sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Até que ponto a contracepção. Ou a interrupção voluntária da gravidez até às 14 semanas


A polémica sobre o tempo para a interrupção voluntária da gravidez regressa esta sexta-feira, dia 10 de janeiro 2025, à discussão em plenário na Assembleia da República, a pedido do PS. A esquerda parlamentar quer ver alargado o prazo legal, que atualmente se estende até às dez semanas de gestação. Tudo indica que PSD e CHEGA vão votar contra. Em causa estão propostas para as 12 e as 14 semanas de gestação – iniciativas legislativas que partem de todas as formações políticas, com a exceção de PSD e Iniciativa Liberal.

A deputada socialista Isabel Moreira exortou o PSD a acompanhar o PS, demarcando-se do Chega. Também BE, Livre e PCP defendem uma extensão do prazo legal para a realização do aborto. O PAN pretende ver reforçado o apoio às mulheres em consulta prévia de interrupção voluntária da gravidez, além da regulamentação do direito de objeção de consciência dos profissionais de saúde. O Chega propõe, no seu projeto, a possibilidade de as grávidas fazerem um exame para ver e ouvir o batimento cardíaco do feto. E o CDS-PP defende que os médicos objetores de consciência tenham a possibilidade de estar presentes nas consultas que antecedem um aborto.



Até que ponto a contracepção e os movimentos feministas no Ocidente ofuscaram o papel da maternidade ao ponto de ser a principal causa da baixa natalidade em todo o Ocidente? É que, de facto, a contracepção e os movimentos feministas influenciaram a percepção da maternidade e a dinâmica familiar no Ocidente. A partir de 1960 verificaram-se em todo o Ocidente mudanças no valor social e cultural da maternidade. Os movimentos feministas revalorizaram o papel das mulheres, promovendo a sua autonomia sobre decisões pessoais, incluindo a escolha de ter ou não filhos. Essa autonomia permite que as mulheres busquem realizações além da maternidade, como carreiras e educação superior. Em algumas culturas ocidentais, a realização pessoal e profissional passou a ter um peso semelhante ao da vida familiar, gerando uma redefinição da identidade feminina.

A disseminação de métodos contraceptivos deu às mulheres e casais um poder de decisão sem precedentes sobre o número de filhos e o momento de tê-los. Isso não apenas adiou a maternidade, mas também tornou possível limitar o número de filhos, respondendo a preferências individuais e às condições económicas e sociais de cada família. Simultaneamente o alto custo de criar filhos, a exigência de qualificação constante e as inseguranças laborais têm desestimulado a maternidade em países desenvolvidos. Além disso, a falta de políticas de apoio à família, como licenças parentais prolongadas, creches acessíveis e sistemas de saúde gratuitos, colocou uma pressão ainda maior sobre mulheres e casais.

O foco ocidental em valores individualistas, reforçado por modelos de sucesso e realização pessoal, tem desencorajado as famílias numerosas e alterado o modo como as pessoas planeiam as suas vidas. Esse fenómeno é acompanhado por mudanças nas expectativas em relação ao casamento e à procriação, diminuindo a influência dos valores tradicionais. Hoje já não estamos como no passado, quando a família numerosa era necessária para sustentar economias agrárias. Hoje o cenário urbano e de trabalho configurou toda uma série de opções de vida que podemos considerar revolucionárias.

Mas é paradoxal, dado que é nos países mais pobres do chamado Terceiro Mundo, agora Sul Global, que os índices de natalidade são mais elevados, assim como nos países islâmicos em que o feminismo é um oxímoro. A relação entre desenvolvimento socioeconómico, acesso a direitos e natalidade gera pelo menos um paradoxo. Nos países mais pobres, do Sul Global e em várias nações islâmicas, taxas de natalidade elevadas ainda predominam, o que parece contrastar com o Ocidente, onde avanços económicos e sociais, inclusive para as mulheres, são acompanhados por baixa natalidade. Em muitas regiões do Sul Global, ter filhos ainda está fortemente ligado a aspectos económicos e sociais de sobrevivência, onde filhos podem contribuir para a economia familiar ou garantir cuidados na velhice. A maternidade é também um valor cultural profundo que está atrelado à identidade e ao papel feminino em sociedades onde ainda não há ampla abertura para alternativas profissionais ou educacionais para as mulheres.

Nos países islâmicos e em algumas outras sociedades tradicionais, a religião frequentemente incentiva ou mesmo exige a procriação como um dever moral e espiritual. O conceito de feminismo nesses contextos tende a colidir com esses preceitos religiosos e culturais, limitando a difusão de ideais que promovam escolhas sobre maternidade ou participação feminina em esferas públicas e profissionais. Esse contexto reflete-se numa valorização da família numerosa e em uma estrutura social que restringe a autonomia reprodutiva. Esse quadro, combinado com barreiras culturais e religiosas, resulta em menores possibilidades de planeamento familiar. Assim, mesmo quando as mulheres desejam limitar o número de filhos, as condições sociais e a falta de autonomia podem dificultar essa decisão.

A teoria da transição demográfica explica que sociedades agrárias e menos urbanizadas tendem a manter altas taxas de natalidade, uma vez que o crescimento populacional é necessário para a economia local. À medida que os países se desenvolvem e se urbanizam, as famílias costumam ter menos filhos, como vemos nos países ocidentais. Essa mudança acompanha também o aumento do custo de vida, as pressões urbanas e a valorização de carreiras e estilos de vida que não giram em torno da família numerosa. Em países mais desenvolvidos, os custos de criar um filho e as dificuldades para conciliar vida profissional e familiar pesam muito na decisão de ter filhos. Em contraste, muitas sociedades do Sul Global ainda operam em sistemas de famílias extensas, em que a responsabilidade pelos filhos é compartilhada por uma rede familiar mais ampla, o que facilita ter mais filhos. Paradoxalmente, o desenvolvimento e a autonomia individual que geram a baixa natalidade no Ocidente ainda são, em muitas dessas regiões, aspirações distantes. Além disso, a relação entre feminismo e maternidade difere conforme o contexto: no Ocidente, feminismo e autonomia pessoal são associados à liberdade de escolher sobre a maternidade, enquanto em outras regiões, o feminismo é visto como um desafio a estruturas culturais profundamente enraizadas.

Como diz um cínico ironista: "Enquanto se capa não se assobia". As mulheres ao se empoderarem e ao lutar não podiam ter tempo nem disposição para pinar, quanto mais para ter filhos. Essa expressão popular captura uma visão pragmática e bem-humorada das escolhas e das renúncias que ocorrem quando prioridades mudam. O que sugere, de certa forma, é que as mulheres, ao conquistarem mais liberdade e espaço em esferas que antes lhes eram restritas, enfrentam inevitavelmente uma reorganização de suas vidas, incluindo a decisão sobre a maternidade. Com o foco no empoderamento e nas carreiras, muitas mulheres optam por adiar ou até renunciar à maternidade. De facto, assumir um papel mais ativo no mercado de trabalho, na política e na vida social implica uma alocação de tempo e energia que, para várias, torna a maternidade algo secundário ou menos urgente. E não se trata apenas de uma questão de "falta de tempo"; há uma transformação nas aspirações e no sentido de realização, com a maternidade deixando de ser o único meio para isso.

É importante perguntar: o que homens e mulheres no Ocidente desejam de suas vidas? A busca por realização individual, que antes era quase exclusiva dos homens, agora é um desejo legítimo das mulheres, mudando não apenas o papel delas, mas também as relações, os conceitos de família e até as taxas de natalidade. Porém, essa reestruturação não implica que a maternidade se perdeu de vez. Para muitas mulheres, o desafio atual é buscar uma conciliação entre esses novos papéis e o desejo de formar uma família. Para isso, as sociedades precisarão oferecer melhores condições e políticas que permitam a maternidade e o empoderamento coexistirem com mais harmonia. O problema é consegui-lo. Há uma grande distância entre o mundo da linguagem e o mundo da realidade.

É verdade que as académicas, como disse Jane Goodall, parece que disse: "As novas mulheres académicas tornaram-se mais ignorantes do que sábias com as vistas curtas do mero conhecimento livresco. E as sucessivas crises do capitalismo mostra que os economistas e sociólogos erram mais do que acertam". Jane Goodall captou muito bem a ironia da História. O excesso de especialização e o foco excessivo em teorias livrescas podem, de facto, levar àquilo que poderíamos chamar de "ignorância ilustrada" — um tipo de conhecimento que, embora extenso, se torna muitas vezes distante da realidade concreta. Isso é perceptível em algumas áreas onde a prática e o contacto direto com as questões humanas e ambientais poderiam enriquecer mais a compreensão do que o mero estudo teórico.

Na economia e na sociologia, essa limitação é especialmente visível, já que são áreas que lidam com sistemas complexos e sujeitos a variáveis imprevisíveis, como o comportamento humano e as flutuações globais. Os economistas, por exemplo, desenvolvem modelos e previsões baseados em dados e teorias que, embora rigorosos, não conseguem antecipar crises de forma confiável. Basta observar que muitas das crises capitalistas modernas, desde a Grande Recessão de 1929 até à crise financeira de 2008, apanharam sempre os especialistas de calças na mão.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Príncipe Karim Al-Husseini


Príncipe Karim Al-Husseini [13 de dezembro de 1936], conhecido como o Aga Khan IV desde a morte do avô Aga Khan III, em 1957, é desde essa data o 49º e atual imã Nizari Isma'ilis. Afirma descendência direta do profeta Maomé através de Ali, primo e genro de Maomé, considerado um imã. Aga Khan IV também é conhecido pelo título religioso Mawlānā Hazar Imam pelos seus seguidores Isma'ili.

