sábado, 11 de setembro de 2021

O que cai fora dos binários




The Economist, 4 de setembro 2021, a revista britânica, toma posição contra a cultura do cancelamento e a censura de uma esquerda autoritária iliberal, cada vez mais elitista e agressiva. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha 70 a 80% dos académicos não-alinhados confessam-se hostilizados pelos colegas e pelos estudantes. E 68% dos estudantes admitem que não dizem o que pensam, não vão os colegas considerar as suas opiniões ofensivas. Ou seja, há uma “esquerda iliberal” que tem vindo a entreter-se a traçar limites à livre expressão. E o número de doutrinados ou de noviços é já significativo: 40% dos nascidos já neste milénio (os chamados “millennials”) acham que devem banir-se teses e opiniões ofensivas para “as minorias”. Segundo The Economist, estão também zelosamente empenhados na denúncia, julgamento, punição e expulsão dos hereges.

Em 2018 Colin Wright, da Penn State University, escreveu dois artigos em que defendia que o sexo era uma realidade biológica e não uma construção social. Passou a ser um blasfemo, um desmancha prazeres, machista, transfóbico, racista; pronta acusação de prática de “ciência racialista” e consequente expulsão da universidade. Ainda teve a solidariedade privada de alguns colegas, mas ninguém se atreveu a contratá-lo. Na Universidade da Califórnia, os concorrentes a lugares académicos têm de preencher declarações sobre como pensam “promover a diversidade, a equidade e a inclusão” – e são admitidos ou recusados mais em função desses bons propósitos do que de outros requisitos curriculares. Vale a pena ler a carta de demissão de Peter Boghossian, da Portland State University, um pensador e professor de Filosofia, ateu e de esquerda, que ousa questionar a ortodoxia e blasfemar contra a transformação das universidades de “bastions of free thinking” em “social justice factories”, assinou a sua carta de demissão dizendo que a missão parece não ser já a de ensinar estudantes a pensar, mas a de treinar ativistas na arte de bem macaquear “as certezas morais dos ideólogos.”

Na Escócia, um diploma de março de 2021, diz que o “crime de ódio” é todo o ato “verbal ou físico”, com origem no “preconceito”, que possa “prejudicar a coesão da sociedade” ao ofender “as comunidades minoritárias”. Encoraja os ofendidos a comunicarem por email ou por telefone qualquer manifestação de “ódio às minorias”. As vítimas deste crime são todos os que, por motivos “de deficiência, de raça, de religião, de orientação sexual ou de identidade transgénica”, se sintam ofendidos por terceiros. Quem tenha conhecimento das ofensas é encorajado a denunciar os prevaricadores: “We want you to report it.” Já existia o crime de blasfémia que consistia em dizer ou escrever palavras contra Deus e a religião, com intenção de causar perturbação e desordem na comunidade. Agora é o “crime de ódio”, que, segundo The Economist, pode levar até sete anos de prisão. Um programa mais vasto, portanto, que abre toda uma panóplia de novas possibilidades.

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‘queer’, é uma espécie de mnemónica para contestar o binário homem/mulher; masculino/feminino; heterossexual/homossexual, etc. Por exemplo, as ligações indiferenciadas que normalmente se faz com sexo, género e sexualidade, são muito contestadas pelos teóricos ‘queer’, porque consideram que são termos que não têm necessariamente nada a ver uns com os outros.

‘woke’, como um termo político de origem afro-americana, refere-se a uma perceção e consciência das questões relativas à justiça social e racial. O termo deriva da expressão do inglês vernáculo afro-americano "stay woke", cujo aspeto gramatical se refere a uma consciência contínua dessas questões.

‘Foucault’, o discurso é central nas questões de poder, tais discursos perpetuam-se na cabeça das pessoas na forma de preconceitos. Preconceitos que forram um lastro de verdades endémicas que impregnam toda a sociedade. Para Foucault, em divergência com filósofos marxistas como Marcuse, o poder funcionava mais como uma grelha percorrendo todas as camadas da sociedade, determinando o que as pessoas consideravam verdade. É através do discurso, do sistema da linguagem em que todos participamos, que o poder se exerce e se sente.

‘biopoder’, sistema de socialização, o principal responsável pelo conhecimento, segundo Foucault. Assim justificou o discurso científico que se instituiu como autoridade suprema, responsável por racismos de Estado, em nome da urgência biológica e histórica. E foi assim que esta visão se tornou uma das crenças centrais do pós-modernismo aplicado ao ativismo pela Justiça Social de hoje.

No campo dos estudos culturais, em alguns departamentos académicos, existem vários projetos políticos que têm como objetivo acabar com a normalidade. Para isso trabalham uma série de teorias filiadas nestas últimas corrente pós-modernas. Foucault, estas teorias fogem à história para teorizarem que categorias e discursos, que no passado foram aceites, obviamente como sensatos, ou verdadeiros em seu próprio tempo, mas hoje não devem ser aceites como tal. Esta lógica é usada para argumentar que as categorias que parecem “normais” para nós, são construídas socialmente por discursos dominantes.

Académicos pós-modernos, inspirados em Foucault e Derrida, partilham da crença que caracterizar ou categorizar, seja o que for, deriva de um discurso e de um conhecimento que se legitima para restringir e oprimir. E foi assim que a ideia de Foucault – de que a sexualidade é um produto do discurso – revolucionou o ativismo político gay e lésbico da atualidade. E é preciso que se diga que, se a ‘Teoria queer’ é incoerente, é propositada. Não se trata de nenhum erro epistemológico.

É claro que nenhum cientista sério pensa que o comportamento humano é apenas comportamento animal. Não ignora que há no comportamento humano muito produto cultural. E não ignora que a cultura muda com o tempo. E que muitas das nossas ideias são construções sociais maleáveis. Hoje poucas pessoas são essencialistas biológicas puras. Mas estas teorias pós Foucault e Derrida são outro tipo de conversa. Por paradoxal que possa parecer, os teóricos pós-modernos são de uma grande radicalidade no seu construtivismo social. E é por este radicalismo, no desprezo pela biologia, que as suas teorias são muito limitadas. Os trabalhos dos neurocientistas, que fundamentam as diferenças biológicas que existem subjacentes aos comportamentos dos homens e das mulheres, já não deixam duvidas a ninguém. Mas tal conhecimento ainda é muito mal recebido por estes teóricos e ativistas, porque alegam que estas disciplinas científicas ainda estão sob o controlo do poder de uma perspetiva masculina, como é o caso da neurociência.

Ora, tal posicionamento absurdo tem a sua razão de ser, dado que não lhe são alheios os 3 tomos da História da Sexualidade de Michel Foucault:
  • A vontade de saber, 1976
  • O uso dos prazeres, 1984
  • O cuidado de si, 1984

Michel Foucault morreu em Paris a 25 de junho de 1984, com 57 anos, vítima de complicações causadas pela Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, a tal SIDA, causada por um vírus, o vírus da imunodeficiência humana (VIH).



sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Percorrendo a estrada de Cabul até Mazar-i-Sharif




A cidade de Cabul, situada a 1.800 metros acima do nível do mar num vale estreito, está encravada entre as montanhas Hindu Kush, historicamente conhecido como Uparisyena, em sânscrito, uma cadeia de montanhas de 800 Km situada na Ásia do centro e sul a oeste dos Himalaias.


