Apesar do desenvolvimento técnico-científico em latitudes onde seria de esperar que o fosso entre ricos e pobres diminuísse, pelo contrário, aumentou. Longe de estar aqui a amaldiçoar o progresso, limito-me a constatar que o progresso não é mais do que uma solução parcial e contraditória da miséria humana. Chegou a pensar-se que o progresso tecnológico nos iria libertar das religiões. Mas o que aconteceu foi sermos manipulados pelos mercados de consumo rápido e globalizado. E, apesar de dispormos de mais meios de informação, continuamos a ser enganados e surpreendidos pelo inesperado.
A ciência é uma coisa boa. Mas contribuiu mais para o domínio da técnica do que para a literacia científica das pessoas comuns. E assim tem continuado a esterilização das classes trabalhadoras por multimilionários detentores do poder cibernético ultrarrápido. Os espantosos progressos complicaram ainda mais a vida às pessoas, ao ponto de disporem cada vez menos tempo para pensar nos valores que importam para a sustentabilidade das nossas vidas com harmonia e equanimidade.
Assim, a fulgurante expansão da Inteligência Artificial na Economia tem proporcionado não apenas coisas boas. O desemprego é um exemplo das coisas más.
Para cada responsável de uma empresa, um O grau de complexidade cresce à medida que se multiplicam as variáveis a ter em conta. É por isso que os CEO (a chief executive officer, the highest-ranking person in a company or other institution, ultimately responsible for taking managerial decisions) erram tantas vezes nas suas decisões.
Segundo Edgar Morin, a complexidade é aquilo que se teceu em conjunto para formar um todo que é mais do que a soma das suas partes. O conhecimento analítico dos diferentes fios que compõem uma tapeçaria não permitirá nunca o conhecimento da obra de arte na sua totalidade. A complexidade do real não pode ser dominada inteiramente, porque a complexidade das variáveis e das suas interações permite sempre certos resultados inesperados e não redutíveis à análise. Por conseguinte, o resultado de uma ação nunca é aquele que se tinha previsto. Seja uma pessoa, seja uma empresa, estamos a lidar com sistemas complexos, que como reagem ao contexto estão em constante transformação. Quanto mais informação, mais inter-relações se estabelecem, e maiores são as retroações (positivas ou negativas) que comportam certos efeitos de bloqueio ou feedback.
Se perguntar qual dos seguintes exemplos é mais complexo do que o outro: “um Boeing ou um prato de esparguete” – a resposta imediata é: “obviamente o Boeing”. Mas a resposta está errada. Um Boeing é complicado, mas não complexo. Um prato de esparguete é simples, mas complexo. Um avião, apesar de comportar milhares de peças diferentes a funcionar obedecendo a leis físicas cuja compreensão só está ao alcance de uma minoria de engenheiros, a verdade é que é possível montá-lo e depois desmontá-lo peça por peça e analisar tudo com toda a certeza. Como não pode estar à mercê da incerteza, não é complexo. Ao passo que um prato de esparguete é formado por um emaranhado de fios que deslizam uns pelos outros enredados em retroações completamente aleatórias, não se podendo prever que quantidade de esparguete podemos enrolar em cada ação de enrolamento à volta do garfo antes de o meter na boca. A incerteza é um dos aspetos da complexidade.
Evoquei Edgar Morin como um “sistémico” de excelência, entre muitos outros que também poderia mencionar como excelentes. Mas opto por evocar uma outa metáfora: “Os cavalos do lago Ladoga”. O lago Ladoga é o maior lago inteiramente localizado na Europa e o 14º maior lago de água doce do mundo. Está localizado na República da Carélia e no oblast de Leninegrado no noroeste da Rússia próximo da fronteira com a Finlândia. Um dia, quando certos cavalos entraram na água fria do lago Ladoga, não pressentiram o que lhes iria acontecer porque devido a uma descida brusca da temperatura a água congelou muito rapidamente que não deu tempo a que os cavalos pudessem sair da água. E os cavalos morreram presos no gelo.
Hoje podemos verificar que as nossas instituições também arrefecem muito depressa. A escalada irreprimível do desemprego, a iliteracia crescente dos funcionários, as condições de vida das periferias e as novas formas de pobreza não são mais do que manifestações visíveis da congelação institucional.
O Universo é um sistema, em que a auto-organização, a confiança, a aceitação dinâmica das contradições, a reflexão coletiva sobre o sentido, a imaginação e a iniciativa – são mais eficazes para enfrentar o imprevisto do que diretrizes rigidamente impostas de cima para baixo. Estas raramente chegam a ser aplicadas, porque a imaginação dos homens é suficientemente criativa para as contornar e contrariar.
terça-feira, 23 de abril de 2019
quinta-feira, 18 de abril de 2019
O olhar da consciência sobre o mundo das coisas
No mundo
capitalista das mercadorias o homem
tende a ser olhado e tratado como uma
coisa, a ser reduzido a mero apêndice da produção. E isso constitui um
trauma porque teve de se sujeitar ao
desprezo de Si como sujeito, que tanto tempo levou a
consolidar desde a Pré-História, numa altura em que o que avultava era o
caráter viril do Si para vencer o
medo da morte.
A falta de
compreensão, por parte das ciências
naturais, do caráter constitutivo do Ser,
levou a um obscurecimento do sentido da racionalidade ao tratar o homem como coisa. E isto aconteceu porque a técnica moderna, como braço armado das ciências naturais, arrogou-se à pretensão de primeiro no
desvelamento da verdade. Ora, é o Ser
que manifesta ao homem, em termos
humanos, a verdadeira natureza do conjunto de forças, calculáveis, que criam as
coisas.
Remeto-me para a época
trágica das duas Grandes Guerras Mundiais do século XX na Europa, em que os
totalitarismos se difundiram, para exemplificar como a racionalidade foi
empregue para fins destruidores, com a cumplicidade das ciências naturais.
Não compensa, como
se tem feito ultimamente, viajar
entre os diversos mundos da vida, caminhando na direção do reencantamento à
procura da felicidade, em saltos de extraordinária loucura. Aqui o “se” significa ao mesmo tempo todos e ninguém.
