quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Sobre uma “biografia da Europa”


Passados quase um século - 2030 «-- 1930 - o que nos ocorre pensar, é mais recorrência histórica do que repetição. Com a invasão da Ucrânia por parte da Rússia [2014; 2022], a Europa não regressa ao mesmo ponto; regressa a problemas semelhantes em condições diferentes. Nos anos 192030, para além de outras causas do fascismo, o comunismo bolchevique da URSS funcionou como um catalisador na génese do nazismo. Nos anos 1920 - 1930, o medo do bolchevismo foi efetivamente um dos grandes elementos mobilizadores das direitas europeias. Na Alemanha, o poderoso movimento comunista - o KPD -  chegou a 16,9% dos votos em novembro de 1932. Isso alimentou o temor de uma revolução social. Hitler, com o seu partido, chamado Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, explorou deliberadamente esse medo e apresentou o nazismo como barreira contra o bolchevismo.

O fascismo italiano já tinha uma dinâmica própria quando o nazismo apareceu. O nazismo resultou da combinação da derrota germânica na Primeira Guerra Mundial, e da humilhação do Tratado de Versalhes. A República de Weimar foi varrida por um nacionalismo antissemita, na sequência da Grande Depressão provocada pelo crash de 1929. E o medo do comunismo funcionou como acelerador político. E há uma ironia histórica extraordinária: o anticomunismo que ajudou a legitimar Hitler, perante determinados sectores conservadores, não impediu o pacto Hitler–Stalin de 1939, também conhecido por Pacto Molotov-Ribbentrop. Hitler não teve pejo de, temporariamente, gerir os seus interesses geopolíticos, mesmo que a sua ideologia fosse inconciliável com a ideologia de Stalin. 

As atrocidades que o regime nazi havia levado a cabo, sobretudo durante o tempo que durou a guerra, praticamente só foi verdadeiramente consciencializado na Europa e no Mundo depois da guerra em 1945. Muita gente fora da Alemanha, mas mesmo até uma boa parte do povo alemão, não tinha consciência que tivesse sido possível em plena civilização ser possível tanto horror. E o que é mais surpreendente é o facto de ainda em 1943 as universidades alemãs, e laboratórios hospitalares receberem estagiários estrangeiros sem que nunca tivessem ouvido falar no nome de Josef Mengele.

Há um problema histórico que muitas vezes é simplificado retrospectivamente: nós sabemos hoje o que aconteceu, mas as pessoas que viveram em 1943 não dispunham do mesmo conhecimento. Mesmo muitos alemães desconheciam a dimensão dos crimes do regime nazi, e fora da Alemanha as informações eram frequentemente fragmentárias, confundidas com propaganda de guerra ou simplesmente inacreditáveis. Quanto a Josef Mengele, é importante lembrar que, em 1943, ele ainda não era a figura histórica que hoje conhecemos. Era um jovem médico das SS destacado para o campo de concentração de Auschwitz, onde realizou as suas experiências mais infames. O seu nome era praticamente desconhecido do público e até de grande parte da comunidade médica alemã. A notoriedade de Mengele só surgiu após a libertação dos campos de concentração, quando foram descobertos os testemunhos dos sobreviventes e a documentação dos crimes nazis.

Um estudante estrangeiro recém-chegado à Alemanha, estaria sobretudo inserido no ambiente universitário. É perfeitamente possível que ouvisse rumores sobre perseguições políticas, sobre o desaparecimento de judeus ou sobre a dureza do regime. Aliás, já circulavam notícias no estrangeiro sobre a repressão nazi desde a década de 1930. Mas daí a conhecer os detalhes dos programas de extermínio ou das experiências médicas realizadas nos campos vai uma enorme distância.

Há ainda um aspeto particularmente intrigante do ponto de vista da história da medicina. A medicina alemã gozava, antes da guerra, de um prestígio extraordinário. Muitos dos maiores avanços em fisiologia, anatomia patológica, neurociência e cirurgia tinham origem em universidades alemãs. Esse enorme capital científico coexistiu, tragicamente, com uma degradação ética sem precedentes em alguns setores da medicina alemã sob o nazismo. É um dos grandes paradoxos históricos: médicos altamente qualificados participaram em crimes contra a humanidade utilizando a linguagem da ciência e do progresso.

Hoje, temos uma geometria política muito mais fragmentada. A social-democracia e liberal europeia da era da globalização deu lugar a populismos identitários e nacionalistas com acantonamento da esquerda radical/cosmopolita. A Rússia de Putin não encaixa perfeitamente em nenhuma destas categorias. A Rússia atual combina nacionalismo imperial, conservadorismo cultural, autoritarismo político e capitalismo de Estado, enquanto utiliza elementos retóricos que podem ser aproveitados tanto pela direita identitária como por setores da esquerda contra a NATO e EUA. Setores politicamente opostos podem convergir na desconfiança perante a mesma ordem liberal internacional, sem partilharem uma ideologia comum.

