domingo, 15 de outubro de 2023

Ainda o século XVIII em tempo de impérios





A perda da Crimeia foi um desastre estratégico para os otomanos. 
Em 1783, reinava Catarina, a Grande, os russos anexaram a península da Crimeia e tornaram-se senhores da costa norte do mar Negro. Odessa foi fundada em 1793 para ser a metrópole desse novo império do Sul. Abrira-se o caminho para a conquista do Cáucaso. Foi uma fase decisiva na ascensão da Rússia como potência mundial. 

Até então o Mar Negro tinha sido um lago turco, parte integrante das comunicações imperiais dos otomanos. Com um monopólio de poder sobre as suas águas, os otomanos podiam vigiar os acessos ao seu império a partir do Norte com extraordinária facilidade. Sem abastecimentos por via marítima, uma invasão russa dos Balcãs otomanos era difícil, senão mesmo impossível, como descobrira Pedro, o Grande. Do outro lado do mar Negro, um avanço para o Cáucaso ao longo da orla ocidental da sua cadeia montanhosa era ainda mais difícil sem apoio marítimo.

O Mar Negro era o escudo naval do sistema otomano. Encurtava a fronteira estratégica que os otomanos tinham de defender contra os seus inimigos europeus. A invasão tinha de vir através dos Balcãs ocidentais – uma região inóspita, onde toda a vantagem era da defesa. A única grande potência com que os otomanos tinham de se preocupar era o Império Habsburgo, com o qual partilhavam uma fronteira. A marinha otomana podia concentrar-se no Mediterrâneo Oriental, protegendo as ilhas do Egeu, o acesso a Constantinopla e as costas do Egito e do Levante. Tinha pouco a temer das longínquas potências navais da Europa – Grã-Bretanha, França, Holanda e Espanha. Acima de tudo, o benefício estratégico do Mar Negro fazia-se sentir a nível político.

Em 1789 dá-se a Revolução na França. Na véspera só o pagamento dos juros consumia metade das despesas do Estado. Em 1789, com o seu prestígio em baixo e o Tesouro falido, a monarquia francesa caiu no turbilhão da mudança constitucional, cedendo poder político efetivo aos autoproclamados líderes do Terceiro Estado, reconstituído em junho como a Assembleia Nacional. Com o agravamento do caos financeiro e a desagregação da ordem social, a ameaça de uma intervenção estrangeira em França, pelas potências conservadoras e lideradas pela Áustria, era cada vez maior.

Na primavera de 1792, a França já estava em guerra com a Áustria. O desastre militar e o receio popular da invasão destruíram a influência dos reformadores mais moderados e conduziram à abolição da monarquia em setembro de 1792. Quando Luís XVI e Maria Antonieta foram executados, em janeiro de 1793, estava concluída a mudança de regime. O arquétipo do Estado Dinástico dera lugar a uma República Revolucionária. E estava disposta a ser exportada. Quando os exércitos da Áustria e da Prússia entraram em França, em 1792, o exército da Rússia entrou na Polónia, com o caminho aberto através da Ucrânia até ao Mar Negro.

Em 1798, Napoleão e Talleyrand (o primeiro-ministro francês), engendraram um plano extraordinário para a conquista do Egito. O raciocínio de Napoleão e Talleyrand sugere que eles compreendiam bem a dimensão da mudança geopolítica que estava a ocorrer. 
O controlo do Egito permitiria à França revitalizar a rota do Suez entre a Europa e a Índia e contrariar o crescente predomínio do comércio que se fazia pelo Atlântico. O Egito compensaria a França pela perda em 1763 das suas colónias americanas – Quebec e Luisiana. Ajudaria a travar o avanço da Rússia. Em julho de 1798, Napoleão desembarcou no Egito com 40 000 soldados. Levou também consigo uma equipa de 165 especialistas. A sua missão era registar o passado e planear o futuro do Egito napoleónico. A 21 de julho de 1798, na Batalha das Pirâmides, o domínio dos Mamelucos no Egito foi destroçado. Napoleão declarava que os franceses tinham vindo libertar o povo da tirania mameluca, prometendo respeitar a religião islâmica. Chegou mesmo a discutir com os principais ulemás os termos de uma conversão em massa do seu exército.

Napoleão enviou mensagens amigáveis aos governantes muçulmanos ao longo da costa do Norte de África até Marrocos, ao sultão de Darfur e ao sultão Tipu na Índia. Segundo os ingleses, Mascate, no golfo Pérsico, estava sob influência francesa. Foram feitos planos para invadir a Síria, para que a França pudesse controlar toda a costa do Levante com a metade ocidental do Crescente Fértil. Napoleão deve ter pensado que a sua invasão relâmpago voltaria a equilibrar os pratos da balança da geopolítica a favor da França. 

Dias depois da chegada de Napoleão ao Cairo, Nelson com a sua armada inglesa, na baía de Aboukir,  destruiria a armada francesa. O Egito era demasiado pobre, fraco e vulnerável para sustentar o encargo do domínio francês e um exército sem abastecimento do exterior. A revolta e a resistência aumentaram. Os otomanos declararam guerra. A expedição síria fracassou. A diplomacia com os muçulmanos não surtira qualquer resultado. Quando Napoleão partiu em agosto de 1799, o sultão Tipu já havia desaparecido em maio. Os ingleses haviam-no eliminado. O exército francês aguentou-se, mas não existiam meios em Paris para o socorrer. Em junho de 1801, o Cairo foi conquistado por tropas inglesas enviadas da Grã-Bretanha e da Índia. O projeto oriental francês chegara ao fim.

A batalha decisiva ocorreu perto do cabo Trafalgar, ao largo da costa espanhola, em outubro de 1805. O almirante Nelson destroçou completamente as armadas francesa e espanhola. A Luisiana, recuperada à Espanha em 1800, fora vendida aos Estados Unidos. São Domingos (o atual Haiti), a colónia mais rica da França, sucumbiu a uma revolta dos negros em 1804. O domínio dos mares permitia aos britânicos resguardar o seu império na Ásia, acabando por conquistar o Cabo em 1806, e a Maurícia em 1810. Em 1811 os ingleses tomaram a Indonésia à Holanda, reino vassalo de Napoleão. O oceano Índico tornou-se um lago britânico.

Napoleão pode ter pensado em liderar uma nova aliança com o Império Otomano e o Irão, em parte para neutralizar a Rússia na Europa, mas isso não viria a concretizar-se. O seu principal objetivo continuava a ser a hegemonia europeia. No mesmo mês de Trafalgar, a batalha de Austerlitz, com a derrota da Áustria e Prússia, tornou mais próxima essa possibilidade. Napoleão redesenhou o mapa da Alemanha com a Confederação do Reno, e o Grão-Ducado de Varsóvia
Decretos promulgados em Berlim, em 1806, e em Milão no ano seguinte, vedaram o continente europeu ao comércio britânico. Se os britânicos quisessem ser donos do mar, Napoleão afogá-los-ia no seu próprio elemento. Mas era certamente tarde de mais. O sistema continental que devia excluir o comércio britânico estava repleto de falhas. O império de Napoleão tornou-se intoleravelmente pesado. A Rússia rejeitou o jugo comercial e reiterou a promessa de que os polacos nunca recuperariam o seu reino. Em 1812 Napoleão já tinha chegado à conclusão de que só a conquista da Rússia poderia garantir a paz. A invasão da Rússia por Napoleão que redundou em catástrofe, um golpe de misericórdia autoinfligido.

Enquanto a França era invadida a partir do leste e do sul, Napoleão fugia para o exílio em Elba. O seu império desmoronara-se. Ainda havia de tentar uma última oportunidade (os cem dias de 1815) no campo de batalha de Waterloo.

Os mediadores perceberam que não podia haver um regresso à desordem dinástica do ancien régime. Vinte e cinco anos de revolução e guerra tornaram essa possibilidade impensável. Construíram então um acordo territorial para manter o equilíbrio de forças entre as cinco grandes potências – Áustria, Prússia, Rússia, França e Grã-Bretanha. O Concerto Europeu entre cinco Estados-Nação como tentativa de sanar divergências mantendo uma nova distribuição de poderes. O acordo de Viena revelou-se surpreendentemente duradouro: a Europa evitou uma guerra geral durante quase um século. Em parte por causa disso, garantiu as condições em que as duas potências dos extremos - Grã-Bretanha e  Rússia - podiam realizar as suas ambições fora da Europa. Salvo nos casos em que estas ameaçassem a paz europeia. O acordo Viena abriu a porta ao cerco da Ásia a partir do Norte e do Sul.