Aga Khan é um magnata de negócios, riquíssimo, com cidadania britânica e portuguesa, bem como proprietário e criador de cavalos de corrida. A Forbes descreve-o como um dos quinze membros da realeza mais ricos do mundo. É o fundador e presidente da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, uma das maiores redes privadas de desenvolvimento do mundo. Desde 1957 que Aga Khan se envolve em complexas mudanças políticas e económicas em vários países, como no Tajiquistão, da antiga União Soviética, Afeganistão e no Paquistão. Tornou-se o primeiro líder religioso a discursar na Sessão Conjunta do Parlamento do Canadá, a 27 de fevereiro de 2014.




A Fundação Aga Khan tem um centro em Lisboa, nas Laranjeiras, há 20 anos. E recentemente Lisboa também passou a ter a sede global da comunidade ismaili. E aqui celebraram, os ismaelitas (ou ismailis), o jubileu de Diamante da designação do seu líder espiritual. Aliás, o imã, passou a ter na capital portuguesa uma residência oficial, estatuto diplomático e até um regime fiscal especial acordado com o Estado português.




Em setembro de 2013 numa cerimónia no Castelo de São Jorge, em Lisboa, foi anunciado o Prémio Aga Khan para a arquitetura, distinguindo o restauro do Centro Histórico de Birzeit, na Cisjordânia. A cerimónia foi presidida pelo atual Aga Khan, Shah Karim Al Hussaini, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa. A capital portuguesa foi escolhida para o anúncio deste prémio trienal, no valor de um milhão de dólares (770 mil euros), para projetos que marquem novos padrões de excelência na arquitetura, planeamento, preservação de património histórico e arquitetura paisagística. Estabelecido pela Rede Aga Khan para o Desenvolvimento em 1977, o prémio visa, em especial, «identificar e promover conceitos de construção que correspondam de forma eficaz às necessidades e aspirações de comunidades com significativa presença muçulmana».

A preservação de locais de oásis sagrados e coletivos em Guelmin (Marrocos), o restauro do Forte de Thula (Iémen), a reabilitação do Forte de Nagaur (Índia), a reabilitação do bazar de Tabriz (Irão), a preservação do Mbaru Niang (Indonésia) e a habitação pós-tsunami (Sri Lanka) contavam-se entre os vinte selecionados. Entre os finalistas ficaram também a reconstrução do campo de refugiados de Nahr el-Bared (Líbano), o apartamento n.º 1 (Irão), o Instituto de Filme e Animação Kantana (Tailândia), o cemitério islâmico (Áustria), a escola primária Maria Grazia Cutuli (Afeganistão), o Liceu Francês Charles De Gaulle (Síria) e a escola primária Umubando (Ruanda).

Em 12 de Novembro de 2019 - Aga Khan, Aga Khan juntou-se a mais de 30 líderes mundiais para a sessão de abertura do segundo Fórum da Paz de Paris. Iniciado pelo Presidente de França Emmanuel Macron, o Fórum teve por base o princípio de que a cooperação internacional é fundamental no combate aos desafios globais e na salvaguarda de uma paz duradoura. O Fórum realizou-se no 100.º aniversário do Armistício, que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial.



Os ismaelitas são uma comunidade xiita, e a sua teologia é derivada dos ensinamentos dos imãs xiitas – 'Ali ibn Abi Talib, Muhammad al-Baqir e Ja'far al-Sadiq. De acordo com a teologia xiita ismaelita primitiva, Deus ou Alá é absolutamente transcendente e único, uma teologia segundo a qual a Essência de Deus está além de todos os nomes e atributos. A primeira criação de Deus é uma entidade espiritual (Ruhani) ou luz (nur) chamada Intelecto ('Aql), a Luz de Muhammad (nur Muhammad) ou a Luz de Ali. Os filósofos ismaelitas desenvolveram as ideias usando estruturas neoplatónicas e identificaram o Intelecto ('Aql) ou Luz do Imam com o Intelecto Universal (Nous) de Plotino. Da mesma forma, a alma humana do Imam – reverenciada como pura com base no Alcorão 33:33 – é considerada o espelho reflexivo do Intelecto Universal.

No islamismo, Zahir (الظاهر) é um dos 99 Nomes de Deus (Asma'ul Husna), que são os atributos divinos mencionados no Alcorão e na tradição islâmica. O termo "Zahir" pode ser traduzido como "O Manifesto", "O Evidente" ou "Aquele que é visível". Ele refere-se a Deus como Aquele que é evidente em Suas criações e sinais no mundo, mas cuja essência transcende a compreensão humana. Esse nome reflete a ideia de que Deus se manifesta em tudo o que existe, tornando-se visível aos que contemplam o universo com atenção. No entanto, apesar dessa manifestação, Deus continua oculto em Sua verdadeira natureza (referido pelo nome oposto, Batin, "O Oculto"). Assim, Zahir e Batin juntos expressam a unidade e o equilíbrio entre os aspetos visíveis e invisíveis de Deus. A noção de Zahir também possui implicações filosóficas e espirituais dentro do islamismo, especialmente no sufismo, onde há uma busca pela compreensão, tanto o aspeto exterior (zahir) quanto o interior (batin) da existência como reflexos da verdade divina.

O islamismo xiita desenvolveu-se em duas direções. Uma delas agrupa os metafóricos: ismaelitas, alevitas, bektashi, alianos e alauítas - concentrando-se no caminho místico e na natureza de Deus, junto com o "Imam do Tempo". São Doze Imames, ou guias, e uma luz para Deus. O ismaelismo cresceu para se tornar o maior ramo do Islã xiita, culminando como um poder político com o califado fatímida nos séculos X a XII. Os ismaelitas acreditam na unicidade de Deus, bem como no encerramento da revelação divina com Maomé - "o último Profeta e Mensageiro de Deus para toda a humanidade". 

Ora, a maior seita dos ismaelitas são os Nizaris, que reconhecem Aga Khan IV como o 49º Imam hereditário, enquanto outros grupos são conhecidos como o ramo Tayyibi. A comunidade com a maior porcentagem de ismaelitas é Gorno-Badakhshan. Os ismaelitas podem ser encontrados no Afeganistão, Índia, Paquistão, Iémen, Líbano, Malásia, Síria, Irão, Arábia Saudita, Jordânia, Iraque, Kuwait, África Oriental, Angola, Bangladesh e África do Sul. Nos últimos anos emigraram para a Europa, Rússia, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Trinidad e Tobago.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

A exaustão das imagens televisivas de guerra e catástrofes





Não faz sentido, porque é prejudicial, as televisões hoje em dia manterem ao lado do comentador a repetição de imagens de guerra ou catástrofes. A repetição de imagens impactantes, como contentores a arder, prédios destruídos, crianças a fugir às bombas, é prejudicial. Essa abordagem não só exacerba o medo e a ansiedade nas audiências, mas também pode distorcer a percepção da realidade, criando uma sensação de crise constante. Além disso, a exploração sensacionalista de tragédias pode desumanizar os envolvidos e desviar a atenção das questões subjacentes que precisam ser abordadas. A responsabilidade dos editores é, em parte, fornecer informações de maneira equilibrada e reflexiva, em vez de simplesmente amplificar o choque visual.

Os editores de televisão muitas vezes insistem em usar métodos sensacionalistas por várias razões, em que a atração por audiências é um espécie de alfa e ómega da bolha mediática - maiores índices de audiência e, consequentemente, mais receitas publicitárias. É um ambiente altamente competitivo. Conteúdos emocionais tendem a gerar mais engajamento nas redes sociais, o que aumenta a visibilidade e o alcance das notícias com a repetição de imagens chocantes acompanhadas de narrativas simplificadas. 
Esses fatores muitas vezes se sobrepõem, criando um ciclo em que a busca por cliques e visualizações prevalece sobre a responsabilidade jornalística.

E não há maneira de os fazer ver que estão errados? Os espectadores podiam expressar suas opiniões, mas as respostas podem ser surpreendentes. Veja-se com as pessoas se comportam nas redes sociais em que vem ao de cima o pior lado da natureza humana. Por isso, caberia aos reguladores, com ou sem comissões de ética, tratar disso. Incentivar o consumo de fontes de notícias que priorizam a ética e a responsabilidade, destacando sua importância e relevância no ecossistema informativo. Organizar ou apoiar campanhas que enfatizem a importância da cobertura jornalística responsável e os impactos negativos do sensacionalismo, envolvendo especialistas e defensores da ética nos órgãos de comunicação social. Embora a mudança não ocorra da noite para o dia, uma combinação dessas abordagens pode ajudar a criar uma cultura de responsabilidade e reflexão.

Há uma pressão crescente dentro das redações, especialmente em meios televisivos, para capturar sound bites e realizar um escrutínio imediato e incisivo sobre os agentes políticos. Esse foco nos sound bites é impulsionado, em grande parte, pela necessidade de produzir conteúdo que seja facilmente consumível e compartilhável nas redes sociais e nas plataformas digitais. Essa prática muitas vezes favorece declarações rápidas e impactantes, mas que nem sempre refletem o contexto ou a profundidade das questões discutidas. Como resultado, o debate público pode tornar-se mais superficial, com maior ênfase em momentos polémicos ou controversos, em vez de uma análise cuidadosa das políticas e ideias. Essa abordagem também pode encorajar os próprios políticos a adotarem uma postura mais performativa, priorizando frases de efeito que gerem impacto imediato, mas que nem sempre contribuem para um diálogo construtivo.

