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segunda-feira, 27 de abril de 2020

O que diz um dos meus velhos: Edgar Morin




Edgar Morin, aos 98 anos, depois de conferir uma leitura sobre o isolamento social por causa desta pandemia do Covid-19, fez uma desconstrução da crença em verdades absolutas: “As certezas são uma ilusão”. Ainda que os métodos científicos sejam mais rigorosos que os debates de ideias acerca da democracia, tal como esta, a ciência não é mais do que uma realidade humana. Morin acredita que somos obrigados a encarar mais as incertezas, do que as certezas. Mas que podemos abraçar a oportunidade de reforçar a consciência das verdades humanas que fazem da vida a qualidade que dá vontade de viver: o amor; a amizade; comunhão e solidariedade. Estes são os factos certos para os quais devemos despertar todos os dias. Nestas certezas Morin acredita.

Edgar Morin faz uma observação ao facto de todos terem ficado tranquilos ao verem Emmanuel Macron cercado por um conselho científico. Mas depois viram que esses cientistas defendiam pontos de vista divergentes uns dos outros, muito diferentes, muito contraditórios. Muitos cientistas têm ignorado a contribuição dos epistemólogos da ciência, como Thomas Kuhn, que mostrou como a história da ciência é um processo descontínuo. O episódio por que estamos a passar hoje pode, portanto, ser o momento ideal para consciencializar os cidadãos e os investigadores da necessidade de entender que as teorias científicas não são absolutas. A incerteza é a principal característica. 
Não há nenhuma teoria científica que tenha um valor absoluto e permanente. Ainda nenhuma teoria conseguiu resistir à refutação da experimentação. Mesmo as mais geniais produzidas por um Darwin ou um Einstein.

Então se estes génios também cometeram erros graves, não é de admirar que com os restantes cientistas aconteça o mesmo, quer dizer, muito mais vezes. Todavia, os erros de génio acabam por ser ainda mais virtuosos, porque geralmente acabam por ser eles a abrir novas portas para mais descobertas. Mas é preciso perceber que pelo facto de constituírem progressos fantásticos no campo da ciência, não significa que tenham algum valor em relação à verdade. O maior erro que um cientista pode cometer é ser relutante em admitir que pode estar errado. Até porque é através dessa atitude que acaba por se obstinar contra novas ideias. O próprio Max Planck reconheceu isso ao dizer que muitos progressos em ciências só acabam por vencer, e aparecer à luz dos holofotes da geração seguinte, porque mais cedo ou mais tarde os seus opositores acabam por morrer. Porque se não fosse assim, a ciência não progredia.

Naturalmente, cientistas do calibre de Darwin ou Einstein acreditavam que a sua intuição os guiaria em direção às respostas certas, mesmo quando viam que as ideias se transformavam a um ritmo alucinante. Como demonstrou António Damásio, e outros neurocientistas, os humanos não são seres puramente racionais, capazes de barrar completamente as suas paixões. É que o córtex orbitofrontal integra as emoções na corrente do pensamento racional. O homem continua a exibir na sua estrutura corporal a marca indelével da sua modesta origem.

Immanuel Kant terá escrito algures que quanto mais ocupava a mente, e se intensificavam as suas elucidações, à medida que o céu estrelado o cobria e a lei moral crescia dentro de si, mais ele se admirava e assombrava. E a verdade é que desde a publicação da sua Crítica da Razão Prática (1788), realizamos progressos extraordinários na compreensão do "céu estrelado", mas pouco mais avançámos na elucidação da razão moral. Nada estamos mais longe da verdade quando afirmamos que os avanços científicos são puras histórias de sucesso. O caminho do progresso não está apenas carregado de enganos. Está também pejado de cadáveres. 

Edgar Morin diz que a Europa é um esqueleto vazio, dominada por interesses económicos. A democracia está em crise. Porquê? Porque há uma crise do pensamento político minado pela corrupção no seio da própria democracia. E o resultado está à vista com o reavivar das autocracias, tanto dentro da União Europeia com os exemplos da Hungria e da Polónia, para não apontar outros, e fora da Europa, mas perto dela existe a Rússia e a Turquia. Já para não falar dos dois líderes mais arrepiantes dos últimos tempos: Trump e Bolsonaro.