A derrota de Napoleão e do seu projeto de império teve vastas implicações. 
Foi o verdadeiro culminar da grande mudança geopolítica. Quando os britânicos se viram livres da ameaça tornaram-se rapidamente os senhores do subcontinente indiano. A penetração comercial na China, já em curso antes de 1800, começou a acelerar. Apesar de terem devolvido o arquipélago indonésio ao novo reino da Holanda (criado como obstáculo à expansão francesa na Europa), os britânicos conservaram Singapura e transformaram-na no empório de grande parte do Sudeste Asiático. No Ocidente, a participação da Espanha no desastre naval de 1805 custou-lhe o domínio do seu império hispano-americano, cujo comércio se tornou acessível, sobretudo à Grã-Bretanha. Velhos monopólios comerciais tornaram-se obsoletos com o domínio dos oceanos por parte da Grã-Bretanha. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O Monte do Templo, ou Esplanada das Mesquitas




O Monte do Templo, ou Esplanada das Mesquitas, é um lugar sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos. Aqui se encontram a Mesquita de Al-Aqsa, também conhecida por Al-Haram al-Sharif; e o Domo da Rocha. Localizada no setor palestiniano da Cidade Velha de Jerusalém, cobre 14 hectares com vista para a cidade. 




É sagrado para os judeus uma vez que corresponde ao Monte Moriá da Bíblia, onde Abraão obedeceu ao seu Deus para um sacrifício em Isaac. Aqui foi erigido o Primeiro Templo ou Templo de Salomão que depois foi destruído por Nabucodonosor em 587 a.C. Anos depois foi construído o Segundo Templo que em 70 d.C. voltou a ser destruído pelos romanos. Restou o muro ocidental, conhecido como Muro das Lamentações, agora o lugar de peregrinação mais importante para os judeus. Segundo a tradição judaica, é o sítio onde deverá construir-se o terceiro e último templo nos tempos do Messias. E é o terceiro lugar mais sagrado para os muçulmanos, de onde Maomé partiu rumo ao paraíso.

O Califa Omar ordenou a construção de uma mesquita a sudeste, a Mesquita Al-Aqsa, dirigida para Meca. O Domo da Rocha, um monumento octogonal com uma cúpula dourada, foi construído sobre as rochas em 636. Após o local ter sido conquistado pelos Cruzados em 1099, os Templários estabeleceram-se na Mesquita de Al-Aqsa. Saladino reconquistou Jerusalém em 1187. Após a captura de Jerusalém, Saladino convidou os judeus a voltarem à cidade, que tinham sido expulsos pelos cristãos. Os judeus de Ascalão, uma grande população judaica, aceitaram este convite e voltaram a viver em Jerusalém.

Na história recente, a Esplanada das Mesquitas volta e meia é notícia, mas não pelas melhores razões. O acesso aos templos é com frequência bloqueado por questões de segurança. O que é muito contestado pelos muçulmanos. Porém, em determinadas ocasiões do ano, o acesso é libertado pela segurança israelita aos fiéis oriundos da Cisjordânia.



Mesquita de Al-Aqsa, extremo sul da Esplanada



A entrada para a Mesquita de Al-Aqsa



Desde a ocupação de Jerusalém oriental por Israel, em 1967, que o local tem suscitado imensos conflitos. Remetendo apenas para as ocorrências e incidentes mais recentes – Em 2021, manifestações noturnas em Jerusalém oriental e confrontos na Esplanada das Mesquitas transformaram-se em 11 dias de guerra entre o movimento islâmico palestiniano Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e Israel. Na primavera de 2022, os confrontos eclodiram em várias ocasiões, causando centenas de feridos na Esplanada e zona envolvente. E em 3 de janeiro de 2023 o ministro ultranacionalista da Segurança Nacional de Israel, Itamar Bem Gvir, provocou uma onda de contestação depois de fazer uma breve visita à Esplanada.

Os muçulmanos podem visitar a Esplanada a qualquer hora e os que não são muçulmanos devem entrar apenas em determinados horários, sem rezar no local. Nos últimos anos, aumentou o número de judeus que visitam a esplanada e os judeus ultranacionalistas por vezes rezam no local, disfarçadamente. Assim, a tensão tem-se intensificado, com os muçulmanos a temer que o Estado de Israel esteja a tentar mudar as regras de acesso à Esplanada das Mesquitas. Sob administração da Jordânia, o acesso à Esplanada é controlado pelas forças israelitas.



As portas da capela tribal da Mesquita Al-Aqsa

O salão de oração tribal ou a mesquita tribal faz parte da Mesquita de Al-Aqsa, coberto por uma cúpula de chumbo. É o principal salão de oração onde os fiéis muçulmanos se reúnem atrás do imã para as orações de sexta-feira. Muitos acreditam que a Mesquita de Al-Aqsa é apenas a mesquita construída ao sul do Domo da Rocha, a chamada capela tribal, que é onde as cinco orações são realizadas. Mas Mesquita de Al-Aqsa para muitos é tudo o que está dentro da Esplanada - inclui as praças largas, a mesquita tribal, o Domo da Rocha, a capela Marwani, arcadas, cúpulas, terraços, fontes de água, jardins, sob e acima do solo e outros marcos. Desde 1967 que o Monte do Templo e Jerusalém Oriental, ficou sob o controlo do Reino da Jordânia. O rei Abdullah I da Jordânia foi assassinado enquanto visitava e rezava na mesquita em  20 de julho de 1951. O assassino foi Mustafa Shakry, um palestino que pertencia à família Husseini.

Em 21 de agosto de 1969 a mesquita foi incendiada por um jovem australiano, doente mental, que pertencia a uma igreja cristã evangélica chamada Igreja de Deus, que admitiu que pretendia incendiar a mesquita para apressar a vinda do Messias, construindo o Templo Judaico no Monte do Templo. Foi preso, internado em um hospital psiquiátrico e deportado de Israel. Este incêndio queimou o minbar da mesquita de Al-Aqsa (plataforma do pregador), que foi doado à mesquita por Saladino. E foi considerado por séculos um dos símbolos da mesquita. Durante muitos anos, o trabalho de restauração e preservação ocorreu na mesquita, com doações de centenas de milhões de dólares que chegaram à mesquita após o incêndio. O trabalho restaurou a maior parte das obras de arte na mesquita, exceto o magnífico palco do pregador, no qual um palco simples foi erguido em seu lugar.





O Domo da Rocha, também chamado de "Cúpula Dourada", é uma estrutura muçulmana construída em 691 d.C. em cima da pedra potável, daí seu nome. É a primeira estrutura monumental construída no início da formação e consolidação do islão. O Domo da Rocha faz parte do complexo da Esplanada das Mesquitas. Com o passar dos anos, tornou-se costume chamar à estrutura do Domo da Rocha da Mesquita de Omar, mas não deve ser confundida com a Mesquita de Omar localizada perto da Igreja do Santo Sepulcro no Bairro Cristão.

É uma grande rocha que se projeta do chão cercada por uma estrutura de ferro. De acordo com a Mishná, a pedra potável estava no Santo dos Santos no Templo, embora sua localização exata seja contestada, e depende da identificação da localização do Templo Judaico no Monte do Templo, ou Esplanada das Mesquitas. Sob a pedra há uma caverna natural que foi expandida durante o período das Cruzadas e ficou conhecida como o Poço dos Ventos. No Primeiro Templo teria sido colocada nesta pedra a Arca da Aliança. No Segundo Templo, depois que a Arca da Aliança já tinha sido roubada, o Sumo Sacerdote colocava o incenso nesta pedra no Yom Kipur, e também derramava o sangue dos sacrifícios diante da pedra. Está recheada de lendas e mitos que passaram do judaísmo ao islamismo.




De acordo com a tradição islâmica, al-Sakhra é o lugar de onde Maomé subiu ao céu, e nesta subida a própria pedra tentou se juntar a ele e foi parada pelo anjo Gabriel. Acredita-se que algumas marcas no lado oeste da pedra sejam impressões digitais de Gabriel. Os vários ensinamentos criacionistas no antigo Egito se referiam à "Pedra do Filho" da qual o mundo é baseado. As tradições gregas referiam-se a certas pedras como o umbigo da terra ou ônfalo. Alguns argumentam que a construção do Domo da Rocha destinava-se a preservar e proteger a pedra potável e facilitar a chegada dos peregrinos. Alguns argumentam que o Domo da Rocha era uma espécie de estrutura conjunta do templo para muçulmanos e judeus, construída na época da formação do Islão.

