quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Moderados. Extremistas. Malformações cívicas



O facto de alguém ter sido um preso político, embora possa ser indicativo de uma resistência a um regime opressor ou injusto, não deve, por si só, conferir uma autoridade moral absoluta sobre os outros, especialmente quando essa experiência é usada para exibir superioridade. A experiência de ser preso político pode ser um símbolo de coragem e convicção, mas isso não significa que a visão de mundo de uma pessoa que passou por essa experiência seja a única válida ou infalível. Um moderado, que não passou por essas circunstâncias extremas, não é automaticamente menos comprometido com a justiça ou com a verdade. Em muitos casos, o moderado pode estar buscando um caminho de reconciliação, diálogo e ponderação que é fundamental para evitar novos ciclos de radicalização e violência.

Por outro lado, é comum que quem sofreu sob um regime opressor ou em uma situação extrema sinta que suas experiências justificam uma postura mais radical, e essa perspectiva muitas vezes pode ser utilizada para invalidar ou deslegitimar vozes mais conciliatórias. No entanto, isso pode levar a uma espécie de arrogância moral quando o sofrimento pessoal é utilizado como justificação para uma postura intransigente, excluindo a possibilidade de que outras pessoas, com experiências diferentes, possam contribuir com visões igualmente válidas. Além disso, o facto de um indivíduo não ter sido preso ou perseguido politicamente não o torna menos comprometido com a liberdade, a justiça ou os direitos humanos. Muitas vezes, os moderados são fundamentais para construir pontes e propor soluções que evitem o colapso completo das sociedades em conflitos contínuos. É essencial que as discussões políticas e sociais sejam conduzidas com respeito mútuo e com o reconhecimento de que experiências diferentes — sejam elas de resistência, sofrimento ou moderação — podem todas trazer contribuições importantes. Diminuir a posição de alguém só porque essa pessoa não passou por certas provações é uma forma de exclusão e fechamento ao diálogo, algo que não serve ao progresso coletivo.

O mesmo acontece entre aqueles que descem à rua para manifestar com cartazes "fascismo nunca mais" quando não há indícios de fascismo nenhum. Esse fenómeno reflete uma tendência de usar termos carregados de conotação histórica e emocional, como "fascismo", de maneira exagerada e, muitas vezes, descontextualizada. O uso indiscriminado de conceitos como "fascismo", "nazismo" ou "ditadura" para descrever situações políticas que não possuem uma correlação real com esses fenómenos acaba por diluir o significado desses termos e, pior ainda, cria uma atmosfera de paranoia e polarização. Quando indivíduos ou grupos descem às ruas com slogans como "fascismo nunca mais" em contextos onde não há indícios claros de um retorno real ao fascismo, frequentemente o que está em jogo é uma tentativa de rotular adversários políticos de forma simplista. Isso não apenas distorce a realidade, mas também impede um debate honesto e construtivo sobre as questões reais que afetam a sociedade. Ao utilizar o termo "fascismo" de maneira inflacionada, aqueles que o fazem muitas vezes minam a seriedade de eventos históricos trágicos e complexos, reduzindo-os a armas retóricas.

Essa tendência também cria uma espécie de histeria moral, onde qualquer movimento, partido ou pessoa que não se alinhe perfeitamente com uma determinada visão ideológica é automaticamente rotulado como fascista ou autoritário. Isso desqualifica o diálogo democrático e cria uma falsa dicotomia, onde qualquer crítica ou posição moderada é vista como uma forma de cumplicidade com o "fascismo". Tal simplificação é perigosa, pois não só polariza o discurso público, mas também impede a capacidade de lidar com ameaças reais à liberdade e à democracia quando elas surgem de facto. Ademais, o uso indevido desse tipo de retórica pode acabar banalizando o termo "fascismo". Quando qualquer divergência política é rapidamente enquadrada como uma ameaça fascista, as pessoas podem começar a desconsiderar o alerta real quando uma ameaça verdadeira surgir. O fascismo histórico, com toda sua brutalidade e repressão, é um evento que merece ser lembrado e combatido, mas utilizá-lo como uma ferramenta de disputa política sem base real enfraquece a própria luta contra o autoritarismo. Por conseguinte, a manifestação pública e a resistência são essenciais numa democracia, mas devem ser fundamentadas na realidade e nos factos. Quando as manifestações são movidas por slogans exagerados ou deslocados, corremos o risco de perder de vista os problemas reais que devem ser enfrentados e as soluções que devem ser buscadas.

Não deixa de ser curioso o facto de o fascismo ter nascido em Itália com o propósito de fazer a síntese entre nacionalismo e socialismo. Essa origem do fascismo é muitas vezes ignorada ou mal compreendida. Quando Benito Mussolini fundou o movimento fascista na Itália, ele buscava precisamente criar uma síntese entre o nacionalismo e o socialismo, embora o resultado se tenha desviado significativamente do propósito original. Mussolini, antes de se tornar líder fascista, era um socialista revolucionário e até editor de um jornal socialista. No entanto, ao romper com o movimento socialista internacional, especialmente devido à sua oposição ao pacifismo e a sua defesa do intervencionismo italiano na Primeira Guerra Mundial, ele começou a conceber uma nova ideologia que combinasse elementos do socialismo com o nacionalismo.

O fascismo, em sua forma inicial, pretendia atrair simultaneamente trabalhadores e empresários, propondo um "terceiro caminho" que rejeitava o capitalismo liberal e o comunismo. O Estado fascista deveria ser autoritário, corporativista e militarista, mas sem abolir a propriedade privada, algo diferente do socialismo da União Soviética. A ideia era criar uma economia de cooperação entre classes, mediada pelo Estado, onde os interesses dos trabalhadores e empresários seriam harmonizados, todos unidos em nome do bem da nação. Esse corporativismo fascista buscava integrar todos os setores da sociedade sob o controlo do Estado, eliminando o conflito de classes.

