Quando o medo é exagerado ou mal dirigido, vira ódio. Medo do que é diferente, medo do outro. Violência: ataque como forma de "defesa preventiva". Guerras: sociedades inteiras mobilizadas pelo medo do "inimigo". Opressão: controlo de grupos para evitar "ameaças internas". Desumanização: para não sentir culpa ao atacar, transforma-se o outro em algo "inferior". É ao mesmo tempo paradoxal: o medo protege a vida e, quando cresce demais, mata a vida. É quase como se o medo fosse um medicamento essencial, mas que, em doses erradas, se transforma em veneno letal. Em termos evolutivos, o excesso de medo foi, por muito tempo, mais "útil" do que a falta dele. Era melhor fugir de um ruído inofensivo do que ignorá-lo, uma vez que no caso de ser o rugido de um predador, a fuga evitaria o que se diz com humor: "já foste". O problema é que no mundo moderno, os medos continuam, mas os perigos reais são diferentes. E nós ainda carregamos no corpo e na mente um "sistema de alarme" muito primitivo.
Desde as primeiras organizações humanas, quem conseguiu dominar o medo coletivo conseguiu dominar o grupo. Nas sociedades antigas, os fenómenos naturais (relâmpagos, secas, doenças) eram vistos como ira divina. Sacerdotes e xamãs surgiram como intermediários: "Só nós sabemos como apaziguar os deuses". No Egito Antigo, o faraó era considerado filho dos deuses; desobedecê-lo era ofender as forças da natureza. Reis, imperadores e chefes de tribo justificaram a sua autoridade dizendo proteger o povo de invasores bárbaros, hereges, estrangeiros. O Império Romano justificava guerras preventivas alegando que os povos germânicos eram ameaças existenciais. No século XX, regimes totalitários criaram a figura do "inimigo interno e externo" (judeus, comunistas, estrangeiros).
A religião cristã medieval explorava intensamente o medo existencial ou escatológico - medo do Inferno e do Juízo Final - para manter a disciplina social. Indulgências vendidas: "Pague agora e evite o fogo eterno." Em muitos impérios asiáticos, também havia a noção de karma usado como instrumento de controlo social: "obedeça agora para ter boa sorte na próxima vida". O medo é, ainda hoje, talvez o "recurso natural" mais poderoso para governar.