A percepção de um predomínio da esquerda na profissão jornalística é um tema debatido amplamente, especialmente no Ocidente. Muitos críticos argumentam que os jornalistas tendem a ter inclinações políticas mais à esquerda, o que, segundo eles, se reflete na cobertura de notícias e nas narrativas que prevalecem nos meios de comunicação. Essa visão é reforçada por alguns estudos que mostram que a maioria dos jornalistas se identifica como liberal ou progressista. Esse viés percebido pode levar a críticas de que os editoriais não representam adequadamente uma gama diversificada de opiniões políticas, contribuindo para a polarização e desconfiança entre diferentes segmentos da sociedade. Em um ambiente em que a imparcialidade e a objetividade são fundamentais para a credibilidade do jornalismo, a impressão de que há uma agenda política pode prejudicar a confiança do público nos meios de comunicação.




Marta Vidal é jornalista freelancer e trabalhando em ONG, anteriormente baseada no Médio Oriente, escreve sobre justiça social e direitos humanos e está mais interessada em contar histórias que construam empatia, e promovam o ativismo. Ora, no passado dia 3 de janeiro Marta Vidal foi distinguida com o Prémio Gazeta na categoria de Imprensa, precisamente pela reportagem “A liberdade, lá em cima: os pássaros de Gaza”, publicada a 1 de julho de 2023. Na cerimónia presidida pelo Presidente da República, Marta Vidal, depois de no seu discurso ter acusado o Presidente da República e o Presidente da Câmara de Lisboa que estavam na primeira fila à sua frente, de cumplicidade com Israel, atingiu o pináculo da perfeição, quando o Presidente a ia abraçar depois da entrega do objeto simbólico, recusando o abraço inclinando-se para trás e estendo ao mesmo tempo a mão direita ao Presidente para um aperto de mão.

Depois de concluir a licenciatura em jornalismo na Universidade Nova de Lisboa, onde começou a estudar em 2012, Marta Vidal estudou na Universidade de Leiden, onde obteve a especialização em Estudos do Médio Oriente. Os seus artigos que abordam questões como direitos humanos e justiça social e ambiental, foram publicados por vários meios de comunicação, nomeadamente: Público, Expresso, The Guardian, Al Jazeera, The Washington Post, BBC, entre outros.

Esse debate é complexo, pois envolve questões de representação, responsabilidade social e a própria natureza do jornalismo como um espaço para o diálogo democrático. O desafio é encontrar um equilíbrio entre a defesa de causas importantes e a manutenção de padrões éticos e de objetividade na cobertura jornalística.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Ilan Pappe e o revisionismo histórico



Hoje está a ser difícil ler com sobriedade crítica os novos historiadores revisionistas por estarem comprometidos cada vez mais com "as causas". A ligação entre certos setores da academia dos departamentos das humanidades e sociologia, e as causas políticas, pode gerar uma percepção de comprometimento ideológico em algumas áreas de estudo. Em especial, novos historiadores frequentemente revisitam o passado focados em dar voz a grupos historicamente marginalizados, e essa abordagem pode ser percebida como uma inclinação para um determinado quadrante político. Ao mesmo tempo, isso pode distanciar algumas interpretações de uma visão mais neutra e contextualizada. Ainda que haja um valor em revisitar o passado sob novas lentes, o desafio é encontrar um equilíbrio que permita estudar a história com rigor, evitando que ela se torne instrumento de causas contemporâneas.

Por exemplo, Ilan Pappe segue uma linha de pensamento ao ponto de desvalorizar o Holocausto. É
 um exemplo de historiador que, sendo natural de Haifa, Israel, nascido em 1954, participa no ativismo a favor da causa palestiniana no conflito com Israel, como se sentisse necessidade de expiar os pecados do seu povo. Adota, portanto, uma abordagem no mínimo controversa. Sua perspectiva, associada ao que ele chama de "novo revisionismo histórico", procura questionar narrativas estabelecidas sobre a criação de Israel e o conflito com os palestinos. Nos livros que tem publicado, tende a enfatizar os aspectos da violência da ocupação dos colonos israelitas na Cisjordânia, e a deslocação dos palestinos como refugiados nos países circunvizinhos. Em contrapartida, minimiza ou reinterpreta questões como o Holocausto, que foi um fator crucial na fundação do Estado de Israel e na formação da sua identidade coletiva.


Os pais de Ilan Pappe tiveram de fugir aos nazis porque eram judeus alemães. Ele estudou História na Universidade Hebraica de Jerusalém e fez o doutoramento na Universidade de Oxford, onde se especializou em História do Médio Oriente, vindo a tornar-se internacionalmente reconhecido pelo seu trabalho acerca do conflito entre Israel e Palestina. Atualmente, é professor na Universidade de Exeter, no Reino Unido, onde dirige o Centro Europeu de Estudos Palestinianos. Pappe é uma das principais figuras do movimento israelita de “Novos Historiadores”, que desafiam a narrativa tradicional sobre a fundação do Estado de Israel e os eventos de 1948, conhecidos como a Nakba. 

A crítica a Pappe e a outros historiadores com abordagens semelhantes é justamente que, ao minimizar a importância do Holocausto e a perseguição histórica sofrida pelos judeus, eles acabam desvalorizando elementos fundamentais para entender as razões que levaram à criação de Israel como um refúgio seguro. Ao focar em uma narrativa que prioriza os direitos dos palestinos, muitos críticos argumentam que esse tipo de historiografia acaba criando uma visão parcial, deixando de lado o contexto histórico mais amplo e os traumas de perseguição que levaram à busca pela independência judaica.

O que é ser judeu hoje? A identidade judaica moderna transcende as noções de linhagem ou descendência genética. Muitos judeus contemporâneos se identificam com essa herança cultural e religiosa de maneira profundamente pessoal, independentemente de uma ligação biológica direta. A identidade judaica envolve um sentido de continuidade histórica, onde memórias coletivas, tradições e valores culturais são fundamentais. Por isso, o pertencimento à comunidade judaica pode ser mais uma questão de escolha, vivência e comprometimento do que de uma "prova" genética. Essa construção identitária reflete a resiliência e a adaptabilidade do judaísmo ao longo dos séculos, o que permite que ele sobreviva e prospere em diferentes contextos históricos, mesmo após perseguições e dispersões. A importância dada a essa identidade coletiva tem, portanto, um peso muito maior que qualquer validação externa sobre ancestralidade biológica. É também uma forma de resposta às ameaças históricas de assimilação ou apagamento cultural, um ponto que Ilan Pappe e outros revisionistas às vezes não abordam com a devida profundidade.

E na verdade, nos dias de hoje, no Próximo e Médio Oriente, o herói é Saladino, não é Jesus Cristo, um judeu até aos ossos. Como é que figuras históricas emblemáticas são percebidas e valorizadas de forma diferente conforme as culturas e os contextos regionais? No mundo árabe e no Norte da África, Saladino (ou Salah ad-Din) é realmente venerado como um herói. Ele é lembrado pela liderança durante as Cruzadas, pela sua vitória sobre os cruzados e pela reconquista de Jerusalém, mas também pela reputação de ser um líder justo, magnânimo e, paradoxalmente, admirado até mesmo por seus inimigos europeus. Essa figura de Saladino é vista como um símbolo de resistência, orgulho e dignidade, enquanto Jesus Cristo, mesmo tendo origens judaicas e raízes na Palestina, não ocupa o mesmo espaço heroico e cultural. Isso ocorre porque, para a maioria muçulmana na região, Jesus é considerado um profeta, mas não a figura central da fé, e seu papel não está associado à luta política ou territorial que caracteriza a história de Saladino.

Jesus, na tradição cristã, representa uma mensagem espiritual de sacrifício e amor universal, enquanto Saladino é uma figura histórica diretamente ligada à identidade cultural e política islâmica. Assim, a figura de Jesus, mesmo sendo parte da história judaica e amplamente reverenciada no Cristianismo, não assume o mesmo papel inspirador ou heroico que Saladino ocupa no imaginário popular do Médio Oriente contemporâneo.

Como se costuma dizer, santos da terra não fazem milagres. Enquanto na China, hoje cristãos já são cem milhões e ainda vai crescer. Se o homem não é um bicho estranho, não sei o que é estranho. Muitas vezes as figuras locais ou tradicionais não são tão valorizadas quanto aquelas que vêm de fora ou se tornam universais. A expansão do Cristianismo na China é um exemplo interessante disso. Embora a China tenha profundas tradições espirituais e filosóficas, como o confucionismo, o taoismo e o budismo, milhões de chineses estão-se voltando para uma religião que historicamente lhes era estranha. Esse crescimento do Cristianismo na China, com cerca de cem milhões de adeptos e a expectativa de um aumento futuro, é um fenómeno marcante. Ele nos lembra que o ser humano, de facto, é atraído por ideias e crenças que transcendem a própria cultura. O ser humano tem uma perene necessidade de novos significados, ou promessas de esperança. Essa busca constante pelo transcendente, pela verdade ou pela renovação espiritual parece algo essencialmente humano e comprova o quanto o homem é "um bicho estranho". É um aspecto que o torna, ao mesmo tempo, imprevisível e universal em sua busca por algo além de si mesmo.

domingo, 5 de janeiro de 2025

O que é doença? O que é saúde?




