domingo, 10 de novembro de 2024

A propósito da integração de migrantes na Europa



Manifestações proibidas durante três dias, a partir de sexta-feira, na sequência dos ataques aos adeptos do Maccabi Telavive que se deslocaram a Amesterdão para ver o encontro do seu clube contra o Ajax, para a Liga Europa. Os adeptos do Maccabi foram "atacados", e a polícia de choque teve de intervir para protegê-los e escoltá-los para hotéis. A autarca diz que os distúrbios fazem lembrar os pogroms da história contra os judeus. A polícia neerlandesa informou que cinco pessoas foram hospitalizadas e 62 foram detidas depois de os atacantes terem "visado sistematicamente os adeptos israelitas". Os adeptos do Maccabi, por sua vez, atacaram um táxi e incendiaram uma bandeira palestiniana na quarta-feira, um dia antes dos ataques generalizados contra israelitas.

Vídeos divulgados nas redes sociais mostram os adeptos do Maccabi a entoar cânticos racistas contra muçulmanos. Outros subiram a um edifício para retirar uma bandeira palestiniana. A autarca de Amesterdão diz que não há desculpa para o que considera serem atos criminosos que ameaçaram a vida e cultura judaicas. Uma avaliação de risco efetuada no mês passado não tinha detetado qualquer ameaça concreta. O rei dos Países Baixos, Willem-Alexander, estabeleceu uma ligação entre o Holocausto e a violência de quinta-feira à noite, dizendo que o país "falhou com a comunidade judaica". Em março, a inauguração de um novo museu do Holocausto em Amesterdão levou a manifestações pró-palestinianas em toda a cidade.

Aquilo que o analista John Robb havia dito há tempos – quando Merkel sob o elogio da esquerda acolheu mais de um milhão de migrantes: "A Alemanha acabou de lixar a Europa" – ressoou com muitas preocupações na época e continua a ser discutida. O gesto de Merkel foi amplamente elogiado pela esquerda e por setores humanitários como um exemplo de liderança moral e solidariedade num momento de crise global, especialmente diante da guerra na Síria e outras situações de instabilidade.

No entanto, como Robb e outros analistas apontaram, essa decisão trouxe implicações complexas e multifacetadas para a Europa. Entre os efeitos percebidos, houve um aumento na polarização política, com o fortalecimento de movimentos de extrema-direita e partidos nacionalistas que capitalizaram as preocupações com a integração de grandes números de migrantes. Questões de segurança, identidade cultural e a sobrecarga dos sistemas sociais e económicos em alguns países europeus alimentaram uma narrativa de insatisfação que muitos argumentam ter contribuído para mudanças no equilíbrio político, como o Brexit e a ascensão de líderes populistas. Um divisor de águas que desestabilizou politicamente a Europa, criando divisões profundas e uma reação que ainda molda o cenário político do continente.

A verdade é que a maioria são ainda jovens, desintegrados da cultura europeia, com a memória ainda fresca da violência nis seus países de origem, que não têm nada a perder. A sua fidelidade tribal desafia o Estado do acolhimento cuja cultura lhe é hostil. A integração de grandes contingentes de migrantes jovens acabados de chegar à Europa afigurava-se, sem dúvida, de uma envergadura titânica. Muitos desses indivíduos vinham de contextos onde a violência, a instabilidade política e a precariedade social marcava profundamente as suas vidas. Essa realidade dificulta naturalmente a adaptação ao ambiente europeu, que tem suas próprias normas culturais, sociais e legais, muitas vezes distintas das experiências e valores que esses jovens trazem consigo.

A sensação de desintegração e a dificuldade em se conectar com a sociedade de acolhimento podem levar alguns a se voltarem para formas alternativas de pertencimento, como redes comunitárias de base étnica ou tribal. Isso é reforçado pela existência de enclaves culturais onde a integração plena com os valores europeus é limitada, criando uma tensão entre as expectativas dos estados acolhedores e as realidades das comunidades migrantes. Além disso, a juventude de muitos desses migrantes pode significar uma predisposição a desafios específicos, como a busca por identidade e sentido em um ambiente que pode parecer hostil ou indiferente às suas necessidades.

É verdade que, em situações onde o sentimento de pertença ao estado acolhedor é fraco, a lealdade pode se voltar para formas mais imediatas e familiares de conexão, como a tribo, a família ou grupos com os quais compartilham experiências. É claro que muitos se esforçam e conseguem integrar-se, contribuindo para a sociedade e buscando construir uma vida estável e pacífica. A questão central para os estados europeus é encontrar maneiras eficazes de promover a integração, oferecendo oportunidades reais de participação social e económica, enquanto abordam os desafios de segurança e coesão social que possam surgir.

Manifestações de rua



A banalização das manifestações de rua promovidas pela esquerda nos finais do século XX e inícios do século XXI, acabou por se transformar numa armadilha contra si própria agora que o pêndulo virou para a extrema-direita com insurreições de acesso aberto. Quando manifestações se tornam recorrentes e perdem um foco claro ou um impacto efetivo acabam por minar a percepção da sua legitimidade e autenticidade. Com a viragem do pêndulo político para a extrema-direita, as insurreições de acesso aberto podem valer-se dessa normalização e, paradoxalmente, inverter a narrativa: o uso de protestos massivos e disruptivos como forma de ação política, antes associado à esquerda, passa a ser instrumentalizado por grupos que antes os criticavam.

Essas manifestações de direita geralmente surgem com um forte apelo emocional e um discurso de reação contra as instituições estabelecidas, sendo vistas por alguns como uma "recuperação" do espaço público e uma resposta aos avanços percebidos da esquerda. Contudo, essa transformação também traz riscos, pois as insurreições de acesso aberto podem ser menos controláveis e mais suscetíveis a radicalizações e violência, o que levanta questões sobre a estabilidade social e o papel do Estado na manutenção da ordem democrática.

 


Durante o protesto em que cerca de 130 mil pessoas exigiam a demissão de Carlos Mazón, presidente do governo da região, pelo atraso na resposta à tempestade DANA, viveram-se momentos de tensão, quando alguns manifestantes lançaram foguetes e lama contra a porta da Câmara Municipal de Valência. De acordo com vários meios de comunicação, as unidades anti-motim da polícia tiveram de intervir quando vários manifestantes tentaram incendiar um dos portões da Câmara Municipal de Valência. O jornal ABC afirma também que manifestantes atiraram latas de tinta vermelha contra a polícia.

A manifestação tem como participantes umas 40 organizações sociais e cívicas, além de sindicatos, e a porta-voz da comissão organizadora, Anna Oliver, explicou ao “El País” que o objetivo é “exigir responsabilidades, informação verídica e meios para as vítimas”, além de “denunciar a ignomínia do Governo valenciano que não avisou e que, com essa falta de previsão, provocou vítimas mortais”. A manifestação começou pelas seis da tarde e os incidentes terão aconteido umas três horas depois. Depois do ocorrido, a presidente da Câmara Municipal de Valência, María José Catalá, criticou os manifestantes que deixaram a fachada do edifício grafitada, com vidros partidos pelo arremesso de objetos e uma das portas em mau estado devido ao fogo de um dos foguetes.

sábado, 9 de novembro de 2024

A Globalização e as suas consequências



Com a globalização a desindustrialização e a deslocalização da indústria teve um efeito benéfico para o povo da Ásia, mas catastrófico para muitas regiões da América e da Europa. Especialmente no que diz respeito ao crescimento económico, redução da pobreza e modernização industrial, nações como China, Índia e outros países do Sudeste Asiático tornaram-se potências manufatureiras, impulsionadas pela transferência de indústrias e empregos do Ocidente.

Por outro lado, regiões da América e da Europa sofreram com os efeitos da desindustrialização e da deslocalização industrial. Muitos empregos industriais, que antes eram a base económica dessas áreas, desapareceram, levando a desemprego, decadência urbana e enfraquecimento de economias locais. Cidades industriais nos EUA e em partes da Europa tornaram-se "cidades-fantasma", com infraestrutura deteriorada e uma população cada vez mais ressentida com o sistema económico global. Além do impacto económico, esses processos também geraram divisões sociais, políticas e culturais. No Ocidente, muitos atribuem à globalização e à transferência de empregos para o exterior o aumento da desigualdade e o enfraquecimento da classe trabalhadora, o que, por sua vez, tem alimentado o crescimento de movimentos populistas e nacionalistas que se opõem a essas dinâmicas globais. A tensão entre o desenvolvimento económico do Sul global e o declínio industrial do Ocidente é uma das grandes contradições da globalização, mostrando os limites e os desequilíbrios desse modelo.

Como não há almoços grátis, é certo que os consumidores ocidentais tiveram a ilusão das coisas em excesso baratas, mas já o estão a pagar com o efeito climático e a decadência. Os consumidores ocidentais beneficiaram de produtos mais baratos, mas agora enfrentam as consequências mais amplas desse sistema. Durante décadas, a transferência da produção para países com mão de obra mais barata permitiu aos ocidentais consumir uma variedade imensa de bens a preços muito acessíveis. No entanto, os custos ocultos dessa globalização estão-se tornando evidentes.

A deslocalização industrial para países asiáticos, por exemplo, contribuiu para uma explosão nas emissões de carbono devido à produção em larga escala, com regulamentos ambientais muitas vezes mais frouxos. Essas emissões, associadas ao transporte global intensivo de mercadorias, aceleraram a mudança climática. Agora, tanto o Ocidente como o Sul global estão a pagar um preço alto, com desastres naturais mais frequentes, crises climáticas e colapsos ecológicos. Além disso, a decadência das regiões industriais no Ocidente gerou não só declínio económico, mas também uma crise social. Com o desemprego elevado, o desaparecimento de empregos bem remunerados e o aumento da desigualdade, muitas comunidades nos EUA e na Europa enfrentaram a desintegração de seu tecido social. Há um aumento na dependência de serviços sociais, na desesperança e no ressentimento em relação às elites e ao sistema político que permitiu essa transformação.