A cúpula desabou em 1016 provocada por um terramoto e foi reconstruída cinco anos depois. Após a conquista de Jerusalém pelos Cruzados em 1099, e o estabelecimento do Reino de Jerusalém, o crescente no topo da cúpula foi substituído por uma cruz, e um altar de pedra foi erguido dentro do edifício. O nome do edifício foi mudado para Templo do Senhor e foi transferido para a responsabilidade da Ordem dos Templários. Os muitos peregrinos que visitaram o local, alguns dos quais levaram pedaços da rocha como lembrança, motivaram as autoridades cristãs a erguer uma grade para proteger a rocha.

Em 1187 Saladino conquistou Jerusalém, removeu a cruz e outras adições cristãs e transformou o Domo da Rocha num lugar sagrado para os muçulmanos. Ele embelezou o edifício com a adição de chapeamento de ouro nos arcos da cúpula, revestimento de mármore nas paredes e mosaico na cúpula. E durante os séculos que se sucederam foi várias vezes objeto de intervenções no revestimento de modo a embelezar o edifício.



A Rocha ou Pedra de Beber

Durante o Mandato Britânico o Monte do Templo começou a adquirir importância para os palestinos, uma resposta às tentativas sionistas de estabelecer uma base judaica na praça do Muro das Lamentações, em vez de no Monte em si. O ponto alto do projeto de renovação foi quando a estrutura do Domo da Rocha foi banhada a ouro. Em 1928, na cerimónia de inauguração da Cúpula Dourada Mufti Hajamin al-Husseini recebeu massas de convidados de todo o mundo muçulmano.

Já no tempo do rei Hussein da Jordânia, 1994, a cúpula foi recuperada e revestida com uma camada de ouro, usando um processo eletroquímico especial, durante o qual as placas de alumínio banhadas a ouro foram substituídas por cerca de 5.000 novas placas de ouro. O recobrimento da cúpula exigiu cerca de 80 kg de ouro.





Muro das Lamentações



sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Império Mogol




As regiões costeiras do Sul da Índia, onde a autoridade Mogol era apenas parcial ou nunca foi plenamente imposta, foi onde os portugueses encontraram condições para instalarem feitorias a fim de dinamizarem o comércio das especiarias que traficavam para a Europa. Por outro lado, os missionários jesuítas tinham licença para pregar e converter – se bem que os seus esforços parecessem sobretudo dirigidos aos europeus expatriados. As imagens e retratos religiosos introduzidos pelos jesuítas exerceram uma notável influência sobre a arte Mogol.
Em meados do século XVII, a parte mais rica e dinâmica do mundo islâmico encontrava-se sob o domínio do Império Mogol. O coração do império era o crescente fértil do Norte da Índia. Eram as planícies indo-gangéticas que se estendiam de Cabul a Bengala e ao delta do Ganges. O seu centro estratégico era o triângulo de Deli, que dominava a passagem entre os dois grandes sistemas fluviais e o corredor de 200 quilómetros de largura entre os contrafortes dos Himalaias e as terras altas do Decão. A capital, que inicialmente era em Agra, foi mudada para Deli, em 1648. Em bom rigor primeiro para a nova cidade de Shahjahanabad (Velha Deli). Tal feito refletia a colossal riqueza a que os governantes deste império de planícies podiam recorrer. Na década de 1650 esta nova metrópole imperial, com as suas inúmeras casas aristocráticas, agrupadas em torno da corte imperial, era já tão grande como Paris.

A ascensão do poder Mogol fora um fator preponderante na história mundial do início da Idade Moderna. O regime Mogol unificara e pacificara o Norte da Índia. Fomentou o comércio por terra que ia da Índia para a Ásia Central onde passava a Rota da Seda que a levava até mais além. A conquista Mogol de Bengala acelerara a colonização agrícola da selva e dos pântanos. O comércio dos têxteis ia pelo Ganges acima em direção às planícies interiores do Industão

Depois apareceram os portugueses que encetaram um comércio preferencial com este império, a que chamavam "Mogor". Atraíram os comerciantes europeus à grande cidade portuária de Surat, no oeste da Índia, a partir da qual as rotas comerciais seguiam para o Norte e para o Leste, em direção a Deli e Agra.

A perícia de Aquebar foi notável, ao juntar nobres guerreiros muçulmanos da Ásia Central com escribas muçulmanos e letrados do Irão. A junção de guerreiros rajaputras hindus com eruditos brâmanes num sistema político estável favoreceu a expansão económica do império. À medida que as dinastias de latifundiários locais consolidavam o seu domínio, e exploravam a riqueza agrícola, faziam aumentar o consumo de manufaturas e artigos de luxo que incentivavam a construção de cidades e mercados.

Com a sua enorme população - o subcontinente indiano era pelo menos tão populoso como a Europa dessa altura - e ricos terrenos agrícolas com matérias-primas acessíveis, a Índia tornou-se o maior centro de produção de têxteis do mundo, exportando tecidos de algodão para a Europa, Médio Oriente e África. A variedade e qualidade dos algodões indianos a preço barato (segundo uma estimativa da época, os custos de mão de obra indianos correspondiam a um sétimo dos da Europa) conferiam-lhes uma enorme vantagem nos mercados europeus. No final do século XVII a Companhia das Índias Orientais inglesa há muito que desistira da sua antiga obsessão com a compra de especiarias orientais para se concentrar na importação e revenda de têxteis indianos. Bengala começava a transformar-se no principal centro das operações inglesas, e era a mais dinâmica das regiões da Índia.

Embora não existam registos pormenorizados – exceto os mantidos pelos portugueses e pelas companhias holandesas e inglesas – a maior parte do comércio marítimo da Índia com o Médio Oriente (o seu mercado mais importante) ainda assim encontrava-se nas mãos de comerciantes e armadores indianos. Se assim não fosse, bem como a resposta dinâmica dos produtores indianos, as redes cada vez mais densas de comércio marítimo, que os europeus exploravam de modo tão lucrativo, não teriam sido tão dinamizadas como na realidade foram. 

O imperador Aurangzeb e a sua corte abandonaram a cidade de Shahjahanabad e passaram o resto do seu longo reinado (1658-1707) em campanhas errantes intermináveis para controlar os maratas. Aurangzeb conseguiu uma breve vitória em 1690 (Sivaji morrera em 1680). Na Índia ocidental, em 1707,  o poder mogol já não se fazia sentir. O reinado de Aurangzeb passou a ser descrito por historiadores posteriores como o términos da era mogol. Foi o prenúncio de um período negro e de declínio imperial, que viria depois a ser reabilitado pela intervenção britânica a partir de 1765.

Humilhado pelos maratas e desafiado pela ascensão do siquismo no Punjab, o Mogol deixou de ser o que era  com o golpe final da invasão de Nadir Xá, o governante do Irão. Na realidade, a vitória de Nadir Xá, em 1739, foi um caos. O Norte da Índia foi assolada por mercenários maratas, rohillas afegãos, pindaris e quantos pequenos senhores da guerra. Neste ambiente de predação, o comércio e a agricultura entraram em declínio. A falência económica acompanhou a desintegração política. Não admira que todo esse estado de coisas tivesse caído sob o domínio dos ingleses depois de 1765. Mas o revisionismo da História é o que é, e por isso não admira que em anos recentes esta versão simplista da história pré-colonial da Índia tenha sido quase totalmente reescrita. O fim caótico do Império Mogol já não tem de ser nenhum prelúdio do domínio colonial. A conquista da Índia foi um assunto mais complexo do que a queda anunciada de um império demasiado extenso. O início da conquista colonial inglesa marcado pela Batalha de Plassey em 1757 repõe o papel 
desempenhado pelos indianos na construção de novas redes de comércio e novos Estados regionais. Foi isso que ajudou a desencadear as crises que assolaram inesperadamente a região. 

Na verdade, por trás de muitas das mudanças estiveram os efeitos de uma grande expansão no comércio, população e economia rural. A prosperidade urbana e a riqueza crescente da elite rural tornaram os interesses provinciais menos dispostos a aceitar a direção central de Deli. A revolta marata foi um sintoma disso mesmo. A confederação marata tem sido descrita como uma horda predatória que reduziu o Norte da Índia à anarquia. Mas por trás da sua ascensão descobre-se algo mais interessante do que uma aliança de piratas. As conquistas territoriais dos maratas distinguiram-se, não pela terra queimada, mas pelo seu intrincado sistema tributário, cujos registos volumosos estão conservados na atual Pune. Os líderes maratas não visavam a devastação geral mas a integração gradual do território mogol na esfera da sua svarajya (soberania). 

