quarta-feira, 18 de junho de 2025

O medo


O medo é, ao mesmo tempo, o motor da nossa sobrevivência e o veneno das nossas tragédias. Ele nasce para proteger a vida. Mas, como tudo que é muito poderoso, pode ser facilmente desviado ou exagerado, transformando-se em agressão, paranoia, ódio e guerras. Sem medo, não evitaríamos predadores, doenças, desastres naturais. Não nos precaveríamos contra ameaças invisíveis (inimigos, traições, riscos). Não cuidaríamos de quem amamos: proteger uma criança, um amigo. Pelo medo da perda. Portanto, o medo tem como principal função proteger, em absoluto, a vida de todos os perigos, ou potenciais perigos, venham eles de onde vierem, em que a nossa vida está constantemente em perigo. Sem medo, os seres humanos seriam extremamente vulneráveis a ameaças naturais e sociais. Já a raiva é uma espécie de sucedâneo complementar do medo que ajuda a proteger o indivíduo ou o grupo a ameaças ou injustiças produzidas por outros seres humanos.

Quando o medo é exagerado ou mal dirigido, vira ódio. Medo do que é diferente, medo do outro. Violência: ataque como forma de "defesa preventiva". Guerras: sociedades inteiras mobilizadas pelo medo do "inimigo". Opressão: controlo de grupos para evitar "ameaças internas". Desumanização: para não sentir culpa ao atacar, transforma-se o outro em algo "inferior". É ao mesmo tempo paradoxal: o medo protege a vida e, quando cresce demais, mata a vida. É quase como se o medo fosse um medicamento essencial, mas que, em doses erradas, se transforma em veneno letal. 
Em termos evolutivos, o excesso de medo foi, por muito tempo, mais "útil" do que a falta dele. Era melhor fugir de um ruído inofensivo do que ignorá-lo, uma vez que no caso de ser o rugido de um predador, a fuga evitaria o que se diz com humor: "já foste". O problema é que no mundo moderno, os medos continuam, mas os perigos reais são diferentes. E nós ainda carregamos no corpo e na mente um "sistema de alarme" muito primitivo.

Desde as primeiras organizações humanas, quem conseguiu dominar o medo coletivo conseguiu dominar o grupo. Nas sociedades antigas, os fenómenos naturais (relâmpagos, secas, doenças) eram vistos como ira divina. Sacerdotes e xamãs surgiram como intermediários: "Só nós sabemos como apaziguar os deuses". No Egito Antigo, o faraó era considerado filho dos deuses; desobedecê-lo era ofender as forças da natureza. Reis, imperadores e chefes de tribo justificaram a sua autoridade dizendo proteger o povo de invasores bárbaros, hereges, estrangeiros. O Império Romano justificava guerras preventivas alegando que os povos germânicos eram ameaças existenciais. No século XX, regimes totalitários criaram a figura do "inimigo interno e externo" (judeus, comunistas, estrangeiros).

A religião cristã medieval explorava intensamente o medo existencial ou escatológico - medo do Inferno e do Juízo Final - para manter a disciplina social. Indulgências vendidas: "Pague agora e evite o fogo eterno." Em muitos impérios asiáticos, também havia a noção de karma usado como instrumento de controlo social: "obedeça agora para ter boa sorte na próxima vida". O medo é, ainda hoje, talvez o "recurso natural" mais poderoso para governar.

Em suma: o medo é apenas uma das 12 emoções fundamentais do ser humano para a sobrevivência. 
Fazem parte de um programa evolutivo que começou a formar-se há dezenas de milhões de anos, quando os mamíferos começaram a depender cada vez mais uns dos outros para sobreviver. São elas: medo; raiva; amor; alegria; tristeza; nojo; surpresa; esperança; culpa; gratidão; vergonha; empatia. Sem estas emoções, o organismo morre antes de poder reproduzir-se ou contribuir para o grupo. Os mamíferos que cuidavam melhor uns dos outros tinham mais hipóteses de sobreviver em ambientes perigosos. Grupos de indivíduos mais cooperativos e menos conflituosos tiveram mais sucesso evolutivo. Não basta reagir; é preciso prever e preparar-se para o que pode vir. A seleção natural favoreceu os indivíduos que eram mais protetores de si mesmos, mais conectados com os outros, mais capazes de regular os seus comportamentos sociais, prevendo e planeando. Resultado: surgiu um ser vivo com uma arquitetura emocional muito sofisticada. Mas que ainda carrega traços ancestrais, muitas vezes em conflito com as necessidades modernas.

A encruzilhada da História


O povo ocidental chegou a um ponto de saturação. Já não acredita nos partidos políticos do mainstream, ou sistema, nem confia nas elites. Tendo deixado para trás a religião, agora sente que a sua alma está sedenta de espiritualidade no momento que pressente que a habitabilidade da Terra está ameaçada pelo descontrolo climático provocado por mão humana. E sente-se impotente diante de desafios tão ameaçadores à continuidade deste tipo de civilização tecnológica.

Este é o terreno fértil para fanatismos violentos e autoritarismos populistas. Mas o que se quer é um novo humanismo ético e espiritual, sem as ilusões do passado. Neste momento os Estados Unidos estão a entrar em convulsão no meio das medidas de deportação de imigrantes decretadas por Donald Trump. Imigração como catalisador de uma viragem autoritária. Los Angeles, como outras grandes cidades do Ocidente, está no olho do furacão. O que ali está a acontecer, aumento da violência, percepções de caos urbano, protestos, conflitos raciais e socioeconómicos, é mais que um caso local, é um espelho da falência civilizacional que estamos a viver.

