelir o maciço e injusto ataque alemão. Também não lhe ocorreu que uma viagem do marechal polaco a Berlim como plenipotenciário, caso pudesse abandonar os seus afazeres nesta altura dos acontecimentos, seria o equivalente a uma rendição.

Dahlerus, o embaixador sueco, mostrava-se bem mais ativo que Henderson neste primeiro dia do ataque dos alemães à Polónia. Às 8h fora encontrar-se com Göring. Este disse-lhe que “a guerra irrompeu porque os polacos atacaram a estação de rádio em Gleiwitz e dinamitaram a ponte perto de Dirschau”. O sueco imediatamente telefonou ao Ministério do Exterior, em Londres, para transmitir estas notícias que de acordo com informações recebidas, os polacos tinham atacado a Alemanha. Idêntica informação seria dada pelo embaixador de Sua Majestade em Berlim, por telefone, duas horas depois. Um memorando secreto do Ministério britânico de Relações Exteriores regista o telefonema do sueco às 9:05h. Imitando Göring, Dahlerus persistia em dizer a Londres que os polacos estavam sabotando tudo. Ele tinha provas de que os polacos jamais pensaram em negociar.

Às 12:30h, Dahlerus estava novamente diante do telefone de longa distância, em comunicação com o Ministério do Exterior. Desta vez conseguiu falar com Cadogan. Acusou novamente de sabotarem ao dinamitarem a ponte de Dirschau. E sugeriu voar mais uma vez a Londres em companhia de Forbes. Mas o inflexível e implacável Cadogan estava farto de Dahlerus, principalmente agora que a guerra irrompera, e limitou-se a dizer ao sueco que agora nada mais poderia ser feito. Mas Cadogan era apenas o subsecretário dos Negócios Exteriores, e nem sequer pertencia ao gabinete. Dahlerus insistiu em que a sua sugestão fosse submetida à consideração do gabinete, e com arrogância disse a Cadogan que voltaria a telefonar dentro de uma hora. Assim o fez, e obteve a sua resposta. Qualquer ideia de mediação, disse Cadogan, enquanto as tropas alemãs invadem a Polónia, está completamente fora de questão. 

O único meio de frear a guerra seria: 1) Que as hostilidades fossem suspensas; 2) Que as tropas germânicas se retirassem imediatamente do território polaco. Às 10h, o embaixador polaco em Londres, conde Raczynski, procurou lorde Halifax comunicando oficialmente a agressão alemã. E acrescentou: «Que era um caso tipicamente previsto pelo tratado». O secretário do Exterior respondeu que não duvidava desses factos. Às 10:50h solicitou a presença, no Ministério do Exterior, de Theodor Kordt, o encarregado de negócios alemão, e indagou se tinha alguma informação a dar. Kordt retorquiu que não só carecia de informações sobre um ataque alemão à Polónia, como também não tinha instruções de espécie alguma. Em seguida, Halifax declarou que os relatórios que recebera criavam uma situação muito séria. Mas não arriscou a dizer algo mais do que isso. Kordt transmitiu, por telefone, esta informação para Berlim às 11:45h. Ao meio-dia, Hitler convenceu-se que tinha razão, quando disse que a Inglaterra não iria entrar na guerra. Mas tudo isso, iria ser sol de pouca duração. 


segunda-feira, 13 de novembro de 2023

As implicações do Tratado de Versalhes no mundo e na Liga das Nações



O Tratado de Versalhes – tratado de paz que encerrou oficialmente a Primeira Guerra Mundial assinado em 28 de junho de 1919 - foi considerado pela Alemanha como um diktat das nações da Tríplice Entente. Na sequência do armistício, assinado em novembro de 1918, após seis meses de negociações, em Paris, o principal ponto do tratado determinava que a Alemanha, como a causadora da guerra, aceitasse todas as responsabilidades.

Para o líder da maioria no Senado dos Estados Unidos, Henry Cabot Lodge, a luta contra o Tratado e a Liga das Nações era uma luta conservadora republicana do nacionalismo norte-americano contra o internacionalismo. 
 Segundo a historiadora norte-americana Sally Marks, desde os anos 1970, que a Alemanha poderia ter pagado as suas indemnizações, mas optou por não fazê-lo, e por meio de várias táticas, instigada, em especial, pelos britânicos, conseguiu fazer com que a opinião internacional se voltasse contra os franceses e contra as disposições económicas do Tratado de Versalhes.

O britânico John Maynard Keynes teceu fortes críticas às reparações impostas à Alemanha no seu livro 'As consequências econômicas da paz' (1919). Seria absolutamente certo que a Alemanha não iria poder pagar qualquer quantia que se aproximasse daquele total. Keynes escreveu: «Há uma grande diferença entre fixar uma soma definida, que embora grande estivesse dentro da capacidade de pagamento da Alemanha, permitindo-lhe guardar um pouco para si. E estabelecer uma quantia muito superior à sua capacidade de pagar, podendo ser reduzida por uma comissão estrangeira cujo objetivo é obter cada ano o maior pagamento permitido pelas circunstâncias. A primeira hipótese deixaria ainda à Alemanha um modesto incentivo para o empreendimento, energia e esperança. Mas a segunda consiste em tirar-lhe a pele ano após ano, em perpetuidade, e por mais discreta e habilidosamente que isso se faça, tendo o cuidado de não matar o paciente no processo, trata-se de uma política que, se fosse efetivamente sustentada e praticada de modo deliberado, não tardaria a ser considerada pelo julgamento dos homens como um dos atos mais ultrajantes de crueldade de um vencedor, em toda a história da civilização.»

Depois de voltar de Paris, o Presidente dos Estados Unidos, Wilson, destruiu a sua saúde viajando pelo país para mobilizar o apoio público ao Tratado. Em seu último discurso, em 25 de setembro de 1919, após grandes emoções sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em Pueblo, Colorado. Ele tinha feito referência à sua visita a um cemitério norte-americano antes de deixar a França. O Tratado não recolocou imediatamente os Estados Unidos no isolamento internacional. Mas no Partido Republicano havia alguns que tinham sido dos maiores defensores da participação na Primeira Guerra Mundial. E alguns dos seus líderes acreditavam numa política externa ativa em tempos de paz, na tradição do ex-presidente Theodore Roosevelt. Na verdade, na convenção republicana em junho de 1920, o próprio Henry Cabot Lodge criticou o isolacionismo, alegando que o mundo precisa muito dos Estados Unidos da América.

A eleição de novembro de 1920 sinalizou uma clara rejeição à política externa de Wilson por parte do público norte-americano. Harding obteve mais de 60% dos votos populares, e os candidatos isolacionistas também ajudaram a colocar o Congresso ainda mais firmemente nas mãos republicanas. Em vez de um tratado de paz, em julho de 1921, uma resolução conjunta do Congresso declarou o fim do estado de guerra entre a Alemanha e os Estados Unidos. A contribuição norte-americana à ocupação Aliada da Renânia tinha diminuído para menos de 10 mil homens, os últimos dos quais foram retirados em fevereiro de 1923. 

O envolvimento dos Estados Unidos nos assuntos da Europa fora revisto no Plano Dawes (1924) e no Plano Young (1930). Era revisto o cronograma de pagamento das reparações da Alemanha. Foi para facilitar o pagamento das dívidas da guerra para com os Estados Unidos. Era para manter a capacidade da Alemanha cumprir com as suas obrigações. Os Planos Dawes e Young também refletiam a dominação norte-americana dos mercados financeiros globais no pós-guerra. A guerra trouxe a rápida transformação dos Estados Unidos, de devedor líquido em principal credor do mundo, e Nova York substituiu Londres como centro da economia mundial. O seu crescimento industrial contrastava fortemente com o mal-estar do pós-guerra na Europa. Em 1929, a produção industrial dos Estados Unidos ultrapassou o seu nível de 1913 em mais de 80%, o suficiente para responder por impressionantes 43% da produção global.