No Afeganistão, depois de 2001, quem fosse de sul para norte, de Cabul para Mazar-i-Sharif, tinha de atravessar uma parte das montanhas Hindu Kush, 450 Km de estrada que levam pelo menos 12 horas a atravessar. Primeiro atravessa-se a planície de Shomali, paisagem que foi fustigada por um marcante cenário de guerra. Aqui ninguém chorou os talibãs mortos na beira da estrada ou na areia devido aos bombardeamentos americanos. Os talibãs haviam aterrorizado o povo da planície de Shomali durante anos. A planície foi a linha da frente entre os talibã e os homens de Massoud, da Aliança do Norte, durante os cinco anos do regime talibã em que o poder trocou de mãos seis a sete vezes. Como a linha da frente estava sempre a mudar de lugar, o povo local teve de fugir, ou para o vale de Panshir, ou para o sul, no caminho de Cabul. A maioria dos habitantes era de etnia tajique, Quem não conseguia fugir arriscava ser vítima da limpeza étnica talibã. Os talibã na retirada envenenaram os poços e explodiram condutas de água e sistemas de barragens, essenciais na planície também fustigada pela seca, que antes da guerra civil fazia parte da área agrícola que circundava Cabul.


Ao fundo, a estrada antes de entrar no túnel Salang, entre Cabul e Mazar-i-Sharif


Quando se começa a subir em direção ao túnel Salang a estrada sobe vertiginosamente para o túnel mais alto do mundo. Ela se estreita, de um lado um paredão montanhoso e do outro água corrente, às vezes em cachão, outras vezes como um riacho. Nos lugares mais improváveis há tanques de guerra queimados. A maioria são da guerra contra a União Soviética, quando o Exército Vermelho avançou a partir das repúblicas soviéticas do Norte, pensando que tinha os afegãos sob controlo. Os russos foram logo vítimas das táticas de guerrilha astuciosas dos mujahidins, que se deslocavam como cabritos pelas montanhas. De longe, dos postos de vigia, podiam ver os pesados tanques russos se arrastando no fundo do vale. Mesmo com armas caseiras, os guerrilheiros eram praticamente invulneráveis quando atacavam de emboscada. Os soldados estavam por toda a parte, disfarçados de pastores, com kalashnikov escondidos sob o ventre dos cabritos.




O túnel de Salang, começa a 3.400 metros acima do nível do mar, e as galerias vão até 5.000 metros de altitude. Foram oferecidas ao Afeganistão pela União Soviética. As obras foram iniciadas por engenheiros russos em 1956. Os túneis ficaram prontos em 1964. 


Militares dos Estados Unidos a entrar no túnel de Salang em 2011


Também foram os russos que começaram a asfaltar as primeiras estradas do país, nos anos 1950. Durante o regime de Zahir Khan, o Afeganistão era um país amigo dos russos. O rei liberal viu-se forçado a apelar para a União Soviética porque nem os EUA nem a Europa achavam interessante investir num país daqueles. O rei precisava de ajuda financeira e tecnologia, e estava pouco preocupado com ideologias.


A galeria de avalanche

O túnel de Salang, no final dos anos 1990, foi explodido pelo mujahidin Massoud, numa última tentativa desesperada de conter o avanço talibã para o norte. Cinquenta pessoas ficaram presas no túnel por causa de uma avalanche de neve. Fazia vinte graus abaixo de zero e o motorista deixou o motor ligado para manter o calor. Depois de horas, quando retiraram a neve, encontraram os corpos de umas dez ou vinte pessoas que tinham adormecido devido ao monóxido de carbono, mortas por envenenamento.


Dentro da galeria de avalanche

Após um tempo que parece uma eternidade a subir, começa-se a descer em direção a Mazar-i-Sharif, e aparecem as planícies sem neve, e as últimas horas antes de lá chegar passam depressa. Uma viagem feita em 12 horas. Hazrat Ali Mazar parece uma revelação, iluminada no escuro.




Hazrat Ali Mazar, a mesquita azul que os muçulmanos sunitas acreditam conter o túmulo de Ali ibn Abi Talib, o seu quarto califa guiado. O local também é onde muitos peregrinos celebram anualmente Nauruz (cerimónia anual de Jahenda Bala) uma bandeira sagrada é hasteada em homenagem a Hazrat Ali. As pessoas tocam a bandeira para dar sorte no Ano Novo. Quando Hazrat Ali foi martirizado, os afegãos acreditavam que o seu corpo foi levado e enterrado na cidade afegã de Mazar-i-SharifAli foi supostamente trazido para aqui por um camelo branco, a fim de salvar os restos mortais da profanação por seus inimigos. No entanto, os muçulmanos xiitas acreditam que Hazrat Ali está enterrado na Mesquita Imam Ali em Najaf, no Iraque. Alternativamente, o personagem enterrado no santuário pode ter precedido o Islão. Identificar o santuário com Hazrat Ali poderia provavelmente ser um mito para garantir que o túmulo seria protegido e honrado pelo estabelecimento islâmico. Estudos históricos confirmam que o dono do santuário é o Ali bin Abi Talib Al-Balkhi, capitão dos Alevis em Balkh durante o seu tempo.




O primeiro santuário conhecido neste local foi construído pelo sultão da dinastia Seljuq, Ahmed Sanjar. Foi destruído ou escondido sob aterro de barro durante a invasão de Gengis Khan por volta de 1220. É uma lenda local, embora nenhuma evidência tenha sido encontrada para apoiar esta alegação. No século XV, foi construída uma mesquita sobre o túmulo de Hazrat Ali. É de longe o marco mais importante de Mazar-i-Sharif e acredita-se que o nome da cidade se origina deste santuário. Túmulos de dimensões variadas foram adicionados por vários líderes políticos e religiosos afegãos ao longo dos anos, o que levou ao desenvolvimento de suas dimensões irregulares atuais. 

O turismo, outrora uma das mais importantes fontes de renda do Afeganistão, hoje pertence ao passado. Jovens progressistas e nem tão progressistas vinham ali para encontrar uma bela paisagem, um estilo de vida selvagem e o melhor haxixe do mundo. E ópio para os mais experientes. Nos anos 1960 e 1970, milhares de hippies vinham anualmente para o país montanhoso. Alugavam Ladas antigos e partiam. Também mulheres viajavam sozinhas pelas montanhas. Na época, já havia bandidos e ladrões de estrada, mas isto só tornava a viagem ainda mais emocionante. Nem o golpe contra Zahir Shah, em 1973, conseguiu impedir o fluxo dos turistas. Só o golpe comunista de 1978 e a invasão no ano seguinte colocaram um fim brusco aos trilhos dos aventureiros.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

O buzkashi




O buzkashi é um desporto nacional do Afeganistão que é jogado com o corpo de um animal morto. É um 
dos desportos mais selvagens do mundo, trazido para o Afeganistão pelos mongóis que assolavam o país sob o comando de Gengis KhanBuzkashi começou entre as tribos asiáticas nómadas que vieram do norte e leste e se espalharam para oeste da China e da Mongólia entre os séculos X e XV, numa série de migrações que terminou apenas na década de 1930. Desde o tempo dos Citas, até às últimas décadas, o buzkashi tem permanecido um legado daquela era passada.

É para todos os efeitos, tal como acontece com corridas de cavalos, ou de camelas, noutros sítios, é um jogo de apostas. Homens poderosos entre o público apostam milhões de afeganis em cada partida. Quanto mais dinheiro em jogo, mais selvagem a luta se torna. Além disto, o buzkashi é um jogo de grande importância política, jogado geralmente às sextas-feiras. Um líder local deve ser ele próprio um bom lutador de buzkashi, ou possuir um estábulo com bons cavalos e uma equipa de bons cavaleiros. A vitória impõe respeito. É uma paixão no Afeganistão, atraindo milhares de fãs. Era tradição os jogos durarem vários dias. Hoje, porém, é melhor regulamentado com tempos fixos durante um dia.

