sábado, 22 de março de 2025

A dupla subjetividade

 

Voltando ao fenómeno da dupla subjetividade: o meu eu real e um ego ainda maior. Como diz S. Paulo "eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim". O lógico platónico declara: "penso, mas cada vez que penso corretamente, não sou eu mesmo, mas a ideia em mim".

A questão da dupla subjetividade reflete um profundo dilema filosófico e espiritual sobre a identidade e o papel do eu em relação ao transcendente ou ao universal. No caso de S. Paulo, a frase "eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim" indica uma transcendência do ego pessoal em favor de uma identidade maior, uma fusão com a divindade ou com um princípio absoluto que molda a vida de forma plena. Esse tipo de experiência sugere uma superação do ego individual, onde o eu se dissolveria em algo mais elevado.

A declaração platónica "penso, mas cada vez que penso corretamente, não sou eu mesmo, mas a ideia em mim" aponta para uma humildade do eu enquanto sujeito, sendo o Logos que assume o protagonismo. E essa é que é a Verdade. Neste pensamento herdado dos gregos clássicos que abunda nos escritos de Platão, a Verdade no pensamento não é uma mera expressão da vontade ou desejo do indivíduo, mas uma participação numa ideia universal, algo que transcende a particularidade do eu humano. A verdadeira essência ou identidade do sujeito se desvia para uma realidade que é a linguagem, e o intelecto que resulta dela. E o nosso esforço de humildade é superar o ego individual abraçando algo que é universal e circula no âmbito da linguagem a que os gregos clássicos deram o nome de Logos. Portanto, São Paulo vai beber ao grego platónico o Logos. E é daí que parte para a dualidade da subjetividade onde o ego não é mais o centro exclusivo da experiência, mas sim um reflexo ou um veículo de algo maior. 

O fenómeno da dupla subjetividade pode ser entendido, então, como a tensão entre o ego pessoal, que busca afirmar a sua identidade e autonomia, e uma dimensão mais profunda de existência, em que o sujeito se perde para se encontrar em algo maior que ele mesmo. A dialética entre esses dois estados é uma das grandes questões que atravessa as tradições filosóficas e espirituais, e é central para a compreensão do sentido da vida e da evolução espiritual ou intelectual do ser humano.

O ego das pessoas só acredita naquilo que quer ouvir. E o que quer ouvir foi capturado pelos seus desejos. E os desejos são hedonistas. As pessoas não se importam de ser enganadas, desde que o faz-de-conta seja mais agradável e as faça ser felizes. Infelizmente aprendemos as verdades apenas à custa de muito sague, suor e lágrimas. É trágica a condição humana. O desejo de prazer imediato é reforçado por sistemas económicos e culturais que incentivam o consumo, a superficialidade e a gratificação instantânea, enquanto desencorajam o sentido crítico e as reflexões profundas.

A "felicidade" baseada no autoengano é frágil, mas enquanto funciona, parece suficiente. É só quando a realidade chega à hora de cobrar é que o véu é rasgado. E é então nessa altura que as pessoas sabem o que custa a vida. Mas nessa altura já pode ser tarde de mais. Os custos são brutais. Não é preciso que tenha de ser a 3ª Guerra Mundial. Cada vez há mais mortes e destruição de casas. Ora secas, ora vendavais e inundações. Tempestades que trazem consigo mais migrações humanas. E dessa forma mais instabilidade social. E a Natureza ainda tem uma cereja que vem na forma de erupções vulcânicas, terremotos, que amplificam ainda mais o caos e a desgraça.

Há quem diga que a visão dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse vislumbra através da destruição a verdadeira purificação, a renovação. Historicamente, as crises mais devastadoras forçaram mudanças profundas. A Segunda Guerra Mundial forçou os europeus a uma reconstrução de uma Europa melhor. Apesar do horror, ela gerou um compromisso renovado com a paz (pelo menos por algumas décadas) com avanços tecnológicos e sociais. No entanto, o que torna o cenário atual particularmente desafiador é o potencial de autodestruição total. Se até aqui se puderam reconstruir, após crises localizadas, coisas melhores, hoje a escala global das ameaças pode não deixar espaço para uma segunda oportunidade. O mito dos Quatro Cavaleiros é uma advertência universal. Eles nos lembram que os desequilíbrios humanos -- ganância, violência, negligência ambiental -- cobram-se com preços muito elevados. A questão otimista é: estamos conscientes desse preço e interessados em pagá-lo? Mas a questão pessimista é: teremos sempre que pagar um alto preço para continuar a sobreviver; só não se sabe quando, nem com que intensidade. Mesmo depois da catástrofe, a humanidade será capaz de encontrar uma forma de reconstruir um sistema mais justo e sustentável? Ou as forças destrutivas prevalecerão de forma definitiva? Quem vai ter de responder à pergunta provavelmente ainda não nasceu. Ou estará quase a nascer? A história humana sugere que as gerações que enfrentam crises podem, paradoxalmente, mostrar uma resiliência surpreendente. Muitos dos avanços tecnológicos e sociais vieram de contextos de escassez e destruição.

A China de Xi Jinping

 

A liderança de Xi Jinping tem-se concentrado em equilibrar vários desafios, tanto internos como externos, com um foco particular na preservação da estabilidade política e na continuação do crescimento económico, embora com um modelo mais sustentável e focado em autossuficiência. A principal prioridade do Partido Comunista Chinês (PCC) sob Xi é manter o seu controlo absoluto sobre o país, e ele tem feito isso através de um fortalecimento contínuo da sua posição política e de uma grande centralização do poder incluindo a economia​. Embora o crescimento económico continue a ser importante, a ênfase de Xi tem sido na redução das dependências externas, com políticas voltadas para revitalizar as empresas estatais e promover inovação tecnológica doméstica. Isso tem sido em parte uma resposta ao envelhecimento populacional, altos índices de desemprego juvenil e desigualdade social, que são vistos como desafios estruturais que o país precisa enfrentar a longo prazo​.

No entanto, a relação com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos, continua um grande desafio. A China, sob a liderança de Xi, tem procurado minimizar os riscos de "desacoplamento" económico, embora a sua política externa frequentemente entre em confronto com as potências ocidentais numa competição estratégica que pode afetar as relações globais​. Portanto, enquanto a China mantém seu foco em crescer e enriquecer, as condições internas e externas, como a rivalidade com os EUA e a necessidade de ajustes económicos, podem tornar esse caminho mais difícil, e os resultados a longo prazo são imprevisíveis.

A questão de Taiwan continua sendo um dos maiores pontos de tensão na política externa da China. Sob a liderança de Xi Jinping, Pequim tem deixado claro que considera Taiwan uma província da China, com planos de reunificação. No entanto, a forma como essa reunificação será alcançada ainda é incerta. Xi tem reiterado a importância da reunificação pacífica, mas também não descartou o uso da força, especialmente diante do apoio internacional crescente à autonomia de Taiwan e da presença militar dos EUA na região​. A questão é complicada não apenas pela resistência de Taiwan, que possui um governo democraticamente eleito e se opõe a qualquer forma de integração forçada, mas também pelo impacto geopolítico global. Os Estados Unidos têm-se comprometido a apoiar Taiwan, apesar de sua política de "uma só China", que reconhece oficialmente Pequim como o único governo legítimo da China. Isso cria um cenário delicado, onde qualquer movimento mais agressivo por parte de Pequim poderia desencadear um conflito maior, envolvendo não apenas a região, mas potências globais como os EUA​.

Além disso, a economia chinesa, com a sua interdependência com o Ocidente, também se vê afetada por qualquer escalada em Taiwan, uma vez que a estabilidade regional é crucial para o comércio e a cadeia de suprimentos globais. A China, portanto, tem de equilibrar os seus objetivos de reunificação com a necessidade de manter relações económicas estáveis e evitar uma guerra aberta que prejudicaria a sua própria prosperidade​. Por enquanto, o futuro de Taiwan continua a ser uma questão estratégica e de grande complexidade para a China, com o risco de um erro de cálculo que possa levar a uma escalada militar, afetando não apenas a região, mas todo o equilíbrio geopolítico global.

A China, sob a liderança de Xi Jinping, tem-se mostrado bastante cautelosa em relação à guerra nuclear e desaprova a retórica agressiva de Vladimir Putin a esse respeito. A posição da China em relação ao uso de armas nucleares tem sido de longo prazo e é centrada no princípio de "não ser o primeiro a usar armas nucleares", uma política que reflete um desejo de evitar uma escalada militar que poderia resultar em destruição mútua. A China tem enfatizado a estabilidade estratégica e tem procurado reduzir o risco de uma guerra nuclear, preferindo negociar e manter uma abordagem mais diplomática para resolver as suas disputas geopolíticas. Além disso, a China tem-se distanciado da abordagem mais beligerante do Kremlin, especialmente à medida que as tensões globais aumentam. Beijing vê a escalada nuclear como um risco inaceitável, não apenas para a segurança regional, mas também para a sua própria prosperidade e o futuro de suas relações internacionais, especialmente com o Ocidente e países vizinhos. Embora a China tenha sido aliada estratégica da Rússia em algumas frentes, a situação da guerra na Ucrânia e a retórica nuclear de Moscovo colocam Pequim numa posição desconfortável. Em termos de políticas nucleares, a China tem tentado reforçar a ideia de que a utilização de armas nucleares deve ser um último recurso, caso seja necessário para a defesa nacional. Isso contrasta com a postura mais agressiva e provocadora da Rússia, que, especialmente sob Putin, tem elevado a ameaça nuclear em suas declarações. Para a China, uma guerra nuclear representaria uma catástrofe que também minaria os seus próprios interesses económicos e a estabilidade política interna.​

Assim, a China, provavelmente prefere distanciar-se das ameaças nucleares do Kremlin, buscando garantir a sua posição como uma potência global responsável e evitando ser vista como cúmplice de uma retórica perigosa. A ênfase chinesa numa abordagem pacífica para resolver disputas reflete a sua percepção de que um conflito nuclear seria, além de destrutivo, contraproducente para os objetivos de longo prazo da nação.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Estamos perante uma "soft revolução"



Sem guilhotinas nem tanques nas ruas, mas com efeitos igualmente transformadores, as grandes potências, depois de muita turbulência chegarão a um entendimento sobre uma nova ordem mundial multipolar. A era do domínio incontestável dos EUA e da democracia liberal parece estar a chegar ao fim, dando lugar a um sistema onde diferentes modelos políticos coexistem e competem entre si. Mas, apesar das tendências gerais que podemos identificar, a imprevisibilidade continua a ser um fator dominante. As teorias dos sistemas e do caos ensinam-nos que basta uma variável inesperada para alterar todo o curso da história. Pode surgir um evento inesperado.