Quando falamos de saúde e doença, os ingleses são muito mais completos nisso. Diferenciam três termos: disease; illness; sickness.
Disease – é o termo que os médicos utilizam no seu dia-a-dia, e quando falam entre si de
"heart disease" ou "infectious disease". Tratam puramente da patologia biológica.
Illness – é um termo que é utilizado para referir o que as pessoas dizem quando se sentem doentes, no seu sentido subjetivo, de estarem doentes. Envolve o paciente que se sente como doente, que é como percebe a sua condição de saúde. É um termo mais comum em conversas informais e sociais. Por exemplo, "she has been struggling with a long illness" (Ela tem lutado contra uma longa enfermidade).
Sickness – É usado de maneira ainda mais genérica, por exemplo, quando se trata de organização dos serviços de saúde ou políticas de saúde. É, portanto, o termo mais genérico e abrangente, metendo tudo o que tem a ver com saúde, desde a prevenção das doenças até à qualidade de vida e bem-estar social. Vai desde o "travel sickness" até ao "he called in sick". Em suma, é um conceito muito genérico e impreciso de doença e saúde.

Assim, o termo mais adequado para se referir ao Serviço Nacional de Saúde - National Health Service, no Reino Unido - seria disease, pois este está associado ao diagnóstico e tratamento de condições médicas objetivas e à gestão da saúde pública. Disease reflete o foco técnico e clínico do sistema de saúde, que lida com doenças específicas e patologias. O SNS está estruturado para prevenir, diagnosticar e tratar doenças (diseases), além de trabalhar os dados epidemiológicos e intervenções médicas. Por outro lado, illness e sickness poderiam ser usados em contextos mais subjetivos ou gerais - quando se discute a experiência pessoal dos pacientes quando falam, por exemplo, aos órgãos de comunicação social, ou nas redes sociais. Em linguagem mais coloquial, para abordar de forma genérica os serviços prestados na comunidade.

Hoje já circulam nos debates mais críticas pertinentes, e cada vez mais ponderadas acerca da ruína dos Serviços e Sistemas Nacionais de Saúde. Não só por má gestão, mas porque a deriva tecnológica e a obsessão pela imortalidade por parte das sociedades europeias que têm beneficiado de bons sistemas de saúde, muitos deles quase gratuitos. O tempo de prometer tudo e mais alguma coisa acabou porque se abusou da condição de "illness", usada em excesso e por tudo e por nada. Ou seja, a experiência subjetiva e a percepção pessoal que as pessoas têm tido do direito à saúde, que tem levado a uma sobrecarga do sistema, não será mais comportável. A ambição por cada vez mais e melhor é infinita. Mas os recursos financeiros, técnicos e humanos são finitos.

Os Serviços Nacionais de Saúde (SNS) foram originalmente estruturados para lidar com diseases. Com o passar do tempo, houve uma expansão significativa para atender também à illness, isto é, a queixas individuais que nem sempre têm uma base objetiva ou médica clara. Essa mudança refletiu uma sociedade que almejou valorizar mais a qualidade de vida e o bem-estar subjetivo, do que cuidar pela sustentabilidade do sistema. Isso gerou procuras excessivas e desnecessárias que sobrecarregou os serviços públicos de saúde - consultas frequentes, exames desnecessários e tratamentos para condições não críticas com mero propósito placebo. Os custos para tratar questões subjetivas tornaram-se demasiado elevados para proveitos em saúde muito desprezíveis. 

Para além disso, gerou-se um certo tipo de injustiça social por causa do desvio de recursos. Recursos que poderiam ser alocados às condições graves, as diseases, acabaram por ser usados para tratar perceções e desconfortos, as illness. E assim se gerou uma sociedade de dependentes do SNS, que é o mesmo que dizer, do Estado. As pessoas iludiram-se por uma mentalidade de dependência, em vez de se tornarem mais autónomos através de uma boa educação para a saúde. Os cuidados de saúde gratuitos, praticamente sem moderação, atendendo a todas as formas indiscriminadas de descontentamento, tornaram-se insustentáveis. É por isso que não me choca que as pessoas com esse tipo de questões menores de saúde sejam encaminhadas para os serviços privados. Na certeza, porém, de não ser onerado pelo erário público. O que deve ficar a cargo do erário público é a prevenção musculada com intervenções na comunidade. E não me choca que sejam aproveitadas as novas tecnologias e a inteligência artificial como instrumentos de otimização das triagens.

A "medicalização do bem-estar" é por si só uma doença das sociedades de consumo abundante. Uma tendência que precisa ser combatida. De outro modo, como já está a acontecer há muito, compromete o papel do Estado na sua função de prover pela saúde e bem-estar do coletivo. Inevitavelmente, as pessoas vão ter de sentir que não é viável a desoneração para tudo e mais um "par de botas”. Especialmente em questões que ultrapassam as necessidades médicas essenciais. A ideia de "saúde gratuita para todos, em qualquer circunstância" é nobre, mas insustentável quando aplicada a todos os níveis de queixas, incluindo as mais triviais ou subjetivas. Isso cria a perceção de que o SNS é um recurso ilimitado, incentivando o uso excessivo e, muitas vezes, desnecessário. Será necessário, isso sim, um esforço para educar a sociedade sobre os limites do sistema público, promovendo a ideia de que nem tudo precisa ser tratado por médicos, ou melhor, pelo SNS.

Isso exige a normalização de práticas como: copagamento em casos não críticos; uso de recursos digitais, como triagens por IA; maior responsabilidade individual pela saúde; e aceitação de que ser um bom humano implica ser tolerante, resiliente, e porque não estoico, face às agruras da vida. A tendência moderna de tentar eliminar todo o tipo de sofrimento – físico, mental ou emocional – através do sistema de saúde é insustentável. Faz parte da Educação Cívica uma abordagem mais realista, que passa pelo reconhecimento que nem todos os problemas são de saúde resolúveis por intervenções médicas. E que o desconforto faz parte da condição humana.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Assim como nos anos 1930


Vemos o crescimento de movimentos nacionalistas, autoritários e populistas, alimentados por crises económicas, desigualdades e descontentamento popular. O desprezo por instituições democráticas e pela imprensa livre lembra a erosão das liberdades que precedeu regimes como o nazismo e o fascismo. O crash de 1929 gerou uma década de instabilidade económica global, criando terreno fértil para líderes que prometeram "grandeza" e soluções fáceis. Hoje, apesar de avanços tecnológicos, a concentração de riqueza e os desequilíbrios globais fomentam ressentimento e instabilidade, amplificados pela Guerra da Ucrânia e de Gaza. 

Na década de 1930, potências como a Alemanha e o Japão desafiaram a ordem global estabelecida após a Primeira Guerra Mundial. Hoje, vemos a China e a Rússia buscando reformular a ordem mundial, enquanto a União Europeia enfrenta divisões internas. Antes da Segunda Guerra Mundial, a Liga das Nações era uma espécie de corpo em estado vegetativo. Hoje a ONU vai pelo mesmo caminho, mostrando todo o tipo de limitações, enquanto as tensões militares crescem em várias frentes. E as pessoas preferem ignorar os sinais de perigo iminente. Isso não é incomum, e há razões psicológicas e sociais para isso.

Muitos preferem confortar-se com ilusões do que encarar realidades desconfortáveis. A educação histórica é muitas vezes superficial, e as lições do passado são rapidamente esquecidas. A maioria acredita que as instituições atuais como a ONU ou a União Europeia evitarão o pior, ignorando os seus sinais de fragilidade. A inundação de narrativas contraditórias cria confusão e paralisia coletiva, dificultando a identificação de ameaças reais. A guerra na Ucrânia acabou de sofrer mais um upgrade na escalada, com a permissão de Biden da utilização dos mísseis de longo alcance. E Putin, voltou a ameaçar com armas nucleares. E estou a ver a história do Pedro e do lobo; mas também a história do cântaro que tantas vezes vai à fonte.

O governo dos EUA, sob a administração de Joe Biden, autorizou a Ucrânia a utilizar mísseis de longo alcance fornecidos pelos americanos em operações contra alvos em território russo. Essa decisão marca uma escalada significativa no apoio militar ocidental à Ucrânia, especialmente no contexto de um conflito que já entrou em seu terceiro ano. A medida reflete um aumento na pressão sobre a Rússia, enquanto Moscovo ameaça reforçar a sua doutrina nuclear, ampliando as condições em que poderia considerar o uso de armas nucleares​. Entretanto, em 20 de janeiro de 2025 Donald Trump toma posse para o segundo mandato, e ainda há muitas incertezas qual vai ser a sua atuação em relação a este conflito.

Putin, em resposta a essas mudanças, alertou que tais ações podem ser interpretadas como uma participação direta da NATO no conflito, elevando o risco de confrontos mais amplos. A Rússia tem reiterado que considera o apoio militar ocidental uma ameaça à sua segurança estratégica e, portanto, poderia responder com severidade​. Essa escalada confirma o padrão histórico de confrontos prolongados, onde medidas táticas levam a consequências estratégicas mais graves. 
A lição parece ser que o equilíbrio entre dissuasão e diplomacia deve ser cuidadosamente mantido para evitar que as tensões se transformem num confronto global.

