terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Os Citas segundo Heródoto




Os Citas, na Antiguidade, e os Sármatas, povo com o qual os Citas tinham forte parentesco, dominaram a estepe que ia do Ponto ao Mar Cáspio. No tempo do Império Bizantino os escritores gregos usaram o termo "citas" como arcaísmo para denotar os povos nómadas que encontravam. Depois da tomada de Babilónia, Dario marchou contra os Citas. A Ásia era, então, rica e muito povoada, encontrando-se em situação florescente. O soberano desejava vingar-se dos Citas, que, tendo invadido a Média, bateram as tropas que a eles se opuseram e entraram a violar. Esse povo tinha dominado na Ásia Superior durante vinte e oito anos. Havia ali penetrado perseguindo os Cimérios, arrebatando o império aos Medos.

Depois de uma ausência de vinte e oito anos, conta Heródoto, os conquistadores citas quiseram retornar à pátria; mas para voltar à Cítia não encontraram menores dificuldades do que as que tinham tido para dominar os Medos. Um exército numeroso erguera-se diante deles, impedindo-lhes a entrada; pois enquanto estiveram ausentes, as suas mulheres, entediadas pela longa espera, entregaram-se aos escravos, daí resultando toda uma nova população. Desses escravos e de mulheres citas nasceram muitos jovens, que, tendo conhecimento da sua origem, marcharam ao encontro dos Citas que regressavam da Média. Começaram por dividir o país em duas partes, cavando um largo fosso que ia dos montes Táuricos ao Palos-Meótis, abrangendo vasta extensão. Foram, em seguida, acampar diante dos Citas que procuravam penetrar no país, aos quais ofereceram combate. Houve entre eles várias escaramuças, sem que os Citas pudessem conseguir a menor vantagem.



“Companheiros, que estamos a fazer? — gritou um dos Citas no meio da peleja — se esses homens matam um dos nossos, diminuímos de número; se matamos um deles, diminuímos o número de nossos escravos. Abandonemos os arcos e dardos e marchemos contra eles armados do chicote com que fustigamos nossos cavalos. Enquanto nos virem de armas na mão considerar-se-ão nossos iguais; mas se em lugar de armas nos virem de chicote, lembrar-se-ão de que são nossos escravos, e apercebendo-se da sua baixa origem, não mais ousarão resistir-nos”. A sugestão foi aceita por todos. Os escravos, atemorizados, puseram-se logo em fuga, sem mais pensar em combater. Assim regressaram os Citas à pátria, depois de haverem dominado a Ásia e terem sido dali expulsos pelos Medos. Foi para vingar-se dessa invasão, que Dario levou contra eles poderoso exército. É isso o que dizem os Citas com relação a si próprios e ao seu país. Todavia, os gregos que habitam o litoral do Ponto Euxino dizem que Hércules, conduzindo as boiadas de Gérion chegou ao país hoje ocupado pelos Citas e então deserto. Gérion morava além do Ponto Euxino, numa ilha denominada Erítia pelos gregos e situada perto de Gades, no oceano, adiante das colunas de Hércules. Acreditam esses gregos que o oceano começa a leste e envolve a terra com as suas águas. Mas, nenhumas provas apresentam, em apoio de tal crença.

Há ainda sobre o mesmo assunto outra versão, que de muito boa vontade passo a relatar. Os Citas nômades habitantes da Ásia, batidos pelos Masságetas, com os quais entraram em guerra, atravessaram o Araxo e foram ter à Ciméria — pois o país hoje ocupado pelos Citas pertenceu outrora, ao que dizem, aos Cimérios. Estes, vendo-os invadir suas terras, discutiram a medida a tomar ante tão grave contingência. As opiniões se dividiram em extremos opostos, sendo as dos reis aceitas como as melhores. O povo achava que deviam retirar-se para não se exporem aos azares de um combate contra tão numeroso grupo de invasores, opinando os reis que se desse batalha aos que vinham atacá-los. O povo não queria ceder ante o parecer dos reis, nem estes ante o dos seus súditos. Estes últimos preferiam a desonra à eventualidade de se verem massacrados; aqueles achavam preferível morrer na pátria do que fugir com a população. Por um lado, consideravam as vantagens que haviam desfrutado até ali; por outro lado, previam os males que lhes adviriam fatalmente se abandonassem a pátria.

Como ambos os lados se mantivessem irredutíveis em suas opiniões, a discórdia agravou-se entre eles. Sendo os partidários de uns e de outros equivalentes em número, não tardaram a decidir a questão pela força. Os que pereceram nessa ocasião foram enterrados, primeiro o nome de Agatirso; ao segundo, o de Génolo, e ao mais jovem, o de Cíntio. Lembrou-se, então, das ordens de Hércules e cumpriu-as. Os dois mais velhos, não tendo forças para dobrar o arco, foram banidos do lugar, indo estabelecer-se em outro país. Cíntio, o mais moço, fez o que o pai havia determinado e permaneceu na sua pátria. É, pois, de Cíntio, filho de Hércules, que descendem todos os reis dos Citas, e até hoje esse povo traz presa ao talabarte uma taça como reminiscência da que Hércules trazia pendente do seu, por ocasião da sua aventura naquele país. É assim que os Gregos habitantes do litoral do Ponto Euxino relatam esse fato.

Transpondo-se esse rio, encontra-se primeiramente a Hiléia, na direção do litoral. Acima ficam os Citas agricultores. Os Gregos que vivem às margens do Hípanis chamam-nos Boristênidas, mas denominam a si próprios Olbiopólitos. O país desses Citas agricultores, que fica a três dias de viagem do lado do levante, estende-se até o rio Pantícapes. Atravessando-se essa região chega-se a vastos desertos, além dos quais vivem os Andrófagos, que nada têm de comum com os Citas. Ao norte do território por eles habitado existem apenas desertos — pelo menos não se sabe da existência de nenhum povo ali. A leste da região ocupada pelos Citas agricultores e para lá do Pantícapes vivem os Citas nômades, que não lavram a terra. Toda a região, com exceção da Hiléia, é desprovida de árvores. Os Citas nômades ocupam, a leste, uma extensão correspondente a quatorze dias de jornada até o rio Gerro.

Em toda a região de que acabo de falar, o Inverno é tão rude, e o frio tão intenso pelo espaço de oito meses, que espalhando-se água pela terra não se faz lama, senão quando se acende fogo. O próprio mar gela, assim como o Bósforo Cimeriano; e os Citas da Quersonésia passam com seus exércitos sobre o gelo, conduzindo carroças, para irem ao país dos Sindas. O Inverno mantém-se intenso durante oito meses, sendo que os outros quatro últimos meses também são frios. O Inverno nessas paragens é, aliás, muito diverso do dos outros países. Chove tão pouco durante a estação, que se pode dizer ser ela de completa seca; e no Verão não cessa de chover. Não troveja na época em que costuma trovejar em outros lugares; mas as trovoadas são muito frequentes no Verão; e se as ouvem no Inverno, encaram o fato como algo fenomenal. 

Os Délios falam mais detalhadamente sobre o referido povo. Contam que as oferendas dos Hiperbóreos lhes vinham envoltas em palha de trigo. Passando pelas mãos dos Citas e transmitidas de povo a povo, essas oferendas alcançavam terras distantes, chegando até o Adriático, a ocidente, de onde eram enviadas para o sul. Os Dodoneus eram os primeiros Gregos a recebê-las. Dali desciam até o golfo Malíaco, de onde passavam para a Eubéia, e, seguindo de uma cidade para outra, iam ter a Cariste. Dali, sem tocar em Andros, os Caristeus levavam-nas para Tenos, de onde os Teneus as transportavam para Delos. A dar crédito aos Délios, era assim que essas oferendas chegavam à sua ilha. Acrescentam eles que, nos primeiros tempos, os Hiperbóreos enviavam as oferendas por intermédio de duas virgens — Hiperoquéia e Laodicéia; que, para segurança dessas jovens, os Hiperbóreos faziam-nas acompanhar por cinco cidadãos, a que atualmente se rendem grandes homenagens em Delos sob o nome de Pérferos; mas que, os Hiperbóreos, não os vendo regressar e ante a desagradável possibilidade de virem a perder muitos outros de seus delegados nessa missão, resolveram, depois de certo tempo, levar as oferendas até as fronteiras, envoltas em palha de trigo, de onde eram enviadas aos vizinhos mais próximos, a quem solicitavam remetê-las a outra nação. Dessa maneira, as oferendas iam passando, segundo os Délios, de país a país, até chegarem ao seu ponto de destino.

Os Citas sacrificam em todos os lugares sagrados, procedendo da seguinte maneira: a vítima fica de pé, com os pés dianteiros amarrados. O que deve sacrificá-la coloca-se atrás dela e puxa a corda que lhe prende os pés, fazendo-a tombar, enquanto invoca o deus ao qual vai imolá-la. Em seguida, amarra uma corda em torno do pescoço do animal, apertando-a com auxílio de um bastão até estrangulá-lo. Não se acende fogo e nem fazem libações. Estrangulada a vítima, o oficiante esfola-a, esquarteja-a e prepara-se para cozinhá-la. Como não há lenha na Cítia, procedem da seguinte maneira para cozinhar a vítima: depois de esquartejá-la, retiram toda a carne que envolve os ossos e colocam-na em caldeiras, se as possuem. Essas caldeiras se assemelham muito às crateras de Lesbos, com a diferença de serem bem maiores. Debaixo delas acendem o fogo com os ossos da vítima. Se, porém, não possuem caldeiras, colocam toda a carne, com água, no ventre do animal, e queimam os ossos por baixo(6). Os ossos fornecem um bom lume, e o ventre mantém muito bem a carne. Assim, os animais sacrificados servem para cozinhar a si próprios. Quando tudo está cozido, o sacrificador faz o oferecimento dos primeiros bocados de carne e de vísceras atirando-os para a frente. Os Citas sacrificam várias espécies de animais, principalmente cavalos.