Qual Ulisses
moderno, seja na versão seminal do herói homérico, seja na versão de Joyce. Uma
viagem que durou dez anos no primeiro caso, vinte e quatro horas no segundo. Em
mar aberto no herói de Homero, que se fez acorrentar ao mastro pelos seus
homens com cera nos ouvidos, para que só ele ouvisse o canto da sereia de modo
a poder entrar noutros mundos, e assim, num rito de passagem, viver uma
identidade móvel, desencantada e trágica, mas imortal. Joyce entrou por outros
sentidos proibidos para imprimir um outro significado ao seu plano de vida
extra quotidiano, nos diversos lugares e não-lugares, nichos cavernosos da
cidade protegida pelo sujeito que morreu antes de ter chegado à palavra.
É supérflua a
fadiga de quem pretende demonstrar que o mundo, no seu conjunto, avança numa
determinada direção, desqualificando indiretamente toda a busca de
autenticidade nos pequenos mundos de vida enquanto lugares de distensão. No
seio deste submundo de atividades ilícitas, vigoram regras e critérios de tal
relevância que, noutros lugares, seriam impensáveis. Recordo aquela fábula
dublinense, do turista em Dublin que aborda um dublinense e lhe pede que o
ajude a encontrar o melhor caminho para sair de Dublin. A resposta do
dublinense foi que se quisesse sair de Dublin seria melhor partir de outro
lugar. É claro que esta é uma narrativa alternativa à narrativa original, para
metaforizar os tempos atuais das verdades alternativas, ou dos factos
alternativos. São lendas com projeção do desejo, quando homens se encontram em
certos lugares com mulheres desconhecidas, contando estórias inverificáveis
sobre a sua identidade, sobre o seu curriculum vitae, ou quando mulheres se
encontram com homens desconhecidos, ostentando os seus belos decotes postiços.
É o choque adrenérgico quando se cede à casualidade dos encontros.
quarta-feira, 17 de abril de 2019
Horizontes culturais
Hoje, importa
meter a mão a na consciência e refletir sobre o que temos andado a fazer com a
tecnologia por ganância. Como foi possível o homem ter-se tornado um ser
altamente nocivo, incapaz de valorizar adequadamente o risco ao alterar
equilíbrios delicados? Todos contribuímos para a degradação do ambiente e a
depauperação dos recursos. As potencialidades destrutivas tornaram-se ainda
mais acentuadas quando o estilo de vida e o modelo industrial ocidental se
tornaram globais.
Paradoxalmente, a
ameaça ao equilíbrio ecológico do planeta Terra deriva precisamente porque a
humanidade teve um êxito desmesurado com a ciência e a técnica. A escala
exponencial dos efeitos indesejáveis da ação individual e coletiva ampliaram-se
de tal modo inesperado e inaudito que muitos cientistas, alegadamente os mais
pessimistas, consideram que já é demasiado tarde para reverter a situação
climática do planeta rumo a uma série de catástrofes impossíveis de controlar.
Cada um de nós
tem, de facto, uma responsabilidade coletiva perante a Terra e os seus
habitantes, que estão longe de se reduzirem apenas aos seres humanos. Apesar de
as religiões ditas do Livro, maioritárias no mundo, terem chamado insistentemente
à atenção de que o primeiro mandamento tinha a ver com a expulsão do Paraíso,
por termos desobedecido ao comer o fruto do conhecimento, não se quis ouvir o
imperativo de agir de modo que os efeitos das nossas ações fossem compatíveis
com a permanência de uma autêntica vida neste paraíso que é a Terra. Mas deixamo-nos
iludir com a esperança, em vez de assumirmos com coragem a responsabilidade que
se nos impunha.
Um filósofo
americano, Richard Rorty, combateu a metafísica clássica ao sublinhar o papel
dos contextos sociais. Continuador da tradição do pragmatismo americano, cujos
mentores remetem para nomes como William James, para Rorty a verdade é o
resultado de regras e de procedimentos aceites no seio de uma dada comunidade.
Rejeita os pressupostos seculares do pensamento ocidental que visavam garantir
a sua incondicional universalidade. Rejeita assim o conceito de realidade em
si, como se as nossas representações mentais a reproduzisse tal e qual como se
fosse um espelho. Desistindo da busca cartesiana da certeza, delineou duas
posições em relação à verdade: 1) ancorada num patamar suprassensível que
remonta a Platão; 2) associada a práticas culturais compartilhadas de
justificação e de controlo. A verdade filiada na metafísica clássica é, segundo
Rorty, baseada em procedimentos de carater autorreflexivo, próprios de um grupo
restrito que se arroga o direito de representar toda a humanidade, de todas as
épocas e lugares. A verdade suprema é como o sol que não se pode olhar por
muito tempo sem perder a vista. Verdade é aquilo que é aceite por aqueles que
seguem determinadas regras históricas de verificação. A autoridade da ciência resultou
de um acordo coroado de êxito entre indivíduos que se descobriram herdeiros das
mesmas tradições históricas e confrontados com os mesmos problemas.
Rorty preconizava
que se devia apostar na ideia de uma humanidade que avança em direções
divergentes, privilegiando a diferenciação relativamente à unificação, e assim
contrariava o ideal de unificação das formas de pensamento sob a égide de uma
verdade e de uma racionalidade supracomunitária, em que a História avançaria
inexoravelmente para a convergência entre as diversas civilizações.
Os critérios do
universalismo assentaram em pressupostos metafísicos. Mas esses pressupostos
acabaram por enfraquecer, abrindo a porta a formas de relativismo. E isto provocou
a perda de prestígio das disciplinas da Filosofia. Filosofia essa que tentou articular
a realidade e o saber sobre a base de uma razão universal unitária. Ainda assim
ainda houve algumas tentativas para salvar a Filosofia. São exemplos disso Jürgen
Habermas e John Rawls. Como contributos para a filosofia política, a ação
comunitária de Habermas, e a teoria da justiça de Rawls, representam nas
sociedades democráticas uma alternativa frente ao recurso à força na solução
dos conflitos e à prática de uma fatigante negociação em que vence quem tem
maiores reservas de poder ou maior habilidade estratégica na prossecução dos
seus interesses.
segunda-feira, 15 de abril de 2019
Leis do Universo e pensamento ‘a priori’
O que tem levado a comunidade científica a procurar a
última palavra na experiência, não se contentando apenas com as teorias
assentes em equações matemáticas, decorre da sua lealdade para com os
empiristas britânicos, os primeiros a serem bem-sucedidos na disputa com os
ensinamentos bíblicos judaico-cristãos. No fim de contas, as teorias
cosmológicas produzidas pelo pensamento matemático eram do mesmo domínio
epistemológico das narrativas dos primeiros capítulos do Génesis, ou seja, derivadas
de puro pensamento a priori.
