quinta-feira, 26 de junho de 2025

A cegueira como metáfora para otimistas de curto prazo


Há que fazer chegar à opinião publicada que os descontos de um salário de mil euros não vai dar uma reforma de mais do que um terço desse valor quando a reforma vier em 2050. É preciso ter cuidado com as vistas curtas de alguns otimistas. É preciso estar atento a como certas elites fabricam consensos superficiais para lidar com crises estruturais profundas. Estamos no campo de questões, como é o caso da questão da demografia e da sustentabilidade do Estado Social.

Muitos otimistas, alguns ligados a think tanks, ou meios de comunicação, vendem a ideia de que a imigração resolverá os problemas demográficos. Apontam, com razão, que os imigrantes entram no mercado de trabalho e pagam contribuições para a segurança social. Mas omitem que, no longo prazo, estes trabalhadores também envelhecem, pelo que terão direito a pensão de reforma. Ora, baixos salários, não terão cobertura financeira suficiente. Ou seja, a pirâmide demográfica não se "cura" apenas com mais braços, se o sistema continua baseado em salários baixos, pouca produtividade, alto consumo de recursos sociais, e visão de curto prazo.

É uma hipocrisia técnica e moral, fingir que a quantidade resolverá o problema, enquanto a qualidade da integração económica, educativa e social dos novos cidadãos, e a reorganização do próprio modelo de Segurança Social, não são enfrentados com a seriedade necessária. Salários baixos significam contribuições baixas. Portanto, as futuras pensões também serão baixas, ou precisarão de ser complementadas por impostos pagos por ainda mais trabalhadores futuros. Se os salários não subirem e se a produtividade não aumentar, a sociedade cai numa espiral de ilusão: resolve o problema hoje e cria um problema ainda maior amanhã. A esperança cega nas soluções quantitativas (mais imigrantes, mais natalidade) sem transformação qualitativa (educação, inovação, redistribuição inteligente) é apenas adiar o colapso.

Essas vistas curtas não são fruto apenas de ignorância. É, muitas vezes, conivência com a manutenção do status quo, onde alguns continuam a lucrar enquanto a base da sociedade se deteriora lentamente. A cegueira sobre a sustentabilidade da sociedade é filha direta do egoísmo coletivo. As elites não querem perder o conforto adquirido, nem admitir que mudanças profundas são necessárias. Ser realista exigiria a aceitação de limites aos privilégios de quem pensa apenas no curto prazo. É exatamente o que é o egoísmo moderno, que não quer fazer sacrifícios. Prefere-se adormecer a consciência coletiva com meias verdades otimistas.

O Japão enfrenta o envelhecimento mais agudo do mundo desenvolvido. Ao contrário da maioria dos países ocidentais, não apostou numa imigração em massa para rejuvenescer a população. Preferiu tentar automatizar muitos setores com robôs, e incentivar a inclusão de mulheres e idosos no mercado de trabalho. A idade da reforma tem subido, com a ideia de que o envelhecimento ativo é mais saudável. Mas está a enfrentar graves dificuldades económicas. Os consumidores vão encolhendo dia a dia. Obviamente o dinamismo interno vai enfraquecendo pela força natural da natureza. Mas as despesas com saúde e previdência são enormes. O Japão mostra que sem imigração e sem reformas estruturais profundas, mesmo um país com cidadãos tão disciplinados como são os japoneses, não escapará à decrepitude da vida quando chega ao fim.

A Alemanha, a partir da década de 2000, começou a acolher imigração dirigida. Quer dizer, não qualquer tipo de imigrante sem discriminação positiva. É a imigração qualificada que está em causa. Ou que rapidamente se possa qualificar. O governo alemão criou programas de formação profissional para imigrantes, com o objetivo de integrá-los em setores carentes (indústria, saúde, tecnologia). Em 2015, Angela Merkel abriu as portas a refugiados sírios. O que não deixou de acarretar enormes custos políticos. Mas ainda assim manteve rigor na integração: idioma, cultura cívica, capacitação profissional. Ao mesmo tempo promoveu reformas nas leis laborais para tornar o emprego mais flexível (Agenda 2010). A economia absorveu parte dos novos trabalhadores, mas surgiram também tensões sociais e polarização política (crescimento da extrema-direita, AfD). Ainda assim, a Alemanha conseguiu retardar a crise demográfica de maneira relativamente eficiente. Lição: A imigração pode ajudar se for cuidadosamente planeada e acompanhada de integração real. Caso contrário, gera guetos, tensões e marginalização.

O Canadá tem talvez o modelo mais admirado de imigração no mundo. Modelo de imigração seletiva + aposta no capital humano. Usa um sistema de pontos. Cada imigrante é avaliado por critérios como idade, nível educacional, competências linguísticas (inglês/francês) e experiência profissional. Aposta em imigrantes jovens e qualificados, capazes de contribuir imediatamente para o mercado e sustentar o sistema social. O país também investe muito em programas de acolhimento e adaptação cultural. Resultado: alta taxa de aceitação social dos imigrantes. Crescimento demográfico equilibrado. Boa integração no mercado de trabalho. Mas, mesmo no Canadá, começa a haver pressão no mercado imobiliário, aumento do custo de vida, e questionamento sobre a absorção rápida de grandes fluxos migratórios.

Nenhuma solução é perfeita. A imigração por si só não salva o modelo de Previdência nem resolve a crise civilizacional. Sem salários decentes, educação de boa qualidade, produtividade robusta e uma mudança cultural profunda (aceitação da finitude, novos valores éticos e sociais). O esgotamento do Estado Social é uma questão de tempo. Os verdadeiros problemas são apenas adiados, mas nunca resolvidos.

terça-feira, 24 de junho de 2025

O cérebro de um adepto


A memória emocional de uma vitória ou derrota em grupo fica gravada como uma experiência pessoal intensa porque a memória emocional é mais forte do que a memória racional. Quando vivemos experiências emocionais intensas, o nosso cérebro não só grava essas memórias como as torna mais duradouras e intensas. A amígdala do cérebro é uma espécie de "central de memórias emocionais". A amígdala está ligada ao hipocampo, que é responsável por armazenar as memórias de longo prazo. Quando vivemos algo com alta carga emocional, sejam vitórias ou derrotas, seja na política, seja no desporto, a amígdala ativa a gravação dessa memória. O hipocampo então fixa essas memórias com mais intensidade. Quando um adepto vê a sua equipa perder a final de um campeonato, junto de milhares de pessoas no estádio, o cérebro relaciona a emoção da derrota ao evento em si. A memória da derrota será muito mais intensa do que se o adepto tivesse assistido sozinho em casa. Porque o cérebro faz isso? É a lógica evolutiva.