É certo que houve sempre perigos ao longo da história humana. Mas não tão concentrados e tão globais como agora. E o caso mais gritante neste século XXI é o perigo de o planeta ser inviável para a vida humana por causa das alterações climáticas e da destruição dos ecossistemas pela mão dos mesmos seres humanos que se autoclassificaram de sapiens desde há pelo menos 200.000 anos. As rebeliões andam aí por todo o lado, contra este sistema capitalista. Mas tem sido de forma anárquica, sem um pensamento que indique qual é a via que temos que seguir. E as coisas são assim porque os problemas são multifactoriais e muito complex+os, o que aumenta a incerteza. E as pessoas são muito sensíveis à incerteza, provocando uma grande angústia e medo. Dois grandes motores da História para a regressão civilizacional.

Esta pandemia veio relembrar que a incerteza permanece um elemento inexpugnável da condição humana. “Não estou dizendo que previ a epidemia atual, mas ando a dizer há vários anos, que com a degradação da nossa biosfera, devemos nos preparar para o desastre” – é a resposta de Edgar Morin. Em 2000, a globalização era um processo que poderia causar tanto dano quanto benefício. Aos 98 anos Edgar Morin é um homem que já viu muito mundo a desmoronar: “desde a guerra da Jugoslávia depois da queda do Muro de Berlim, a partir desse momento, fiquei intelectualmente preparado para enfrentar o inesperado, para enfrentar as convulsões que haviam de vir apesar da minha provecta idade”. É num dos significados que a palavra “crise” contém: oportunidade, que nos devemos focar. Oportunidade para quê? Para nos tornarmos permanentemente conscientes de verdades humanas que todos conhecemos, mas que estão reprimidas no nosso inconsciente. 

Estamos perante duas barbáries: uma tem a ver com a génese histórica humana, e que se concretiza nas guerras, e no domínio de uns sobre outros na forma de servos e escravos. É uma barbárie que vem de dentro do homem, e que decorre do medo: medo do Outro, do Estrangeiro. É o medo que provoca o isolamento mental, que leva a desprezar, e a humilhar. Que é o que se tem passado ultimamente no Mediterrâneo com os migrantes, com os refugiados, milhares deles mortos no fundo do mar; a outra tem a ver com o atual estado de coisas provocado por este sistema capitalista global, desregulado mas aio mesmo tempo alimentado pelo paradigma científico do cálculo, da redução analítica ao meramente lucrativo, ao meramente hedónico.

sábado, 23 de maio de 2020

1492 – 1942


1492 

Edgar Morin apercebeu-se muito cedo que a sua identidade francesa não era aquilo que parecia quando alguém lhe perguntava onde tinha nascido o seu pai e ele respondia Salónica. Então diziam: “Ah, é grego!” Não porque Salónica era turca quando ele nasceu. “Então é turco?” Não, ele era de origem espanhola… “Então é espanhol?” Não…, etc. Não sabia indicar nem compreender a sua nacionalidade de origem. Edgar Morin era descende de uma família judia oriunda da Península Ibérica, que teve de fugir para Itália durante o êxodo a seguir ao édito de expulsão dos Reis Católicos em 1492. Só mais tarde essa família se mudou para Salónica, onde viria a nascer o seu pai, cidade do Império Otomano que viria a deixar de ser depois de 1911. A cidade distinguia-se pela sua população maioritariamente judaica de origem sefardita, em consequência desse êxodo. De facto, o pai era de Salónica, quer dizer, oriundo de uma cidade de império, anterior à fase dos nacionalismos, povoada em mais de 60 por cento por sefarditas espanhóis que formavam ali uma unidade cultural. No entanto, desde há pelo menos três gerações que se haviam laicizado, comiam presunto e ignoravam o kasherA língua mais usada na cidade era o ladino, a língua derivada do castelhano falada pelos judeus sefarditas. E era a língua que o pai de Edgar Morin falava com os seus pais. Depois o pai emigrou para França, onde viria a adquirir a nacionalidade francesa por naturalização.