Quanto aos costumes que observam na guerra, vale mencionar os seguintes: o guerreiro cita bebe o sangue do primeiro homem que consegue abater, corta a cabeça a todos os que mata em combate e leva-as ao seu soberano. Quando apresenta a este a cabeça de um inimigo, pode compartilhar dos despojos da luta; em caso contrário, lhe é negado esse direito. Para esfolar a cabeça do inimigo abatido, o Cita faz primeiramente uma incisão em torno da mesma, na direção das orelhas, e, segurando-a pelo alto, puxa a pele, arrancando-a. Em seguida, limpa a pele tirando-lhe toda a carne, depois do que fricciona-a nas mãos para amaciá-la. Tendo-a assim preparado, dela se serve como guardanapo e amarra-a no bridão do cavalo. Isso constitui um título de honra. O Cita que possui tais guardanapos é considerado valente e destemido, e quanto maior o número desses troféus, maior é a consideração de que goza entre os seus. Muitos cosem os fragmentos de pele humana, como as capas dos pastores, e fazem delas vestuários. Outros também esfolam até as unhas a mão direita do inimigo, fazendo da pele bainha para as aljavas. A pele humana é, realmente, espessa e brilhante, e de todas a mais notável pela brancura. Outros há, ainda, que esfolam homens inteiros, e depois de espichar a pele em pedaços de madeira, colocam-na sobre seus cavalos.

Se o rei dos Citas cai doente, manda buscar três dos mais famosos adivinhos que praticam a arte da maneira que acabo de expor. Convidados a explicar, servindo-se dos seus dons, a razão do mal e o meio de combatê-lo, eles geralmente declaram pele de boi, como o douram por dentro, dele servindo-se, à semelhança de uma taça, para beber. Fazem o mesmo com a cabeça dos parentes próximos se, depois de alguma disputa com eles, levam a melhor. A decisão da contenda tem de ser feita perante o rei. Se um estrangeiro de categoria visita o país apresentam-lhe esses crânios, relatando-lhe como venceram aqueles a que eles pertenceram, ainda que se trate de parentes, constituindo isso motivo de vaidade e classificando tal procedimento como ações de mérito. Cada governador cita dá anualmente um festim em seu distrito ou província, no qual é servido vinho misturado com água, numa cratera. Todos os que se podem vangloriar de haverem matado inimigos em combate bebem desse vinho; os que nada fizeram de semelhante estão privados desse direito, e permanecem à parte, em situação sumamente humilhante. Os responsáveis pela morte de grande número de inimigos bebem em duas taças ao mesmo tempo.

O rei da Cítia manda matar os filhos dos condenados à morte, poupando, porém, as filhas. Quando os Citas estabelecem um pacto, eis como procedem: despejam vinho numa grande taça de barro, e os contratantes, fazendo pequenas incisões no corpo com uma faca ou espada, vertem ali um pouco do seu próprio sangue, depois do que mergulham na taça uma cimitarra, flechas, um machado e um dardo. Terminada a cerimônia, fazem longas preces e bebem parte do conteúdo da taça, e depois deles, as pessoas presentes de mais alta categoria, uma a uma. Os túmulos dos reis citas acham-se no país de Gerro, no ponto em que o Borístenes começa a tornar-se navegável. Quando morre um soberano cita, abrem ali um grande fosso quadrado para receber o cadáver. O corpo do falecido é untado com cera, e o ventre, depois de aberto e limpo, enchem-no de pedra esmigalhada, de essências e de sementes de aipo e de anis, recosendo-o em seguida. Feito isso conduzem o corpo num carro para outra província, onde os habitantes, à maneira dos Citas reais, cortam uma parte da orelha, raspam o cabelo em torno da cabeça, fazem incisões nos braços, fendem a fronte e o nariz e passam flechas através da mão esquerda. Dali, o corpo é levado, ainda de carro, para outra província, acompanhado pelos habitantes daquela por onde passou em primeiro lugar. O soberano percorre assim, depois de morto, todas as nações submetidas ao seu domínio, até chegar ao país dos Gerroneus, na parte extrema da Cítia, onde o colocam na sepultura já preparada, sobre um leito de verdura. Lanças à guisa de estacas são fincadas em torno do corpo, sobre as quais são colocadas peças de madeira coberta com galhos de salgueiro. No espaço vazio deixado no fosso acomodam os corpos estrangulados de uma das concubinas do rei, de um escudeiro, de um cozinheiro, de um pajem, de um dos ministros reais, de um dos servidores, de cavalos, enfim, as premissas de todas as riquezas do soberano, inclusive taças de ouro — os Citas não conhecem nem a prata nem o cobre. Isso feito, enchem de terra o fosso e erguem, trabalhando por turnos, um cômoro elevado sobre a sepultura.

A barbárie sob a lei do pêndulo





Cada indivíduo é virtualmente inimigo da civilização. A civilização é algo que foi imposto há milénios por uma minoria a uma maioria a ela contrária. Assim se insere a contestação às regras de contenção da propagação do vírus da pandemia covid-19 que tem ocorrido na maior parte das capitais dos países supostamente mais civilizados do mundo. Essas pessoas, subjugadas pelas pulsões mais profundas que se possa imaginar, vêm para as ruas das cidades manifestar-se contra as medidas governamentais suportadas na ciência, provocando todo o tipo de desacatos que as polícias tentam travar com muito baixa eficácia.

Porque será que isso acontece? É imputável a duas circunstâncias amplamente difundidas entre os cidadãos: a submissão às pulsões hedonísticas do gozo do prazer; e o desamor ao trabalho. Há uma ineficácia tremenda dos argumentos contra as paixões do corpo. Desde os tempos de Aristóteles que os seres humanos se distinguem das bestas e dos anjos pelo facto de só poderem existir no interior de uma pólis, esse antigo equivalente/arquétipo da ideia moderna de “sociedade. Depois Thomas Hobbes inseriu no senso comum da era moderna uma versão atualizada, ou modernizada, da perceção aristotélica, ao assegurar que, sem coação exercida a partir de cima - homo homini lupus est, (o homem é o lobo do homem) - o homem está condenado a uma vida horrenda, breve e brutal. E onde há coação, isto é, onde as pessoas se veem obrigadas a manter um comportamento diferente daquele que suas inclinações naturais ditam, há insatisfação e dissensão, na maior parte do tempo sufocados, reprimidos ou desviados, mas evidentes de vez em quando.

Há um preço a pagar pelo homem se ter emancipado da existência bestial, por haver obtido aquela segurança confortável e reconfortante que somente o poder da sociedade consegue proporcionar. Se se quer uma coisa, é preciso perder outra coisa. A vida civilizada é um contrato social. O que os indivíduos cedem na transação é uma quantidade nada pequena de satisfações que seus instintos os exortariam a buscar, e que eles buscariam se nada lhes fosse proibido ou impedido pela força. Em troca, eles ganham uma medida considerável de segurança contra os males e os perigos que provêm da natureza, neste caso de uma insignificante forma de quase vida que damos pelo nome de vírus.

Mas nada pode ser considerada solução definitiva para o dilema de equilibrar segurança e liberdade – dois valores igualmente indispensáveis, mas obstinadamente incompatíveis. Uma solução de compromisso, com o subsequente armistício, sempre temporário, sempre até ao próximo aviso, sempre um espinho cravado no corpo das relações entre o indivíduo e a sociedade, que ao longo da história tem oscilado sempre como um pêndulo: ora uma tentação a embarcar em rebeliões anárquicas; ora em golpes de Estado autocráticos/totalitários. Depois de chegar a uma das extremidades, volta a iniciar um outro combate, outra rodada. Outros diretos, outros deveres.

A eutopia, um bom lugar, onde a segurança e a liberdade estariam perfeitamente equilibradas, sem causar insatisfação nem dissensão, é uma utopia. A civilização é um dom ambíguo, que suscita impulsos ambivalentes: é irremediavelmente uma bênção mesclada com uma maldição. A civilização, tudo aquilo em que a vida humana se eleva acima de suas condições animais, e se distingue da vida animal, não pode prescindir da coerção, tampouco pode existir sem gerar resistência contra si mesma.

Não há um caminho benigno, fácil de percorrer e à prova de danos colaterais, que leve as massas a obedecerem às normas da vida civilizada, sem que tenham de passar mais uma vez pelo estado de barbárie. Incerteza, insegurança e desproteção - depois da queda do Muro de Berlim, e a seguir a queda das Torres Gémeas em Nova Iorque - passaram a ser, de longe, o pior mal da civilização atual. O pêndulo dos valores volta a mover-se em sentido contrário, de forma muito acelerada.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Terra Santa


Podíamos dizer Palestina como se diz hoje, mas em 163 a.C. esse nome referia-se a uma pequena faixa junto ao Mediterrâneo que pouco mais era do que é hoje a faixa de Gaza. Portanto, Palestina, nem sequer é mencionada no Novo Testamento. Deriva da palavra grega 'Philistia'  que os gregos usavam para se referirem a uma região próxima da Judeia. Com o tempo, Philistia passou a ser Palestina, para designar toda a região de Canaã. Esta região vai das montanhas da Síria, a Norte, até às estepes do deserto do Negueve a Sul. E na sua largura vai do Mediterrâneo até ao deserto da Arábia. O mapa da região dessa época que é apresentado aqui, corresponde aproximadamente ao primeiro século com a configuração geopolítica dada pelo Império Romano. 
Precisamos entender todo o processo histórico, dentro da configuração territorial romana para chegarmos à Palestina do primeiro século da presente era. 