Muitos fundamentalistas cristãos aceitam uma
interpretação literal da narrativa da criação dos primeiros dois capítulos do
Génesis. Ora esta interpretação recebeu um novo rombo com Darwin, depois de ter
publicado o livro seminal da teoria evolucionista ainda hoje intocável nos seus
pilares fundamentais: a evolução das espécies por variação e seleção natural. Pelas
explicações Darwinistas, os seres humanos não foram concebidos, sendo antes
produto do processo cego sem direção da seleção natural, operando sobre uma
fonte de variação, como a mutação genética. A Natureza não tem em mente qualquer
propósito. Não tem mente e não tem seja o que for em mente. Não planeia em
função do futuro. Não tem qualquer visão, antevisão, não vê coisa alguma. A
Natureza tem leis. E o que os humanos fazem, através do que eles chamam
ciência, é descobrir essas leis.
A existência dos buracos negros, que até agora era uma
entidade teórica a priori, é confirmada por conhecimento a posteriori. Mas provavelmente esta certeza dos buracos negros vai
reforçar ainda mais a ideia a priori de que no interior dos buracos negros são
geradas estrelas e quiçá universos que se regem por outras leis que não as leis
que até agora a ciência tem definido como “as leis da natureza”. Laplace disse
em 1796: “Devemos encarar o estado presente do universo como o efeito do seu
estado anterior e como a causa do que se lhe seguirá”. Para ele nada seria
incerto, e o futuro, como o passado, estaria presente aos seus olhos.
As leis de Newton aplicam-se a sistemas isolados ou fechados; descrevem
como o mundo funciona desde que o mundo seja um sistema fechado
(isolado), não estando sujeito a qualquer influência causal externa. Mas
não faz parte da mecânica newtoniana nem da ciência clássica em geral a
declaração de que o universo material é realmente um sistema fechado. Como
poderia uma coisa dessas ser verificada experimentalmente? Assim, pelo
paradigma newtoniano, as leis dentro de um buraco negro podem ser diferentes de
todas as leis postuladas por esse paradigma científico, agora dito “clássico”.
A tese de que o universo material é de facto um sistema fechado não faz parte
da física clássica; é um acrescento metafísico ou teológico. Esta imagem
clássica foi, evidentemente, ultrapassada pelo desenvolvimento da mecânica
quântica.
A atitude epistémica dominante na ciência é a investigação empírica crítica
que propõe teorias, que por serem hipotéticas estão sujeitas a serem
abandonadas por outras mais satisfatórias, e por isso o seu caráter é sempre
temporário. Por conseguinte, a ciência, ou antes, a atitude científica, é diferente
da crença religiosa, que é dogmática e definitiva. Daí que a ciência e a
religião estejam condenadas a um conflito irreconciliável e insanável. Não há
maneira de uma pessoa ter uma mentalidade apropriadamente científica, e ao
mesmo tempo ser um verdadeiro crente religioso. É claro que, uma coisa é dizer
isto assim, outra coisa é dizer que a atitude epistémica científica é a única
apropriada a qualquer área do conhecimento. Na verdade, esta afirmação não é em
si mesmo produto de qualquer atividade científica que tenha chegado a essa
conclusão por métodos empíricos. É uma declaração epistemológica da Filosofia
como disciplina do conhecimento e dos primeiros e últimos princípios da
existência e essência do ser e das coisas. De um modo geral os cientistas não
se colocam na atitude epistémica de questionar todas as suas crenças: científicas
e não científicas.
sexta-feira, 12 de abril de 2019
Pensamento matemático e saber científico
Hoje muita gente
está eufórica com a primeira fotografia real de um buraco negro, que confirma,
mais uma vez, que Einstein tinha razão. Com este acontecimento reforça-se ao
mais alto nível a objetividade do conhecimento científico. Mas devemos ter em
mente que quaisquer dados de perceção científica resultam de operações
complexas, e que em última instância a realidade depende dos parâmetros dos
sistemas observacionais escolhidos.
Einstein havia conseguido
demonstrar pela teoria da relatividade geral que o espaço sujeito às leis da
física era um espaço não euclidiano. Não se trata de um espaço natural intuitivamente
representável pela experiência sensível comum. Essa teoria descola para
atmosferas extremamente rarefeitas de universos regidos apenas pela coerência
interna da matemática. Bertrand Russel, acreditava na realidade dos números. Tinham
uma conceção platónica da realidade dos números.
Neste universo em
perene movimento, a realidade é continuamente reescrita e reinterpretada. O
conceito de dados sensíveis, ou dados dos sentidos, que foram rigidamente fixados
pelas correntes positivistas, acabaram por liquefazer-se por dentro do próprio
positivismo, com o pensamento do chamado “Segundo Wittgenstein”. Uma coisa era
dizer que o sol não deixava de existir quando fechamos os olhos. Outra coisa
era perguntar como ficava o vermelho de uma maçã vermelha exposta ao sol,
quando se colocava a maçã num quarto escuro. Wittgenstein perguntou: “uma maçã
vermelha no escuro continua a “ser” vermelha?
No campo das
matemáticas assiste-se a tentativas altamente complexas de busca dos
fundamentos comuns assentes numa lógica que atribui um significado específico,
particularmente sui generis, à objetividade dos entes matemáticos.
O sofrimento humano e o poder de curar
Desde os
primórdios que a humanidade procura meios para o apaziguamento do sofrimento. O
sofrimento é inerente à existência e à condição humanas, pelo que em diferentes
épocas as diversas sociedades precisaram de desenvolver meios que até aos
nossos dias se têm revelado incapazes de eliminar todo o sofrimento. Apesar de o
progresso ter sido enorme no que respeita à quase eliminação do sofrimento da
parte física do corpo, tal não tem sido o caso em relação à dor psíquica.
As estratégias e
os caminhos percorridos para atingir o objetivo têm sido ao longo da história,
e em diferentes contextos civilizacionais, muito diversos e plurais. Ainda
assim, as sociedades encontraram sempre alguém em quem delegar o poder de curar
e aliviar o sofrimento.