Os consumidores ocidentais podem ter usufruído de um período de abundância barata, mas estão agora a pagar o preço com a degradação climática, o declínio social e a instabilidade política. A globalização trouxe benefícios visíveis, mas seus custos ocultos agora estão a revelar-se de forma dramática. Por aqui se vê que a segunda lei da termodinâmica é verdadeira e que a entropia é implacável.

A analogia com a segunda lei da termodinâmica e o conceito de entropia aplica-se de maneira estrondosa. Na física, a segunda lei afirma que a entropia — ou o grau de desordem em um sistema fechado — tende a aumentar ao longo do tempo. De forma semelhante, na economia e nas dinâmicas sociais, podemos perceber como os sistemas globais, ao buscar maximizar a eficiência (redução de custos, aumento da produção), acabam gerando desordem em outras áreas. O desenvolvimento económico e industrial movido pela globalização pode ser visto como uma tentativa de gerar ordem e progresso em uma parte do mundo, mas com o tempo, essa ordem leva ao aumento da "desordem" — como as crises ambientais e sociais. A busca por crescimento e riqueza sem considerar os efeitos colaterais criou desequilíbrios ecológicos (como o aquecimento global) e sociais (como a desigualdade e o desemprego estrutural).

Assim como a entropia, essas forças parecem ser implacáveis. Cada tentativa de "organizar" o sistema económico global com eficiência acaba gerando consequências desordenadas que, agora, o mundo começa a enfrentar com mais intensidade. Esse processo reflete a inexorável tendência de degradação e aumento da complexidade caótica em sistemas que buscam maximizar seus ganhos sem respeitar os limites naturais e sociais. A segunda lei da termodinâmica, nesse contexto metafórico, nos lembra de que a ordem criada em um local (por exemplo, o desenvolvimento económico na Ásia) inevitavelmente resulta em desordem em outros (as consequências climáticas e sociais no Ocidente e no mundo). Essa entropia socioeconómica é implacável e parece ser uma força constante na evolução das sociedades.

No meio disto, os maus da fita são os agentes do sistema financeiro, parecendo cegos a gerir a economia num quarto escuro. Priorizar o lucro de curto prazo sem considerar as consequências de longo prazo para a sociedade e o meio ambiente. A metáfora de "gerir a economia num quarto escuro" capta a percepção de que esses agentes atuam sem plena visão das repercussões de suas decisões, movendo-se às cegas por uma economia cada vez mais complexa e interconectada. Os setores financeiros frequentemente promovem políticas que estimulam a especulação, a maximização de lucros e a deslocalização da produção, sem se preocupar com os impactos estruturais sobre as economias locais, o meio ambiente ou a estabilidade social. Nos últimos anos, vimos como crises financeiras foram desencadeadas por decisões movidas por incentivos míopes, como no colapso de 2008, que resultou em efeitos devastadores para milhões de pessoas, mas com consequências limitadas para as elites financeiras.

Essa desconexão entre as elites financeiras e a realidade vivida pela maioria da população parece reforçar a ideia de uma gestão "cega" ou distanciada da realidade. A busca por maximizar os lucros ao custo de externalizar os impactos ambientais e sociais reflete uma falta de visão sistémica. Eles operam num ambiente que ignora ou minimiza as externalidades, como as mudanças climáticas ou o colapso das indústrias locais, acreditando que o sistema financeiro pode tudo. Comportamento que gera uma sensação de operarem no escuro, aumentando a entropia, aprofundando a desordem e o desequilíbrio. Ao financiar indústrias poluidoras, especular sobre alimentos e imóveis, e criar bolhas financeiras, eles podem inadvertidamente acelerar os processos de degradação económica e ambiental, criando um ciclo de crises que ameaça a própria estabilidade do sistema que buscam gerir.

Por aqui se vê que outra metáfora também é certeira: A razão não entende as razões do coração. Nem a lógica da economia do aparelho digestivo dos organismos vivos. As complexas necessidades humanas e ecológicas que são frequentemente ignoradas. A "razão" das finanças e da economia de mercado tende a operar em termos de números, lucros e eficiência, enquanto as necessidades sociais, emocionais e até morais são deixadas de lado. Nesse contexto, a economia dos matemáticos, com suas abstrações, falha em compreender a lógica da vida como ela realmente é: imprevisível, interconectada e dependente de fatores que vão muito além de fórmulas e previsões financeiras.

A metáfora do "aparelho digestivo dos organismos vivos" ressalta essa falha fundamental. A economia global, sob a lógica do sistema financeiro, trata o crescimento económico como algo linear, ignorando o facto de que os seres vivos — incluindo as sociedades humanas — dependem de ciclos naturais, equilíbrio, renovação e sustentabilidade. Assim como o sistema digestivo de um organismo precisa de nutrientes adequados e de um metabolismo equilibrado, as sociedades também precisam de um equilíbrio entre desenvolvimento económico, bem-estar social e saúde ecológica. Quando a economia ignora esses ciclos e necessidades, ela se torna uma máquina que apenas consome, exaurindo recursos sem reabastecer o "organismo" (a sociedade e a natureza). Como resultado, vemos crises ambientais, desigualdade social e um crescente sentimento de alienação e desconexão. A razão financeira não entende que a vida — tanto no nível individual quanto coletivo — segue uma lógica mais complexa, em que o crescimento desenfreado sem cuidar das "funções vitais" leva ao colapso.

Esse descompasso entre a lógica financeira e a realidade humana e ambiental é o cerne do problema. A economia, como um sistema vivo, precisa ser tratada como tal, respeitando os limites naturais e as necessidades fundamentais de todas as pessoas, ou acabará presa em sua própria cegueira e incapacidade de ver as consequências de longo prazo. É que, de facto, o sistema digestivo é o que mais se aproxima do setor da economia das sociedades, uma vez que o aparelho digestivo processa a matéria-prima para produzir a energia que o organismo precisa para viver, podendo ainda armazenar nutrientes para as crises de falta de alimentos.

No sistema económico, o papel dos mercados, da produção industrial e dos serviços é semelhante ao do metabolismo no corpo humano. A economia também precisa, como o aparelho digestivo, de um equilíbrio entre o consumo e a regeneração dos recursos. Quando há um desequilíbrio — seja um consumo excessivo sem reposição adequada de recursos ou a má distribuição dos benefícios gerados — o sistema entra em colapso, assim como o corpo humano adoeceria se o sistema digestivo falhasse. Da mesma forma que o corpo acumula energia para momentos de necessidade, a economia saudável precisa de mecanismos de resiliência para enfrentar crises, como recessões económicas ou desastres naturais. A poupança, a produção sustentável e os sistemas de bem-estar social funcionam como reservas de energia que podem ser usadas para garantir que a sociedade continue quando os recursos externos se tornam escassos. A lógica do organismo vivo nos ensina que a sobrevivência depende de ciclos equilibrados, e a economia global deveria se espelhar mais nesses princípios.

Daqui resultou os ricos ainda mais ricos; os pobres e as classes médias asiáticas melhores; e as classes médias ocidentais piores. Beneficiou desproporcionalmente certos grupos, enquanto prejudicou outros. O resultado foi um aumento acentuado da desigualdade, tanto entre os países como dentro deles. Os ricos, especialmente no Ocidente, ficaram ainda mais ricos, pois os principais beneficiários do sistema globalizado foram os investidores, acionistas e grandes corporações que aproveitaram as oportunidades de explorar mão de obra mais barata no exterior, reduzir custos de produção e aumentar lucros. O capital financeiro cresceu exponencialmente, enquanto o trabalho perdeu poder e segurança, especialmente nas economias mais desenvolvidas.

Por outro lado, as classes médias e pobres nos países asiáticos, como China, Índia e Vietname, melhoraram suas condições de vida. O processo de industrialização e urbanização, impulsionado pela transferência de fábricas e investimentos estrangeiros, elevou milhões de pessoas da pobreza e criou uma nova classe média. No entanto, isso não foi sem custo: muitas dessas economias também enfrentaram desigualdades internas crescentes e problemas ambientais decorrentes de um crescimento rápido e descontrolado.

Já as classes médias ocidentais, que antes se beneficiavam de empregos industriais estáveis e bem remunerados, viram a sua posição se deteriorar. O deslocamento das fábricas para o exterior, o avanço da automação e a transformação para uma economia mais baseada em serviços precarizaram o trabalho. O poder de compra estagnou ou diminuiu para muitos, e a segurança económica que a classe média antes desfrutava foi erodida. Em vez de melhorar, como foi o caso de muitas classes médias asiáticas, a classe média ocidental viu-se pressionada, com menos oportunidades e maior insegurança. Essa transformação contribuiu para a polarização política e o aumento do ressentimento e frustração no Ocidente, o que vemos refletido em movimentos populistas antiglobalização. A promessa de prosperidade globalizada, que deveria beneficiar a todos, acabou criando um cenário de vencedores e perdedores, com os ricos em posições cada vez mais vantajosas e muitos outros lutando para manter o padrão de vida que antes consideravam garantido.