Depois de Alexandre Magno este território ficou incluída na região Mesopotâmica/Ásia Central, sob o governo dos Selêucidas que governavam a Síria. O Egito ficou sob a alçada dos Ptolemeus. Assim, o território onde é hoje a Palestina ficou num espaço disputado entre os Ptolemeus e os Selêucidas. Sabemos que a dinastia Selêucida na Síria foi de várias formas mais agressiva que a dos Ptolemeus. Em certas épocas sob Antíoco III (223-187 a. C.), o seu reino abarcou a Arménia, a Pártia, e um pouco da Índia. Já a dinastia dos Ptolemeus era mais tolerante com a vida cultural e religiosa, em especial com os Judeus.

Os Selêucidas trouxeram grande desconforto para a Palestina, sobretudo a partir do governo de Antíoco Epifânio, que invadiu Jerusalém, 143 anos depois de Seleuco e seus sucessores ter começado a reinar na Síria. Nesse período, muitos judeus incorporaram a cultura helénica às suas práticas religiosas e sociais, especialmente entre a “nobreza alta de Jerusalém”. Entre 175 e 163 a. C., estes judeus helenizados, cujos interesses eram prejudicados pelas regulamentações detalhadas da Torah, romperam com as instituições tradicionais. Encorajados por Antíoco, fundaram em Jerusalém uma polis no estilo grego, que completaram com um ginásio e um conselho dominado pelos nobres não sacerdotais da família de Tobias. Este desiderato alcançou o seu clímax em 167 a. C., quando Antíoco demoliu as muralhas da cidade de Jerusalém e construiu uma nova fortaleza - Acra - para a guarnição síria. Inclusivamente estabeleceu-se no próprio Templo um culto dedicado ao deus grego - Zeus, e Antíoco publicou um decreto proibindo a prática da religião judaica na Judeia. Os tradicionalistas responderam com revolta armada. Sob a liderança de uma família de ricos sacerdotes rurais - os Macabeus - fizeram guerra aos Selêucidas que durou vinte anos. Em 164 a. C., Judas Macabeus abateu o culto de Zeus, que viera a ser conhecido por ‘abominação da desolação’. Ficou assim restabelecido o culto tradicional dos judeus, evento que ainda hoje se celebra no feriado da Hannukah.

Esse momento da história ganha contornos marcantes com a aproximação aos Romanos por iniciativa dos Macabeus. Com a vitória dos Hasmoneus, Judas Macabeu é nomeado sumo sacerdote. Os Romanos, que tinham grande interesse na região, até porque significava o livre acesso ao Egito, e com esse horizonte em mente, estabeleceram o primeiro tratado com a dinastia dos Macabeus. O tratado era amplamente favorável aos Macabeus e oferecia a segurança que precisavam no ambiente hostil da dinastia dos Selêucidas. O ano de 142 a.C. marca o início da independência da Judeia. Com o estabelecimento da família dos Macabeus, é definida uma dinastia vitalícia na Judeia, os Hasmoneus, que vai permanecer até ao ano 63 a.C. 
Com o apoio de Roma, os Hasmoneus vão ampliar continuamente o território, anexando a Idumeia (região dos árabes), cidades no litoral do Mediterrâneo, e a região de Decápolis (cidades de cultura helenizada). A geopolítica hasmoneia era baseada especialmente na imposição do Judaísmo e na remoção da cultura grega, abolindo as instituições típicas como o ginásio e os templos pagãos. Os traços de corrupção e degeneração foram-se evidenciando na dinastia hasmoneia, até que em 63 a.C. o general Pompeu entrou em Jerusalém, sitiou e conquistou a área do Templo, provocando um banho de sangue. Entrou e profanou o Santo dos Santos, assumindo a Judeia como Estado vassalo de Roma, sob a fraca autoridade do sumo sacerdote Hircano II, do qual tirou o título de rei.

A anexação da Idumeia e a ligação da família Herodes à família dos Hasmoneus viabilizaram a introdução dos Herodes no governo da região. Os Herodes possuíam boas relações com os Romanos, devido aos serviços militares prestados pelos Herodes quando Jerusalém foi invadida pelos Partos, sendo reassumida posteriormente por Herodes, apoiado pelo governador da Síria. Dessa forma, a família Herodes conseguiu os auspícios dos Romanos em 43 a. C, sendo Herodes declarado como rei de uma Judeia que abarcava Galileia, Pereia e Samaria. Num futuro próximo, Herodes vai exercer o controlo de numerosas cidades gregas da costa do Mediterrâneo, e vai distribuir a população da Judeia, reduzindo o excesso de população no território judaico original. 

Quando foi conquistada por Pompeu, as terras dos judeus não se tornaram, imediatamente, uma unidade administrativa do Império Romano, guardando uma certa autonomia, ainda que governada por monarcas politicamente subordinados a Roma, um dos quais foi Herodes, que reinou de 37 a.C. a 4 a.C. Uma grande parte da opinião pública (entre os judeus) estava contra Herodes, por ser idumeu, praticamente incircunciso, um filho de Esaú. Este período de Herodes, podemos dizer que a vida política se apresentou sempre conturbada e à beira de levantamentos e conspirações, sempre abafadas de forma violenta pelo mesmo Herodes.

Após a morte de Herodes, o território foi dividido em três principados entre os seus filhos: Arquelau, Herodes Antipas e FilipeA partir de 6 d.C., tornou-se uma província romana sob jurisdição parcial do governador da Síria. A administração do território foi entregue a governadores romanos da ordem equestre, chamados 'prefeitos'. Mais tarde, foram também chamados 'procuradores'. Arquelau foi chamado a Roma e partiu para o exílio. Idumeia, Judeia e Samaria foram entregues a Arquelau Herodes; Antipas Herodes ficou com a Galileia e Filipe ficou com a região de Basã. Entretanto, Arquelau não conseguiu suportar as pressões e os conflitos na região da Judeia, sendo substituído por Procuradores Romanos. Dessa maneira, as regiões da Galileia e Judeia eram governadas por dois atores principais: Na Judeia e Samaria, um oficial romano; na Galileia, Herodes Antipas. 
Grande admirador da cultura greco-romana, Herodes lançou um audacioso programa de construções, que incluía as cidades de Cesareia e Sebástia e as fortalezas em Heródio e Massada.

Quando Roma assumiu o controlo direto da Judeia, um fariseu rabino conhecido como Judas da Galileia tinha criado um grupo revolucionário altamente militante, os Zelotas. Não eram, estritamente falando, uma seita como eram os Fariseus e os Essénios. Eram um movimento, com filiados de várias seitas.




À medida que aumentava a opressão romana sobre os judeus, crescia a insatisfação, que se manifestava por revoltas esporádicas, até que rompeu uma revolta total, em 66 d.C. 
Por volta de 44 d.C., as atividades tinham-se intensificado de tal modo que algum tipo de luta armada já parecia inevitável. Mas foi em 66 d.C. que a luta irrompeu. Toda a Judeia se levantou em revolta organizada contra Roma. Foi um conflito desesperado, tenaz, mas inútil. Vinte mil judeus foram massacrados pelos romanos só em Cesareia. Em quatro anos as legiões romanas ocuparam Jerusalém, arrasando a cidade, saqueando e destruindo o Templo. Entretanto, a fortaleza montanhosa de Massada resistiu por mais três anos, comandada por um descendente de Judas da GalileiaAs legiões romanas lideradas pelo general Tito, superiores em número e armamento, conquistaram a Judeia e arrasaram a cidade de Jerusalém e o Templo, corria o ano 70 da nossa era. 

No entanto, a resistência em Massada, só havia sido exterminada em 73. Apenas por um breve período em 132 a soberania judaica se fez sentir a seguir a uma revolta liderada por Simão Barcoquebas. Mas logo a seguir, no tempo de Adriano, Jerusalém e a Judeia foram reconquistadas. Adriano decidiu mudar os nomes, passando a Judeia a ser Palestina, e Jerusalém passou a ser chamada Élia Capitolina. Grande parte da população foi massacrada e os sobreviventes tiveram então que partir definitivamente, que veio a ser conhecida por diáspora.

Foi neste enquadramento que os Evangelhos surgiram, uma realidade de opressão, descontentamento cívico e social, ansiedade política, perseguições incessantes e rebeliões intermitentes. Em relação à liberdade política, tais aspirações foram brutalmente extintas pela guerra devastadora que ocorreu entre 66-74. Contudo, quando transpostas para a forma religiosa, o cenário entra numa outra dimensão. Realmente, a revolta de 66 foi instigada em grande parte pela agitação e propaganda feita pelos Zelotas em nome de um Messias cujo advento seria iminente. O termo Messias, então, não significava divino. Estritamente definido, significava simplesmente um rei abençoado; e, na mentalidade popular, veio a significar um rei abençoado que seria também um libertador. Em outras palavras, era um termo de conotação especificamente política, algo bem diferente da ideia cristã posterior de um "filho de Deus". Este termo, essencialmente mundano, foi usado para Jesus, chamado "Jesus, o Messias" ou - traduzido para o grego "Jesus, o Cristo". Só mais tarde é que esta designação se contraiu para "Jesus Cristo", e um título puramente funcional se distorceu em um nome próprio.