Desde os anos 1950 que as autoridades afegãs vêm regulamentando as lutas. Se bem que os participantes fazem pouco caso, eles sabem que seria impossível seguir certas regras. Mesmo após a invasão russa, os torneios continuaram, apesar do caos reinante no país; muitos participantes não conseguiam chegar a tempo, pois tinham que atravessar zonas de combate. Os comunistas, que em geral tentavam acabar com a maioria das enraizadas tradições afegãs, nunca ousaram mexer no buzkashi. Ao contrário, tentaram ganhar popularidade promovendo torneios. E os chefes iam-se sucedendo nas tribunas. Mesmo assim, acabaram com grande parte dos fundamentos do buzkashi. Quando a coletivização teve início, poucos podiam manter estábulos com cavalos bem treinados. No tempo do comunismo os cavalos dos buzkashi foram dispersos e usados na agricultura. Quando os donos de terras fugiram, os cavaleiros e os cavalos também foram com eles.

Os Talibã proibiram as lutas porque não se adequava aos princípios do islamismo. A luta buzkashi, após a queda dos Talibã em 2001, voltou. O povo afegão gosta mesmo de assistir, e os mais ferrenhos colocam-se bem à frente, às vezes precisando de recuar rapidamente para não serem atingidos pelos cavalos que levantam uma poeira desgraçada. 

Quando o sol se põe, e os raios vermelhos do poente se espalham pelo campo poeirento, é hora de acabar. E então os afegãos da assistência, cobertos de poeira e exaustos, desandam numa corrida para apanharem os melhores lugares, porque a fome já aperta, e não há nada como comer no melhor lugar em que o ar é límpido e fresco. Estendem o tapete no chão, sentam-se no tapete, e comem em silêncio. Sopa, arroz, carne de carneiro, e cebola crua. 

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A tralha de Proust




Piero Tosi contou a Lorenza Foschini, jornalista da RAI, uma história extraordinária sobre o espólio de Marcel Proust. E isso deu-lhe matéria para um livro: O Sobretudo de Proust. Mas o livro não teria sido escrito se Carlo Iansiti, que conheceu profundamente Jacques Guérin, não o tivesse apresentado a Lorenza Foschini.

Em 1929 Jacques Guérin foi operado pelo médico Robert Proust devido a uma apendicite. Ora, este médico era o irmão mais novo do escritor Marcel Proust que morrera em 1922 com 51 anos de idade. Depois Guérin foi agradecer a casa do médico o sucesso da operação. E então é surpreendido com o espólio de Marcel Proust espalhado pela casa do médico.

Em 1935, Robert Proust morre, com 57 anos de idade. Marthe Dubois-Amiot, viúva do médico, sempre odiara o cunhado. Várias fontes imputam o seu ódio à alegada homossexualidade de Marcel Proust. O biógrafo de Proust descreve Marthe com desprezo, uma enfadonha mulher burguesa que fez tudo para apagar qualquer vestígio de “indecência” que pudesse macular o decoro da família. Foi assim que se perderam as cartas de amor de Marcel, grande parte da sua correspondência social, e os rascunhos e as preciosas anotações do seu trabalho. Em todo o caso, Jacques Guérin ainda tem tempo de salvar alguma coisa. 

Suzy Proust, a única filha de Robert e Marthe, terá adquirido muitos dos manuscritos de seu tio e vária documentação literária associada, assim como grande parte dos móveis que seu tio Marcel havia acumulado no grande apartamento de Paris. Marthe, em algum momento, terá pedido a um tal Werner, um homem que ela tinha arranjado, e que permanece uma figura misteriosa, que lhe levasse os papéis que ainda restavam. Independentemente de como eles tinham sobrevivido à ira incendiária da viúva, pilhas de papéis de Marcel Proust foram entregues por Werner a um alfarrabista na rua Faubourg Saint-Honoré, que Henri Lefebvre administrava. Jacques Guérin era um cliente regular dessa livraria. De acordo com uma fonte, mal Werner desandou, Guérin passou por lá e se deparou com esse acervo de Proust.

E foi assim que Jacques Guérin comprou os manuscritos de Proust, bem como cartas e fotografias. Depois conseguiu um encontro com Werner para saber se qualquer outra coisa da propriedade literária de Proust ainda estaria para venda. Havia, de facto, muito mais. Junto com os papéis, havia uma grande quantidade de móveis sobreviventes e um sobretudo. Marcel Proust gostava muito de um sobretudo que mantinha sobre os cobertores em sua cama, como proteção adicional contra o frio. O estado do sobretudo estava num mísero estado, muito deteriorado e cujo forro estava infestado de parasitas. Werner era um homem de negócios astuto, mas nem ele se atreveu a vendê-lo a Guérin, deu-lho. Felizmente, Jacques Guérin era um homem rico, e com queda de colecionador meticuloso e persistente, tendo conseguido, a grande custo, restaurar o sobretudo. Uma geração de entusiastas depois veio a determinar que o sobretudo de Proust figurasse como uma das peças mais importantes do legado de Proust.

Dizia Guérin, virado para Marthe: «Mas afinal, madame, o seu cunhado era um génio. Será possível que nunca tenha tido vontade de ler o seu romance?» E Marthe, com o tom seco e decidido da burguesa bem-criada, que não tem nenhuma dúvida acerca dos deveres da sua condição, responde com a voz estrídula de muitos anos antes: «Ora, ora, senhor Guérin! Não passa de um amontoado de mentiras!» Também a Philip Kolb, outro homem que dedicou boa parte da vida a decifrar a enorme quantidade de cartas de Marcel, Marthe dá uma resposta igualmente seca e esclarecedora a respeito do que pensa do cunhado. Diante dos insistentes pedidos do erudito americano, para saber de anedotas e particulares, e principalmente das suas lembranças pessoais acerca do grande escritor, com a sua costumeira maneira resumida de falar, dá esta lapidar opinião: «Monsieur, meu cunhado era um ser bizarro.» 
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Certa noite no Larue, na Place de la Madeleine, por volta de 1901, os amigos de Marcel viram-no tão encolhido de frio que lhe arranjaram um sobretudo. A mesma cena irá repetir-se, em 1911, Marcel percorria o longo corredor do Ritz que levava à sala de jantar onde aparecia envolto na sua pesada pele, bem no meio de maio, em plena primavera, como uma sombra, o rosto e a voz consumidos pela familiaridade com a noite. Sentava-se a uma mesa, comia pouco, às vezes bebia. Certa noite tomou uma garrafa inteira de Porto, um vinho mencionado no romance: “Monsieur de Cambremer", que, conversando com o doutor Cottard numa noitada na casa dos Verdurin, na Raspelière, alardeia suas qualidades para combater a insónia.

Em 1913, 
com Jean Cocteau, ficará de pé à mesa do restaurante, arrebatado com as qualidades de Vaslav Nijinsky, primeiro bailarino dos Balés RussosCocteau retrata Proust metido em seu pesado sobretudo, o queixo escondido na gola de pele, na qual repousam os bigodes ainda pretos, bem como os cabelos que despontam do chapéu. 