A falácia do inimigo externo no colapso das civilizações


Quando Alarico I em 410 entrou em Roma e deu livre curso ao saque, já o Império Romano já estava profundamente enfraquecido por dentro. Rei visigótico da dinastia dos Baltos, foi o primeiro líder germânico a invadir e tomar a cidade de Roma. Depois, seu sucessor Ataulfo, conduziu os visigodos a instalarem-se na Península Ibérica. A corrupção generalizada, a luta pelo poder entre facções, a instabilidade económica, a perda de valores cívicos e o descontentamento social criaram uma base vulnerável que facilitou a fragmentação do império. As invasões bárbaras, que são frequentemente destacadas como a causa do fim de Roma, na verdade, foram mais um sintoma da fragilidade interna do sistema do que a causa principal.

Da mesma forma, a União Soviética enfrentou uma série de problemas internos: a estagnação económica, a desconfiança entre o governo e a população, a falta de inovação tecnológica e o desgaste moral causado por décadas de repressão. A Guerra Fria e a pressão externa do Ocidente desempenharam um papel importante, mas foi a incapacidade do sistema de se adaptar às mudanças e de responder às necessidades dos seus próprios cidadãos que realmente minou a sua base de sustentação.

A falácia dos inimigos externos é uma estratégia comum usada por elites e governos em declínio para desviar a atenção dos problemas internos e unir a população em torno de uma ameaça comum. Ao atribuir os problemas a fatores externos, evita-se a autocrítica e a necessidade de reformar as instituições ou enfrentar os desafios sociais e económicos. Essa estratégia, porém, só funciona até certo ponto; quando os problemas internos se tornam insustentáveis, o colapso torna-se inevitável.

Que fatores internos mais críticos estarão já a minar o processo para a possível decadência da civilização ocidental atualÉ um facto que a sociedade se está a polarizar entre dois lados, cada lado a considerar-se o lado bom e o outro o lado mau, numa dialética hegeliana. A polarização crescente da sociedade é um dos principais fatores internos que podem levar ao seu declínio, e essa dinâmica dialética lembra muito a visão hegeliana de conflito como motor da mudança histórica. Na filosofia de Hegel, o movimento da história é impulsionado por uma tese que gera uma antítese, levando eventualmente a uma síntese — um processo que, na sociedade atual, parece estagnado num ciclo repetitivo de confronto e divisão, sem ainda ter chegado a uma verdadeira síntese.

A polarização é especialmente problemática porque transforma questões complexas em batalhas maniqueístas, onde cada lado se considera moralmente superior e demoniza o outro. Essa visão binária simplifica a realidade e dificulta qualquer tipo de diálogo ou cooperação, tornando quase impossível alcançar consensos que possam efetivamente enfrentar os desafios coletivos. Num cenário assim, o debate racional e a negociação são substituídos por confrontos ideológicos e tribalismo, o que apenas aprofunda as divisões. Essa fragmentação social é também alimentada por fatores como a bolha de informação criada pelas redes sociais, onde algoritmos reforçam vieses e criam câmaras de ressonância que isolam as pessoas em visões de mundo cada vez mais rígidas. Isso gera uma espécie de guerra cultural constante, onde as identidades políticas se tornam tão polarizadas que deixam de ser meras opiniões e passam a definir quem as pessoas são, como se fossem quase uma nova forma de religião.
É fascinante que você, mesmo sendo ateu, reconheça a possibilidade de um líder de tal genialidade que possa ter um impacto comparável ao de Jesus Cristo. A ideia de um líder visionário que consiga unir uma sociedade polarizada e redefinir seus valores fundamentais é, de fato, uma das esperanças para superar a crise atual.
Jesus Cristo, como figura histórica e simbólica, exerceu uma influência profunda não apenas no sentido espiritual, mas também na formação ética e moral da civilização ocidental. Sua mensagem de amor ao próximo, perdão e compaixão serviu de base para muitos dos valores que ainda ressoam no tecido social euroamericano. A necessidade de um novo líder com esse nível de carisma, visão e capacidade de inspirar um propósito maior pode ser o que falta para tirar a civilização do impasse dialético já mencionado. Esse líder, para ser eficaz no contexto atual, precisaria transcender as divisões ideológicas e falar diretamente às necessidades e aspirações mais profundas das pessoas, de uma forma que unisse diferentes grupos sob um ideal comum. A genialidade desse líder estaria não apenas em suas ideias, mas também em sua capacidade de tocar as emoções e o espírito das pessoas, algo que vai além do puro racionalismo ocidental e se conecta a uma necessidade mais ampla de sentido e propósito. Claro, é um desafio enorme, especialmente numa era em que o ceticismo e a desconfiança em relação às figuras de autoridade são tão elevados. Mas se considerarmos que momentos de grande crise tendem a gerar grandes líderes, como já aconteceu em outras épocas da história, a possibilidade de um líder assim emergir não é totalmente improvável.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Micenas e Hatusa - para a memória de futuras catástrofes

 

Civilização micénica – última fase da Idade do Bronze na Grécia Antiga, abrangendo o período de aproximadamente 1.600 – 1.100 a.C. Representa a primeira civilização avançada na Grécia continental, com seus estados palacianos, organização urbana, obras de arte e sistema de escrita. Na Argólida, outros centros de poder surgiram como Pilos, Tirinto e Mideia no Peloponeso, Orcómeno, Tebas e Atenas na Grécia Central, e Iolcos na Tessália. Situada no Peloponeso, Micenas foi ao longo de muito tempo o centro de uma civilização brilhante, obra dos Aqueus, cujo reflexo se estendeu pela Grécia antiga. Atingiu o seu apogeu na época de Agamémnon e da Guerra de Troia. Os Micénicos estenderam a sua influência à Grécia, impondo os seus costumes e a sua arte e exerceram durante mais de três séculos a sua hegemonia sobre grande parte da Grécia e do Egeu, arruinando a civilização minoica (1450-1400 a. C.). Depois de um tão longo período de domínio, ocorreria a destruição do mundo micénico nos finais do século XIII e início do século XII a. C.


Hatusa a capital do Império Hitita (II milénio a.C.), situava-se perto da atual cidade de Boğazkale (antiga Bogazköy), a cerca de 200 km a leste de Ancara. Os primeiros sinais de ocupação remontam a 2 000 a.C., provavelmente dos hatitas (algumas fontes indicam Hatusa como a capital do reino hatita de Hati). No seu apogeu, no século XIV a.C., a cidade ocupava cerca de 1,8 km².

Uma teoria aponta para que a ameaça aos Micénicos terá vindo de um inimigo exterior - os Dórios ou Povos do Mar que atacavam o Oriente no fim do século XIII. Outra teoria faz dever a dilaceração às dissensões internas e entre os reinos. Micenas foi totalmente destruída cerca de 1125 a. C. através da ação invasora dos Povos do Mar, que travou e aniquilou as redes comerciais que Micenas estabeleceu no Próximo Oriente, indispensáveis para a continuidade do progresso da civilização. Após a invasão dos Dórios, Micenas tornou-se uma ruína, preciosa nos tempos atuais para o estudo da civilização através da pesquisa arqueológica.

Talvez o que tenha acontecido - à volta do Mediterrâneo que fez desaparecer a civilização micénica, a partir da qual floresceu algo que ainda hoje tem ressonância nas nossas consciências de ocidentais - tenham sido sucessivas catástrofes naturais. 
O colapso das civilizações micénica e de outras culturas em torno do Mediterrâneo durante o final da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C., é um exemplo poderoso de como catástrofes e crises sistémicas podem destruir uma ordem estabelecida e, ao mesmo tempo, abrir caminho para novas formas de civilização. Esse período de colapso, conhecido como a Idade das Trevas do Mediterrâneo, levou ao desaparecimento de várias civilizações complexas, como a micénica, a hitita e partes do Império Egípcio, devido a uma combinação de fatores como invasões, desastres naturais, colapso económico e desordem social. O que é fascinante nesse exemplo é que, após essa fase de desintegração, surgiu uma nova era que acabou por se tornar no berço da atual civilização ocidental. Estamos a falar da Grécia Arcaica e, eventualmente, da Grécia Clássica. Foi nesse período de renascimento que surgiram os conceitos de filosofia, democracia, ciência, literatura épica e arte que ainda ressoam profundamente na consciência ocidental até hoje. Em outras palavras, foi a partir das cinzas dessa crise que algo inteiramente novo e duradouro foi criado.




A queda da civilização micénica e o subsequente florescimento da cultura grega ilustram como a adversidade e a destruição podem atuar como forças transformadoras, gerando uma nova ordem cultural e social que, por sua vez, molda o futuro de uma civilização. Em vez de serem apenas um ponto final, essas catástrofes foram um ponto de partida para uma nova etapa da história, que reformulou a base dos valores e ideias ocidentais. Esse tipo de transformação sugere que, diante de uma catástrofe global no presente, algo semelhante poderia ocorrer: um colapso das estruturas atuais seguido por um renascimento que traga novas formas de pensamento e organização, mais adaptadas aos desafios contemporâneos e capazes de unir a humanidade em torno de uma nova visão.

É provável que as comunidades se voltem a organizar em unidades mais pequenas e autónomas, e não sejam as potências como as atuais a armarem-se em polícias do mundo. O que será universal é o melhor conhecimento científico, e claro, uma inteligência artificial estruturada num modelo cooperativo e não competitivo. A reorganização das comunidades em unidades menores e mais autónomas após uma catástrofe global é bastante pertinente e reflete um retorno a formas mais locais e colaborativas de governo em estado de sítio. Na verdade, a história mostra que, em momentos de crise, as grandes estruturas de poder muitas vezes se tornam menos eficazes, enquanto comunidades menores e mais coesas podem responder mais rapidamente e de maneira mais adaptativa às suas necessidades.