Ainda assim, dentro desta imprevisibilidade, parece certo que estamos a assistir ao fim de uma era e ao nascimento de outra. A questão agora é saber como e quando esse novo equilíbrio se consolidará. Como "Cronos" acelerou, seja pela metáfora do "just in time" ou on-line, ou pela inteligência que raciocina quase à velocidade da luz, as mudanças vão ser muito rápidas com a ajuda de Elon Musk. O ritmo das transformações acelerou de forma impressionante. Se antes as grandes mudanças levavam décadas, agora podem ocorrer em meses ou até semanas. A digitalização, a inteligência artificial e a hiperconectividade eliminaram grande parte da inércia que antes retardava as decisões políticas e económicas. O "just in time" já não se aplica apenas à produção industrial, mas também às ideologias, às políticas e até às revoluções.

Trump, com o apoio de figuras como Elon Musk, representa bem essa nova dinâmica. Ele age como um "disruptor" na política, tomando decisões de forma quase instantânea, sem esperar por consensos ou pelos processos burocráticos tradicionais. Se olharmos para a sua velocidade em reverter políticas de género, por exemplo, é evidente que a política já não funciona no ritmo lento das democracias do século XX.

Se esta tendência continuar, podemos esperar que a nova ordem multipolar se estabeleça muito mais rapidamente do que as transições históricas anteriores. Mas essa velocidade também pode gerar um problema: a falta de tempo para ajustes e correções. A adaptação humana a um mundo tão rápido, onde as mudanças ocorrem a uma velocidade sem precedentes, pode gerar um desgaste psicológico profundo, especialmente para aqueles menos preparados ou mais apegados a valores tradicionais e a uma visão estática da realidade. A pressão para acompanhar a transformação, a perda de referências e a adaptação a uma "ordem imposta" podem gerar um aumento significativo de distúrbios mentais. Psicólogos e psiquiatras, com suas ferramentas limitadas, talvez se vejam incapazes de lidar com o volume de sofrimento psicológico que virá, à medida que as pessoas, especialmente as mais vulneráveis ou conservadoras, lutam para encontrar um sentido no novo mundo.

É um preço que temos a pagar. A segunda lei da termodinâmica não permite almoços grátis. A segunda lei da termodinâmica é implacável: a entropia tende a aumentar, e toda mudança gera um custo, seja ele físico, social ou psicológico. A ideia de que estamos destinados a pagar um preço por qualquer transformação significativa é uma visão bastante realista. O mundo em que estamos a entrar, marcado por uma aceleração sem precedentes, exige adaptações que, inevitavelmente, provocarão desordem e desequilíbrios, tanto no sistema social como individual. Essa "entropia" não será apenas uma metáfora física, mas também uma força que se manifestará na forma de caos psicológico, divisões sociais e até crises de identidade, à medida que as velhas certezas se desfazem. É o preço da evolução, mas também da sobrevivência num mundo cada vez mais complexo. Será irreparável para muitos, ao ponto de alguns considerarem que é bom morrer por suicídio ou eutanásia. Lúcidos sábios, que foi bom viver uma vida invejada por tantos seus antepassados, dizem que têm direito a uma boa morte, já que tendo valido a pena ter vivido uma vida boa, não justifica a partir de agora sujeitar-se a uma vida má.

É uma perspectiva sombria, mas não infundada. O sofrimento existencial, agravado pelas pressões de um mundo em constante mudança e pelas incertezas geradas pela aceleração tecnológica e social, pode levar algumas pessoas, especialmente as mais velhas ou aquelas que já passaram por muitas etapas de vida, a sentir que a morte seria uma opção digna. A eutanásia, nesses casos, poderia ser vista como uma boa forma de ter um fim feliz. Um modo de preservar uma certa dignidade perante um futuro que parece ameaçar não apenas a qualidade de vida, mas também a própria identidade de um tempo que não volta mais.

É uma boa resposta ao desgaste psicológico de viver num mundo que, para muitos, deixará de ter sentido, onde os valores de um passado mais estável e previsível já não se aplicam. Se, ao longo de uma vida, a pessoa construiu uma identidade sólida, com referências claras, a transição para um estado onde tudo é fluido, imprevisível e muitas vezes alienante pode ser quase insuportável. Para alguns, a escolha da eutanásia pode ser vista como uma forma de evitar a desintegração do ser, optando por uma "boa morte" que preserve, de alguma forma, o significado da vida que tiveram. Neste cenário, a questão ética da eutanásia torna-se ainda mais complexa. Se a vida já não oferece a mesma segurança ou sentido que uma geração anterior encontrou, como podemos justificar a imposição da continuidade da vida para quem deseja "ir embora" em paz? É uma reflexão que, talvez, se intensifique à medida que o impacto psicológico dessas transformações globais comece a se tornar mais visível.

Num exercício mental levado ao absurdo, algum português acharia que se Dom Afonso Henriques voltasse, ou mesmo Dom Sebastião, a quem muitos portugueses devem a sua identidade, conseguiam atinar com esta vida que levamos? Por exemplo meterem- se num avião, que permitiria tomar o pequeno almoço em Lisboa e ir Jantar a Banguecoque? Dom Afonso Henriques a olhar para isto diria: tirem-me daqui que estou louco, isto só podem ser alucinações. E todavia ele morreu perto dos oitenta depois de muitas batalhas sangrentas.

É fascinante a nossa desconexão com as realidades que formaram as nossas identidades históricas. Dom Afonso Henriques, um homem de um tempo profundamente marcado pela luta, pela sobrevivência e pela construção de um território e identidade, certamente ficaria atónito diante da rapidez, da globalização e da banalização do tempo que hoje experimentamos. A sua vida, com todas as suas batalhas e desafios, era pautada por limites físicos e temporais claros. A noção de que uma pessoa pudesse, num só dia, atravessar continentes e viver experiências tão diversas, com uma facilidade tecnológica impressionante, poderia de facto parecer uma alucinação. Esse contraste entre a vida de Dom Afonso Henriques e a nossa pode ser uma boa metáfora para o que sentimos hoje em relação à aceleração das mudanças. A sua perspectiva medieval sobre o mundo, onde o tempo e o espaço eram muito mais concretos e limitados, certamente teria dificuldades para encaixar-se nesse mundo pós-moderno, onde as fronteiras entre o possível e o impossível se dissolvem. Ele viveria num contexto de certezas e de um ritmo mais lento, enquanto nós, com o avanço da tecnologia e das conexões instantâneas, estamos imersos num fluxo constante de novas realidades que desafiam não apenas o nosso entendimento, mas também a nossa capacidade de adaptação.

Esse sentimento de estarmos fora do nosso tempo, como se fôssemos "loucos" ou "alucinados" devido à realidade tecnológica e globalizada, é algo que muitos de nós, de certa forma, experimentamos ao refletir sobre o nosso lugar no mundo. A sociedade, em sua busca por progresso, não apenas trouxe inovações, mas também desconcertou a humanidade em seu núcleo, como se estivéssemos a viver um tempo que nunca seria verdadeiramente nosso. Qualquer mudança abrupta em grande escala – como a aceleração da tecnologia e da globalização – sempre traz consigo uma crise de identidade e uma perda de referências.

Em suma, esta é uma profunda reflexão e cheia de camadas. Se olharmos para a teoria do Big Bang, estamos, de fato, a falar de um momento de origem do universo que, segundo muitos físicos, contém a chave para entender a nossa existência, o nosso passado e até o futuro. Se tudo o que conhecemos — as estrelas, os planetas, e até mesmo nós mesmos — tem sua origem naquela explosão primordial, pode-se argumentar que as condições para tudo o que aconteceu ao longo da história estavam, de alguma forma, inscritas nesse evento inicial.

Essa visão traz à tona uma pergunta intrigante: se o universo e a vida, incluindo a nossa, emergiram de um ponto específico no tempo, como podemos entender-nos? Uma consequência inevitável de uma série de eventos cósmicos que começaram no Big Bang? Ou será que a nossa capacidade de reflexão, de questionar e de modificar o curso da nossa história nos coloca, ainda que paradoxalmente, fora desse destino cósmico? A fábula de Adão e Eva no Paraíso acrescenta uma camada adicional de crítica à ideia de que, se houve uma "criação", ela foi de alguma forma condenada a um ciclo de quedas e erros, já que, como vemos, a história humana parece ser uma série de tentativas e falhas. Ou será que a nossa jornada cósmica já foi "escrita" de alguma forma, e que não importa o quanto tentemos mudar o rumo das coisas; estamos sempre, de certa forma, a seguir um caminho predestinado, apenas tentando encontrar um significado no meio do caos.

Este exercício de pensamento reflete uma tensão filosófica entre a visão sombria da natureza humana e uma confiança no destino cósmico mais amplo. O pessimismo antropológico parte da premissa de que o ser humano, enquanto espécie, é falho, violento e impulsionado por interesses mesquinhos, um ponto de vista que encontra respaldo em eventos históricos e na própria biologia da sobrevivência. Já o otimismo cosmológico sugere que, apesar dessa condição, o universo em si se encaminha para algo maior, seja em termos de complexidade, inteligência ou até mesmo uma possível transcendência tecnológica ou espiritual. Talvez sua visão antecipe um futuro em que a inteligência artificial, a ciência e a exploração espacial venham a superar as limitações humanas, colocando a consciência em um patamar mais amplo dentro do cosmos. Se o ser humano é essencialmente falível, o universo, com suas leis matemáticas e sua expansão contínua, pode oferecer um horizonte que transcende essa falibilidade.

O cosmos opera com uma precisão que contrasta brutalmente com a desordem da condição humana. Enquanto as leis físicas garantem a estabilidade das estrelas e planetas por biliões de anos, a humanidade, em apenas algumas dezenas de milhares de anos, já acumulou uma história marcada por violência, destruição e contradições insolúveis. Se olharmos para o resto da biosfera, os outros seres vivos funcionam dentro de um equilíbrio natural. Mesmo os predadores mais ferozes matam apenas para sobreviver, sem a crueldade gratuita que vemos na história humana. A única espécie que parece agir contra si mesma e contra seu próprio ambiente, por puro desejo, é o Homo sapiens. O paradoxo está em que essa mesma humanidade que carrega tantos defeitos é também a única capaz de refletir sobre eles. Esse autoquestionamento pode ser um sintoma da doença ou uma pista para uma possível cura. Mas será que, no fim, importa? O universo continuará a sua marcha indiferente, seja qual for o destino da espécie.