A região da Galileia era, presumivelmente, o lar de Jesus durante pelo menos 30 anos de sua vida. Os três primeiros Evangelhos do Novo Testamento são principalmente um relato do ministério público de Jesus na província, particularmente nas cidades de Nazaré e Cafarnaum. A Galileia é também citada como o lugar onde Jesus curou um homem cego.

Ao adotar o Cristianismo como religião oficial do império, Roma dispensou especial proteção ao território que a partir de então começou a ser chamado de "Terra Santa". A cidade de Jerusalém voltou a florescer e transformou-se num importante centro de peregrinação, ao qual afluíam peregrinos de todas as regiões do império. Construíram-se basílicas notáveis e a cidade foi embelezada pelos imperadores bizantinos. Após a divisão do Império - em Romano do Ocidente e Romano do Oriente, a Palestina ficou sob jurisdição de Bizâncio (Constantinopla). Em 611 dá-se a invasão dos Sassânidas, que ao fim de três anos acabaram por conquistar Jerusalém. Todos os templos foram destruídos. O imperador bizantino Heráclio, em 628, voltou a recuperar a Terra Santa.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A entronização e a crença cega na técnica



Hoje volto a lembrar-me do que já lá vão quase trinta anos quando cruzei Karl Popper com Sigmund Freud e a sua psicanálise, uma pseudociência pelos critérios de ciência de Popper. Longe de buscar o seu fundamento em algum resquício atávico ou primitivo do instinto animal, Freud achou que a pulsão de morte deve ser reconhecida como elemento que, além de não contradizer a função do logos, faz parte do próprio núcleo desse logos. A pulsão de morte é um dos conceitos centrais da teoria psicanalítica. Desconhecê-la implica retirar uma parte substancial da subjetividade de qualquer ponto de vista que pretenda uma aproximação do real humano, tanto no plano individual como no coletivo.

O pensamento de Freud poderá ser caracterizado por um ceticismo alerta e crítico diante de alguns dos valores máximos do Iluminismo: a crença na soberania da razão, a fé no progresso e a veneração incondicional pelo saber científico. Evidentemente isso não quer dizer que Freud não seja tributário da razão iluminista, mas cujos pontos chave da sua investigação assenta nos sintomas do logos, abrindo caminho ao impensado do saber, além de mostrar os devastadores efeitos produzidos pelo retorno daquela parte da verdade que o paradigma técnico/científico ataca, ou simplesmente prefere desconhecer. A dialética entre Eros e Tanatos designa o facto de que a condição humana é atravessada pelo paradoxo de reinarem nela os desejos que promovem a vida, mas também a destruição. As pulsões de vida e de morte se enlaçam, constituindo uma estrutura intrincada, isto é, uma estrutura na qual os representantes de Eros (o amor e o desejo) devem estabelecer barreiras e limites à tendência letal da pulsão de morte.

Uma pessoa com 80 anos tem aproximadamente 1000 vezes mais risco de falecer, se for infetada pelo SARS-CoV-2, do que uma pessoa de 20 anos. Graças ao progresso tecnológico e à melhoria dos cuidados de saúde, a esperança de vida dos europeus tem vindo a aumentar consideravelmente desde o século XIX. Se a esperança de vida de hoje fosse a mesma da última década do século XIX, a mortalidade da Covid-19 seria negligenciável. Mas, de acordo com uma equipa de cientistas norte-americanos, este indicador estagnou por volta da década de 1990. Desde aí que a idade da pessoa mais velha do mundo não aumenta. A equipa de especialistas do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova Iorque (EUA), usou bases de dados demográficos para concluir que o limite máximo da longevidade da nossa espécie foi atingido e fixa-se à volta dos 115 anos, ainda que o recorde até à data conseguido esteja nos 122 anos atingido por uma mulher francesa - Jeanne Louise Calment - falecida em 4 de agosto de 1997.

Há experiências em modelos animais que já mostraram que a alteração de fatores associados ao ambiente e à genética pode “alterar substancialmente a duração de vida”. Mas mais importante do que vivermos muito tempo, será sermos capazes de viver muito tempo com qualidade de vida. Ou seja, aumentar a longevidade travando o envelhecimento. E é isso que um frenético grupo de cientistas está a tentar obter.

A evolução exponencial da mortalidade com a idade, foi constatada e proposta em 1825 por Benjamin Gompertz, que propôs uma nova metodologia para o cálculo da variação do risco de morte com a idade. Foi feita com base em informações puramente estatísticas, sem consideração das causas específicas ou dos mecanismos que tinham causado as mortes. Porém, numerosos trabalhos posteriores vieram a demonstrar que a probabilidade de morte por muitas causas específicas (mas não todas) evolui de uma forma adequadamente modelada pela Lei de Gompertz, com um fator que varia com a doença específica e com características da sociedade, assim como o sistema de saúde e o nível de desenvolvimento económico do país.

As pessoas precisam de treinar o instinto que une os pontos mais profundos do mundo para melhor o compreenderem. Neste tempo de inteligência virtual cada vez mais nebulosa, os computadores às vezes não sabem distinguir o lixo do bom senso. Uma coisa é a ciência. Outra coisa são os cientistas. A ciência em si avança sempre, e amanhã estará um passo mais à frente do que estava ontem. Mas os cientistas são apanhados no caminho das perplexidades. E uma boa parte deles não gosta de ser apanhada. E é assim que começa o baralhamento. Sim, é muito frequente os cientistas mais arrogantes serem os que mais se baralham. Depois da licenciatura vem o mestrado. Depois do mestrado vem o doutoramento. E ao fim de cinco anos e uma sucessão de publicações vêm os convites e os prémios. E se o desempenho for bom fica praticamente garantida uma cátedra prestigiada. Este é um tipo de cientista. Não são todos iguais. A maior parte dos cientistas fica obcecada pelas certezas quando está a fazer experiências na tentativa de encontrar uma solução para um problema. E isso tolda as decisões. A investigação é mais produtiva quando o cientista se sente mais confortável com a incerteza.

Voltando à longevidade, que não tem nada a ver com o direito à vida, podemos transferir aquele raciocínio, aplicado à ciência, para as nossas escolhas ao longo da vida. E as pessoas pensam que morrer é a pior coisa para a vida de uma pessoa. Mas não pode ser, na medida em que é a única certeza que nós temos, ninguém escapa, mais tarde ou mais cedo, à morte. Em contrapartida, certas vicissitudes e sofrimentos podem acontecer ou não. Estas coisas são do domínio da incerteza, a que as pessoas chamam sorte ou azar. E nesse caso as nossas escolhas, que estão sob a tutela da estatística, não podem ser tomadas sem um grau de risco, porque é isso que a incerteza nos oferece. Temos sempre que arriscar sob os auspícios do otimismo da vontade na ação. Retomo aqui a frase de Romain Rolland, que depois Gramsci também a utilizou: “devemos ser pessimistas pela inteligência; e otimistas pela vontade”.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Deus morreu e deixou os anjos à mercê do capitalismo da estética hedonista




Bárbara Reis foi dar uma vista de olhos a um novo projeto digital de investigação jornalística – Setenta e Quatro. Mas não gosta das irritantes manias deste 'politicamente correto' com frases como: “às leitoras e aos leitores” e o facto de nos tratarem por “tu” (“se tens informação”, “podes saber”, “fala conosco”, “podes contactar-nos”, “podes ler”...).

O trabalho do Setenta e Quatro inclui uma entrevista a Miguel Salazar - “Aceitei submeter-me a uma prática de conversão por medo dos meus pais”. E a carta que escreveu à Assembleia de Deus a anunciar o corte com a Igreja. Sair do armário teve o resultado previsível: “Vais para o inferno”, “isso é pecado”, “estás no lixo”, “isso é contranatura”, “estás possesso por espíritos demoníacos”, “isso é doença”, “nem os animais fazem isso”, “podias ter esperado que eu morresse para assumires”, “Deus está contra ti”. Houve isso e também houve cenas de estalos. Na entrevista, Miguel Salazar descreve com pormenor as discussões violentas que teve com os pais por ser gay.

Logo na primeira aula de jornalismo a primeira lição a reter é que não é de esperar respostas cogentes se as perguntas não tiverem pés e cabeça. Ou seja, o esclarecimento de qualquer coisa, depende mais da pergunta do que da resposta. Como dizia Kant inspirado em Hume: "é preciso acordar do sonho dogmático". A uma pergunta feita a Putin, se ia invadir a Ucrânia, a jornalista recebeu como resposta: "A pergunta é uma provocação". Numa pergunta a Biden como é que ele respondia ao facto de não aparecerem pessoas para trabalhar numa obra após anúncio, Biden respondeu com outra pergunta: "E já experimentaram pagar-lhes mais?"

O mestre é aquele que sabe manter vivo o espírito socrático da pergunta, e seu ensinamento consiste em nos dar a melhor prova de que o que importa é aprendermos a única lição magistral que nos põe no caminho de um saber verdadeiro, e que consiste em nos darmos conta de que nenhuma palavra pode dizer toda a verdade, como do porquê deste mundo, e o que viemos cá fazer.

Nesta hipermodernidade de lixeira (poluição da Terra, Mar e Ar), e anacronismos, não há empatia para um olhar lúcido sobre o movimento do mundo. Como abrigar o sofrimento dos condenados do sistema, devolver a dignidade aos marginais do discurso politicamente correto? Dos rejeitados de um sistema cuja engenharia social se baseia no álibi do progresso universal. Tenhamos consciência disso ou não, é urgente a aproximação a uma posição mais ética. É preciso dar a palavra ao sujeito verdadeiro, sequestrado pelo silêncio ao qual o paradigma técnico-científico o condena sem muitas considerações.