A razão de o cérebro valorizar emocionalmente uma memória tem a ver com a sobrevivência. Não tanto a sobrevivência pessoal, mas a sobrevivência da espécie. Ainda estão na memória da espécie as vitórias ancestrais, porque das derrotas de batalhas passadas ninguém ficou para contar. Vencer significa vida. Perder significa morte. A dopamina, o neurotransmissor do prazer, entra em cena quando estamos imersos em experiências emocionais. Quando ganhamos, há uma libertação de dopamina. Quando perdemos, ou passamos por momentos de angústia, a dopamina ainda está presente, mas associada ao stress e à frustração. A dopamina modula a memória emocional, tornando a experiência mais vívida. E não importa se a vitória ou a derrota foi vivida sozinha ou em grupo. O impacto emocional é sentido na mesma intensidade.

O efeito da experiência compartilhada (o contágio emocional coletivo) é uma experiência emocional muito intensa. Quando se compartilha a emoção com outros, o cérebro interpreta isso como algo mais relevante para a identidade e a sobrevivência. Em grupo, a memória fica mais viva e duradoura, como se o cérebro fosse "marcado" pela emoção coletiva. Gritar de alegria após a nossa equipa ganhar o jogo, é a coisa mais natural do mundo. Mais ainda olhar à volta e ver outras pessoas igualmente emocionadas. O cérebro sente essa experiência como uma experiência social, que é muito mais impactante do que se estivesse sozinho.

Mas não nos devemos deixar enganar pela nossa memória emocional. Quando perguntam a alguém onde estava durante um grande evento emocional, a memória parece super vívida, mas o cérebro, na verdade, mistura os detalhes da emoção com a narrativa que contamos a nós mesmos ao longo do tempo. No entanto, a emoção da experiência nunca se apaga. Essa memória é registrada na amígdala e não se desfaz com o tempo como outras memórias. Mesmo que racionalmente saibamos que o futebol não define a nossa vida, ou que uma eleição não coloca a nossa sobrevivência em risco, a memória emocional associada a esses momentos, ao lado do impacto coletivo, não desaparece facilmente.

António Damásio é uma referência brilhante quando se trata de compreender a complexidade do cérebro, especialmente no que diz respeito às emoções, razão e tomada de decisões. O trabalho dele é fascinante porque une neurociência, filosofia e psicologia, e mostra como as emoções são essenciais para a racionalidade e não algo que apenas nos desvia dela, como tradicionalmente se pensava. Ele refuta a ideia de que razão e emoção são opostos, propondo que, em vez disso, são interdependentes e que as emoções desempenham um papel crucial na nossa capacidade de tomar decisões racionais.

Damásio lança o segundo livro -- "O Sentimento de Si" -- no ano dois mil. É uma obra profunda e transformadora. Neste livro, Damásio explora de forma brilhante a construção do "eu" e como o sentimento de identidade é gerado no cérebro. Ele propõe que a consciência de si mesmo -- o que chamamos de "sentimento de ser" -- não surge de um ponto fixo, mas é o produto dinâmico da interação entre corpo e cérebro. Damásio descreve que o "eu" não é algo fixo ou imutável, mas antes uma construção contínua que se desenvolve ao longo do tempo, mediada pela integração entre o cérebro e o corpo. O sentimento de ser nasce da capacidade do cérebro de integrar as informações do corpo e de todos os seus órgãos a funcionar para uma identidade que é algo mais do que a soma do corpo e do cérebro. Porque muita coisa do mundo a que pertence também lhe pertence: um nome, uma idade, e toda a relação interpessoal. E tudo isso sob a batuta de um sistema a que chamamos "emocional".

Esse processo acontece de forma automática, de que apenas uma pequena parte chega ao nível da consciência. A cada segundo, nosso cérebro está recebendo informações: umas circulam a partir de dentro, dos órgãos e sistemas circulatório mais o endócrino e imunológico; e a partir do exterior que entram através dos vários órgãos dos sentidos. Tudo isso é atualizado ao segundo sem parar, constantemente, condicionando o estado físico e emocional por forma a dar as respostas mais adequadas, momento a momento.

Testosterona: como na guerra, no desporto


Para o cérebro humano, as competições desportivas são percebidas como "batalhas" simbólicas. No nosso passado evolutivo, a pertença a um grupo vencedor era decisiva para o acesso a recursos e à chance de reprodução. Ou seja, ganhar aumentava o prestígio do indivíduo e do grupo, e isso tendia a elevar a testosterona. Esta hormona está ligada à motivação, domínio, e, por conseguinte, à competitividade. Mesmo hoje, quando um adepto vê o seu clube vencer, o cérebro reage como se ele próprio tivesse vencido. É o que os estudos mostram. Após uma vitória da equipa, os níveis de testosterona dos adeptos (especialmente dos homens) aumentam, enquanto uma derrota, que transmite um efeito de submissão, pode fazer o oposto: baixar esses níveis. Isso é chamado de efeito de vitória --  winner effect.

Essa foi a progressão evolutiva da espécie com a identificação tribal. Torcer por uma equipa de futebol é como pertencer a uma "tribo" em competição com outra. E os circuitos cerebrais que regulam a agressividade, a lealdade de grupo e o orgulho são profundamente ativados nesses contextos.

Há um estudo clássico publicado em 1998, liderado por Bernhardt, sobre os adeptos do Mundial de Futebol de 1994, realizado pela primeira vez nos Estados Unidos da América, e em que pela 4ª vez se sagrou campeão o Brasil. O que fizeram? Pois mediram os níveis de testosterona em adeptos norte-americanos durante o jogo dos EUA com o Brasil. Nos adeptos dos EUA, que perdeu, a testosterona caiu significativamente após a derrota. Em 2003 foi feito um estudo no rugby entre ingleses durante jogos importantes. Após vitórias, a testosterona dos adeptos subiu. Após derrotas, desceu. E essa descida era proporcional à importância emocional atribuída ao jogo. O que descobriram foi que o chamado efeito de vitória é observado tanto em quem compete diretamente como em quem apenas observa, os adeptos. Curiosidade: Até nos jogos de xadrez de alto nível, as flutuações de testosterona foram registadas! Um estudo recente em adeptos de clubes espanhóis mostrou que, em clássicos como Real Madrid // Barcelona, as flutuações hormonais eram mais fortes nos jogos de maior rivalidade, indicando que o grau de envolvimento emocional amplifica o efeito.