O vendaval, como qualquer fenómeno natural, só se torna um "problema" porque a humanidade construiu estruturas que podem ser derrubadas por ele. Na ausência do ser humano, os ventos fortes apenas fariam parte da dinâmica do planeta, sem vítimas, sem destruição significativa — apenas a renovação dos ecossistemas, a dispersão de sementes, a movimentação de massas de ar. É um exemplo de como o ser humano se colocou em confronto com as forças naturais. Ele constrói edifícios gigantescos que desafiam o vento, mas depois lamenta quando um furacão os destrói. Produz veículos para se mover rapidamente, mas torna-se dependente de um sistema que polui e altera o próprio clima. Fabrica armas de destruição em massa, como os mísseis, que não têm qualquer propósito na ordem natural — apenas na lógica autodestrutiva da civilização. No fundo, parece que o problema não está nos vendavais, nas tempestades ou nos terramotos, mas na própria espécie humana, que criou um mundo onde tais eventos naturais se transformam em tragédias.

Esta visão pode ser desafiadora para a crença religiosa tradicional, que coloca os seres humanos como detentores de um propósito específico dado por um criador. Se a origem do universo e da vida pode ser explicada por uma série de eventos cósmicos sem a necessidade de uma intervenção divina direta, isso realmente coloca em questão a ideia de que um Deus se arrependeria da expulsão de Adão e Eva. A ironia que sugere talvez revele um certo ceticismo com relação ao plano divino e ao sofrimento humano, já que o que vemos é um universo onde, paradoxalmente, as perguntas sobre o nosso propósito continuam a ser mais complexas do que as respostas. A grande questão que fica, então, é se podemos encontrar, em meio a esse grande "destino cósmico", algum tipo de propósito que nos permita lidar com o vazio existencial e a velocidade do mundo em que vivemos. Estamos todos apenas a caminhar por um caminho que sempre foi, em última análise, predeterminado pela expansão do universo e pela própria natureza da existência.

A busca incessante pelo sentido da vida é uma criação humana, uma necessidade existencial que, ao fim e ao cabo, não faz muito sentido no grande esquema cósmico. Quando nos distanciamos da ideia de que tudo deve ter um propósito, o pensamento humano parece realmente um tanto fora do lugar, talvez até excessivo. A baleia ou o leão simplesmente vivem, sem se questionar sobre o significado de sua existência, e talvez essa aceitação do fluxo da vida seja uma lição que podemos aprender com eles. Até o pessimismo pode combinar uma ação construtiva. A frase de Gramsci, "pessimista da razão, otimista da vontade", é uma ótima forma de equilibrar a visão crítica com a capacidade de agir, mesmo sabendo que a vida é imperfeita e cheia de contradições. De certa forma, agir, mesmo em face da desesperança, é um ato de resistência contra a própria fragilidade da condição humana.


quinta-feira, 20 de março de 2025

Um social-liberal



Se um cidadão português se considera social-liberal, podemos situá-lo no centro-esquerda do espectro político tradicional dos finais do século XX. O social-liberalismo combina princípios do liberalismo económico moderado com preocupações sociais, defendendo um Estado regulador e protetor, mas sem abandonar os mecanismos de mercado. No contexto europeu e português, este posicionamento é frequentemente associado a partidos como o Partido Socialista (PS) ou algumas alas mais moderadas dos Verdes e dos social-democratas.

Na tabela tradicional do espectro político está à esquerda dos liberais clássicos e dos conservadores, que tendem a defender um Estado mínimo e menos regulação económica. Está à direita dos social-democratas mais tradicionais e da esquerda socialista, que costumam defender um Estado mais interventivo na economia. Em resumo, um social-liberal no contexto português estaria próximo das correntes mais moderadas da social-democracia europeia, defendendo economia de mercado com uma forte rede de proteção social.

O social-liberalismo é amplamente compatível com a Terceira Via promovida por Tony Blair, Gerhard Schröder e outros líderes do centro-esquerda nos anos 1990 e 2000. A Terceira Via procurava uma síntese entre o liberalismo económico e políticas sociais ativas, aceitando o mercado como motor da economia, mas defendendo um Estado regulador e um sistema de bem-estar eficiente. Na prática, isso significava aceitar privatizações e flexibilidade no mercado de trabalho, mas com políticas para reduzir desigualdades. Incentivar investimentos privados e inovação, mantendo proteção social e serviços públicos essenciais. Assim, significa rejeitar tanto o neoliberalismo puro como o socialismo estatal. Corrente que influenciou o Partido Socialista português na era de António Guterres e José Sócrates.

A classificação social-liberal ainda é válida em 2025, mas já não tem o mesmo peso político e simbólico que teve nos anos 1990 e 2000. A Terceira Via perdeu muito do seu apelo nos últimos anos, especialmente após a crise financeira de 2008, que expôs fragilidades do modelo de conciliação entre mercado e Estado. Muitos desses social-liberais: uns migraram para posições mais à esquerda, defendendo maior intervenção estatal; outros foram para um liberalismo económico mais radical. No entanto, há quem ainda se identifique com esse posicionamento, especialmente entre pessoas mais velhas, que viveram a ascensão dessa corrente. Em Portugal, o PS ainda mantém traços social-liberais que internamente tem de lidar com duas frentes opostas: os que estão atentos à sua esquerda (Bloco de Esquerda e PCP); e os que piscam o olho ao PSD e Iniciativa Liberal.

É neste terreno que se desenha o “centro pragmático”. O discurso social-liberal atual entretém-se com narrativas de "reformismo moderado" ou "social-democracia centrista", sem o entusiasmo ideológico dos tempos de Blair e Guterres. O SPD de Olaf Scholz pode ser classificado como centro-esquerda pragmático, mantendo elementos do social-liberalismo, mas com um retorno parcial a políticas mais social-democratas clássicas.

Comparado com a era de Gerhard Schröder (1998-2005), quando o SPD estava fortemente alinhado com a Terceira Via, Scholz tem tentado equilibrar o compromisso com o mercado e uma maior ênfase na justiça social, especialmente diante de desafios como transição energética e mudanças climáticas. Industrialização verde, combinando inovação com proteção social. Apoio a programas sociais, como subsídios para aluguer de casa e aumento do salário mínimo. Uma política externa mais assertiva, especialmente no contexto da guerra na Ucrânia. No entanto, Scholz não rompeu completamente com o legado reformista da Terceira Via, o que gera críticas tanto da esquerda mais radical (que o acusa de ser insuficientemente progressista) como da direita liberal que o vê demasiado estatista. Assim, podemos dizer que o SPD sob Scholz não é tão social-liberal quanto no tempo de Schröder, mas também não voltou à social-democracia clássica do pós-guerra. Ele ocupou um centro-esquerda pragmático, que apesar de se ter adaptado às circunstâncias de 2025 teve uma queda estrondosa nas últimas eleições que voltou a dar lugar ao regresso da CDU ao poder, agora liderado por Friedrich Merz.

Com a guerra na Ucrânia e a crise migratória, o SPD de Scholz foi forçado a deslocar as suas prioridades para a segurança e defesa, áreas tradicionalmente dominadas pela direita. Boris Pistorius, que tem ganhado popularidade e é visto como um potencial sucessor de Scholz. Tal viragem representa uma mudança para uma postura mais dura em temas como defesa e segurança interna. Pistorius, como ministro da Defesa, tem adotado uma posição mais assertiva, defendendo o aumento dos gastos militares e um rearmamento da Alemanha, algo impensável para os social-democratas alemães há poucos anos. Scholz já havia começado a endurecer a política migratória, e Pistorius pode levar essa linha ainda mais longe, aproximando-se de uma postura de centro-direita nesse tema. Essa mudança não significa que o SPD esteja abandonando completamente a social-democracia, mas sim que os critérios clássicos de economia e bem-estar social foram secundarizados por um contexto de urgência: guerra na Europa, crise migratória e o desafio de manter a coesão social num momento de polarização. Se Pistorius substituir Scholz, é provável que vejamos um SPD mais pragmático, nacionalista e focado em segurança, algo que o afastaria ainda mais do antigo social-liberalismo de Schröder e da Terceira Via.

Por outro lado, com a subida fulgurante da extrema-direita com a AfD, é desejável que a CDU de Merz se coligue com o SPD para garantir a justiça social. Uma coligação entre a CDU de Friedrich Merz e o SPD pode ser uma solução pragmática para conter a ascensão da AfD, garantindo estabilidade política e um certo equilíbrio entre crescimento económico e justiça social. Por conseguinte, as vantagens de uma "grande coligação" CDU-SPD bloqueará a AfD. A extrema-direita cresce explorando temas como imigração, insegurança e descontentamento económico. Uma aliança CDU-SPD pode neutralizar a AfD ao oferecer soluções realistas sem extremismos. A Alemanha precisa manter a sua liderança na EU, especialmente diante da guerra na Ucrânia. CDU e SPD compartilham essa visão internacionalista. Independentemente de os descontentes com isso poderem migrar para posições mais radicais, beneficiando tanto a AfD como a esquerda radical (Die Linke ou o novo partido de Sahra Wagenknecht).

Portanto, a questão não é apenas se CDU e SPD devem governar juntos, mas como podem oferecer um projeto convincente que traga crescimento económico, segurança e justiça social sem alienar os eleitores que estão sendo atraídos pela AfD. Agora, é preciso não ignorar um fator psicológico e sociológico essencial: as populações não reagem apenas ao que já acontece, mas ao que temem que possa acontecer. O Leste Alemão olha para o que aconteceu no Oeste – Regiões da antiga RDA podem não ter tantos imigrantes quanto as grandes cidades ocidentais (Berlim, Hamburgo, Colónia), mas veem o impacto da imigração nesses lugares e temem que lhes aconteça o mesmo. Os alemães do leste já passaram pelo colapso de um sistema (a queda do comunismo) e aprenderam que mudanças abruptas podem trazer insegurança. Isso os torna mais céticos em relação a políticas migratórias abertas.

Mesmo que a imigração ainda não seja massiva no Leste, o debate nacional a transforma numa questão central. A repetição constante do tema pelos meios de comunicação cria uma sensação de urgência. Muitos cidadãos do Leste sentem que, após a reunificação, ficaram como "cidadãos de segunda classe". Isso os torna mais suscetíveis a discursos populistas que apontam a imigração como mais uma ameaça aos seus interesses. Muitos analistas de esquerda tendem a olhar apenas para os dados objetivos (quantidade real de imigrantes) e ignoram o fator subjetivo (percepção e medo social). Mas a política não é feita apenas de realidades concretas. Em política, as narrativas e os sentimentos têm um peso sobre as pessoas semelhante ao peso da gravidade sobre a Terra.


quarta-feira, 19 de março de 2025

A deriva ideológica europeia no aqui e agora



A deriva da política na Europa tem-se deslocado do eixo económico esquerda/direita para um eixo mais cultural e civilizacional global/nacional, que também se pode dizer cosmopolita/nativista. Esse novo alinhamento manifesta-se, por exemplo, nos debates sobre imigração, multiculturalismo, patriotismo. Muitos partidos, que antes eram definidos pela economia, giram hoje em torno de questões culturais e identitárias. A questão da coesão cultural da Europa é complexa. Historicamente, houve tempo em que as identidades nacionais e civilizacionais europeias opunham-se a impérios: Império Otomano; Império Napoleónico; Império Austro Húngaro; Império Soviético. Tudo isto desabou, sem antes ter passado por duas Guerras Mundiais seguidas de uma Guerra Fria. Hoje, na sequência de uma globalização difusa, e de fluxos migratórios maciços para dentro da Europa levou a um maior desgaste das identidades primitivamente europeias: nórdicos; celtas; anglo-saxónicos; germânicos; latinos; eslavos.