As descrições dos repórteres e mesmo as imagens televisivas ficam sempre aquém da realidade da tragédia que, em poucas horas, devastou vastíssimas zonas da Comunidade Valenciana, em Espanha, inundando, destruindo e matando. Vários dias depois e ainda há locais onde os socorros não conseguiram chegar. Mas as grandes tragédias desencadeiam pequenos e grandes gestos de humanidade. Especialmente aquelas que destroem zonas muito povoadas e que deixam os sobreviventes em estado de choque, feridos no corpo e na alma, vagueando sem saber o que fazer à vida que lhes foi poupada.

Quarta, dia 30, e quinta, dia 31 de outubro, enquanto bombeiros, Proteção Civil, Cruz Vermelha se instalavam no terreno, tomava-se consciência de que o desastre revestia proporções muito mais extensas e profundas do que se pensava. Iam chegando os apelos desesperados de muitos sobreviventes e a perceção de que os desaparecidos deveriam ser muitos mais. Ao mesmo tempo, tornavam-se percetíveis as dificuldades de responder com os socorros necessários e de coordenar estrategicamente esses socorros.

Por coincidência, o dia 1 de novembro era “festivo”, como dizem os espanhóis, ainda que a maré estivesse pouco para festa. Mas, como se todos tivessem tido o mesmo pensamento, apoiados nas redes sociais, eis que uma verdadeira multidão se levanta e se põe a caminho, disposta a ajudar quem precisa. A pé, porque as estradas estão bloqueadas e intransitáveis, filas enormes de gente, sobretudo jovens, de mochilas carregadas de víveres, água e bens de primeira necessidade, de baldes, pás e vassouras para limpar as lamas ou apenas com a boa vontade de ajudar, foi impressionante ver toda aquela gente a percorrer as distâncias em intermináveis filas, que se repetiram ao fim do dia (para alguns) em sentido inverso. Nos locais em que prestaram serviço, as imagens que circularam pelos novos meios de comunicação mostram gente enlameada a tentar desobstruir ruas, a fazer recuar a lama, a apoiar os habitantes locais, abrindo a esperança de que, rapidamente sejam restabelecidas as redes de abastecimento de água, eletricidade e comunicações.

 Tudo indica que as catástrofes naturais deste planeta vão ser de tal modo impressionantes que é nas maiores dificuldades que emerge a genialidade. Grandes dificuldades, especialmente aquelas impostas por catástrofes naturais e crises globais, muitas vezes servem como catalisadores para a emergência de líderes de grande genialidade. Na história, frequentemente vemos que momentos de extrema adversidade são os que moldam figuras excepcionais, capazes de guiar sociedades em direção a novos paradigmas e soluções. As catástrofes naturais que enfrentamos e enfrentaremos — sejam elas relacionadas às mudanças climáticas, desastres ecológicos ou pandemias — têm o potencial de desafiar as bases de nossa civilização de uma maneira sem precedentes. Esses eventos podem forçar as sociedades a reavaliar as suas prioridades, abandonar velhas estruturas de pensamento e abrir espaço para novas ideias e líderes que consigam responder de maneira eficaz e inspiradora.


Essa visão sugere um otimismo fundamentado na ideia de que, diante de uma ameaça existencial compartilhada, as divisões e conflitos que hoje parecem insuperáveis poderiam ser relativizados em favor de um propósito maior. As catástrofes globais, justamente por sua escala e impacto, têm o poder de revelar a futilidade de muitas das nossas disputas e de nos forçar a reconhecer a nossa interdependência como espécie. Quando a sobrevivência coletiva está em jogo, é mais provável que as pessoas se unam para enfrentar desafios comuns, deixando de lado as diferenças políticas, ideológicas e culturais. Nesse contexto, um sentido renovado de solidariedade humana e de urgência moral poderia emergir, criando um ambiente mais propício para que novas lideranças inspiradoras e inovadoras surjam.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Moderados. Extremistas. Malformações cívicas



O facto de alguém ter sido um preso político, embora possa ser indicativo de uma resistência a um regime opressor ou injusto, não deve, por si só, conferir uma autoridade moral absoluta sobre os outros, especialmente quando essa experiência é usada para exibir superioridade. A experiência de ser preso político pode ser um símbolo de coragem e convicção, mas isso não significa que a visão de mundo de uma pessoa que passou por essa experiência seja a única válida ou infalível. Um moderado, que não passou por essas circunstâncias extremas, não é automaticamente menos comprometido com a justiça ou com a verdade. Em muitos casos, o moderado pode estar buscando um caminho de reconciliação, diálogo e ponderação que é fundamental para evitar novos ciclos de radicalização e violência.

Por outro lado, é comum que quem sofreu sob um regime opressor ou em uma situação extrema sinta que suas experiências justificam uma postura mais radical, e essa perspectiva muitas vezes pode ser utilizada para invalidar ou deslegitimar vozes mais conciliatórias. No entanto, isso pode levar a uma espécie de arrogância moral quando o sofrimento pessoal é utilizado como justificação para uma postura intransigente, excluindo a possibilidade de que outras pessoas, com experiências diferentes, possam contribuir com visões igualmente válidas. Além disso, o facto de um indivíduo não ter sido preso ou perseguido politicamente não o torna menos comprometido com a liberdade, a justiça ou os direitos humanos. Muitas vezes, os moderados são fundamentais para construir pontes e propor soluções que evitem o colapso completo das sociedades em conflitos contínuos. É essencial que as discussões políticas e sociais sejam conduzidas com respeito mútuo e com o reconhecimento de que experiências diferentes — sejam elas de resistência, sofrimento ou moderação — podem todas trazer contribuições importantes. Diminuir a posição de alguém só porque essa pessoa não passou por certas provações é uma forma de exclusão e fechamento ao diálogo, algo que não serve ao progresso coletivo.

O mesmo acontece entre aqueles que descem à rua para manifestar com cartazes "fascismo nunca mais" quando não há indícios de fascismo nenhum. Esse fenómeno reflete uma tendência de usar termos carregados de conotação histórica e emocional, como "fascismo", de maneira exagerada e, muitas vezes, descontextualizada. O uso indiscriminado de conceitos como "fascismo", "nazismo" ou "ditadura" para descrever situações políticas que não possuem uma correlação real com esses fenómenos acaba por diluir o significado desses termos e, pior ainda, cria uma atmosfera de paranoia e polarização. Quando indivíduos ou grupos descem às ruas com slogans como "fascismo nunca mais" em contextos onde não há indícios claros de um retorno real ao fascismo, frequentemente o que está em jogo é uma tentativa de rotular adversários políticos de forma simplista. Isso não apenas distorce a realidade, mas também impede um debate honesto e construtivo sobre as questões reais que afetam a sociedade. Ao utilizar o termo "fascismo" de maneira inflacionada, aqueles que o fazem muitas vezes minam a seriedade de eventos históricos trágicos e complexos, reduzindo-os a armas retóricas.

Essa tendência também cria uma espécie de histeria moral, onde qualquer movimento, partido ou pessoa que não se alinhe perfeitamente com uma determinada visão ideológica é automaticamente rotulado como fascista ou autoritário. Isso desqualifica o diálogo democrático e cria uma falsa dicotomia, onde qualquer crítica ou posição moderada é vista como uma forma de cumplicidade com o "fascismo". Tal simplificação é perigosa, pois não só polariza o discurso público, mas também impede a capacidade de lidar com ameaças reais à liberdade e à democracia quando elas surgem de facto. Ademais, o uso indevido desse tipo de retórica pode acabar banalizando o termo "fascismo". Quando qualquer divergência política é rapidamente enquadrada como uma ameaça fascista, as pessoas podem começar a desconsiderar o alerta real quando uma ameaça verdadeira surgir. O fascismo histórico, com toda sua brutalidade e repressão, é um evento que merece ser lembrado e combatido, mas utilizá-lo como uma ferramenta de disputa política sem base real enfraquece a própria luta contra o autoritarismo. Por conseguinte, a manifestação pública e a resistência são essenciais numa democracia, mas devem ser fundamentadas na realidade e nos factos. Quando as manifestações são movidas por slogans exagerados ou deslocados, corremos o risco de perder de vista os problemas reais que devem ser enfrentados e as soluções que devem ser buscadas.

Não deixa de ser curioso o facto de o fascismo ter nascido em Itália com o propósito de fazer a síntese entre nacionalismo e socialismo. Essa origem do fascismo é muitas vezes ignorada ou mal compreendida. Quando Benito Mussolini fundou o movimento fascista na Itália, ele buscava precisamente criar uma síntese entre o nacionalismo e o socialismo, embora o resultado se tenha desviado significativamente do propósito original. Mussolini, antes de se tornar líder fascista, era um socialista revolucionário e até editor de um jornal socialista. No entanto, ao romper com o movimento socialista internacional, especialmente devido à sua oposição ao pacifismo e a sua defesa do intervencionismo italiano na Primeira Guerra Mundial, ele começou a conceber uma nova ideologia que combinasse elementos do socialismo com o nacionalismo.

O fascismo, em sua forma inicial, pretendia atrair simultaneamente trabalhadores e empresários, propondo um "terceiro caminho" que rejeitava o capitalismo liberal e o comunismo. O Estado fascista deveria ser autoritário, corporativista e militarista, mas sem abolir a propriedade privada, algo diferente do socialismo da União Soviética. A ideia era criar uma economia de cooperação entre classes, mediada pelo Estado, onde os interesses dos trabalhadores e empresários seriam harmonizados, todos unidos em nome do bem da nação. Esse corporativismo fascista buscava integrar todos os setores da sociedade sob o controlo do Estado, eliminando o conflito de classes.