O seu objetivo não era tanto o derrube absoluto do poder mogol como a sua descentralização forçada: daí a ânsia com que procuraram legitimar o seu domínio com a autoridade de concessões e decretos mogóis. O empreendimento marata, sugere um estudo atual, deve ser visto como o esforço de uma emergente aristocracia hindu, com os seus sardars, ou chefes, para partilhar a soberania e receitas mogóis de um modo que refletisse a crescente importância dos novos grupos latifundiários. Noutras partes dos territórios mogóis verifica-se um padrão semelhante, com os subahdars a tentarem enfraquecer o controlo de Deli como parte do seu esforço para gerir as exigências dos magnatas locais. 

A influência marata, baseada num poderio militar formidável, poder-se-ia ter tornado tão generalizada como a dos mogóis. Em vez disso, duas grandes forças desestabilizadoras interagiram para transformar a decadência mogol no prelúdio de uma revolução. A primeira foi o impacto de uma nova série de invasões a partir da Ásia Central, a fonte tradicional de novas hegemonias na Índia. Em 1739, um enorme exército mogol rendeu-se em Karnal, nos arredores de Deli. Disse um embaixador marata: «O Império Chagatai (Mogol) acabou. O Império Iraniano começou». A subsequente conquista de Deli pelo governante iraniano Nadir Xá e das incursões afegãs a seguir destruíram o prestígio mogol e devastou as antigas rotas comerciais entre Bengala e o Norte da Índia. Uma parte vital do coração mogol a oeste do Indo e à volta de Cabul foi arrebatada pela derrota. Noutra batalha, em Panipat, em 1761, os afegãos esmagaram o exército marata e mataram o peshwa, o primeiro-ministro da confederação.

A segunda grande fonte de mudança no subcontinente foi a rápida integração da Índia marítima no comércio internacional. Em Bengala, a rápida conversão de pântanos e florestas em campos de arroz e uma enorme população ativa de fiandeiros e tecelões de algodão (talvez um milhão ou mais) criaram uma economia excecionalmente dinâmica, cujo crescimento foi alimentado pelo influxo de prata com que os europeus pagavam as suas aquisições de algodão e seda. Ao longo da costa do Coromandel, a sul de Madrasta, no atual Tamil Nadu, um padrão semelhante de desenvolvimento agrícola e produção de têxteis criou uma próspera economia mercantil numa região que era também a encruzilhada para o comércio no golfo de Bengala e no oceano Índico. Nesta região, como noutros lugares no litoral da Índia, desenvolvera-se um tipo distintivo de capitalismo mercantil para financiar e gerir a produção, venda e distribuição de têxteis e outras mercadorias.




quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Edmund Husserl





A grande criação de Husserl foi a fenomenologia. Para a fenomenologia o que conta é o aparecimento das coisas à consciência, que depois lhes dá sentido. Descrição, rigor, intuição, evidência – são palavras chave na fenomenologia de Husserl. Tal rigor é um rigor de descrição das aparências, não um rigor de explicação, como aquele que as ciências naturais podem pretender atingir. A finalidade é pensar sobre a objetividade do pensamento humano — a «ciência» — tanto quanto este é expresso publicamente por meio da linguagem.

Em fenomenologia, analisar o pensamento não é, não deve ser, segundo Husserl, fazer psicologia empírica, mas sim fazer uma teoria da significação, saber a que corresponde tal prática. Pretende ser uma ciência da experiência da consciência que lida não com objetos, os atos da consciência em que as coisas se dão ou são experienciadas. É fenómeno o que aparece, sem ter de dizer. É a coisa mesma, ela própria, que aparece à consciência, e não uma representação. A doação originária da coisa é o sentido da consciência. Não que seja a consciência a fazer o mundo existir. Mas a consciência é o começo. O dar-se do mundo é o fundamento da fenomenologia.

A ideia de Husserl parece ser que as coisas elas próprias se dão à consciência e podem ser analisadas na consciência. Fenómeno e sentido são, assim, indissociáveis na fenomenologia. Não é como Kant, não se postula um em-si transcendente, além do fenómeno ou aparecimento. Também não se supõe uma síntese totalizadora racionalista como tinha postulado Hegel. Ao contrário de Kant, com a descrição rigorosa das aparências, Husserl afirma pretender um regresso às coisas mesmas, às coisas tal como estão presentes na consciência. Para Husserl, a consciência é um campo que é sempre acerca de qualquer coisa. Para Husserl não há consciência vazia. O mundo só é mundo dentro do campo da consciência. O conceito de preenchimento é um conceito fundamental da fenomenologia. Não há um vazio, mas uma coexistência em que de forma contínua se ajustam intuição e significação. Compreender a significação passa, por exemplo, de forma crucial, por compreender o que é expressão. Nem todos os sinais exprimem; alguns apenas indicam. Quando há expressão, há a considerar a faceta física e as vivências psíquicas.

Edmund Husserl nasce em 1859, na Morávia, atual Chéquia, então parte do Império dos Habsburgos. Estuda Matemática em Leipzig e Berlim. Doutora-se em Matemática em Viena, em 1883. Entre 1884 e 1886, frequenta os cursos de Filosofia do filósofo e psicólogo alemão Franz Brentano. Com a sua reintrodução do tema da 'intencionalidade', em conjunto com preocupações ontológicas, Brentano terá uma influência decisiva e duradoura no pensamento de Husserl. Exatamente como Brentano, Husserl sente muito pouca simpatia para com as obscuridades «místicas» da filosofia idealista então dominante na Alemanha. Por recomendação de Brentano, trabalha com Carl Stumpf na sua tese de Habilitation (sobre o conceito de número), que conclui em 1887. No mesmo ano, começa a trabalhar como Privatdozent em Halle, ensinando matemática. O seu primeiro livro (de 1891, sobre filosofia da aritmética) desperta a atenção de Frege e provoca uma reação deste: Frege retrata-o de psicologismo. Husserl discorda de Frege e reage. Ou talvez por influência de autores como Hermann Lotze, Bernard Bolzano e Kazimierz Twardowski. E então dedica-se a fundo na sua grande obra e substancial: Investigações Lógicas (1900–1901). Husserl avança uma influentíssima crítica ao psicologismo e a uma filosofia realista da lógica.

Ludwig Wittgenstein





A obra filosófica de Wittgenstein é em parte gerada pelos problemas ligados à análise lógica para compreender como a linguagem e o pensamento se relacionam com o mundo. Após a publicação do Tratado, Wittgenstein acha que não tem mais nada a dizer em filosofia. É o tempo do realismo metafísico do Tratado. O suposto antirrealismo vem depois com as Investigações Filosóficas. O Tratado é uma obra extremamente peculiar sobre lógica e filosofia da lógica. Contudo, não é apenas isso, nem sobretudo isso que preocupa Wittgenstein. Numa carta mais tardia dirigida ao discípulo e amigo americano Norman Malcolm, Wittgenstein pergunta: «Qual é o interesse de estudar filosofia se ela não capacita para falar dos assuntos importantes da vida, mas apenas de assuntos abstrusos da lógica?»

Aquilo que pode ser dito pode ser dito claramente; acerca do que não podemos falar devemos calar. É assim que o Tratado termina com a Proposição 7, e última. Uma injunção ao silêncio. Isto quer dizer, entre outras coisas, que algumas não podem ser ditas, mas apenas mostradas. O mesmo acontece com a lógica, ela própria, como forma da representação. Não pode representar-se a si própria representando. Apenas pode mostrar-se.

Pensar é pensar sobre aquilo que acontece, sobre o conjunto dos factos. Como é isso possível? Responde com a chamada conceção pictórica da linguagem: nós fazemos para nós próprios, pela linguagem lógica, e linguagem comum, imagens ou modelos dos factos. Pensar é isso. A palavra fundamental de Wittgenstein: 'Bild' - Proposição. Uma proposição que não é como um instantâneo de uma imagem fotográfica, ou como uma maqueta de arquiteto, ou como uma imagem no espelho. Ela própria é mundo.

Wittgenstein ofereceu às irmãs a sua herança milionária e deixou a casa de família, o Palácio Wittgenstein em Viena, para ir ensinar crianças como professor primário em lugares perdidos da Áustria rural. Mas em 1926 desiste, e abandona a profissão de professor primário. Tem, contudo, ainda tempo de, com o amigo e arquiteto Paul Engelmann, discípulo do famoso arquiteto vienense Adolf Loos, desenhar uma casa para a irmã Margaret Stonborough-Wittgenstein (a mesma que foi retratada num célebre quadro do pintor Gustav Klimt).