Na ponta das mangas, cruzadas na frente, aparecem as mãos enluvadas, enquanto no bolso esquerdo do sobretudo se vislumbra uma garrafa de água mineral, como conta Cocteau: “Voltava dessas excursões ao alvorecer, encapotado em seu sobretudo forrado de pele, lívido, os olhos roxos, inchados, com um litro de água de Evian enfiado no bolso (...).” No desenho são representados, com rápidos traços de lápis, os cabelos compridos, as olheiras profundas, as faces mal escanhoadas, a cabeça colada ao pescoço. Guérin, ao ficar de posse desse esboço, que fazia parte do tesouro da chapeleira, emoldurou-o com um passe-partout escuro, para salientar o papel marfim do desenho, nem desconfiando de que aquele sobretudo ainda estivesse circulando por aí.

Proust deambulava com o seu sobretudo pelos luxuosos salões do imponente hotel da Place Vendôme. Ao entrar na sala do restaurante era alvo dos olhares ávidos das mesas vizinhas, perfeitamente ciente de estar a ser observado. Como disse o neto do barão Gustave de Rothschild: «É dessa forma que um dos seus mais notáveis compatriotas me demonstrou a sua admiração dizendo: “A mais profunda impressão que a minha esposa e eu guardamos de Paris é M. Proust.” Eu já estava muito feliz, mas cedo demais, pois acrescentou: “Pois de facto foi a primeira pessoa que vimos alguém jantar com um sobretudo forrado de pele vestido”.»

Em junho de 2000 a Christie’s, em Londres, vendia manuscritos de Proust por uma quantia estonteante. E em maio de 2016 Cartas (raras) a seu pai, manuscritos inéditos, desenhos, retratos de família foram leiloados pela casa Sotheby's de Paris. No total, mais de 120 fotografias, manuscritos e cartas, bem como testemunhos sobre os amores e amigos. 
Vários retratos de família - muitos com Marcel Proust - e retratos de seus amigos-amantes, foram colocados à venda pela sobrinha-neta do escritor, Patricia Mante-Proust, estimado entre 520.000 e 740.000 euros. 

Em setembro de 2018, O Ministério da Cultura da França informou que o governo francês comprou manuscritos inéditos do escritor Marcel Proust. Os escritos foram colocados à venda na famosa casa de leilões Sotheby’s no dia 23 de maio, pela sobrinha-neta de Marcel Proust: Marie-Claude Mante. O valor pago não foi revelado. O material foi colocado em exibição pública em 2019, na Maison de Tante Léonie-Musée Marcel Proust, museu dedicado ao escritor.

Não conhecemos os nomes de quem, com o mesmo zelo, guarda agora os esboços, as cartas e os “brouillons” de Marcel, comprados a peso de ouro. Quando Jacques Guérin morreu, em 6 de agosto de 2000, estava com quase 100 anos. Tinha sido um dos mais importantes bibliófilos e, oito anos antes de morrer, decidira começar a vender a sua extraordinária coleção. Em 20 de maio de 1992, na sala La Paix do Hotel George V, em Paris, exatamente às três da tarde, foram leiloados manuscritos e edições originais de Baudelaire, Apollinaire, Picasso, Hugo, Cocteau, Genet, Rimbaud e, obviamente, Proust. Esse homem, tão apegado às suas “conquistas”, aos papéis salvos com tanta obstinação, aos objetos miúdos acariciados até chegar às raias do fetichismo, aos grandes personagens que podia até não conhecer, mas eram amados de forma obcecada e maníaca, esse homem que chegou a investigar, a confundir-se entre parentes e amigos só para possuir uma lembrança de um fragmento da vida do escritor, por mais de meio século mantidos escondidos, faz surgir num passe de mágica um tesouro naquela noite na rue Berton, e vende-os 
por quantias exorbitantes.

Como um príncipe renascentista, viveu em seu castelo repleto de maravilhas. Em vão, o presidente François Mitterand foi visitar o Paraclet-Sophie, esperando que a magnífica coleção fosse doada à nova Biblioteca Nacional que estava a nascer por vontade dele. Jacques Guérin portou-se com o ilustre hóspede como se portava com todos: grande cortesia, acolhimento magnífico, ótima conversa. Mas o roteiro continuava o mesmo: quando o hóspede chegava a mencionar o motivo que o levara até ali, o dono da casa interrompia-o gentilmente exclamando, com falsa surpresa: “Ora, mas que pena! A conversa foi tão agradável, que acabamos não reparando que já está ficando escuro. Já é tarde demais para lhe mostrar. Fica para a próxima vez.”

Por mais de cinquenta anos, Jacques Guérin manteve escondidos os seus tesouros, e de repente decide livrar-se deles a pouco e pouco, sabendo que tudo passa, tudo desaparece. Amou as suas conquistas com uma paixão visceral e, de posse delas, guardou-as trancafiadas sem mostrá-las a ninguém, só para o seu próprio prazer. “Quando um homem ama uma mulher, não a compartilha com os outros”, declarou a Franco Marcoaldi, numa entrevista. “Foi o que fiz com os meus tesouros: como Barba Azul com suas mulheres, tranquei-os no porão!” Agora, à beira do novo século, Jacques, esse velho misterioso e indecifrável, apagada toda a paixão, pode serenamente separar-se das coisas amadas: “A minha coleção é como um balão aerostático”, diz a Marcoaldi, “os anos passam e eu voo para o céu.”




Estando em Paris, se tiver curiosidade pode dar uma saltada até ao museu Carnavalet. Não hesite em subir a bonita escadaria da casa que já pertenceu a madame de Sévigné. Nos andares superiores, encontram-se as salas dedicadas à capital francesa no começo do século XX. Depois de passar por algumas, chega-se a um estreito corredor. Procurem dar uma olhada rápida à sua direita onde foi montado o quarto de dormir que já foi de madame de Noailles, claro, luminoso, com a elegante cama estilo Luís XVI, e demorem-se mais, por sua vez, no seguinte. O aposento está protegido por um amplo vidro, com uma placa ao lado informando que os móveis expostos pertenciam ao quarto de Marcel Proust e foram doados por monsieur Jacques Guérin. O panfleto que provavelmente compraram na entrada explicará que “os móveis e os objetos expostos acompanharam Marcel Proust nas três moradias que ocupou após a morte dos seus pais, a partir do momento em que, depois de uma juventude frívola, ficou cada vez mais afastado do mundo para dedicar-se exclusivamente à escrita.




Uma vez que tinha o hábito de escrever à noite, deitado, é nesta simples cama de latão que compôs a maior parte de À la Recherche du Temps Perdu, uma das obras fundamentais da literatura universal”. Arranjados com meticuloso cuidado, com a mesma arrumação que tinham no apartamento da rue Hamelin, ainda podem ser vistos alguns dos protagonistas desta história: a cama de latão coberta pela colcha de cetim azul; a estante dos livros e a escrivaninha, pretas e solenes; os castiçais de madeira dourada; o rosto sério e carrancudo do professor Adrien Proust, sentado numa poltrona renascentista, num quadro atribuído a Laure Brouardel; e, arrumados numa mesinha, os objetos miúdos e preciosos, a Legião de Honra, o prendedor de gravata Cartier e, ao lado da cama, a bengala de passeio revestida de pele de javali; no chão, o tapete antigo que Jacques vira no chão muitos anos antes.




Alguém poderia perguntar: Qual é o sentido de ficar pasmado para aqueles móveis que, nem feios nem bonitos, jazem estáticos diante dos nossos olhos, e porque tão culto e requintado cavalheiro se dedicou com paixão a salvá-los do descuido e da destruição?

A resposta já pode ser encontrada nas primeiras páginas da Recherche: “Talvez a imobilidade das coisas que nos cercam lhes seja imposta pela nossa certeza de que se trata realmente daquelas coisas, e não de outras, pela imobilidade do nosso pensamento em relação a elas. Eu só sei que, ao acordar desse jeito, o meu espírito se agitava tentando, sem conseguir, saber onde eu estava, com tudo, objetos, países, anos, a rodar num vórtice à minha volta, no escuro (...).”