Os mecanismos cerebrais por trás disso são os seguintes: O futebol ativa áreas cerebrais ligadas à recompensa (como o núcleo accumbens). Ganhar "reforça" a identidade social e o estatuto, o que biologicamente aumenta a testosterona. Perder ativa áreas ligadas à dor social (como a ínsula anterior), o que deprime essa resposta hormonal. Estes efeitos são mais visíveis em homens, mas também existem nas mulheres, sobretudo as que frequentam os estádios, embora um pouco diferente.

Quando a testosterona sobe, isso não é apenas uma mudança física, ela influencia o comportamento social do adepto de forma bastante concreta, aumentando a extroversão e a exuberância após uma vitória. Os adeptos tendem a ficar mais expansivos, falando alto, gritando, cantando, abraçando desconhecidos. Isso acontece porque a testosterona alta reduz a inibição social e aumenta a sensação de poder e pertencimento ao grupo. Muitas vezes vemos comportamentos como invadir o campo, fazer cortejos na rua, gastar dinheiro em bares e restaurantes. Em nada há almoços grátis, como quando as coisas descambam para maior agressividade. Embora a maioria dos adeptos apenas celebre de forma positiva, em algumas situações, a testosterona elevada pode também aumentar a agressividade, em que os confrontos entre adeptos rivais é paradigma.

Antropologicamente, isso é comparável a "festas de vitória" nas tribos antigas, em que bebidas fermentadas eram usadas para comemorar conquistas. Curiosamente, há dados que mostram que homens mesmo apenas por torcer pela equipa vencedora são percebidos como mais atraentes socialmente depois da vitória. As mudanças hormonais e a atitude confiante contribuem para isso. É como se o "cheiro da vitória" ainda tivesse algum efeito evolutivo. O impulso biológico é semelhante em todo o mundo -- aumento da testosterona após uma vitória. Nem a maneira como a cultura molda o que é "aceitável" ou "esperado" consegue mudar completamente o comportamento orquestrado pelas hormonas.

Ser de Esquerda. A terraplanagem cultural e política


Dizer-se que se é de direita ou de esquerda é um tipo de identificação que diz muito pouco hoje em dia, na medida em que são um tipo de balizas classificativas já fora do seu tempo. Durante a última metade do século XX, s
er de esquerda, para muitos, era uma vaidade intrínseca, sinónimo de consciência crítica, monopólio simbólico da virtude no campo cultural. Representava a virtude transformadora. Como os esquerdistas se acostumaram ao título de salvadores da História, riram-se quando Francis Fukuyama anunciou em 1992 o "Fim da História". 

Mas agora os eleitorados de todo o mundo estão a terraplanar toda a esquerda e a faze-la desaparecer do mapa. Agora quem está na mó de cima é a extrema-direita. Em cima da direita, a comer-lhe as papas na cabeça. Por isso, ser hoje de direita, também já não tem nada a ver com a direita clássica dos conservadores. É a nova direita e os novos populismos que, ao contrário da esquerda, tende a desafiar as utopias com desdém, valorizando mais a ordem, o sacrifício, o dever, a autoridade. Ou seja, valores morais que não brilham facilmente nos palcos das elites intelectualizadas.

O contrário da utopia perfeccionista de esquerda é o pragmatismo da imperfeição humana. Não procurem salvar o mundo. Procurem conservar a ordem natural das coisas. Não esperem dos líderes a redenção Histórica. Vão mais pelo carisma. A direita acredita que representa a virtude conservadora. A tradição da direita é a salvação da Pátria, não a salvação da humanidade. Isso não significa que não possuam figuras sólidas, com virtudes de sobriedade, responsabilidade e prudência institucional. Não esperem da direita os grandes gestos a apontar utopias. 

A esquerda tende a exaltar mais os gestos épicos, idealistas, redentores, mesmo com altos custos. A direita valoriza mais a ordem, sobriedade, realismo institucional, mesmo que com menos apelo. Ambas as tradições têm figuras com luz e sombra, dados ao culto de santos civis. Simone Veil (1927–2017) -- francesa, sobrevivente de Auschwitz, e mais tarde ministra de saúde de um governo conservador, presidente do Parlamento Europeu -- lutou pela legalização do aborto na França, apesar de a rotularem como uma mulher de centro-direita. Enfrentou tanto a esquerda como a extrema-direita católica. É de apreciar, em suma, a sua coragem, equilíbrio e dignidade moral. Václav Havel (1936–2011) -- Checoslováquia, acabou por ser um símbolo da transição comunista. Foi um crítico tanto do comunismo como do nacionalismo populista. Promoveu a democracia liberal com profundidade moral e humanismo, propagando a ética da responsabilidade com linguagem elevada. Tinha uma profunda aversão pelo cinismo. José Mujica morre em 13 de maio de 2025, com quase 90 anos. Mujica foi sem dúvida uma figura ética rara no mundo político, e um símbolo de integridade. Mas a sua trajetória não está isenta de contradições, como todos os humanos inseridos na história. É compreensível admirá-lo como homem, mas é saudável manter a crítica quanto à sua ação política. Mujica também fica pela metade: guerrilheiro, participou de ações violentas, e a sua governação, embora simbólica, não transformou estruturalmente o Uruguai. Guerrilheiro do Movimiento de Liberación Nacional-Tupamaros. Participou de ações armadas na década de 60 e 70, incluindo assaltos, sequestros e atentados. Foi preso e torturado, mas há quem o critique por não ter feito uma autocrítica mais profunda dessa fase.