Em 1929 volta a Cambridge para ocupar o lugar de um estranho professor, que em 1930 se torna fellow do Trinity College. Entre 1933 e 1935, dá cursos cujas notas darão origem a duas sebentas: O Livro Azul e O Livro Castanho, ambos publicados apenas postumamente. Trabalha em filosofia da matemática. Em 1935, dá um seminário sobre psicologia filosófica. Em 1938, dá conferências sobre estética, psicologia e religião (que foram publicadas postumamente). Em 1939, sucede a Moore, na cátedra. Em 1942–1943, envolve-se de novo no voluntariado da guerra (é porteiro num hospital, desta vez). Entre 1944 e 1947, ensina em Cambridge. Em 1949, está a trabalhar nas Investigações Filosóficas. Em 1951, acaba Da Certeza e morre nesse mesmo ano. Dos livros de leitura de Wittgenstein encontramos Espinosa, Tolstói, Schopenhauer, Kierkegaard , leituras que não deixaram de parecer muito estranhas aos olhos dos filósofos analíticos que lhe sucederam.


terça-feira, 3 de outubro de 2023

As Batalhas de Dara




                        


As Batalhas de Dara foram uma série de confrontos entre o Império Sassânida e o Império Bizantino numa altura em que ainda existia o Reino da Ibéria, no Cáucaso, que aconteceu em território que hoje faz parte, sensivelmente, da Geórgia.




Enquanto o Império Romano se desintegrava a Ocidente, a Oriente, num território que incluía os Bálcãs, a Grécia, a Ásia Menor, o Egito e a Síria, e com capital em Constantinopla, continuava coeso. Por volta do século VI era raro que um imperador comandasse em pessoa uma campanha, e a sua preocupação em outorgar o comando de seus exércitos a outros era uma indicação da maior segurança pessoal de que gozavam. As atividades dos generais eram observadas de perto em busca do menor sinal de deslealdade. No essencial, o relacionamento entre o imperador e o comandante de campo era muito parecido com a velha tradição do principado romano de Augusto. Os imperadores orientais eram capazes de conduzir ativamente a guerra em mais de um palco ao mesmo tempo.




Em termos de território, o Império Romano do Oriente era mais ou menos equivalente ao ao do Império Sassânida, também chamada Pérsia Sassânida, o seu maior rival. Apesar disso, os bizantinos eram em maior número populacional, e provavelmente mais ricos. Seja como for, os imperadores romanos tratavam o rei persa como um igual, ou mesmo como um “irmão”. Tal disposição fazia contraste marcante com os tempos do Grande Império Romano em que tratava os outros reinos e nações com grande superioridade. 

No século IV d.C. e no início do século V, o exército romano mantinha o potencial de se tornar uma força de combate muito eficiente. Batalhas campais eram mais raras do que tinham sido anteriormente, pois os comandantes preferiam agora derrotar o inimigo por meio de ações cautelosas e manobras, evitando lutar. Apesar disso, quando escolhiam combater, os romanos normalmente venciam, e seus melhores exércitos eram marcadamente superiores aos de todos os seus oponentes. A derrota espetacular de Adrianópolis, em 378 d.C., foi um caso raro. 

Em 505, os romanos começaram a construção de uma nova fortaleza em Dara, a cerca de 23 Km da cidade de Nísibis, controlada pelos persas. Ora, isso foi entendido pelos persas como uma provocação, na sequência de outras iniciativas de construção de novas fortalezas e concentração de tropas perto da fronteira. Dois fortes na fronteira com a Ibéria, em 527, foi razão suficiente para forçar a sua evacuação. Em 528, Belisário recebeu a tarefa de erguer um forte em Mindos, um local que não pode ser identificado com precisão. Não devia ser muito distante de Nísibis, poderia servir para distrair os persas do programa de fortificação que estava em andamento em Dara.

A tensão foi crescendo até que o recomeço da guerra se tornou inevitável. As campanhas nessa área eram baseadas nas fortalezas que permitiam o controlo da região vizinha. As batalhas eram raras, a maior parte dos combates consistiam em incursões, como aquele comandado por Belisário. E as fortalezas forneciam bases seguras a partir das quais os ataques podiam ser lançados. A paz mostrou-se instável, e a tensão aumentou ainda mais quando, no início da década de 520, Cavades começou a impor a religião persa do zoroastrismo aos seus súbditos do reino da Ibéria, no sul do Cáucaso – uma ação possivelmente estimulada mais pela política do que pela convicção, pois temia-se uma deserção para Roma. 

Os habitantes do reino da Ibéria, enquanto cristãos, pediram apoio aos romanos. Cada um dos lados também estimulou os aliados a atacar os seus inimigos. Uma complicação adicional surgiu quando o idoso Cavades, opondo-se ao seu filho mais velho, Kaoses, tentou manobrar para ser sucedido pelo seu filho mais novo, Khusro. Embaixadores persas procuraram o tio de Justiniano, o imperador Justino, e lhe pediram que adotasse Khusro, comprometendo-se, desse modo, a garantir que ele sucedesse a seu pai. Justino e Justiniano exultaram no primeiro momento, até começarem a suspeitar que o objetivo real de Cavades era conseguir que seu filho tivesse direito a reivindicar o trono romano. Sua contraproposta, uma adoção limitada, ao estilo da normalmente feita com a realeza bárbara, o que impossibilitaria a sucessão, foi recebida como um insulto pelos persas. Os temores dos romanos, assim como a proposta original, refletiam as relações muito diferentes que existiam agora entre as duas potências. 

Justiniano também estava concentrado no esforço de reconquista dos territórios perdidos no Mediterrâneo ocidental. E efetivamente recuperou o Norte de África, a Sicília e a Itália, reconquistas levadas a efeito numa série de campanhas. Todavia, tais conquistas não foram duradouras. Belisário havia sido um dos comandantes mais proeminentes dessas operações. Foi então que Belisário teve a oportunidade de mostrar o seu valor na sua primeira experiência como general nas guerras da fronteira oriental. Belisário era membro do grupo de militares que viviam à custa de Justiniano, treinados para servir como oficiais. Ele era de origem germânica, de uma das províncias do Danúbio. Porém, em termos culturais, isso tinha muito poucas implicações. Era muito mais um soldado profissional do que os aristocratas senatoriais dos primeiros tempos. Em 526, Belisário e Sitas, foram colocados no comando de uma força enviada para atacar a região do Império Sassânida que nessa época era conhecida por Arménia Persa. No início as coisas correram bem e os romanos reuniram espólio considerável, mas, pouco depois, ao serem confrontados pelas forças persas, que eram superiores, foram derrotados. 

Estávamos em 530, Belisário apareceu com 25.000 homens. Cavades replicou com mais 10.000 soldados sob comando de Firuz, que estabeleceu o acampamento a cerca de 5 Km de distância em AmódioOs persas estavam extremamente confiantes quando o seu exército avançou e acampou a apenas a alguns quilómetros da posição romana. Os persas, para além da vantagem numérica sobre os romanos, também estavam inflamados pelo facto de haverem derrotado os romanos em todas as grandes batalhas das décadas anteriores. Belisário preparara-se cuidadosamente para a batalha. Ele havia escolhido uma posição a poucas centenas de metros do portão principal das muralhas de Dara. Numa colina à esquerda as tropas romanas fortaleceram a posição principal com uma trincheira. No centro, havia uma vala em cada ponta, e outra vala retornava em 90 graus, unindo-se com outras trincheiras escavadas paralelamente à primeira. Alguns lugares de passagem foram estabelecidos em cada secção, pois seria mais fácil os romanos usá-los do que os persas encontrarem o caminho no calor e na confusão da batalha. Atrás das trincheiras Belisário formou uma linha com toda a sua infantaria e, provavelmente, com uma pequena parte da cavalaria. 

Durante toda a sua carreira, Belisário fez uso frequente da cavalaria, raramente confiando nas unidades de soldados a pé para lutar, exceto em condições muito favoráveis. Em Dara, as suas tropas montadas incluíam mil e duzentos hunos, que combatiam no seu modo tradicional como arqueiros a cavalo, além de trezentos hérulos, um povo do Danúbio que tinha reputação de grande ferocidade. Todos esses grupos se mostrariam altamente eficientes nas lutas que se seguiram. Outro elemento da cavalaria era constituído pelas tropas domésticas de Belisário, ou bucellarii. Esses homens viviam à custa do seu comandante, e o nome derivava do biscoito duro que recebiam. Não está claro quantos deles Belisário comandou em Dara. E os bucellarii eram especialmente treinados como tropa de elite.