No Museu Carnavalet, cada coisa está como Proust a via ao acordar. Mas, se fosse permitido ao visitante aproximar-se da cama de latão e apalpar com a ponta dos dedos a desbotada colcha azul, ele perceberia com surpresa que falta um retângulo de pano. Jacques, na hora de mandar sair os móveis da sua casa rumo ao museu, recortou uma tira daquele tecido, emoldurou-a e pendurou na parede ao lado do seu quarto de dormir, como uma relíquia, da mesma forma que os fiéis da Idade Média guardavam zelosamente para si um pedaço milagroso da roupa do santo. No mais, cada coisa está no devido lugar como antigamente, a não ser o sobretudo.

O sobretudo já não está lá. Uma etiqueta colocada em baixo, ao lado da poltrona, presente dos herdeiros de Reynaldo Hahn a Guérin, para que cuidasse dela, informa que as condições do sobretudo de Marcel Proust não permitem a sua exibição. O sobretudo repousa numa longa caixa de papelão nos porões do museu, acolchoado entre folhas de papel de seda.

Lorenza Foschini ficou grata a Jean Marc Léri, diretor do museu Carnavalet, por lhe ter deixado ver várias vezes o sobretudo de Proust. E a enegrecida e oxidada, ainda coberta com a colcha azul, a cama de latão do escritor. A cama onde Proust passou noites insones desde os 16 anos, onde escrevera toda a obra e na qual morrera em 18 de novembro de 1922. 



Lorenza Foschini e Jean Marc Léri no Museu Carnavalet

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Astrakhan – Samosdelka






Astrakhan é uma cidade na ponta da Europa cujo lugar é algo de estranho à Europa. Europa e Ásia são conceitos para determinados fins. Em Astrakhan não tem qualquer significado. Em Astrakhan - uma terra de fadas, oriental, das estepes, com ressonâncias de camelos, templos budistas e potes de moedas de ouro - o que é que a Europa pode ser?

Na Rússia algumas pessoas acreditam que os russos são uma criação de eslavos. Outros olham para Oriente e acham que foram os mongóis e a Horda de Ouro a deixar-lhes o legado imperial de Gengis Kahn. Seja como for, percebe-se que a Rússia é uma ponte entre Oriente e Ocidente, um caldo de cultura de tribos e religiões. No século XVI a cidade de Astrakhan era a segunda capital da Rússia no Sul, onde os mercadores da Índia chegaram a estabelecer residência permanente.

Astrakhan, apesar de toda essa orientalidade, e como capital do oblast (província) de Astrakhan, está incluída na parte  europeia da Federação Russa, na margem do rio Volga, o maior rio da Europa, que vai desembocar no mar Cáspio, na forma de um grande deltaO rio Volga é uma importante via fluvial de comércio, atravessando as grandes planícies da Rússia. Por meio de canais, interliga os mares: Branco; Báltico; Cáspio; Azov; Negro. O Volga possui grandes trechos navegáveis, e também desníveis que permitem o uso da força de suas águas para a geração de energia elétrica. O escoamento do rio é hoje regularizado inteiramente através de barragens. O delta do rio Volga é muito rico em esturjões e plantas exóticas. As capitais do Grão-Canato Czar e da Horda de Ouro situavam-se nessa área fértil. No século XIII, já os mercadores da Rota da Seda lhe faziam referência como Xacitarxan.





Sarai, cidade que ficava também nas margens do rio Volga, a 120 Km a norte de 
Astrakhan, era a capital no tempo do canato da Horda de Ouro, tendo sido saqueada por Tamerlão em 1395. E Astrakhan, entre 1459 e 1556 foi a capital do Canato de Astrakhan. Foi um dos quatro canatos originários da fragmentação do Império Mongol, e o mais duradouro de todos eles. Abrangia na altura o que é hoje: Rússia europeia; Cazaquistão; Ucrânia; parte da Bielorrússia; norte do Uzbequistão; parte da Roménia. Tinha como fronteiras: a oeste os reinos da Polónia e Hungria; a sul o Ilcanato; a sudeste o canato de Chagatai; e a leste o Grã-Canato.

Entre 1221 e 1223 o exército de Gengis Khan chegaram até à atual Ucrânia e venceram os exércitos dos vários principados russos na batalha do rio Kalka. Gengis Khan morre em 1227, mas antes de morrer dividiu o império pelos seus quatro filhos: Oguedai ficou com o norte da China; Chagatai com a Ásia Central; Tolui com a Mongólia; Jochi com o Cazaquistão e a Sibéria Ocidental. Este último entretanto morreu e os seus domínios foram novamente repartidos por quatro filhos: Batu, Orda, Shiban e Berke.


Em 1246, Oguedai morre e é o seu filho Guiuque que é eleito. Diante disso, Batu funda o canato da Horda de Ouro, com capital em Sarai. A dada altura a Horda de Ouro segue um caminho diferente do Grã-Canato, separando-se completamente da autoridade de Kublai Khan [1215-1294] - o personagem de Marco Polo e de Ítalo Calvino no livro das 'Cidades Invisíveis'. A Horda de Ouro desenvolveu-se mais como uma cultura sedentária do que nómada, tendo a capital, Sarai, evoluído como uma metrópole populosa e próspera. Mas no início do século XIV a capital foi transferida para um local onde hoje é Volgogrado. Com nome de Sarai Berke, tornou-se uma das maiores cidades do mundo medieval. E Astrakhan é uma outra cidade importante da Horda de Ouro. No plano étnico a Horda perdeu sua identidade mongol. Enquanto que a classe mais alta da sociedade era composta por descendentes dos guerreiros mongóis de Batu, a maioria da população do reino era composta por quipechaques, Búlgaros tártaros, quirguizes, cazaques, corásmios e outros povos turcos.

Em 1556, Ivan IV (o Terrível), conquistou o Canato de Astrakhan, onde veio a construir uma nova fortaleza numa colina íngreme com vista para o Volga. Em 1670, os cossacos liderados por Stenka Razin ocuparam a cidade por vários meses. Mas é com Pedro o Grande que Astrakhan se torna a base das suas operações contra a Pérsia, com a construção de um grande estaleiro naval. O Kremlin de Astrakhan foi construído entre as décadas de 1580 a 1620 com pedras vindas do local de Sarai. Construído por mestres vindos de Yaroslavl, tem muitos dos traços tradicionais da arquitetura das igrejas russas, enquanto a decoração externa é definitivamente barroca.



Hoje, Astrakhan é igualmente cosmopolita: cristãos muçulmanos e budistas coexistem pacificamente e mais de cem diferentes grupos étnicos misturam-se no azafamado bazar tártaro, alguns quarteirões a sul das paredes brancas do Kremlin.

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A Cazária - Império Czar ou Canato Czar - foi um extinto estado não-eslavo que existiu nas estepes entre o mar Cáspio e o mar Negro, e parcialmente ao longo do rio VolgaCzares (Cazares ou Cázaros) - eram um povo de origem turcomana seminómada, que no final do século VI d.C. estabeleceram um grande império comercial, que cobria o que é hoje o Cazaquistão e o sudeste da Rússia europeia moderna, o sul da Ucrânia e da Crimeia. Os Czares criaram uma força política que enquanto durou foi a mais poderosa na região da Ásia Central entre os séculos VII e X. Ela emergiu da separação do Grão-Canato Turco Ocidental. Os Czares comandarão um vasto império, um verdadeiro amortecedor entre as terras cristãs e o califado em expansão. O Estado dos Czares era o último Estado organizado antes do perigo e da ausência de lei das hordas nómadas que deambulavam a Oriente. Da Europa, entrava-se em Praga ou em Cracóvia. E daqui ia-se até Kiev. E depois Sarkel e Atil, a capital dos Czares. Os Czares estavam ameaçados por todos os lados. A oeste era Bizâncio e o cada vez mais importante Rus de Kiev; a sul eram os Abássidas; a leste eram os povos da estepe. A Cazária comandava assim as marchas ocidentais da Rota da Seda, desempenhando um papel comercial fundamental numa grande encruzilhada entre a China, o Médio Oriente e a Rus de Kiev.