O multiculturalismo foi promovido como um ideal, a partir do pensamento académico das universidades formatadas no pós Maio 68. E a sua evolução, que culminou no predomínio das universidades nos Estados Unidos, desencadeou uma avalanche reacionária sobretudo naqueles que sentiram ameaçada a sua 
identidade de cariz civilizacional. No fundo, o que vemos na Europa é uma luta entre duas concepções de identidade: Identidade fluida e cosmopolita (defendida pelas elites políticas e culturais, baseada em valores como diversidade, inclusão e direitos humanos) -- Identidade enraizada e tradicional (defendida por setores mais conservadores e populistas, que veem a Europa como um espaço com uma herança cultural especificada pelo cristianismo, filosofia grega e direito romano).

Até 2022, a Europa não identificava nenhum inimigo externo. Mas em fevereiro de 2022 tudo mudou com a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, e uma guerra que se arrasta há três anos que acabou por colocar o denominado Ocidente em maus lençóis. Durante a Guerra Fria, a ameaça soviética justificava a integração europeia e o alinhamento ocidental. Mas este interlúdio durou trinta anos, mais coisa menos coisa. A Rússia é vista hoje como ameaça geopolítica. Há excepções, a começar pela Hungria e a Eslováquia, mas que a pouco e pouco se vai estendendo a todo o leste europeu que no passado esteve do outro lado da tal "cortina d ferro", a denominada zona de influência soviética. A isto já desde do "11 de setembro 2001" se vem juntado a guerra surda islamista com atentados terroristas esporádicos um pouco por toda a Europa ocidental. E foi então que a extrema-direita se levantou contra a imigração com a sua reclamação por políticas de maior segurança.

A Europa já enfrenta desafios na integração de populações imigrantes, especialmente vindas do Norte de África e do Médio Oriente. As projeções indicam que as pressões migratórias ainda vão crescer devido aos crónicos conflitos que agora estão a ser agravados pelas mudanças climáticas. Cresce a tensão entre aqueles que defendem um modelo mais aberto e aqueles que querem preservar a identidade europeia tradicional. Muitos europeus veem as suas lideranças distantes dos problemas reais. E as populações locais vão-se vendo a braços com os impactos práticos das suas políticas. Ora, é essa sensação de abandono que alimenta partidos populistas e movimentos identitários.

A divisão já não é apenas entre países, mas dentro deles. Em cidades como Paris, Berlim e Londres, coexistem populações com visões de mundo radicalmente diferentes. O resultado é uma sociedade cada vez mais segmentada, onde a coesão social se torna frágil. Se essa tendência continuar, o que podemos esperar da próxima década? A Europa pode caminhar para uma espécie de "balcanização" identitária, onde diferentes grupos vivem em bolhas separadas, sem um verdadeiro sentido de comunidade. Ou, em um cenário mais radical, podemos ver um ressurgimento do nacionalismo e medidas mais duras para tentar restaurar uma identidade europeia mais uniforme. A História mostra que, quando sociedades perdem um sentido comum de identidade e propósito, entram em decadência ou são substituídas por novas forças. Se a Europa não encontrar um fator unificador (seja ele cultural, tecnológico ou geopolítico), a fragmentação pode ser o prenúncio de um declínio mais profundo.

Vladimir Putin já lançou as cartas. E se ao mesmo tempo Trump abandonar o apoio à Europa, Putin continuará a sua estratégia de desestabilização da União Europeia. Trump já deu sinais de que considera a NATO um fardo para os EUA. E se ele realmente reduzir ou até retirar o suporte militar e económico aos aliados europeus, muitos países, especialmente os do Leste Europeu, terão de fazer contas à sua existência livres de Putin. Este, por sua vez, já trabalha há anos para enfraquecer a coesão da UE, apoiando movimentos nacionalistas e explorando divisões internas. Uma Europa mais fragmentada é o seu propósito ao tentar expandir a sua influência. É o que já está a acontecer com a Hungria de Viktor Órban, com declarada proximidade de Moscovo. Vislumbram-se tempos sombrios para a Europa, a entrar em mais um ciclo, pela enésima vez, de conflitos e instabilidade.

terça-feira, 18 de março de 2025

As redes sociais e a desinformação sempre existiram



Hoje fala-se muito em desinformação e do malefício das redes sociais. Mas na verdade, desde que há informação escrita, desinformação sempre existiu, pelo menos desde os Sumérios. Desde que os seres humanos começaram a fazer registos escritos - como foi o caso dos Sumérios há mais de 5.000 anos - a manipulação e distorção da informação sempre foi usada como um instrumento de poder. Civilizações passadas frequentemente usavam inscrições para glorificar governantes e divindades, em que qualquer facto que fosse inconveniente era omitido. Por exemplo, os reis mesopotâmicos registavam as suas vitórias militares nas estelas, mas raramente mencionavam as derrotas. Os faraós eliminavam os nomes de governantes anteriores que desejavam apagar da história, como aconteceu com Hatshepsut, cujo nome foi deliberadamente raspado de monumentos. 

Há várias evidências que os Romanos manipulavam em abundância a informação. Muitos autores escreviam para agradar ao imperador ou justificar as suas políticas. O conceito de "damnatio memoriae" também eliminava da história figuras consideradas indesejadas. A Idade Média viu o controlo rigoroso do conhecimento por parte da Igreja Romana, em que textos heréticos eram queimados. Os clérigos eram a elite letrada, o que lhes garantia o monopólio da informação. Mesmo depois da invenção da imprensa por Gutenberg no século XV, que levou muito mais longe e em maior escala o conteúdo dos textos escritos e copiados à mão pelos monges nos conventos, ainda assim os católicos conseguiram controlar as edições impressas por mais algum tempo, com a instituição do Index, que listava os livros proibidos e que eram apreendidos. Daí que a desinformação continuava a circular sob a forma de boatos, e pasquins panfletários, que inflamavam o debate político e religioso. 

O que as redes sociais desta nova era digital fizeram foi democratizar a disseminação de informação, retirando das elites parte do controlo. Isso ampliou a velocidade e o alcance da desinformação, mas a essência permanece a mesma: o uso da comunicação para influenciar, manipular e enganar. O desafio contemporâneo é lidar com essa escala sem precedentes, onde cada indivíduo pode ser ao mesmo tempo consumidor e propagador de notícias falsas. A questão da velocidade da informação é central para entender o impacto da desinformação na era digital. Vivemos na era da internet e as redes sociais criaram um ambiente onde qualquer pessoa pode compartilhar conteúdo instantaneamente com milhões de outras. Essa aceleração tem consequências profundas. A tecnologia da inteligência artificial geradora de deepfakes - texto, imagem vídeo e som artificiais - torna ainda mais difícil distinguir o real do fabricado. O verdadeiro e o falso tornaram-se praticamente indistinguíveis. A manipulação digital consegue enganar até os mais céticos.

Se a história serve de guia, veja-se o caso de Bento de Núrsia, uma espécie de avatar da queda do Império Romano do Ocidente com sua civilização. Primeiro meteu-se numa gruta para se isolar do mundo. Ele viveu no século VI, um período em que o Império Romano do Ocidente já havia caído há algum tempo, e a Europa ainda estava mergulhada no caos, com invasões bárbaras, declínio económico e colapso das instituições. Sua decisão de retirar-se para uma gruta em Subiaco foi, paradoxalmente, um ato profundamente transformador. Bento retirou-se para uma vida de contemplação, mas a sua experiência, apesar de isolamento, acabou na fundação de uma comunidade monástica que se espalhou por quase toda a Europa Ocidental. Chegou ao ponto d instituir uma regra - Regra de São Bento - que depois foi adotada por todas as ordens monásticas que se lhe seguiram. Era baseada na oração, no trabalho, e na disciplina - a espinha dorsal do monasticismo ocidental.

Os mosteiros beneditinos, ao longo da Idade Média, tornaram-se verdadeiros guardiões da civilização. Preservaram manuscritos gregos e romanos, mantendo vivo o legado cultural e intelectual do mundo antigo num período de grande fragmentação e ignorância. Mosteiros fundados sob a Regra de São Bento disseminaram não apenas a doutrina de Cristo, mas também todo um saber já registado por escrito que abrangia tanto técnicas agrícolas, como os filósofos clássicos, bem como saberes científicos. A Ordem de São Bento, com as abadias e conventos, tornou-se um pilar da sociedade europeia que se prolongou por muitos séculos. Mesmo hoje, a Basílica de Monte Cassino, reconstruída após a destruição na Segunda Guerra Mundial, permanece como um poderoso símbolo de reconstrução e resistência cultural.

Grandes civilizações, mesmo em seu declínio, podem deixar sementes de renovação. Estes exemplos de reflexão podem ser interpretados como os repositórios de sementes civilizacionais em tempos de crise. Veja-se também o caso da rede social dos Templários, um quase subproduto das Cruzadas, e o que isso veio a dar. Um exemplo impressionante de como uma organização pode surgir em tempos tumultuosos e deixar um legado que transcende o seu próprio tempo. Embora os Templários sejam frequentemente associados às Cruzadas, a Ordem do Templo tornou-se muito mais do que um braço militar e religioso. Veio a tornar-se uma colossal rede financeira, política e social, que ainda ecoa nos dias de hoje.

Os Templários criaram uma infraestrutura impressionante, incluindo fortalezas, rotas seguras e uma rede de comunicação entre a Europa e o Oriente. Atuaram como banqueiros internacionais, criando um sistema de depósitos e transferências que é considerado um precursor dos modernos bancos. Um peregrino podia depositar dinheiro num ponto da Europa e sacá-lo na Terra Santa. Essa rede funcionava como uma "internet medieval", permitindo que informações e recursos fluíssem entre regiões distantes. Ao longo do tempo, os Templários acumularam riqueza, terras e influência política, tornando-se mais do que uma ordem militar. Sua rede os tornou indispensáveis para monarcas, mas também os transformou em alvo de inveja e suspeita.