A AfD, na Alemanha, mantém atualmente uma posição muito mais próxima de Moscovo do que os principais partidos alemães. Neste setembro de 2026, dirigentes da AfD estão a preparar contactos com representantes económicos de Putin, tendo em vista a eventual retoma do gás russo, condicionada a um acordo de paz. E este partido defende o levantamento das sanções energéticas contra a Rússia. No caso de Marine Le Pen e o seu partido - Rassemblement National -, a situação é mais ambivalente. Existe um passado muito mais próximo de Putin - incluindo a visita de Le Pen ao Kremlin e a sua posição sobre a Crimeia. Mas hoje, Le Pen e Bardella, estão atualmente a tentar distanciar-se dessa imagem. Em setembro de 2026, Le Pen e Jordan Bardella chegaram a acusar explicitamente a Rússia de tentar influenciar a política francesa. Mélenchon é diferente. Ele não é simplesmente “pró-Putin”. A sua posição é de não alinhamento com o reforço militar europeu, mas negociação com Moscovo. Em junho de 2026, por exemplo, afirmou que a invasão da Ucrânia deve terminar através de negociação e que seria necessário retomar o diálogo com Putin, embora simultaneamente afirmasse que as fronteiras ucranianas devem ser respeitadas e que a Rússia deve dar garantias de segurança aos ucranianos e europeus. Não é necessariamente simpatia por Putin que aproxima esses movimentos; é, em parte, uma rejeição comum de determinados elementos da ordem liberal atlântica.

Não estamos a assistir ao regresso do fascismo dos anos 30; estamos a assistir ao regresso às questões identitárias devido ao excesso de voluntarismo humanista dos europeus para com a imigração médio-oriental descontrolada. Acresce a isso as crises económicas e a perda de confiança nas elites. O sentimento de insegurança tem sido crescente desde 2015, quando Ângela Merkel decidiu escancarar as portas da Alemanha a mais de um milhão de refugiados sírios. Isso produziu fenómenos indesejáveis, mas previsíveis como a adesão de setores do povo alemão a partidos de extrema-direita, como a AfD. O mesmo acontece em França com o 
Rassemblement National (RN), em que Marine Le Pen se apresenta como favorita à Presidência da França nas eleições de 2027.

O que acontece quando uma sociedade deixa de acreditar que o futuro será necessariamente melhor que o passado? Quando existe confiança no futuro, as pessoas tendem a aceitar sociedades mais abertas, complexas e cosmopolitas. Quando essa confiança desaparece, identidade, fronteira, soberania, tradição e pertença tornam-se politicamente muito mais poderosas. E nesse sentido, talvez a grande transformação europeia contemporânea não seja simplesmente “direita contra esquerda”, mas universalismo contra nacionalismo. A Rússia de Putin entra nesta história não necessariamente como “novo comunismo”, mas como um modelo de poder e de civilização política, alternativo à democracia liberal.

De 2022 em diante voltamos a ter guerra na Europa, rearmamento, Rússia revisionista, ascensão chinesa, fragmentação do Ocidente e enfraquecimento do multilateralismo. As antigas categorias políticas já não descrevem adequadamente as novas linhas de fratura. E a questão decisiva para a próxima década poderá não ser “quem vai ganhar” mas, “que espécie de ordem substituirá a ordem liberal de 1945”. Da luta de classes passou-se à luta pela identidade. Nacionalidade, religião, etnia, imigração, género, cultura, território, língua e civilização - ganharam uma importância política decisiva, A velha divisão entre burguesia e proletariado passou à história. Isso não significa que a economia tenha desaparecido. Pelo contrário: desigualdade, habitação, precariedade e concentração de riqueza continuam a alimentar o conflito. Mas a frustração económica é traduzida hoje em linguagem identitária.

A guerra na Ucrânia mostrou os limites da expectativa otimista depois da queda do Muro de Berlim, arrastando com ele a União Soviética. Estamos a entrar num mundo em que poder militar, território, energia, tecnologia, alimentos, semicondutores, inteligência artificial e controlo das cadeias de abastecimento voltam a ser instrumentos explícitos de poder. A luta pelo controlo da mente humana poderá adquirir uma importância comparável à luta pelo controlo dos meios de produção do século XX. Isso altera inclusive a democracia. Qualquer potência quer controlar a informação para através dela formatar a percepção das pessoas do que é a realidade, a nação, a etnia, a religião, o sexo, uma identidade cultural ou uma comunidade ideológica. Se esta tendência se aprofundar, o grande conflito do século XXI poderá não ser entre capitalismo e socialismo, mas entre uma concepção universalista do indivíduo e concepções comunitárias/identitárias da pessoa.

Há, porém, um terceiro ator: a máquina superinteligente. Quem a dominar, domina a mente cognitiva da humanidade. Se a inteligência artificial começar a substituir não apenas trabalho físico, mas também parcelas significativas de trabalho intelectual, diagnóstico, investigação, programação, criação e decisão, a velha relação entre trabalho, mérito, rendimento e dignidade terá de ser repensada. Isso pode produzir uma crise civilizacional muito maior do que uma simples crise económica. O que significará ser “um ser humano” numa sociedade em que a inteligência deixou de ser exclusivamente humana?

Há uma ironia extraordinária nisso tudo. No século XX, fossem capitalistas, ou socialistas, ambos tinham uma coisa em comum: a profunda crença no progresso e na capacidade humana de construir deliberadamente o futuro. Neste século XXI, qualquer hipótese parece muito menos credível.

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