Os persas atacaram a linha bizantina e as tropas do centro começaram a retirar. Depois acudiu a força oculta de Belisário, bem como o flanco direito dos hunos. Desta vez foram os persas a retirar. Firuz enviou os «Imortais», as suas tropas de elite, contra a cavalaria bizantina. E os bizantinos foram derrotados. Então Belisário contra-atacou e dividiu as tropas persas em duas. A que perseguia a cavalaria, e a outra metade de 5.000 homens, ambas foram aniquiladas. Entre eles estava Baresmanes. A cavalaria recuperou e obrigou a fuga dos seus perseguidores. Belisário permitiu uma perseguição de alguns quilómetros, mas deixou escapar a maioria dos sobreviventes persas.

Entre 540 e 544, Dara foi atacada novamente pelo Império Sassânida, desta vez sob comando de Cosroes I. Mas em nenhuma destas tentativas foi capaz de a capturar aos bizantinos. Mais tarde, no entanto, em 573, Cosroes conseguiu levar a bom porto a captura de Dara. Enquanto isso, os persas puderam adentrar-se ainda mais no império, mas Cosroes faleceu em 579. O imperador Maurício derrotou os persas em Dara em 586, e recapturou a fortificação. Mas os persas voltaram a derrotar os bizantinos em 604, sob o reinado de Cosroes II. Neste caso, os persas destruíram a cidade, mas os bizantinos reconstruíram-na em 628. Em 639 foi capturada pelos árabes, e manteve-se em seu poder até 942, quando foi saqueada pelos bizantinos. E voltou a ser saqueada pelos bizantinos em 958, durante o reinado de João I Tzimisces. Mas nunca mais lhe pertenceu.



segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Os navegadores fenícios e cartagineses no Atlântico



Pode-se descrever a Europa como uma península de penínsulas da Eurásia, rodeada pelo Atlântico Norte e seus braços – o Mediterrâneo; o Báltico, o Mar do Norte; o canal da Mancha; e o mar da Irlanda. Não admira, portanto, que os europeus tivessem desenvolvido um denso sistema de comunicações marítimas. 

Os fenícios, que viviam na costa libanesa do Mediterrâneo, não dispunham de muita terra para a agricultura, pelo que empurrados por Assírios ou Persas não tiveram outro remédio que atirarem-se ao mar. Acresce que no chamado período escuro da Antiguidade surgiram os chamados Povos do Mar que invadiram toda a costa leste do Mediterrâneo, que proporcionaram o comércio marítimo com os fenícios. A entrada em águas desconhecidas não se fez sem grandes riscos. Ainda assim, pelo menos desde meados do século VII a.C., que se regista a presença fenícia no Atlântico. Os fenícios estiveram em diversas praias, não apenas nas costas continentais, mas também nas ilhas da Madeira e Canárias. Muito provavelmente também exploraram mais a oeste os Açores e Cabo Verde, embora sem confirmação. É através de um conjunto de escritos, mais literários do que históricos, que podemos conjeturar a força e o arrojo dos antigos navegadores. São autores como Avieno (“Ora Marítima), Estrabão, Diodorus Siculus, Heródoto e Platão que nos dão aso a muita imaginação.

Atraídos pelas minas de estanho, os fenícios seguiram rumo ao norte num arco que vai de Cádis até à Irlanda. Estabeleciam contacto com populações nativas, recebiam destas a matéria-prima que buscavam e em troca ofereciam produtos da própria manufatura. O comércio provocou mudanças nas comunidades indígenas cujos vestígios são hoje interpretados pela arqueologia. Tartesso ou Tartéssios é uma das referências. Na Idade do Bronze, essa foi a maior e mais famosa cultura diante da demanda das civilizações mediterrânicas por estanho. Os tartéssios estabeleceram contactos comerciais ao longo de toda a costa europeia do Atlântico, desde a Andaluzia até às Ilhas Britânicas. Metais oriundos da Inglaterra, de Gales, da Cornualha e mesmo da Irlanda eram transportados até ao sul da Espanha. O que indica a existência de rotas comerciais bem estabelecidas. Por volta do século VI a.C., os fenícios instalaram-se em Cádis. 

É nesse contexto que se insere a narrativa sobre Himilcão, um navegador cartaginês, que entre outros feitos, é narrada a expedição até às ilhas do estanho: as Estriminidas:
Daqui até à ilha Sagrada [a Irlanda, assim chamada pelos antigos], um navio tem um caminho de dois sóis. Essa ilha descortina em meio às ondas um amplo território e é habitada, em sua largura e em seu comprimento, pela raça dos hiernos. Próximo se estende a ilha de Álbion [a Inglaterra] e os tartéssios se acostumaram também a comerciar até aos confins das Estriminidas. Mesmo colonos de Cartago e o povo que vive entre as Colunas de Hércules se aproximavam desses mares, sobre os quais o cartaginês Himilcão afirmou poderem ser atravessados em apenas quatro meses, segundo disse em seu relato haver confirmado mediante navegação.

Himilcão
 descreveu uma jornada longa, de quatro meses, cheia de perigos — calmarias, algas em quantidade, monstros marinhos (cetáceos, possivelmente) que acompanhavam os barcos, nevoeiros. Mas não fora o primeiro a singrar as águas do Atlântico Norte, tampouco foi o último. Até seus concorrentes mais aguerridos, os gregos, descobriram as rotas marítimas e mesmo quando Cartago fechou as Colunas de Hércules à passagem de naves de outros Estados, o Atlântico passou a ser atingido através de rotas terrestres.

Píteas destaca-se entre os vários gregos que navegaram as águas gélidas do norte. Seu périplo era por vezes tão fantástico que Estrabão, embora o cite com frequência, o faz desacreditando-o, ao afirmar que o navegador já enganara muitos com suas descrições absurdas. A despeito da opinião do geógrafo, o relato de Píteas é o mais antigo a retratar o extremo Norte Atlântico. Esse navegador grego, por volta do século IV a.C., sulcou as águas relativamente conhecidas das costas britânicas e seguiu para o norte, chegando a uma terra chamada Thule. Sobre Thule, escreve Estrabão: «Nossa informação histórica é ainda bastante imprecisa graças à sua localização longínqua, pois Thule, de todos os países conhecidos, é aquele situado mais ao norte.» Píteas foi o primeiro a descrever essa região tão afastada e a partir do seu texto já se tentou descobrir exatamente a que terra ele se referiu: seriam as ilhas Órcadas, ao norte da Escócia? Talvez a Islândia ou, alguns afirmam, a Gronelândia mesmo. Tal identificação é praticamente impossível. Então podemos afirmar que Píteas navegou por entre os mares gélidos do Atlântico Norte.

Mais para o sul, margeando as costas, fenícios e principalmente cartagineses fizeram a primeira exploração da África pelo Atlântico, que se tenha conhecimento. Suas colónias tinham início na atual Tânger, Marrocos, e seguiam até aproximadamente o nível das ilhas Canárias, com uma economia baseada na exploração das águas oceânicas, em especial a pesca e a tintura de púrpura.

Heródoto narra uma dessas viagens, que, pela sua extensão e complexidade, desafia os limites da plausibilidade. 
Heródoto visitou o Egito “por volta de 450 a.C., apenas um século depois dos eventos do fim da XXVI Dinastia”, e o monarca referido no texto, Necau, reinou entre 610 e 595 a.C. Essa dinastia, chamada saíta, foi marcada, entre outras coisas, pela ampliação do comércio marítimo, maioritariamente tocado por marinheiros gregos contratados. Logo, o financiamento estatal para uma expedição naval não seria algo absurdo nesses tempos.
A Líbia mostra ser envolvida pelo mar, exceto do lado em que confina com a Ásia. Necao, rei do Egito, foi o primeiro, ao que sabemos, a provar isso. Escolheu experimentados navegadores fenícios e, embarcando-os em seus navios no mar da Eritreia, navegaram pelo mar Austral. Depois de dois anos de navegação dobraram as Colunas de Hércules. Contaram, ao chegar, que navegando em torno da Líbia tinham o sol à sua direita, o que não me parece crível.
Algumas questões, porém, emergem: poderiam navios fenícios circum-navegar a África? Heródoto descreve uma longa viagem, de três anos, que, em sentido horário, teria começado no mar Vermelho (mar da Eritreia), seguido pelas margens do oceano Índico (mar Austral), contornado o cabo da Boa Esperança, bordejado todo o litoral Atlântico da África para, enfim, retornar pelas Colunas de Hércules ao Mediterrâneo. A tecnologia náutica disponível à época seria suficiente para tal empreendimento? Normalmente se considera que não, pois os navios fenícias e gregas não eram projetados para tamanhas jornadas. Além disso, qual o interesse de um monarca egípcio em descobrir essa passagem austral, já que o comércio de seu reino se dava em águas bem mais ao norte? Apesar de todas essas dúvidas, esse pequeno trecho contém narrativas que alimentam a crença em sua veracidade. Seja como for, parece que as informações sobre a forma do continente africano corresponde à verdade, pois, quando Heródoto relata que a “Líbia mostra ser envolvida pelo mar, exceto do lado em que confina com a Ásia”, descreve corretamente a configuração física da África, algo que só poderia ser obtido por meio da circum-navegação.