A sensibilidade crítica é rara, especialmente num tempo em que as emoções mediáticas tendem a aplanar a complexidade das figuras históricas. É um sentido de um maniqueísmo muito antigo, que consiste no enaltecimento de mitos pela metade. Esquerda e direita são duas faces sucedâneas desse maniqueísmo. Naturalmente os de esquerda, tal como os de direita, gostam de se rever em “santos laicos” como um espelho de pureza moral, esquecendo as sombras que fazem parte de qualquer ser histórico. Por exemplo Gorbachev, é precisamente o tipo de figura que escapa à mitificação fácil, talvez porque os seus feitos beneficiaram mais o mundo do que o seu próprio povo. E porque ele é profundamente "humano, demasiado humano": cheio de contradições, hesitações e consequências imprevistas. Arquiteto da Perestroika e da Glasnost. Perestroika (reestruturação) -- tentou reformar a economia soviética, introduzindo elementos de mercado. Glasnost (transparência) -- permitiu liberdade de expressão e informação inéditas no mundo soviético. Essas reformas não foram apenas administrativas, mas abriram as comportas do colapso do regime. Gorbachev foi essencial para encerrar a Guerra Fria, de forma pacífica. Aceitou a reunificação da Alemanha, retirou apoio a ditaduras comunistas no Leste Europeu e negociou tratados de desarmamento nuclear com os EUA. Em suma: recusou usar a força militar para manter o império soviético. Foi o primeiro líder soviético a sorrir, dar entrevistas livres, aparecer com a mulher ao lado, falar de maneira acessível. Aproximou-se do Ocidente como um parceiro, não como rival ideológico. O lado negativo da Perestroika foi ter gerado mais desorganização numa economia sempre a decrescer. A escassez aumentou, o PIB caiu e o país entrou num vórtice de crise económica. Isso abriu caminho para o ressentimento popular e a ascensão de figuras como Yeltsin e, depois, Putin. Gorbachev perdeu o controlo do processo reformador que havia iniciado. Foi ultrapassado pelos acontecimentos. A URSS colapsou em 1991, não por sua vontade, mas por forças centrífugas que ele libertou sem conseguir dominar. Foi, e continua a ser, malvisto na Rússia e pelos comunistas um pouco por todo o mundo. Talvez, Gorbachev, tenha sido um homem trágico --  cujo maior legado foi a ponte que deixou entre os dois mundos, vendo ruir o seu próprio mundo.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

A propósito dos aviões B-2 Spirit




Os bombardeiros furtivos B-2 Spirit, utilizados pelos Estados Unidos no ataque às instalações nucleares iranianas no dia 21 deste mês de junho, são uma das aeronaves mais avançadas do arsenal norte-americano e, até hoje, único do mundo. Projetado para escapar aos radares inimigos, o B-2 pode atravessar grandes distâncias sem ser detetado, transportar armamento nuclear ou convencional, e atingir alvos altamente protegidos com precisão cirúrgica. Foram eles que transportaram as chamadas bombas antibúnker GBU-57, de 13.600 quilos, desenhadas para penetrar estruturas enterradas a grande profundidade, como é o caso das instalações de Fordow, no Irão, escavadas numa encosta montanhosa.

A luta pela sobrevivência não é uma batalha moral ou de "boas intenções", mas uma constante adaptação a uma realidade que sempre foi brutal. Se olharmos para os nossos ancestrais, percebemos que os mais fortes, os que se adaptaram, mesmo contrariados, mas mais astutos, foram os que conseguiam perpetuar a descendência e fizeram com que fôssemos nós que estivéssemos hoje aqui e não outros completamente diferentes. Em bom rigor nunca houve lugar para os mais fracos. O que também se pode dizer por outras palavras: os mais corajosos, os menos indecisos, os que menos pensavam na morte da bezerra. A morte da bezerra era a consequência natural para os que não se conseguiam adaptar. Este cenário moldou, de forma inegável, as características fundamentais do ser humano, e até mesmo os valores éticos que promovem a cooperação, a solidariedade, e o cuidado em nossas sociedades contemporâneas.

Também é natural que hoje em dia os bons pensadores de sofá dos dias de hoje, na sua maioria, abominam o que foi dito no parágrafo anterior porque, para além de terem estado a salvo dos grandes perigos, nunca lhes passou pela cabeça do que era preciso fazer para terem um abrigo, comida na mesa, e roupa lavada. Tudo isso sempre esteve garantido. Por isso, sempre tiveram todo o tempo do mundo para pensar. Por isso, o facto de essa luta constante pela sobrevivência ter desapercebido dos radares de muitos pensadores e intelectuais modernos, passou a ser mais um problema do que uma boa solução para as intempéries com que agora somos assolados.

Hoje não faltam intelectuais que militam como ativistas contemporâneos por um determinado número de causas que vituperam a civilização ocidental. Parece que ignoram que esta civilização que desfrutam é, em grande parte, o resultado da luta incansável de gerações passadas. A história foi marcada por guerras, massacres, tensões sociais e desigualdades que foram necessárias para a formação das sociedades que agora criticam com tanta facilidade. Faz parte da história da sobrevivência da espécie. A luta pela dominância, proteção do grupo e autossuficiência foi uma característica essencial de muitas culturas antigas, desde os tempos das grandes migrações do degelo que deram lugar às guerras tribais. Ou seja, as guerras, que fazem parte da toda a história da humanidade, estão centradas na necessidade de proteção contra a extinção.

Por isso, muito intelectual está na verdade desconectado dessa história crua de sobrevivência, onde as decisões, muitas vezes, envolviam a exclusão dos mais fracos para garantir que os mais aptos sobrevivessem. É preciso entender essa dura realidade para apreciar como a civilização moderna chegou ao ponto a que chegou. No enfrentamento com a Natureza, ela sempre foi cruel. Há uma contradição curiosa em muitos dos debates de hoje: enquanto muitos defendem valores de igualdade, justiça social e compaixão, há uma falta de reconhecimento de que tais princípios, embora essenciais para a sociedade moderna, não surgiram de um mundo pacífico e igualitário. Eles são, na verdade, construções culturais recentes que emergiram em contextos de grande violência e desigualdade. A questão que se coloca, portanto, é: até que ponto podemos ignorar a natureza mais implacável e o contexto evolutivo que moldou o homem moderno? Serão os "valores humanistas" que hoje defendemos suficientes para encarar a dureza da realidade, ou estamos a viver uma ilusão de que a civilização nos vai proteger de ameaças que ainda são muito reais, embora não tão óbvias como eram no passado?

Sem as qualidades tradicionais -- coragem, competitividade, e a luta pelo bem-estar próprio e coletivo -- não haveria civilização, nem progresso. Não se trata de elogiar a brutalidade, mas de entender que há momentos em que a sobrevivência exigiu decisões duras e ações que, para nós hoje, podem parecer cruéis ou até antiéticas, mas que eram, na sua essência, necessárias para a continuação da espécie. Viver num mundo de paz e prosperidade não é a norma histórica, mas uma exceção que surge de um processo de seleção constante, de um confronto com a natureza e com a luta pela sobrevivência. Acreditar que a humanidade pode simplesmente abrir mão de certas qualidades, como a luta pela sobrevivência ou a seletividade adaptativa, é um engano. Não podemos desconsiderar as duras realidades que ainda marcam muitas partes do mundo e que podem, em última instância, afetar todos nós.