Porque é que a imigração se tornou o nó górdio do Ocidente na deriva autoritária? Porque é que a extrema-direita se alimenta disso? O que a História nos diz sobre momentos semelhantes? Em muitas cidades (Los Angeles, Paris, Nova Iorque, Lisboa, Londres, Marselha), populações locais sentem-se “invadidas” ou “substituídas”. É uma percepção, muitas vezes inflamada por discursos populistas, mas tem raízes reais.

Este ressentimento social é um terreno fértil para narrativas de medo, como a “Grande Substituição” (de Renaud Camus, difundida por políticos de extrema-direita), que apontam a imigração como ameaça existencial. As esquerdas abandonaram as antigas classes trabalhadoras para se tornarem forças morais urbanas e identitárias, focadas em minorias, linguagem inclusiva e bandeiras culturais. Muitos dos imigrantes vêm de regiões devastadas por guerras, pilhagens ou crises climáticas provocadas ou agravadas por potências ocidentais. O Sul global move-se para o Norte, e este já não tem como manter muralhas morais ou físicas.

O caos urbano percebido -- em especial o aumento da violência, da toxicodependência e dos sem abrigo -- leva as populações a clamar por ordem, autoridade e fronteiras rígidas. É uma reação clássica: o medo abre o caminho ao autoritarismo. Los Angeles torna-se exemplo disto. Tolerância progressista vista como permissividade. Cidadãos comuns sentem-se abandonados. Cresce a pressão por políticas duras: policiamento reforçado, deportações, encerramento de abrigos, câmaras de vigilância. O colapso da confiança nas instituições. As instituições democráticas são percebidas como fracas ou capturadas pela elite financeira e pelas Big Techs.

A própria ideia de Estado de Direito passa a ser vista como obstáculo. Exige-se ação rápida, limpeza social, e muitas vezes com apelo direto à força bruta. Aqui começa o verdadeiro risco: prisões sem julgamento; suspensão de direitos fundamentais; militarização da polícia; Estado de exceção normalizado; Tecnologias de controlo -- IA, reconhecimento facial, big data como “solução mágica”. A democracia continua no papel, mas o espírito liberal morre por dentro. A História está farta de nos fazer advertências. O caos convida o tirano. Este tipo de cenário já foi vivido. E há paralelos: Roma imperial tardia; Weimar; América Latina anos 80-90.

Na Roma imperial tardia foram as migrações bárbaras, ou a invasão pacífica dos bárbaros. As fronteiras colapsaram. As elites era corruptas. As cidades ficavam pejadas de marginais empobrecidos. Surgiram líderes mais fortes e autoritários, prometendo restaurar a ordem. O Estado militarizou-se. Militarização da política e morte lenta da república. Em Weimar (Alemanha pós-I Guerra) -- a imigração do Leste europeu trouxe por arrasto mais um êxodo de judeus. Crise económica profunda + ressentimento nacional, levou ao crescimento da violência urbana por milícias armadas. Sociedade saturada de liberdade sem segurança. E então veio Hitler como “curandeiro do caos”. América Latina anos 80–90 -- Megacidades, insegurança e desorganização social. Populações exaustas da corrupção e da criminalidade. Ascensão de “homens fortes” e militarização do quotidiano com Fujimori, Chávez e Bolsonaro.

Sobre o colapso ocidental


Os pensadores conservadores admitem que os fluxos migratórios nas últimas décadas: de Sul para Norte, e de Oriente para Ocidente -- funcionaram como um catalisador do mal-estar acumulado. 
Não é um problema fácil de lidar. Mas quem disse que era fácil? Nunca foi nem é em lado nenhum, sobretudo nos tempos atuais em que a imigração ilegal está a ter um crescimento exponencial. E ainda há margem para aumentar. É claro que qualquer Estado de Direito deve ser um Estado forte, mas não autoritário. Deve ser cultivada a ideia de uma cidadania compartilhada, e não de uma nostalgia de uma tradição datada.

Ora, se as migrações não forem tratadas com inteligência ética, económica e cultural, pode tornar-se o pretexto perfeito para regimes autoritários limparem o que resta da democracia. Como se costuma dizer, não queremos muros, mas também não queremos anarquia. O mundo é interdependente e o Ocidente deve acolher com hospitalidade os povos de outras geografias que querem ir para outro país por o acharem acolhedor. De resto, os países ocidentais europeus, devido ao inverno demográfico, precisam de novos povos como de pão para a boca. Portanto, o que se deve fazer é recebê-los com empatia e integrá-los com dignidade, justiça e reciprocidade.

A deriva autoritária, que começa a ser visível em partes dos Estados Unidos, e em alguns partidos políticos da Europa, já está a dar sinais de contágio e normalização muito alargada. O alastramento dessa lógica autoritária na Europa é um fenómeno multicausal, com raízes profundas no medo, na insegurança, na exaustão das promessas do liberalismo, e no colapso da esquerda que se anquilosou em utopias transformadoras que não funcionaram.

Há naturalmente caldos de cultura mais propensos a enveredar por políticas autoritárias. Tal facto tem a ver com o medo de insegurança e atavismos identitários. Muitas populações nativas, ao verem as paisagens das suas cidades serem transfiguradas, sentem que os seus modos de vida estão a ser postos em causa. É um facto que fluxos de imigrantes maciços num curto espaço de tempo, mesmo em grandes cidades como as capitais, ou centros metropolitanos, dificultam o processo da boa integração. Massas populacionais a falarem outras línguas e a praticarem outras regiões a céu aberto. a diferença de paisagem é étnica e cultural, e isso assusta naturalmente os autóctones. E é claro, as pessoas acreditam que o poder político não está a garantir a segurança por benevolência na autoridade. E o medo exige soluções mais drásticas para estancar o clima de impunidade que se vai vendo numa delinquência ou um crime aqui ou ali. 

