Num relato de Tácito, sobre a conquista da Caledónia, de um lado temos os romanos sob a liderança de Agrícola. Do lado dos bretões estava Cálgaco. Nesta altura vigorava a lei do mais forte. E hoje, ainda vigora, apesar de Vestefália ou da UNU. A ONU foi quase uma pequena história da humanidade para domesticar a lei do mais forte. Isto a propósito do que se está atualmente a passar na guerra entre Israel e os palestinos de Gaza sob o Hamas. De um lado uma democracia pujante; e do outro "os fracos". Gaza faz lembrar os Montes Graupios na narrativa de Tácito, onde os romanos esmagaram os bretões numa batalha por volta de 83 d.C.
E é aqui que Gaza torna o paralelo contemporâneo. Há, naturalmente, diferenças enormes. Israel não é Roma; Hamas não é a confederação caledónia; Gaza não é a Britânia do século I; e o sistema internacional atual é incomparavelmente diferente do mundo romano. Mas há uma estrutura moral e histórica semelhante: um lado possui uma superioridade militar esmagadora; o outro possui uma capacidade militar muito menor, mas conserva a capacidade de infligir custos e de negar ao adversário uma vitória simples. E a situação atual é ainda mais complexa porque existem dois níveis distintos de assimetria: de um lado está Israel, um Estado soberano com forças armadas altamente desenvolvidas; do outro, Gaza, uma população civil extremamente vulnerável, governada de facto pelo Hamas, uma organização terrorista armada pelo Irão que desencadeou o conflito de 2023 com o ataque de 7 de outubro. A guerra subsequente produziu uma devastação gigantesca em Gaza. A situação humanitária é extremamente grave, incluindo destruição generalizada, deslocação e restrições de bens essenciais. Mas o Hamas não é sinónimo de população palestiniana. É errado transformar uma população civil inteira no sujeito político ou militar da organização que a governa. E, inversamente, Israel não é sinónimo do governo que conduz uma determinada operação militar. Essa separação é fundamental para não cairmos novamente nas lições de Tucídides: transformar populações inteiras em atores únicos e, depois, atribuir-lhes coletivamente os atos dos seus governantes ou combatentes.
A voz do vencido sobrevive porque o historiador do vencedor decidiu colocá-la no seu livro. E não é uma voz meramente decorativa: Cálgaco produz talvez a acusação mais memorável contra o imperialismo romano em toda a literatura latina. É possível que o discurso não tenha sido proferido literalmente. Tácito compõe discursos segundo as convenções historiográficas coevas, mas a sua existência literária é historicamente muito significativa. E aqui está talvez a grande diferença entre vencer uma guerra e vencer a História. Roma venceu os nativos dos Montes Graupius. Mas Cálgaco ficou com uma das frases mais duradouras da história sobre o poder dos vencedores: “Onde fazem terra devastada, chamam-lhe Paz.” Porque uma potência pode conseguir superioridade militar absoluta e, simultaneamente, criar uma situação política na qual a própria vitória militar se torna insuficiente para produzir a paz que pretendia alcançar. A paz “imperial” só é verdadeiramente uma paz quando, depois de cessarem os combates, existir uma ordem na qual os vencidos conseguem voltar a viver. Caso contrário, temos apenas o intervalo entre duas guerras.
Os romanos consideravam os bárbaros - celtas e germanos - sempre em carnificinas fratricidas. Cícero, pese embora, uma personagem bastante ambivalente, considerava que os romanos estavam a fazer um favor aos bárbaros com a paz conquistada. Foi a mesma lógica dos europeus mais tarde com as colónias no Novo Mundo e África. Cícero chega a formular explicitamente que a finalidade legítima da guerra é “viver em paz sem injustiça” e que, depois da vitória, os vencidos que não tenham sido cruéis devem ser poupados. Mas, simultaneamente, descreve os Celtiberos e Cimbros como inimigos com quem Roma lutava numa guerra de sobrevivência, e não simplesmente por supremacia. O vencedor pode acreditar sinceramente que está a beneficiar o vencido.
O romano podia olhar para uma tribo celta ou germânica e pensar: “Eles vivem num mundo de guerras tribais, vinganças, pilhagem e insegurança. Nós trazemos estradas, direito, comércio, moeda, cidades e segurança. Portanto, a conquista é, em última análise, um benefício.” Quem conquista é também quem define aquilo que conta como “civilização”, “ordem”, “progresso” e “paz”. E, portanto, pode transformar o próprio ato de conquista na prova da necessidade da conquista. É exatamente a estrutura mental que reaparece muitos séculos depois na “missão civilizadora” europeia. O europeu podia dizer: “Estamos a impor a nossa autoridade, mas estamos também a levar o cristianismo, medicina, alfabetização, administração, comércio, infraestruturas e tecnologia.”
Algumas dessas consequências foram efetivamente reais. Mas isso não elimina o outro lado: conquista, apropriação territorial, exploração económica, violência, destruição de estruturas políticas e culturais e, em diferentes contextos, escravização e trabalho coercivo. Há uma ironia em Cícero, que é capaz de defender simultaneamente duas coisas que hoje nos parecem contraditórias: Roma tem uma missão civilizadora e uma ordem superior; Roma deve exercer essa superioridade com justiça e clemência. Não lhe ocorre necessariamente que o próprio direito de Roma para impor a ordem possa ser a questão fundamental. Cícero pergunta: “Como deve comportar-se o vencedor?” Cálgaco pergunta: “Com que direito o vencedor decide o destino do vencido?” A grande evolução política dos últimos dois milénios foi precisamente a tentativa de passar da primeira para a segunda. Porque enquanto a pergunta for apenas “como deve o forte tratar o fraco?”, continuamos dentro da lógica imperial. Quando começamos a perguntar “quem autorizou o forte a decidir pelo fraco?”, entramos no terreno moderno da soberania, autodeterminação e direito internacional.
Há sempre uma ironia a seguir, e que não tem fim: os próprios romanos acabaram por ser subjugados por povos que inicialmente consideravam bárbaros. Séculos depois, imperadores de origem provincial e, finalmente, imperadores oriundos das próprias regiões que Roma havia conquistado governavam o Império. Ou seja: o conquistador civilizou o conquistado; e no processo, o conquistado transforma o conquistador. É uma ironia, mas ao mesmo tempo uma grade lição da História. E talvez seja também por isso que a História de Roma continua tão útil para pensar: Ucrânia, Irão, Gaza, Israel. E a ideia de uma “paz imposta”: a vitória militar pode decidir quem manda hoje; raramente decide quem terá razão na memória coletiva daqui a mil anos.