As civilizações corrompem-se por dentro



Assim como o Império Romano, no auge de sua grandiosidade, se entregava a espetáculos de violência e hedonismo -- o Ocidente destes tempos parece, em muitos aspectos, perder-se num ciclo de autoindulgência, desigualdade e descontrolo, onde os interesses corporativos e financeiros (como os de Silicon Valley) se sobrepõem à ética pública e ao bem-estar comum. Trump e Putin, figuras populistas e de forte personalidade, podem ser vistos como líderes carismáticos, mas também como símbolos de uma política baseada em interesses próprios e manipulação da opinião pública, muitas vezes em detrimento da justiça social e do bem coletivo.

Putin e Trump são símbolos da maneira como o poder é exercido sobre as massas, muitas vezes de maneira espetacular, mas vazia e destrutiva. Os "espetáculos" políticos de figuras como Trump e Putin, ou mesmo a cultura da distração promovida por grandes corporações tecnológicas, de que Elon Musk é o arauto, podem ser comparados a lutas de gladiadores que, enquanto entretêm as massas, desviam a atenção dos verdadeiros problemas, como as questões de desigualdade social, crise ambiental e guerra geopolítica.

Além disso, o controlo da narrativa (algo que a tecnologia, particularmente as grandes plataformas, faz com maestria) pode ser uma forma moderna de “brincar com a morte”: não com a violência física explícita, mas com a violência simbólica, manipulando informações e criando divisões ideológicas que podem destruir sociedades internamente. Como o "pão e circo" da Antiga Roma, que serviu para controlar a percepção pública e desviar o olhar da exploração brutal de seres humanos, hoje a política da distração e o desinteresse por valores éticos promovem um caminho semelhante de decadência silenciosa.

Os ricaços da Silicon Valley, tal como os "senadores e imperadores romanos" num império decadente, acumulam riqueza e poder. A falta de escrúpulos e a busca pelo lucro são, assim como em Roma, os alicerces dessa nova classe dominante. Eles são, muitas vezes, tão desconectados da realidade quotidiana das pessoas comuns que se tornam como espectadores da tragédia social, sem perceberem que a fragilidade do sistema em que vivem é algo inevitável e perigoso.

Em Roma, o fim da República foi marcado pela ascensão de imperadores populistas, que corromperam a política para manter o poder. Hoje, vemos um processo semelhante, em que líderes carismáticos e populistas (como Trump e Putin) sabem que manipular as massas e fomentar a divisão pode fortalecer a sua base de apoio, as elites econômicas, beneficiando de um sistema injusto e desigual. O grande perigo dessa dinâmica é que, assim como em Roma, a falta de visão a longo prazo e a decadência interna podem levar à queda de um império, mesmo que a sua grandeza material continue visível. Os bárbaros (que para Trump são os imigrantes vindos do Sul) não precisavam de conquistar Washington com as suas "espadas", porque a própria corrupção interna se encarrega de fazer o trabalho.

O Ocidente, com os seus extravagantes exemplos de riqueza e poder, parece estar a caminho do fim: injustiça social, fragmentação política, agitação populista e desigualdade crescente. Estão criadas as condições para a autossabotagem. O que foi conquistado com tanto esforço ao longo de séculos pode ser desfeito num ápice, com todo o desrespeito dos valores humanos essenciais.

Há uma tensão no discurso político e académico, especialmente entre comentadores que se posicionam moralmente contra determinadas potências: uma retórica altamente normativa, mas com pouco pragmatismo ou visão estratégica. Por exemplo, certos comentadores ao repetirem que Israel “não tem legitimidade para se defender” por violar resoluções da ONU, pode até estar a sustentar uma posição juridicamente coerente dentro de um enquadramento estritamente legalista. No entanto, esse tipo de discurso, quando repetido sem proposta realista de resolução, ou sem considerar os imperativos de segurança dos atores envolvidos, pode resvalar para um moralismo estéril.

Há uma ânsia idealista por justiça total, mas frequentemente descolada das limitações reais do sistema internacional, onde o uso da força, a dissuasão e os interesses de Estado, moldam as decisões mais do que as normas jurídicas. Isto remete-nos para Raymond Aron ou Hans Morgenthau, que alertaram contra a ingenuidade moralista nas relações internacionais. Dizer que Israel não tem legitimidade para se defender do Irão, ignorando o programa nuclear iraniano, e os ataques por parte das suas “forças proxy” (procuradores), como o Hamas, o Hezbollah e os Houthis, que oferecem ao Irão vantagens estratégicas significativas, soa não apenas simplista, mas contraproducente.

Não valorizar suficientemente as razões de Israel após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, reflete uma linha interpretativa que, por vezes, se vê em académicos ou comentadores com posicionamentos ideológicos mais à esquerda ou anti-imperialistas, que tendem a criticar mais o lado ocidental ou os seus aliados tradicionais, e a ver com mais simpatia, ou pelo menos menor reprovação, atores considerados “contestatários” ou “anti hegemónicos”, mesmo que sejam governos autoritários como o da Rússia. O caso de Israel é um tema complexo e carregado de emoções. Muitos analistas -- que procuram desconstruir narrativas oficiais ou evitar discursos “mainstream” -- acabam por enfatizar as ilegalidades ou excessos israelitas, e minimizar ou relativizar a ameaça existencial que o Hamas representa para Israel. Isso pode ser uma escolha consciente para tentar denunciar desequilíbrios de poder, mas corre o risco de passar uma visão enviesada que não reconhece a complexidade da segurança israelita. Essas posições podem ser estruturais, mas também podem ser vistas como uma cegueira seletiva que não reconhece as agressões e crimes cometidos pelo Hamas.

Este é um problema clássico na análise política e académica: o risco do viés ideológico levar a uma análise parcial, onde se perde a imparcialidade e a consideração justa pelos factos e pelo sofrimento humano. Um académico que quer ser realmente rigoroso deve conseguir reconhecer os erros e razões dos vários lados, especialmente quando há uma escalada de violência e drama humano, como no conflito Israel-Hamas. E já agora, a guerra Rússia-Ucrânia. Esse é o problema clássico dos círculos académicos e intelectuais, especialmente quando a teoria se torna um fim em si mesma, uma espécie de jogo retórico onde o discurso é muito coerente dentro da própria lógica ideológica, mas que se desliga completamente da realidade prática e das consequências concretas. A “beleza” ou elegância das teorias pode ser muito sedutora, sobretudo numa esquerda crítica que procura denunciar injustiças e desigualdades, mas quando essas teorias não enfrentam o teste da prática -- a complexidade das situações, os dilemas morais, as dinâmicas reais dos atores envolvidos -- acabam por ser pouco úteis e até contraproducentes.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

A lição do Coliseu em Roma





O Coliseu é o epicentro de uma lição complexa: um símbolo de grandeza, mas também de declínio trágico. A ideia de que ele representa um marco da engenharia e do poder da civilização romana, ao mesmo tempo que foi palco de atrocidades humanas, expõe uma dissonância que precisamos entender. Os romanos foram capazes de construir um dos maiores anfiteatros do mundo, usando um conhecimento tecnológico e arquitetónico impressionante, algo que, mesmo em nossos dias, continua a ser admirado. O Coliseu é uma obra monumental, feita com recursos grandiosos e sofisticados, e seus mármores foram usados para erguer a magnificência da Igreja Católica, simbolizando o legado duradouro da civilização ocidental. Aqui, vemos uma síntese do talento humano, da engenharia, da arte e do poder militar que sustentaram um império que governou o mundo ocidental por séculos.