Questões
intangíveis, mas fundamentais da existência como: quem somos; o que fazemos
aqui; para onde vamos; e qual o sentido de tudo isto – foram sempre objeto de
inclusão no domínio do sagrado ao abrigo de conceitos e entendimentos marginais
no seio da comunidade científica. O dom de cura articulava-se nesse paradigma
conceptual. Um sagrado, umas vezes imanente, decorrente diretamente da estreita
relação do homem com o ambiente; outras vezes assumindo formas transcendentes
assentes em princípios que remetem para o absoluto.
Mas depois da
aparente conquista do espaço da superstição por parte da ciência laica
iluminista, eis que entramos na civilização do espetáculo e na era da pós modernidade
alternativa. Hoje, a cultura de uma boa parte da sociedade é uma cultura de
superfície e de aparência, de jogo e de pose, que para apaziguar o sofrimento
do nosso tempo dispõe de duas alternativas às receitas protagonizadas pela
religião católica, que se fina após dois milénios de supremacia: 1) através de seitas
com o rótulo de “Nova Era” – que vão desde o espiritualismo oriental em todas
as suas formas e divisões, passando pelas igrejas evangélicas e igrejas ainda
mais exóticas que agora pululam e se dividem nos bairros marginais, até à cientologia
tão popular em Hollywood; 2) através do álcool e estupefacientes, que apenas
tranquilizam momentaneamente o espírito das incertezas outrora apaziguadas com
rezas, confissões e sermões dos padres.
São setores muito
reduzidos de seres humanos que podem dar-se ao luxo de prescindir por inteiro
da religião. Só pequenas minorias conseguem emancipar-se da religião através da
“alta cultura”, que enfrenta os problemas de frente e não lhes foge, com
respostas sérias e não lúdicas aos grandes enigmas da existência pela
filosofia, ciência e artes.
Sempre houve quem
tivesse intuições de que os seres humanos possuíam razões que a razão
desconhecia. E o discernimento da existência de pessoas com talentos consensualmente
estabelecidos de apaziguamento e controlo de espíritos à solta. Por
conseguinte, ainda que o conhecimento da mente humana tenha recebido
incrementos extraordinários, a sua complexidade é de tal ordem que continua a
ser o maior mistério a desafiar a nossa inteligência.
Apesar de a
ciência ter dado saltos de gigante, continuam a persistir fórmulas decorrentes
de uma epistemologia ingénua, mas nem por isso destituída de algum efeito
benéfico no apaziguamento, quer dos males do corpo, quer dos males do espírito.
O que muitas vezes as pessoas sofrem é de falta de sentido para as suas vidas. E
do que precisam é de discursos que se conformem às suas mundividências
idiossincráticas.
Ora, sempre houve
conflitos de mundividências, entre epistemologias ingénuas e epistemologias
esclarecidas e organizadas em universidades, faculdades, institutos e ordens
profissionais. Estas organizações são as detentoras legais e legítimas da
última palavra, do que é e deve ser, pelo que são detentoras da sapiência com
poderes de calar as mundividências ingénuas. Daí a explicação para os discursos
inflamados de parte a parte que pretendem transformar a anomia em ação, e as
dúvidas em certezas.
Com o advento da
farmacopeia em geral e da psicofarmacologia em particular, deu-se aquilo
que em filosofia se designa por uma rotura epistemológica, a passagem do mágico-religioso
para o científico-empírico. A terapia do
sofrimento, quer ao nível do sofrimento físico, quer ao nível do sofrimento psíquico,
se é que ainda tem sentido fazer esta separação mente/corpo, teve sempre outras
figuras tutelares, onde as ordens religiosas pontuavam tanto nos cuidados do
corpo como da mente.
A par da farmacologia
é verdade que também surgiu a psicoterapia de cunho científico-empírico, se bem
que o seu precursor, Freud, tenha sido considerado pouco científico com a sua
psicanálise. Mas antes de Freud, muita gente podia desempenhar em algum momento
função terapêutica, embora longe do que hoje é tido por psicoterapia. Esta
aceção diferenciadora da ancestral função terapêutica, carece, todavia, de um extenso
conjunto de reflexões que permitam perceber a pluralidade de propostas terapêuticas
hoje disponíveis e abertas aos mais diversos contextos.
Cada vez mais, e
um pouco por todo o lado, as pessoas recorrem a terapias, as mais díspares e
diversas, para lidar com diferentes formas de dor, sofrimento ou desassossego. As
sociedades, com os seus novos hábitos de consumo e de estilos de vida, têm
gerado ondas de preocupação não apenas ao nível político, mas também ao nível
da saúde pública. Uma das preocupações prende-se com o estatuto científico de
algumas terapias e o seu enquadramento paradigmático à luz da doutrina dos dois
filósofos da ciência mais influentes no século XX – Karl Popper e Thomas Kuhn.
Ao atual conflito
entre o científico e o pseudocientífico, não é alheia a enorme proliferação de
corpos profissionais ecléticos, oferecendo terapias com quadros de referência
baseados em teorias e hipóteses demasiado heterodoxas para serem aceites pela
ciência como sustentáculo legitimador das suas práticas. A ideia, de que o
objeto da intervenção terapêutica é o indivíduo em sofrimento, pode ser enganadora.
Habitualmente, é o paradigma teórico que define o objeto. Mas, como toda a
experiência humana é eivada de subjetividade, o acesso do terapeuta ao sujeito
é feito através da sua narrativa. Daí a necessidade de recorrermos a quadros
explicativos e compreensivos dentro de um paradigma que, na impossibilidade de
ser universal, seja pelo menos consensual ao nível de organizações
internacionais, como é o caso da Organização Mundial de Saúde.
quarta-feira, 10 de abril de 2019
Fé e irracionalidade. Conhecimento como crença verdadeira justificada
Se se aceitar o paradigma lockiano da Racionalidade,
então os filósofos que atualmente defendem a compatibilidade da crença
religiosa com a racionalidade, o paradigma de ciência, tal como é hoje
entendido, e com o conceito clássico de conhecimento como crença verdadeira
justificada, serão encarados como defensores da irracionalidade em matéria de
fé. Porque, entrelaçadas com as diferentes posições sobre a racionalidade da fé,
existem diferentes posições sobre a natureza da racionalidade, tal como, na
verdade, sobre a natureza da fé.