Um judeu famoso dessa diáspora espanhola é Isaac ben Judah Abravanel, que conheceu bem João de Torquemada e Tomás de Torquemada, este o protagonista principal da perseguição aos judeus sefarditas, e aos conversos, nome dado aos judeus que se converteram ao cristianismo, também chamados cristãos-novos, e pejorativamente marranos quando a conversão era tida como não sincera. Isaac Abravanel nasce em Lisboa em 1437. Entra ao serviço do rei Afonso V de Portugal como tesoureiro. A Família Abravanel era uma das mais antigas e distintas famílias judaicas sefarditas, que reivindicava como ascendência direta o bíblico Rei David. Viveram em várias cidades da Península,  sendo Judá Abravanel o mais antigo conhecido dessa família. Isaac possuía uma grande riqueza herdada de seu pai. Quando Arzila, em Marrocos, foi tomada pelos portugueses, e os prisioneiros judeus foram vendidos como escravos, ele contribuiu largamente com os fundos necessários para os libertar. No tempo de D. João II [1455-1495], chegou a ser acusado de conspiração com o Duque de Bragança. Avisado a tempo, Abravanel salvou-se, fugindo em sobressalto para Castela em 1483, estabelecendo residência em Toledo. A sua grande fortuna foi confiscada por decreto real. Pouco depois começou a servir a casa de Castela, para satisfação total de Isabel, a Católica [1451-1504]. Mas quando foi decretada a expulsão dos judeus de Espanha em 1492, Abravanel teve de deixar Espanha e foi viver para Nápoles, onde em breve entraria mais uma vez para os serviços do rei. Por um período curto, porque quando Fernando I morreu em 1494, Carlos VIII de França invadiu a Itália, com a pretensão angevina ao trono de Nápoles, que seu pai tinha herdado por morte de René de Anjou, em 1481, que era seu sobrinho. Depois de um período de vida errante, chegou a Veneza em 1503, onde os seus serviços foram empregues na negociação de um tratado comercial entre Portugal e a República de Veneza. E aqui morreu em 1508. Nesse ano, Fernando II de Aragão, o Católico, foi regente de sua filha Joana, conhecida como Joana, a Louca, rainha de Castela e Leão desde 1504.

A pena mais leve imposta aos marranos era o confisco dos seus bens. Os Reis Católicos, Isabel e Fernando, precisavam de receitas, e a perseguição movida aos hereges por Torquemada era uma fonte de renda que interessava ao Estado. Isabel e Fernando autointitulavam-se "protetores da Igreja e defensores da fé". A etapa seguinte era a morte na fogueira, durante os chamados autos-de-fé, após inomináveis torturas. Torquemada, no afã de obter dos Reis Católicos a expulsão definitiva de todos os judeus, promoveu em 1490 um julgamento-espetáculo, onde as vítimas, oito judeus, foram acusados de praticar rituais satânicos e de crucificar crianças cristãs. Pressionados pelo clima de crescente intolerância, em 31 de março de 1492 Fernando e Isabel publicaram então o Édito de Expulsão. Muitos fugiram para Portugal ou Norte da África, onde enfrentaram mais perseguições. E uma boa parte foi para Salónica. Mas alguns, sem alternativa, permaneceram escondidos. Em Salónica, os sefarditas, desde 1492 até 1911, nunca haviam sofrido qualquer vexame. Por isso, não carregavam na sua consciência o menor sentimento de exclusão. Em 1942, quando Edgar Morin se convenceu que o combate comunista contra o nazismo era o combate pela salvação da humanidade, tornou-se um resistente comunista. Um amigo, pensando na Condição Humana de Malraux, disse-lhe: “Você é daqueles que são deitados nos fornos das locomotivas”.

