Reunião de países membros do BRICS - Kazan, Rússia
31 de outubro 2024
31 de outubro 2024
Trinta e seis nações reuniram-se em Kazan sob os auspícios de Putin e Xi Jinping. O presidente da China ressaltou que a ascensão coletiva do Sul Global é a principal característica da transformação pela qual passa o mundo - “Os países do Sul Global marchando juntos em direção à modernização é monumental na história mundial e sem precedentes na civilização humana”. O Sul Global é mais um ideário político do que geográfico, porque senão teríamos de perguntar o que faz lá a Rússia, e de certo modo a China também. "Sul Global" é um sucedâneo do termo "Terceiro Mundo" usado para se referir aos países pobres ou emergentes que, em sua maioria, estão no Hemisfério Sul do planeta.
O ideário do Sul Global pretende ser um contrapoder do Ocidente. O Ocidente sempre foi visto, mas agora duma forma mais convincente, como um arrogante, por querer, com ar de superioridade, impingir os seus valores aos outros países e culturas diversas, como a democracia liberal, as liberdades individuais e os direitos humanos. Ora, esse países, que durante séculos foram colonizados e submetidos, possuem histórias e sistemas de valores completamente diferentes. Essa abordagem pode ser considerada uma forma de arrogância, pois pressupõe que o modelo ocidental é universalmente aplicável e superior, independentemente do contexto cultural ou das tradições locais que colocam o bem-estar coletivo acima das liberdades individuais. Na China, por exemplo, há uma longa tradição confuciana que valoriza a harmonia social, o respeito à autoridade e o dever para com a comunidade, e essa herança molda a mundividência de muitos chineses.
Quando o Ocidente tenta impor as suas ideias de forma egocêntrica e universalista, isso pode parecer ingénuo e desrespeitoso para culturas que se veem como igualmente sofisticadas, com uma rica tradição e uma compreensão diferente da relação entre o indivíduo e a sociedade. É um exemplo de como o etnocentrismo ocidental pode ser tanto ridículo quanto contraproducente, porque desconsidera que outras civilizações também têm as suas próprias formas de lidar com os desafios sociais e éticos, muitas vezes com um sucesso que o Ocidente, em seu próprio contexto, ainda não conseguiu alcançar plenamente.
Essa tendência ocidental também pode ser vista como uma forma de neocolonialismo cultural, onde se tenta impor valores e sistemas políticos sob a justificação de uma suposta superioridade moral. Historicamente, isso não apenas gerou ressentimentos, mas também contribuiu para conflitos e resistências ao redor do mundo, onde povos e nações resistem à ideia de se submeterem a um modelo ocidental que, para eles, não faz sentido ou que simplesmente não responde às suas necessidades e prioridades locais. Ao mesmo tempo, é importante considerar que muitos desses valores ocidentais, como os direitos humanos e as liberdades individuais, têm uma importância universal em termos de dignidade e respeito pelo indivíduo. No entanto, a insistência em sua adoção sem uma sensibilidade cultural e uma adaptação ao contexto local é o que frequentemente transforma um ideal nobre numa expressão de arrogância e egocentrismo ocidentais.
À luz das crises demográficas e climáticas que estamos enfrentando, as sensibilidades culturais locais parecem estar mais conectadas à realidade do que as abstrações universalistas promovidas pelo Ocidente. As sociedades que valorizam o coletivo e têm uma ligação mais estreita com suas tradições culturais tendem a ser mais resilientes e adaptáveis diante de desafios globais, em parte porque suas soluções são moldadas por uma experiência histórica e um contexto cultural específicos. A crise demográfica na Europa é um exemplo claro de como os valores individualistas e a busca por um padrão de vida elevado podem ter levado a uma queda nas taxas de natalidade, à medida que as prioridades se voltaram para a realização pessoal, o sucesso profissional e o consumo material. Este foco no indivíduo e na autonomia pessoal, embora libertador em muitos aspectos, também pode gerar um certo isolamento social e uma desconexão das responsabilidades coletivas, levando a uma fragilidade demográfica.
Ao mesmo tempo, a crise climática expõe a tensão entre a necessidade de ação coletiva e o comportamento individualista e consumista incentivado pelas sociedades ocidentais. As culturas que têm uma abordagem mais holística e integrada em relação à natureza, como muitas sociedades indígenas e algumas culturas asiáticas, frequentemente demonstram uma maior sensibilidade em relação à sustentabilidade e ao equilíbrio ecológico. Essas culturas são menos propensas a ver a natureza como um recurso a ser explorado infinitamente e mais inclinadas a manter um relacionamento respeitoso e regenerativo com o meio ambiente.
O ideal universalista ocidental, embora nascido de princípios iluministas que visam promover a liberdade e a igualdade, às vezes cai na armadilha de abstrações que perdem o contacto com as realidades concretas e contextuais das diferentes sociedades. A tentativa de aplicar soluções universais para problemas que são profundamente locais e culturais frequentemente falha em captar a complexidade da situação e acaba por ser percebida como uma forma de imposição ou arrogância. Essa visão sugere que, em tempos de crise, as soluções podem ser mais eficazes quando ancoradas em práticas e valores culturais locais, que refletem uma maior harmonia com as necessidades específicas das comunidades. Talvez o caminho a seguir devesse envolver uma integração entre essas sensibilidades culturais e uma reavaliação crítica dos princípios universalistas, adaptando-os para respeitar as diversidades e especificidades dos diferentes contextos globais.
O fim do Império Romano ou o colapso da União Soviética oferecem lições valiosas sobre os padrões de declínio de sociedades complexas. Esses exemplos históricos mostram que as civilizações não caem de repente; o declínio é um processo gradual que envolve uma série de fatores, como crises económicas, pressão externa, degradação interna das instituições e a perda de coesão social e cultural. O Império Romano, por exemplo, enfrentou uma combinação de problemas internos, como corrupção, desigualdade social crescente, esgotamento económico e uma crise de identidade cultural, enquanto também sofria pressões externas com as invasões bárbaras. A perda de uma narrativa unificadora e uma visão de futuro também contribuiu para o seu declínio, tornando-o vulnerável a mudanças que minaram suas bases. A União Soviética colapsou sob o peso das próprias contradições internas — a ineficiência económica, a corrupção, a estagnação política e a desconexão entre a elite governante e as necessidades reais da população. Além disso, as pressões externas, como a corrida armamentista e a concorrência ideológica com o Ocidente, contribuíram para acelerar o processo de desintegração.
Quando olhamos para a civilização euroamericana contemporânea, vemos alguns padrões semelhantes: desafios económicos e sociais profundos, uma crescente polarização política, uma crise de identidade cultural e uma dificuldade em responder de maneira coesa às ameaças globais, como a crise climática e as mudanças demográficas. Esse declínio pode ser intensificado pelo individualismo exacerbado e pela falta de uma visão unificadora que inspire a sociedade a enfrentar coletivamente esses desafios.
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