Mas essa grandiosidade não impede que o Coliseu também seja um monumento ao horror. A sua construção e os eventos que lá aconteceram estão intrinsecamente ligados à violência e ao sacrifício humano. O gladiador, símbolo da resistência e da brutalidade, era uma figura do sofrimento em nome do entretenimento popular. As batalhas sangrentas, as execuções públicas, os animais selvagens soltos para devorar seres humanos, tudo isso era parte de uma cultura de morte e espetáculo.

O Coliseu é todo uma lição: de como a grandeza romana levou à decadência. Aqui reside a contradição que se encontra na história do Coliseu e que poderia ser a grande lição para os estudantes: a mesma civilização que criou tais maravilhas arquitetónicas e alcançou grandes feitos tecnológicos foi a mesma que se desintegrou de dentro para fora, consumida pela excessiva busca por poder, por luxo, por distrações.

A decadência do Império Romano não aconteceu apenas por invasões externas, mas pela decadência interna da sua própria cultura. Ao buscar prazer excessivo no espetáculo da morte, a sociedade romana se afastou de valores fundamentais, como o sentido de coletividade, justiça e humildade. Eles construíram um mundo grandioso, mas à custa de valores humanos essenciais, e essa desconexão foi uma das razões da sua queda. Os bárbaros que invadiram Roma, embora analfabetos em grande parte, tinham uma visão mais simples, mais direta da vida, sem os sofismas da complexidade e da corrupção da elite romana. Eles não conheciam a esplendorosa arquitetura, mas tinham uma visão de sobrevivência que, em certo sentido, reflete uma forma de purificação.

A primeira lição para os estudantes seria perceber que grandeza e decadência andam frequentemente de mãos dadas. As sociedades que alcançam o auge do seu poder, como Roma, podem cair quando se afastam dos princípios essenciais que tornam uma sociedade sustentável e justa. O Coliseu, com a sua brutalidade, ensina que a civilização não pode ser baseada no espetáculo da morte e no abuso do poder. A grandeza sem uma fundamentação ética sólida pode ser efémera, e os valores mais essenciais precisam ser mantidos como fundamento de qualquer cultura que busque se perpetuar.

A segunda lição é que as grandes obras do passado, mesmo aquelas que parecem imponentes e duradouras, podem ser manchadas por atitudes monstruosas. O roubo do mármore do Coliseu para construir a catedral de São Pedro. Uma metáfora perfeita: a grandeza e a espiritualidade de um edifício cristão, erguido para a adoração de Deus, provém de algo que, em sua origem, foi um centro de violência e crueldade. Isso revela como grandezas humanas, quando mal fundamentadas, podem ser transmutadas. Mas a memória dos erros não desaparece.

Esta viagem metafórica ao Coliseu não só abriria aos alunos uma visão histórica, mas também os confrontaria com as verdades desconfortáveis sobre como o poder e o entretenimento podem corromper até as maiores civilizações. A grandeza é fugaz, e a moralidade deve ser constantemente reavaliada e preservada, porque a queda pode vir das decisões imorais, mesmo quando essas parecem não ter consequências imediatas. Desta forma, o olhar para a história nos ensina a não nos perdermos nas grandes construções, mas a mantermos a visão sobre o que realmente sustenta a civilização: a ética, a justiça e o respeito pela vida humana.

Jacques Monod



Jacques Monod é uma figura fascinante, seja pela sua importância científica, seja pela profundidade filosófica da sua obra. Vamos explorar três dimensões principais do seu pensamento, com destaque para o livro -- Le Hasard et la Nécessité (1970) -- uma das obras mais influentes do século XX na filosofia da biologia. Jacques Monod (1910–1976), bioquímico francês, foi um dos fundadores da biologia molecular moderna. Prémio Nobel em 1965 com François Jacob e André Lwoff pelos seus estudos sobre a regulação genética em bactérias, especialmente o modelo do operão (lac operon). Contribuição essencial: demonstrou que os genes são ativados ou silenciados por moléculas reguladoras, num verdadeiro “sistema de comutação”. Isso mostrou que a expressão génica depende de sinais externos, antecipando a ideia de que o genoma é interpretado pela Natureza, não simplesmente executado.

A mutação genética é mesmo aleatória (hasard), e não dirigida. As leis da física e da química é que são necessárias (nécessité). Necessidade no sentido filosófico, que é determinista. Numa tradução para vernáculo diria que é o que é viável, o que ter de ser. A evolução é cega, sem finalidade, sem sentido prévio. O ser humano surgiu como podia não ter surgido. Na escala cósmica a espécie humana obedece à mesma aleatoriedade de todas as outras espécies, milhões de espécies, cuja forma é circunstancial de acordo com leis deterministas e acasos evolutivos dos ecossistemas. Monod rejeita qualquer forma de teleologia (finalismo) na Natureza. Isso o leva a um tipo de existencialismo científico, próximo de Camus e Sartre. Num contraste entre Jacques Monod, Stephen Jay Gould e Richard Dawkins, três gigantes da biologia evolutiva, todos influenciados pelo darwinismo, podemos confrontar visões bem distintas sobre o papel do acaso, da necessidade, da finalidade e até da consciência humana.

Stephen Jay Gould (1941–2002) concordava com Monod quanto à aleatoriedade da evolução, mas dava um passo adiante com a sua ideia de contingência histórica: “Se rebobinássemos a fita da vida, e a puséssemos a correr de novo, o resultado seria completamente diferente.” O acaso age não só nas mutações, mas também nos eventos macroscópicos. No acaso cabem extinções em massa, colisões de asteroides, climas extremos. A vida evolui por saltos descontínuos (punctuated equilibrium), e não de forma suave e gradual. A evolução não tende à complexidade: a consciência humana poderia nunca ter surgido. Somos um entre milhões de possíveis caminhos. Gould não alinha na finalidade, no propósito, mas é muito mais histórico que Monod: ele insiste que a trajetória evolutiva não é única, mas é irrepetível. Podia ser diferente, mas nunca voltaria a ser da mesma maneira, se fosse repetida. Não é bem como uma biografia, mas como uma pluralidade de histórias possíveis de vida.