Os aspetos devastadores da economia liberal impõem-se com tanta evidência que não se pode pô-los em dúvida. Mesmo assim existem realidades mais amenas que convidam a reconsiderar o que ocorre na cena do capitalismo de consumo superdesenvolvido. Devemos, contudo, dirigir o nosso foco para uma ordem económica cujo efeito seja menos devastador.

No decorrer da sua histórica evolução, já secular, as lógicas produtivas do sistema capitalista mudaram. Não estamos mais no tempo em que produção industrial e cultura remetiam a universos separados, radicalmente inconciliáveis; estamos no momento em que os sistemas de produção, de distribuição e de consumo são impregnados, penetrados, remodelados por operações de natureza fundamentalmente estética. O estilo, a beleza, a mobilização dos gostos e das sensibilidades são impostas cada vez mais como imperativos estratégicos das marcas. Este capitalismo de hiperconsumo, é o capitalismo da estética hedonista.

As indústrias de consumo, alavancadas pelo mundo mediático (o mundo do design, da moda, da publicidade), criaram necessidades com os seus próprios produtos em massa, carregados de sedução, afetos e sensibilidade. Assim se foi moldando um universo estético abundante e heterogéneo. Com a estetização da economia, vivemos num mundo marcado pela abundância de estilos, de imagens, de narrativas, de espetáculo, da cosmética à música.

O capitalismo engendra um mundo “inabitável” ou “o pior dos mundos possível”, embalado por uma economia estética que estetiza a vida quotidiana. Em toda a parte o real se constrói em virtual através da imagem. Foi dessa maneira que as gigantes tecnológicas que dão suporte às redes sociais, integrando nas suas plataformas uma dimensão estético-emocional que se tornou central na concorrência que as marcas travam entre si através da utilização dos próprios utilizadores para publicitarem os seus produtos. É o que Gilles Lipovetsky chama de "capitalismo artista ou criativo trans estético", que se caracteriza pelo peso crescente dos mercados da sensibilidade e do “design process”, por um trabalho sistemático de estilização dos bens e dos lugares mercantis, de integração generalizada da arte, do “look” e do afeto no universo consumista. Portanto, uma paisagem económica mundial caótica, e ao mesmo tempo estilizada.

Assim, o desenvolvimento do capitalismo financeiro contemporâneo associou-se ao mundo da Arte para se potenciar. Não se deve entender com isso que seja um capitalismo menos cínico ou menos agressivo quanto ao lucro e à conquista dos mercados. O que daí decorre é que estamos num novo ciclo marcado por uma relativa indiferenciação das esferas económica e estética, pela desregulamentação das distinções entre o económico e o estético, a indústria e o estilo, a moda e a arte, o divertimento e o cultural, o comercial e o criativo, a cultura de massa e a alta cultura. Doravante, nas economias da hipermodernidade, essas esferas se hibridizam, se misturam, se interpenetram. Uma lógica de indiferenciação que é menos pós-moderna do que hipermoderna, a tal ponto se inscreve na dinâmica de fundo das economias modernas que se caracterizam pela otimização dos resultados e pelo cálculo sistemático dos custos e benefícios.

A profusão da estética hipermoderna é filha das “águas frias do cálculo egoísta”, como disse Karl Marx. É a cultura moderna da racionalidade instrumental. E da eficiência económica do "Crescimento? Sempre!" . E contínuo. A dominação da racionalidade produtiva e mercantil não elimina de modo algum o avanço das lógicas sensíveis e intuitivas, qualitativas e estéticas. E, simultaneamente, a uniformidade planetária do “calcular tudo” não deve ocultar a excrescência das criações de intuito emocional. A lei homogénea do economicismo, e da produtividade do mundo do trabalho, é o que leva a uma estetização sem limites e ao mesmo tempo pluralista, privada de unidade e de critérios consensuais.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Uma questão de ressentimento








O estudo filosófico do ressentimento remonta a Nietzsche. Nietzsche, no seu pensamento mais forte, fala da tendência que resulta da sua própria condição contrária. O ressentido não elimina, mas acomoda, como se tratasse de um amortecedor. A essência do ressentimento reside na pulsão de eliminação fundada na culpabilidade. Mas na verdade não é de culpabilidade que se trata, mas sim de defeito. 

Este é o jargão nietzschiano: “O ressentimento é a face niilista de um combate que é preciso empreender no devir, com ele, mas para o transformar em futuro”. Dito por outras palavras: não é boa ideia combater o “ressentimento”, porque ao combatê-lo está-se a ser tão ressentido quanto o que se quer combater. Ou seja, o combate ao ressentimento vai gerar mais ressentimento de ambos os lados. A intelectualidade académica, a certa altura, quando numa aula algum professor pertencente a essa intelectualidade dizia apenas 'o ressentido', e não 'a ressentida', fazia questão de ressalvar que se tratava de qualificar o ente ou o sujeito. Se fosse 'sujeita ressentida', ou 'enta ressentida', para além de erro gramatical, era um oximoro, portanto, a palavra “sujeita” veiculava uma conotação pejorativa na psicologia popular do senso comum.

O ressentimento pode resultar de uma variedade de situações que envolvem uma transgressão percebida de um indivíduo, que muitas vezes é desencadeada por expressões de injustiça ou humilhação. Fontes comuns de ressentimento incluem incidentes que humilham publicamente, como aceitar tratamento negativo sem expressar qualquer protesto; sentir-se objeto de discriminação ou preconceito. Sentir-se usado ou aproveitado por outros; e ter conquistas não reconhecidas, enquanto outros têm sucesso sem mérito. O ressentimento também pode ser gerado por interações diádicas, como rejeição emocional ou negação por outra pessoa, constrangimento deliberado ou depreciação por outra pessoa, ou ignorância, rebaixamento ou desprezo por outra pessoa.

O ressentimento também pode ser fabricado e desenvolvido para ser mantido. Focando nas queixas passadas (isto é, memórias perturbadoras de experiências dolorosas) continuamente, ou tentando justificar a emoção (isto é, com pensamentos/sentimentos adicionais). Assim, o ressentimento pode ocorrer como resultado do processo de luto, e pode ser sustentado pela ruminação obsessiva.

O ressentimento acabou por entrar na política como uma forma de protesto. O ressentimento como forma de protesto de uma ação passada, que persiste como uma ameaça presente. É o caso do ressentimento contra o racismo pós-colonial. Isso representa uma ameaça e como tal é desafiada ao se ressentir como forma de protesto. O ressentimento afirma o que os opressores negaram e negam, perpetuando a condição da vítima de racismo. O ressentimento está focado na situação ou evento prejudicial do passado e não nas pessoas do aqui e agora. 

O ressentimento, quando não é saudável, pode vir na forma de raiva hostil com um motivo de retaliação. O
 ónus tem de continuar a recair sobre a civilização ocidental ou europeia. E é a isso que João Miguel Tavares se refere quando diz que são os próprios europeus, sobretudo nas instituições e meios académicos, a serem mais papistas que o papa, "desejosos de se mostrarem condescendentes e progressistas". A partir de 1970 meteu-se na cabeça dos académicos, sobretudo franceses, que o chamado processo de 'racialização', não era um fenómeno universal, mas sim criado no que também chamavam 'mundo ocidental'. O termo 'racialização' surgiu na década de sessenta do século XX para exprimir o processo social, político e religioso a partir do qual certas camadas da população de etnia diferente eram identificadas em relação à maioria da população, tendo em conta que esta identificação estava diretamente associada ao seu aspeto, características fenotípicas ou à sua cultura étnica, normalmente associada a preconceitos relativamente à diferença.

Convém distinguir os conceitos de 'racismo' e de 'racialização'. Por exemplo, no caso das vítimas de racismo, estas ao sofrerem de um processo de 'racialização' estabelecem, nesse processo com as pessoas que as vitimizaram, uma relação que as distingue como raça. Mas esta distinção, de um modo geral, não tem qualquer conteúdo racista. É um processo que se desenvolve sem conteúdo ideológico, mas resultante da vivência quotidiana.

Em sociologia, 'racialização' ou 'etnização' é o processo de atribuir identidades raciais ou étnicas no relacionamento com um grupo, o qual não se identificou como tal. É um processo de significação resultante de relações socias, sem conteúdo biológico. As categorias raciais têm sido historicamente usadas como uma maneira de permitir que uma figura ou grupo opressivo discrimine outros grupos ou indivíduos que eram vistos como diferentes dos opressores. A racialização é um processo longo, e os membros de cada grupo são categorizados com base em suas diferenças percebidas em relação àquelas que são consideradas elite dentro de uma sociedade.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Abstração seletiva




Muito do que está a ser noticiado na Comunicação Social em relação à pandemia – vacinação obrigatória, apartheids nas viagens entre países e as suas implicações legais e constitucionais – está a intrigar alguns cientistas do cérebro humano. O que se está a passar no cérebro das pessoas, não apenas dos decisores políticos, mas também de toda a gama de pessoas que fazem parte das elites mediáticas?

As pessoas parece que estão cada vez mais imersas naquilo a que os neurocientistas chamam abstração seletiva ou "túnel cognitivo". A tendência é para realçar apenas um aspeto, normalmente negativo, de toda uma pandemia que carrega consigo e implica situações tão complexas. São retóricas globais que universalizaram certos conceitos, que, genuína ou oportunisticamente, todos parecem subscrever.

