sábado, 9 de novembro de 2024

A Globalização e as suas consequências



Com a globalização a desindustrialização e a deslocalização da indústria teve um efeito benéfico para o povo da Ásia, mas catastrófico para muitas regiões da América e da Europa. Especialmente no que diz respeito ao crescimento económico, redução da pobreza e modernização industrial, nações como China, Índia e outros países do Sudeste Asiático tornaram-se potências manufatureiras, impulsionadas pela transferência de indústrias e empregos do Ocidente.

Por outro lado, regiões da América e da Europa sofreram com os efeitos da desindustrialização e da deslocalização industrial. Muitos empregos industriais, que antes eram a base económica dessas áreas, desapareceram, levando a desemprego, decadência urbana e enfraquecimento de economias locais. Cidades industriais nos EUA e em partes da Europa tornaram-se "cidades-fantasma", com infraestrutura deteriorada e uma população cada vez mais ressentida com o sistema económico global. Além do impacto económico, esses processos também geraram divisões sociais, políticas e culturais. No Ocidente, muitos atribuem à globalização e à transferência de empregos para o exterior o aumento da desigualdade e o enfraquecimento da classe trabalhadora, o que, por sua vez, tem alimentado o crescimento de movimentos populistas e nacionalistas que se opõem a essas dinâmicas globais. A tensão entre o desenvolvimento económico do Sul global e o declínio industrial do Ocidente é uma das grandes contradições da globalização, mostrando os limites e os desequilíbrios desse modelo.

Como não há almoços grátis, é certo que os consumidores ocidentais tiveram a ilusão das coisas em excesso baratas, mas já o estão a pagar com o efeito climático e a decadência. Os consumidores ocidentais beneficiaram de produtos mais baratos, mas agora enfrentam as consequências mais amplas desse sistema. Durante décadas, a transferência da produção para países com mão de obra mais barata permitiu aos ocidentais consumir uma variedade imensa de bens a preços muito acessíveis. No entanto, os custos ocultos dessa globalização estão-se tornando evidentes.

A deslocalização industrial para países asiáticos, por exemplo, contribuiu para uma explosão nas emissões de carbono devido à produção em larga escala, com regulamentos ambientais muitas vezes mais frouxos. Essas emissões, associadas ao transporte global intensivo de mercadorias, aceleraram a mudança climática. Agora, tanto o Ocidente como o Sul global estão a pagar um preço alto, com desastres naturais mais frequentes, crises climáticas e colapsos ecológicos. Além disso, a decadência das regiões industriais no Ocidente gerou não só declínio económico, mas também uma crise social. Com o desemprego elevado, o desaparecimento de empregos bem remunerados e o aumento da desigualdade, muitas comunidades nos EUA e na Europa enfrentaram a desintegração de seu tecido social. Há um aumento na dependência de serviços sociais, na desesperança e no ressentimento em relação às elites e ao sistema político que permitiu essa transformação.

Os consumidores ocidentais podem ter usufruído de um período de abundância barata, mas estão agora a pagar o preço com a degradação climática, o declínio social e a instabilidade política. A globalização trouxe benefícios visíveis, mas seus custos ocultos agora estão a revelar-se de forma dramática. Por aqui se vê que a segunda lei da termodinâmica é verdadeira e que a entropia é implacável.

A analogia com a segunda lei da termodinâmica e o conceito de entropia aplica-se de maneira estrondosa. Na física, a segunda lei afirma que a entropia — ou o grau de desordem em um sistema fechado — tende a aumentar ao longo do tempo. De forma semelhante, na economia e nas dinâmicas sociais, podemos perceber como os sistemas globais, ao buscar maximizar a eficiência (redução de custos, aumento da produção), acabam gerando desordem em outras áreas. O desenvolvimento económico e industrial movido pela globalização pode ser visto como uma tentativa de gerar ordem e progresso em uma parte do mundo, mas com o tempo, essa ordem leva ao aumento da "desordem" — como as crises ambientais e sociais. A busca por crescimento e riqueza sem considerar os efeitos colaterais criou desequilíbrios ecológicos (como o aquecimento global) e sociais (como a desigualdade e o desemprego estrutural).