Hoje vai-se ouvindo a cada passo, e com mais frequência, pessoas a desabafarem dizendo que já estão fartas. A democracia liberal está em perigo. Que o voto não muda nada. Que os partidos convergem no jogo das elites tecnocráticas e mediáticas, com as narrativas do politicamente correto e castração da linguagem. Este desgaste abre espaço a uma tentação de vilipendiar a democracia. Há um forte desejo que venha alguém e ponha cobro nisso. Alguém que “resolva”, “imponha”, “limpe”. 

O autoritarismo é uma resposta emocional às massas assustadas, não é racional. Tal como nas décadas de 1920-30, os populismos autoritários renascem como movimentos emocionais de restauro, com outras roupagens. No panorama europeu atual, a França tem Marine Le Pen normalizada. O Rassemblement National já não é um partido marginal, mas candidato ao poder. Segurança acima de tudo. A retórica é centrada na imigração = ameaça civilizacional. Macron prepara leis migratórias mais duras por medo de perder terreno. A laicidade virou ferramenta de repressão contra expressões religiosas islâmicas. Na Itália Giorgia Meloni está no poder. Chegou a intitular-se neofascista. Agora com verniz institucional, parece uma moderada. Alavanca a Reforma da Constituição para mudar o sistema político e aumentar o controlo. Os ataques à imprensa crítica e organizações humanitárias são frequentes. As políticas migratórias são duríssimas, com externalização de fronteiras (Tunísia, Líbia).

A Hungria tem Órban como modelo. É uma espécie de laboratório autoritário da Europa: censura cultural, universidades fechadas, ONGs perseguidas. Controla quase totalmente a comunicação social. O discurso é abertamente nacionalista: “a Hungria é para os húngaros”. Influencia com mestria outros líderes da Europa Central, como a Polónia. Na Espanha, com intermitências, o Vox espreita. E na Catalunha as tensões são a constante. Acordos locais com os partidos centrais de Madrid normalizaram a agenda autoritária. Rejeição do feminismo, da imigração e da diversidade cultural, como "engenharia social", também faz parte. A Alemanha receia sempre o regresso do demónio. O partido AfD cresce especialmente no Leste (antiga RDA), com apoio acima de 30% em alguns Estados. O programa de deportações em massa já começou. Bem como a ameaça ao sistema judicial e aos direitos das minorias. Vão ocorrendo infiltrações nas forças de segurança, e até forças armadas.


A orientação política de uma pessoa



A orientação política de uma pessoa resulta quase sempre de uma complexa combinação entre fatores biológicos, educativos, sociais e até circunstanciais. Mas também se pode dizer, que na questão de uma pessoa ser mais conservadora ou mais progressista, ou seja, respetivamente de direita ou de esquerda, há uma combinação entre a biologia e a educação. É certo que numa família conservadora pode haver um filho ou outro que adota uma postura contrária à da família. Mas será sempre uma combinação de fatores. Veja-se o caso de dois irmãos: Miguel Portas -- que foi dirigente do Bloco de Esquerda; e Paulo Portas -- de direita, que foi líder do CDS-PP.

O caso dos irmãos Miguel Portas e Paulo Portas é emblemático. Criados no mesmo meio familiar, com acesso a uma formação cultural e académica semelhante, seguiram trajetórias políticas profundamente diferentes: Miguel à esquerda, no Bloco de Esquerda; e Paulo à direita, no CDS-PP. Esse contraste mostra claramente que a educação familiar não determina por completo a ideologia política de um indivíduo, embora possa ter um papel relevante.

A ciência tem avançado bastante no estudo das bases biológicas e psicológicas das orientações políticas. Algumas investigações indicam que traços de personalidade com alguma base hereditária, como a abertura à experiência ou a aversão ao risco, podem ter alguma correlação com posturas mais progressistas ou conservadoras, respetivamente. Por outro lado, as experiências de vida, a leitura do mundo, os contactos sociais, as influências escolares e culturais, bem como os momentos históricos vividos moldam significativamente a visão política de cada um. A ideologia política é uma emergência de múltiplas camadas de influência -- biológicas, emocionais, familiares, sociais, educativas, culturais e até acidentais. E é isso que explica, entre outras coisas, que dois irmãos possam discordar profundamente e, mesmo assim, partilhar laços afetivos e uma origem comum.

Nos últimos anos, com o interesse mais generalizado pela Neurociência -- a que António Damásio não se eximiu com a larga divulgação dos seus livros, não apenas em Portugal, mas em muitos países -- de parceria com a psicologia evolutiva e genética comportamental várias linhas de investigação científica têm procurado explicar por que razão algumas pessoas tendem a ser mais conservadoras e outras mais progressistas.

Estudos de neuroimagem com a utilização da Ressonância Magnética funcional, têm mostrado algumas diferenças consistentes na estrutura e funcionamento do cérebro entre pessoas com diferentes orientações políticas. A amígdala (associada ao medo e à resposta emocional a ameaças) tende a ser maior ou mais reativa em pessoas conservadoras. Isso sugere uma maior sensibilidade à ameaça, à insegurança e ao desconhecido. O córtex cingulado anterior (associado à deteção de conflito e flexibilidade cognitiva) é, por vezes, mais ativo em pessoas progressistas, sugerindo maior tolerância à ambiguidade, mudança e complexidade. No entanto, é importante salientar que o significado destes estudos apenas mostra tendências estatísticas e não determinismos. São correlações, não causas diretas.