1942

Em 1942 tiveram início as deportações em massa para os campos de concentração, sendo que muitos destes eram enviados logo para os campos de extermínio. Isso seria a solução final da questão judaica, posteriormente conhecida como Holocausto. Após a invasão da Polónia, os nazis estabeleceram guetos em que judeus e alguns ciganos foram confinados até serem finalmente enviados para os campos de extermínio. Cada gueto era administrado por um Judenrat (Conselho Judaico) composto por líderes da comunidade judaica alemã, que eram responsáveis pelo dia a dia do gueto, como a distribuição de alimentos, água, medicamentos e abrigo. A estratégia básica adotada pelos conselhos era de uma tentativa de minimizar as perdas, em grande parte, cooperando com as autoridades nazis (ou seus substitutos), aceitando o tratamento cada vez mais terrível e pedindo por melhores condições e clemência. Os conselhos também eram responsáveis por fazer os arranjos para as deportações dos judeus para campos de extermínio. Portanto, o momento definidor que testou a coragem e o caráter de cada Judenrat veio quando eles foram convidados a fornecer uma lista de nomes do próximo grupo a ser deportado para os campos. Os membros do Judenrat tentavam métodos como suborno, obstrução, súplica e argumentação, até que, finalmente, uma decisão tinha de ser tomada. Alguns, como Chaim Rumkowski, argumentam que a sua responsabilidade era salvar os judeus que poderiam ser salvos, e que, portanto, outros tinham que ser sacrificados. Enquanto outros afirmam que nenhum indivíduo que não tivesse cometido um crime capital deveria ser entregue. Líderes dos Judenrat, como o Dr. Joseph Parnas em Lviv, que se recusaram a compilar uma lista foram baleados. Em 14 de outubro de 1942, todo o Judenrat de Byaroza cometeu suicídio em vez de cooperar com as deportações.

No dia 17 de março de 1942, começou a Operação Reinhard. O projeto de genocídio foi comandado pelo líder das SS e chefe da polícia de Liubliana, Odilo Globocnik. Tanto ele como o seu grande número de colaboradores eram austríacos. Nos três grandes centros de aniquilamento com câmaras de gás (Belzec, Sobibor e Treblinka), foram executados mais de 1,5 milhão de judeus e 50 mil ciganos entre março de 1942 e novembro de 1943. Ao todo, a operação levou à morte mais de 2 milhões de judeus. Os preparativos para a operação já haviam começado no final do ano de 1941, mas somente em 1942 ela recebeu o nome de Reinhard Heydrich, que havia morrido num atentado. O objetivo era o genocídio sistemático dos judeus poloneses e o confisco dos seus bens.

Himmler ordenou o início das deportações em 19 de julho de 1942 e, três dias depois, em 22 de julho, as deportações do gueto de Varsóvia começaram e se estenderam ao longo dos seguintes 52 dias, até 12 de setembro, quando trezentas mil pessoas, apenas de Varsóvia, foram deportadas para o campo de extermínio de Treblinka. Muitos outros guetos foram completamente esvaziados. A primeira revolta num gueto ocorreu em setembro de 1942, na pequena cidade de Łachwa, no sudeste da Polónia. Embora tentativas de resistência armada tenham surgido nos guetos maiores em 1943, como o Levante do Gueto de Varsóvia e do Gueto de Bialystok, em todos os casos elas não conseguiram lutar contra a esmagadora força militar nazi. E os judeus rebeldes foram mortos ou deportados para os campos de extermínio. Himmler havia encarregado Globocnik e outros, com experiência em eutanásia, para darem seguimento à operação. Os campos de extermínio recebiam por dia um comboio com 60 vagões lotados de pessoas destinadas às câmaras de gás. Depois os corpos eram depositados em enormes valas. Só um ano depois, os cadáveres foram exumados e queimados. A Operação Reinhard foi encerrada em novembro de 1943, com um saldo de mais de 2 milhões de judeus mortos.