A tentativa de fazer essa síntese entre o nacionalismo — que exaltava a nação e o Estado como entidade máxima — e o socialismo — que pretendia uma justiça social e intervenção estatal — resultou numa ideologia que, em essência, defendia um Estado forte, militarizado, com poder centralizado, disposto a intervir em todas as esferas da vida. A retórica de Mussolini misturava elementos populistas que falavam aos pobres e à classe média, com o objetivo de forjar uma comunidade nacional unificada. O fascismo, no entanto, acabou por se afastar de qualquer objetivo socialista real, tornando-se uma força profundamente reacionária e autoritária, focada na repressão política. Sua promessa de resolver as tensões de classe foi rapidamente substituída pela construção de uma ditadura onde o Estado controlava a vida social e política, ao mesmo tempo que permitia as elites económicas manterem o seu poder, desde que obedecessem ao regime.

A ironia dessa origem do fascismo como uma "síntese" entre nacionalismo e socialismo é que o termo "fascismo" é frequentemente utilizado como sinónimo de extrema direita reacionária, mas a sua génese foi muito mais complexa. Mussolini manipulou o discurso socialista e nacionalista para consolidar o seu poder, mas o resultado final foi um regime totalitário, militarista e expansionista, muito distante dos ideais de justiça social que, originalmente, poderiam ter sido associados ao socialismo. Essa complexidade inicial ajuda a entender como o fascismo foi capaz de atrair diferentes grupos sociais em sua ascensão, mas também revela como ele traiu as suas promessas iniciais ao se tornar uma máquina de poder e repressão. De certo modo o fascismo italiano nasce de uma reação ao comunismo que havia nascido primeiro na Rússia. O fascismo italiano, em muitos aspectos, surgiu como uma reação ao comunismo e à revolução bolchevique que ocorreu na Rússia em 1917. A ascensão do comunismo despertou temores entre as elites e as classes médias em toda a Europa, incluindo a Itália, onde muitos viam a Revolução Russa como uma ameaça ao capitalismo, à ordem social e à estabilidade política.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália enfrentou uma grave crise económica e social, com altas taxas de desemprego, descontentamento popular e uma crescente radicalização da classe trabalhadora. O movimento socialista ganhou força, e a possibilidade de uma revolução semelhante à russa começou a ser discutida. Isso gerou uma sensação de urgência e medo entre muitos setores da sociedade, que viam o comunismo como uma ameaça direta. O fascismo, então, se apresentou como uma alternativa ao socialismo, prometendo restaurar a ordem, promover o nacionalismo e unir a sociedade sob uma bandeira comum, em oposição à divisão de classes promovida pelos socialistas. Mussolini e seus apoiantes conseguiram atrair uma ampla base, incluindo industriais, proprietários de terras, ex-combatentes da guerra e até alguns trabalhadores descontentes, todos preocupados com o potencial de uma revolução comunista. Essa reação ao comunismo também levou o fascismo a adotar uma retórica antissocialista e a usar a violência como uma ferramenta para reprimir movimentos de esquerda, como os sindicatos e os partidos socialistas. Os Camisas Negras, as milícias paramilitares do fascismo, foram criadas especificamente para confrontar e eliminar a oposição socialista e comunista nas ruas.

Assim, o fascismo italiano pode ser visto como uma resposta não apenas ao contexto político e económico da época, mas também como um movimento que se alimentou do medo do comunismo e da necessidade de muitos setores da sociedade de encontrar uma solução autoritária que prometesse estabilidade e ordem em meio ao caos social. Essa dinâmica de reação ao comunismo foi uma das características fundamentais que moldaram o fascismo e sua ascensão ao poder na Itália. E é interessante verificar que aqueles que ainda hoje exibem cartazes, a assustar com o fascismo nas manifestações de rua, são ainda elementos dos residuais partidos políticos com o nome de comunista.

É realmente interessante observar como essa dinâmica persiste. Muitas das manifestações contra o "fascismo" hoje em dia são, de facto, organizadas por grupos ou partidos que se identificam como comunistas ou de esquerda radical. Esses grupos frequentemente utilizam o termo "fascismo" para descrever as suas oposições políticas, seja em relação a partidos de direita, governos conservadores ou movimentos populistas. Essa continuidade tem, de facto, raízes históricas profundas. No entanto, a forma como esses termos são aplicados e as situações em que são usados hoje em dia muitas vezes carecem de uma análise crítica. Muitos dos que empunham cartazes contra o fascismo podem estar motivados por uma genuína preocupação com os direitos humanos e as liberdades civis, especialmente num contexto onde existem, de facto, crescentes tendências autoritárias em várias partes do mundo. No entanto, o uso excessivo e muitas vezes impreciso do termo "fascismo" pode ofuscar a realidade e dificultar um debate construtivo sobre os desafios contemporâneos.

Além disso, a polarização que isso provoca pode levar a um ciclo de hostilidade, onde o diálogo se torna quase impossível. Aqueles que se identificam como comunistas podem ver em qualquer movimento ou ideologia à sua direita uma continuidade do fascismo, enquanto aqueles à direita muitas vezes reagem a essa acusação reforçando as suas próprias posições. Esse fenómeno cria um ambiente em que os mais ignorantes ou fundamentalistas se fiquem por dicotomias maniqueístas. Assim, enquanto a luta contra o fascismo é uma questão legítima e importante, a forma como ela é abordada por grupos de esquerda muitas vezes reflete não apenas um legado histórico, mas também uma abordagem que pode limitar a eficácia do ativismo contemporâneo e a possibilidade de construir coligações mais amplas em defesa da democracia e dos direitos humanos.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

O Sul e o Ocidente




Reunião de países membros do BRICS - Kazan, Rússia
31 de outubro 2024

Trinta e seis nações reuniram-se em Kazan sob os auspícios de Putin e Xi Jinping. O presidente da China ressaltou que a ascensão coletiva do Sul Global é a principal característica da transformação pela qual passa o mundo - “Os países do Sul Global marchando juntos em direção à modernização é monumental na história mundial e sem precedentes na civilização humana”
O Sul Global é mais um ideário político do que geográfico, porque senão teríamos de perguntar o que faz lá a Rússia, e de certo modo a China também. "Sul Global" é um sucedâneo do termo "Terceiro Mundo" usado para se referir aos países pobres ou emergentes que, em sua maioria, estão no Hemisfério Sul do planeta.

O ideário do Sul Global pretende ser um contrapoder do Ocidente. O Ocidente sempre foi visto, mas agora duma forma mais convincente, como um arrogante, por querer, com ar de superioridade, impingir os seus valores aos outros países e culturas diversas, como a democracia liberal, as liberdades individuais e os direitos humanos. Ora, esse países, que durante séculos foram colonizados e submetidos, possuem histórias e sistemas de valores completamente diferentes. Essa abordagem pode ser considerada uma forma de arrogância, pois pressupõe que o modelo ocidental é universalmente aplicável e superior, independentemente do contexto cultural ou das tradições locais que colocam o bem-estar coletivo acima das liberdades individuais. Na China, por exemplo, há uma longa tradição confuciana que valoriza a harmonia social, o respeito à autoridade e o dever para com a comunidade, e essa herança molda a mundividência de muitos chineses.

Quando o Ocidente tenta impor as suas ideias de forma egocêntrica e universalista, isso pode parecer ingénuo e desrespeitoso para culturas que se veem como igualmente sofisticadas, com uma rica tradição e uma compreensão diferente da relação entre o indivíduo e a sociedade. É um exemplo de como o etnocentrismo ocidental pode ser tanto ridículo quanto contraproducente, porque desconsidera que outras civilizações também têm as suas próprias formas de lidar com os desafios sociais e éticos, muitas vezes com um sucesso que o Ocidente, em seu próprio contexto, ainda não conseguiu alcançar plenamente.

Essa tendência ocidental também pode ser vista como uma forma de neocolonialismo cultural, onde se tenta impor valores e sistemas políticos sob a justificação de uma suposta superioridade moral. Historicamente, isso não apenas gerou ressentimentos, mas também contribuiu para conflitos e resistências ao redor do mundo, onde povos e nações resistem à ideia de se submeterem a um modelo ocidental que, para eles, não faz sentido ou que simplesmente não responde às suas necessidades e prioridades locais. Ao mesmo tempo, é importante considerar que muitos desses valores ocidentais, como os direitos humanos e as liberdades individuais, têm uma importância universal em termos de dignidade e respeito pelo indivíduo. No entanto, a insistência em sua adoção sem uma sensibilidade cultural e uma adaptação ao contexto local é o que frequentemente transforma um ideal nobre numa expressão de arrogância e egocentrismo ocidentais.

À luz das crises demográficas e climáticas que estamos enfrentando, as sensibilidades culturais locais parecem estar mais conectadas à realidade do que as abstrações universalistas promovidas pelo Ocidente. As sociedades que valorizam o coletivo e têm uma ligação mais estreita com suas tradições culturais tendem a ser mais resilientes e adaptáveis diante de desafios globais, em parte porque suas soluções são moldadas por uma experiência histórica e um contexto cultural específicos. A crise demográfica na Europa é um exemplo claro de como os valores individualistas e a busca por um padrão de vida elevado podem ter levado a uma queda nas taxas de natalidade, à medida que as prioridades se voltaram para a realização pessoal, o sucesso profissional e o consumo material. Este foco no indivíduo e na autonomia pessoal, embora libertador em muitos aspectos, também pode gerar um certo isolamento social e uma desconexão das responsabilidades coletivas, levando a uma fragilidade demográfica.