Estudos com gémeos idênticos e fraternos (como os conduzidos por Alford, Funk e Hibbing) mostram que há uma hereditariedade parcial da orientação política, estimada em cerca de 40-50%. Essa hereditariedade não está associada a uma "mão invisível política" no ADN, mas sim a traços de personalidade herdáveis. Por exemplo, a abertura à experiência tende a estar mais propensa a aderir a ideias progressistas ou de esquerda. E que o ensimesmamento da consciência é mais comum em pessoas conservadoras ou de direita. Não deve surpreender que uma possa se incline mais para um lado ou mais para o outro conforme o seu traço de personalidade seja do tipo introvertido ou do tipo extrovertido. 

Jonathan Haidt, no seu famoso livro The Righteous Mind, propõe que as pessoas de esquerda operam com bases morais diferentes dos de direita. Progressistas enfatizam mais valores como justiça, igualdade e cuidado com os vulneráveis; Conservadores valorizam também esses princípios, mas acrescentam outros como lealdade ao grupo, respeito à autoridade e purismo na tradição. Haidt argumenta que não se trata de afirmar que uma dessas orientações é melhor que a outra, mas que refletem respostas adaptativas a contextos históricos e sociais distintos.

Fatores como: classe social; traumas pessoais; educação; eventos históricos (ex.: revoluções, guerras, crises) -- podem levar alguém a adotar uma visão política que difere radicalmente daquela que seria de esperar atendendo ao seu contexto biológico e familiar. Por exemplo, alguém que cresceu em meio conservador, mas estudou em meio universitário progressista, e viveu em cidades multiculturais, pode reorientar-se ideologicamente para a esquerda. Por outro lado, uma pessoa inicialmente progressista pode tornar-se mais conservadora em resposta a experiências traumáticas, sensação de ameaça, ou desilusão com certas utopias.

terça-feira, 17 de junho de 2025

"Thick as a Brick"




     Foi num concurso literário, destinado a crianças dos 7 aos 16 anos, patrocinado pelo principal jornal nacional. Recebeu milhares de candidaturas de escolas de toda a Grã-Bretanha. Mt Humphrey Martin, o diretor da Escola Primária de Moordale disse que Gerald, apelidado de "Little Milton" por seu mestre inglês, por causa de sua habilidade poética, era mentalmente avançado para a idade, embora dado a afirmações obscuras e palavrosas. Isso dava azo a que fosse pouco popular junto dos colegas na Escola. 
     Mas sem dúvida que a criança tinha um grande futuro académico pela frente. Era um caso insuperável na história de Moordale Primária. Gerald e os seus pais mudaram-se de Manchester para St. Cleve há quatro anos, quando Bostock decidiu, por razões de saúde, viver longe da cidade. O pai, David Bostock, agora faz trabalhos ocasionais de jardinagem, enquanto Daphne, a mãe do miúdo, é bem conhecida da congregação da Igreja Paroquial de St. Cleve pela sua participação ativa no trabalho social da paróquia. Na festa no último sábado o almoço que serviu foi maravilhoso: Parabéns, Daphne! 
     Bostock, esta manhã, num comentário sobre a desqualificação do filho -- o "Little Milton" -- disse: "Estamos com o coração partido pela maneira como o júri mudou de opinião. A perda do dinheiro do prémio não foi coisa pouca. Era para a bolsa de estudos do Little Milton. Isso significa que vou ter dificuldades para pagar as prestações da Enciclopédia Britânica de Gerald. Afinal, terei de tratar das rosas do Dr. Munson na próxima semana." 
     Quando soube da decisão, Gerald foi para o seu quarto e trancou a porta. A Sra. Bostock e David estão muito irritados com a forma como tudo aconteceu. Muitos moradores locais também estão irritados e magoados com a notícia, e como algum consolo para Gerald e seus pais, a St. Cleve Chronicle imprime o texto completo do poema desqualificado nesta semana na página 7.
     A menina, Julia Fealey, de 14 anos, membro júnior da Sociedade de Arte e Literatura do Distrito de St. Cleve, e poeta por direito próprio, é conhecida por ser amiga de Gerald há algum tempo. E é frequente escrever poemas com o miúdo. Agora está grávida, e acusou o miúdo desse feito. A acusação é ultrajante. O médico de família do miúdo disse que a acusação era ultrajante, ainda que não estivesse em causa ter sido convocado para um exame médico de Gerald Bostock. A menina estava obviamente a mentir para proteger o verdadeiro pai. E o seu estado de ansiedade não dava mostras de vir a mudar a sua versão da história. A Sra. Daphne Bostock, mãe de Gerald, já muito chateada com os acontecimentos da semana, disse à repórter: «É nojento. Ela sempre teve ciúmes do meu Gerald.»
***
"Thick as a Brick" dos Jethro Tull, lançado em 1972, é apresentado como uma adaptação musical de um longo poema que ficciona ter sido escrito por um "menino-prodígio" chamado Gerald Bostock. O encarte original do álbum imita um jornal local -- St. Cleve Chronicle & Linwell Advertiser -- apresentando toda a narrativa. Gerald Bostock: um menino prodígio de 8 anos que havia escrito um poema complexo que pela sua controvérsia, e pelo escândalo, foi desclassificado num concurso literário.

Na realidade, Gerald Bostock, não existe, é um personagem literário, uma sátira criada pelo vocalista e líder da banda, Ian Anderson -- a gozar dos críticos musicais e da cena do rock progressivo da época, que, segundo ele, levava os conceitos de "álbuns conceptuais" a níveis excessivamente pretensiosos. Portanto, "Thick as a Brick" é, na verdade, uma paródia que satiriza os pretensos "álbuns conceptuais". Irónico, porque este álbum acabou por ser um dos álbuns conceptuais mais icónicos do género. O álbum é uma única música contínua, em que o lado B do vinil é a continuação do lado A. Apenas dividida pela necessidade física dos discos de vinil. Música cheia de mudanças de ritmo, humor sarcástico e letras enigmáticas que brincam com temas como crescimento, sociedade, autoridade e hipocrisia.