Se tomarmos por
“Realidade” tudo o que existe. E se tudo o que existe inclui não apenas tudo o
que é tangível pelos nossos sentidos biológicos, e mais o que faz parte da
nossa mente, o mundo das ideias, ainda assim os Dogmas da “Fé”, como entes
fictícios, são algo que transcende a Realidade. É a eterna questão insolúvel,
que se arrasta pelo menos desde Platão no quadrante ocidental, da representação
das imagens no interior da mente. Se formos aristotélicos, e não platónicos, o
mundo do imaginário não pode ser reconhecido como fazendo parte da realidade. Como
tudo aquilo que um sujeito conhece do mundo externo à sua mente tem de passar
por um processo de interpretação de imagens, o conhecimento também é crença,
mas tem de ser crença verdadeira justificada. Tem de ser verdadeiro e
justificado com argumentos racionais.
Se a crença religiosa se baseia na fé e não na razão, significa
isso que é apropriado falar de um “salto de fé” ou de “fé cega”? Esta é, na
verdade, uma questão bastante antiga: a questão sobre a relação entre a fé e a
razão. Relaciona-se com a questão de haver ou não argumentos racionais,
argumentos que emanam do que a razão nos dá a favor da crença religiosa.
Um outro aspeto
que importa considerar aqui é a natureza da realidade externa que conhecemos
através dos nossos sentidos. Não pode ser a “realidade em si”, mas sim a
realidade fenoménica, ou seja, do domínio do fenómeno. Fenómeno significa o que
aparece. E o que aparece tem a ver com um outro aspeto da mente que damos pelo
nome de consciência. Assim, para o sujeito, o fenómeno é um facto. Facto esse
que pode ser comum a muitos sujeitos. Ao passo que cada experiência imaginária,
é única. Não pode ser partilhada. Por conseguinte, transcende a realidade.
Hoje, para aqueles
que se consideram “antirrealistas”, as crenças religiosas fazem parte de um
outro nível de realidade socialmente construída. Para um antirrealista não há
nenhuma verdade para além de um consenso socialmente aceite. Um grupo social
pode ter um conjunto de verdades religiosas por consenso, e outro pode ter um
conjunto diferente. Isto permite que diferentes comunidades e sociedades tenham
diferentes noções de realidade. A disputa entre realistas e antirrealistas
prende-se com a interpretação que fazem da cognoscibilidade dos factos.
Há uma longa história na discussão sobre a natureza da
fé. Fé é uma crença em proposições, com base no que se diz? É uma atitude de
lealdade ou de confiança em alguém ou numa ideologia? É uma espécie de
“cuidado”? É uma virtude de um certo tipo? Para uns a fé no fundo é fiducia (acredita-se
em algo ou alguém); para outros a fé é uma fides (acredita-se que
uma proposição é o caso).
Quem defende que a fé tem conteúdo proposicional
considera que Deus revela verdades, e que a fé consiste em parte em aceitá-las.
Quem defende que a fé não tem conteúdo proposicional considera que a revelação
divina consiste simplesmente em Deus manifestar-se, e que as proposições só
entram na conversa quando os seres humanos interpretam a manifestação divina de
Deus.
As discussões na tradição filosófica ocidental contrapõem
a fé à razão, na confluência entre a Bíblia, por um lado, e os textos da
filosofia grega clássica, por outro. Tanto Platão como Aristóteles sustentavam
que a vida humana ideal era a vida dedicada à teorização. Apesar de os seus
entendimentos da teorização serem diferentes em vários aspetos, ambos a
encaravam como a aquisição de conhecimento e estar ciente ou ter entendimento.
Para Platão, a aquisição de episteme exige
o afastamento da opinião ou crença (doxa). Quase toda a gente na
tradição cristã da antiguidade tardia e na idade média concordava com os gregos
clássicos que o entendimento racional é um ideal humano. Contudo, ninguém
considerava que a fé fosse episteme (grego) = scientia
(latim). Para os cristãos da Antiguidade tardia a fé era uma atividade, não de
razão, mas de amor. Não amor à sabedoria, mas amor a Deus.
Wittgenstein postulou que a racionalidade da fé é
irrelevante quanto à sua aceitabilidade, na medida que para aquilo que a
linguagem não tem palavras temos de calar. Essa posição tem tradicionalmente
sido denominada “fideísmo”. Que a fé não precisa do apoio da razão e
não deve procurá-lo. Um fideísta, pois, sustentará que a fé não precisa, ou não manifesta, uma
forma de racionalidade, e irá proclamar isto mesmo em sua defesa. Mais
habitualmente, o fideísta irá sustentar que a fé não obedece a critérios de
prova, mas poderá ir mais longe e sustentar que as suas proclamações são
paradoxais. Tanto na forma moderada como na radical, o fideísmo irá envolver o
rebaixamento da razão como fonte de verdade espiritual e irá encontrar bases na
natureza da fé para defender que ser sustentado pela razão é um defeito e não
uma vantagem.
No início da era moderna surgiu o ceticismo
fideísta, ou fideísmo cético. O fideísmo cético assume duas formas: O de
Michel de Montaigne e Pierre Bayle, que procuraram apresentar a fé como uma
aceitação não-dogmática de convenções e práticas tradicionais; e o de Blaise
Pascal e Kierkegaard que reconheciam que o convencionalismo dos primeiros
estava profundamente em conflito com os compromissos da verdadeira fé. O cético
é um aliado involuntário que desmascara as pretensões da razão, de modo que a
fé pode então entrar e preencher o vazio espiritual que o cético ajudou a
criar.
A fé não é apenas uma questão de aceitar doutrinas,
mas um estado de confiança e compromisso que tem por objecto o próprio Deus, e
não uma série de proposições acerca dele. A razão exige uma objetividade e um
distanciamento que é apropriado na ciência, mas é uma fuga do envolvimento
apaixonado que é preciso para conseguir a salvação.
Pascal é um fideísta moderado, a fé e o raciocínio
filosófico são incompatíveis com respeito aos seus motivos, e que as verdades
da fé estão para lá do poder da razão. Um fideísta radical diz-nos que a fé é
inequivocamente contrária à razão. É difícil ao filósofo responder ao fideísmo
radical, dado que o fideísta radical parece rejeitar todas as regras a que um
filósofo pode apelar. O fideísta parece superficialmente ter escolhido aceitar
as afirmações de uma autoridade e ter posto de lado os protestos da outra.
Viver conscientemente a inconsistência é um problema. Se eu pensar que algo do
que acredito é verdadeiramente paradoxal, então, passei também a acreditar na
sua falsidade. Terei então um conflito de crenças. Há um conflito interno que
está condenado a persistir enquanto persistir a consciência do juízo negativo
da razão. Que o conflito não seja agonizante em algumas pessoas (que a paixão
seja feliz) só mostra que o autoengano pode ser bem-sucedido. Apesar de toda a
sua insistência na pureza espiritual da fé, o fideísmo radical é uma forma de
falsa consciência.