Assim como a entropia, essas forças parecem ser implacáveis. Cada tentativa de "organizar" o sistema económico global com eficiência acaba gerando consequências desordenadas que, agora, o mundo começa a enfrentar com mais intensidade. Esse processo reflete a inexorável tendência de degradação e aumento da complexidade caótica em sistemas que buscam maximizar seus ganhos sem respeitar os limites naturais e sociais. A segunda lei da termodinâmica, nesse contexto metafórico, nos lembra de que a ordem criada em um local (por exemplo, o desenvolvimento económico na Ásia) inevitavelmente resulta em desordem em outros (as consequências climáticas e sociais no Ocidente e no mundo). Essa entropia socioeconómica é implacável e parece ser uma força constante na evolução das sociedades.

No meio disto, os maus da fita são os agentes do sistema financeiro, parecendo cegos a gerir a economia num quarto escuro. Priorizar o lucro de curto prazo sem considerar as consequências de longo prazo para a sociedade e o meio ambiente. A metáfora de "gerir a economia num quarto escuro" capta a percepção de que esses agentes atuam sem plena visão das repercussões de suas decisões, movendo-se às cegas por uma economia cada vez mais complexa e interconectada. Os setores financeiros frequentemente promovem políticas que estimulam a especulação, a maximização de lucros e a deslocalização da produção, sem se preocupar com os impactos estruturais sobre as economias locais, o meio ambiente ou a estabilidade social. Nos últimos anos, vimos como crises financeiras foram desencadeadas por decisões movidas por incentivos míopes, como no colapso de 2008, que resultou em efeitos devastadores para milhões de pessoas, mas com consequências limitadas para as elites financeiras.

Essa desconexão entre as elites financeiras e a realidade vivida pela maioria da população parece reforçar a ideia de uma gestão "cega" ou distanciada da realidade. A busca por maximizar os lucros ao custo de externalizar os impactos ambientais e sociais reflete uma falta de visão sistémica. Eles operam num ambiente que ignora ou minimiza as externalidades, como as mudanças climáticas ou o colapso das indústrias locais, acreditando que o sistema financeiro pode tudo. Comportamento que gera uma sensação de operarem no escuro, aumentando a entropia, aprofundando a desordem e o desequilíbrio. Ao financiar indústrias poluidoras, especular sobre alimentos e imóveis, e criar bolhas financeiras, eles podem inadvertidamente acelerar os processos de degradação económica e ambiental, criando um ciclo de crises que ameaça a própria estabilidade do sistema que buscam gerir.

Por aqui se vê que outra metáfora também é certeira: A razão não entende as razões do coração. Nem a lógica da economia do aparelho digestivo dos organismos vivos. As complexas necessidades humanas e ecológicas que são frequentemente ignoradas. A "razão" das finanças e da economia de mercado tende a operar em termos de números, lucros e eficiência, enquanto as necessidades sociais, emocionais e até morais são deixadas de lado. Nesse contexto, a economia dos matemáticos, com suas abstrações, falha em compreender a lógica da vida como ela realmente é: imprevisível, interconectada e dependente de fatores que vão muito além de fórmulas e previsões financeiras.

A metáfora do "aparelho digestivo dos organismos vivos" ressalta essa falha fundamental. A economia global, sob a lógica do sistema financeiro, trata o crescimento económico como algo linear, ignorando o facto de que os seres vivos — incluindo as sociedades humanas — dependem de ciclos naturais, equilíbrio, renovação e sustentabilidade. Assim como o sistema digestivo de um organismo precisa de nutrientes adequados e de um metabolismo equilibrado, as sociedades também precisam de um equilíbrio entre desenvolvimento económico, bem-estar social e saúde ecológica. Quando a economia ignora esses ciclos e necessidades, ela se torna uma máquina que apenas consome, exaurindo recursos sem reabastecer o "organismo" (a sociedade e a natureza). Como resultado, vemos crises ambientais, desigualdade social e um crescente sentimento de alienação e desconexão. A razão financeira não entende que a vida — tanto no nível individual quanto coletivo — segue uma lógica mais complexa, em que o crescimento desenfreado sem cuidar das "funções vitais" leva ao colapso.