O termo "thick as a brick" é uma expressão coloquial britânica que significa "muito estúpido" ou "muito burro". "Thick" no inglês britânico é gíria para "burro", e "brick" (tijolo) reforça a ideia de algo denso, pesado e sem cérebro. Ou seja, "thick as a brick" = "burro como um tijolo". Ian Anderson usou essa expressão para sugerir que, apesar das pretensões intelectuais das crianças prodígio, como Gerald Bostock, e dos críticos culturais, e dos próprios músicos progressivos, no fundo, todos somos meio "burros como tijolos" diante da complexidade da vida. O próprio Ian Anderson, em entrevistas, sempre disse que preferia deixar o disco aberto às interpretações do público, embora tenha confirmado que a intenção inicial era mais fazer uma sátira cultural do que propriamente abordar questões de ordem sexual.

O St. Cleve Chronicle & Linwell Advertiser -- o falso jornal encartado no LP de "Thick as a Brick", é uma verdadeira obra de arte em si mesmo, tanto em humor como em detalhes. O jornal conta que Gerald "Little Milton" Bostock, de 8 anos, escreveu um poema gigantesco e complexo, que tinha vencido um concurso literário local. No entanto, os jurados, depois de lerem trechos do poema, consideraram o poema "impróprio". Eles decidiram retirar o prémio devido ao "escândalo moral" de abordar temas políticos e sexuais. O jornal inventa até um debate público sobre se Gerald é "um jovem genial" ou "um menino perturbado". Na verdade, é uma sátira clara às reações preconceituosas da sociedade diante de mentes criativas.

O jornal não é só sobre o Gerald. Ele está cheio de notícias falsas e hilariantes: Um agricultor local que encontra uma batata com o rosto da sua sogra; um homem multado ensina o seu papagaio a dizer palavrões; um comité político que decide regular a altura das cercas dos jardins. Essas "notícias" parodiam a imprensa local e os jornais britânicos pela sua preocupação em levar demasiado a sério o politicamente correto. E não terem pejo em publicar horóscopos, anúncios fraudulentos e outras banalidades como palavras cruzadas. Então este falso 
St. Cleve Chronicle & Linwell Advertiser traz horóscopos tão absurdos que chegam a recomendar, por exemplo, "evitar sair de casa por medo de ataques de pombos". Anúncios de empresas ridículas, como uma companhia de seguros que promete indemnizar quem for raptado por extraterrestres. Linhas desalinhadas. Colunas quebradas ou mal formatadas. Mistura de tipos de letra que não combinam. Erros ortográficos intencionais. Tudo para parecer um jornalzinho local feito em cima do joelho. Uma sátira às pequenas vilas britânicas. Mistura assuntos sérios com coisas absurdas. No meio de uma notícia trágica, de repente aparece um anúncio ridículo ou uma pequena intriga sobre um gato que desapareceu.

O poema de Gerald Bostock -- o tema base de todo o álbum -- não aparece inteiro no jornal.
O que vemos são fragmentos, pedaços desconexos, citações isoladas, o que cria ainda mais mistério e confusão. O ouvinte do álbum é levado a pensar que a letra da música faz parte do "poema" 
de Gerald Bostock. Ou seja, o conceito é levado ao extremo. levando o público a absorver a sátira. Ian Anderson revelou anos mais tarde que o encarte/jornal foi tão caro e tão complicado de produzir que a gravadora começou por rejeitar a ideia. Mas, ironicamente, acabou por beneficiar do enorme sucesso do álbum. O álbum foi número 1 na Billboard americana em 1972, um feito incrível para uma obra tão fora do convencional. Composto por 12 páginas, o jornal foi impresso em tamanho real e dobrado como um jornal verdadeiro, com tudo, incluindo as palavras cruzadas e as secções de entretenimento. Curiosamente, a elaboração do jornal levou mais tempo a fazer do que a própria gravação do álbum. Mas Ian Anderson demonstrou que estava mesmo muito empenhado em levar o projeto até ao fim. 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Sentimento de impunidade


A violência no espaço público, como sinal de impunidade, não é nova, mas hoje ela ocorre num contexto de Estados de Direito formalmente consolidados. Isso gera um paradoxo. Quando o sistema democrático falha em mostrar autoridade justa e eficaz, abre-se espaço para a violência, e para a exigência de autoritarismo “justo” como resposta.

O sentimento de impunidade e da violência incendiária no espaço público tem vindo a aumentar. Vamos focar-nos em países ocidentais democráticos, entre 2019 e 2024, onde se verificaram episódios emblemáticos. França – Revoltas nos subúrbios (2023). Após a morte de Nahel Merzouk, um jovem de 17 anos abatido por um polícia em Nanterre (subúrbio de Paris), eclodiram revoltas urbanas em grande escala, onde foram incendiados milhares de carros. Ataques a esquadras, autarquias, escolas e transportes. Saques organizados. Foi o resultado de ressentimento acumulado em bairros marginalizados, onde muitos jovens sentem que vivem num “Estado paralelo”. Abandonados, vigiados, e sem perspectiva de ascensão social. A rápida libertação de muitos detidos, aliada à cobertura mediática que dava conta de uma débil condenação pouco clara da violência, levou muitos franceses a dizer que o Estado estava “de joelhos”.

Nos Estados Unidos os Protestos Black Lives Matter (2020), após o assassinato de George Floyd, levaram para as ruas milhões de americanos a protestar. Em várias cidades surgiram grupos que incendiaram esquadras de polícia, como em Minneapolis. Destruíram estabelecimentos comerciais, praticaram pilhagens em larga escala em Los Angeles, Nova Iorque e Chicago. Em resposta, algumas autarquias em vez de aumentar, diminuíram, o financiamento das polícias com o slogan "defund the police". Vários procuradores locais optaram por não acusar autores de delitos menores, o que reforçou a percepção de permissividade e impunidade.