Pascal diz-nos que a fé é Deus conhecido pelo coração
e não pela razão; e que o coração tem razões que a razão desconhece; e no
“argumento da aposta”, Pascal adotando uma postura prudencial, como uma maneira
de minimizar os riscos que se corre face à eternidade, exorta um leitor sério,
mas descrente, a reconhecer as vantagens da fé em comparação com a descrença.
Pascal exorta o seu descrente a adotar várias estratégias para induzir a crença
em si próprio, apesar da ausência de bases convincentes.
São argumentos importantes, que tanto Pascal como
Kierkegaard usam, de que muitas crenças de senso comum partilham com a fé a
característica de estarem para lá da justificação racional. Se isto for
verdadeiro, a situação da fé não é pior que a de muitas formas seculares de
prova, e deve-se reconhecer que também envolvem fé. Kierkegaard fala de fé
secular, tal como de fé religiosa. Apesar da solidez do argumento, enquanto
manobra apologética, pode ser apartado das suas conexões fideístas, e tem-no
sido. A analogia entre as crenças religiosas e as que dependem da perceção ou
da memória ou da indução, é o que alimenta o movimento da pós-verdade da
pós-modernidade.
As discussões da fé e da razão centram-se
habitualmente em determinar em que medida a fé se conforma ou deve conformar-se
com padrões de racionalidade cognitiva. Mas a tradição fideísta tem também algo
a dizer sobre até que ponto a vida de fé se conforma com padrões de
racionalidade prática.
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Ciência e religião – duas forças culturais antagónicas a moldar humanidades
O que há de especial entre a crença na ciência e a crença religiosa? como tem
de ser uma crença para ser religiosa? Por questões de método de exposição
considero as cinco maiores religiões do mundo por ordem de antiguidade:
Hinduísmo, Judaísmo, Budismo, Cristianismo e Islamismo; e as ciências modernas
empíricas que se desenvolveram no ocidente a partir do século XVI sob o lema do
conhecimento como crença verdadeira justificada. Sendo o conflito, o ponto
central desta abordagem ao tema, seria útil caracterizar a natureza da religião
e a natureza da ciência. Sucede que não é fácil caracterizá-las, quando se
verifica que nem toda a crença em Deus, é religiosa. E nem todas as religiões
envolvem a crença em Deus. Os filósofos medievais fartaram-se de propor teorias
sobre um ser omnipotente, omnisciente e sumamente bom como parte crucial de um
sistema metafísico-teológico e não religioso. A propriedade religiosa da crença
é adquirida apenas quando condiciona o modo de vida da pessoa ou da comunidade
onde ela exerce a sua força. Assim, a crença está apropriadamente conectada a
atitudes caracteristicamente religiosas por parte do crente, nomeadamente
atitudes de veneração, amor, compromisso, maravilhamento e afins.
O termo ciência
abarca um leque muitíssimo variado de atividades humanas que para se
considerarem ciências têm de obedecer a um grupo de critérios para serem
aceites como tal por sociedades que se identificam com um determinado paradigma
cultural e civilizacional marcado pelo tempo histórico. É o paradigma da
objetividade, da evidência empírica e do método experimental. Ora, ainda hoje,
por exemplo, no quadrante do hemisfério que é designado por ocidental, há quem considere que tanto a
teoria do Big Bang como a teoria evolucionista de Darwin não são
ciência porque não há nada de objetivo nem de experimental que lhes dê
sustentação. Já para não falar das limitações na aplicação da ciência a
questões humanas centrais como é o caso dos juízos morais, ou dos juízos de
valor mais em geral. Assim, talvez se devesse entender o conceito de ciência que
desse cobertura de uma forma mais abrangente às várias atividades sem as quais uma
determinada civilização não funcionaria. Para todos os efeitos práticos da Grécia
Antiga, Aristóteles era um homem de ciência, que abarcava no seu entendimento atividades
que se relacionavam entre si por semelhança e analogia, porque não havia uma
atividade única que fosse apenas ciência em si. No entanto não deixava de ser
uma atividade sistemática e disciplinada, teórica e empírica, que visava
descobrir a verdade sobre o mundo.
Há várias questões históricas e epistemológicas que se
colocam ao investigador desta temática. Em termos históricos podemos referir a
surpreendente relutância do Médio Oriente islâmico em aceitar a ciência
europeia transmitida por Copérnico, Galileu, Kepler, Newton, Boyle, etc., que
não deixavam de ser seriamente cristãos, ainda que ocasionalmente, como no caso
de Newton, não fossem cristologicamente ortodoxos. Há uma fonte de crença em
Deus, e o testemunho interno do Espírito Santo, que é a fonte da crença nas
doutrinas próprias do cristianismo. As crenças produzidas por estas fontes
ultrapassam a razão no sentido em que a fonte do seu aval não é o que a razão
nos dá; claro que não se segue que tais crenças são irracionais, ou contrárias
à razão; nem se segue que há algo nelas de especialmente arriscado ou inseguro,
ou incerto, como se a fé fosse necessariamente cega ou um salto no escuro. O
que sucede é que a ciência já havia
sido transmitida na Idade Média aos europeus pelos muçulmanos. A civilização
islâmica medieval era não apenas herdeira dos conhecimentos do antigo Egito e
Babilónia, mas também o foram da Grécia Antiga e da Pérsia, na medida em que traduziram
e preservaram dos textos mais importantes, que de outro modo se teriam perdido
para sempre.
