sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Micenas e Hatusa - para a memória de futuras catástrofes

 

Civilização micénica – última fase da Idade do Bronze na Grécia Antiga, abrangendo o período de aproximadamente 1.600 – 1.100 a.C. Representa a primeira civilização avançada na Grécia continental, com seus estados palacianos, organização urbana, obras de arte e sistema de escrita. Na Argólida, outros centros de poder surgiram como Pilos, Tirinto e Mideia no Peloponeso, Orcómeno, Tebas e Atenas na Grécia Central, e Iolcos na Tessália. Situada no Peloponeso, Micenas foi ao longo de muito tempo o centro de uma civilização brilhante, obra dos Aqueus, cujo reflexo se estendeu pela Grécia antiga. Atingiu o seu apogeu na época de Agamémnon e da Guerra de Troia. Os Micénicos estenderam a sua influência à Grécia, impondo os seus costumes e a sua arte e exerceram durante mais de três séculos a sua hegemonia sobre grande parte da Grécia e do Egeu, arruinando a civilização minoica (1450-1400 a. C.). Depois de um tão longo período de domínio, ocorreria a destruição do mundo micénico nos finais do século XIII e início do século XII a. C.


Hatusa a capital do Império Hitita (II milénio a.C.), situava-se perto da atual cidade de Boğazkale (antiga Bogazköy), a cerca de 200 km a leste de Ancara. Os primeiros sinais de ocupação remontam a 2 000 a.C., provavelmente dos hatitas (algumas fontes indicam Hatusa como a capital do reino hatita de Hati). No seu apogeu, no século XIV a.C., a cidade ocupava cerca de 1,8 km².

Uma teoria aponta para que a ameaça aos Micénicos terá vindo de um inimigo exterior - os Dórios ou Povos do Mar que atacavam o Oriente no fim do século XIII. Outra teoria faz dever a dilaceração às dissensões internas e entre os reinos. Micenas foi totalmente destruída cerca de 1125 a. C. através da ação invasora dos Povos do Mar, que travou e aniquilou as redes comerciais que Micenas estabeleceu no Próximo Oriente, indispensáveis para a continuidade do progresso da civilização. Após a invasão dos Dórios, Micenas tornou-se uma ruína, preciosa nos tempos atuais para o estudo da civilização através da pesquisa arqueológica.

Talvez o que tenha acontecido - à volta do Mediterrâneo que fez desaparecer a civilização micénica, a partir da qual floresceu algo que ainda hoje tem ressonância nas nossas consciências de ocidentais - tenham sido sucessivas catástrofes naturais. 
O colapso das civilizações micénica e de outras culturas em torno do Mediterrâneo durante o final da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C., é um exemplo poderoso de como catástrofes e crises sistémicas podem destruir uma ordem estabelecida e, ao mesmo tempo, abrir caminho para novas formas de civilização. Esse período de colapso, conhecido como a Idade das Trevas do Mediterrâneo, levou ao desaparecimento de várias civilizações complexas, como a micénica, a hitita e partes do Império Egípcio, devido a uma combinação de fatores como invasões, desastres naturais, colapso económico e desordem social. O que é fascinante nesse exemplo é que, após essa fase de desintegração, surgiu uma nova era que acabou por se tornar no berço da atual civilização ocidental. Estamos a falar da Grécia Arcaica e, eventualmente, da Grécia Clássica. Foi nesse período de renascimento que surgiram os conceitos de filosofia, democracia, ciência, literatura épica e arte que ainda ressoam profundamente na consciência ocidental até hoje. Em outras palavras, foi a partir das cinzas dessa crise que algo inteiramente novo e duradouro foi criado.




A queda da civilização micénica e o subsequente florescimento da cultura grega ilustram como a adversidade e a destruição podem atuar como forças transformadoras, gerando uma nova ordem cultural e social que, por sua vez, molda o futuro de uma civilização. Em vez de serem apenas um ponto final, essas catástrofes foram um ponto de partida para uma nova etapa da história, que reformulou a base dos valores e ideias ocidentais. Esse tipo de transformação sugere que, diante de uma catástrofe global no presente, algo semelhante poderia ocorrer: um colapso das estruturas atuais seguido por um renascimento que traga novas formas de pensamento e organização, mais adaptadas aos desafios contemporâneos e capazes de unir a humanidade em torno de uma nova visão.