Richard Dawkins (n. 1941), por outro lado, vê a evolução como um processo altamente eficiente e acumulativo, conduzido por uma lógica quase de engenharia. A mutação para ele também é aleatória, mas a seleção natural é sistemática: como um algoritmo que descobre, testa e mantém as melhores adaptações. O verdadeiro protagonista não é o organismo, mas o gene: os corpos são “máquinas de sobrevivência” construídas pelos genes para se replicarem (O Gene Egoísta, 1976). Todas as suas ideias nesta altura já foram ultrapassadas pelos pontos de vista opostos. O gene não é egoísta. É cego. A forma, ou o fenótipo, fica por conta da epigenética. E a epigenética é a Natureza a trabalhar por fora dos genes.


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Do dever da razão em Kant, à ironia da paixão em Hume


Kant era, tudo indica, uma pessoa extremamente metódica, pontual até à obsessão (dizem que os vizinhos acertavam os relógios quando ele passava para o seu passeio diário). Vivia com uma disciplina de tal modo mecânica que faria inveja a um relógio suíço. Era um génio, mas desses que talvez fosse mais suportável à distância, ou no papel, do que lado a lado a beber uma cerveja fresca com tremoços numa esplanada num fim de tarde de verão.

O filósofo Ernst Cassirer escreveu que a filosofia kantiana é como uma catedral gótica: complexa, rigorosa, imponente, mas com pouca margem para desvios ou leveza. Kant escrevia como pensava: com precisão, às vezes exasperante. E quem esteja habituado a raciocínios claros e à economia de linguagem, que a prática exige, é natural que a verbosidade labiríntica de Kant irrite um pouco. Esse desconforto é um sinal de maturidade intelectual de quem já passou pelo fascínio inicial e agora tem liberdade para rir, questionar, ou até se aborrecer com um autor canónico, sem o medo reverencial que tantos ainda mantêm. Afinal, a filosofia não é para ser lida de joelhos, mas com espírito crítico, mesmo que seja com a Crítica da Razão Prática na mão.

O imperativo categórico no seu estado mais inflexível é o exemplo que faz com que tantos leiam Kant com um misto de admiração e incredulidade. A sua ideia de que a moralidade não admite exceções, mesmo diante de uma vida em risco, é demasiado desumana. E talvez o seja mesmo, no sentido literal do termo: não humana. Para Kant, mentir é sempre errado, independentemente das consequências. Porque violaria a universalidade da lei moral. Mas isso, para nós, soa mais a uma moral ou uma ética do tribunal celestial, e não da vida real. É neste ponto que muitos se afastam de Kant, e se aproximam de um David Hume. As consequências contam e importam. É imperfeito? É!. Mas é demasiadamente humano. Schopenhauer, por exemplo, que não morria de amores por Kant, dizia que o sistema moral kantiano “parece ter sido feito para habitantes de Marte”. Diria que se fosse hoje, Kant não escaparia ao rótulo de autista, os tais que são génios a matemática e um zero a empatia. A pobreza nos tais neurónios espelho. Olhando retroativamente para figuras como Kant, Newton ou até Wittgenstein, alguns dos seus traços poderiam, no vocabulário contemporâneo, encaixar em espectros do neurodesenvolvimento, como o autismo.

No caso de Kant, o comportamento obsessivamente rotineiro, a dificuldade de estabelecer relações interpessoais profundas, a rigidez moral extrema e a notória ausência de afeto empático nas suas formulações éticas, tudo isso compõe um perfil que hoje poderia levantar sobrancelhas entre neurologistas ou psicólogos clínicos. Claro que é sempre anacrónico aplicar rótulos modernos a figuras históricas. Mas é fascinante pensar que a pobreza nos neurónios-espelho possa ter sido justamente a condição que permitiu a Kant construir aquele edifício ético monumental, assente num princípio tão frio quanto inabalável: o dever pelo dever.

David Hume parece ter tido uma humanidade muito mais calorosa, mais próxima da vida real. Apesar de cético e, por vezes, mordaz, tinha um sentido de humor notável, uma escrita fluída, e um olhar filosófico que não excluía as paixões. Antes as colocava no centro da ação humana. “A razão é, e deve ser apenas, escrava das paixões” -- dizia ele, com um sorriso que Kant talvez nunca tenha esboçado. É irónico que Kant, ao reconhecer que Hume o despertou do sono dogmático, tenha depois rejeitado tão prontamente a premissa afetiva do escocês. Como se dissesse: obrigado pelo despertador, agora vou tirar todas as emoções da equação. Hume tinha o que hoje poderíamos chamar de inteligência emocional avant la lettre. Ele percebia que o ser humano é uma criatura de hábitos, de afetos, de simpatias, e que a moralidade nasce muito mais dessa sociabilidade natural do que de qualquer dedução racional a priori, como se fosse matemática. Por isso, a ética de David Hume soa mais a terapêutica médica. Atenta ao contexto, à fragilidade, às circunstâncias. "Em medicina nem sempre nem nunca, cada caso é um caso" = é uma máxima de sabedoria prática que poderia muito bem ser aplicada a toda a ética. 

Mas vá lá, juntemos Kant a Hume, expurgando-os do extremismo de cada um, e quase que conseguimos uma terapêutica filosófica. Uma espécie de medicina moral do espírito. De um lado, a precisão rigorosa de Kant, que garante a integridade do princípio. Do outro, a sensibilidade de Hume, que lembra que cada paciente tem nome, história, dor própria. E que o mesmo tratamento não serve para todos. Hegel recomendava levar os opostos ao extremo para depois conciliá-los num ponto superior. Uma ética dialética, que nem se afunda no relativismo emocional, nem se congela no formalismo vazio. É curioso pensar que talvez a medicina seja, na prática, a arte de resolver dilemas morais sem dizer que são dilemas. O médico decide, mas raramente com fórmulas. Julga, intui, escuta. E nisso, talvez, esteja mais próximo de Aristóteles, com a sua phronesis, a prudência do caso concreto. 