Nos finais da Idade Média e transição para o período
da Renascença, muitos jovens europeus viajaram até Espanha e Sicília (leia-se o
romance de Margueritte Yourcenar – A obra ao negro), para frequentar os centros
de ensino muçulmanos, os mais prestigiados à época. A partir daqui traduziram para
latim textos do árabe originais e outros que já eram adaptações dos antigos
textos gregos. Assim, aqueles cientistas europeus sentiam a enorme dívida que
tinham para com esses transmissores de conhecimento. No entanto,
inexplicavelmente, ou a não haver outra explicação que não a religiosa, de uma
forma súbita os muçulmanos operaram uma mudança radical, uma reviravolta de 180º
no seu paradigma civilizacional. No mundo islâmico, a liberdade foi
praticamente eliminada, e a ciência foi substituída por um corpo dogmático de
conhecimentos. Uma inversão total com o mundo cristão, que doravante e até aos
dias de hoje abraçou a ciência de uma forma tal que as suas repercussões para o
futuro deste Universo ainda estão por adivinhar. Nem no mundo da civilização
chinesa, mais a Oriente, se verificou tal fenómeno. A maior parte dos países
asiáticos incorporaram e absorveram o impacto da civilização ocidental por via
da ciência. Hoje, ao invés do Médio Oriente, no universo chinês e japonês
apenas há uma ciência. A ciência que era ocidental, por via da globalização deixou
de o ser, para ser global.
segunda-feira, 1 de abril de 2019
Uma via insustentável
A recente
catástrofe climática em Moçambique avisa-nos mais uma vez que temos de nos
mexer e mudar esta via insustentável para uma mais sustentável. Caso contrário,
algo desagradável irá acontecer. Até agora ainda tem sido possível aos países
mais desenvolvidos manter em grande parte as suas amenidades, mas de futuro tal
deixará de ser assegurado se não se arrepiar caminho. É duvidoso que o mundo
desenvolvido possa manter o seu estilo de vida isolado, não apenas porque o clima
não obedece a fronteiras, mas também porque as suas fronteiras rapidamente se
desmoronam sob vagas maciças de imigrantes desesperados com fome, fugindo às
catástrofes naturais e às guerras nos seus países de origem. Por outro lado,
não se vislumbra que a curto prazo a deterioração ambiental, provocada pela
poluição industrial e tráfego rodoviário, sobretudo nas megametrópoles, seja
revertida.
Pode haver dois
tipos de escolha para o sucesso ou o fracasso:
Planeamento a
longo prazo e vontade de reconsiderar antigos valores. Do mesmo modo, também
podemos reconhecer o papel crucial dessas mesmas duas escolhas para o resultado
de nossas vidas individuais. Uma dessas escolhas depende da coragem de praticar
raciocínio de longo prazo, e tomar decisões antecipadas firmes, corajosas, em
um tempo em que os problemas se tornam percetíveis, mas antes de assumirem
proporções críticas. Este tipo de tomada de decisão é o oposto da tomada de
decisão reativa de curto prazo que muito frequentemente caracteriza os nossos
políticos eleitos, concentrando-se apenas em assuntos que possam vir a irromper
em crise nos próximos 90 dias. A outra escolha crucial iluminada pelo passado envolve
a coragem de tomar decisões dolorosas em relação a valores. Que valores que
outrora serviram bem à nossa sociedade podem continuar a ser mantidos sob as
novas alteradas circunstâncias? Quais desses valores devem ser alijados e
substituídos por abordagens diferentes? Eis a questão!
Os habitantes dos
países mais desenvolvidos vivem numa certa ambivalência em relação aos
imigrantes que chegam em busca de um melhor nível de vida. Por um lado, a
economia está completamente dependente da mão de obra desses povos, quer na
agricultura, quer na construção civil, quer nos serviços domésticos. Mas por
outro lado os autóctones queixam-se de que os imigrantes competem com os
desempregados locais, fazem baixar os salários e sobrecarregam os sistemas de
saúde.
Os otimistas
dizem: "A tecnologia resolverá os nossos problemas." Esta é uma
expressão de fé no futuro, portanto baseada no suposto antecedente de ter a
tecnologia resolvido mais problemas do que aqueles que criou em passado
recente. Está implícita a premissa de que de amanhã em diante, a tecnologia
funcionará basicamente para resolver os problemas existentes, e deixará de
criar novos. A experiência que se tem de tudo isto é que é o contrário. Algumas
tecnologias são bem-sucedidas, outras não. As que são bem-sucedidas geralmente
demoraram algumas décadas para se desenvolverem e se espalharem. E mesmo estas,
sejam ou não bem-sucedidas na solução dos problemas para os quais foram
projetadas, geralmente criam novos e inesperados problemas. As soluções
tecnológicas para os problemas ambientais geralmente são bem mais dispendiosas
do que as medidas preventivas para evitar a criação de problemas. Acima de
tudo, os avanços tecnológicos apenas aumentam a nossa habilidade de fazer
coisas, seja para o bem ou para o mal. Todos os nossos problemas atuais são
consequências negativas não intencionais de nossa tecnologia existente. Os
rápidos avanços tecnológicos durante o século XX criaram problemas novos e
difíceis mais rapidamente do que resolvido os antigos.
Durante os primeiros
anos após a entrada em cena dos automóveis, até parecia que as cidades se
tornavam mais limpas à medida que os cavalos iam desaparecendo. Ainda hoje se
notam vestígios desses tempos quando visitamos o núcleo histórico da cidade de
Viena, o cheiro a esterco e urina de cavalo mais a sonoridade dos seus cascos. Embora
ninguém esteja advogando a volta ao cavalo como solução para o smog das
emissões dos motores a explosão, o exemplo serve para ilustrar o lado negativo
não previsto de tecnologias que alguns teimam em preservar.
Outro exemplo de
fé na mudança e substituição é a esperança de que fontes de energia renováveis,
como a energia eólica e solar, possam resolver a crise de energia. Tais
tecnologias existem, contudo, a energia eólica e solar têm aplicabilidade
limitada porque só podem ser usadas em locais com luz e vento constantes. Além
disso, a recente história da tecnologia demonstra que o tempo de conversão para
a adoção de grandes mudanças pode ser medido em décadas, porque muitas
instituições e tecnologias secundárias associadas com a antiga tecnologia têm
de ser mudadas. É de facto visível que fontes de energia além dos combustíveis
fósseis farão contribuições crescentes para o nosso transporte motorizado e
geração de energia. Mas esta é uma solução a longo prazo. Não faz sentido nos
contentarmos com o nosso presente conforto quando é evidente que estamos num
curso não sustentável.