A tentativa de fazer essa síntese entre o nacionalismo — que exaltava a nação e o Estado como entidade máxima — e o socialismo — que pretendia uma justiça social e intervenção estatal — resultou numa ideologia que, em essência, defendia um Estado forte, militarizado, com poder centralizado, disposto a intervir em todas as esferas da vida. A retórica de Mussolini misturava elementos populistas que falavam aos pobres e à classe média, com o objetivo de forjar uma comunidade nacional unificada. O fascismo, no entanto, acabou por se afastar de qualquer objetivo socialista real, tornando-se uma força profundamente reacionária e autoritária, focada na repressão política. Sua promessa de resolver as tensões de classe foi rapidamente substituída pela construção de uma ditadura onde o Estado controlava a vida social e política, ao mesmo tempo que permitia as elites económicas manterem o seu poder, desde que obedecessem ao regime.

A ironia dessa origem do fascismo como uma "síntese" entre nacionalismo e socialismo é que o termo "fascismo" é frequentemente utilizado como sinónimo de extrema direita reacionária, mas a sua génese foi muito mais complexa. Mussolini manipulou o discurso socialista e nacionalista para consolidar o seu poder, mas o resultado final foi um regime totalitário, militarista e expansionista, muito distante dos ideais de justiça social que, originalmente, poderiam ter sido associados ao socialismo. Essa complexidade inicial ajuda a entender como o fascismo foi capaz de atrair diferentes grupos sociais em sua ascensão, mas também revela como ele traiu as suas promessas iniciais ao se tornar uma máquina de poder e repressão. De certo modo o fascismo italiano nasce de uma reação ao comunismo que havia nascido primeiro na Rússia. O fascismo italiano, em muitos aspectos, surgiu como uma reação ao comunismo e à revolução bolchevique que ocorreu na Rússia em 1917. A ascensão do comunismo despertou temores entre as elites e as classes médias em toda a Europa, incluindo a Itália, onde muitos viam a Revolução Russa como uma ameaça ao capitalismo, à ordem social e à estabilidade política.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália enfrentou uma grave crise económica e social, com altas taxas de desemprego, descontentamento popular e uma crescente radicalização da classe trabalhadora. O movimento socialista ganhou força, e a possibilidade de uma revolução semelhante à russa começou a ser discutida. Isso gerou uma sensação de urgência e medo entre muitos setores da sociedade, que viam o comunismo como uma ameaça direta. O fascismo, então, se apresentou como uma alternativa ao socialismo, prometendo restaurar a ordem, promover o nacionalismo e unir a sociedade sob uma bandeira comum, em oposição à divisão de classes promovida pelos socialistas. Mussolini e seus apoiantes conseguiram atrair uma ampla base, incluindo industriais, proprietários de terras, ex-combatentes da guerra e até alguns trabalhadores descontentes, todos preocupados com o potencial de uma revolução comunista. Essa reação ao comunismo também levou o fascismo a adotar uma retórica antissocialista e a usar a violência como uma ferramenta para reprimir movimentos de esquerda, como os sindicatos e os partidos socialistas. Os Camisas Negras, as milícias paramilitares do fascismo, foram criadas especificamente para confrontar e eliminar a oposição socialista e comunista nas ruas.

Assim, o fascismo italiano pode ser visto como uma resposta não apenas ao contexto político e económico da época, mas também como um movimento que se alimentou do medo do comunismo e da necessidade de muitos setores da sociedade de encontrar uma solução autoritária que prometesse estabilidade e ordem em meio ao caos social. Essa dinâmica de reação ao comunismo foi uma das características fundamentais que moldaram o fascismo e sua ascensão ao poder na Itália. E é interessante verificar que aqueles que ainda hoje exibem cartazes, a assustar com o fascismo nas manifestações de rua, são ainda elementos dos residuais partidos políticos com o nome de comunista.

É realmente interessante observar como essa dinâmica persiste. Muitas das manifestações contra o "fascismo" hoje em dia são, de facto, organizadas por grupos ou partidos que se identificam como comunistas ou de esquerda radical. Esses grupos frequentemente utilizam o termo "fascismo" para descrever as suas oposições políticas, seja em relação a partidos de direita, governos conservadores ou movimentos populistas. Essa continuidade tem, de facto, raízes históricas profundas. No entanto, a forma como esses termos são aplicados e as situações em que são usados hoje em dia muitas vezes carecem de uma análise crítica. Muitos dos que empunham cartazes contra o fascismo podem estar motivados por uma genuína preocupação com os direitos humanos e as liberdades civis, especialmente num contexto onde existem, de facto, crescentes tendências autoritárias em várias partes do mundo. No entanto, o uso excessivo e muitas vezes impreciso do termo "fascismo" pode ofuscar a realidade e dificultar um debate construtivo sobre os desafios contemporâneos.

Além disso, a polarização que isso provoca pode levar a um ciclo de hostilidade, onde o diálogo se torna quase impossível. Aqueles que se identificam como comunistas podem ver em qualquer movimento ou ideologia à sua direita uma continuidade do fascismo, enquanto aqueles à direita muitas vezes reagem a essa acusação reforçando as suas próprias posições. Esse fenómeno cria um ambiente em que os mais ignorantes ou fundamentalistas se fiquem por dicotomias maniqueístas. Assim, enquanto a luta contra o fascismo é uma questão legítima e importante, a forma como ela é abordada por grupos de esquerda muitas vezes reflete não apenas um legado histórico, mas também uma abordagem que pode limitar a eficácia do ativismo contemporâneo e a possibilidade de construir coligações mais amplas em defesa da democracia e dos direitos humanos.

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