Entre os beligerantes da Primeira Guerra Mundial, o Japão saiu com maiores ganhos a um custo menor do que qualquer outro país, vitórias fáceis que alimentaram a sua arrogância crescente. Entre 1913 e 1929, a produção industrial do Japão mais do que triplicou, mas partia de um ponto tão baixo que a sua base industrial muito menor representou apenas 2,5% da produção industrial do mundo em 1929. Mas a contínua fragilidade industrial do Japão em comparação com os Estados Unidos nada fez para moderar as suas ambições pós-guerra. Uma facção linha-dura dos almirantes japoneses considerou uma derrota quando o Tratado Naval de Washington (1922) deu ao Japão uma frota de 60% das marinhas britânica ou norte-americana, em vez de o igualar. Isso levou o Japão a esperar que um dia iria à guerra com os Estados Unidos.

A decisão Aliada de atender à reivindicação do Japão sobre a península de Shantung desencadeou o Movimento de Quatro de Maio, assim nomeado em função do dia em que a notícia chegou a Pequim (4 de maio de 1919), levando milhares de universitários chineses a se reunir na praça Tiananmen para extravasar a sua frustração contra as potências ocidentais e contra a fraqueza de sua própria República chinesa. Muitos líderes do Movimento Quatro de Maio, recorrendo à Rússia soviética como sua fonte de inspiração, levaram à fundação do Partido Comunista Chinês, em 1921.

Embora Shantung tenha sido o gatilho do Movimento Quatro de Maio, o Japão devolveu a península à China em 1922. Ainda que em troca de novas concessões em outras partes do país. O mesmo aconteceu com outros asiáticos, decepcionados com o Tratado daquele verão de 1919 em Paris. Também se voltaram para o mesmo comunismo depois de se decepcionarem com o Ocidente. O nacionalista vietnamita Ho Chi Minh encaminhou uma correspondência ao secretário de Estado Americano, pedindo a independência do seu país, de acordo com o princípio da autodeterminação nacional. 
Era uma carta dirigida a Robert Lansing, em 18 de junho de 1919. Ho Chi Minh, ainda em Paris para a Conferência de Paz com o “Grupo de Patriotas Anamitas”, já antevia a independência para o Vietname. Apelou aos vencedores da Guerra a conceção de uma lista de “liberdades”. Não obteve resposta. Em 1923, Ho Chi Minh saiu de Paris e dirigiu-se para Moscovo, onde se tornou um agente da Internacional Comunista de Lenin (Comintern). E assim embarcou na sua longa luta por um Vietname independente e comunista. 

Com exceção das terras continentais chinesas incorporadas ao Império Japonês, todas as ex-colónias alemãs estavam tecnicamente sob a tutela de seus novos proprietários na condição do mandatos da Liga das Nações. Todavia, nenhuma recebeu independência antes de 1960. A Namíbia, finalmente a alcançaria 30 anos depois. O atraso decorreu do facto de o mandato do antigo Sudoeste Africano Alemão estar sob a administração da África do Sul. Entretanto, depois da Segunda Guerra, caiu sob controle de um regime de apartheid cujas origens também datavam do período de 1914 a 1918. 
Os líderes africâneres não teriam mais êxito em impedir que a África do Sul fosse à guerra com a Alemanha em 1939 do que tiveram em 1914. Após a Segunda Guerra, o seu partido ressurgiu para se tornar o partido da maioria do eleitorado exclusivamente branco e acabaria por romper os laços com a Grã-Bretanha para estabelecer a República da África do Sul (1961) e aplicar a política de apartheid, que durou até 1994. O último presidente branco da África do Sul, F. W. de Klerk, concedeu independência à Namíbia em 1990, no mesmo ano em que libertou Nelson Mandela da prisão.

Estava em marcha a geração pela autodeterminação nacional africana que se estendeu ao movimento pelo governo autónomo na Índia. Gandhi e Jinnah pressupunham, ambos, que a Inglaterra iria recompensar as contribuições da Índia na Primeira Guerra Mundial com uma transição para um autogoverno logo em seguida. Daí terem ficado chocados em novembro de 1918 quando a lei marcial foi estendida para o pós-guerra, uma medida claramente dirigida contra os seus próprios apoiantes. Em fevereiro de 1919, quase três anos antes de assumir a liderança formal do Congresso Nacional indiano, Gandhi lançou a sua primeira campanha de desobediência civil contra a autoridade britânica abarcando toda a Índia. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Ben-Gurion escolheu o nome: Israel. Abdullah ganhara uma parte de Jerusalém



Do aeroporto de Kalandia, o alto-comissário voou de Jerusalém para Haifa, de onde, à meia-noite, partiu de navio para a Inglaterra. Tropas britânicas evacuaram a fortaleza Bevingrado no Complexo Russo. A corrida para controlar o Complexo Russo começou de imediato. O Irgun tomou o Albergue Nikolai. Tiros ricocheteavam pela cidade. Nusseibeh correu para Amã para implorar ao rei Abdullah que salvasse a cidade (“que já foi saqueada pelos cruzados”) e estava prestes a ser saqueada novamente. O rei prometeu que o faria.

Às quatro horas da tarde de 14 de maio de 1948, nos arredores próximos de Jerusalém, Rabin e seus soldados do Palmach, exaustos pela luta para manter a estrada aberta, escutavam pelo rádio o anúncio de David Ben-Gurion, presidente da Agência Judaica. Que nome devia ter o novo Estado dos judeus na Palestina? Alguns sugeriram Judeia ou Sião — mas esses nomes eram associados a Jerusalém e os sionistas ainda estavam em luta para manter apenas uma pequena parte da cidade. Outros tinham proposto Ivriya ou Herzliya. “A Terra de Israel”, leu Ben-Gurion em voz alta, “foi o berço do povo judeu. Ele havia aceitado repetidamente a partilha em dois Estados, mas agora os judeus tinham de resistir a uma invasão dos exércitos regulares árabes com um objetivo abertamente declarado de aniquilação. A própria sobrevivência do Estado de Israel era uma ameaça. Por outro lado, suas opiniões vinham evoluindo desde os anos 1920 e início dos 1930 com as expectativas de uma Palestina compartilhada ou um Estado federativo. Agora, diante da guerra total, tudo estava em disputa.

Onze minutos depois, o presidente Truman anunciou de facto o reconhecimento de Israel. Encorajado por Eddie Jacobson, Truman reassegurara secretamente a Weizmann seu apoio à partilha. No entanto, quase perdera o controlo da Administração quando seus diplomatas na ONU tentaram suspendê-la. Seu secretário de Estado, George Marshall, chefe do Estado-Maior em tempo de guerra e decano do serviço público americano, opunha-se abertamente ao reconhecimento. Mas Truman apoiou o novo Estado, e Stalin foi o primeiro a reconhecer oficialmente Israel.

Em Nova York, Weizmann, agora quase cego, permanecia em seu quarto no Hotel Waldorf Astoria. Ben-Gurion e seus colegas contactaram-no para ser o primeiro presidente. Truman convidou Weizmann para fazer a sua primeira visita oficial à Casa Branca, antes de viajar para Israel. O presidente dos Estados Unidos foi elogiado por Eddie Jacobson, o rabino, pela ajuda a Israel. Nusseibeh levou um tiro na coxa, e acabou com a perna amputada. Mas a guerra irregular havia terminado. Agora tinha-se iniciado a guerra a sério. Os exércitos dos Estados da Liga Árabe — Egito, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano — invadiram Israel com a missão específica de liquidar os judeus, segundo as palavras de Azzam Paxá, secretário da Liga Árabe.