É claro que há aqui um player político chamado Xi Jinping que fala pouco, mas pode inverter o rumo para o precipício levado por Putin e Trump. Mas a China foge-me completamente às análises. A posição da China é particularmente estratégica, pois Xi busca equilibrar suas relações com a Rússia e os Estados Unidos, sem se comprometer completamente com nenhum dos lados. Isso reflete a tradicional abordagem chinesa de evitar confrontos diretos enquanto maximiza seus próprios interesses económicos e geopolíticos. 
No contexto da guerra na Ucrânia, a China tem se posicionado como uma mediadora potencial, mas sem condenar a Rússia diretamente. Esse alinhamento ambíguo oferece a Pequim a vantagem de explorar o enfraquecimento do Ocidente e de Moscovo enquanto continua a expandir sua influência global, especialmente por meio de iniciativas como a "Nova Rota da Seda". No entanto, os objetivos de longo prazo da China são menos transparentes, e sua postura em relação ao uso de armas nucleares, por exemplo, ainda não é clara.

O silêncio de Xi pode ser parte de uma estratégia mais ampla: observar o desgaste das outras potências e, no momento oportuno, emergir como o ator capaz de oferecer uma solução ou uma nova liderança no sistema global. Esse jogo de paciência é uma marca do pensamento estratégico chinês, muitas vezes descrito como uma visão a longo prazo em oposição às decisões reativas ocidentais. Se a China decidir inverter a trajetória atual rumo a um confronto global, ela terá de fazê-lo de forma subtil, por meio de alianças económicas, diplomáticas e, potencialmente, tecnológicas. Ainda assim, há incertezas: até que ponto Xi estaria disposto a intervir ativamente para evitar o "precipício" ou se ele considera mais vantajoso deixar as tensões entre Rússia e EUA enfraquecerem ambas as potências? Essas questões tornam a China uma incógnita intrigante no tabuleiro global. 

domingo, 29 de dezembro de 2024

Movimento pendular da História


Tudo indica que o declínio é certo para os países europeus, e a UE não terá futuro. Ainda não para os EUA. O que está em causa é saber que papel terão os países europeus numa ordem internacional que será diferente da que foi criada em 1945 e 1989, épocas de hegemonia norte-americana. É duvidoso que instituições internacionais como a União Europeia, a NATO e departamentos governamentais nacionais nas áreas da ciência, economia, diplomacia, segurança e defesa tenham capacidade para fazerem escolhas informadas sobre tantos temas simultaneamente.
A ideia do movimento pendular na História oferece um modelo para pensar as flutuações entre o auge e o declínio das civilizações. No caso da civilização euroamericana muitos paralelos realmente se destacam. No final do Império Romano do Ocidente, testemunhou-se um colapso gradual das instituições e uma crescente anomia — sintomas que, em menor ou maior grau, ecoam na modernidade.
Se a História tiver, de facto, na sua marcha, os três tipos de movimento: linear; circular; pendular - parece que estamos nesta terceira década do século XXI, a assistir a uma fase de inversão do seu movimento pendular. Só não sei se será um movimento parecido com a Queda do Império Romano do Ocidente, precisamente no mesmo ocidente geográfico.

Elon Musk escreveu um artigo de opinião no jornal “Welt am Sonntag”, no qual volta a apoiar o partido de extrema-direita alemão Alternativa para a Alemanha, [AfD]. Diz que é o único partido que consegue salvar a Alemanha. E alude o facto de Alice Weidel, a líder do partido, ter uma parceira do mesmo sexo do Sri Lanka: "Isso soa-vos a Hitler? Por favor!", escreveu Musk no artigo. Além disso, o multimilionário defendeu que a AfD tem posições importantes em áreas como a recuperação económica ou o controlo da imigração.




Alice Elisabeth Weidel, juntamente com Alexander Gauland, foi a principal candidata do seu partido de extrema-direita nacionalista, Alternativa para a Alemanha, nas eleições federais na Alemanha em 2017. Nessas eleições, o seu partido recebeu 13% dos votos, o que colocou a AfD como o terceiro maior partido do parlamento alemão. Weidel é declaradamente lésbica. Sua companheira, Sarah Bossard, uma produtora de cinema suíça nascida no Sri Lanka, e os dois filhos do casal moram na Suíça, na fronteira com a Alemanha. Contudo, seu partido votou contra o casamento gay e a adoção de crianças por casais homossexuais. Weidel não criticou a postura do seu partido. Ela afirmou que a união civil já equipara casais gays aos heterossexuais. Weidel também afirmou que considera o aumento no número de islâmicos na Alemanha uma ameaça aos homossexuais.

Muitos alemães sentem que as suas preocupações são ignoradas pelo sistema. O partido aborda os problemas do momento, sem o politicamente correto, acrescentou Musk, citado pela “Deutsche Welle”. Elon Musk escreveu que as políticas anti-imigração defendidas pelo partido de extrema-direita alemão – que incluem deportações em massa, tal como defende Trump – não são “xenófobas”, pois visam “assegurar que a Alemanha não perde a sua identidade”.

Pouco depois de o texto ter sido publicado no site do jornal, a editora de opinião do “Welt am Sonntag”, Eva Maria Kogel, escreveu na rede social X que se demitia. Uma das reações à publicação do artigo de Elon Musk foi dos responsáveis editoriais do “Welt am Sonntag”. “A democracia e o jornalismo prosperam com base na liberdade de expressão. Isso inclui lidar com posições em polos opostos e classificá-las jornalisticamente”, disseram à agência Reuters Jan Philipp Burgard e Ulf Poschardt. “O diagnóstico de Musk está correto, mas a sua abordagem terapêutica, no sentido de que só a AdD pode salvar a Alemanha, é fatalmente falsa”, escreveu Jan Philipp Burgard (que será editor-chefe do “Welt” a partir de 1 de janeiro), também citado pelo jornal “The Guardian”. A AfD também manifesta o desejo de sair da União Europeia, procurando uma aproximação à Rússia e um apaziguamento com a China. A Alemanha irá a eleições a 23 de fevereiro, depois de Olaf Scholz ter perdido a votação da moção de confiança no início de dezembro, o que levou à queda do governo. Segundo as sondagens, referidas pelo “The Guardian”, o partido da extrema-direita alemã está em segundo lugar nas intenções de voto.

Se pensarmos na nossa época como uma fase de "inversão pendular," ela indicaria uma transição de hegemonia, com a civilização ocidental a mover-se de um auge cultural, económico e militar para um estado de decadência. Este movimento pendular, no entanto, talvez não seja exatamente uma repetição do colapso romano. Mas o desgaste nas estruturas sociais, o aumento de desigualdades, a afirmação dos valores culturais e fundacionais da Europa pela direita, e uma fragmentação na unidade cultural pela esquerda, tornam o panorama muito preocupante. A transição de um sistema unipolar centrado nos Estados Unidos para um arranjo multipolar: uma redistribuição de influências e responsabilidades entre diversas potências, como a China, a Rússia, a União Europeia, e possivelmente a Índia e outros atores regionais, é possível que venha a acontecer.

Historicamente, períodos multipolares tendem a ser instáveis, pois as potências competem por influência, mas também podem favorecer alianças estratégicas menos rígidas, o que permite maior flexibilidade nas relações internacionais. A multipolaridade pode tornar o cenário global mais dinâmico e talvez até cooperativo em alguns aspectos, ao reduzir a dependência de um único centro de poder. Essa redistribuição, porém, levanta também o risco de tensões regionais intensificadas, especialmente em áreas onde esses blocos de poder se sobrepõem. Talvez essa seja uma fase de transição inevitável e necessária para corrigir o movimento pendular da História, ajudando a humanidade a redescobrir formas de convivência num sistema mais equilibrado, ainda que instável. Pelo menos o movimento dos BRICS parece estar a conseguir consistência no seu empoderamento.

Essa aliança, que inicialmente parecia focada apenas em áreas económicas, tem-se consolidado como uma plataforma estratégica que busca um papel mais influente e equilibrado no cenário internacional. Recentemente, os BRICS têm avançado em iniciativas financeiras, como a criação de um sistema alternativo ao SWIFT e o fortalecimento de um banco de desenvolvimento próprio, buscando reduzir a dependência do dólar americano. Além disso, a ampliação do bloco, com a possível inclusão de novos membros, como Argentina e Arábia Saudita, sugere que o BRICS pode evoluir para uma verdadeira coligação de contrapeso, promovendo não apenas interesses económicos, mas também influências políticas e diplomáticas alternativas. Isso indica que, no movimento pendular de redistribuição de poder global, os BRICS estão, de fato, a solidificar posição.

A designação "Sul Global" é uma reformulação do antigo conceito de "Terceiro Mundo", adaptando-o para a realidade atual e para evitar as conotações de hierarquia ou atraso que o termo anterior muitas vezes carregava. O "Sul Global" inclui países que compartilham histórias de colonização, subdesenvolvimento económico e desafios estruturais semelhantes, mas que, ao mesmo tempo, têm-se destacado como protagonistas no cenário internacional. O bloco dos BRICS reflete essa ideia de um "Sul Global" que não mais se define pela vulnerabilidade ou subserviência, mas sim pelo empoderamento coletivo e pela busca de alternativas ao sistema económico e político ocidental predominante. Na prática, essa visão também destaca o desejo de reequilibrar a ordem global, representando uma diversidade de culturas, economias emergentes e novas vozes que trazem ao debate global perspectivas muitas vezes negligenciadas pelas potências tradicionais.