Esta designação tem a ver com uma falha mental quando o nosso cérebro é obrigado a transitar abruptamente de um registo em que era suposto dominar o mundo com toda a tranquilidade, para um registo em que a atenção ficou bloqueada sob estado de pânico provocado pela pandemia. Este conceito de “túnel cognitivo” é muito parecido com um outro conceito da psicologia conhecido por “distorção cognitiva”, ou seja, será a versão da neurociência sob o ponto de vista estrito do cérebro.

Sobreveio uma pandemia, e de uma forma abrupta foi preciso aumentar o foco mental sobre os perigos. Mas não se sabe onde deve ser concentrado todo o esforço de combate, ou de ação. Por isso, o cérebro entregue apenas ao seu instinto, tenta concentrar-se em tudo o que estiver à frente, como se a espécie tivesse regressado de novo à selva. É aí que ocorre o túnel cognitivo.

Deixamo-nos prender pelo estímulo mais fácil e mais óbvio, muitas vezes distante do mais elementar bom senso. E é então que surge o chamado raciocínio reativo. Em certo sentido o raciocínio reativo tende a alienar as decisões à pressão de fatores externos. Uma vez alienada a nossa responsabilidade, limitamo-nos a reagir. Neste caso, os fatores externos são tudo o que tem a ver com as grandes aquisições da tecnologia que tudo vence. Só que a dada altura a tecnologia já não se aplica a algo inesperado e desconhecido. E é então que a única coisa que nos ocorre fazer é travar a fundo na força de vontade. Mas a travagem a fundo está contraindicada, porque o que daí resulta é uma derrapagem descontrolada. Em vez de nos motivarmos com a força de vontade, ao invés, apenas reagimos. Mas se a reação não for adequada as consequências podem ser desastrosas.

Muitas distorções cognitivas que também são consideradas falácias lógicas, são pensamentos exagerados e irracionais, cuja reestruturação cognitiva é objeto de psicoterapia cognitivo-
-comportamental. É uma maneira de pensamento do tudo ou nada, do “não há alternativa”. Tal leva a generalizações abusivas, e a conclusões precipitadas. Surge uma incapacidade de prever outra coisa senão o pior resultado imaginável, porém improvável, ou sendo considerada uma situação como insuportável ou impossível de conceber. A reestruturação cognitiva envolve quatro etapas - Identificação das cognições problemáticos: os chamados "pensamentos automáticos”; disputa racional pelo método socrático e desenvolvimento de uma refutação racional.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Recortes sobre a alegada insensatez da Comissária da UE para a Igualdade




Usar o termo “festividades” em vez de “Natal”, evitar o uso de palavras como “chairman” e perguntar os pronomes antes de falar com alguém. Estas eram algumas das diretrizes propostas pela comissária para a Igualdade, Helena Dalli, de maneira a garantir uma comunicação mais “inclusiva” no seio da União Europeia. Contudo, após várias críticas, a maltesa decidiu voltar atrás, admitindo que se tratava de uma ideia “que precisa de mais trabalho”.







O documento que continha as diretrizes nunca foi revelado ao público, mas o The Guardian soube que uma das propostas passava por abolir o termo “Natal”, usando-se, em vez disso, a palavra “festividades”. “Nem toda a gente celebra os feriados cristãos e nem todos os cristãos celebram-nos nas mesmas datas”, lia-se no texto.

Palavra “Homem” enquanto sinónimo de humanidade seriam evitadas. Recomendavam também que se perguntasse os pronomes antes de falar com alguém, utilizando depois aquele que fizesse cada um sentir-se mais à vontade. Seriam ainda de evitar termos como “gay”, “lésbica”, “transgénero” ou “intersexo”. “Deve dizer-se pessoa trans, pessoa gay, para se referir a uma pessoa em específico.”

O Vaticano reagiu dizendo, e passo a citar “Infelizmente, a tendência é para homogeneizar tudo, não se sabendo respeitar as devidas diferenças, que naturalmente não deviam tornar-se num conflito ou numa 
 fonte de discriminação”. As diretrizes eram um absurdo e negavam as raízes cristãs da União Europeia. O guia distribuído aos funcionários da Comissão Europeia recomendava a substituição de nomes cristãos, como Maria e José, por nomes mais “internacionais”, como Malika e Júlio, quando usados a título de exemplo em documentos oficiais. No guia que foi lançado em Outubro, apesar de a polémica só ter estalado agora, sugere-se ainda trocar o habitual “senhoras e senhores” por “caros colegas”, ou expressões como “o envio de homens para Marte” por “colonizar Marte” e de “tecidos feitos pelo homem” por “tecidos sintéticos”. Mas também indica que se devem evitar termos como “cidadão”, porque exclui os migrantes, e “homossexual”, porque é considerado um termo médico.

Helena Dalli é originária de Malta, onde foi ministra dos Assuntos Europeus e dos Assuntos Sociais. Em 1979, tornou-se conhecida no país como Miss Malta, mas fez carreira política como militante feminista e defensora dos direitos homossexuais e transgénero, tendo promovido a aprovação de várias leis neste âmbito.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

A “Armadilha de Tucídides”



A CHINA E OS ESTADOS UNIDOS RUMAM PARA UM NOVO CONFLITO...

A “Armadilha de Tucídides” é um termo que Alisson cunhou já há algum tempo. Graham Allison foi o fundador da Harvard Kennedy School of Government e é autor de um conjunto de obras de geopolítica que se tornaram de leitura obrigatória no mundo inteiro. Foi conselheiro dos secretários da Defesa americanos desde Reagan até Obama. Biden ouvia-o com frequência, quando era vice-Presidente de Obama.

A razão é a Armadilha de Tucídides, um padrão mortal de stress estrutural que ocorre quando um poder em ascensão desafia um governante. Este fenómeno é tão antigo quanto a própria história. Sobre a Guerra do Peloponeso que devastou a Grécia antiga, o historiador Tucídides explicou: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso instilou em Esparta que tornou a guerra inevitável”. Nos últimos 500 anos, essas condições ocorreram 16 vezes e houve guerra em 12 desses casos. Hoje, uma China imparável que se aproxima de uma América imóvel, parece anunciar o 17º caso. A menos que Xi Jinping esteja disposto a reduzir as suas ambições ou Washington aceite tornar-se o número dois no Pacífico. Um conflito comercial, um ataque cibernético ou um acidente no mar podem em breve transformar-se num novo conflito mundial. A Armadilha de Tucídides é a melhor lente para entender as relações EUA-China no século XXI. 

Os Estados Unidos têm de aprender com a História para evitar que o seu confronto com a China conduza a um conflito militar que teria proporções inimagináveis. 
No entanto, Graham Allison enfatiza que a guerra não é inevitável. Allison também revela como potências conflituosas mantiveram a paz no passado - e quais os passos dolorosos que os Estados Unidos e a China devem dar para evitar o desastre hoje.

Graham Allison tem uma grande reverência pelo grande historiador da Grécia Antiga e à sua obra monumental sobre a Guerra do Peloponeso, ainda hoje objecto de estudo nas academias. Tucídides descreve a guerra entre Esparta e Atenas no século V a.C. – as “potências” do mundo de então –, pretendendo demonstrar que uma guerra entre a potência dominante e a que desafiava o seu domínio, acabou por destruir ambas e levá-las ao declínio. Foi nesta “Armadilha de Tucídides” que caíram a maioria das grandes potências ao longo da História.

Allison começa, justamente, com Portugal versus Espanha (mais exatamente, os Reinos de Aragão e Castela), em finais do século XV – que não levou a um confronto aberto entre as duas potências, porque os Reis Católicos, que desafiavam o poderio marítimo português, apelaram à intermediação do Papa. O resultado foi o Tratado de Tordesilhas. No início do século XX, quando os Estados Unidos desafiaram a hegemonia do império britânico, a transição também se fez sem guerra, graças ao discernimento da diplomacia britânica e ao muito que havia em comum, cultural e politicamente, entre as duas grandes potências de então. O terceiro exemplo é o da Guerra Fria, que se prolongou desde os anos após a II Guerra até 1989. A capacidade de mútua destruição nuclear entre as duas superpotências impediu uma guerra, que mesmo assim esteve à beira de acontecer por duas vezes.