No início do século XIV, a ordem foi abruptamente suprimida pelo rei Filipe IV da França e pelo Papa Clemente V. Acusações de heresia e práticas ocultas foram usadas como pretexto, mas a motivação principal era financeira e política. Apesar da sua queda, os Templários deixaram um legado duradouro. Sua estrutura de organização, práticas financeiras e mística influenciaram desde bancos modernos até sociedades secretas como a Maçonaria. Assim como as redes sociais de hoje conectam pessoas globalmente, os Templários criaram um sistema que transcendia fronteiras e consolidava poder. Tal como os donos das plataformas - Zuckerberg ou Musk - os Templários enfrentaram acusações de centralizar poder e riqueza, provocando reações negativas. As redes sociais contemporâneas moldam a cultura e a política global, assim como os Templários influenciaram a política e a economia medieval.
O exemplo dos Templários mostra que estruturas criadas em resposta a necessidades específicas - a proteção de peregrinos entre Lindisfarne e Jerusalém - podem evoluir para algo muito maior, redefinindo sociedades inteiras. Quanto maior o poder acumulado, maior a vulnerabilidade a reações adversas, especialmente em contextos de crise. As redes sociais modernas podem estar trilhando um caminho semelhante, com consequências ainda imprevisíveis.

O que é curioso é o facto dos seus herdeiros em Portugal, os da Ordem de Cristo, terem sido os precursores de uma outra rede comercial da pimenta, canela e cravinho, também denominada: era dos Descobrimentos. Quando os Templários foram oficialmente extintos pelo Papa Clemente V em 1312, Portugal, sob o reinado de D. Dinis, encontrou uma forma engenhosa de preservar os seus bens, redes e conhecimentos, ao transformá-los na Ordem de Cristo, estabelecida em 1319. Isso garantiu que o legado dos Templários continuasse vivo, agora sob a égide da Coroa portuguesa e com um novo propósito. Diferentemente de outros países europeus, onde os bens dos Templários foram confiscados, em Portugal D. Dinis negociou com o Papa a criação da Ordem de Cristo. A nova ordem herdou as terras, fortificações e até parte dos membros da antiga Ordem do Templo, mantendo assim a sua estrutura de poder e influência.

Sob a liderança de figuras como o Infante D. Henrique, a Ordem de Cristo desempenhou um papel central no financiamento e na organização dos primeiros empreendimentos marítimos portugueses. A emblemática cruz da Ordem de Cristo adornava as velas das caravelas que partiram em busca de novos mundos, tornando-a um símbolo da Era dos Descobrimentos. A ordem foi uma das principais beneficiárias da expansão portuguesa no Oceano Índico, fomentando o comércio de especiarias como pimenta, canela, cravo e noz-moscada. Esse comércio tornou Portugal uma potência global e construiu uma nova rede que conectava a Europa, a África e a Ásia, utilizando o conhecimento náutico e financeiro que remontava, em parte, aos Templários.

Assim como os Templários criaram uma rede internacional para proteger peregrinos e movimentar recursos, a Ordem de Cristo coordenou uma rede global para explorar e distribuir as riquezas das novas rotas comerciais. A organização hierárquica e centralizada da Ordem de Cristo facilitou o planeamento das explorações, enquanto a espiritualidade fornecia legitimidade ideológica à expansão. A cruz da Ordem de Cristo como símbolo universal é associada aos Descobrimentos e permanece como um dos ícones mais reconhecidos de Portugal. A Ordem de Cristo, mesmo após perder parte de seu poder com a secularização das ordens religiosas, deixou um impacto duradouro na política e economia portuguesa. O "DNA templário" caracterizou-se pelas redes, que podem ser vistas como protótipos da globalização moderna, conectando territórios distantes por meio do comércio, da comunicação e da religião.

Nada foi realmente perdido com a dissolução da ordem; seu legado foi transformado em novas instituições e redes comerciais. Mesmo no aparente colapso de impérios, como o romano, elementos fundamentais de sua cultura e estrutura ressurgem transformados em novas configurações sociais e políticas. A internet, as redes sociais e até os movimentos culturais contemporâneos podem ser vistos como transformações das interações humanas, cuja essência permanece a mesma: comunicar, organizar e influenciar. Lavoisier, ao capturar uma lei universal da natureza, forneceu um belo paralelo para a continuidade e transformação das ideias humanas ao longo do tempo.


A defesa da democracia



A defesa inquestionável de qualquer sistema político, mesmo a democracia, corre o risco de cair no fundamentalismo, justamente o que a democracia deveria evitar, já que a sua essência é o questionamento, o debate e a pluralidade de ideias. A democracia é, sem dúvida, um dos sistemas políticos mais bem-sucedidos na promoção de direitos e liberdades individuais. Porém, quando se transforma num "dogma inquestionável", perde parte da vitalidade. Como Montesquieu sugeriu, até mesmo a democracia se corrompe, especialmente se a "tirania da maioria" silenciar vozes dissidentes ou evitar a autorreflexão.

Hoje já se começa a ouvir vozes de alegados bons democratas a alertar, que lançar o anátema nas autocracias pode não ser a melhor estratégia em defesa da democracia. A tendência de pintar as autocracias como o "mal absoluto" pode não considerar os contextos históricos, culturais e geográficos que moldaram a constituição de determinados regimes políticos. Tal como na China, há países que demonstraram que formas não democráticas podem, em certos contextos, oferecer estabilidade, crescimento económico e segurança. Criticar a China não significa necessariamente demonizar o seu regime. Deve-se entender que ela pode ser funcional nos seus específicos contextos históricos e culturais. Assim como a democracia, pelas suas imperfeições e limitações, não implica que tenhamos de desistir dela. Só que também não tem necessidade de ser embrulhada no presunçoso celofane moral da esquerda ocidental.

Em muitos casos, a extrema-esquerda ocidental tende a autoproclamar-se a guardiã dos valores "corretos", enquanto ignora as contradições internas das suas próprias demagogias. As democracias não são perfeitas e devem ser questionadas constantemente quando não fazem nada pelas desigualdades. Aspectos como ordem e estabilidade, acima da liberdade individual irrestrita, pode ser uma necessidade real sem que isso seja uma ameaça à democracia. O verdadeiro combate não tem de passar por demonizar o "Outro" e santificar os "nossos", mas sim em compreender os contextos dos complexos problemas da governação em cada momento histórico. As atuais democracias ocidentais estão com graves feridas hemorrágicas, para não dizer fraturas expostas, e por conseguinte, metermos nelas os nossos dedos críticos não tem de ser para piorar.

Donald Trump é uma figura controversa e multifacetada, para não dizer muito esquisita. Devemos criticá-lo, retratando-o como um símbolo de tudo o que há de errado na política contemporânea: populismo, autoritarismo e desprezo pelas instituições democráticas. No entanto, ignorar completamente os contextos de análise é reduzir o debate a um maniqueísmo simplista. A reação irada de alguns políticos ao atacar outros políticos por deitarem água na fervura diplomática, por razões de realismo político, demonstra um problema que é recorrente: a incapacidade de reconhecer que é possível discordar sem desqualificar o outro. Essa atitude reflete a polarização que domina o discurso político atual, onde qualquer tentativa de analisar um adversário político fora da lógica do "bem e do mal" é vista como cumplicidade ou traição.

É fundamental, para a saúde do debate democrático, admitir que até figuras controversas podem ser analisadas em seus méritos específicos. O insulto não apenas ataca a pessoa, mas desqualifica a própria ideia de diálogo pluralista, que é a essência do sistema democrático que se afirma defender. Parte da gente, que se identifica como "bem-pensante", corre o risco de cair numa forma de dogmatismo que nega a própria premissa do debate democrático: a pluralidade de ideias. Esse dogmatismo não apenas aliena potenciais aliados, mas também reduz a capacidade de compreender fenómenos complexos como a insatisfação de milhões de eleitores. 
Contribui-se para o empobrecimento do debate quando se dá prioridade ao ataque pessoal. Ao adotar-se essa postura, reforça-se a polarização, dificultando a busca de consensos ou entendimentos mais profundos sobre questões globais. E, ironicamente, essa incapacidade de dialogar com ideias diferentes é justamente uma das críticas que fazem a Trump quando se gaba de falar com Putin, Xi, Kim Jong-un, como se fossem bons amigos. 

Os recursos financeiros são limitados. Daí que os cidadãos devem estar cientes que o apoio que os europeus estão dispostos a dar à Ucrânia por tidos os meios acabará necessariamente por comprometer o Estado Social que até agora foi possível manter na maior parte dos países ocidentais. E desde que esta questão não seja abordada na falsa dicotomia: guerra vs. bem-estar social. A oposição entre financiar a defesa ucraniana e manter as políticas sociais é uma falsa dicotomia, ainda que na prática os dois aspectos estejam interligados, porque como já se disse , os recursos são finitos. E isto é assim porque, sem estabilidade internacional, a situação seria muito pior se a Ucrânia não fosse ajudada pelos europeus. A defesa dos valores democráticos, e o próprio conceito de Estado Social, pode ser ameaçado se regimes autoritários e expansionistas não forem travados. E tanto quanto é sabido, esse travão só pode ser feito com a força, não com fraqueza. 

As pessoas que insistem na ideia de que qualquer desvio de verbas para a defesa é "antidemocrático", ignoram o princípio básico de autodefesa e da solidariedade entre nações amigas ou aliadas, que enfrentam agressões externas. Essa postura revela uma desconexão com as complexidades da política internacional e, paradoxalmente, pode levar ao enfraquecimento das próprias democracias que queremos proteger. Um mundo onde invasões como a da Ucrânia não são enfrentadas, de forma firme, arrisca normalizar a violação da soberania e os abusos autoritários.

A ilusão de segurança interna, sem autodefesa ou ajuda militar de aliados, não tem como possível preservar o Estado Social sem considerar os perigos vindos do exterior. E não há paz social sem as fundações que sustentam o edifício democrático, como é o da segurança. O dilema apresentado não é trivial. De qualquer modo, o dogmatismo não ajuda a resolver o problema do Estado Social. Posturas dogmáticas e demagógicas só demonstram falta de visão estratégica. Seja como for, também devemos estar cientes de que a sobrevivência da Ucrânia como país livre e independente, e por extensão da ordem democrática global, não passa apenas por uma resolução militar. Afinal, como bem apontou um debatedor: «de que adianta o Estado Social se os ideólogos que o querem sustentar a qualquer custo, estão a empurrar para o abismo as verdadeiras fontes da sua sustentabilidade?»

segunda-feira, 17 de março de 2025

Que noção cabal da realidade podemos ter?