Esse descompasso entre a lógica financeira e a realidade humana e ambiental é o cerne do problema. A economia, como um sistema vivo, precisa ser tratada como tal, respeitando os limites naturais e as necessidades fundamentais de todas as pessoas, ou acabará presa em sua própria cegueira e incapacidade de ver as consequências de longo prazo. É que, de facto, o sistema digestivo é o que mais se aproxima do setor da economia das sociedades, uma vez que o aparelho digestivo processa a matéria-prima para produzir a energia que o organismo precisa para viver, podendo ainda armazenar nutrientes para as crises de falta de alimentos.

No sistema económico, o papel dos mercados, da produção industrial e dos serviços é semelhante ao do metabolismo no corpo humano. A economia também precisa, como o aparelho digestivo, de um equilíbrio entre o consumo e a regeneração dos recursos. Quando há um desequilíbrio — seja um consumo excessivo sem reposição adequada de recursos ou a má distribuição dos benefícios gerados — o sistema entra em colapso, assim como o corpo humano adoeceria se o sistema digestivo falhasse. Da mesma forma que o corpo acumula energia para momentos de necessidade, a economia saudável precisa de mecanismos de resiliência para enfrentar crises, como recessões económicas ou desastres naturais. A poupança, a produção sustentável e os sistemas de bem-estar social funcionam como reservas de energia que podem ser usadas para garantir que a sociedade continue quando os recursos externos se tornam escassos. A lógica do organismo vivo nos ensina que a sobrevivência depende de ciclos equilibrados, e a economia global deveria se espelhar mais nesses princípios.

Daqui resultou os ricos ainda mais ricos; os pobres e as classes médias asiáticas melhores; e as classes médias ocidentais piores. Beneficiou desproporcionalmente certos grupos, enquanto prejudicou outros. O resultado foi um aumento acentuado da desigualdade, tanto entre os países como dentro deles. Os ricos, especialmente no Ocidente, ficaram ainda mais ricos, pois os principais beneficiários do sistema globalizado foram os investidores, acionistas e grandes corporações que aproveitaram as oportunidades de explorar mão de obra mais barata no exterior, reduzir custos de produção e aumentar lucros. O capital financeiro cresceu exponencialmente, enquanto o trabalho perdeu poder e segurança, especialmente nas economias mais desenvolvidas.

Por outro lado, as classes médias e pobres nos países asiáticos, como China, Índia e Vietname, melhoraram suas condições de vida. O processo de industrialização e urbanização, impulsionado pela transferência de fábricas e investimentos estrangeiros, elevou milhões de pessoas da pobreza e criou uma nova classe média. No entanto, isso não foi sem custo: muitas dessas economias também enfrentaram desigualdades internas crescentes e problemas ambientais decorrentes de um crescimento rápido e descontrolado.

Já as classes médias ocidentais, que antes se beneficiavam de empregos industriais estáveis e bem remunerados, viram a sua posição se deteriorar. O deslocamento das fábricas para o exterior, o avanço da automação e a transformação para uma economia mais baseada em serviços precarizaram o trabalho. O poder de compra estagnou ou diminuiu para muitos, e a segurança económica que a classe média antes desfrutava foi erodida. Em vez de melhorar, como foi o caso de muitas classes médias asiáticas, a classe média ocidental viu-se pressionada, com menos oportunidades e maior insegurança. Essa transformação contribuiu para a polarização política e o aumento do ressentimento e frustração no Ocidente, o que vemos refletido em movimentos populistas antiglobalização. A promessa de prosperidade globalizada, que deveria beneficiar a todos, acabou criando um cenário de vencedores e perdedores, com os ricos em posições cada vez mais vantajosas e muitos outros lutando para manter o padrão de vida que antes consideravam garantido.

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