É provável que as comunidades se voltem a organizar em unidades mais pequenas e autónomas, e não sejam as potências como as atuais a armarem-se em polícias do mundo. O que será universal é o melhor conhecimento científico, e claro, uma inteligência artificial estruturada num modelo cooperativo e não competitivo. A reorganização das comunidades em unidades menores e mais autónomas após uma catástrofe global é bastante pertinente e reflete um retorno a formas mais locais e colaborativas de governo em estado de sítio. Na verdade, a história mostra que, em momentos de crise, as grandes estruturas de poder muitas vezes se tornam menos eficazes, enquanto comunidades menores e mais coesas podem responder mais rapidamente e de maneira mais adaptativa às suas necessidades.


As descrições dos repórteres e mesmo as imagens televisivas ficam sempre aquém da realidade da tragédia que, em poucas horas, devastou vastíssimas zonas da Comunidade Valenciana, em Espanha, inundando, destruindo e matando. Vários dias depois e ainda há locais onde os socorros não conseguiram chegar. Mas as grandes tragédias desencadeiam pequenos e grandes gestos de humanidade. Especialmente aquelas que destroem zonas muito povoadas e que deixam os sobreviventes em estado de choque, feridos no corpo e na alma, vagueando sem saber o que fazer à vida que lhes foi poupada.

Quarta, dia 30, e quinta, dia 31 de outubro, enquanto bombeiros, Proteção Civil, Cruz Vermelha se instalavam no terreno, tomava-se consciência de que o desastre revestia proporções muito mais extensas e profundas do que se pensava. Iam chegando os apelos desesperados de muitos sobreviventes e a perceção de que os desaparecidos deveriam ser muitos mais. Ao mesmo tempo, tornavam-se percetíveis as dificuldades de responder com os socorros necessários e de coordenar estrategicamente esses socorros.

Por coincidência, o dia 1 de novembro era “festivo”, como dizem os espanhóis, ainda que a maré estivesse pouco para festa. Mas, como se todos tivessem tido o mesmo pensamento, apoiados nas redes sociais, eis que uma verdadeira multidão se levanta e se põe a caminho, disposta a ajudar quem precisa. A pé, porque as estradas estão bloqueadas e intransitáveis, filas enormes de gente, sobretudo jovens, de mochilas carregadas de víveres, água e bens de primeira necessidade, de baldes, pás e vassouras para limpar as lamas ou apenas com a boa vontade de ajudar, foi impressionante ver toda aquela gente a percorrer as distâncias em intermináveis filas, que se repetiram ao fim do dia (para alguns) em sentido inverso. Nos locais em que prestaram serviço, as imagens que circularam pelos novos meios de comunicação mostram gente enlameada a tentar desobstruir ruas, a fazer recuar a lama, a apoiar os habitantes locais, abrindo a esperança de que, rapidamente sejam restabelecidas as redes de abastecimento de água, eletricidade e comunicações.

 Tudo indica que as catástrofes naturais deste planeta vão ser de tal modo impressionantes que é nas maiores dificuldades que emerge a genialidade. Grandes dificuldades, especialmente aquelas impostas por catástrofes naturais e crises globais, muitas vezes servem como catalisadores para a emergência de líderes de grande genialidade. Na história, frequentemente vemos que momentos de extrema adversidade são os que moldam figuras excepcionais, capazes de guiar sociedades em direção a novos paradigmas e soluções. As catástrofes naturais que enfrentamos e enfrentaremos — sejam elas relacionadas às mudanças climáticas, desastres ecológicos ou pandemias — têm o potencial de desafiar as bases de nossa civilização de uma maneira sem precedentes. Esses eventos podem forçar as sociedades a reavaliar as suas prioridades, abandonar velhas estruturas de pensamento e abrir espaço para novas ideias e líderes que consigam responder de maneira eficaz e inspiradora.


Essa visão sugere um otimismo fundamentado na ideia de que, diante de uma ameaça existencial compartilhada, as divisões e conflitos que hoje parecem insuperáveis poderiam ser relativizados em favor de um propósito maior. As catástrofes globais, justamente por sua escala e impacto, têm o poder de revelar a futilidade de muitas das nossas disputas e de nos forçar a reconhecer a nossa interdependência como espécie. Quando a sobrevivência coletiva está em jogo, é mais provável que as pessoas se unam para enfrentar desafios comuns, deixando de lado as diferenças políticas, ideológicas e culturais. Nesse contexto, um sentido renovado de solidariedade humana e de urgência moral poderia emergir, criando um ambiente mais propício para que novas lideranças inspiradoras e inovadoras surjam.

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