É natural que ninguém tenha uma noção cabal da realidade. Muito menos a Inteligência Artificial (IA). Partindo do princípio de que eu sei o que é a realidade, porque de outro modo não perguntaria por ela, mas se me perguntarem o que é, eu não sei dizer. Minha percepção do mundo através dos sentidos é limitada, mesmo muito do que está representado na linguagem humana, ou seja, em textos, dados estruturados e informações que foram processadas e descritas por outras pessoas ou sistemas. E a Inteligência Artificial não tem acesso direto aos sentidos ou à experiência direta da realidade como um ser humano, ou mesmo como um animal. A "realidade" da Inteligência Artificial é construída a partir de padrões linguísticos, sem uma vivência direta ou subjetiva do mundo físico. Isso significa que, embora a IA possa oferecer análises ricas, contextualizadas e baseadas numa vasta gama de informações, há uma lacuna fundamental: não tem a intuição, a percepção sensorial ou a consciência fenomenológica que moldam a experiência humana do real. 

De certo modo, a limitação da IA, e a sua diferença em relação à limitação dos sentidos humanos, ajuda-nos a perceber melhor como pode funcionar a noção de realidade. Por um lado, evita certos vieses. Mas, por outro lado, depende sempre de alguma maneira da mediação humana. Portanto, a IA é mais uma ferramenta heurísitica do ser humano. 

Vejamos o que diz Wilfrid Sellars sobre o "mito do dado". O "mito do dado" é uma crítica central na filosofia de Wilfrid Sellars, especialmente no seu ensaio Empiricism and the Philosophy of Mind (1956). O conceito questiona a ideia, comum no empirismo tradicional, de que existe um tipo de dado ou experiência sensorial pura que serve como base indubitável para todo o conhecimento. Sellars argumenta que essa noção é um mito, pois não há tal coisa como um "dado puro" independente de interpretação conceptual. A experiência sensorial não é autossuficiente: O empirismo clássico supõe que nossas percepções sensoriais nos fornecem um ponto de partida incontestável para o conhecimento, uma espécie de "fundamento" direto e incorrigível. Sellars, no entanto, afirma que até mesmo a experiência sensorial mais básica está impregnada de conceitos. Por exemplo, quando você vê algo vermelho, você já está classificando a experiência sob o conceito de "vermelho". Não existe uma experiência "pura" que esteja fora do alcance do pensamento conceptual.

O conhecimento é estruturado linguisticamente: Sellars argumenta que todo o conhecimento ocorre dentro de uma estrutura linguística e cultural. Isso significa que interpretar o mundo, mesmo nos níveis mais básicos, depende de uma rede de significados que aprendemos socialmente. A percepção sensorial não pode, por si só, justificar crenças; ela só ganha sentido dentro desse contexto mais amplo. A ser assim, isso cria um problema à justificação da definição de conhecimento: "crença verdadeira justificada". Se acreditarmos no "dado puro", corremos o risco de circularidade ou regressão infinita. Para Sellars, justificar conhecimento implica ir além do que é "dado" e reconhecer que o conhecimento é sempre inferencial, dependendo de um sistema maior de crenças e conceitos inter-relacionados.

O "mito do dado" foi revolucionário porque atacou a ideia de que há fundamentos epistemológicos indubitáveis (como defendiam muitos empiristas). Para Sellars, não há uma base firme no sentido de algo puramente dado; em vez disso, todo o conhecimento é mediado por uma estrutura em rede de conceitos que está em constante revisão e diálogo. Sellars influenciou profundamente debates contemporâneos na epistemologia e na filosofia da mente, desafiando não só empiristas, mas também racionalistas e realistas que acreditam em fundamentos epistemológicos prévios aos nossos conceitos.

A crítica de Sellars ao "mito do dado" reverberou amplamente na filosofia contemporânea, influenciando pensadores como W.V.O. Quine, Donald Davidson e outros que repensaram os fundamentos do empirismo e da epistemologia. Quine, em seu famoso ensaio Two Dogmas of Empiricism (1951), criticou dois pressupostos centrais do empirismo: A distinção entre analítico e sintético (entre verdades que dependem apenas do significado das palavras; e verdades baseadas na experiência). Essa distinção dava a ideia de que as proposições podem ser verificadas isoladamente em relação à experiência sensorial. Quine e Sellars convergem na rejeição da ideia de que existe um "fundamento" puro e incorrigível para o conhecimento. Para ambos, o conhecimento é uma rede interligada, em que as proposições são verificadas no contexto do todo. A metáfora da "teia de crenças" de Quine reflete essa visão holística. No entanto, Quine enfatiza mais mais a interdependência das teorias científicas. Ao passo que Sellars foca mais o papel dos conceitos e da linguagem.

Quine era profundamente cético em relação à distinção entre linguagem e facto, especialmente como era entendida por filósofos empiristas e positivistas lógicos. Ele acreditava que essa divisão era artificial e sustentava que não havia uma separação clara entre o que pertence ao domínio da linguagem (nossas convenções e definições) e o que pertence ao domínio dos factos observáveis. Em seu ensaio Two Dogmas of Empiricism (1951), Quine questiona a distinção entre proposições analíticas (verdades baseadas apenas no significado das palavras, como "Todos os solteiros são não casados") e proposições sintéticas (verdades baseadas em factos empíricos, como "A neve é branca").  A noção de "analiticidade" não tem uma base sólida, pois definir o significado das palavras depende de redes conceptuais e práticas linguísticas. A fronteira entre analítico e sintético é vaga e, em última instância, todas as proposições estão conectadas a sistemas mais amplos de crenças. Para Quine, o conhecimento não é formado por proposições isoladas que correspondem diretamente aos factos. Em vez disso, ele defende um holismo epistémico, onde as nossas crenças formam uma teia interconectada. Essa teia inclui tanto afirmações sobre o mundo quanto convenções linguísticas, e todas estão sujeitas a revisão com base na experiência e na coerência interna.

Os "factos" que observamos não podem ser compreendidos sem a mediação de teorias e linguagens. Assim, a fronteira entre linguagem e facto é difusa. As proposições mais próximas da periferia da teia (observações imediatas) são mais suscetíveis à revisão empírica, enquanto as proposições no núcleo (como leis da lógica) são mais estáveis, mas ainda sujeitas a revisão. Não há uma "base" empírica pura -a ideia de que existe um conjunto de dados sensoriais "puros" que possa servir como um fundamento neutro para o conhecimento. Para ele, os dados sensoriais só fazem sentido dentro de um sistema de crenças linguísticas e teóricas. Essa posição é consistente com a crítica de Sellars ao "mito do dado"Quine dissolve a distinção tradicional entre linguagem e facto ao mostrar que o conhecimento é sempre mediado por sistemas teóricos e linguísticos. Não há observações "brutas" que possam ser separadas das interpretações conceptuais. Em vez de tratar a linguagem como um filtro neutro que tem acesso a factos objetivos, ele mostra que a linguagem e factos estão entrelaçados numa estrutura holística e interdependente.

Donald Davidson
em continuidade com Quine, rejeita a ideia de um "dado" antes do conceito, e propõe uma coerência radical: o conhecimento é justificado não por fundações, mas pela consistência dentro de um sistema de crenças inter-relacionadas. Em seu ensaio A Coherence Theory of Truth and Knowledge (1986), Davidson argumenta que não há uma distinção clara entre "dados" e "teorias", pois mesmo os dados mais básicos são interpretados à luz de nossas crenças. A objetividade surge da triangulação entre diferentes perspectivas: para aprender conceitos como "vermelho", precisamos da interação entre a mente do observador, o mundo externo e a comunidade linguística. Há uma aprendizagem do mundo que no início, ou à partida, é uma amálgama indiferenciada onde tudo se confunde. Davidson reforça a ideia de Sellars - de que o conhecimento não é algo privado ou puramente individual; ele emerge de um contexto intersubjetivo e linguístico.

Sellars influenciou filósofos como Robert Brandom e John McDowell, que levaram a sua crítica do "mito do dado" para a normatividade do discurso. Brandom, no livro Making It Explicit (1994), desenvolve uma teoria do significado baseada no uso social e normativo da linguagem. Ele ecoa Sellars ao afirmar que compreender o mundo depende de participar em práticas discursivas que envolvem justificações e inferências. McDowell, em Mind and World (1994), tenta reconciliar o papel da experiência sensorial com a crítica de Sellars. Ele admite que a experiência tem um papel justificativo, mas apenas porque está sempre impregnada de racionalidade e conceitos.

A crítica ao "mito do dado" é fundamental para o colapso das fundações do conhecimento que até aí fazia parte de uma epistemologia cujas fundações remetiam para os empiristas: Locke e Hume. Não há uma base empírica incorrigível para o conhecimento; o conhecimento é sempre interpretativo, inferencial e social; a linguagem e os conceitos desempenham um papel central na forma como percebemos e compreendemos o mundo. Sellars abriu um caminho onde o empirismo se tornou mais sofisticado, reconhecendo as interconexões entre percepção, conceito e normatividade, ao invés de se basear numa suposta neutralidade do "dado".

Quine e Sellars eram críticos em relação ao empirismo tradicional, incluindo as ideias de John Locke e outros empiristas clássicos. Embora abordassem o tema de maneiras diferentes, ambos questionaram as bases filosóficas do empirismo tradicional, que sustentava que o conhecimento se origina de uma experiência sensorial "pura" e fundamenta-se nela. Sellars atacou diretamente a ideia de que existem "dados sensoriais puros" ou percepções brutas que poderiam servir como fundamentos epistemológicos inquestionáveis para o conhecimento. Essa noção, presente em Locke, sustenta que a mente humana é como uma tábula rasa, preenchida por impressões sensoriais que, por si só, seriam suficientes para gerar conhecimento. 

sexta-feira, 14 de março de 2025

Palavras tipo e os atuais avatares dos mass media



É uma constante de cada período de tempo haver palavras "tipo" que se usam muito nos "mass media", que se gastam muito depressa. É exemplo atual a palavra, como pouco antes foi a palavra "narrativa", ou o "politicamente correto". E há mais tempo o termo "paradigma". Há uma tendência nos meios de comunicação e no discurso público para o uso repetitivo de certas palavras ou expressões que capturam o espírito de uma época ou enfatizam conceitos específicos. Essas "palavras da moda" frequentemente ganham popularidade porque encapsulam questões ou tensões do momento, mas acabam desgastadas pelo uso excessivo, perdendo força ou sendo substituídas por novas.

