sábado, 2 de novembro de 2024

Obnóxios e movimentos conspirativos


A noção de "obnóxios" — pessoas consideradas insuportáveis ou odiosas, muitas vezes por se envolverem em ações excessivamente manipuladoras ou prejudiciais ao bem-estar social — ganha uma camada interessante no contexto dos movimentos conspirativos americanos. Nos Estados Unidos, teorias da conspiração têm sido perpetuadas por figuras influentes e extremistas, que frequentemente exibem traços obnóxios, minando a confiança pública nas instituições e na democracia. É a paranoia em grande escala.

Historicamente, a atração por teorias da conspiração nos EUA é um fenómeno profundamente enraizado, tendo como exemplos clássicos desde a "caça às bruxas" de Salem até o macartismo nos anos 1950. Mais recentemente, a internet e as redes sociais amplificaram essas tendências, permitindo que figuras de destaque e, muitas vezes, consideradas obnóxias, difundam teorias sem qualquer base sólida. Esses movimentos conspirativos exploram a desconfiança que muitos têm em relação ao governo, aos Média e às elites económicas. Narrativas sobre "estado profundo", fraude eleitoral e teorias anti vacinação tornaram-se frequentes, sobretudo com o apoio de algumas celebridades e políticos. Esses indivíduos e grupos defendem a ideia de que forças ocultas estão ativamente manipulando o cenário mundial, lançando mão de teorias cada vez mais absurdas que acabam gerando uma polarização social.

A popularidade desses movimentos conspirativos na América reflete, em grande medida, um contexto de fragmentação social e desilusão com o sistema político. A alienação, exacerbada pela complexidade de questões sociais e económicas contemporâneas, torna certos segmentos da sociedade suscetíveis a essas narrativas. Muitos que promovem essas teorias ganham destaque pelo estilo agressivo e provocador — um traço tipicamente obnóxio que eles usam para angariar seguidores e desacreditar vozes moderadas. Este fenómeno levanta sérios questionamentos sobre os rumos da democracia americana, pois muitos desses movimentos buscam subverter a confiança na democracia e enraizar um clima de confronto e desconfiança.

Uma espécie de paranoia em grande escala. Esses movimentos conspirativos transformaram a paranoia num fenómeno social massivo, onde o medo e a suspeita deixam de ser apenas preocupações individuais e se tornam parte de uma narrativa coletiva. Esse estado de paranoia coletiva na América parece ser alimentado por uma série de fatores, como a crise de confiança nas instituições, o sentimento de impotência diante de mudanças económicas e tecnológicas avassaladoras, e o isolamento cultural, tudo isso intensificado pela hiperconectividade das redes sociais. Essa mentalidade paranoica manifesta-se em diversas direções, desde a crença num "governo oculto" que supostamente controla o destino do país até a ideia de que a ciência está conspirando contra a liberdade individual, como se vê em movimentos anti vacina e em teorias sobre a “farsa” das mudanças climáticas. Em certo sentido, a paranoia cria uma sensação ilusória de controlo para os adeptos, que encontram nesses discursos uma explicação simples para problemas complexos e, de certa forma, um inimigo comum que eles acreditam ser capaz de derrotar.

Outro fator importante é o papel dos meios de comunicação alternativos e das redes sociais, que perpetuam e amplificam essa paranoia. Plataformas como Twitter (ou X), Facebook e fóruns como 4chan permitem que informações distorcidas sejam rapidamente espalhadas, muitas vezes sem qualquer tipo de verificação. Essas plataformas servem como câmaras de ressonância onde os utilizadores veem suas crenças reforçadas e polarizadas, o que acaba fomentando ainda mais o clima de paranoia. Este fenómeno revela um problema mais profundo, que envolve uma crise de sentido e de identidade: a paranoia torna-se uma tentativa desesperada de reconstruir um sentido de comunidade e propósito. Com o tempo, entretanto, essa paranoia em grande escala pode ter um efeito corrosivo, minando a capacidade de uma sociedade se unir em torno de valores compartilhados e de enfrentar desafios reais e urgentes. É um paradoxo cruel: enquanto os conspiradores temem um controlo absoluto, a paranoia em si acaba por controlá-los, separando-os cada vez mais da realidade.


Caso Donald Trump retorne à presidência dos Estados Unidos em 2024, vários impactos podem ser esperados, tanto no cenário interno quanto no externo. A América deve enfrentar uma série de tensões e direções que podem influenciar sua posição global e seus valores democráticos. Seu retorno poderia aumentar ainda mais a polarização entre os poderes legislativo, judiciário e executivo, o que poderia desgastar o equilíbrio institucional e a credibilidade dos processos eleitorais.

Se Donald Trump ganhar tentará consolidar uma estrutura administrativa mais alinhada com sua visão, promovendo aliados para postos-chave e minando a autonomia de agências como o Departamento de Justiça e o FBI. A independência das agências de fiscalização e regulamentação poderia ser afetada. Trump pode retornar com um forte enfoque em desregulamentação económica, favorecendo setores como o de combustíveis fósseis e promovendo cortes de impostos para empresas. Embora tais políticas possam estimular o crescimento a curto prazo, podem aumentar a desigualdade e impactar negativamente áreas como saúde e educação.

Isolacionismo e Pressão sobre Aliados é o que significa o slogan "América em primeiro lugar" e uma diminuição do comprometimento com alianças tradicionais, como a OTAN. Esse comportamento pode enfraquecer a posição dos Estados Unidos como líder global e abrir espaço para o fortalecimento de outras potências, como China e Rússia. É provável que Trump continue sua política de confrontação com a China, intensificando sanções comerciais e tecnológicas. Essa postura, embora possa ser vista como uma estratégia de contenção da influência chinesa, pode causar rupturas económicas globais.

Trump deve continuar com políticas rígidas em relação à imigração, o que pode gerar divisões na sociedade e pressão sobre comunidades imigrantes. Além disso, a questão do tratamento de refugiados e a construção de barreiras na fronteira com o México provavelmente estarão em destaque. Isso seria um Retrocesso em Direitos Humanos: Seu governo anterior implementou várias restrições em direitos de minorias, e um novo mandato pode ver uma continuidade dessas políticas, afetando direitos das comunidades LGBTQ+, por exemplo.

É possível que Trump enfraqueça a participação dos EUA em acordos climáticos internacionais, reduzindo ainda mais o engajamento do país na luta contra as mudanças climáticas e promovendo políticas que favoreçam combustíveis fósseis em detrimento de energias renováveis. A falta de comprometimento com políticas de sustentabilidade pode não só impactar negativamente a imagem internacional dos Estados Unidos, mas também dificultar uma resposta global coordenada às crises climáticas.

A figura polarizadora de Trump e suas políticas intensificaram divisões sociais. Um retorno ao poder poderia consolidar essas fraturas, com o risco de radicalizar ainda mais os discursos e até de impulsionar conflitos entre grupos extremistas e aqueles que defendem a diversidade e a inclusão. Durante o seu governo, Trump frequentemente atacou a imprensa, chamando jornalistas de "inimigos do povo". Um segundo mandato poderia colocar ainda mais pressão sobre o mundo mediático independente e fortalecer o controlo narrativo, o que levantaria sérias questões sobre a liberdade de expressão.

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