Considerando que a Legião Árabe de Abdullah, com 9 mil homens e treinada pelos britânicos, era a melhor entre eles, o rei foi oficialmente nomeado comandante supremo das Forças da Liga Árabe. Ele era ao mesmo tempo um beduíno orgulhoso e filho do sultanato otomano; havia comandado exércitos quando adolescente e fora “o cérebro” da Grande Revolta Árabe. Suas ambições não conheciam limites e eram igualmente urgentes, daí seu apelido “o Apressado”. No entanto, Abdullah tinha esperado um longo tempo para essa chance de conquistar Jerusalém. Com o correr dos anos, conversava frequentemente com Weizmann e empresários judeus, oferecendo aos judeus uma pátria caso eles o aceitassem como rei da Palestina. Visitou Jerusalém muitas vezes, encontrando-se com seu aliado Ragheb Nashashibi; no entanto, detestava o mufti, acreditando que o sionismo florescia principalmente graças a “esses partidários árabes que não aceitam solução”.

O rei negociara secretamente um pacto de não agressão com os sionistas: ele ocuparia as partes da Cisjordânia atribuídas aos árabes em troca de não se opor às fronteiras determinadas pela ONU para o Estado judeu. “Não quero criar um novo Estado árabe que permita aos árabes montarem nas minhas costas”, explicou ele à enviada sionista Golda Myerson (mais tarde Meir). “Quero ser o cavaleiro, não o cavalo.” Mas agora o cavalo tinha disparado: a guerra, particularmente o massacre de Deir Yassin, o obrigou a combater os judeus. Além disso, os outros Estados árabes estavam determinados a limitar as ambições de Abdullah. O comandante de Abdullah, Glubb Paxá, que dedicara a vida a prover os hachemitas com um exército decente, relutava agora em arriscá-lo. A importância de Jerusalém aos olhos dos árabes e muçulmanos, e cristãos árabes, era bem conhecida. Qualquer desastre sofrido pelo povo da cidade nas mãos dos judeus teria consequências de longo alcance para os muçulmanos. Tudo que temos hoje em nossas mãos precisa ser preservado — a Cidade Velha e a estrada para Jericó precisava de ser preservada.

As forças de Glubb irromperam através de Sheikh Jarrah, que estava nas mãos dos judeus, até ao portão de Damasco. Dentro da Cidade Velha, primeiro os irregulares e depois os legionários árabes cercaram o Bairro Judeu, lar de algumas das mais antigas famílias judias na Palestina, muitos deles estudiosos hassídicos idosos. A defesa foi feita por somente 190 combatentes da Haganah e do Irgun.

Rabin tentou sem êxito atacar o portão de Jaffa, mas simultaneamente outras tropas irromperam pelo portão de Sião penetrando na Cidade Velha. Oitenta homens do Palmach juntaram-se aos defensores antes de perder o portão de Sião. Mas agora a Legião Árabe chegava com toda a força. A batalha pela Cidade Velha seria desesperada; os combates, comentou Glubb, aconteciam “de casa em casa, por passagens escuras, subindo e descendo estreitas escadas que cortam pátios, e indo para baixo nos porões”, através do “apinhado viveiro que era o Bairro Judeu, por cima de entulho e destroços de milénios”.

Dos 213 defensores, 39 estavam mortos e 134 feridos. “Assim a Cidadela de David caiu nas mãos do inimigo”, escreveu Begin. Das 27 sinagogas, 22 foram demolidas. Pela primeira vez desde a reconquista muçulmana em 1187, os judeus perdiam acesso ao Muro Ocidental. Glubb usou a fortaleza de Latrum para fechar a estrada para Jerusalém ocidental. Ben-Gurion ordenou repetidamente a tomada de Latrum, a um custo altíssimo de vidas, mas os ataques fracassaram. Os hierosolimitas judeus, já vivendo nos porões, começaram a passar fome, até que os israelitas criaram uma nova rota para as provisões, a assim chamada estrada de Burma, ao sul de Latrum.

Em 11 de junho, o mediador da ONU, conde Folke Bernadotte, neto de um rei sueco que havia negociado com Himmler a salvação de judeus nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, teve êxito em mediar uma trégua e propôs uma nova versão da partilha dando toda Jerusalém ao rei Abdullah. Israel rejeitou os planos de Bernadotte. Entretanto, Ben-Gurion derrotou um quase motim quando Menachem Begin, já tendo concordado em fundir suas forças do Irgun com as do Estado, tentou desembarcar o seu próprio carregamento de armas: o exército israelita afundou o navio. Em vez de começar uma guerra civil, Begin se retirou da clandestinidade para entrar na política regular.

Quando a trégua de Bernadotte terminou, reiniciou-se a guerra. No dia seguinte, um Spitfire egípcio bombardeou Jerusalém ocidental. Os empolgados legionários atacaram a Cidade Nova pelo portão de Sião e então avançaram na direção de Notre Dame: “Virando a cabeça, eles podiam ver o Domo da Rocha e al-Aqsa”, escreveu Glubb. “Eles estavam combatendo no caminho de Deus”, enquanto os israelitas tentavam capturar a Cidade Velha. O novo Estado contava agora com 88 mil homens ao todo, contra os 68 mil árabes. Nos dez dias que precederam uma segunda trégua, os israelitas tomaram Lydda e Ramla.

O sueco então sugeriu que Jerusalém deveria ser internacionalizada. Em 17 de setembro de 1948, o conde sueco voou para a Cidade Santa. Mas os extremistas do Lehi, liderados por Yitzhak Shamir (futuro primeiro-ministro de Israel), decidiram aniquilar tanto o homem como seus planos. Quando Bernadotte dirigia por Katamon, indo de sua sede na Casa do Governo para encontrar-se com o governador Dov Joseph em Rehávia, sinalizaram para que seu jipe parasse num posto de fiscalização. Três homens desceram de outro jipe brandindo metralhadoras Sten: dois deles dispararam rajadas contra os pneus e o terceiro metralhou Bernadotte no peito antes de fugirem a toda velocidade. O conde morreu no Hospital Hadassah. Ben-Gurion suprimiu e desmantelou o Lehi, mas os assassinos jamais foram apanhados.

Abdullah havia assegurado a Cidade Velha. Na Cisjordânia, o rei reteve o sul, e os iraquianos, o norte. Ao sul de Jerusalém, a vanguarda egípcia podia ver a Cidade Velha e varria os subúrbios meridionais. Em meados de setembro, a Liga Árabe reconheceu um “governo” palestino sediado em Gaza, que era dominado pelo mufti e pelas famílias de Jerusalém. Mas quando os combates foram retomados, os israelitas derrotaram e cercaram os egípcios, conquistando o deserto do Neguev. Humilhados, os egípcios mandaram o mufti de volta para o Cairo, com a carreira política finalmente desacreditada. No fim de novembro de 1948, o tenente-coronel Moshe Dayan, agora comandante militar de Jerusalém, concordou com um cessar-fogo com os jordanos. Durante a primeira metade de 1949, Israel assinou armistícios com todos os cinco Estados árabes; em fevereiro de 1949, o Knesset, Parlamento de Israel, reuniu-se no prédio da Agência Judaica na King George V Avenue em Jerusalém para eleger formalmente Weizmann para o cerimonial cargo de presidente. Weizmann, com 75 anos, viu-se ignorado pelo primeiro-ministro Ben-Gurion e frustrado por ter um papel não executivo. Ele morreu em 1952.