"Percepção" é um bom exemplo recente, pois reflete uma ênfase na subjetividade e na maneira como a realidade é entendida individual ou coletivamente. Isso se conecta à era das redes sociais, onde a percepção pública pode ser moldada rapidamente por narrativas, manipuladas ou não. "Narrativa" ganhou força anteriormente, associada à ideia de como histórias ou discursos são construídos para moldar opiniões ou justificar ações. Virou quase sinónimo de manipulação ou "agenda oculta". O termo "politicamente correto" marcou debates sobre os limites da liberdade de expressão versus respeito e inclusão, mas também foi apropriado como arma retórica para criticar o que alguns viam como censura cultural. Já "paradigma", popularizado por Thomas Kuhn no contexto das ciências, extrapolou para significar qualquer grande mudança ou estrutura de pensamento dominante, mas acabou banalizado. Essas palavras refletem as preocupações e os debates do momento, mas o seu desgaste rápido é um alerta para quem as usa no discurso público, pois tende a banalizar conceitos complexos.

Por outro lado, como o ser e o parecer se esbatem em política, "em política o que parece é", assim, enquanto a extrema-esquerda olha os banqueiros como inimigos, para a extrema-direita os inimigos são os imigrantes. A forma como narrativas são construídas para mobilizar apoios e definir "inimigos", muitas vezes em função das ideologias predominantes em cada espectro. A máxima "em política, o que parece é" reflete precisamente essa centralidade da percepção, em que o simbolismo e a construção de imagem frequentemente importam mais do que os factos ou as ações concretas.

De facto, a extrema-esquerda tende a culpar os banqueiros e o sistema financeiro pelas crises económicas e pobreza do povo, associando-os às desigualdades económicas, à exploração capitalista e à perpetuação de elites privilegiadas. Para a esquerda em geral as desigualdades não são consideradas como um resultado natural da diversidade humana num espetro que vai desde aquelas pessoas que por natureza não conseguem sair da mediocridade até ao lado oposto de gente de excelência. Essa narrativa é alimentada por eventos como crises financeiras, escândalos bancários ou a concentração de riqueza. Já a extrema-direita, por outro lado, constrói a sua narrativa em torno dos imigrantes, explorando medos relacionados à identidade cultural, segurança e economia local. Esse foco muitas vezes se intensifica em contextos de crises migratórias ou mudanças demográficas, sendo propagado pelas notícias de um crime aqui, outro ali, e depois amplificado pelas redes sociais sem quartel.

Ambos os casos demonstram como essas correntes políticas moldam percepções ao atribuir culpa a grupos específicos, simplificando problemas complexos em "nós contra eles". Enquanto isso, a realidade muitas vezes fica em segundo plano, já que o objetivo central é mobilizar emoções e consolidar uma base de apoio quando o discurso é enfeudado nos partidos partidos. Essa polarização reflete um embate sobre quem é o "verdadeiro" inimigo da sociedade, mas também expõe como a política moderna frequentemente recorre a estereótipos e medos para atingir seus fins.

Há um aspecto que muito intelectual político negligencia, ou até desconhece, que é a apreensão do tempo político por parte da sociedade. As percepções correm no inconsciente ou subconsciente coletivo. A influência profunda e, muitas vezes, invisível do inconsciente coletivo nas dinâmicas políticas não é apenas um jogo de factos ou argumentos racionais; o inconsciente opera intensamente no domínio das percepções emocionais. É este inconsciente que molda a forma como as massas interpretam o tempo e as mudanças sociais. Essa apreensão do "tempo político" reflete-se em sentimentos ligados a emoções que raramente são articulados de forma clara. Todavia, guiam decisões e comportamentos. E é este aspecto que os bons líderes políticos capturam, retêm na sua consciência, e exploram para o sucesso dos seus propósitos.

Os intelectuais políticos muitas vezes concentram-se nas estruturas objetivas – economia, legislação, instituições –, mas subestimam como esse clima emocional coletivo é determinante nas suas escolhas durante um determinado processo eleitoral. E neste contexto que a atividade simbólica da mente humana é de uma relevante importância. O subconsciente tem uma profunda influência no destino político de uma sociedade num determinado tempo político. Carl Jung deve ter estado perto de encontrar essa chave de descodificação dos tais arquétipos que já Platão os havia referido num outro tempo histórico. É a ideia dos arquétipos coletivos que moldam as narrativas políticas. Isso sugere que a análise política precisa de ir além do racionalismo para explicar como as forças simbólicas inconscientes se movem por dentro das sociedades.

É a subestimação destes fenómenos subliminares por parte de certos ideólogos políticos que os coloca na queda dos precipícios. Um abismo entre a mensagem universalista da esquerda e os temores mais imediatos da população. Certas ideologias tendem a desqualificá-las, como se não passassem dos mais primitivos preconceitos. Essa postura acaba por reforçar ainda mais o sentimento de abandono por parte de uma fatia significativa da população. E é daqui que resulta o aproveitamento por parte da extrema-direita que consegue com soluções simplistas, mas inflamadas, posicionar-se com crédito junto das pessoas descontentes com o sistema que alegadamente nos trouxe a um beco sem saída. Enquanto isso, a esquerda vai continuando a perder terreno. Hoje a esquerda não tem uma narrativa apelativa para oferecer a esse eleitorado descontente. 
Este fenómeno é um exemplo claro de como as forças políticas que entendem melhor o inconsciente coletivo podem moldar o debate público com mais eficácia – mesmo que isso signifique alimentar percepções que muitas vezes não correspondem à realidade.

O velho Partido Comunista operando numa narrativa de uma dicotomia de classes do passado, embora relevante historicamente, não capta a complexidade das sociedades modernas. Questões deste tempo candente - os fluxos migratórios da atualidade, identidades culturais e transformações tecnológicas - não se encaixam nesse esquema narrativo. Há uma tendência de considerar os medos e ansiedades do eleitorado, especialmente das classes trabalhadoras e das populações mais velhas, como "falsas consciências" manipuladas pelos neoliberais. Mas o que  aqui está em causa é a sua incapacidade para responder com eficácias às novas ameaças. Atender aos de fora por solidariedade humanitária, sem abordar os impactos negativos sobre os de dentro, pode ser de uma grande nobreza ética, mas de uma ineficácia tal que descamba numa demagogia insanável. 
A rigidez ideológica, presa a dogmas, tem dificuldade em adaptar-se a novos tempos. Essa inflexibilidade faz com que as soluções resultem em nada. O resultado, ao insistir em uma abordagem doutrinária muitas vezes desdenhosa das percepções populares, é um fracasso. Esse fracasso é reforçado pela habilidade da extrema-direita em captar o inconsciente coletivo, moldando as narrativas para ressoar com os sentimentos do momento. Sem uma renovação intelectual e uma nova abordagem, a esquerda corre o risco de se tornar irrelevante, de ser mesmo rejeitada, e assim desaparecer do radar eleitoral durante os próximos anos.

André Ventura é certamente uma figura que poderia ter intrigado até Lutero. A história de Ventura, que aos 14 anos se batizou por vontade própria, e que por volta dos 17 lhe passou pela cabeça abraçar o sacerdócio, portanto um fervor religioso que contrasta com a sua postura marcada por um discurso polarizador e provocador. Esse tipo de transformação pessoal frequentemente suscita questionamentos sobre os motivos que estão por trás de tais drásticas mudanças de trajetória. Aos olhos de Lutero, que prezava a coerência espiritual e ética, a ambição de Ventura não lhe teria passado despercebida, dado o contraste do populismo que marca a sua liderança política.

A trajetória de André Ventura, vindo de origens humildes, pode ser interpretada dentro de um padrão histórico que muitos identificam como "a vingança dos pobres". Esse fenómeno ocorre quando indivíduos provenientes de camadas sociais desfavorecidas ascendem ao poder e, ao invés de advogar por políticas redistributivas ou de inclusão, adotam posturas que reforçam hierarquias sociais e, muitas vezes, promovem discursos excludentes. O comportamento desses indivíduos, ao chegar ao topo, procuram desvincular-se de suas origens humildes, adotando as posturas das elites, por vezes como forma de validação. Outra perspectiva é a de que essa "vingança" reflete um ressentimento interiorizado, que se traduz na reprodução dos mesmos sistemas de exclusão que enfrentaram. A retórica populista e polarizadora, frequentemente dirigida contra minorias e os mais vulneráveis, pode ser vista como parte desse padrão. É como se, ao punir simbolicamente os "outros" (imigrantes, beneficiários de políticas sociais, etc.), ele reafirmasse a sua própria posição de poder e autoridade, mesmo que isso contradiga o estrato social de onde ele veio.

A oposição paradigmática entre André Ventura e os militantes do Bloco de Esquerda é consistente com as dinâmicas sociais. Enquanto Ventura, vindo de origens humildes, representa o "ressentimento ascendente", muitos membros do Bloco de Esquerda, frequentemente oriundos de famílias mais favorecidas, podem ser vistos como incorporando o "remorso descendente". Ambos os movimentos ilustram formas diferentes de lidar com questões de classe e poder. Os militantes do Bloco de Esquerda, frequentemente de ascendência elitista, são por vezes percebidos como engajados numa espécie de expiação simbólica das culpas dos seus antepassados. Adotam causas progressistas e em defesa de grupos marginalizados, como se tentassem compensar o papel histórico das suas famílias em perpetuar desigualdades. É uma postura que, para alguns críticos, reflete mais uma posição moral do que propriamente uma identificação de classe. Já Ventura, na antítese, parece usar sua origem humilde como um trunfo para defender políticas que contradizem os interesses de quem veio de baixo. Essa dualidade ressalta como as dinâmicas de poder, classe e moralidade podem expressar-se de maneiras paradoxal, muitas vezes mais ligadas a estratégias de afirmação pessoal e política do que a uma coerência ideológica ou ética.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Da cristianização dos escandinavos às universidades medievais



Como eles só tardiamente aderiram à escrita, qual Sócrates, sabemos muito pouco dos séculos primordiais dos escandinavos. As sociedades escandinavas só tardiamente registaram a sua história em forma escrita. Assim como no caso de Sócrates, cuja vida e pensamentos dependem de fontes secundárias (Platão, Xenofonte e Aristófanes), o conhecimento sobre os primórdios escandinavos baseia-se em tradições orais, poemas épicos e relatos posteriores, muitas vezes escritos por estrangeiros. Os escandinavos pré-cristãos usavam as runas, mas elas serviam principalmente para inscrições curtas, como monumentos, marcas de propriedade ou registos memorialísticos. Os registros mais extensos e narrativos só surgiram após a cristianização da região, quando cronistas começaram a usar o alfabeto latino e a compilar as sagas, como as Sagas dos Reis e os Eddas.