No Chile, foram os protestos de 2019, onde houve incêndios no metro de Santiago. Embora não tão mediático na Europa, o Chile teve manifestações intensas contra a desigualdade e o sistema neoliberal herdado da ditadura. Mais de 80 estações de metro foram incendiadas em poucas horas. O vandalismo tornou-se um símbolo de revolta considerada “justa” por parte da população. A Constituição foi posteriormente reformulada, mas a destruição maciça, e a quase ausência de condenações efetivas, deixou marcas no tecido social chileno.

Em Portugal, comparativamente, os casos são menos extremos, mas os sinais começam a ser agora preocupantes. Embora sem os níveis de violência de outros países, Portugal tem registado crescente número de agressões a polícias. Casos de desobediência civil tolerada em protestos climáticos, dado o sentimento crescente de inação penal com crimes de menor gravidade que são arquivados rapidamente. A indignação das pessoas vai crescendo, que se estende também ao corpo das 
forças de segurança, pois a justiça “não dá seguimento” a muitos casos.

Desde a Revolução Francesa, em 1789, e depois da Primavera dos Povos, em 1848, passou a ser comum o uso da violência como forma legítima de expressão política. Na ausência de sufrágio universal e justiça imparcial, as massas recorriam à insurreição. Mas a repressão também era violenta, que acabava por gerar mártires e novo ressentimento. A diferença, é que nos dias de hoje se trata de democracias em que há o sufrágio universal, e em que as instituições são estáveis, com cooperação entre os vários níveis do poder. Noutros tempos era o último recurso.

No Período de Weimar, na Alemanha dos anos 20 e 30, por via de a Alemanha ter perdido a Primeira Guerra Mundial, seguida da crise financeira que rebentou na América em 1929, a descrença no sistema democrático foi como hoje, ou ainda pior, em que as instituições se encontravam numa situação lamentavelmente precária. Isso deu azo a que a violência se normalizasse. Nas ruas eram montadas barricadas em que os principais contendores eram os fascistas contra os comunistas de filiação bolchevista. Os assassinatos políticos proliferaram, sendo o caso de Walther Rathenau o que provocou maior indignação. Deu-se a subversão das forças de segurança por milícias paramilitares. O resultado foi o que é conhecido de todos: a proliferação do fascismo na forma de nazismo, com a ascensão de Hitler ao poder em nome da "ordem".

Depois vieram os anos 60 e 70 com protestos crescentes contra o capitalismo e a ordem burguesa: Maio de 68 em Paris; movimentos autonomistas em Itália e Alemanha, nos anos 70; Grupos como as Brigadas Vermelhas e a RAF (Baader-Meinhof). Todos estes grupos recorreram a atentados violentos enquadrados num tipo de ideologia radical. Os Estados responderam com endurecimento das leis que legitimaram uma maior repressão. O Estado de Direito não colapsou, porque o reforço das forças de segurança acabou por ser muito eficaz.

O breve relato desses casos que marcaram os meados do século XX, mostra que onde o Estado foi passivo, perdeu legitimidade e controlo da situação. Onde o Estado foi opressivo e agressivo, conseguiu controlar a situação, mas ficou com a fama de ter perdido a moral. Onde o Estado foi firme, mas justo, capitalizou respeito junto dos seus cidadãos.

domingo, 15 de junho de 2025

Guerra Israel - Irão



 Não é cenário, está mesmo a acontecer. A guerra entre Israel e Irão é real e já está em curso desde 13 de junho de 2025. Chamado de "Operation Rising Lion" por Israel, esse conflito já provocou larga destruição, pesadas baixas e profundo impacto regional. Israel realizou ao menos cinco ondas de ataques aéreos, atingindo instalações nucleares (Natanz, Fordow, Isfahan), bases militares, mísseis terra‑ar e centros de comando, além de eliminar comandantes do IRGC e nove cientistas nucleares.

O Irão retaliou com centenas de mísseis balísticos e drones, matando civis em Tel Aviv/jerusalém (3–10 mortos) e causando danos a prédios residenciais. Ambos os lados se concentram na destruição de capacidades aéreas, nucleares e antiaéreas, com foco estratégico.

Os EUA deram “aval” a Israel, mantendo forças no Golfo para proteção, mas evitando envolvimento direto – Trump ameaçou que Irão enfrentaria resposta “como nunca visto” caso atacasse os EUA. A diplomacia nuclear foi interrompida — conversações em Oman foram canceladas após o ataque. A comunidade internacional tenta conter a crise: Reino Unido realocou forças, Austrália fechou embaixadas e alertou para consequências regionais.

O Líbano (Hezbollah) optou por não abrir uma frente militar neste momento, embora reafirme apoio ao Irão. Iémen (Houthis) lançou mísseis para Israel, ampliando o conflito. O estreito de Ormuz e o mercado do petróleo estão sob alta tensão — o preço do petróleo já saltou mais de 7 %. A região corre risco de escalada ampla, mas atores chave (EUA, China, UE) devem atuar para evitar um confronto direto.

Prevê-se a continuação de ataques de mísseis e aviões, cujo objetivo de Israel é abortar o programa nuclear iraniano. Irão retaliará, focando civis e infraestrutura militar. Mas é provável que no médio prazo haja pressão internacional para o cessar-fogo. Possibilidade de mediação por Qatar ou ONU. Israel busca consolidar desativação nuclear. Irão pode intensificar ataques indiretos.