A partir do outono de 1942, Edgar Morin passou a viver uma vida de dupla personalidade em Lyon, onde se travavam relações de simpatia com outros resistentes dos MUR (Movimentos Unidos de Resistência), simpatizantes comunistas em vias de se tornarem "submarinos" do Partido. Os militantes do Partido eram tipo Loyola: severos, implacáveis falando uma linguagem ritualizada, a que se começou a chamar "língua de pau". Com esse tipo de camaradas não se podia ter nenhum desabafo pessoal. Edgar Morin também se tornou um submarino:
«[...] Robert Antelme relatou-me, após o seu regresso da deportação, que no dia em que eu tinha uma entrevista com um certo número de responsáveis do Movimento, entre os quais François Mitterrand, a minha chegada foi anunciada com um: "atenção, é um comunista". Durante três anos, até 1948, continuei a dizer-me comunista já tendo deixado de o ser. Mudei de residência e não recuperei o meu cartão do Partido. Mas não o confessei. Em 1951 aceitei um convite para uma reunião feita pelo porteiro, que era do Partido. Eu julguei que era uma reunião de antigos combatentes da paz. Para minha surpresa tratava-se de uma célula comunista, à qual supostamente devia pertencer. Conclusão: tratava-se de um ritual de excomunhão. Estranhamente marrana. Tinha partido do Partido, embora continuasse a fazer parte dele enquanto não me submetesse à cerimónia ritualizada de excomunhão.
O marranismo ofereceu à cultura europeia moderna um Montaigne e um Espinosa. Uma prodigiosa diáspora cultural. Existiram também convertidas que, como Teresa d'Ávila, encontraram no êxtase da comunhão mística um Além da Lei judaica e da norma católica. Existiram cabalistas que camuflaram o seu culto da Sechiná, substância feminina da Divindade segundo a Cabala, com o culto à Virgem Maria. A soberania do espírito livre que não só observa o mundo, os costumes, mas também a autocondição, é a energia crítica do pensamento interrogativo de Montaigne.
Descobri que os meus ascendentes mais longínquos que consegui vinham todos de Livorno, e que uns provinham de marranos emigrados de Portugal para Amsterdam, em meados do século XVII. Outros eram originários de Aragão. Senti-me feliz por encontrar no século salónico das minhas três gerações anteriores, em vez da sinagoga, uma laicidade formada no grão-ducado da Toscânia.[...] »

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Edgar Morin


Hoje volto a Edgar Morin, 
A Fisga: Resultados da pesquisa para Edgar Morin (ferndias.blogspot.com)

Porque hoje ele faz 100 anos ainda vivos. E Edgar Morin é aquele pensador do nosso tempo que nos avisou que a compreensão da Complexidade (com letra grande) é que nos podia ajudar. E que a simplificação só nos podia tramar, porque era o alimento dos demagogos e populistas. Quem decide no meio de uma pandemia? Os cientistas ou os políticos? Os epidemiologistas ou os psiquiatras? No meio desta confusão, é normal que estejamos desorientados.




Le Paradigme Perdu: la nature humaine, Le Seuil, 1973 – resultou da sua comunicação, depois ampliada, "The Lost Paradigm: Human Nature", proferida em setembro de 1972, no Centro Internacional de Estudos Bioantropológicos e Antropologia Fundamental (CIEBAF), que mais tarde se tornou o Centro Royaumont para a Ciência do Homem. Tratou-se de uma conferência internacional subordinada ao título "A Unidade do Homem", que Edgar Morin coorganizou com Jacques Monod e Massimo Piatelli-Palmarini.

Já em 1971, eu havia tido o privilégio de ir a Paris a pretexto da viagem de curso dos finalistas do Liceu Sá de Miranda em Braga. Em Paris ficamos no Hotel Vaugirard, nº 403 rue du Vaugirard, uma rua muito comprida e onde morava Michel Foucault no nº 285. 1971 também foi o ano do Festival de Vilar de Mouros onde atuou Elton John, tendo eu também tido o privilégio de assistir. Durante algum tempo nós tínhamos a vaidade de dizer: "eu também lá estive". Mas isto para dizer que o mundo nessa altura ainda nos parecia ser um mundo compreensível, em que tudo estava no seu lugar. Pelo menos era assim que eu pensava. Era compreensível, apesar de tremendamente injusto. Hoje temos muitíssima informação e dispomos de mais meios. Mas as injustiças, a pobreza e a miséria continuam e não param de aumentar. Hoje parece que há tudo, e de tudo, e em abundância. Mas essa abundância produz em nós uma desproporção que a torna difícil de digerir. Não nos falta informação, falta-nos orientação. E, todavia, vemos mais pessoas a perguntar qual é a fiabilidade da ciência. Isto porque ao fim de ano e meio de pandemia as pessoas estão cada vez mais confusas e irritadas. E cada vez me convenço mais de que o problema na comunicação, de que tanto se queixam os jornalistas, está mais no tipo de perguntas que eles fazem, do que nas respostas. As respostas poderiam ser mais compreensíveis e esclarecedoras se as perguntas não pecassem por ser logo à partida erradas, umas vezes por ignorância, mas noutras vezes parece ser de má-fé. 