O problema além de
demográfico é também de desenvolvimento se ele for virtuoso para os países
dantes ditos do terceiro mundo. Se estes países alcançarem os padrões de vida
do primeiro mundo, o que é legítimo, então a situação se tornará ainda mais
insustentável. Até agora, as preocupações ambientais são luxos que só podem ser
pagos pelos países ricos, que não têm o direito de dizer aos cidadãos dos
países pobres o que devem fazer. Estes povos saberem muito bem como estão sendo
prejudicados pelo crescimento populacional, desflorestação, sobrepesca e outros
problemas. Eles sabem disso porque pagam a conta imediata, em forma de perda de
madeira gratuita com a qual construir casas, grave erosão do solo e a queixa
trágica da sua incapacidade de comprar roupas, livros e pagar a escola para os seus
filhos. A floresta atrás de sua aldeia está sendo derrubada ou porque um
governo corrupto ordenou que fosse derrubada apesar do seu protesto, frequentemente
violento, ou porque tiveram de assinar um arrendamento com grande relutância
por não ter visto outro meio de conseguir dinheiro necessário para sustentar os
seus filhos no ano seguinte.
Porque será que os
níveis desses produtos químicos tóxicos, de nações industriais remotas das
Américas e da Europa, podem ser mais elevados nos inuits do que em americanos e europeus urbanos? É porque a base da
dieta inuit são as baleias, focas e
aves marinhas que comem peixes, moluscos, camarões, e esses produtos químicos
se concentram em cada passo desta cadeia alimentar. Todos nós no Primeiro Mundo
que ocasionalmente consumimos frutos do mar também estamos ingerindo esses
produtos químicos, mas em quantidades menores.
Quando as pessoas
estão desesperadas, subnutridas e sem esperança, culpam os seus governos, que veem
como responsáveis ou incapazes de resolver os seus problemas. Depois, ou se
matam uns aos outros em guerras civis, ou tentam emigrar a qualquer custo.
Dão-se conta de que nada têm a perder, e tornam-se terroristas, ou apoiam e
toleram o terrorismo. Alta percentagem da população no fim da adolescência e
início da idade adulta transformam-se em hordas de homens jovens desempregados,
maduros para serem recrutados em milícias.
Portanto,
globalização quer dizer mais que comunicações mundiais aperfeiçoadas, que podem
levar diversas coisas em diversas direções. A globalização não se restringe apenas
a coisas boas. Para se entender a escala mundial dos problemas, considere-se o
lixo recolhido nas praias dos pequenos atóis no sudeste do Oceano Pacífico:
atóis desabitados, sem água potável, raramente visitados até mesmo por iates, e
entre os pedaços de terra mais remotos do mundo, cada um deles a centenas de
quilómetros até mesmo da remota e desabitada ilha Henderson. Ali, as pesquisas
detetaram em média um pedaço de lixo para cada metro linear de praia, que deve
ter vindo de navios ou de países asiáticos ou americanos na costa do Pacífico,
a milhares de quilómetros de distância. Os itens mais comuns são sacos
plásticos, boias, garrafas de vidro e de plástico, cordas, sapatos e lâmpadas,
junto com coisas estranhas como bolas de futebol. Outro exemplo sinistro são os
mais altos níveis de contaminação por produtos químicos tóxicos e pesticidas registados
entre os inuits (esquimós) da Gronelândia
Oriental e da Sibéria, que também estão entre os lugares mais afastados das
fábricas de produtos químicos de uso intensivo. Os níveis de mercúrio que têm no
sangue, porém, atingem as faixas associadas à intoxicação aguda, enquanto os
níveis tóxicos de bifenóis policlorados PCBs no leite das mães inuits são altos o bastante para
classificar seu leite como alimento tóxico. Os efeitos nos bebés incluem perda
de audição, desenvolvimento mental alterado e função imunológica deprimida, daí
as altas taxas de infeções respiratórias e do ouvido.
sexta-feira, 29 de março de 2019
O problema da fé religiosa
O problema da fé
religiosa é que a fé se baseia no dogma. E como os dogmas são tenazmente
considerados invioláveis, irrefutáveis e não suscetíveis de revisão, levam a
que quem está por ela possuída de uma forma fanática, ou como se costuma dizer
“fundamentalista”, está disposta a morrer. A fé é aquilo por que morre, mas o
dogma é aquilo por que pode inclusivamente matar se for induzida a fazê-lo.
O problema da
crença religiosa é que quer no passado como no presente trouxe sempre a todo o
lado a guerra, intolerância e perseguição, distorcendo a natureza humana para
formas repudiantes. Isto, independentemente do que possa contribuir para o
reconforto dos temerosos, quando tomados pelo fanatismo a uma qualquer
falsidade, é abraçada até à morte.
Como toda a gente
sabe, a fé religiosa é a negação da razão, inclusivamente contra todas as
evidências em sentido contrário. Ainda que o conhecimento seja definido como
crença, sem a qual não seria possível ter conhecimento, não é suficiente sem
que esse estado mental esteja ligado aos factos, simultaneamente verdadeiros e
justificados. O conhecimento implica verificação, e depende da existência do
tipo certo de relação entre a mente e o mundo. A crença religiosa existe apenas
na mente, não se baseando em nada do que existe no mundo.
O ser humano é um
ser espiritual, e a espiritualidade é importante, tudo bem. Mas por serem
criaturas espirituais não ficaram impedidas de ter ideias e de imaginar e
inventar coisas. E Deus, ainda que seja um conceito com muita força, não passa
de uma invenção que ao longo da história, desde que foi inventado, se revestiu
sempre de muita manigância.
Cada uma das
numerosas religiões no mundo conhece a sua própria versão de uma história em
que uma ou outra força sobrenatural age sobre o caos para trazer ao mundo a
criação e a existência do universo. Para a maioria das religiões, a história da
criação é um facto de fé, uma verdade absoluta.
O que é espantoso,
e de certa forma misterioso, é ainda alguns cientistas de renome internacional,
poucos, conseguirem conviver dentro de si com as contradições entre uma fé
religiosa e os seus conhecimentos científicos. À medida que o conhecimento
científico progrediu na melhor explicação da origem do universo, permitiu às
pessoas em geral não necessitarem de invocar forças sobrenaturais para explicar
o mundo. A ciência tem uma grande vantagem, uma vez que trabalha com hipóteses
cuidadosas e abrangentes, estando sempre pronta a revelá-las e a revê-las
sempre que surgem novos dados sempre dentro de factos e evidências não
especulativas, uma vez que é assumida com humildade as nossas limitações no
conhecimento de um universo tão complexo e enigmático. Mas a nossa ignorância
em relação a uma coisa tão vasta e poderosa não tem necessariamente que nos
levar para derivas tão contraditórias com o melhor que a ciência nos pode
oferecer, e aceitar a oferta das certezas eternas das religiões que se baseiam
apenas em superstições antigas.