É uma guerra aérea mútua devastadora — sem desembarque terrestre, mas com uso pesado de mísseis e drones. A escalada ocorre com ataques indiretos por proxies (Houthis, Hezbollah). O desfecho depende agora de cenários diplomáticos (cortar escalada), resiliência interna dos regimes e limitações militares reais. A grande incógnita é: até que ponto ambas as nações suportarão economicamente e politicamente essa escalada, e se bons interlocutores internacionais conseguem frear antes que se torne um conflito incontrolável.

sábado, 14 de junho de 2025

A evolução do Estado de Direito


Como evoluiu o Estado de Direito nas sociedades ocidentais – nos últimos anos para se estar a verificar um aumento crescente do sentimento de impunidade através da violência incendiária no espaço público – é a questão. É um paradoxo preocupante. Como pode o Estado de Direito, aparentemente consolidado nas democracias ocidentais, estar a ser desafiado por manifestações cada vez mais frequentes de violência pública, nomeadamente atos incendiários, saques ou vandalismo sistemático?

A resposta não é linear, mas podemos identificar cinco grandes eixos explicativos para essa contradição entre a solidez jurídica formal e a crescente sensação de impunidade. Em primeiro lugar deu-se a erosão da autoridade do Estado que colocou em crise a legitimidade institucional. Nos últimos anos, muitos cidadãos passaram a encarar as instituições políticas, judiciais e policiais como distantes, ineficientes ou corruptas. Esta desconfiança alimenta a perceção de que as regras não se aplicam igualmente a todos. Deixou de haver, se é que alguma vez houve, respostas eficazes às desigualdades sociais.

Um dos paradoxos prende-se com o garantismo que nunca foi bem compreendido, porque à medida que se foi dando mais garantias parece que nunca nenhum interveniente nos processos reivindicativos focava satisfeito. É claro que se virou o feitiço contra o feiticeiro, porque mais garantias agravou a demora na justiça. As decisões judiciais passaram a ser vistas como benevolentes com delinquentes reincidentes. Portanto, a conclusão a que se chegou agora foi que as sociedades ocidentais adotaram modelos jurídicos altamente garantistas, apesar de ninguém contestar que os direitos do arguido devem ser amplamente protegidos. Precisamente um dos pilares do Estado de Direito. Porém, em muitos casos, isso tem sido percebido pelo cidadão comum, não elitista, como obstáculo à punição eficaz, alimentando a sensação de que "não acontece nada" a quem comete crimes.

Ora, tudo isso levou a um desencorajamento das forças de segurança. E o dito povo passou a ter a percepção de que o sistema “trava mais os polícias do que os criminosos”. A população começou a valorizar e a pedir soluções mais robustas, extrajudiciais e mais autoritárias. A globalização, o individualismo contemporâneo e a transformação digital (especialmente através das redes sociais) enfraqueceram os laços sociais locais e os códigos morais partilhados. Isto facilita o surgimento de grupos radicalizados – extrema-direita, extrema-esquerda ou até anarquistas (designados hoje por niilistas urbanos) – que usam a violência como forma de expressão simbólica ou política. Além disso a mobilização online permite organizar rapidamente ações disruptivas. O anonimato ou a espetacularização dos atos favorece o contágio. E por fim, a resposta policial e judicial sente-se condicionada pelo medo da acusação de abuso.

Nos contextos ocidentais, especialmente na Europa e na América do Norte, as polícias têm atuado com grande contenção para evitar acusações de brutalidade ou racismo estrutural. Essa prudência, embora compreensível, tem sido interpretada por certos grupos como fraqueza do Estado, encorajando ações de confronto com o sistema. Isso é especialmente visível em bairros urbanos periféricos onde estão instalados, por inerência da natureza das coisas, os palcos onde se manifesta a violência que acaba por ser instrumentalizada pelas forças políticas radicalizadas pela ideologia. Em certos meios intelectuais, artísticos ou universitários, formas de violência simbólica ou mesmo física passaram a ser justificadas como resistência legítima, sobretudo quando associadas a causas identitárias, ambientais ou sociais. Essa ambiguidade moral corrói a distinção clara entre protesto democrático e delinquência violenta.

Em suma: O Estado de Direito não está em colapso, mas enfrenta uma crise de autoridade, de eficácia operacional e de legitimidade simbólica. A sensação de impunidade nasce não apenas da ineficácia punitiva, mas da perda de consenso coletivo sobre o que é inaceitável no espaço público. Reforçar o Estado de Direito exige não só mais meios para a polícia ou tribunais, mas também restaurar a confiança no contrato social, promovendo justiça percebida como equitativa e normas sociais partilhadas.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

A dicotomia "nós/eles"


A dicotomia "nós/eles" não é, em si, essencialmente racial, embora o racismo seja uma das suas manifestações mais perniciosas e persistentes. Essa dicotomia é, antes de tudo, uma estrutura mental profundamente enraizada na cognição humana, usada para organizar o mundo social. O que muda ao longo do tempo é o contexto.

A identidade coletiva pode mudar conforme a situação. Um indivíduo negro e um branco que torcem pelo mesmo clube ou servem no mesmo exército podem, naquele momento, formar um “nós” coeso, independentemente das suas diferenças fenotípicas. Isso mostra que as fronteiras identitárias são móveis e contingentes. Assim o racismo se vai apropriar de marcadores biológicos (cor da pele, traços físicos) para justificar estruturas de poder, mas esses marcadores só ganham relevância dentro de contextos históricos e culturais específicos. Em contextos alternativos, outros marcadores culturais podem eclipsar o fenótipo como critério primário de diferenciação.

Das dicotomias culturais mais relevantes temos a linguagem, a religião, os costumes e até preferências estéticas podem dividir grupos com mais intensidade do que traços físicos. Muitas guerras civis ou genocídios ocorreram entre povos praticamente indistinguíveis biologicamente (como hutus e tutsis no Ruanda, ou sérvios e bósnios na ex-Jugoslávia), mas separados por construções culturais e políticas.