Outro dado notável se refere à posição do sol. Conquanto afirmasse descrença naquilo que ouvira, Heródoto registou que os navegadores fenícios, ao contornar a Líbia seguindo na direção oeste, tiveram o sol à sua direita, posição exata na qual se encontra o astro no contorno do cabo da Boa Esperança, ponta mais austral da África. Tal informação requer conhecimento empírico que só pode ser adquirido em tal viagem. Embora não seja comprovável (não há senão referências literárias ao feito, semelhantes a essa), há a possibilidade de os fenícios terem sido os primeiros a circum-navegar a África.

Um dos registos de viagens atlânticas mais fascinante que sobreviveram é o Périplo de Hano, empreendido por volta de 500 a.C. As fontes para o conhecimento dessa expedição são fragmentadas: imortalizada em placas expostas num templo em Cartago, foi posteriormente citada por autores gregos e latinos em seus textos sobre geografia e história. A narrativa afirma que Hano (referido no texto como “rei de Cartago”) seguiu para o Ocidente sob ordem do Senado cartaginês. Os cartagineses decidiram que Hano deveria ir além das Colunas e fundar cidades cartaginesas. Após a passagem pelas Colunas de Hércules e navegando por dois dias eles fundaram a primeira cidade, a qual foi chamada Thymiaterion. À sua volta uma grande planície. Em seguida, viajando em direção oeste, alcançaram o promontório líbio de Soloeis, o qual era coberto de árvores, e, após erigir um altar a Posídon, navegaram novamente em direção ao sol nascente por um dia, quando então chegaram a uma lagoa próxima do oceano coberta com canas altas, as quais alimentavam elefantes e um grande número de outros animais.

Embora haja certa controvérsia em relação a alguns percursos, parece ser a descrição plausível de uma exploração das margens atlânticas. Destaca-se dentre essas cidades Arambys, posteriormente chamada pelos exploradores portugueses de Mogador, centro produtor e exportador da púrpura, tintura de cor arroxeada obtida a partir de gastrópodes pescados no oceano. A expedição avança em direção a sul e descreve diversas populações nativas: os líxios, possivelmente berberes, com os quais estabeleceram boas relações e serviram de intérpretes: os etíopes. Mais alguns dias de viagem, chegaram a um largo rio chamado Chretes, cheio de hipopótamos e crocodilos — localidade normalmente identificada com o rio Senegal. A expedição de Hano pode ter atingido o golfo da Guiné e navegado até Camarões, as ilhas de Bioko (Guiné Equatorial) e São Tomé e Príncipe.

As aventuras de Hano foram adaptadas ao padrão helénico de redação e incorporaram o já conhecido conceito do maravilhoso. Basta ler o Crítias de Platão. A narrativa da expedição de Hano oferece uma antropologia das populações litorâneas africanas e também nesse trecho podemos perceber a presença dos padrões de barbarismo geográfico. A primeira população contatada pela expedição foram os líxios. Bárbaros, sim, mas tão amigáveis que se engajaram na empreitada. Sobre essa gente, diz-se que apascentava seus rebanhos, imagem bem familiar ao público helénico, quando da chegada da expedição. Mais ao sul ficam os etíopes, nome genérico grego para pessoas de cor de pele mais escura. Esses bárbaros, mais afastados, já não são amigáveis como os líxios. Dadas as parcas informações que chegavam dessa parte do mundo, os helenos preencheram os vãos do conhecimento com mitos e preconceitos. A exploração antiga do oceano Atlântico margeou as costas europeia e africana. Quando muito, atingiu as ilhas mais próximas. Não há qualquer vestígio de travessias até às Américas.


domingo, 1 de outubro de 2023

Entre marinheiros e navegadores - Os Portugueses


É só depois de Tamerlão, [1336 - 1405] que Veneza, Génova, Ragusa e Aragão no Mediterrâneo . Portugal, Dinamarca, Noruega, a Liga Hanseática, Inglaterra e Holanda emergem como potências marítimas. Pescadores e marinheiros transformam-se em navegadores empreendedores de comércio lucrativo entre o Atlântico e o Pacífico. Sem excluir os piratas, ou corsários, conforme lhes quisermos chamar, a quem os comerciantes recorriam quando os seus rivais usavam a força para os excluir do comércio.

Não foi por acaso que a cartografia e os instrumentos de navegação se revelaram as principais áreas em que a experiência científica mais depressa se traduziu em práticas técnicas. O mapa-múndi de Ptolomeu tinha acabado de ser substituído na Europa pelo mapa muito mais correto de Abraham Ortelius, baseado nos relatos de viajantes de marinheiros europeus. No início do século XV começa a aparecer uma enorme quantidade de informação sobre a Ásia com a moda da literatura de viagens, que tinha sido encetada por Marco Polo. Relatos sérios, científicos ou simplesmente sensacionalistas, estavam na moda.

Eurásia continuou dividida entre os três mundos civilizados, enquanto o mundo budista e hindu aparentava estar adormecido. De vez em quando, evidentemente, o encontro de culturas produzia um conflito de sentimentos. No seu conjunto de regiões interiores acessíveis, variedade ecológica e densidade populacional, a Europa estava mais bem dotada do que a região marítima do oceano Índico ocidental que ligava a África Oriental, o golfo Pérsico, o Oeste da Índia, a Indonésia e a Indochina. 

Por outro lado, até ao século XV, durante quase quatro séculos e meio, desde a consolidação do Império dos Song, a China era a maior potência marítima do mundo, que por razões ainda muito controversas se extinguiu de moto próprio no fim da dinastia Ming. As embarcações utilizadas por Zheng He nas suas grandes viagens até à costa oriental de África eram nessa altura as mais avançadas do mundo. Mas em 1411 ficou concluído o Grande Canal, infraestrutura fluvial que vinha sendo desenvolvida desde o século V a.C. Assim ligava Pequim e Tientsin a Hang Zhou, bordejando os ricos campos de arroz do Yangtzé, um investimento que acabou por ser considerado mais vantajoso que o investimento na navegação marítima. Fosse qual fosse a justificação, 1436 marca o ano em que foi construída pela última vez uma embarcação marítima. Assim se iniciou um período de fechamento da China aos países ocidentais. Em 1421 os Ming já tinham mudado a capital de Nanquim para Pequim.



Maquete que reproduz a relação entre a dimensão de uma embarcação de Zheng He e uma embarcação de Cristóvão Colombo
O caso mais notável foi o Estado Português na Índia. Neste caso, como noutros, a Época dos Descobrimentos na Eurásia ocasionara maior contacto físico mas não um encontro de culturas. A história curiosa do "dente do Buda" mostrou como o clima podia mudar rapidamente da indiferença descontraída para o fervor religioso. Em 1560, o vice-rei de Goa liderou uma incursão contra o reino budista de Jafna (atual Sri Lanka). Entre os despojos (descobriram mais tarde) estava uma das relíquias mais sagradas do mundo budista, o dente de BudaO rei da Birmânia fez uma oferta enorme para a sua devolução em segurança, e o vice-rei aceitou. 

Mas antes que o acordo fosse concluído a Inquisição interveio. A Inquisição em Goa era um organismo muito poderoso, que travava uma guerra constante contra a superstição e heresia de não cristãos. O vice-rei foi obrigado a ceder e o dente foi moído e queimado. 

No século XVI era já bastante evidente que a vantagem comparativa da Europa sobre as outras civilizações eurasiáticas consistia no seu desenvolvimento precoce da atividade marítima. A expansão simultânea do comércio de longa distância com as Américas e a Índia era um sinal disso mesmo. Outro era o aumento enorme da pesca de bacalhau no Atlântico Norte, que nos anos 70 do século XVI já mobilizava cerca de 350 navios (espanhóis, franceses, portugueses e ingleses). Os marinheiros europeus eram especialmente hábeis no uso da força no mar. 