Nos finais do século X, o seu poder declinou e desapareceu da História com a entrada em cena da Rus de Kiev, uma confederação de tribos eslavas do Leste Europeu entre os séculos IX e XIII. Hoje, tanto a Bielorrússia, como a Ucrânia e a Rússia, reivindicam esta ancestralidade. Para onde foram os Czares após a queda do seu Império, é um assunto que ainda está sujeito a muitas conjeturas. Não faltam propostas na endogénese de inúmeros povos, que também incluem a etnia hazara que vive no Afeganistão, bem como húngaros, cazaques e cossacos do Dom e da Ucrânia.




Atil foi uma cidade multiétnica e religiosamente diversificada, habitada por judeus, cristãos, muçulmanos, e muitos pagãos. Todos os grupos religiosos tinham os seus próprios locais de culto na cidade, e havia sete juízes nomeados para resolver disputas (dois cristãos, dois judeus e dois juízes muçulmanos, com um único juiz para todos os xamanistas e outros pagãos).

O nome Atil aparece no século X. Atil é referida como Khamlij em fontes árabes do século IX. 
No seu auge, a cidade era um grande centro comercial, e consistia em três partes separadas pelo Volga. A parte oeste continha o centro administrativo da cidade, com um tribunal e uma grande guarnição militar; a parte leste da cidade foi construída mais tarde e atuou como o centro comercial de Atil, com banhos públicos e lojas; e entre eles uma ilha em que ficavam os palácios da realeza Czar – dividida entre os Khagan: Bek ou Khagan Bek. Historiadores árabes contemporâneos referiam que o Khagan era puramente um governante espiritual ou figura com poderes limitados, enquanto o Bek era responsável pela administração e assuntos militares.

Samosdelka é uma vila de pescadores no sul da Rússia, a cerca de 40 km a sudoeste da cidade de Astrakhan onde uma equipa de arqueólogos, liderada por Dmitry Vasilyev, da Universidade Estadual de Astrakhan, encontrou em setembro de 2008 os vestígios arqueológicos de Atil (Itil em turco), nada mais nada menos que a antiga capital da Cazária. De acordo com Vasilyev, eles encontraram os restos de uma antiga fortaleza de tijolos do século IX e X. Esta descoberta, extremamente importante, vem finalmente esclarecer um dos mistérios mais intrigantes do período dos Czares
A porção central de Samosdelka estava localizada numa ilha entre leitos secos do rio Volga. Documentos antigos dizem que o castelo de Atil estava localizado numa ilha no centro da cidade. A fortaleza tinha uma forma triangular e era feita de tijolos de calcário. 

sábado, 4 de setembro de 2021

Decisões suscetíveis de falhanço em relação às mudanças climáticas


Miguel Miranda, geofísico e Presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, numa entrevista a Teresa Firmino, no jornal Público, diz que, e passo a citar:  “A descarbonização é claramente o maior desafio que globalmente a humanidade tem. Devemos estar à espera de um clima mais seco e mais quente, mais ondas de calor ou mais furacões tropicais que atinjam os Açores e a Península Ibérica.”

Eu sou daqueles que foram estruturados no Iluminismo anunciado no século XVIII. Todas as métricas das condições de vida dos seres humanos melhoraram persistentemente nos últimos duzentos anos. Esta melhoria pode ser também atribuída ao salto evolutivo da mente humana, com a libertação da Razão. A Razão contribuiu para a melhoria da vida humana. Uma massa crítica de seres humanos que entretanto se concentraram no lado ocidental do mundo, mas não exclusivamente aí, e que os ideais iluministas haviam acolhido com razão, a ciência e o humanismo do Renascimento na Europa. Este acolhimento resultou num progresso que tanto entusiasmou os filósofos do Positivismo.

«O sistema social não é um conjunto de robôs com botõezinhos on e off. Temos capacidade de fazer andar um comboio a 600 quilómetros por hora e de o parar em 30 segundos. Mas não temos capacidade de agarrar numa multidão desesperada e dar-lhe uma única direção. E ainda bem que não temos, porque esse caos faz parte da liberdade. O facto de sabermos que vamos ter um grande problema amanhã ainda não significa que sabemos bem como gerir a emergência.»

Ora, este estado de graça da ciência pura e dura passou a estar ameaçada com a emergência de problemas ambientais atribuídos aos efeitos secundárias da ciência. Hoje são os movimentos contra o Iluminismo que tomam a dianteira da agenda política devido às catástrofes ambientais sucessivas que cada vez mais nos estão a entrar nas cidades. Obviamente que são os cientistas sociais, e os intelectuais de uma certa elite académica dos departamentos de humanidades, que dão sustento a estes movimentos dos chamados “estudos culturais pós-modernos". Entre as fileiras dos humanistas encontram-se muitos soi-disant progressistas que estão mesmo contra o progresso, e que consideram que é a tal 'ciência' não social que está no cerne do imperialismo e do racismo colonial.

«O clima está a mudar como se fosse uma bola de neve. Saímos do clima de partida e não sabemos a que clima vamos chegar. Estamos ainda a caminho, somos a bola de neve que desce a montanha. E a bola está imparável. Estamos a vê-la a rolar e a dizer “talvez seja melhor criarmos condições para que ela role mais devagar”. Mas, na verdade, não está a rolar mais devagar. E sabemos o que vai acontecer: há de haver um ponto em que a bola não vai parar. São os tipping points – os pontos de viragem. As cidades como as conhecemos vão ter de se modificar, mesmo que nós nos portemos tremendamente bem. É essa questão que é a parte mais dramática do relatório do IPCC, que é dizer-nos: há coisas que vamos poder evitar, mas há coisas que já não vamos poder evitar.»

relativismo epistemológico pode ser definido como a perspetiva de que o conhecimento (e/ou verdade) é relativo – ao tempo, ao lugar, à sociedade, à cultura, à época histórica, ao esquema ou enquadramento conceptual ou à convicção ou experiência pessoal – de modo que aquilo que conta como conhecimento depende dos valores de uma ou mais dessas variáveis. A ideia aqui é a de que não há uma racionalidade para o conhecimento. Nada há que seja “realmente” racional, pois todos aqueles que pensam sobre uma questão a tratarão da sua própria perspetiva ou contexto. Não há um ponto privilegiado a partir do qual se possa ver o mundo. O que quer que pensemos sobre a racionalidade, ela será sempre afetada pela experiência vivida por cada um, pela cultura e por outros fatores sociais.

É fácil perceber que no campo das humanidades e ciências sociais tal perspetiva parece fazer sentido, tanto mais que a matéria-prima que estas especialidades trabalham é a matéria dos valores. Contudo, já é mais difícil aceitar os mesmos critérios para as ciências matemáticas e físicas, ainda que no que respeita ao descalabro ecológico elas tenham uma certa quota de culpas, elas estão de certa forma repartidas com a ciência dos valores, porque são estes que informam os comportamentos e as condutas na forma de utilizar os recursos das mais valias tecnológicas resultantes de inovações produzidas à custa da investigação científica. E não vamos retirar disso qualquer razão para duvidarmos dessas verdades.