O Armistício, assinado em abril de 1949 e supervisionado pela ONU, que estava sediada na Casa do Governo britânica, dividia Jerusalém: Israel ficou com a parte oeste e com uma ilha de território no monte Scopus, enquanto Abdullah manteve a Cidade Velha, Jerusalém oriental e a Cisjordânia. O acordo prometia aos judeus acesso ao Muro, ao cemitério do monte das Oliveiras e às tumbas do vale do Cédron, mas isso nunca foi respeitado. Judeus não tiveram permissão de rezar no Muro pelos dezanove anos seguintes. E as lápides de seus cemitérios foram vandalizadas.

Os israelitas e Abdullah temiam perder suas metades de Jerusalém. A ONU persistiu em debater a internacionalização da cidade, e então ambos ocuparam Jerusalém ilegalmente, e somente dois países reconheceram a posse de Abdullah sobre a Cidade Velha. O chefe de gabinete de Weizmann, George Weidenfeld, um jovem vienense que recentemente fundara a sua própria editora em Londres, lançou uma campanha para convencer o mundo de que Israel deveria manter Jerusalém ocidental. Em 11 de dezembro, Jerusalém foi declarada capital de Israel. O vitorioso árabe foi Abdullah, o Apressado, que, 32 anos após a Revolta Árabe, finalmente ganhara uma parte de Jerusalém: “Ninguém”, disse ele, “vai tirar Jerusalém de mim a não ser que me matem”.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Depois do Reino de Himiar em 525, veio o islão de Maomé ao Hedjaz



O Reino de Himiar era, para todos os efeitos históricos, um reino judaico. Os seus habitantes fiéis ao judaísmo, depois de 525, transferiram-se para o Hedjaz, mais a norte, onde se acrescentaram a uma população que já era fortemente judaica nas cidades e nos oásis. Alguns deles ficaram-se pelo Estado de Axum, que era cristão, mas conservando o seu judaísmo. Sempre houve judeus no Iémen desde o Império Romano, que ali permaneceram até emigrarem em massa para a Palestina depois da Segunda Guerra Mundial.

Quando aparece Maomé em Meca, o monoteísmo judaico já estava profundamente implantado na Península da Arábia, mais conhecida por Hedjaz. Maomé, que vivera entre judeus durante toda a vida, pôde contar com, no mínimo, alguma simpatia entre eles, e até esperar que talvez eles fossem a parcela da população mais recetiva à sua profecia ou, pelo menos, à parte segundo a qual o islão era a verdadeira fé que remontava a Abraão. No entanto, não foi em Meca que Maomé iniciou o islão, mas em Medina, onde triunfou.

Assim, o islão surgiu num cadinho urbano judeu. A convicção de Maomé de que os judeus seriam seus aliados mais naturais se explica por uma afinidade entre as duas religiões de Deus único. No entanto, a conexão é ainda mais forte que isso. O judaísmo dos árabes de Himiar talvez tenha sido, num sentido profundo, a raiz de onde o islão irrompeu em grande força. Não há nenhum sentido histórico para considerar as doutrinas de Maomé como vindas do céu. Não surpreende, pois, que, até ser repudiado por clãs judaicas, Maomé orientasse os crentes a orar voltados para Jerusalém. E a explicação da razão por que Maomé tem a sua lenda de ter partido para o paraíso do Rochedo onde tem a sua cúpula dourada. 

É compreensível, portanto, que exatamente da mesma maneira como os cristãos tanto criticavam o judaísmo baseado no Talmude, autores muçulmanos insistam em que o islão é que era o verdadeiro cumprimento da Bíblia hebraica; que em suas páginas, em especial nas epopeias de Abraão/ Ibrahim e de Moisés/ Musa, se encontrassem as promessas afinal concretizadas por Maomé; e que a religião praticada pelos judeus contemporâneos era uma invenção talmúdica moderna dos rabinos, não autorizada por revelação divina. Assim pensavam também, afinal, os samaritanos e a nova congregação dos caraítas, que rejeitavam todas as adições rabínicas às leis expostas na Torá. Se Maomé tivesse aparecido seis séculos antes, as variações talvez não parecessem tão heréticas, uma vez que os próprios Manuscritos do Mar Morto estão cheios de pseudoepígrafes que, em essência, reescrevem não só a história dos Patriarcas, como também o relato do Génesis da própria Criação.

Maomé apareceu numa altura em que os sábios judeus de Yathrib e do Hedjaz haviam declarado de forma categórica o fim dos Profetas. Para muitos desses judeus, e sobretudo para aqueles que o Alcorão chama de Rabban’iyun, a instituição rabínica. Era a revelação de Maomé algo comparável ao que tinha sido descoberto no Templo de Jerusalém, no reinado de Josias, os escritos do sacerdote Esdras, que por milagre se tinham preservado durante o tempo do exílio na Babilónia? E com que direito Maomé mutilava e alterava a Torá, ao tornar Ismael (Ism’ail), e não Isaac, quem Deus ordenou a Abraão o sacrifício do filho? Ism’ail estava exilado no deserto com Agar. E era preciso ter muito descaramento para insistir que os autores da Torá eram charlatães e forjadores, e por isso, merecedora de uma adequada emenda feita pelo Alcorão. Os irados guardiães da tradição judaica, em Medina, não se furtaram a propalar a enormidade da heresia. Além disso, fizeram-no através do clássico expediente árabe da poesia pública, declamada diariamente nos mercados a céu aberto de Medina. Os beduínos tinham uma longa tradição de fazer essas declamações versificadas, e esse foi um dentre outros costumes árabes que os judeus adotaram com facilidade.

As coisas mudaram drasticamente em Medina. Irritado com a rejeição dos judeus, Maomé mudou o sentido da qibla, a direção para onde deviam ser dirigidas as orações. Deixou de ser para Jerusalém. E passou a ser para Meca. Em 622, já era muito evidente que Maomé assumiria uma postura radicalmente antagónica aos clãs judeus mais antigos e poderosos, todos eles perigosamente aliados, de uma forma ou de outra, dos seus adversários. Mas os judeus acabaram por ser chamados Povo do Livro. Expulsos de Medina, os judeus de Banu Nadir foram para Khaybar, no Norte, onde muitos deles já possuíam terras. A historiografia muçulmana faz da batalha de Khaybar uma epopeia decisiva, com Maomé infiltrando falsos convidados dentro das muralhas, para que atacassem e matassem os anfitriões durante as festas. Assassinaram Huyayy ibn Akhtab, o chefe do clã Banu Nadir. Mataram o genro e fizeram refém a filha Safiyya, que se tornou a segunda mulher de Maomé. Um primo e genro, Ali, atacou Marwab, o mais temível guerreiro judeu. 

Segundo fontes muçulmanas, Maomé decidiu expulsar os judeus de Khaybar, pela audácia de eles se aliarem aos inimigos. Depois da rendição, porém, e talvez pensando em outros meios de pacificação, diz-se que Maomé concordou com a proposta dos próprios judeus: terem permissão de ficar e praticar a sua religião, em troca da metade de suas colheitas. Seja isso historicamente verídico ou não, não resta dúvida de que a submissão de Khaybar tornou-se um modelo para os acordos que o islão iria impor às populações que subjugou. E tudo tão rápido e com uma energia espantosa. Contudo, o mais capaz dos califas guerreiros, Omar I, em muitos sentidos o arquiteto do império militar e religioso islâmico, revogou o pacto de Khaybar ao declarar, em 642, que Maomé, antes de morrer, dez anos antes, insistira em que só podia haver uma fé na Arábia. Todos os incréus (cristãos e judeus) teriam de sair. Se não fosse pelo seu pé, então teriam de ser expulsos por qualquer meio que se tornasse necessário. Mediante um decreto, os judeus foram postos para fora da Arábia, onde tinham vivido pelo menos meio milénio.