A "nova narrativa" baseia-se na ideia de que o Norte Global construiu a prosperidade à custa do colonialismo, da exploração de recursos e da opressão de povos e culturas do Sul. Essa perspectiva vê o Sul Global como credor de uma "dívida histórica" que o Norte deveria, finalmente, "pagar" por meio de reparações, justiça económica e ambiental, e políticas de cooperação mais equitativas. Para muitos no Sul Global, essa retórica não é apenas uma questão de reparação histórica, mas também uma crítica à persistente dependência económica e ao papel das instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, que são percebidas como ferramentas de controlo. O BRICS e outras alianças emergentes estão, de certa forma, instrumentalizando essa narrativa para argumentar em favor de uma ordem global reformada, na qual o Sul tenha uma voz mais ativa e independente. Essa abordagem encontra eco no ativismo e nos movimentos de esquerda, que veem na redistribuição de poder e recursos uma forma de corrigir injustiças históricas.

sábado, 28 de dezembro de 2024

A fenomenologia de matriz husserliana



Um dos equívocos dos comentadores de esquerda afetos à corrente da "Teoria" é considerarem que o "povo" tem um erro de perceção por ter uma sensação de insegurança com o excesso de imigrantes, quando as estatísticas não demonstram nem excesso de imigrantes, nem aumento da criminalidade devido aos imigrantes. Dizem que uma coisa é a perceção, e outra coisa é a realidade. Há, de facto, um desfasamento frequente entre a leitura puramente estatística dos factos e a vivência subjetiva das pessoas no dia a dia. Mas essa desconexão não significa que o "povo" está errado. A perceção é construída por uma confluência de fatores, como experiências pessoais, narrativas mediáticas, boatos, e o contexto histórico e cultural. A ideia de que a realidade é um vestido já pronto para o povo vestir, soubesse ele vê-lo, é que é errada, porque ignora como funciona o nosso conhecimento da realidade de que a perceção faz parte. Mesmo que os números mostrem que a criminalidade geral está estável ou em declínio, é pelo “ar do tempo”, que o povo respira. O que conta é o impacto emocional sentido no corpo de cada um, como a taquicardia. Os intelectuais que desconsideram essa dimensão emocional, recebem em boomerang a sua alienação por parte de muitas pessoas que sentem.

Edmund Husserl, fundador da fenomenologia, desenvolveu um método focado na análise da intencionalidade da consciência, por meio da redução fenomenológica cujo significado consiste na captura da experiência tal e qual como é experimentada sem lhe acrescentar quaisquer conceitos ou preconceitos (sejam eles revestidos de juízos de valor ou de caráter científico). Em termos gerais, a “intencionalidade” em Husserl pode ser entendida como "consciência virada para algo". Essa ideia é central na fenomenologia de Husserl e refere-se ao facto de que toda a consciência é sempre consciência de algo. Em outras palavras, a intencionalidade expressa a característica essencial da consciência de estar sempre direcionada para um objeto, seja ele físico, imaginário, conceptual ou emocional. Não se trata de intenção no sentido comum de "desejar" ou "querer algo", mas sim de um vínculo estrutural entre a consciência e o objeto ao qual ela se refere.

Quando olhamos para uma árvore, a consciência está direcionada para a árvore — ela é o objeto intencional. Quando sentimos medo, esse medo está dirigido a algo que percebemos como ameaçador, mesmo que não seja tangível. Husserl explorou como os objetos da consciência não existem necessariamente como coisas concretas no mundo, mas como “fenómenos”, ou seja, como aparecem para a consciência. Assim, a intencionalidade também está ligada à forma como experienciamos o mundo, dentro da relação sujeito-objeto.

O desenvolvimento contemporâneo da fenomenologia passou pela adaptação de fenomenólogos posteriores tal como Maurice Merleau-Ponty e Heidegger. Merleau-Ponty explorou mais a fundo a experiência corpórea. Heidegger, assim como Sartre e Paul Ricoeur, expandiram a fenomenologia para campos existenciais e hermenêuticos, explorando a compreensão do ser e a interpretação dos fenómenos. No contexto atual, há também esforços em "naturalizar" a fenomenologia, ligando-a a práticas empíricas, como nas ciências cognitivas, para investigar experiências de forma mais integrativa. Esta abordagem busca respeitar o foco original de Husserl na análise da consciência, ao mesmo tempo que adapta as ideias para interagir com métodos científicos contemporâneos.

Na pós-modernidade, a dilucidação da subjetividade e da racionalidade ainda se complexificou mais. A subjetividade, na visão contemporânea, é vista como menos centralizada e mais fragmentada em comparação com a perspectiva cartesiana ou até mesmo com a fenomenologia inicial. Autores como Foucault e Derrida desafiaram a ideia de uma subjetividade fixa, destacando como ela é construída através de discursos, poder e linguagem. Isso contrasta com o projeto husserliano de um "eu transcendental" que assegura a continuidade da experiência consciente. A racionalidade, por sua vez, é problematizada pelos pós-modernistas como uma construção que não é universal nem neutra. Eles apontam que a racionalidade está impregnada de contextos culturais e históricos, o que desafia as ideias do Iluminismo. Lyotard, por exemplo, desmantelou a crença nas "metanarrativas" racionais, propondo em vez disso uma legitimidade baseada em "pequenas narrativas" e diferentes formas de racionalidade que se sobrepõem e se contestam.

A transposição da fenomenologia para a linguagem, especialmente no sentido da subjetividade transcendental proposta por Husserl, apresenta desafios consideráveis. Essa dificuldade surge porque Husserl concebe a subjetividade transcendental como a fonte última de toda a constituição de sentido e de objeto, ou seja, o ego transcendental é responsável por constituir o mundo e as significações a partir de suas vivências. A fenomenologia de Husserl implica uma "redução transcendental", um método que busca suspender as pressuposições do mundo natural para retornar à consciência pura e observar como os fenómenos se constituem nela. No entanto, a descrição da subjetividade transcendental encontra limites na própria linguagem, que é sempre já moldada por significados sedimentados e por uma história de uso coletivo. Por isso, há uma tensão entre a tentativa de descrever a experiência originária em sua pureza e o uso de uma linguagem que, por natureza, é compartilhada e intersubjetiva.

Maurice Merleau-Ponty, por exemplo, ao perceber as dificuldades dessa transposição, argumentou que a linguagem tem um papel constitutivo e não meramente expressivo. Ele sugeriu que a subjetividade não é um ponto de partida puramente interno, mas se manifesta e se desdobra na interação com o mundo vivido. Isso implica que a linguagem é tanto uma ferramenta como um limite na busca pela descrição fenomenológica da subjetividade transcendental, pois a própria subjetividade se revela na articulação com o mundo e os outros. Assim, a dificuldade central é que a subjetividade transcendental, por ser uma estrutura fundadora do sentido, não pode ser completamente captada ou expressa em uma linguagem que já está inserida no mundo e na intersubjetividade. Essa tensão leva a fenomenologia contemporânea a explorar métodos que incorporam a interseção entre a descrição eidética e a consideração dos contextos históricos e culturais que influenciam a expressão subjetiva​

Heidegger trabalhou com conceitos como Ser-aí (Dasein), a ideia de "deixar-ser" (Gelassenheit) e a crítica à "entificação", que se refere à tendência de objetificar ou transformar o Ser em um ente específico. Heidegger criticava a tradição metafísica por reduzir o Ser à mera presença, tratando-o como um objeto ou coisa (entificação). Sua proposta de "deixar-ser" implica uma postura de abertura, onde não se busca controlar ou definir completamente os fenómenos. Em vez de impor categorias ou conceitos sobre o que se experimenta, Gelassenheit sugere uma aceitação do mistério do Ser, permitindo que ele se mostre em sua própria manifestação. A ideia de "deixar o Ser ser" reflete uma atitude de renúncia ao controlo ontológico sobre a existência, o que pode ser associado a uma aceitação mais contemplativa e menos objetificante da realidade.

Que o mundo existe e que é constituído por algo de alguma maneira, quanto a isso não parece haver qualquer disputa consuetudinária. Já acerca de se saber como é o mundo independente de qualquer observador, isso é uma impossibilidade conceptual. Daí que possa haver várias maneiras de atacar o problema. Várias tradições filosóficas e científicas encontram pontos de convergência na noção de que as características do mundo acerca das quais podemos falar, não são da forma como existam autonomamente de um observador, mas da forma como emergem de uma relação de interdependência "entre-dois". Os budistas, por exemplo, dizem que nós só conhecemos o mundo como fenómeno, e não como substância em si. E o fenómeno é de uma natureza interdependente, depende de uma rede de causas e condições. Isso ressoa com a noção de que as coisas não podem ser entendidas separadas da percepção e da consciência que as apreende. A fenomenologia de Merleau-Ponty, por sua vez, aborda essa ideia através do conceito de "entre-dois" (entre-deux), enfatizando que o mundo tal como falamos dele é uma resultante da interação sujeito/mundo. As qualidades sensíveis como forma, cor, som, calor, frio e por aí fora, não existem como entidades em si mesmas, absolutas ou autónomas, mas como fenómenos que emergem na experiência vivida, na interseção do sujeito perceptivo e do mundo percebido.