Natureza e Cultura são inseparáveis ​​uma da outra, cada uma produzindo a outra num entrelaçamento recursivo permanente. Foram reunidos biólogos, antropólogos, sociólogos, matemáticos, cibernéticos com o objetivo de aproximar os pontos de vista, as oposições e as opções fundamentais das especialidades e as suas epistemologias. As crises agravam as incertezas, favorecem os questionamentos; podem estimular a busca de novas soluções e também provocar reações patológicas, como a escolha de um bode expiatório. São, portanto, profundamente ambivalentes. Para entender o que acontece e o que vai acontecer no mundo, é preciso ser sensível à ambiguidade. O que é a ambiguidade? Ela se traduz pelo facto de que uma realidade, pessoa ou sociedade se apresenta sob o aspeto de duas verdades diferentes ou contrárias, ou então apresenta duas faces, não se sabendo qual é a verdadeira. Tomemos o exemplo dos Estados Unidos: podemos ver neles a imagem da democracia, de um anteparo contra a ditadura, mas também do imperialismo, do intervencionismo no Iraque, do massacre das populações indígenas. Eles apresentam, portanto, esses dois rostos, e talvez um deles seja mais marcante que o outro em determinados momentos da sua história. 

Edgar Morin é um profundo admirador dos Pensamentos de Pascal, porque tem o sentido da ambiguidade. Para ele, o ser humano traz em si o melhor e o pior. Já Descartes, não aprecia tanto. A segunda coisa necessária para esse entendimento é a ambivalência: quando um processo apresenta dois aspetos de valores diferentes e às vezes contrários, é ambivalente. Tomemos um exemplo na história da Europa ocidental: a partir do século XVI, a Europa conquista o mundo, a África, a América, coloniza esses continentes e se mostra cruel, exterminadora, esclavagista. Simultaneamente, vale dizer, exatamente na época em que ela exerce a sua crueldade nessas regiões do mundo, a Europa também é o único lugar onde se desenvolveram as ideias que vieram a dar a Carta dos Direitos Humanos. Outra contradição foi a Revolução Francesa, com a aplicação à letra das teorias iluministas da Fraternidade Universal e da Liberdade. 

Essa Europa, portanto, é ao mesmo tempo cruel e civilizada, dupla face de que dão testemunho, à sua maneira, dois grandes espíritos da época, o primeiro, por seu combate, o segundo, por seus escritos: Bartolomé de Las Casas, católico (de origem judaica), obriga a Igreja a reconhecer que os indígenas têm alma; Montaigne (cuja família paterna era marrana, donde sua experiência da diferença) exclama: “São chamadas bárbaras as pessoas de uma outra civilização. E nós somos mais ferozes que os canibais que comem os inimigos mortos, considerando que o que fazemos é torturar pessoas vivas.” Em sua face positiva, portanto, a Europa oferece uma mensagem de compreensão dos outros, do humanismo cristão que nasce da confluência do evangelismo com as ideias gregas. Embora nos primeiros séculos esse aspeto fosse muito secundário, a Europa transformou-se em defensora dos valores de Liberdade. A ambivalência é assim integrada a um processo, como qualquer valor, podendo tornar-se mais ou menos importante.

Tomemos ainda como exemplo o processo de globalização, favorecido pela técnica e pelo desenvolvimento das comunicações, como a Internet e o telemóvel. A implosão da União Soviética e a explosão da China. Esse duplo fenómeno levou ao sequestro da política pela economia. Os Estados Unidos, por sua vez, agravou a sua tendência imperialista com um período de transição unipolar. E assim a Globalização gerou as suas próprias ambivalências: criação de novas zonas de prosperidade, de novas classes médias na Índia, na China, no Brasil, mas também de novas zonas de miséria. A esse respeito, devemos estabelecer uma diferença entre a pobreza e a miséria: uma família que vive num pequeno lote de terra com policultura e animais de criação é pobre mas tem um mínimo de dignidade e autonomia, ao passo que as pessoas tiradas do campo para serem atiradas para bairros de guetos numa dependência absoluta. Podemos discutir longamente as vantagens e desvantagens dessa globalização, mas é a miséria que domina. A
 política, na sua forma atual, não é adequada ao mundo contemporâneo. E os avanços tecnológicos são de tal modo avassaladores que estão a colocar em perigo a própria Democracia. Cada novo conhecimento desencaixa o já existente, gerando novas incertezas. Cada tecnologia instaura um nível de segurança suplementar, gera um vazio normativo e novos medos existenciais. Agora estamos na fase de perceber como será o momento posterior à digitalização veloz a que assistimos. Sendo a democracia autodeterminação e governo do povo, o que se passa quando se alargam os sistemas automáticos de decisão? Cada vez há mais coisas decididas por um algoritmo. Isso proporciona oportunidades, mas cria novos riscos dentro do núcleo normativo da Democracia.