«Ah, se ao menos nós soubéssemos!» Foi o máximo que o então chanceler alemão teve para dizer. Mesmo quando pressionado por um colega, Theobald von Bethmann Hollweg não conseguiu explicar como é que as suas decisões e as de outros estadistas europeus tinham levado à guerra mais devastadora que o mundo conhecera até então. Quando, finalmente, a carnificina da I Guerra Mundial terminou em 1918, os principais intervenientes tinham perdido tudo aquilo por que haviam lutado: o Império Austro‑Húngaro dissolveu‑se, o kaiser alemão abdicou, o czar russo foi destituído, a França sofreu os efeitos da guerra durante uma geração, e a Inglaterra foi despojada do seu tesouro e da sua juventude. E para quê? Se, ao menos, soubéssemos. […] Na citação mais frequentemente repetida no estudo das relações internacionais, o historiador da Grécia antiga Tucídides explicou que «Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu a Esparta que tornaram a guerra inevitável.» Tucídides referia‑se à Guerra do Peloponeso, um conflito que devastou a sua pátria, a cidade‑estado de Atenas, no século V a.C. e que, com o tempo, fez desaparecer quase por completo toda a Grécia Antiga. Tucídides, outrora soldado, viu Atenas desafiar a potência grega dominante na altura, a cidade‑estado marcial de Esparta. Assistiu ao eclodir das hostilidades armadas entre as duas potências e descreveu detalhadamente os resultados horríveis dos combates em número de vítimas. Não viveu anos suficientes para assistir ao fim triste da guerra, quando Esparta, ainda que enfraquecida, venceu Atenas, mas, para ele, foi melhor assim. Enquanto outros identificaram um vasto leque de causas que contribuíram para a Guerra do Peloponeso, Tucídides foi ao cerne da questão. Quando chamou a atenção para «a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu a Esparta», identificou a principal razão que está na génese de algumas das guerras mais catastróficas e enigmáticas da história. Pondo de parte as intenções, quando uma potência em ascensão ameaça ocupar o lugar de uma potência dominante, a tensão estrutural que daí resulta leva a que um confronto violento seja a regra e não a excepção. Foi o que aconteceu entre Atenas e Esparta no século V a.C. e entre a Alemanha e a Grã‑Bretanha há um século, e o que quase originou uma guerra entre a União Soviética e os Estados Unidos nas décadas de 1950 e 1960. Como em muitos outros casos, Atenas acreditou que o seu avanço seria benéfico. Durante a metade de século que precedeu o conflito, Atenas tinha emergido como um símbolo de civilização. Filosofia, teatro, arquitetura, democracia, história e mestria naval — Atenas tinha tudo isso, ultrapassando tudo o que se vira até então. O seu rápido desenvolvimento começou a ameaçar Esparta, que se tinha habituado à sua posição de potência dominante no Peloponeso. À medida que a confiança e o orgulho dos Atenienses iam aumentando, também se iam reforçando as suas exigências de respeito e as suas expectativas de que fossem tomadas providências que refletissem as novas realidades do poder. Segundo Tucídides, eram reações naturais à mudança da sua posição. Como podiam os Atenienses não pensar e não esperar que os seus interesses merecessem mais consideração? Como podiam os Atenienses não esperar ter uma maior influência na resolução das diferenças?»




Tucídides começa o seu livro pela história dos gregos da Ática e do Peloponeso

Antes da História, não havia, com efeito, movimento comercial e os povos não se aproximavam uns dos outros sem medo, seja por terra, seja por mar; cada povo arava a sua própria terra apenas o bastante para obter dela os meios de sobrevivência, não tendo recursos excedentes e não plantando para o futuro, pois a perspectiva de saque por algum invasor, especialmente por não haver ainda muralhas, gerava incerteza. Assim, acreditando que poderiam obter em qualquer parte o sustento para as suas necessidades diárias, os povos achavam fácil mudar de paragem e por isto não eram fortes, quer quanto ao tamanho de suas cidades, quer quanto a recursos em geral. E sempre as melhores terras eram mais sujeitas a tais mudanças de habitantes. Os recursos mais consideráveis que se acumularam em algumas regiões em decorrência da fertilidade de suas terras ocasionaram divergências internas que as arruinaram, e ao mesmo tempo as tornaram mais expostas à cobiça de tribos que lhes eram estranhas, mais tarde chamadas de 'bárbaras'.

A Ática esteve livre de disputas locais, graças à aridez de seu solo, e, portanto, foi habitada sempre pela mesma gente desde épocas remotas. Os homens mais influentes de outras regiões da Hélade, quando expulsos de suas cidades em decorrência de guerra ou sedição, refugiavam-se em Atenas, comunidade firmemente estabelecida, e, adotando a cidadania ateniense, que desde os tempos mais recuados fizeram a cidade cada vez maior em termos de habitantes. Tanto foi assim que a Ática se tornou insuficiente para abrigá-los e, portanto, muitos tiveram eventualmente de emigrar.

Antes da Guerra de Troia, a Hélade presumivelmente não existia como qualquer entidade conjunta. Antes da época em que viveu Hélen, filho de Deucalião, as diversas tribos, principalmente a pelásgica, davam os seus próprios nomes às várias regiões; quando, porém, Hélen e seus filhos se tornaram poderosos na Ftiótide e foram chamados a ajudar outras cidades, aqueles povos daí em diante passaram mais frequentemente a ser chamados 'Helenos', por causa de suas ligações, embora muito tempo tenha passado antes de a designação prevalecer para todos eles. A melhor evidência disto é Homero. Com efeito, apesar de ter vivido muito tempo depois da Guerra de Troia, ele em parte alguma de suas obras usa tal denominação para todos, ou mesmo para qualquer deles, exceto para os comandados de Aquiles da Ftiótide, que foram de facto os primeiros Helenos. Homero nos seus dois grandes poemas, chama os demais de Danaos, Argivos e Aqueus.

Na realidade, mesmo após a guerra de Troia a Hélade ainda enfrentava problemas de migrações e fixação. Não foi só o retorno dos Helenos de Troia, tão demorado, a causa de muitas mudanças. Também começaram a surgir dissidências generalizadas nas cidades e, consequentemente, habitantes de muitas delas, exilados ou emigrados, fundaram novas cidades. Os expulsos de Arne pelos Tessálios, sessenta anos após a captura de Ílion, fixaram-se na região chamada Beócia, anteriormente chamada Cadmies. Somente um pequeno número deles habitava aquela terra antes, e de lá saíram os poucos participantes na expedição contra Ílion. Por outro lado, também os Dórios, haviam ocupado o Peloponeso oitenta anos após a Guerra de Troia, juntamente com os Heráclides. Dessa forma, quando penosamente e após um longo lapso de tempo a Hélade se tornou politicamente estável, e a sua população já não sujeita à expulsão de suas terras, começaram a ser fundadas colónias. Os Atenienses colonizaram a Jónia - a faixa ocidental da Anatólia junto ao Mar Egeu que abrangia a maior parte das suas ilhas. Os povos do Peloponeso, também chamados Lacedemónios, ocuparam a maior parte da Itália e da Sicília, assim como mais algumas regiões do resto da Hélade. Por conseguinte, Tucídides faz notar que todas estas colónias foram fundadas após a Guerra de Troia.



terça-feira, 30 de novembro de 2021

O mundo simbólico



O símbolo não é apenas um reflexo dos ritmos da vida e de fenómenos naturais, porque um símbolo revela sempre qualquer coisa mais do que os aspetos da vida e natureza. Símbolos e mitos não revelam os fenómenos naturais em si, mas a sua transcendência. O Sol é mais do que o sol. A Lua é mais do que a lua. Assim como a noite não é apenas o lado oposto do dia. Desde o início da humanidade que o símbolo aparece como uma criação da mente humana. Isto torna-se ainda mais evidente quando se recorda que a função de um símbolo é justamente a de revelar uma realidade inacessível aos outros meios de conhecimento. É o caso da coincidentia oppositorum, ou a unidade dos opostos. A coincidência dos opostos é tão abundantemente e tão simplesmente expressa pelos símbolos, à revelia da lógica do terceiro excluído que diz que uma coisa só pode ser: verdadeira ou falsa. Ora, a coincidência dos opostos está presente em todas as culturas do passado. E na atualidade, o 'binário' tem os dias contados. O Co
smos não é acessível à experiência imediata do Homem. Nem ao pensamento discursivo.

O pensamento simbólico precede a linguagem e a razão discursiva. O símbolo revela os aspetos mais profundos que desafiam qualquer outro meio de conhecimento. Imagenssímbolos e mitos - não são criações irresponsáveis da mente humana; respondem a uma necessidade, e preenchem uma função. Põem a nu as mais secretas modalidades do ser do homem primordial. Este homem primordial afirma-se sobretudo como um arquétipo impossível de realizar em qualquer existência humana. Esta é a parte não histórica do Ser que Platão nos apresentou em devido tempo. O diferendo que se estabeleceu entre Platão e Aristóteles com a sua lógica do terceiro excluído perdurou até aos dias de hoje, com uma radicalidade muito mais frequente do que se possa imaginar.

Curandeiros, xamãs, padres, heróis - ou os soberanos de mandato divino - são os mandatários do Sagrado para restabelecer as comunicações com o Céu. E isso por causa de uma enorme falta, queda (pecado) de um paraíso primordial perdido. Uma falta é extremamente importante. Os tais Padres da Igreja do século IV, os sucessores da Igreja primitiva, avaliaram o interesse da correspondência entre as imagens arquetípicas primordiais e as imagens propostas pelo Cristianismo. Um dos seus cuidados mais constantes foi precisamente o de manifestar aos gentios, aos pagãos, a correspondência entre: os grandes símbolos cristãos, imediatamente expressivos e persuasivos; e os arquétipos primordiais da mente humana. Eram os dogmas da nova religião, da Boa Nova. Aos que negavam a ressurreição dos mortos, Teófilo de Antioquia chamava-lhes a atenção para os sinais que Deus colocava à frente dos seus olhos através dos grandes fenómenos da natureza. Tanto servia o ciclo dos dias e das noites, como o ciclo das estações verão e inverno. Dizia ele: "Não há uma ressurreição para as sementes e para os frutos?" Para Clemente de Roma, o dia e a noite mostram-nos a ressurreição. A noite morre, o dia nasce; o dia acaba e chega a noite.

O espírito da sabedoria utiliza as imagens para apreender a realidade última das coisas. É justamente porque esta realidade se manifesta de uma maneira contraditória que não poderia ser expressa por conceitos. A imaginação é importante para a própria saúde do indivíduo, para o equilíbrio e riqueza da sua vida interior. O homem, na sua qualidade de ser histórico, concreto, autêntico, está 'em situação' (Dasein) como diria Heidegger em Ser e Tempo. A sua existência autêntica realiza-se na história, no tempo, no seu próprio tempo. Não é o tempo dos seus pais ou dos seus conterrâneos ou de outro continente.