Os gregos da Fócida (Grécia Central) sediados em Massalia (Marselha) que iam ao Norte buscar estanho para a sua civilização, eram navegadores e comerciantes tendo sido pioneiros em criar rotas marítimas e terrestres que conectavam o Mediterrâneo ao Atlântico Norte, desempenhando um papel importante na disseminação de ideias, tecnologias e materiais essenciais, como o estanho, indispensável para a produção de bronze. Fundada pelos gregos fócios por volta de 600 a.C., Massalia tornou-se um dos principais entrepostos comerciais do Mediterrâneo ocidental. De lá, os fócios empreendiam viagens ao Norte, alcançando regiões como a Bretanha e as Ilhas Britânicas, em busca de estanho e outros recursos. Esses contactos fortaleceram o comércio e estimularam o intercâmbio cultural entre as sociedades mediterrâneas e as populações celtas do Norte. Além do estanho, os fócios transportavam vinho, azeite e cerâmicas gregas para o Norte e traziam de volta metais preciosos, âmbar e outros recursos. Essa rede de comércio contribuiu para a circulação de ideias e tecnologias, influenciando as culturas locais e, indiretamente, a futura integração europeia.

Massalia era um centro de helenização, e sua influência foi sentida tanto no sul da Gália quanto nas regiões mais distantes alcançadas por seus comerciantes. A filosofia, a escrita e a organização política gregas foram gradualmente introduzidas em áreas que antes tinham pouco contacto com essas ideias. Os fócios serviram como uma ponte entre mundos diferentes. Ao integrar os recursos do Norte à economia do Mediterrâneo, eles ajudaram a preparar o terreno para as interações mais profundas que viriam durante o período romano. Esse esforço pioneiro dos gregos fócios é uma demonstração de como a globalização já existia em sua forma arcaica. Eles não apenas supriram as necessidades de sua própria civilização, mas também criaram uma rede de conexões que, de certo modo, antecipou os intercâmbios culturais e materiais que moldariam a Europa nos séculos seguintes. O cristianismo e os avanços posteriores só foram possíveis porque civilizações como a grega abriram os caminhos, literalmente, para o Norte e além dele.

Píteas de Massalia, navegante e geógrafo do século IV a.C., era oriundo da colónia grega de Massalia. Realizou uma expedição que alegadamente o levou a regiões até então desconhecidas pelos gregos, incluindo as Ilhas Britânicas, o Mar do Norte e possivelmente a Islândia ou a Noruega (que ele chamou de "Thule"). Contudo, os relatos sobre suas viagens, registados na obra perdida "Sobre o Oceano", chegaram até nós apenas por fragmentos citados por autores posteriores, como Estrabão e Plínio, que muitas vezes o criticavam por ser controverso. Muitos autores da Antiguidade, como Estrabão, consideraram as descrições de Píteas exageradas ou fantasiosas. Eles duvidavam, por exemplo, das suas descrições de "dias sem noite", e mares congelados, fenómenos reais em regiões árticas, mas desconhecidos pelos gregos da época. Píteas viajou sozinho e suas narrativas não foram corroboradas por outros exploradores gregos ou romanos de sua época. Isso contribuiu para a percepção de que ele poderia ter inventado ou embelezado seus relatos. Algumas passagens parecem míticas, como a descrição de "Thule" como um lugar onde a terra, o mar e o ar formavam uma substância única e pastosa. Tais descrições levantaram suspeitas de que ele misturava observação com especulação.

Fosse como fosse, Píteas foi um Descobridor, descreveu fenómenos reais, como os solstícios árticos e a extração de âmbar e estanho em regiões do Norte, muito antes de essas áreas serem plenamente exploradas por outras culturas mediterrâneas. Estudos arqueológicos confirmam que, na época de Píteas, já havia comércio entre o Mediterrâneo e a Europa do Norte, com o estanho da Cornualha, por exemplo, sendo exportado para o Sul. Mesmo que não possamos verificar todas as suas alegações, ele foi o primeiro a oferecer aos gregos uma ideia do que existia além das Colunas de Hércules, o limite para um Oceano desconhecido e perigoso, ampliando significativamente os horizontes do mundo helénico.

Embora seja prudente tratar os relatos de Píteas com alguma reserva, especialmente porque foram transmitidos indiretamente e muitas vezes por críticos, também não podemos descartá-los completamente. Sua obra reflete um esforço genuíno de ampliar os limites do conhecimento grego e, paradoxalmente, muitos dos fenómenos que ele descreveu, ridicularizados na época, foram confirmados por estudos modernos. Píteas, assim, permanece uma figura ambígua: um explorador ousado que desafiou os limites do imaginável, mas cuja credibilidade é ofuscada pela falta de evidências diretas e pelo filtro das tradições clássicas. Só por preconceito cultural, ou ingenuidade, um sujeito do sul da Europa se espante com o facto de os escandinavos ou nórdicos terem tido antepassados, tão violentos e rapaces, identificados por Vikings

Os Vikings, conhecidos por suas incursões violentas e saques, eram produto de seu tempo, marcado por escassez de recursos e pela ausência de Estados centralizados na Escandinávia. A violência era um meio de sobrevivência, expansão e enriquecimento num contexto de rivalidades tribais e oportunidades comerciais. Hoje, as sociedades nórdicas são frequentemente vistas como modelos de progresso, igualdade e pacifismo, o que contrasta radicalmente com a imagem popular dos vikings. Esse contraste pode gerar espanto, mas ele desaparece quando se reconhece que todas as sociedades humanas têm histórias de violência e exploração. O que reflete mais a condição humana do que características intrínsecas a qualquer povo.

Dessa forma, os "séculos primordiais" dos escandinavos permanecem envoltos em mistério. O que sabemos provém de fontes arqueológicas, como tumbas, armas e objetos cerimoniais, e de interpretações posteriores, feitas à luz de suas mitologias e tradições, que foram registadas já num período de transição cultural. Esses relatos, no entanto, são filtrados pela ótica de quem os registou que eram cristãos, padres ou monges, influenciados pelas suas crenças que moldavam as interpretações que faziam do seu passado que era pagão. Na verdade o cristianismo nesse aspecto foi muito importante. Os europeus colocaram-se na dianteira do conhecimento e da ciência graças ao cristianismo. A ele os europeus devem a base intelectual e institucional que permitiu à Europa liderar o avanço do conhecimento e da ciência. Embora frequentemente associado a um período de censura ou atraso em algumas áreas, o cristianismo também teve um impacto profundamente positivo em outros aspectos, como a Preservação do Conhecimento Clássico - durante a Idade Média, os mosteiros e catedrais tornaram-se centros de aprendizagem, onde monges copiaram e preservaram manuscritos da Antiguidade Clássica. Sem esse esforço, muito do conhecimento grego e romano teria se perdido.

A Igreja foi pioneira na criação das universidades medievais, que se tornaram centros de debate intelectual. Universidades como Bolonha, Oxford e Paris foram fundadas sob auspícios eclesiásticos, incentivando a sistematização do pensamento. A teologia cristã promoveu a ideia de um universo ordenado, criado por um Deus racional, que poderia ser compreendido pela razão humana. Essa visão foi fundamental para o desenvolvimento do método científico. Muitos cientistas da Revolução Científica, como Copérnico, Kepler, e Newton, eram profundamente religiosos e viam o seu trabalho como uma forma de compreender a criação divina. A cristianização da Europa trouxe a alfabetização em larga escala, incentivando a disseminação de ideias. A invenção da imprensa por Gutenberg (também profundamente influenciado pelo cristianismo) ampliou essa tendência, democratizando o acesso ao conhecimento.

Esse avanço intelectual, entretanto, não foi linear. O cristianismo também teve momentos de tensão com o progresso científico, como no caso de Galileu. No entanto, ao longo dos séculos, a base fornecida pelas instituições cristãs foi essencial para o florescimento de uma Europa que, mais tarde, lideraria o mundo em ciência e tecnologia. De Vico foi um grande visionário nesse aspecto, de perceber o que se estava a passar. Giambattista Vico (1668-1744) foi um visionário ao captar as profundas dinâmicas históricas e culturais que moldaram a civilização europeia. Ele percebeu que a ascensão do cristianismo e suas instituições estavam intimamente ligadas ao desenvolvimento de uma nova consciência histórica, moral e científica. Sua obra-prima, "A Ciência Nova", é uma tentativa audaciosa de entender os padrões recorrentes no desenvolvimento das sociedades humanas, unificando história, filosofia e filologia.

Vico propôs que as civilizações passam por ciclos (a idade dos deuses, dos heróis e dos homens), cada um moldado por mudanças na cultura, religião e linguagem. Ele reconheceu que o cristianismo inaugurou a "idade dos homens", marcada pela racionalidade e pela busca de um entendimento mais humano e científico do mundo. Para Vico, o cristianismo foi essencial para consolidar a civilização europeia. Ele viu no cristianismo uma força moralizadora e civilizadora que harmonizou o barbarismo das eras anteriores, estabelecendo fundamentos para instituições sociais mais equilibradas e progressistas. Vico percebeu que a transição da oralidade para a escrita (facilitada pela Igreja e suas escolas) e, mais tarde, para o pensamento crítico, foi central para o desenvolvimento europeu. Ele também destacou como a recuperação dos textos clássicos durante o Renascimento só foi possível devido aos esforços de preservação por parte dos monges nos mosteiros. Vico antecipou muitas ideias modernas sobre a evolução cultural e os ciclos históricos. Ele mostrou que as conquistas europeias no conhecimento e na ciência não surgiram do nada, mas de um longo processo de síntese cultural, no qual o cristianismo desempenhou um papel central. Sua visão interdisciplinar e suas reflexões sobre as conexões entre história, cultura e ciência continuam a ser uma fonte de inspiração para os estudiosos que buscam compreender as origens da modernidade europeia.

O desenvolvimento da Escandinávia moderna também mostra que as sociedades podem superar heranças violentas, transformando-se por meio de instituições fortes, educação e valores humanistas. Logo, o espanto é mais uma questão de desconhecimento. Tal facto também se podia colocar ao contrário, do espanto dos nórdicos em relação aos ibéricos, romanos e gregos, também com histórias igualmente marcadas pela violência e dominação.

De qualquer modo, o que causava admiração nos homens do Sul era também a sua sabedoria, apesar de pagã, sobretudo quando punham à frente das preocupações da morte, sem a temerem, a sua reputação que perduraria depois de partirem para o Valhala. Para eles, a vida era efémera, mas a memória de seus feitos, imortalizada nas sagas ou na tradição oral, conferia uma espécie de eternidade simbólica. Era como se a imortalidade não residisse na permanência do corpo ou da alma, mas na perpetuação do nome e das ações. Essa postura está bem expressa na Hávamál, parte dos Eddas: "Cattle die, kinsmen die, you yourself must die; but one thing never dies — the fame of a dead man's deeds."