Ao mesmo tempo, a crise climática expõe a tensão entre a necessidade de ação coletiva e o comportamento individualista e consumista incentivado pelas sociedades ocidentais. As culturas que têm uma abordagem mais holística e integrada em relação à natureza, como muitas sociedades indígenas e algumas culturas asiáticas, frequentemente demonstram uma maior sensibilidade em relação à sustentabilidade e ao equilíbrio ecológico. Essas culturas são menos propensas a ver a natureza como um recurso a ser explorado infinitamente e mais inclinadas a manter um relacionamento respeitoso e regenerativo com o meio ambiente.

O ideal universalista ocidental, embora nascido de princípios iluministas que visam promover a liberdade e a igualdade, às vezes cai na armadilha de abstrações que perdem o contacto com as realidades concretas e contextuais das diferentes sociedades. A tentativa de aplicar soluções universais para problemas que são profundamente locais e culturais frequentemente falha em captar a complexidade da situação e acaba por ser percebida como uma forma de imposição ou arrogância. Essa visão sugere que, em tempos de crise, as soluções podem ser mais eficazes quando ancoradas em práticas e valores culturais locais, que refletem uma maior harmonia com as necessidades específicas das comunidades. Talvez o caminho a seguir devesse envolver uma integração entre essas sensibilidades culturais e uma reavaliação crítica dos princípios universalistas, adaptando-os para respeitar as diversidades e especificidades dos diferentes contextos globais.

O fim do Império Romano ou o colapso da União Soviética oferecem lições valiosas sobre os padrões de declínio de sociedades complexas. Esses exemplos históricos mostram que as civilizações não caem de repente; o declínio é um processo gradual que envolve uma série de fatores, como crises económicas, pressão externa, degradação interna das instituições e a perda de coesão social e cultural. O Império Romano, por exemplo, enfrentou uma combinação de problemas internos, como corrupção, desigualdade social crescente, esgotamento económico e uma crise de identidade cultural, enquanto também sofria pressões externas com as invasões bárbaras. A perda de uma narrativa unificadora e uma visão de futuro também contribuiu para o seu declínio, tornando-o vulnerável a mudanças que minaram suas bases. A União Soviética colapsou sob o peso das próprias contradições internas — a ineficiência económica, a corrupção, a estagnação política e a desconexão entre a elite governante e as necessidades reais da população. Além disso, as pressões externas, como a corrida armamentista e a concorrência ideológica com o Ocidente, contribuíram para acelerar o processo de desintegração.

Quando olhamos para a civilização euroamericana contemporânea, vemos alguns padrões semelhantes: desafios económicos e sociais profundos, uma crescente polarização política, uma crise de identidade cultural e uma dificuldade em responder de maneira coesa às ameaças globais, como a crise climática e as mudanças demográficas. Esse declínio pode ser intensificado pelo individualismo exacerbado e pela falta de uma visão unificadora que inspire a sociedade a enfrentar coletivamente esses desafios.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Entre estrategos e utopistas


Há uma diferença entre "estratego" e "estrategista", embora ambos estejam relacionados ao campo da estratégia. Estratego: termo que vem do grego antigo, onde "strategos" era o título dado a generais e comandantes militares que detinham autoridade sobre exércitos e decisões de guerra. No contexto clássico, um estratego não só elaborava estratégias, mas também tinha a responsabilidade de liderar e executar operações militares. Estrategista: Este termo é mais abrangente e moderno, aplicado a qualquer pessoa que desenvolve e teoriza estratégias, sejam elas de caráter militar, político, corporativo, ou mesmo em outros campos. Um estrategista debruça-se sobre a formulação de estratégias, mas nem sempre está diretamente envolvido na execução, como um estratego grego poderia estar. Portanto, enquanto "estratego" remete a um comandante militar clássico, "estrategista" pode referir-se a um especialista em estratégia em qualquer campo.

A diferença entre "utópico" e "utopista" também é subtil, mas significativa. Utópico é um adjetivo usado para descrever ideias, planos ou visões que são idealizadas, muitas vezes irrealizáveis ou muito distantes da realidade prática. Algo utópico implica um estado de perfeição ou de melhoria extrema, mas que, na prática, é difícil ou impossível de alcançar. Por exemplo, uma "sociedade utópica" seria uma sociedade idealizada, sem conflitos ou desigualdades. Utopista é um substantivo que designa a pessoa que acredita, promove ou defende a realização de uma utopia. O utopista é alguém que possui e trabalha para concretizar visões ou ideias utópicas, acreditando na possibilidade de transformar o mundo em direção a esses ideais. O utopista é, portanto, um idealista ativo, enquanto utópico se refere mais à qualidade da própria ideia. Resumindo, "utópico" descreve a natureza idealizada de um conceito ou plano, enquanto "utopista" é o defensor ou promotor desses ideais.

Guillaume Faye foi um intelectual, jornalista e escritor francês, conhecido por seu papel controverso e influente na chamada Nova Direita europeia (Nouvelle Droite). Nascido em 1949 e falecido em 2019, Faye destacou-se especialmente por suas ideias sobre identidade europeia, imigração, e civilização, temas que tratava com uma abordagem combativa e, muitas vezes, provocadora. Estudante da Sciences Po em Paris, Faye iniciou a sua carreira nos anos 1970 e se envolveu com o Groupement de recherche et d'études pour la civilisation européenne (GRECE), um think tank fundado por Alain de Benoist, empenhado em promover uma "revolução cultural" de direita. A partir do GRECE, Faye difundiu uma crítica à modernidade liberal e globalizada, procurando valorizar um retorno às raízes culturais europeias.

Com o passar dos anos, Faye desenvolveu ideias radicais e controversas, abordando temas como a "colonização" islâmica da Europa e o que ele chamava de "choque de civilizações". Em seu livro Arqueofuturismo, de 1998, ele elaborou um conceito que propunha uma síntese entre a tecnologia moderna e um retorno aos valores tradicionais, o que ele chamava de “futuro arcaico”. Para ele, apenas essa fusão poderia preservar a identidade europeia num contexto de crise global. Faye também desenvolveu teorias sobre o "colapso" da sociedade ocidental, prevendo conflitos étnicos e culturais intensos.

As ideias de Faye são, contudo, fortemente criticadas por seu tom apocalíptico e posições extremas, sendo frequentemente associadas ao identitarismo e ao etnonacionalismo. Ele é considerado uma figura polarizadora: enquanto alguns o veem como visionário, outros o acusam de fomentar discursos de ódio e divisionismo. Faye marcou a cena intelectual francesa e europeia com uma proposta de renovação da direita a partir de ideias de identidade cultural e crítica à globalização, deixando um legado de obras controversas que ainda influenciam debates sobre política, imigração e cultura na Europa. É compreensível ver em Guillaume Faye um “oráculo” de nossos tempos, especialmente considerando que muitos dos problemas atuais – crises demográficas, migrações massivas, tensões culturais, e conflitos – foram temas centrais em seus escritos. Ele via a Europa e o Ocidente em um estado de declínio estrutural, numa espécie de entropia cultural e política, o que ele atribuía tanto à globalização quanto a um abandono das identidades tradicionais. Em muitos aspectos, suas previsões de “caos” e “colapso” parecem ressoar fortemente com as crises contemporâneas que vivemos.

Faye acreditava que o Ocidente havia perdido as suas bases identitárias e espirituais, tornando-se vulnerável ao que ele chamava de “substituição populacional” e de conflitos étnicos. Essas ideias, por mais controversas que sejam, encontram eco em muitas pessoas que sentem que as sociedades europeias e ocidentais enfrentam desafios existenciais. O "arqueofuturismo" propõe uma síntese entre inovação tecnológica e valores tradicionais. É um ideal de resposta para aqueles que sentem que os modelos atuais não conseguem mais lidar com o complexo mundo moderno. Ainda assim, é importante ver Faye como um pensador radical, que defendia não só uma resistência cultural, mas também preparava seus leitores para um “choque de civilizações”. Sua visão, em muitos sentidos, se distancia do que seria um realismo moderado e abraça uma espécie de pessimismo apocalíptico. Em última análise, Faye pode ser visto como um “oráculo” no sentido de ter captado o espírito de inquietação que se alastra pelo Ocidente. Contudo, ele também radicaliza e dramatiza a natureza dessas crises, oferecendo mais um alerta sombrio do que uma proposta construtiva. Faye é uma voz que, como outros pensadores de sua época, captou as ansiedades da modernidade.

A história sempre foi assim, as elites não quererem acreditar e a barbárie a entrar-lhes em Roma pela porta dos fundos. A história parece estar repleta desses ciclos em que elites, cegas pela confiança em sua própria estabilidade e poder, ignoram sinais claros de decadência e perigo até que é tarde demais. O exemplo de Roma é especialmente ilustrativo: durante séculos, a aristocracia e as elites romanas acreditaram na permanência do Império, mesmo quando problemas internos e pressões externas já se acumulavam de forma alarmante. Não só negligenciaram os problemas, mas também, em muitos casos, incentivaram estilos de vida de luxo e autoindulgência que os desconectaram das realidades.