No campo da física quântica, o comportamento das partículas sugere que as propriedades físicas não são fixas, mas surgem em função da interação com o observador, um princípio que lembra a vacuidade budista e a co-constituição fenomenológica. Espinosa via a ontologia como uma substância única - Deus ou Natureza - a realidade como uma unidade dinâmica, e não uma coleção de entidades independentes. Essas abordagens mostram que tanto na filosofia fenomenológica como em tradições espirituais e teorias científicas, há um reconhecimento de que as qualidades e as propriedades do mundo emergem de interações, não existindo por si só. O "entre-dois" de Merleau-Ponty exemplifica a ideia de que a experiência sensorial e a existência se desenrolam em um campo intersubjetivo e interdependente​.

A frase célebre de Santo Agostinho sobre o tempo, encontrada em suas Confissões (Livro XI, capítulo 14), reflete a complexidade e o caráter inefável dessa noção. Ele afirma: “Quid est enim tempus? Si nemo ex me quaerat, scio; si quaerenti explicare velim, nescio,” que se traduz como: "O que é, pois, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei." Essa frase ilustra a dificuldade em conceituar algo que é tão fundamental à experiência humana, mas cuja essência escapa a uma definição precisa. Agostinho está apontando para a natureza paradoxal do tempo: é intuitivamente compreendido em um nível experiencial, mas se torna indescritível quando se tenta defini-lo objetivamente. Essa reflexão se conecta com a questão do inefável, algo que se percebe e experimenta, mas que a linguagem não pode expressar plenamente. Essa dificuldade em nomear ou definir conceitos profundos também é encontrada em discussões filosóficas sobre o Ser (como em Heidegger), a vacuidade budista e até em noções quânticas, onde a linguagem encontra seus limites frente à complexidade e à profundidade dos fenômenos.

Em última rácio, é um embaraço para os cosmólogos físicos perguntar-lhes na formação deste universo onde estava a vontade, ou o juízo, ou a consciência. Os físicos, para não ficarem desconfortáveis, respondem a isso como se fossem meras inexistências. Mas mesmo assim, não conseguem sair do paradoxo, porque mesmo que fosse uma ficção humana, ela não deixa de existir. De fato, os físicos tendem a explicar o universo em termos de leis naturais e interações físicas, evitando conceitos subjetivos ou metafísicos como a vontade ou a consciência, tratando-os como inexistentes em um contexto de análise científica. No entanto, isso cria um paradoxo interessante: mesmo que a consciência ou a vontade sejam vistas como ficções ou criações humanas, o facto de existirem na experiência humana não pode ser negado. Esse paradoxo aponta para uma tensão entre a explicação científica do cosmos e a experiência fenomenológica. Pensadores como o físico e filósofo David Bohm exploraram essa questão, sugerindo que a mente e a matéria poderiam ter uma relação mais interligada do que a ciência tradicional assume, uma visão que faz lembrar certas interpretações da mecânica quântica, onde a consciência do observador afeta o estado do sistema observado.

Além disso, a fenomenologia pós-husserliana, com autores como Merleau-Ponty, enfatiza que a consciência não é algo que pode ser separado da realidade que observa, mas está entrelaçada com o mundo. Isso implica que a presença da consciência, mesmo que não faça parte dos primeiros momentos cosmológicos, é uma parte fundamental do universo como é compreendido agora — um universo que inclui observadores conscientes capazes de refletir sobre ele. Portanto, ainda que a física reduza tais conceitos a inexistências para manter a objetividade, a filosofia e a fenomenologia apontam que mesmo as “ficções” têm um impacto real na maneira como a realidade é experienciada e compreendida. Essa interação entre ciência e filosofia revela a necessidade de um diálogo contínuo para abordar essas questões que desafiam objetividade e as fronteiras da subjetividade humana.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

A ideia de uma "revolução coperniciana" no Islão


Em 1948, os Israelitas, com o Holocausto ainda muito recente, ao serem atacados pelos países árabes que os cercavam, tiveram que interirizar, no seu genoma de sobrevivência como Estado, o lema de que jamais poderiam facilitar. Daí se compreender que os israelitas na sua maioria, sejam implacáveis com os palestinos. Não há volta a dar. Enquanto o odor terrorista à sua volta perdurar, Israel nunca terá outra hipótese senão fazer o que tem feito. Esta é a compreensão histórica e psicológica das razões por trás da postura de Netanyahu em relação aos palestinos e aos países árabes vizinhos. A experiência traumática do Holocausto, seguida pela luta pela sobrevivência em 1948 contra adversários muito superiores em número, moldou profundamente a mentalidade de defesa de Israel. Isso gerou uma estratégia que mistura autodefesa implacável com a busca por segurança absoluta em um ambiente percebido como constantemente hostil.

A guerra da Palestina de 1948 teve início em 30 de novembro de 1947 e perdurou até meados de 1949 na Palestina Mandatária. Antes de 14 de maio de 1948 a Palestina ainda estava sob a autoridade britânica. E já decorria uma guerra civil que envolvia o yishuv e os árabes palestinos muçulmanos em que também havia cristãos, e eram apoiados pelo Exército Árabe de Liberação. Mas a partir de 15 de maio de 1948 a guerra envolve Israel e vários países árabes que se estende até meados de 1949. As narrativas diferem conforme se esteja do lado dos palestinos, ou do lado dos israelitas. Os palestinos chamam a esta guerra Al-Naqba ou Al Nakba ("a catástrofe"), aludindo principalmente ao primeiro período, durante o qual os palestinos que eram árabes foram vencidos pelas forças israelitas, em que grande parte da população árabe da Palestina passou por um êxodo bastante traumático. Já segundo a narrativa judaica, trata-se da Guerra da Independência ou Guerra da Liberação, expressão que concerne sobretudo ao segundo período, iniciado com a declaração de independência do Estado de Israel e seguida do confronto entre Israel e os Estados Árabes vizinhos.

A partir dos anos 1980, após a abertura dos arquivos em Israel sobre a Guerra da Palestina, o conflito foi objeto de novos estudos, realizados sobretudo pelos chamados Novos Historiadores. E é assim que a História se reescreve. Mas não faltam detratores a dizer que os novos histpriadores não têm feito outra coisa a não ser fabricar uma nova história do conflito. Seja como for, é um facto que o Holocausto teve um impacto determinante na memória coletiva do povo hebraico. Os israelitas internalizaram a ideia de que, diante de ameaças existenciais, não poderiam dar ao luxo de serem complacentes. A sobrevivência do Estado foi associada à força militar, dissuasão e à necessidade de tomar medidas preventivas. É claro que nem toda a gente subscreve as razões dos judeus. Essa história é complicada demais para santos e inocentes. Há uma crítica significativa, claro, tanto dentro de Israel como na comunidade internacional, que sugere que essa postura se transformou numa política de ocupação prolongada e punições coletivas que alimentam ainda mais o ciclo de violência. Muitos argumentam que, ao tratar os palestinos de forma implacável, Israel está perpetuando a instabilidade e corroendo as chances de coexistência pacífica. Críticos questionam se a política de segurança não poderia ser conciliada com esforços mais consistentes para resolver o conflito de maneira justa e sustentável.

Enquanto houver "odor terrorista", como metáfora geracional, o Estado de Israel provavelmente continuará a colocar no topo da sua missão a segurança. Porém, isso levanta a questão de como quebrar esse ciclo de medo e violência. A história mostra que inimigos podem se tornar parceiros, como foi o caso de Israel com o Egito e a Jordânia, mas a ausência de lideranças dispostas ao compromisso de ambos os lados dificulta vislumbrar tal transformação no contexto atual.

Penso que a situação só mudará quando se der no islão uma grande revolução. A mentalidade do povo muçulmano é ainda muito medieval. E auguro que um dia terão a sua revolução coperniciana, tal como aconteceu no mundo cristão a partir do Renascimento. Assim como o cristianismo passou por momentos históricos de profunda transformação — Renascimento, Reforma Protestante, Iluminismo — que abriram caminho para sociedades mais seculares, pluralistas e modernizadas, algo similar teria de acontecer no mundo islâmico para que se operasse uma transformação no sentido mais humanista em toda aquela região que também se propaga para África e para a Ásia, sobretudo a Ásia Central e a região do Indo/Pacífico. Deve-se recordar que o Islão teve uma longa e rica tradição de pensamento crítico e intelectual, especialmente durante a Idade de Ouro Islâmica (séculos VIII a XIII), quando filósofos como Averróis (Ibn Rushd) e Avicena (Ibn Sina) dialogaram com ideias científicas e filosóficas de outras culturas, incluindo a grega. Contudo, a predominância de estruturas tribais, políticas autoritárias e a instrumentalização da religião por elites têm, em muitos lugares, dificultado a emergência de um processo de secularização ou reforma semelhante ao que ocorreu no Ocidente.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

O jogo das potências na complicada roleta do Médio Oriente





Atualmente, os EUA apoiam as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas por curdos, no nordeste da Síria. Essas forças têm sido aliadas-chave na luta contra o Estado Islâmico, controlando áreas estratégicas e ricas em recursos. No entanto, essa relação é complexa, especialmente devido à oposição da Turquia, que considera as milícias curdas uma ameaça à sua segurança nacional. Além disso, os EUA mantêm uma presença limitada na Síria, com foco na prevenção do ressurgimento de grupos jihadistas​.