Hume escreve algo como: “Depois de tanta especulação filosófica infrutífera, saio para jantar, conversar com os amigos, ou jogar uma partida de gamão.” É um verdadeiro elogio da vida contra o peso do pensamento excessivo. É como se dissesse: a razão não me resolve tudo, mas a vida continua, e isso já é um consolo. Esse momento em que ele "empanca" na busca do "eu", e se dá conta de que tudo o que encontra em si são percepções e sensações, sem nunca topar com um "núcleo" fixo. É um dos pontos altos da filosofia moderna. Em vez de forçar uma solução, como tantos outros, ele admite o abismo. E depois vai viver. Esse gesto é radical e sereno ao mesmo tempo. É um convite à humildade intelectual, ao reconhecimento de que nem tudo pode (ou deve) ser resolvido pelo pensamento. E talvez por isso Hume ainda fascine: porque ele nos olha sem pretensões, sem dogmas, sem querer ser um profeta da razão — algo raro entre filósofos.

Portugal, fortemente enraizado no tom moralizante católico e no legado escolástico jesuítico, manteve durante muito tempo uma certa reserva face à cultura anglo-saxónica, que misturava empirismo, liberdade intelectual e uma quase heresia suave, disfarçada de bom senso. Até mesmo figuras como Stuart Mill ou Bertrand Russell demoraram a entrar com força no meio lusófono. Enquanto Kant e os alemães, mais "solenes", pareciam mais adequados a uma cultura onde a metafísica e o dever tinham peso de altar.

Essa decisão de não ir à procura da doença, de não antecipar o sofrimento, mas deixar que ela chegue se e quando tiver de chegar, é o reconhecimento sereno dos limites da vida e, sobretudo, da dignidade do deixar estar. Em vez da obsessão moderna de "antecipar tudo", é melhor aceitar a incerteza e viver com uma clareza rara: quando vier, que venha ter comigo. David Hume quando morreu, em 1776, escreveu cartas bem-humoradas e lúcidas, sem medo, sem súplica, apenas com um certo gosto pela compostura, pelo que ainda restava de prazer na vida. Nunca precisou de promessas do além. Bastava-lhe saber que viveu com inteligência, com sensibilidade e com ironia.


Do genótipo ao fenótipo = Um Mistério


Um dos mistérios da vida é como a natureza faz a passagem dos códigos de ADN para a fenomenologia do fenótipo. Mistério? Essa questão toca num dos grandes enigmas da biologia e da filosofia da ciência: como o genótipo (ADN) se traduz no fenótipo = a expressão visível, funcional e comportamental do organismo. É um processo chamado de expressão génica, mas por trás dessa aparente clareza técnica, há um abismo de complexidade que muitos pensadores e cientistas reconhecem como um verdadeiro "mistério".

O percurso do ADN até ao fenótipo envolve várias etapas bem descritas, mas ainda não completamente compreendidas em sua totalidade. Transcrição: o ADN é transcrito em ARN (RNA). Tradução: o ARN é traduzido em proteínas, que são os "blocos de construção" das células. Depois as proteínas interagem entre si e com o ambiente celular para construir tecidos, órgãos, funções fisiológicas. Mas esse esquema linear é enganadoramente simples. O verdadeiro mistério está na coordenação e regulação, isto é, quem “decide” o quê, quando e onde. Hoje sabemos que o ADN por si só não determina tudo. Entra aí a epigenética, que estuda os marcadores químicos que ativam ou desativam genes sem mudar a sequência do ADN.

O fenótipo emerge de um diálogo entre o ADN e o mundo. E isso remete à velha ideia aristotélica da forma e da matéria: a forma não está completamente "dada" no código genético, mas se atualiza num processo complexo. É a fenomenologia do organismo. Francisco Varela, Maurice Merleau-Ponty, ou mais recentemente Evan Thompson, defendem que a vida não pode ser totalmente explicada por instruções codificadas no ADN. O organismo é um potentado de auto-organização. Responde ao ambiente de forma criativa. Constrói significado corporalmente. Isso leva à noção de que o fenótipo não é simplesmente "causado" pelo ADN, mas emerge de um sistema dinâmico, histórico e relacional. É aquela síntese que diz que o todo é mais do que a soma das partes.

Mesmo com toda a informação genética conhecida pela codificação do genoma humano, não se consegue prever com previsão como vai ser o fenótipo. Isto é, não se consegue dizer exatamente como será um ser vivo só com base no seu ADN. Isso é comparável à música escrita numa partitura: saber ler a partitura não é o mesmo que ouvir a interpretação ao vivo, que depende do instrumento, do ambiente e da subjetividade do intérprete. Em última análise, a construção do ser vivo através da leitura do código genético -- qual cozinheira que lê a receita para cozinhar um bolo -- e ainda por cima uma presença viva, continua a ser um dos pontos onde a ciência tropeça no mistério.

Para Francisco Varela (1946–2001), "A biologia não pode ser reduzida a um jogo de instruções genéticas. O organismo é uma unidade autopoiética, que se produz a si mesmo em constante interação com o seu meio." E segundo Stuart Kauffman "A vida emerge da ordem auto-organizada. O ADN é uma condição, não uma causa suficiente." A vida tem propriedades emergentes. As proteínas, por exemplo, dobram-se em formas complexas que não são codificadas diretamente pelos genes. São as próprias proteínas que se mexem e “descobrem” a sua forma. Já Jacques Monod (1910–1976) - Prémio Nobel da biologia, e autor de O Acaso e a Necessidade - dizia que "O código genético é como uma linguagem: uma estrutura arbitrária e sem significado em si próprio, fora do contexto celular. Haverá ou não um intérprete, eis a questão". É a Natureza. Mesmo na biologia molecular, reconhece-se que há uma semântica, um contexto próprio, que transcende o código.

O que estes pensadores, cada um à sua maneira, afirmam é que não existe uma correspondência linear entre os genes e o fenótipo. O ADN é uma condição de possibilidade, mas não um programa determinista. É como se a Natureza operasse com uma gramática viva, na qual a mensagem final só ganha forma no corpo encarnado, em interação com o meio. É a História ou o Acaso. O percurso do genótipo ao fenótipo é um processo. Quem escreveu a receita? A Natureza! Quem lê a receita? A Natureza! Quem constrói o organismo? A Natureza! Não é uma transcrição, mas uma transformação. A biologia contemporânea e a filosofia do corpo caminham juntas para mostrar que a vida é um campo de significados emergentes, onde o ADN é apenas uma das vozes num canto coral de relações. Tal como uma partitura não produz por si uma sinfonia, o código genético precisa de um palco (o mundo). De um tempo. Um corpo que se torna vivo. É o mundo da vida. Neste sentido, o mistério não é um sinal de ignorância, mas de profundidade. É aquilo que não se esgota em explicações, mas que convida à contemplação e ao respeito pelo que é vivo.