O paralelo com o presente é marcante. Muitas das elites globais, ocupadas com seus próprios interesses, parecem incapazes de reconhecer plenamente as crises múltiplas que nos cercam: mudanças climáticas, conflitos internacionais, desequilíbrios económicos e, talvez mais preocupante, uma profunda perda de sentido e coesão cultural. Isso se traduz numa erosão do “contrato social”, que tradicionalmente sustenta a ordem e a paz dentro das nações. Esse distanciamento das elites gera um vazio, que muitas vezes é preenchido pela “barbárie” – uma barbárie moderna que pode manifestar-se na violência urbana, no radicalismo, na crise de identidade, e na desintegração dos laços sociais. Os sinais estão lá, e muitos sentem que estamos vendo a história repetir-se, com o declínio chegando “pela porta dos fundos”.

O que se está a passar na América, e na Europa,  é algo profundamente humano, nesses ciclos de ascensão e queda. As civilizações, ao alcançar um certo apogeu, tornam-se complacentes, acreditando na permanência do status quo. Isso lembra também o filósofo Oswald Spengler, que via o declínio como uma fase inevitável de qualquer cultura, que, ao atingir seu ápice, entra em um período de desintegração. O dilema é que, no auge, é precisamente quando as elites estão menos dispostas a considerar a possibilidade de uma decadência – o que torna esse processo mais inevitável. Assim como Roma foi tomada pelas tribos "bárbaras" e a Europa medieval foi moldada pelas invasões e migrações, o mundo contemporâneo talvez esteja a caminho de enfrentar a sua própria versão disso. Resta saber se seremos capazes de aprender com a história para mitigar, ou ao menos preparar-nos, para o que já chegou e muitos de nós, como Elon Musk, ainda não se aperceberam. 

Portanto, ninguém pode garantir que já se ultrapassou a linha de não retorno para as convulsões interétnicas no seio da Europa e dos Estados Unidos, quiçá guerras civis.  As divisões parecem cada vez mais profundas, exacerbadas por fatores como desigualdade económica, crises migratórias, polarização política e perda de identidades nacionais ou comunitárias coesas. A história nos mostra que, em contextos semelhantes, esses fatores podem catalisar instabilidade severa, inclusive convulsões e, em casos extremos, conflitos civis. Na Europa, o impacto das ondas migratórias, combinado com a crescente dificuldade de integração e a percepção de "invasão cultural" em algumas partes da população, criou focos de tensão que as políticas de integração parecem incapazes de resolver. Nos Estados Unidos, a divisão entre grupos étnicos e ideológicos, somada à facilidade de acesso a armas, amplifica o potencial de violência interna. É verdade que muitos consideram qualquer previsão de "guerra civil" um exagero, mas, ao mesmo tempo, os recentes distúrbios urbanos, protestos massivos e tensões políticas indicam que o tecido social está cada vez mais desgastado.

Quando as pessoas perdem a fé numa identidade coletiva ou num projeto de nação, o sentido de "comunidade" desaparece. Esse vazio cria espaço para o surgimento de novas identidades fragmentadas, o que pode aumentar a desconfiança entre grupos e minar a paz social. Por complacência das elites, por hesitação ou recusa em enfrentar essas questões, o “ponto de não retorno” só é visível em retrospectiva. No entanto, sinais de alerta estão claros. A questão é se as sociedades ocidentais podem realizar reformas profundas e dolorosas para reverter as tensões. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Para onde irá a América?





Os 50 Estados Americanos estão cada vez mais polarizados numa relação de 27 "vermelhos" (Partido Republicano) e 23 "azuis" (Partido Democrata), onde cada grupo busca estabelecer legislações locais mais distantes dos valores do governo federal. Com o tempo, isso tem criado divisões cada vez mais intensas, com potencial para subversão organizada contra o governo central.

A derrota de Trump pode ser vista como um motivo para milícias e outros grupos extremistas aumentarem o seu arsenal e se prepararem para uma resistência ao que consideram uma "tirania das elites". A prontidão e treino desses grupos os deixam prontos para realizar ações subversivas, inclusive ataques coordenados contra infraestruturas críticas ou protestos armados. Em áreas de maior apoio ao trumpismo, especialmente em regiões rurais e no interior dos EUA, é possível que milícias armadas recebam apoio das comunidades locais, criando uma base de resistência mais ampla e dificultando a atuação de forças federais.




Assim, a vitória do Partido Democrata terá que o obrigar a mobilizar os movimentos de esquerda para enfrentar um embate sério com as milícias trumpistas. Teriam de ser os ativistas pelos direitos civis, e as organizações como o Black Lives Matter, a responder por isso. Ora, é um conflito que anuncia uma violência mútua como há muito não se via. A atmosfera de medo já está criada. E isto já para não falar na luta por causas que podem ter de ficar adiadas, tal como as reformas ambientais e as políticas de imigração.

Ao nível internacional, países como a Rússia e China podem explorar o clima de instabilidade para disseminar desinformação e ampliar divisões. Esses governos podem ver na polarização americana uma oportunidade para enfraquecer o país globalmente, promovendo ações subversivas indiretas e financiando narrativas polarizadoras – Pressão sobre a Liderança Global dos EUA. A instabilidade interna pode abalar a confiança dos aliados e minar a posição de liderança dos EUA no cenário internacional. A subversão interna dá um sinal de fraqueza e pode enfraquecer organizações como a OTAN, gerando dúvidas sobre o papel americano em conflitos e crises globais.

A divisão atual já é profunda, e um cenário de contestação contínua da legitimidade das eleições pode marcar o fim da estabilidade bipartidária tradicional nos EUA. A democracia americana pode tornar-se cada vez mais fragmentada, com partidos ou fações menores ganhando força e, possivelmente, provocando divisões permanentes no sistema partidário. Esse padrão gera uma cultura de instabilidade que pode, eventualmente, abrir espaço para tentativas de reformular o sistema, tornando-o mais vulnerável a regimes autoritários. Essa situação de subversão possível ilustra como a estabilidade democrática nos EUA está vulnerável. A democracia americana encontra-se num ponto de inflexão, onde os incentivos à subversão não desaparecem facilmente; pelo contrário, podem encontrar novos pretextos e estratégias, moldados pelas tensões existentes.

Por outro lado, é preocupante o excessivo poder de Elon Musk, que não sei se está a destruir a democracia tal como a conhecíamos na América. O poder crescente de Elon Musk em várias esferas levanta preocupações sobre a concentração de influência de um indivíduo na sociedade americana e em escala global. Ele controla diversas plataformas de peso — desde o X (antigo Twitter), onde a informação circula rapidamente e influencia milhões de pessoas, até a SpaceX e a Tesla, que têm impacto direto na economia, segurança e geopolítica.

Musk controla a comunicação digital em várias frentes. Desde que assumiu o X, ele tem implementado mudanças polémicas que, segundo críticos, reduzem a moderação de conteúdo e ampliam a disseminação de desinformação. Esse cenário cria um campo favorável para narrativas polarizadoras, muitas vezes de teor conspirativo, que podem minar a confiança nas instituições. Musk pode intervir no discurso público, promovendo determinados temas e pontos de vista. Isso afeta o debate político e reduz a pluralidade de vozes, ao passo que uma plataforma social como o X exerce pressão real sobre o pensamento coletivo e as atitudes públicas.

Com a SpaceX, Musk praticamente monopolizou o setor espacial americano, oferecendo suporte para operações militares e civis da NASA e do Departamento de Defesa. Isso o coloca numa posição única para influenciar decisões de defesa e explorar o espaço de forma que poucos podem contestar. Controlo de Infraestrutura Crítica (Starlink): O poder de Musk sobre a rede Starlink também lhe dá um poder significativo, inclusive em conflitos internacionais. No caso da Ucrânia, ele demonstrou a possibilidade de interferir na política externa dos EUA, pois controla a infraestrutura que, se bloqueada ou redirecionada, pode afetar diretamente a capacidade de comunicação de um país em conflito. As iniciativas de Musk em energia renovável, especialmente através da Tesla, fazem com que ele molde políticas e prioridades em sustentabilidade. Seu domínio no mercado de veículos elétricos e sistemas de energia solar coloca-o em uma posição de poder sobre a transição energética dos EUA, onde seus interesses comerciais podem influenciar a velocidade e a direção das mudanças.

Musk é conhecido por ser crítico das regulações que julga excessivas, e seu poder de influência pode gerar pressões para desregulamentar setores importantes. A Tesla, por exemplo, tem enfrentado resistências em relação às normas de segurança e questões laborais. Essa influência em áreas de regulação pública traz um risco, pois uma desregulamentação impulsionada por um grupo de interesses particulares pode enfraquecer a proteção ao consumidor e os direitos trabalhistas. O crescente poder de Elon Musk cria uma situação em que ele se torna uma espécie de "ator político" não-eleito, com acesso a setores estratégicos e a uma capacidade de moldar o discurso público, o que pode desequilibrar os mecanismos de controlo democrático e de participação. É compreensível a sua preocupação, já que essa situação evoca o risco de que uma democracia dependa excessivamente da visão e decisões de uma única figura, comprometendo o sistema de freios e contrapesos que é essencial para a democracia.

Um aspeto lateral, mais de ordem pessoal, ma que nos pode projetar para outo tipo de discussão, é o facto de o próprio Elon Musk ter confidenciado publicamente que lhe foi diagnosticado um certo grau do espectro autista, mais especificamente com uma forma de autismo leve, que alguns chamam de "síndrome de Asperger." Esta condição, de facto, muitas vezes envolve um padrão de funcionamento mental mais orientado para a lógica e o foco intenso em interesses específicos, e pessoas com Asperger podem apresentar dificuldades em identificar ou interpretar emoções alheias, o que afeta a chamada empatia emocional. Contudo, esse traço não significa necessariamente falta de empatia num sentido amplo, já que pessoas com Asperger podem possuir empatia cognitiva — a capacidade de entender logicamente as emoções e pensamentos dos outros, mesmo sem senti-los intensamente de forma intuitiva. No caso de Musk, alguns pontos podem ajudar a entender como ele consegue compatibilizar essa forma de funcionamento com seu enorme poder de influência.