Não é necessariamente para regredir ao estádio animal da humanidade, para tornar a descer às fontes mais profundas da vida orgânica. O inconsciente não é apenas povoado por monstros. Fugindo à sua historicidade, o homem não abdica da sua qualidade de ser humano para se perder na animalidade; ele reencontra a linguagem e por vezes a experiência de um paraíso perdido. Os sonhos, as imagens das suas nostalgias, dos seus desejos, dos seus entusiasmos, etc., são outras tantas forças que projetam o ser humano historicamente condicionado num mundo espiritual infinitamente mais rico do que o mundo fechado do seu momento histórico. Além do mais, os monstros do inconsciente são também mitológicos, uma vez que continuam a desempenhar as mesmas funções que lhes pertenceram em todas as mitologias: em última análise, ajudar o homem a libertar-se e completar a sua iniciação.

As sociedades arcaicas e tradicionais conceberam o mundo nos limites do seu mundo fechado dominado pelo desconhecido, pelo informe ou não formado. De um lado existe o espaço habitado e organizado. E no exterior deste espaço familiar, existe a região desconhecida e terrível dos demónios, das larvas, dos mortos, dos estrangeiros; numa palavra: o caos e a morte. Esta imagem sobreviveu mesmo nas civilizações muito evoluídas. Pelo facto de atacarem e porem em perigo o equilíbrio e a própria vida da cidade, os inimigos são assimilados às forças demoníacas, pois eles esforçam-se por reintegrar o estado caótico. A conceção do adversário sob a forma de um ser demoníaco, verdadeira encarnação das forças do mal, sobreviveu igualmente até aos nossos dias. Notemos que as mesmas imagens são ainda utilizadas nos nossos dias quando se trata de formular os perigos que ameaçam um certo tipo de civilização. Fala-se nomeadamente de caos, de desordem, das trevas em que mergulhará o nosso mundo. Todas estas expressões, como bem se vê, significam a abolição de uma ordem, de um Cosmos, de uma estrutura. 

Para o mundo arcaico em geral, os inimigos que ameaçavam o microcosmo eram perigosos não tanto como seres humanos (em si) mas porque encarnavam as forças hostis e destruidoras. É muito provável que as defesas dos lugares habitados e das cidades tenham começado por ser defesas mágicas; pois estas defesas eram dispostas mais para impedir a invasão dos espíritos maus do que o ataque dos humanos. Mesmo muito mais tarde na história, na Idade Média, por exemplo, os muros das cidades eram consagrados ritualmente como uma defesa contra o demónio, a doença e a morte. Além do mais, o simbolismo arcaico não encontra qualquer dificuldade em assimilar o inimigo humano ao demónio, ou à morte. Afinal, o resultado dos seus ataques, quer sejam demoníacos, quer militares, é sempre o mesmo: a ruína, a desintegração, a morte.

Para a Apologética Cristã, as Imagens estavam carregadas de signos e de mensagens; elas mostravam o sagrado por intermédio dos ritmos cósmicos. A revelação trazida pela fé não destruía as significações primárias das Imagens. Juntava-lhes simplesmente um novo valor. Sem dúvida que para o crente este novo significado sobrepunha-se aos outros, transformada em revelação. Era a Ressurreição de Cristo que importava, e não os indícios que a natureza dava. Na maior parte dos casos, não se compreendiam os sinais sem primeiro se professar a fé em Cristo. Como se sabe, Cristo é símbolo e não homem. O homem de carne e osso era o Jesus de Nazaré. Cristo era outra coisa, segundo todas as tradições religiosas do Crescente Fértil, numa extensão entre o Egito e a Pérsia. Mas até podemos ir mais longe, à Índia, onde o símbolo da Árvore Cósmica tinha o mesmo significado que a Cruz pata os Cristãos. A Imagem da Cruz não fazia outa coisa senão prolongar no Cristianismo um velho mito universal.

Sabe-se que o xamã desce aos infernos para procurar e trazer a alma do enfermo, quando não estafermo, que foi arrebatada pelo demónio. Orfeu desce também aos infernos para trazer a sua mulher, Eurídice, que morrera. Existem mitos análogos em sítios de todos os continentes, da Europa à Polinésia, passando pela Ásia, África e América. Foi na Ásia central que os europeus fixaram o mito do xamã e a conceção do xamanismo. Aqui o mito é parte constitutiva de uma literatura oral de estrutura xamânica. Conta-se que um herói desce aos infernos para recuperar a alma da esposa morta. E o mesmo acontece nos mitos polinésios. Orfeu é o músico domador de feras, o médico, o poeta e o civilizador. Reúne exatamente as funções que cabem ao xamã das sociedades primitivas. Este é mais do que curandeiro e especialista das técnicas extáticas. Ele é também o amigo e senhor das feras, imita as suas vozes, transforma-se em animal. Jesus, agora é Jesus que desce aos Infernos, para salvar Adão, para restaurar a integridade do homem caído pelo pecado através da mulher, de Eva. 

O transe xamânico restabelece a situação de homem primordial: durante o seu transe, o xamã recupera a existência paradisíaca dos primeiros humanos, que não estavam separados de Deus. De facto, as tradições falam-nos de um tempo mítico em que o homem comunicava diretamente com os deuses celestes; escalando uma montanha, uma árvore, uma liana, os primeiros homens podiam subir realmente e sem esforço, ao Céu. Os deuses, por seu turno, desciam regularmente à Terra para se misturarem com os Humanos. Em consequência de um acontecimento mítico qualquer (geralmente uma falta ritual), as comunicações entre o Céu e a Terra foram cortadas (a Árvore, a liana, foram cortadas), e o Deus retirou-se para o fundo do Céu. Mas o xamã, por meio de uma técnica de cujo segredo é detentor, consegue restabelecer (provisoriamente e só para seu uso particular) as comunicações com o Céu e retomar o diálogo com Deus. Por outras palavras, consegue abolir a história (todo o tempo que decorreu após a queda, após a rotura das comunicações diretas entre Céu e Terra); volta para trás, reintegra a condição paradisíaca primordial. Esta reintegração de um illud tempus mítico opera-se no êxtase. O êxtase xamânico pode ser considerado quer como condição, quer como consequência da recuperação da condição paradisíaca. Em qualquer dos casos, é evidente que a experiência mística dos primitivos está dependente também da reintegração extática do Paraíso.

É justamente esta perenidade e esta universalidade dos arquétipos que salvam em última instância as culturas, tornando ao mesmo tempo possível uma filosofia da cultura que seja mais do que uma morfologia ou uma história dos estilos. Toda a cultura é uma queda na história; e é, simultaneamente, limitada. É nas Imagens que o africano ou o indonésio redescobrem os arquétipos do homem primordial. E o mesmo se passa nas restantes culturas. O que, para um Ocidental, é belo e verdadeiro nas manifestações históricas da cultura antiga, para um habitante da Oceania o valor é outro, porque, manifestando-se em estruturas e estilos condicionados pela história, as culturas auto limitaram-se. Mas as Imagens que as precedem e as informam permanecem eternamente vivas e universalmente acessíveis. Um europeu dificilmente admitirá que o valor espiritual geralmente humano e a mensagem profunda de uma obra-prima grega, 

A imagem da Vénus de Milo, por exemplo, para um europeu culto e atual, é uma obra-prima da arte grega clássica. Mas para um guinéu da Papua é a mulher que a imagem revela. E, portanto, não conseguirmos sequer ter em conta esta simples verdade de facto. Portanto, as Imagens constituem aberturas para um mundo trans histórico. Falou-se muito da unificação da Europa medieval pelo Cristianismo. Isto é sobretudo verdadeiro se se pensar na homologação das tradições religiosas populares. Foi através da hagiografia cristã que os cultos locais foram reduzidos a um denominador comum. Devido à sua cristianização, os deuses e os lugares de culto da Europa inteira receberam não só nomes comuns como encontraram de certo modo os seus próprios arquétipos e, por conseguinte, as suas valências universais.

Os filósofos, desde o Positivismo Lógico, pelo menos, que consideram a vida mágica e religiosa da humanidade arcaica como um amontoado de superstições pueris fruto dos medos ancestrais, ou da estupidez primitiva. Mas este julgamento de valor contradiz os factos. O comportamento mágico ou religioso da humanidade arcaica revela uma tomada de consciência existencial do homem em relação a si próprio, e ao Universo. Na dita superstição, estava já implícita uma metafísica, mesmo que ela se exprimisse através de símbolos ou signos em vez de conceitos. Uma metafísica, aqui, significa uma conceção global e coerente do mundo ou da realidade. Não tem nada a ver com os ritos e rituais da série de gestos instintivos regidos pela mesma e fundamental reação do animal humano perante a Natureza. 
O símbolo, em si próprio, exprime a tomada de consciência de uma situação limite.

Para o pensamento arcaico a separação entre o espiritual e o material não tem sentido. Os dois planos são complementares. Pelo facto de se supor que uma casa está colocada no Centro do Mundo, nem por isso deixa de ser um comodidade que responde a necessidades concretas, quer condicionada pelo clima, quer para defesa da intromissão de outros homens e animais. O simbolismo, portanto, acrescenta um novo valor a um objeto, ou a uma ação, sem danificar os seus valores próprios e imediatos. Aplicando-se a um objeto ou a uma ação, o simbolismo abre-nos as portas para outros mundos possíveis. O mundo simbólico emerge da realidade imediata, mas sem a diminuir nem a desvalorizar. O Universo não é fechado. Nenhum objeto está isolado na sua própria existência. Tudo está unido e se mantém coeso por um sistema cerrado de correspondências e assimilações. O homem das sociedades arcaicas tomou consciência de si próprio num mundo aberto e rico. É esse o significado do Sagrado.