Quando os académicos da contracultura se pronunciam sobre estes tópicos, incluindo, por exemplo, as formas dos objetos ou as causas das doenças, tendem a fazê-lo a partir dos seus próprios pontos de vista. As nossas conclusões sempre serão afetadas pelas nossas perspetivas ou pontos de vista. Muito bem, mas não se segue disso que os objetos “realmente” não tenham formas; que as doenças realmente não tenham causas; e que a ciência não possa descobrir essas causas.

A corrente profunda do oceano faz a circulação não só de temperatura da Terra – transporta o frio dos pólos para o equador e o calor do equador para os pólos –, mas dá-nos os climas temperados. Os climas temperados são essenciais à humanidade. Se cortarmos alguns desses mecanismos – e os paleoceanógrafos admitem que no passado isso já aconteceu –, podemos ter uma situação em que há uma mudança brusca do clima da Terra. Esse é o verdadeiro tipping point.



Temos esta facilidade de tirarmos da nossa memória as coisas más. Tivemos em Portugal, por exemplo, na zona da Figueira da Foz, o furacão Leslie, com uma grande capacidade destruidora. Alguém se lembra? Alguém tomou alguma medida para que o próximo Leslie não se repita? Do ponto de vista do IPMA, estamos a melhorar todos os sistemas de observação. Vamos melhorar dois novos radares e ter mais dois radares no Atlântico. Vamos tentar seguir os fenómenos o mais depressa possível, mas fazer entrar na memória – na capacidade de decisão das pessoas – estes fenómenos que, sendo muito intensos, são apesar de tudo raros e locais, não é fácil. É mais fácil desenvolver aquele mecanismo: isto só acontece aos outros.

Não estamos preparados para gerir de forma rápida áreas urbanas com grandes densidades populacionais. Podemos fazer isso, mas como o fazemos num ambiente de democracia e liberdade? Já se pensou nisso? É óbvio que a forma como, por exemplo, gerimos a pandemia nos países democráticos foi diferente da dos países asiáticos não democráticos. E até se pode dizer que, se calhar, no segundo caso foi mais eficiente, porque se se restringe a liberdade de todos e, se se obrigar cada um a fazer o que está numa folha de Excel, provavelmente o resultado é capaz de ser melhor. Mas temos de compreender que há contradição entre eficácia e o livre arbítrio e, portanto, ou temos mais liberdade e menos eficácia ou temos mais eficácia e menos liberdade. Espero que a escolha seja a primeira. Não vai ser a mais segura, mas por enquanto é aquela que ainda atrai as pessoas para viver nela. O significa que há qualquer coisa de felicidade que tem a ver com o risco. A felicidade também é a capacidade de encarar a vida com riscos.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Eurásia





Se traçarmos uma linha reta entre a cidade mais ocidental e a cidade mais oriental deste bloco euroasiático - Lisboa e Lavrentiya - esta linha percorrerá uma extensão que grosso modo andará à volta de 12.000 Km. Ora, procurando encontrar um sítio que fique a meia distância entre os dois extremos, Nur-Sultan será a cidade mais próxima, a capital do Cazaquistão. Outro ponto interessante seria Khorgas, o ponto estratégico "Belt Road". Feitas outras contas, a distância de Lisboa a Nur-Sultan é de 6.166 Km; e de Nur-Sultan a Lavrentiya são 5.987 Km.

Eu escolhi então a capital do Cazaquistão para definir a cidade da Eurásia que marca o ponto de encontro entre uma pessoa europeia e uma asiática, se por abstração puséssemos a pessoa europeia a sair de Lisboa em direção ao centro da Eurásia e a asiática a sair de Lavrentiya. Se ambos viajassem, seguindo a linha reta marcada a vermelho no mapa, e à mesma velocidade, provavelmente iriam encontrar-se numa área próxima de Nur-Sultan, ou Kurgan.






Se olharmos para o globo da Terra vemos que há um bloco que liga o que se convencionou chamar dois continentes: Europa Ásia. Esta circunstância possui o pretexto para chamar a esta grande massa continental: Eurásia. Europa e Ásia são dois continentes apenas por razões culturais. A Europa é o berço da civilização ocidental e a Ásia Oriental pertenceu a várias civilizações (Império Mongol, Império Persa, ou as Chinas imperiais). Nesta parte do planeta podemos contar um total de cerca de 90 países. O que constitui quase metade do total mundial.




Daí sucede que há países que são considerados países transcontinentais, países que têm os seus territórios divididos entre a Ásia e a Europa: Arménia, Azerbaijão, Cazaquistão, Chipre, Geórgia, Rússia e Turquia. Arménia: está localizado entre o mar Negro e o mar Cáspio, no Sul do Cáucaso, em uma região montanhosa; Azerbaijão: localizado na região do Cáucaso, no limite entre o Leste Europeu e o Sudoeste Asiático; Cazaquistão: é um país com território na Ásia Central, estendendo-se por uma pequena parte a Oeste do rio Ural no continente da Europa; Chipre: é um país insular localizado ao Leste do Mediterrâneo, ao longo das costas da Síria e também da Turquia; Geórgia: é um país que está localizado na Europa Oriental, tendo limites com a Rússia, a Turquia, a Arménia, o Azerbaijão e o Mar Negro; Rússia: é o maior país transcontinental do mundo, com a maior parte do seu território na parte asiática, mas a capital na porção europeia; Turquia: é o país com a única cidade transcontinental do mundo – Istambul. Está localizada em uma região conhecida como península da Anatólia.

Do ponto de vista religioso, A Europa é predominantemente cristã. Já na Ásia, o cristianismo é minoritário ao lado do islamismo e budismo. Em relação às línguas, o latim é a originária de muitas das línguas europeias: francês, espanhol, italiano, catalão, português. enquanto na Ásia: o árabe, o híndi, o mandarim e outras variantes são as principais línguas faladas.

Rússia é o maior país em extensão territorial do mundo, com 17.100.000 quilómetros quadrados. A população se distribui de forma bastante desigual pelo território, especialmente por conta de fatores adversos das áreas geladas da Sibéria. A Rússia estende-se pelo Leste Europeu e Norte da Ásia, com maior concentração populacional na parte europeia, onde está a capital Moscovo. Já a Turquia se estende do Leste da Europa para o Oeste da Ásia. Istambul, no Estreito de Bósforo, é uma cidade transcontinental muito diversificada.




Khorgas




Khorgas, anteriormente Gongchen, começou por ser uma cidade chinesa, na Região Autónoma Uigur de Xinjiang, na fronteira com o Cazaquistão, a Prefeitura Autónoma Cazaque de Ili. Entretanto a parte do lado do Cazaquistão tem-se desenvolvido depois de Xi Jinping ter anunciado que esta seria a porção terrestre do One Belt RoadA iniciativa foi incorporada à Constituição da China em 2017. O governo chinês chama a iniciativa de "uma tentativa de melhorar a conectividade regional e abraçar um futuro mais brilhante". O projeto tem uma data de conclusão prevista para 2049, que coincidirá com o centenário da fundação da República Popular da China. 

Assim, o lado cazaque desta fronteira também se dá pelo nome de Khorgas. Portanto, o centro da Nova Ponte Terrestre da Eurásia, Portão Dzungarian, uma passagem de montanha geograficamente e historicamente significativa entre a China e a Ásia Central.

