sábado, 9 de novembro de 2024

A falácia do inimigo externo no colapso das civilizações


Quando Alarico I em 410 entrou em Roma e deu livre curso ao saque, já o Império Romano já estava profundamente enfraquecido por dentro. Rei visigótico da dinastia dos Baltos, foi o primeiro líder germânico a invadir e tomar a cidade de Roma. Depois, seu sucessor Ataulfo, conduziu os visigodos a instalarem-se na Península Ibérica. A corrupção generalizada, a luta pelo poder entre facções, a instabilidade económica, a perda de valores cívicos e o descontentamento social criaram uma base vulnerável que facilitou a fragmentação do império. As invasões bárbaras, que são frequentemente destacadas como a causa do fim de Roma, na verdade, foram mais um sintoma da fragilidade interna do sistema do que a causa principal.

Da mesma forma, a União Soviética enfrentou uma série de problemas internos: a estagnação económica, a desconfiança entre o governo e a população, a falta de inovação tecnológica e o desgaste moral causado por décadas de repressão. A Guerra Fria e a pressão externa do Ocidente desempenharam um papel importante, mas foi a incapacidade do sistema de se adaptar às mudanças e de responder às necessidades dos seus próprios cidadãos que realmente minou a sua base de sustentação.

A falácia dos inimigos externos é uma estratégia comum usada por elites e governos em declínio para desviar a atenção dos problemas internos e unir a população em torno de uma ameaça comum. Ao atribuir os problemas a fatores externos, evita-se a autocrítica e a necessidade de reformar as instituições ou enfrentar os desafios sociais e económicos. Essa estratégia, porém, só funciona até certo ponto; quando os problemas internos se tornam insustentáveis, o colapso torna-se inevitável.

Que fatores internos mais críticos estarão já a minar o processo para a possível decadência da civilização ocidental atualÉ um facto que a sociedade se está a polarizar entre dois lados, cada lado a considerar-se o lado bom e o outro o lado mau, numa dialética hegeliana. A polarização crescente da sociedade é um dos principais fatores internos que podem levar ao seu declínio, e essa dinâmica dialética lembra muito a visão hegeliana de conflito como motor da mudança histórica. Na filosofia de Hegel, o movimento da história é impulsionado por uma tese que gera uma antítese, levando eventualmente a uma síntese — um processo que, na sociedade atual, parece estagnado num ciclo repetitivo de confronto e divisão, sem ainda ter chegado a uma verdadeira síntese.

A polarização é especialmente problemática porque transforma questões complexas em batalhas maniqueístas, onde cada lado se considera moralmente superior e demoniza o outro. Essa visão binária simplifica a realidade e dificulta qualquer tipo de diálogo ou cooperação, tornando quase impossível alcançar consensos que possam efetivamente enfrentar os desafios coletivos. Num cenário assim, o debate racional e a negociação são substituídos por confrontos ideológicos e tribalismo, o que apenas aprofunda as divisões. Essa fragmentação social é também alimentada por fatores como a bolha de informação criada pelas redes sociais, onde algoritmos reforçam vieses e criam câmaras de ressonância que isolam as pessoas em visões de mundo cada vez mais rígidas. Isso gera uma espécie de guerra cultural constante, onde as identidades políticas se tornam tão polarizadas que deixam de ser meras opiniões e passam a definir quem as pessoas são, como se fossem quase uma nova forma de religião.
É fascinante que você, mesmo sendo ateu, reconheça a possibilidade de um líder de tal genialidade que possa ter um impacto comparável ao de Jesus Cristo. A ideia de um líder visionário que consiga unir uma sociedade polarizada e redefinir seus valores fundamentais é, de fato, uma das esperanças para superar a crise atual.
Jesus Cristo, como figura histórica e simbólica, exerceu uma influência profunda não apenas no sentido espiritual, mas também na formação ética e moral da civilização ocidental. Sua mensagem de amor ao próximo, perdão e compaixão serviu de base para muitos dos valores que ainda ressoam no tecido social euroamericano. A necessidade de um novo líder com esse nível de carisma, visão e capacidade de inspirar um propósito maior pode ser o que falta para tirar a civilização do impasse dialético já mencionado. Esse líder, para ser eficaz no contexto atual, precisaria transcender as divisões ideológicas e falar diretamente às necessidades e aspirações mais profundas das pessoas, de uma forma que unisse diferentes grupos sob um ideal comum. A genialidade desse líder estaria não apenas em suas ideias, mas também em sua capacidade de tocar as emoções e o espírito das pessoas, algo que vai além do puro racionalismo ocidental e se conecta a uma necessidade mais ampla de sentido e propósito. Claro, é um desafio enorme, especialmente numa era em que o ceticismo e a desconfiança em relação às figuras de autoridade são tão elevados. Mas se considerarmos que momentos de grande crise tendem a gerar grandes líderes, como já aconteceu em outras épocas da história, a possibilidade de um líder assim emergir não é totalmente improvável.

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