No início do século XVII, os europeus estavam prontos para afirmar o seu predomínio mundial no comércio e transporte de alto mar, ocupando (com muita disputa interna) um nicho lucrativo no comércio de longa distância. No entanto, com a notável exceção das suas conquistas americanas, existiam poucos indícios de que poderiam avançar além das testas de praia onde essa atividade de nicho normalmente se desenvolvia. Ou que os costumes e o espírito desses povos do mar expatriados exercessem qualquer influência especial sobre as outras sociedades eurasiáticas com as quais eles entravam em contacto. Só na estepe fronteiriça da Rússia (em circunstâncias algo especiais) é que os europeus se haviam expandido com êxito para o coração de outra sociedade eurasiática. No Sudeste da Europa, pelo contrário, a vantagem apontava noutro sentido. Restava saber se na Época do Comércio, que se seguiu, as coisas seriam diferentes.

sábado, 30 de setembro de 2023

A geopolítica euroasiática no tempo da guerra dos 7 anos [1756 - 1763]


A Guerra dos Sete Anos, entre 1756 e 1763, uma série de conflitos internacionais, esmagou a primazia francesa, mas substituiu-a por um vazio que acabou por desencadear uma explosão geopolítica. De um lado – França + Império Austro-Húngaro e seus aliados (Saxónia, Império Russo, Império Sueco e Espanha); e do outro lado – Inglaterra + Portugal + Prússia + Eleitorado de Hanôver. Em Versalhes/Paris governava Luís XIV. Em Viena, a monarquia Habsburgo era governada por Maria Teresa. Na Prússia era rei Frederico II, o Grande.




A fronteira entre as potências europeias e o Império Otomano tinha recuado e avançado várias vezes desde os primeiros anos do século XVIII. No entanto, embora os otomanos tivessem sido obrigados a recuar desde a sua última grande invasão da Europa, na década de 1680, já tinham recuperado território perdido antes da década de 1730 e estabilizado a sua defesa contra o avanço da Áustria
nos Balcãs.
No Norte, onde enfrentavam a expansão endémica da Rússia, os acessos ao mar Negro – ainda um lago otomano e o escudo estratégico das suas províncias do Norte – continuavam sob controlo dos seus vassalos no Canato da Crimeia. Nas costas do Norte de África e do Levante, as potências marítimas europeias mostravam pouca vontade (ou não tinham meios) para perturbar a supremacia otomana que aí ainda subsistia. Mais a leste, em redor do mar Cáspio, as movimentações russas em direção ao sul a partir do delta do Volga tinham feito poucos progressos, apesar da existência de um tráfico comercial dinâmico que ligava as cidades russas ao Irão, à Ásia Central e ao Norte da Índia.

A década de 1740 foi um período turbulento na Índia, marcada por invasões iranianas, afegãs e maratas que atingiram o coração do Império Mogol. E ao mesmo tempo, antigos tributários do litoral – sobretudo Bengala – reclamavam maior autonomia. As companhias concessionárias dos britânicos, holandeses e franceses tinham fortalezas e feitorias espalhadas pelas costas do Sul da Ásia, e tinham entrado em conflito umas com as outras. Mesmo assim teria sido absurdo prever em 1750 que a luta por um império nas planícies do Norte da Índia terminaria com o triunfo de um imperialismo europeu e não asiático. No maior império de todos, onde mandava a dinastia Qing, o perigo de uma convulsão geoestratégica parecia pouco provável. A dinastia Qing estava a preparar a destruição final do poder militar nómada nas estepes da Ásia Interior, que era a maior ameaça de sempre à ordem na Ásia Oriental. Sinkiang, ou Turquestão Oriental, foi conquistado no final da década de 1740. O Império Celestial tornar-se-ia ainda mais impermeável à perturbação do exterior, e menos disposto a fazer quaisquer cedências a visitantes importunos batendo à sua porta marítima. Pelo menos era o que parecia na altura.

A maioria dos Estados europeus era instintivamente expansionista. Numa época pré-industrial, o poder equivalia à posse de território e à população que este continha, ou a um monopólio comercial sobre produtos tropicais, com a sua promessa fulgurante de um excedente de metais preciosos. A ambição dinástica e a desconfiança recíproca faziam aumentar a bitola territorial. Na Europa Ocidental, os conflitos entre a França, a Espanha, a Grã-Bretanha e a Holanda durante o século XVII tinham girado em torno da questão de se saber se seria a Grã-Bretanha ou a França a potência dominante efetiva no acesso marítimo aos prolongamentos atlânticos da Europa na América do Norte e do Sul.

No Leste europeu havia a disputa de quatro estados soberanos: Rússia; Áustria; Polónia; Império Otomano. A impressão da fraqueza polaca e otomana aguçava a sede de territórios por parte da Áustria e Rússia. Mas, apesar de a França ter visto negada a sua hegemonia absoluta no reinado de Luís XIV, continuava a ser o árbitro da diplomacia europeia. Tinha a maior população, a maior receita pública e o exército mais forte de toda a Europa. Juntamente com um grande prestígio cultural, um comércio bem desenvolvido, uma marinha de guerra impressionante e o aparelho de diplomacia e serviços secretos mais sofisticado, esses factos constituíam uma combinação aparentemente imbatível. Mesmo que não conseguisse dominar a Europa, a França podia esperar regular os assuntos do continente de formas que garantissem a sua própria preeminência.

A França apoiou uma fação na Polónia para conter o incipiente domínio da Rússia e as ambições dos czares Romanov na Europa. Aliou-se à Prússia para manter a pressão sobre a Áustria, e ao Império Otomano para impedir a expansão não só da Áustria, mas também da Rússia. A França dispunha da Espanha, por via da aliança Bourbon, para a defesa do status quo no Mediterrâneo que incluía a Itália. E assim, a armada francesa juntamente com a espanhola também fazia frente à armada britânica. E isso também serviam para limitar as expectativas marítimas da Grã-Bretanha na bacia do Atlântico.

Em meados da década de 1750 a precária estabilidade que o domínio francês sustentava começou a desfazer-se. A força destrutiva era o poder crescente da Grã-Bretanha e da Rússia, numa altura em que o poderio militar francês atingira o seu limite prático sob o antigo regime. A Rússia já não podia ser excluída da Europa; enquanto o poder financeiro da Grã-Bretanha era então suficiente para custear uma marinha vencedora, dois exércitos americanos e os apoios necessários aos seus aliados na Europa. O resultado foi uma guerra continental e marítima que vergou a diplomacia Bourbon.

A desintegração política da Polónia, uma vasta e mal organizada república aristocrata que se estendia do Báltico ao mar Negro, foi um problema para a França. A Polónia era essencial para a diplomacia francesa no Leste da Europa. A sua sobrevivência limitava o domínio da Prússia e aumentava a sua dependência da boa vontade da França. Mas a partir de 1750 os reis eleitos da Polónia eram já fantoches da Rússia.

Numa espantosa inversão de antagonismo histórico, as monarquias Bourbon e Habsburgo resolveram as suas divergências e uniram esforços para reprimir uma Prússia insurgente. A aliança franco/austríaca juntou os dois Estados mais poderosos da Europa. Mas há sempre surpresas nestas coisas, através de uma resistência tenaz, e de uma série de vitórias extraordinárias, Frederico II, o Grande, humilhou os seus poderosos inimigos. A burocracia militarista que criara revelou-se um adversário à altura de uma França distante e de uma Áustria mal organizada. Frederico II não podia vencer completamente. Mas com o auxílio financeiro britânico e com os danos que os britânicos estavam a infligir aos interesses atlânticos da França, ele resistiu o tempo suficiente para levar os seus inimigos à mesa das conversações. 

Um novo czar fascinado com Frederico desistiu da guerra contra a Prússia. A paz que se seguiu em 1763 foi na verdade uma trégua de esgotamento. Os franceses foram expulsos do continente americano, mantendo as suas ilhas caribenhas, ricas em açúcar, e a sua plataforma de pesca na Terra Nova, nas ilhas de S. Pierre e Miquelon. Luisiana foi cedida à Espanha, que perdeu a Florida para a Grã-Bretanha. Mas a verdadeira decisão do Tratado de Paris foi que a França deixaria de ser o árbitro da Europa. O sistema francês fora quebrado. Os trinta anos seguintes assistiram à demolição progressiva do antigo equilíbrio geopolítico na Eurásia e no Mundo Exterior. A expansão dos britânicos já não podia ser travada.