Alguns observadores estão céticos, principalmente de países não participantes, incluindo os Estados Unidos. Interpretam-no como um plano para uma rede de comércio internacional, mas centrada na China. Em resposta, os Estados Unidos, o Japão e a Austrália formaram uma contra iniciativa, a Blue Dot Network, em 2019, seguida pela iniciativa Build Back Better World, do G7, em 2021.

Khorgas-East Gate, é uma enorme zona logística e industrial que está no centro de uma nova rede de rotas comerciais transcontinentais chamada Cinturão Económico da Nova Rota da Seda – um esforço infraestrutural, económico e político numa escala - visando uma conectividade das duas economias: o Leste Asiático e a Europa Ocidental - semelhante à escala dos tempos áureos da Antiga Rota da Seda. O centro compreende: uma zona económica especial isenta de vistos para a realização de comércio e compras chamada International Center for Border Cooperation (ICBC);  um porto seco para o transporte de mercadorias; duas novas cidades, uma de cada lado da fronteira. A Ferrovia Jinghe–Yining–Khorgas foi concluída no final de 2009, que agora fornece serviço de transporte de comboio de Urumqi e Yining para Khorgas.

Assim, em dezembro de 2011, ficou concluída uma ferrovia de 293 km que vai da fronteira com Khorgas até ao terminal de Zhetygen (próximo de Almaty). Em 2 de dezembro de 2012 as linhas dos dois lados da fronteira foram inauguradas e ficaram operacionais. Por alguns meses, a ferrovia do lado cazaque operou somente em modo de teste. Os primeiros comboios regulares dos dois países cruzaram a fronteira em 22 de dezembro de 2012. Assim, Khorgas, sendo um porto seco internacional, muito longe de um porto marítimo, liga o Cazaquistão e a China. Estima-se que esta ferrovia processe logo de início até 15 milhões de toneladas de carga por ano, com uma previsão de vir a subir para 30 milhões de toneladas por ano a longo prazo. 




Ninguém que se diga com bom-senso acreditaria que pudesse surgir em Korgas - um sítio no meio do nada, 
todos os lados deste lugar é pouco mais do que dunas de areia e montanhas, que não encontra outro mais distante de um porto de mar - uma estação estratégica da chamada Nova Rota da Seda. Mas, vista de uma outra perspetiva -  uma grande encruzilhada entre leste e oeste, norte e sul; perto da Rússia, o maior país; o limite mais ocidental da China, a maior economia; da Índia que vai a caminho de ser o país mais populoso do mundo -  até pode vir a ser o maior centro do mundo. Mas por agora, ser o lugar da criação de uma grande cidade totalmente nova, é realmente inacreditável. É uma zona de desenvolvimento colossal com projetos em ambos os lados da fronteira.

Atualmente, existem 39 rotas a operar entre a China e a Europa, uma rede emergente que está a revolucionar a ferrovia em toda a Eurásia. A maior parte do volume de carga que passa da China para o Cazaquistão vai em direção a Nur-Sultan (Astana), a capital do Cazaquistão.




Historicamente, esta região era uma passagem conveniente para os nómadas da estepe que se deslocavam a cavalo. Heródoto faz referência a relatos dos viajantes sobre uma terra no Nordeste, onde os grifos guardam ouro e onde o Vento do Norte é emitido de uma caverna da montanha. Alguns historiadores fazem um paralelo entre o que se está hoje a passar com esta iniciativa, e a História de Heródoto - 
Portão Dzungário ou da Zungária e a casa de Boreas, o tal Vento Norte da mitologia grega. Os Hiperbóreos foram identificados por alguns como os chineses.

Ao escrever a sua História, Heródoto de Halicarnasso vislumbrou a importância que os vestígios das ações praticadas pelos homens tinham para as ações futuras. Por exemplo fala de Dario para dizer quão ambicioso ele era ao querer subjugar os Citas. Estes povos só eram conhecidos pelos seus vizinhos, e pelos gregos estabelecidos nas cidades limítrofes à Cítia. Os Citas eram então para os gregos objeto de curiosidade, tanto mais estimulante à medida que iam estabelecendo colónias no Ponto Euxino (as margens do Mar Negro). 
Heródoto demora-se, por vezes, pelo caminho, só para chamar a atenção dos leitores de situações que é importante saber. As suas descrições são tão exatas que se encontram confirmadas, na maioria, pelos relatos daqueles entre os modernos que viajaram pela Bulgária, Moldávia, Bessarábia, Czernigow, Ucrânia, Crimeia e os Cossacos do Don. 

Dario viu-se obrigado a regressar vergonhosamente aos seus primitivos domínios. Os Persas foram batidos em Maratona. Com esta notícia, Dario, furioso, fez preparativos ainda mais consideráveis. A revolta do Egito apenas suspendeu a vingança de Dario. Logo que este país foi submetido, retomou o desejo de castigar os Atenienses. Entretanto Dario morre. Xerxes, seu filho e sucessor, que não era nem menos ambicioso nem menos vingativo que seu pai, queria também subjugar o resto da Grécia. Resoluto a marchar em pessoa contra os gregos, levantou o exército mais numeroso e mais formidável de que se ouviu falar. Equipou uma frota considerável, e durante diversos anos não se ocupou senão em fazer transportar para as cidades fronteiriças da Grécia os trigos e os víveres necessários à subsistência desta multidão inumerável de homens. Sofreu logo uma derrota nas Termópilas. Tendo a sua frota a seguir sido batida em Salamina, voltou vergonhosamente, como seu pai, à Ásia.

Mas Heródoto também nos fala dos nómadas eurasianos. Eles eram um grande grupo de povos nómadas da estepe eurasiana, e grandes invasores. Viajam de um lugar para o outro para encontrar pastagens frescas para os seus animais. Eles ao domesticarem o cavalo, que começou por volta de 3500 a.C., aumentaram consideravelmente as possibilidades da vida nómada, cuja economia posteriormente enfatizou a criação de cada vez mais cavalos. Foram eles que desenvolveram a carroça, o arco e a flecha, e introduziram inovações como o freio e o estribo, conferindo uma maior velocidade e estabilidade nos seus ataques disparando flechas em corrida em cima dos cavalos.

Os Citas e a Cítia tem a ver com eles. Cobria a maior parte da estepe que se originou já no século VIII a.C., composta principalmente por pessoas que falavam línguas iranianas. A Europa foi exposta a várias ondas de invasões por homens a cavalo, incluindo os Cimérios no século VIII a.C. 
Os Cimérios foram um antigo povo fanate de línguas indo-europeias que viveu ao norte do Cáucaso e do mar de Azov por volta de 1300 a.C. Até que foram expulsos para o sul, pelos Citas até à Anatólia por volta do século VIII a.C. Governados por uma classe dominante iraniana, linguisticamente falavam línguas iranianas.

A Hipótese Kurgan também conhecida como Teoria Kurgan ou Modelo Kurgan ou Teoria da Estepe é a proposta mais amplamente aceite para identificar a pátria protoindo-europeia da qual fazem parte as línguas indo-europeias. Kurgan em russo significa túmulo, monumentos funerários ao norte do mar Negro.

A Teoria da Estepe foi formulada pela primeira vez por Otto Schrader (1883) e V. Gordon Childe (1926), então sistematizada na década de 1950 por Marija Gimbutas, que usou o termo para agrupar várias culturas pré-históricas. Três estudos genéticos em 2015 deram apoio parcial à Teoria da Estepe.



Esquema de dispersão da língua indo-europeia de c. 4000 a.C. 1000 a.C. de acordo com a amplamente mantida hipótese Kurgan