Muitos judeus acabaram por se converter ao islão. Mas, sobretudo no Himiar, lá permaneceram alguns até à Segunda Guerra Mundial, como se disse atrás. Foram encontrados vestígios dos séculos XI e XII entre o material do depósito conhecido como Guenizá do Cairo, e sinagoga Ben Ezra de judeus palestinos em Fustat, na cidade velha do Cairo. O viajante Benjamim de Tudela, do século XII, referiu-se às “recabitas”, comunidades nómadas de guerreiros, criadores e pastores judeus, cujo líder, ou nasi, vestia-se de preto, não comia carne nem bebia vinho, mas guardava as festas e jejuns tradicionais.

Nas gerações que se seguiram às conquistas de Maomé, e dos seus sucessores - Abu Bakr, e Omar - alguns judeus deslocaram-se para a Síria, Palestina e Egito. E outros foram para cidades da Mesopotâmia e da Pérsia. Foi por estas paragens que o Talmude recebeu acrescentos e aperfeiçoamentos. Como era impossível dizer quem era judeu e quem era muçulmano pelo aspeto físico, exigia-se que os judeus usassem trajes característicos, de cor mostarda, e proibia-se que usassem turbantes ou outro tipo de adereço muçulmano digno. Os chapéus dos judeus tinham forma e estilo determinados, e um distintivo amarelo foi imposto pelo califado abássida em Bagdade. Além disso, os judeus não podiam usar cinto, apenas uma faixa de pano, como sinal de serem pessoas submissas e desarmadas.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Himiar e Axum - Reinos do Mar da Eritreia - séculos I a V d.C.





O Reino de Himiar, antigamente chamado Reino Homerita pelos gregos e romanos, foi um estado localizado no sudoeste da Arábia entre cerca de 110 a.C. e cerca de 900 d.C. Tendo começado com a antiga cidade de Zafar, como capital, mais tarde a capital passou para a cidade de Saná. Tendo começado guerras com o vizinho Reino de Sabá em 25 a.C., a conquista definitiva só foi conseguida em 280 d.C.  Catabã foi conquistada em 200 d.C.; e Hadramaute em 300 d.C. O Reino de Himiar controlou a Arábia até que finalmente caiu sob a tutela dos invasores do Reino de Axum, em 525 d.C.

O Reino de Axum também conhecido como Reino de Aksum, Cidade-estado de Axum, ou Império de Aksumite foi um reino africano que se tornou conhecido pelos povos da região por volta do século I d.C.. Localizava-se no território onde atualmente fica o norte da Etiópia, e abrangendo a atual Eritreia, Djibuti e Sudão, bem próximo do Mar Vermelho e do rio Nilo, estendeu-se no seu auge por grande parte do sul da Arábia durante o reinado de Kaleb, rei de Axum. Os axumitas estabeleceram-se na região por volta do século V a.C., na cidade de Axum, e passaram a conquistar outras áreas próximas, cobrando tributos dos povos derrotados. A partir do século II d.C., conquistaram várias cidades da Península Arábica e o Reino de Cuxe, ampliando consideravelmente o império. No século IX a capital mudou-se para Jarma, devido ao declínio das conexões comerciais e às recorrentes invasões externas. À medida que o reino se tornou uma grande potência na rota entre Roma e a Índia, ganhou o monopólio do comércio do Oceano Índico.

Os missionários enviados à Arábia pelo imperador Constâncio II, em 356, sentiram-se frustrados com a forte e bem-sucedida concorrência de catequistas judeus, aqueles que fontes muçulmanas chamavam de rabban’iyun. No fim do século IV, quando a vida dos judeus na cristandade começava a se tornar bem mais difícil, o judaísmo fez a sua conquista mais espetacular na Arábia, ao obter a conversão do Reino de Himiar, que correspondia, em termos de território, ao atual Iémen. Era bem conhecido este reino como potência dominante na península Arábica, que se aguentou por cerca de 250 anos. Durante muito tempo, supôs-se que a conversão da gente de Himiar ao judaísmo se limitava a um pequeno círculo em torno do rei Tiban As’ad Abu Karib, o último da linha de Tubban. Como a elite himiarita enterrava os mortos na grande necrópole de Beit Shearim, não há dúvidas quanto à direção de sua fé religiosa ou à sua ligação com a Palestina judaica. Fontes muçulmanas posteriores falam até de rabinos vindos de Tiberíades para fazer preleções para a corte himiarita. Seja isso verdade ou não, fica evidente que nos séculos que antecederam a aparição de Maomé, em 610, os judeus constituíam uma grande presença no mundo etnicamente árabe do Hedjaz e de Himiar.

Os reis himiaritas devem ter abandonado o politeísmo e se convertido ao judaísmo por volta do ano 380 d.C., várias décadas após a conversão do Reino de Axum ao cristianismo, em 328 d.C. Nenhuma alteração ocorreu na escrita, calendário ou idioma em Himiar, ao contrário de Axum após a conversão. Esta data marca o fim de uma era em que inúmeras inscrições registam os nomes e ações dos reis e dedicam edifícios a deuses locais, como, por exemplo Uagal e Simiada. E deuses principais  como Almacá. A partir de 380, os templos foram abandonados e as dedicações aos deuses antigos cessaram, substituídas por referências a Ramanã, o Senhor do Céu ou Senhor do Céu e da Terra. 

O contexto político para essa conversão pode ter sido do interesse da aristocracia himiarita em manter a neutralidade e boas relações comerciais com os impérios concorrentes de Bizâncio, que adotou o cristianismo pela primeira vez sob Constantino, e o Império Sassânida com Zoroastro e Maniqueu. Os imperadores bizantinos há muito sondavam a península Arábica e procuravam controlar o lucrativo comércio das especiarias na rota com a Índia. Os bizantinos esperavam estabelecer um protetorado convertendo os habitantes ao cristianismo. Algum progresso foi feito no norte da Arábia, mas os bizantinos tiveram pouco sucesso em Himiar. A economia de Himiar  era baseada na agricultura e o comércio exterior estava centrado na exportação de incenso e mirra. Por muitos anos, o reino também foi o principal intermediário entre a África Oriental e o Mediterrâneo. Esse comércio consistia basicamente na exportação de marfim da África para ser vendido no Império Romano. Os navios de Himiar viajavam regularmente pela costa da África Oriental, e também exercia uma grande influência cultural, religiosa e política nas cidades comerciais da África Oriental, enquanto estas permaneceram independentes.

As ruínas de Zafar espalham-se por mais de 120 hectares na Montanha Mudawwar, 10 km ao norte e noroeste da cidade de Yarim. Zafar foi a primeira capital autossuficiente em termos agrícolas. Até o início do século III, o comércio floresceu. Mais tarde, fracassou talvez por causa do domínio dos Nabateus ao norte de Hejaz e por causa da guerra intertribal, razão pela qual os Catanitas foram espalhados pela Arábia, particularmente a leste. O século VI trouxe uma drástica perda de cidades e população.

A primeira invasão por parte do Reino de Axum ocorreu em algum momento do século V e foi desencadeada pela perseguição aos cristãos. A monarquia judaica em Himiar terminou durante o reinado de Dunaas, que em 523 atacou a população cristã de Najrã. Até ao ano 500, na véspera da regência de Martadilã Ianufe (c. 500-515), o reino de Himiar exercia controlo sobre grande parte da península Arábica. Foi durante este reinado que Himiar começou a se tornar um estado tributário do Reino de Axum.