A Complexidade tem a ver com elementos que estão densamente inter-relacionados. Que não tem nada a ver com "complicação", que é um conjunto de elementos amontoados. Uma pandemia é uma coisa complicada, mas uma família confinada é uma coisa complexa. Pensar a realidade, a sociedade e as instituições sob uma lógica de complexidade significa olharmos para o modo como as pessoas ou os elementos do sistema interagem. 
A expressão ‘achatar a curva’, no contexto da análise da pandemia, é uma aquisição do pensamento complexo, que percebe que há certas coisas que são inevitáveis mas que o relevante é conseguir que não interajam de forma dramática. Por outro lado, surgiu com força a ideia de que os problemas têm uma natureza cosmopolita, porque requerem estratégias partilhadas e cooperação e porque o que se está a passar nos afeta a todos.

Mas a nossa tendência, e os média, é ver as coisas de forma simplista. As oposições e a chamada "opinião pública" culpa o governo. E o governo culpa os comportamentos individuais no agravamento da transmissão da infeção. E no meio disto, esqueceram-se de que havia uma economia interdependente, com uma governança vinda de fora, com uma medição dos riscos ao nível do global. De qualquer modo a Europa demorou menos a pôr em cima da mesa estratégias partilhadas e fundos à disposição de todos do que na crise financeira anterior.

Se as ciências sociais já estavam em crise há muito tempo, esta pandemia veio pregar mais alguns pregos no seu caixão. Para problemas como este, de uma pandemia à escala planetária, os instrumentos das ciências sociais são demasiado estáticos. Nos últimos anos têm sido as ciências matemáticas (para a inteligência artificial), e as ciências da natureza (para a catástrofe climática) que conseguiram contribuir para novos paradigmas de pensamento com alguma capacidade de resposta para a mitigação dos problemas. Veja-se o exemplo das vacinas. E ate neste caso, se tem havido empatas, eles provêm das franjas populistas das ciências sociais, como é o exemplo dos negacionistas, e dos desejosos de apocalipses.

As ciências da natureza, sobretudo a biologia e a conceção dos ecossistemas, têm uma ideia da realidade mais rica com conceitos mais fecundos como o de ‘emergência’ ou de ‘causalidade não linear’, elaborados num quadro de relações dos humanos com o seu ambiente muito mais denso e interativo do que a velha conceção da política. Quando os grandes teóricos da modernidade pensaram a política, viram-na como a saída do estado de natureza. Não era uma metáfora, mas a convicção de que a liberdade humana se exercia em contraste com as leis da natureza. Isto hoje não faz qualquer sentido. A crise ecológica revelou-nos que somos parte de uma totalidade e que devemos perceber-nos como seres nela inseridos. Os seres humanos têm uma grande capacidade de reagir aos perigos imediatos e visíveis. 
Porém, a crise climática, que é mais grave do que a da pandemia, mas é vista como distante e menos mortal, não nos leva a modificar o nosso comportamento, nem em termos de consumo individual nem daquilo que os Estados deveriam acordar entre si nas grandes cimeiras mundiais.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Paradoxos e contradições do progresso tecnológico

Apesar do desenvolvimento técnico-científico em latitudes onde seria de esperar que o fosso entre ricos e pobres diminuísse, pelo contrário, aumentou. Longe de estar aqui a amaldiçoar o progresso, limito-me a constatar que o progresso não é mais do que uma solução parcial e contraditória da miséria humana. Chegou a pensar-se que o progresso tecnológico nos iria libertar das religiões. Mas o que aconteceu foi sermos manipulados pelos mercados de consumo rápido e globalizado. E, apesar de dispormos de mais meios de informação, continuamos a ser enganados e surpreendidos pelo inesperado.