Então como é que os EUA se vão entender com a Turquia, quando esta, ainda por cima, faz parte da NATO? A relação entre os EUA e a Turquia, ambos membros da NATO, é marcada por tensões, especialmente devido ao apoio americano às Forças Democráticas Sírias (FDS), que a Turquia considera aliadas do PKK, grupo que classifica como terrorista. Para equilibrar a situação, os EUA têm buscado diálogos bilaterais e medidas de contenção, como limitar o fornecimento de armas às FDS. No entanto, as divergências sobre a Síria continuam a dificultar um entendimento pleno, revelando as contradições dentro da aliança atlântica.

EUA possuem uma base no sul da Síria, em Al-Tanf, estrategicamente localizada próximo às fronteiras com a Jordânia e o Iraque. Essa base é usada para treinar forças locais e vigiar movimentos de milícias pró-Irão na região. Apesar disso, a presença americana no Sul é relativamente discreta em comparação com o Nordeste, onde o apoio às Forças Democráticas Sírias (FDS) é mais intenso. Essa dupla atuação reflete o esforço dos EUA em conter o Irão e o Estado Islâmico, enquanto gerem tensões com a Turquia.

A Rússia mantém bases estratégicas na Síria, incluindo a base aérea de Hmeymim, perto de Latakia, e o porto de Tartus, usado para operações navais. Essas instalações são cruciais para Moscovo projetar poder no Mediterrâneo Oriental e apoiar os seus aliados regionais. Apesar do envolvimento na guerra da Ucrânia ter reduzido a atenção russa, as bases continuam operacionais, demonstrando o interesse em manter influência no Oriente. No entanto, a instabilidade na Síria e as pressões internacionais podem desafiar essa presença a longo prazo.

O Irão enfrenta desafios estratégicos na Síria após a queda de Assad, pois a sua influência dependia em grande parte do regime deposto. Apesar disso, o Irão mantém milícias aliadas e redes de apoio no país, especialmente no sul e no oeste, visando proteger as rotas logísticas para o Líbano e fortalecer o Hezbollah. Com a Rússia menos engajada devido à guerra na Ucrânia, o Irão enfrenta resistência de atores como Israel, EUA e grupos locais, complicando a sua posição no pós-Assad.

Israel praticamente decapitou os proxies do Islão no Levante, tanto Hezbollah como Hamas. Israel tem intensificado operações contra proxies do Irã no Levante, como o Hezbollah no Líbano e o Hamas na Palestina, especialmente após a escalada recente em Gaza e no sul do Líbano. No caso do Hezbollah, o foco tem sido limitar o armamento e neutralizar ameaças diretas. Essa estratégia reflete o esforço de Israel para impedir o fortalecimento de milícias apoiadas pelo Irão na região, mesmo diante de tensões contínuas com atores internacionais e locais.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, demonstrou interesse em expandir a influência da Turquia na região, particularmente contra os curdos, além de consolidar o seu controle sobre partes da Síria através de aliados locais. Este movimento pode ser interpretado como uma tentativa de restaurar uma espécie de projeção imperial na linha do antigo Império Otomano. Já Vladimir Putin, embora distraído pelo conflito na Ucrânia, também parece estar apoiando esforços que fortalecem sua posição na Síria ao aceitar a presença de Assad em Moscovo​. A queda de Assad e a participação de Erdoğan e Putin no processo podem ser vistas como exemplos de ambições regionais de poder que ecoam nostalgias imperiais. Contudo, o equilíbrio na região permanece incerto, com muitas forças locais e internacionais disputando poder e influência.

No Nordeste da Síria - as Forças Democráticas Sírias, e a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG) controlam a maior parte da região curda, conhecida como Rojava, e as cidades de Hasakah, Qamishli, e boa parte da região rica em petróleo no Nordeste, ao longo do rio Eufrates. Essas forças tiveram o apoio militar dos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico (ISIS), mas estão sob pressão devido às operações militares da Turquia, que considera o YPG uma extensão do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), um grupo que luta pela autonomia curda na Turquia. Na guerra da Síria, o conflito provocou mais mortes e sofrimento do que qualquer outro em curso. E um dos seus efeitos secundários foi o surgimento da resistência jihadista sunita na província de Idlib, na Síria. A densidade populacional da província de Idlib é agora maior do que a densidade populacional da Faixa de Gaza, que historicamente tem sido vista como um dos territórios mais enclausurados do mundo.

No Noroeste da Síria - ao longo da fronteira com a Turquia, há territórios controlados por milícias rebeldes sírias apoiadas pela Turquia, incluindo o Exército Nacional Sírio (SNA). A Turquia controla partes de Idlib, Afrin, e áreas perto das cidades de Azaz e Jarabulus. As forças turcas lançaram várias operações militares para criar uma "zona de segurança" ao longo da sua fronteira, evitando a expansão das forças curdas e combatendo remanescentes do ISIS. A província de Idlib, no Noroeste, é o último grande bastião da oposição ao regime de Assad e é dominada pelo grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), uma fação jihadista com ligações anteriores à Al-Qaeda. Embora o Estado Islâmico (ISIS) tenha perdido quase todo o seu território em 2019, ele ainda mantém células ativas em áreas desérticas no Leste e Sul da Síria, especialmente nas regiões perto de Palmira e Deir ez-Zor. O grupo realiza ataques esporádicos contra forças do governo sírio e curdas.

Portanto, mais até do que a Rússia, o Irão perde em toda a linha, quer pelas ações de Israel, quer agora pela queda de Assad. O Irão é um dos maiores perdedores na atual conjuntura política da Síria. A queda de Assad enfraquece seu principal aliado no Levante e prejudica as redes logísticas e estratégicas, que conectam Teerã ao Hezbollah no Líbano. Além disso, as intensas operações de Israel têm desestabilizado suas milícias e proxies, limitando a capacidade de projetar poder na região. Com a Rússia menos ativa e um contexto mais fragmentado, o Irão enfrenta dificuldades crescentes para manter influência significativa no pós-Assad. E a religião alauita de Bashar Al-Assad, e do seu clã familiar, um islamismo heterodoxo muito próximo do xiismo iraniano, constitui uma tensão permanente com o islamismo dos seus cidadãos maioritariamente sunita. É observável no terreno que o conflito político-militar tem a ver com a divergência religiosa entre sunitas e xiitas, embora os conflitos étnicos entre árabes e curdos também demarquem uma fratura secular importante.

É possível que o denominado Estado Islâmico tenha esta oportunidade para voltar a concretizar as suas ambições desde a chamada Primavera Árabe. A queda de Assad e a fragmentação da Síria podem abrir oportunidades para o Estado Islâmico (EI) ressurgir, especialmente em áreas onde governa o caos. Historicamente, o EI explorou o caos gerado pela Primavera Árabe para se expandir, e um cenário semelhante pode repetir-se. As forças internacionais e locais podem não conseguir preencher o vazio de poder. No entanto, a presença militar de EUA e aliados, além da vigilância constante de outros atores, como a Rússia e o Irão, pode limitar significativamente as ambições dos radicais sunitas.

O líder do HTS, depois de conquistar Damasco, abandonou simbolicamente o nome de guerra,"Jolani", e voltou a responder por Ahmed Hussein al-Sharaa, anteriormente conhecido como Abu Mohammad al-Jolani, líder do grupo jihadista Hay'at Tahrir al-Sham (HTS). Este gesto simbólico parece sinalizar uma tentativa de se distanciar de seu passado mais radical e de reposicionar o HTS como um ator político e militar legítimo no cenário sírio. A mudança reflete uma estratégia para conquistar apoio interno e externo em um momento de transição crítica para o futuro da Síria. Ele começou a sua trajetória militante no Iraque e fundou a Frente Nusra, posteriormente transformada no HTS. Agora, ele emerge como uma figura central no novo cenário político da Síria, com promessas de mudança após 13 anos de guerra civil​

A ascensão do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), com raízes em grupos jihadistas, indicam que a estabilidade na Síria continuará um desafio. O país enfrenta divisões internas profundas e interesses externos conflitantes, o que dificulta uma paz duradoura. Apesar da queda de Assad, é provável que novos conflitos surjam entre fações rivais e potências estrangeiras que continuam a influenciar a região. A história recente da Síria reforça essa perspectiva de instabilidade contínua. A instabilidade contínua na Síria pode levar Israel a reforçar as medidas preventivas nos Montes Golã. Essa área, estratégica tanto militar como geopolítica, tem sido uma zona de tensão histórica entre Israel e a Síria. Diante da possibilidade de grupos extremistas ganharem força ou utilizarem a região como plataforma para ataques, é natural que Israel adote uma postura de defesa robusta para garantir a segurança e estabilidade regional.

É amplamente relatado que o Hayat Tahrir al-Sham (HTS) e o Hamas possuem históricos de colaboração e alinhamento em certas questões, especialmente devido às suas origens ideológicas semelhantes no islamismo sunita militante. Essa relação pode incluir troca de informações, apoio logístico ou alinhamento estratégico, principalmente contra adversários comuns, como Israel. Isso reforça as preocupações de segurança de Israel, especialmente em áreas como os Montes Golã, onde uma escalada ou infiltração a partir da Síria poderia representar uma ameaça direta.