O segundo e definitivo ataque do Reino de Axum ocorreu em 525 d.C. quando Elesbão lançou com o apoio do Império Bizantino um ataque em larga escala que terminou com o derrube e morte de Dunaas e a ocupação de Himiar por tropas axumitas, iniciando a restauração das igrejas danificadas. Os judeus estavam instalados em terras árabes havia tanto tempo que se tinham tornado uma parte orgânica daquele mundo. Em escavações recentes em Zafar, cidade construída entre vulcões, foi encontrado um anel do século II ou III, com um sinete de cornalina, entalhado com a imagem da Arca da Torá, estilizada exatamente da mesma maneira como ela aparece nos pisos de mosaico das primeiras sinagogas, e com o nome Yishaq bar Hanina gravado em hebraico, da direita para a esquerda.

Tinha havido tantas conversões ao longo dos séculos, desde que os asmoneus impuseram à força o judaísmo aos itureus e idumeus do deserto, de etnia árabe, que é impossível distinguir os judeus árabes que na sua origem eram emigrantes da Palestina, antes ou depois da destruição do Templo pelos Romanos, das multidões de árabes antes pagãos que haviam optado pelo judaísmo, e não pelo cristianismo, como sua fé monoteísta. Estudos recentes do DNA de judeus iemenitas modernos, realizados pela geneticista Batsheva Bonne-Tamir, confirmaram que descendem de beduínos e árabes do sudoeste da Arábia convertidos ao judaísmo.

Essa fusão, no período pré-islâmico, de identidades árabes e judaicas fortaleceu-se quando o último rei judeu, Dhu Nuwas, o Senhor dos Peiot (também conhecido como Yusef As’ar), foi derrotado em batalha por Elesbão, rei cristão de Axum, em 525. 
O Reino de Axum era uma das quatro grandes potências do século III, ao lado da Pérsia, Roma e China. O domínio axumita no Mar Vermelho culminou durante o reinado de Elesbão que, a pedido do imperador bizantino Justino I, invadiu o Reino Himiarita para acabar com a perseguição aos cristãos perpetrada pelo rei judeu Dunaas. Com a anexação do Reino de Himiar, o Reino de Axum atingiu a sua maior extensão territorial. No entanto, o território foi perdido nas guerras com os Persas.

Em Constantinopla, o poder do Império Bizantino, com Justino I, começou a ver-se ameaçado com o inimigo sassânida vindo de Leste, e de Himiar vindo de Sul. Como o Reino de Axum era cristão, Justino I, achou por bem pedir auxílio ao Rei de Axum. E este, sob a liderança de Elesbão, achou por bem invadir Himiar em 525. E foi bem sucedido, derrotando Dhu Nuwas e pondo fim à história do sonho de um estado federado híbrido (árabe e judeu). Consta que Dhu Nuwas se matou fazendo a sua montaria saltar para o mar do alto de um penhasco. Mas isso não passa de uma lenda. O certo é que o último e mais agressivo rei de Himiar, que pelos vistos era judeu, não sobreviveu à sorte do seu exército que foi vencido.

O Reino de Axum, por sua vez, a partir do século VII, com a ascensão dos islâmicos, entrou num lento declínio. O tráfego comercial do Mar Vermelho, por esta altura, já tinha novos donos. É possível que se tenham juntado outros fatores ambientais. Os últimos três séculos foram considerados a era das trevas para o Reino de Axum, que entrou em colapso por volta da década de 960. Mas depois de um longo período de obscuridade, Axum, por volta dos finais do século XV, parece ter ressuscitado. A Igreja de Santa Maria de Sião tinha sido reconstruída em 1404. No século XVI já havia por lá novos bairros de belas moradias. Porém, em 1535, a cidade foi invadida e destruída por Amade ibne Ibraim Algazi, um famoso chefe militar da Somália. No século XVII, Axum foi vítima de pragas de gafanhotos, cólera e fome, acabando a população por ser toda dizimada. Mas para a Etiópia, a importância simbólica do Reino de Axum, seja pelo cristianismo, seja pela realeza, nunca mais foi esquecida.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Como os acontecimentos de 9 de novembro de 1938 não acordaram o resto da Europa



Na chamejante e tumultuosa noite de 9 de novembro de 1938, Noite de Cristal, o Terceiro Reich tomara deliberadamente um caminho do qual ainda hoje muita gente perde o apetite. Nesse dia o número e cadáveres de judeus depois de torturados era impreciso. Enquanto bandos de camisas pardas agiam com sadismo, as autoridades estatais ficavam inertes, olhando para o lado. Assassinatos, roubo e incêndio de sinagogas, de lares e de lojas. Decretos oficiais, devidamente publicados na imprensa governamental, determinavam à comunidade judia uma multa no valor de um bilião de marcos. Anos mais tarde, em 1994, um colono judeu foi a Hebron e disparou desenfreadamente numa mesquita onde palestinianos estavam a rezar. Matou 29. E ele justificou assim: «Estou a vingar o massacre árabe que teve lugar aqui, em 1929, do qual resultou na morte de 67 judeus. Como mataram judeus aqui, e nós somos judeus, logo, estamos autorizados a fazer o que quisermos dentro deste lugar.»

Em 9 de novembro de 1938, aquela abjeta barbaridade perpetrada durante a noite tinha um responsável: Adolf Hitler. Era inequívoca, a sua aprovação, e indispensável para que que fosse lançada; ele tinha sido inequívoco sobre as orientações dadas a Göring, para levar adiante a eliminação dos judeus da vida alemã. Doravante o senhor absoluto do Terceiro Reich demonstraria pouco comedimento nos seus propósitos já delineados no livro escrito na prisão. Um génio que havia contaminado toda a Alemanha, embriagada com as suas posteriores conquistas. Mas eram sementes envenenadas, que viriam a resultar na sua total autodestruição. Isso não significa que muitos alemães não tivessem ficado horrorizados com esse inferno de 9 de novembro, da mesma maneira que os americanos, os ingleses e outros estrangeiros. Mas nem os dirigentes das igrejas cristãs, nem os generais, nem outros representantes da digna Alemanha formularam um protesto aberto de imediato. Submeteram-se ao que o general von Fritsch chamava “o inevitável” ou o “destino da Alemanha”. Em Saarbrücken, em Weimar, em Munique, Hitler proferiu discursos petulantes de aviso ao mundo exterior, e principalmente aos ingleses, para cuidarem de seus próprios assuntos e não se imiscuírem com o destino dos alemães dentro das fronteiras do Reich.



Sinagoga em chamas

Ribbentrop, ministro do Exterior alemão, tinha ido a Roma persuadir Mussolini a assinar uma aliança militar entre Alemanha, Japão e Itália, de acordo com um esboço já dado aos italianos em Munique; mas Mussolini procurou ganhar tempo. Não se achava ainda preparado para fechar as portas à Inglaterra e à França. O próprio Hitler acalentou a ideia, nesse outono, de tentar separar a França de sua aliada do outro lado do Canal da Mancha. Quando a 18 de outubro ele recebeu o embaixador francês, François-Poncet, para uma visita de despedida na lúgubre fortaleza do Ninho de Águia, muito acima de Berchtesgaden, no alto de uma montanha, irrompeu num rancoroso ataque contra a Inglaterra. Os ingleses é que estavam destruindo o espírito de Munique. E assim por diante. A França era diferente. Hitler afirmou que desejava maior amizade e relações íntimas com ela. Para demonstrá-lo, achava-se disposto a assinar imediatamente um pacto de amizade, garantindo suas atuais fronteiras, renunciando de novo, dessa forma, às reclamações alemãs em relação à Alsácia-Lorena. Propunha regulamentar quaisquer futuras divergências com consultas.