Musk demonstra um interesse em causas amplas e de longo prazo, como a sustentabilidade e a colonização espacial, onde a sua visão estratégica é motivada mais pelo impacto a longo prazo do que pelas preocupações pessoais e imediatas. Essa abordagem, muitas vezes presente em indivíduos com Asperger, o ajuda a focar em projetos com repercussões amplas, em vez de em relações interpessoais, nas quais ele poderia encontrar maior dificuldade. Mesmo que a empatia emocional seja reduzida, a empatia cognitiva pode levar a decisões racionais que impactam positivamente a sociedade. Musk pode ser guiado por uma visão lógica e de princípios técnicos e científicos, como suas iniciativas com veículos elétricos para reduzir emissões de carbono. Dessa forma, ele impacta o público, mas o faz motivado pela lógica de um "bem maior", que ele percebe cognitivamente.

A comunicação direta e até considerada "brusca" que Musk frequentemente exibe é característica de muitas pessoas com Asperger, que tendem a evitar formalidades ou rodeios sociais. Ele foca em eficiência e solução de problemas, o que pode ser mal interpretado como insensibilidade, mas que é uma expressão do modo como ele compreende o mundo. Pessoas com Asperger costumam demonstrar um foco elevado em tarefas e no desempenho, características que podem levá-las a serem inovadoras e altamente eficientes. Em Musk, isso parece traduzir uma liderança intensa, voltada para resultados ambiciosos, que também o coloca como alguém muitas vezes indiferente às normas sociais estabelecidas.

Pessoas com Asperger frequentemente possuem uma capacidade extraordinária de concentração num tema de interesse, e Musk canaliza isso para a inovação. Sua obsessão por detalhes e melhoria contínua em tecnologias avançadas reflete essa característica. O foco pode parecer impessoal, mas o efeito em termos de inovação é evidente. Esse foco e persistência em superar obstáculos, que são comuns em pessoas com Asperger, têm permitido a Musk avançar em campos altamente complexos e difíceis, como viagens espaciais e energias renováveis. Em muitos casos, isso gera um impacto positivo na sociedade, mesmo que a motivação seja mais técnica e pessoal do que altruísta.

sábado, 2 de novembro de 2024

Obnóxios e movimentos conspirativos


A noção de "obnóxios" — pessoas consideradas insuportáveis ou odiosas, muitas vezes por se envolverem em ações excessivamente manipuladoras ou prejudiciais ao bem-estar social — ganha uma camada interessante no contexto dos movimentos conspirativos americanos. Nos Estados Unidos, teorias da conspiração têm sido perpetuadas por figuras influentes e extremistas, que frequentemente exibem traços obnóxios, minando a confiança pública nas instituições e na democracia. É a paranoia em grande escala.

Historicamente, a atração por teorias da conspiração nos EUA é um fenómeno profundamente enraizado, tendo como exemplos clássicos desde a "caça às bruxas" de Salem até o macartismo nos anos 1950. Mais recentemente, a internet e as redes sociais amplificaram essas tendências, permitindo que figuras de destaque e, muitas vezes, consideradas obnóxias, difundam teorias sem qualquer base sólida. Esses movimentos conspirativos exploram a desconfiança que muitos têm em relação ao governo, aos Média e às elites económicas. Narrativas sobre "estado profundo", fraude eleitoral e teorias anti vacinação tornaram-se frequentes, sobretudo com o apoio de algumas celebridades e políticos. Esses indivíduos e grupos defendem a ideia de que forças ocultas estão ativamente manipulando o cenário mundial, lançando mão de teorias cada vez mais absurdas que acabam gerando uma polarização social.

A popularidade desses movimentos conspirativos na América reflete, em grande medida, um contexto de fragmentação social e desilusão com o sistema político. A alienação, exacerbada pela complexidade de questões sociais e económicas contemporâneas, torna certos segmentos da sociedade suscetíveis a essas narrativas. Muitos que promovem essas teorias ganham destaque pelo estilo agressivo e provocador — um traço tipicamente obnóxio que eles usam para angariar seguidores e desacreditar vozes moderadas. Este fenómeno levanta sérios questionamentos sobre os rumos da democracia americana, pois muitos desses movimentos buscam subverter a confiança na democracia e enraizar um clima de confronto e desconfiança.

Uma espécie de paranoia em grande escala. Esses movimentos conspirativos transformaram a paranoia num fenómeno social massivo, onde o medo e a suspeita deixam de ser apenas preocupações individuais e se tornam parte de uma narrativa coletiva. Esse estado de paranoia coletiva na América parece ser alimentado por uma série de fatores, como a crise de confiança nas instituições, o sentimento de impotência diante de mudanças económicas e tecnológicas avassaladoras, e o isolamento cultural, tudo isso intensificado pela hiperconectividade das redes sociais. Essa mentalidade paranoica manifesta-se em diversas direções, desde a crença num "governo oculto" que supostamente controla o destino do país até a ideia de que a ciência está conspirando contra a liberdade individual, como se vê em movimentos anti vacina e em teorias sobre a “farsa” das mudanças climáticas. Em certo sentido, a paranoia cria uma sensação ilusória de controlo para os adeptos, que encontram nesses discursos uma explicação simples para problemas complexos e, de certa forma, um inimigo comum que eles acreditam ser capaz de derrotar.

Outro fator importante é o papel dos meios de comunicação alternativos e das redes sociais, que perpetuam e amplificam essa paranoia. Plataformas como Twitter (ou X), Facebook e fóruns como 4chan permitem que informações distorcidas sejam rapidamente espalhadas, muitas vezes sem qualquer tipo de verificação. Essas plataformas servem como câmaras de ressonância onde os utilizadores veem suas crenças reforçadas e polarizadas, o que acaba fomentando ainda mais o clima de paranoia. Este fenómeno revela um problema mais profundo, que envolve uma crise de sentido e de identidade: a paranoia torna-se uma tentativa desesperada de reconstruir um sentido de comunidade e propósito. Com o tempo, entretanto, essa paranoia em grande escala pode ter um efeito corrosivo, minando a capacidade de uma sociedade se unir em torno de valores compartilhados e de enfrentar desafios reais e urgentes. É um paradoxo cruel: enquanto os conspiradores temem um controlo absoluto, a paranoia em si acaba por controlá-los, separando-os cada vez mais da realidade.


Caso Donald Trump retorne à presidência dos Estados Unidos em 2024, vários impactos podem ser esperados, tanto no cenário interno quanto no externo. A América deve enfrentar uma série de tensões e direções que podem influenciar sua posição global e seus valores democráticos. Seu retorno poderia aumentar ainda mais a polarização entre os poderes legislativo, judiciário e executivo, o que poderia desgastar o equilíbrio institucional e a credibilidade dos processos eleitorais.

Se Donald Trump ganhar tentará consolidar uma estrutura administrativa mais alinhada com sua visão, promovendo aliados para postos-chave e minando a autonomia de agências como o Departamento de Justiça e o FBI. A independência das agências de fiscalização e regulamentação poderia ser afetada. Trump pode retornar com um forte enfoque em desregulamentação económica, favorecendo setores como o de combustíveis fósseis e promovendo cortes de impostos para empresas. Embora tais políticas possam estimular o crescimento a curto prazo, podem aumentar a desigualdade e impactar negativamente áreas como saúde e educação.

Isolacionismo e Pressão sobre Aliados é o que significa o slogan "América em primeiro lugar" e uma diminuição do comprometimento com alianças tradicionais, como a OTAN. Esse comportamento pode enfraquecer a posição dos Estados Unidos como líder global e abrir espaço para o fortalecimento de outras potências, como China e Rússia. É provável que Trump continue sua política de confrontação com a China, intensificando sanções comerciais e tecnológicas. Essa postura, embora possa ser vista como uma estratégia de contenção da influência chinesa, pode causar rupturas económicas globais.

Trump deve continuar com políticas rígidas em relação à imigração, o que pode gerar divisões na sociedade e pressão sobre comunidades imigrantes. Além disso, a questão do tratamento de refugiados e a construção de barreiras na fronteira com o México provavelmente estarão em destaque. Isso seria um Retrocesso em Direitos Humanos: Seu governo anterior implementou várias restrições em direitos de minorias, e um novo mandato pode ver uma continuidade dessas políticas, afetando direitos das comunidades LGBTQ+, por exemplo.

É possível que Trump enfraqueça a participação dos EUA em acordos climáticos internacionais, reduzindo ainda mais o engajamento do país na luta contra as mudanças climáticas e promovendo políticas que favoreçam combustíveis fósseis em detrimento de energias renováveis. A falta de comprometimento com políticas de sustentabilidade pode não só impactar negativamente a imagem internacional dos Estados Unidos, mas também dificultar uma resposta global coordenada às crises climáticas.

A figura polarizadora de Trump e suas políticas intensificaram divisões sociais. Um retorno ao poder poderia consolidar essas fraturas, com o risco de radicalizar ainda mais os discursos e até de impulsionar conflitos entre grupos extremistas e aqueles que defendem a diversidade e a inclusão. Durante o seu governo, Trump frequentemente atacou a imprensa, chamando jornalistas de "inimigos do povo". Um segundo mandato poderia colocar ainda mais pressão sobre o mundo mediático independente e fortalecer o controlo narrativo, o que levantaria sérias questões sobre a liberdade de expressão.