A ciência é uma coisa boa. Mas contribuiu mais para o domínio da técnica do que para a literacia científica das pessoas comuns. E assim tem continuado a esterilização das classes trabalhadoras por multimilionários detentores do poder cibernético ultrarrápido. Os espantosos progressos complicaram ainda mais a vida às pessoas, ao ponto de disporem cada vez menos tempo para pensar nos valores que importam para a sustentabilidade das nossas vidas com harmonia e equanimidade.

Assim, a fulgurante expansão da Inteligência Artificial na Economia tem proporcionado não apenas coisas boas. O desemprego é um exemplo das coisas más.

Para cada responsável de uma empresa, um O grau de complexidade cresce à medida que se multiplicam as variáveis a ter em conta. É por isso que os CEO (a chief executive officer, the highest-ranking person in a company or other institution, ultimately responsible for taking managerial decisions) erram tantas vezes nas suas decisões.

Segundo Edgar Morin, a complexidade é aquilo que se teceu em conjunto para formar um todo que é mais do que a soma das suas partes. O conhecimento analítico dos diferentes fios que compõem uma tapeçaria não permitirá nunca o conhecimento da obra de arte na sua totalidade. A complexidade do real não pode ser dominada inteiramente, porque a complexidade das variáveis e das suas interações permite sempre certos resultados inesperados e não redutíveis à análise. Por conseguinte, o resultado de uma ação nunca é aquele que se tinha previsto. Seja uma pessoa, seja uma empresa, estamos a lidar com sistemas complexos, que como reagem ao contexto estão em constante transformação. Quanto mais informação, mais inter-relações se estabelecem, e maiores são as retroações (positivas ou negativas) que comportam certos efeitos de bloqueio ou feedback.

Se perguntar qual dos seguintes exemplos é mais complexo do que o outro: “um Boeing ou um prato de esparguete” – a resposta imediata é: “obviamente o Boeing”. Mas a resposta está errada. Um Boeing é complicado, mas não complexo. Um prato de esparguete é simples, mas complexo. Um avião, apesar de comportar milhares de peças diferentes a funcionar obedecendo a leis físicas cuja compreensão só está ao alcance de uma minoria de engenheiros, a verdade é que é possível montá-lo e depois desmontá-lo peça por peça e analisar tudo com toda a certeza. Como não pode estar à mercê da incerteza, não é complexo. Ao passo que um prato de esparguete é formado por um emaranhado de fios que deslizam uns pelos outros enredados em retroações completamente aleatórias, não se podendo prever que quantidade de esparguete podemos enrolar em cada ação de enrolamento à volta do garfo antes de o meter na boca. A incerteza é um dos aspetos da complexidade.

Evoquei Edgar Morin como um “sistémico” de excelência, entre muitos outros que também poderia mencionar como excelentes. Mas opto por evocar uma outa metáfora: “Os cavalos do lago Ladoga”. O lago Ladoga é o maior lago inteiramente localizado na Europa e o 14º maior lago de água doce do mundo. Está localizado na República da Carélia e no oblast de Leninegrado no noroeste da Rússia próximo da fronteira com a Finlândia. Um dia, quando certos cavalos entraram na água fria do lago Ladoga, não pressentiram o que lhes iria acontecer porque devido a uma descida brusca da temperatura a água congelou muito rapidamente que não deu tempo a que os cavalos pudessem sair da água. E os cavalos morreram presos no gelo.

Hoje podemos verificar que as nossas instituições também arrefecem muito depressa. A escalada irreprimível do desemprego, a iliteracia crescente dos funcionários, as condições de vida das periferias e as novas formas de pobreza não são mais do que manifestações visíveis da congelação institucional.

O Universo é um sistema, em que a auto-organização, a confiança, a aceitação dinâmica das contradições, a reflexão coletiva sobre o sentido, a imaginação e a iniciativa – são mais eficazes para enfrentar o imprevisto do que diretrizes rigidamente impostas de cima para baixo. Estas raramente chegam a ser aplicadas, porque a imaginação dos homens é suficientemente criativa para as contornar e contrariar.