O Ninho de Águia, o refúgio de Hitler, construído penosamente durante três anos, era difícil de alcançar. Eram 16 Km de uma estrada cheia de curvas, ladeando a montanha, que levava a uma extensa passagem subterrânea, perfurada na rocha, e que conduzia por um elevador a uma cabana a 230 metros, encarapitada numa elevação de mais de 1.830 metros, no cume de uma montanha. Dali se descortinava uma paisagem maravilhosa dos Alpes. Salzburgo podia ser vista à distância. Descrevendo-a mais tarde, François-Poncet admirava-se: «Este edifício foi obra de uma mente normal ou de um espírito atormentado pela megalomania obcecada por visões de domínio e solidão?» O pacto foi assinado devidamente em Paris a 6 de dezembro de 1938, pelos ministros do Exterior alemão e francês. A França nessa época se repusera um pouco do pânico derrotista dos dias de Munique.

A 24 de novembro Hitler emitiu uma ordem secreta determinando que a Wehrmacht fizesse preparativos para a ocupação militar de Dantzig. O Führer já olhava além da conquista final da Checoslováquia. Antes do Natal, em 1938, o Ministério checo, a fim de apaziguar novamente o Führer, dissolvera o Partido Comunista e suspendera todos os professores judeus das escolas alemãs. A 12 de janeiro de 1939, o ministro do Exterior, Chvalkovsky, numa mensagem ao Ministério do Exterior alemão, salientou que seu governo «fará todo o possível para provar sua lealdade e sua boa vontade para a mais completa satisfação de todos os desejos da Alemanha». No mesmo dia chamou a atenção do encarregado alemão em Praga para os rumores difundidos de que a incorporação da Checoslováquia ao Reich estava iminente.

Foram os checos, em Praga, no início de março de 1938, que tiveram de se defrontar com os movimentos separatistas na Eslováquia e na Ruténia, fomentados pelo governo alemão. Se os separatistas fossem derrotados pelo governo central, então o Führer, quase seguramente, tiraria partido das consequências do distúrbio a fim de marchar também para Praga. O governo checo, a 6 de março, demitiu do cargo o governo autónomo da Ruténia, fazendo o mesmo, na noite de 9 para 10 de março, com o governo eslovaco. No dia seguinte, ordenou a prisão de monsenhor Tiso, o primeiro-ministro eslovaco, e proclamou a lei marcial na Eslováquia. A própria atitude corajosa desse governo, que se mostrara tão servil a Berlim, veio a se constituir rapidamente num desastre que o destruiu.

A ação enérgica do cambaleante governo de Praga apanhou Berlim de surpresa. Göring partira para férias em San Remo. Hitler estava às vésperas de sair de Viena, a fim de celebrar o primeiro aniversário do Anschluss. Mas nesse momento o improvisador máximo se pôs a trabalhar febrilmente. A 11 de março, ele decidiu tomar, por ultimato, a Boémia e a Morávia. O texto foi redigido nesse dia, por ordem de Hitler, pelo general Keitel e enviado ao Ministério do Exterior alemão. Conclamava os checos a se submeterem à ocupação militar sem resistência. Entretanto, ficaria no momento como “alto segredo militar”. Retornando a Bratislava, sede do governo eslovaco, no sábado, 11 de março, Sidor convocou uma reunião de seu novo gabinete. Às 22h a sessão foi interrompida por estranhos e inesperados visitantes. Seyss-Inquart, o quisling nazista da Áustria, e Josef Bürckel, o Gauleiter nazi da Áustria, acompanhados por cinco generais, entraram pela reunião e disseram aos ministros que proclamassem imediatamente a independência da Eslováquia. Se não o fizessem, Hitler, que decidira resolver o problema da Eslováquia agora, e de modo definitivo, se desinteressaria do destino dos eslovacos.

Quando Tiso e Ducansky chegaram à chancelaria em Berlim, às 19:40h de 13 de março, encontraram Hitler ladeado tanto de Ribbentrop como pelos generais de maior posto: Brauchtisch, comandante do exército alemão e Keitel, chefe do OKW. Os eslovacos também o desapontaram. Depois de Munique ele se afastara dos seus amigos, os húngaros, para não permitir que tomassem a Eslováquia. Pensou que a Eslováquia quisesse a independência. A questão consistia: desejava a Eslováquia chegar à independência ou não? Era uma pergunta não de dias, mas de horas. No caso afirmativo, ele a apoiaria e lhe daria inclusive garantias. Se hesitasse ou se recusasse a separar-se de Praga, deixaria o destino da Eslováquia sujeito aos acontecimentos pelos quais não seria mais responsável. Nesse ponto, Ribbentrop entregou ao Führer uma comunicação, que acabava de receber, anunciando que tropas húngaras se movimentavam para a fronteira eslovaca. O Führer leu-a, informou a Tiso de seu conteúdo e expressou a esperança de que a Eslováquia chegaria a uma rápida decisão.

Tiso não tomou decisão nesse momento. Solicitou perdão ao Führer se, sob o impacto das palavras do chanceler, não pudesse decidir-se imediatamente. Nessa noite, no Ministério do Exterior, Ribbentrop igualmente redigiu a proclamação da independência e a traduzira em eslovaco a tempo de Tiso levá-la de volta a Bratislava, onde a leu, numa forma ligeiramente alterada. Dessa forma nasceu, a 14 de março de 1939, a Eslováquia “independente”. Embora os representantes diplomáticos da Inglaterra se apressassem a comunicar a Londres a forma pela qual se processou o nascimento, Chamberlain acabou por utilizar rapidamente a secessão da Eslováquia como desculpa para a Inglaterra de não honrar a sua garantia à Checoslováquia.

Traços da Conferência de Paz entre os beligerantes da Primeira Guerra Mundial



Depois da vitória dos Aliados, todos os povos dominados ficaram com a esperança de uma era de direitos e justiça, em virtude dos compromissos formais e solenes estabelecidos pelas várias potências, diante de todo o mundo, na luta da civilização contra a barbárie. Em uma carta ao secretário de Estado norte-americano Robert Lansing, em 18 de junho de 1919, Ho Chi Minh, em Paris para a Conferência de Paz com o “Grupo de Patriotas Anamitas”, antevia a independência do Vietname moderno e, nesse compasso de espera, apelava aos vitoriosos para conceder uma lista de “liberdades”. Eram as reivindicações do povo anamita por ocasião da vitória dos Aliados. 

Entre todos os beligerantes da Primeira Guerra, a Sérvia pode ser apontada como o maior vencedor. A decisão dos líderes sérvios de arriscar uma guerra geral, em vez de aceitar o ultimato austro-húngaro em sua totalidade, resultara em derrota e ocupação completas do país pelas Potências Centrais em 1915. Mas, apenas três anos depois, a ousadia foi justificada e compensada. Com o triunfo da libertação, veio o cumprimento de objetivos nacionais para além dos sonhos dos sérvios de 1914, na incorporação não apenas da Bósnia, mas também da Croácia e da Eslovénia. Era a Jugoslávia sob domínio sérvio. Graças ao apoio das potências da Entente, os sérvios aprenderam que podiam incendiar um continente em busca de seus próprios objetivos nacionais e sair vitoriosos no longo prazo. Essa corrente imprudente do nacionalismo sérvio ressurgiria no início dos anos 1990, após o colapso da Jugoslávia, para horror da Europa e do resto do mundo.