Estudos têm mostrado que as pessoas discriminam até com base em grupos arbitrários, como as claques de futebol: “grupo azul” versus “grupo vermelho” versus “grupo verde”. Mesmo sem história ou conflito anterior, isso confirma a facilidade com que o cérebro humano forma dicotomias artificiais. Assim podemos concluir que na dicotomia “nós/eles”, a cultura tem o primado sobre a biologia. As dicotomias mais potentes e duráveis são culturais, não naturais. O que importa não é o que vemos, mas o que foi ensinado a ver como relevante. A biologia fornece o palco; a cultura escreve o enredo.

A divisão entre "nós" e "eles" é, na verdade, extremamente plástica. Diante de certas circunstâncias, como a partilha de um gosto musical, a pertença a um mesmo clube desportivo ou a adesão a uma causa comum, a diferença fenotípica pode tornar-se irrelevante. Nesse sentido, o racismo não é uma expressão inevitável da biologia humana, mas uma construção cultural que se vale da biologia como pretexto.

Diversos estudos da psicologia social, como os realizados por Henri Tajfel e John Turner, demonstraram a facilidade com que seres humanos podem discriminar entre grupos baseados em diferenças absolutamente arbitrárias, como cores de camisa ou atribuições aleatórias de grupo. A tendência à formação de grupos e à exclusão do "outro" é, portanto, uma disposição cognitiva generalizada, mas o critério de inclusão/exclusão é moldado pelas condições culturais e históricas.

A esse respeito, a história oferece múltiplos exemplos de conflitos violentos entre povos quase idênticos do ponto de vista biológico. Sérvios e bósnios, hutus e tutsis, católicos e protestantes: todos esses grupos se envolveram em guerras fratricidas fundamentadas em distinções culturais, religiosas ou simbólicas, não fenotípicas. Esses exemplos reforçam a tese de que as dicotomias mais potentes são aquelas definidas pela cultura, não pela biologia.

Em suma, o racismo é apenas uma das muitas formas que a dicotomia "nós/eles" pode assumir. Em determinadas conjunturas, ele pode ser superado ou mesmo eclipsado por outros tipos de identificação e pertença. Isso não diminui a sua gravidade enquanto prática social, mas aponta para a necessidade de combater não apenas os preconceitos raciais em si, mas o mecanismo mental mais profundo que os sustenta: a tendência de atribuir valor moral e social à diferença. Portanto, para uma sociedade verdadeiramente inclusiva, não basta negar o racismo; é preciso problematizar o próprio impulso humano de segmentar, hierarquizar e excluir. E é na esfera cultural que esse trabalho se mostra mais promissor e urgente.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Pathos e ethos na filosofia grega. Emoção como forma de conhecimento


Pathos (πάθος) significa literalmente -- "aquilo que se sofre", "aquilo que se sente". É o campo das emoções, dos sentimentos, das paixões. Mas na Grécia Antiga, o pathos não era uma coisa negativa, mas uma força que nos fazia ver como era a realidade nua e crua do mundo humano. Uma maneira autêntica de experimentar a realidade que não queremos. No teatro grego -- as tragédias de Sófocles, Ésquilo, Eurípides -- o espectador era "arrebatado" pelo pathos. As pessoas sentiam dentro de si o sofrimento do herói. O herói na tragédia grega simboliza o destino a que um mortal não pode fugir.

Ethos (ἦθος) é outra coisa: é o caráter, a postura, o modo de ser que molda a nossa ação no mundo. No contexto grego, especialmente em Aristóteles (Retórica), o ethos é a maneira como um indivíduo apresenta a sua credibilidade, a sua "autoridade moral". Não é só a moralidade em si, mas o tom, o estilo de vida, a coerência entre palavras e atos. O ethos é a maneira como a nossa alma se manifesta no mundo. E, através disso, como somos percebidos pelos outros.

Como Pathos e Ethos se ligam à intuição sábia? Quando falamos de sabedoria intuitiva, como a dos poetas ou do povo nas assembleias irritadas com os políticos, estamos numa conjugação entre Pathos (sentir profundamente as coisas, captar a verdade através da emoção, da dor, da esperança, da desilusão) -- e Ethos (a apresentação dessas percepções de modo autêntico, com um estilo de vida ou expressão que corresponde à verdade interior). A sabedoria popular, bem como a dos poetas, não vem só de sentir (pathos), nem só de ter caráter (ethos). Vem de sentir profundamente e expressar isso com autenticidade. É por isso que um simples provérbio -- "quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga" -- pode ter mais verdade de vida do que muitos tratados de filosofia moral. A verdadeira intuição sábia é aquela onde pathos e ethos estão unidos. É preciso sentir profundamente a vida, e expressá-la com verdade.

O Camelo (aquele que carrega pesos, obedecendo a regras impostas); o Leão (aquele que se rebela e diz "não" aos antigos senhores e mandamentos);  a Criança (a última metamorfose, aquele que cria novos jogos, novas regras, novo sentido, livremente) -- Eis o pathos da existência em movimento que Nietzsche descreve nas três metamorfoses do espírito. A metáfora de Nietzsche quando fala do espírito de criança no Assim Falava Zaratustra. O Übermensch é como uma criança. Não porque seja ingénuo, mas porque é livre para criar, mesmo sabendo que existe um abismo. Nietzsche escreve: "O espírito torna-se criança: um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer Sim." Pathos (sentir a vida) + Ethos (criar o modo de viver) = Übermensch. ethos de nunca se fixar numa ilusão da perfeição. Ambos são, à sua maneira, manifestações dessa intuição nietzschiana: não há um porto seguro eterno. Há o mar aberto da vida.