A Áustria, depois da Primeira Guerra Mundial, ficou proibida de se unir à Alemanha. Esses sentimentos pró-Anschluss haviam de persissitir até Hitler o levar a vias de facto. Em 1921, Salzburgo (99%) e Tirol (98%) votaram esmagadoramente pela união com a Alemanha em plebiscitos provinciais. Na maior parte, contudo, a proibição da Anschluss fortaleceu os socialistas cristãos, o único partido que queria uma Áustria independente; saíram vitoriosos nas eleições de 1920 e ocuparam a chancelaria até 1938, quando a Alemanha de Hitler finalmente anexou a Áustria. Na Hungria, a restauração do reino pelo almirante Horthy levou Carlos [último imperador da Áustria de 1916 até 1918, também rei da Hungria e Croácia como Carlos IV e rei da Boémia como Carlos III] a fazer duas quixotescas tentativas pós-guerra de voltar ao poder, ambas em 1921 e ambas sem o apoio de Horthy, que muito corretamente pressentiu que os Aliados nunca permitiriam a um Habsburgo reinar em Budapeste. Após a segunda tentativa, os Aliados deportaram o monarca deposto à ilha da Madeira, onde morreu de pneumonia em 1922, aos 34 anos de idade.

Enquanto esperavam pelo princípio da autodeterminação nacional, para passar do ideal à realidade através do reconhecimento efetivo do direito sagrado de todos os povos a decidir o seu próprio destino, os habitantes do antigo Império de Aname na Indochina Francesa, apresentaram aos nobres governos da Entente, em geral, e ao honorável governo francês, humildes reivindicações. Pediam a amnistia geral para todas as pessoas nativas que tivessem sido condenados por atividade política; a reforma do sistema de justiça da Indochina, concedendo à população nativa as mesmas garantias judiciais dos europeus e a supressão total dos tribunais especiais, instrumento de sujeição ao terror e opressão contra elementos mais responsáveis do povo anamita; liberdade de imprensa; liberdade de associação; liberdade de emigrar e viajar para o exterior; liberdade de ensino e criação, em cada província, de escolas técnicas e profissionais para a população nativa; substituição do regime de decretos arbitrários por um regime de direito.

A percepção de que a autodeterminação nacional, se é que seria aplicada, gerou movimentos anticoloniais na África e radicalizou o movimento pelo governo autónomo na Índia. Gandhi e Jinnah pressupunham, ambos, que a Inglaterra iria recompensar as contribuições da Índia na Primeira Guerra Mundial com uma transição para um autogoverno logo em seguida, e ficaram chocados em novembro de 1918 quando a lei marcial foi estendida para o pós-guerra, uma medida claramente dirigida contra os seus próprios apoiantes. Em fevereiro de 1919, quase três anos antes de assumir a liderança formal do Congresso Nacional indiano, Gandhi lançou sua primeira campanha de desobediência civil contra a autoridade britânica abarcando toda a Índia. 

Nada tendo recebido em troca de incentivar os seus seguidores a se juntar ao exército e lutar pelo Império Britânico na Primeira Guerra, ele assumiu a postura oposta no início da Segunda, redobrando seus esforços de resistência no movimento “Quit India” (Saiam da Índia). A cooperação hindu-muçulmana refletida no Pacto de Lucknow de 1916 se desfez em meados da década de 1920, mas elementos dela lançaram as bases do que seria a divisão da Índia em 1947 – principalmente a aceitação, por parte do Congresso Nacional indiano, da Liga Muçulmana como representante dos muçulmanos do país e do conceito de Jinnah sobre eleitorados hindus e muçulmanos separados em futuras eleições.

Com exceção das terras continentais chinesas incorporadas ao Império Japonês, todas as ex-colónias alemãs estavam tecnicamente sob a tutela de seus novos proprietários na condição de mandatos da Liga das Nações, mas nenhuma recebeu independência até 1960, e a última, a Namíbia, finalmente a alcançou 30 anos depois. O atraso decorreu do facto de o mandato do ex-Sudoeste Africano Alemão estar sendo administrado pela África do Sul, que, após a Segunda Guerra, caiu sob controlo de um regime de apartheid cujas origens também datavam do período de 1914 a 1918. 

Depois da Primeira Guerra Mundial, vários líderes africâneres da “Rebelião Maritz” da África do Sul, em outubro de 1914, continuaram a sua luta dentro do sistema político sul-africano, usando o Partido Nacional, fundado em 1914, como seu veículo, mas suas fileiras não incluíam o próprio “Manie” Maritz, que liderava um grupo marginal adepto nazi. Os líderes africâneres não teriam mais êxito em impedir que a África do Sul fosse à guerra com a Alemanha em 1939 do que tiveram em 1914, mas, após a Segunda Guerra, seu partido ressurgiu para se tornar o partido da maioria do eleitorado exclusivamente branco e acabaria por romper os laços com a Grã-Bretanha para estabelecer a República da África do Sul (1961) e aplicar a política de apartheid até 1994. Último presidente branco da África do Sul, F. W. de Klerk concedeu independência à Namíbia em 1990, mesmo ano em que libertou Nelson Mandela da prisão.

Entre os beligerantes da Primeira Guerra Mundial, o Japão saiu com maiores ganhos a um custo menor do que qualquer outro país. Em uma guerra que gerou 8,5 milhões de mortes militares, os japoneses sofreram apenas 500, enquanto ganhavam a península de Shantung com o porto de Tsingtao e a baía de Jiaozhou, mais as antigas ilhas alemãs do Pacífico ocidental das Carolinas, Marianas e Marshalls. Entre 1913 e 1929, a produção industrial do Japão mais do que triplicou. Mas partia de um ponto tão baixo que a sua base industrial muito menor representou apenas 2,5% da produção industrial do mundo em 1929. Uma facção linha-dura dos almirantes japoneses considerou uma falta ao estatuto pelo Tratado Naval de Washington, em 1922. O Japão 60% da frota da marinha britânica. Isso passou a ser uma reação premonitória por parte do Japão, que viria a fazer estragos aos Estados Unidos.

A decisão Aliada de atender à reivindicação do Japão sobre a península de Shantung desencadeou o Movimento de Quatro de Maio, assim nomeado em função do dia em que a notícia chegou a Pequim (4 de maio de 1919), levando milhares de universitários chineses a se reunir na praça Tiananmen para extravasar sua frustração contra as potências ocidentais e contra a fraqueza de sua própria República chinesa. Muitos líderes do Movimento Quatro de Maio recorreram à Rússia soviética como sua fonte de ideias e inspiração, e participaram da fundação do Partido Comunista chinês, em 1921. 

Na Conferência de Paz de Paris, o Japão havia reforçado ainda mais a popularidade da sua própria retórica: “Ásia para os asiáticos”. Estabeleceu os alicerces para a sua esfera de influência na grande Ásia do Leste. Inúmeros chineses e outros asiáticos apostaram o seu futuro e, em última análise, as suas vidas, considerando que a dominação japonesa seria mais benigna do que o imperialismo ocidental.

Embora Shantung tenha sido o gatilho do Movimento Quatro de Maio, o Japão a devolveu à China em 1922, ainda que em troca de novas concessões em outras partes do país. Outros asiáticos decepcionados em Paris durante o verão de 1919 também se voltaram ao mesmo comunismo depois de se decepcionar com o Ocidente. O nacionalista vietnamita Ho Chi Minh encaminhou uma correspondência ao secretário de Estado de Wilson, Lansing, pedindo a independência de seu país, de acordo com o princípio da autodeterminação nacional. Em 1923, Ho Chi Minh saiu de Paris para Moscovo, onde se tornou um agente da Internacional Comunista de Lenin (Comintern) e embarcou em sua longa busca para estabelecer um Vietname independente e comunista.