domingo, 13 de março de 2022

O discurso do Reichsführer quando ainda pensava ganhar a guerra *



O Reichsführer falava obrigatoriamente ali em nome do Führer, e dizia aquilo, aquelas palavras que não deviam ser ditas, e tomava nota meticulosamente dos presentes e ausentes. Dos chefes da SS, só não assistiam ao discurso: Kaltenbrunner, que estava com flebite; Daluege, com um problema sério no coração e de licença por um ou dois anos; Wolff, recém-nomeado HSSPF para a Itália e plenipotenciário junto a Mussolini; e Globocnik. A bela costa adriática daria um ótimo vazadouro para todas as pessoas sem serventia para nós, até Blobel viria a se juntar a eles um pouco mais tarde, quem sabe fossem mortos pelos guerrilheiros de Tito, isso nos pouparia parte do trabalho; e, quanto às personalidades do Partido, também foram notadas algumas ausências, mas nunca vi a lista. Tudo isso, portanto, o Reichsführer o fazia deliberadamente, sob instruções, e isso só podia ter uma razão: fazer com que mais tarde nenhum deles pudesse dizer que não sabia, pudesse tentar fingir, em caso de derrota, que era inocente do pior, pudesse jamais sonhar em tirar o cavalinho da chuva; era para amaciá-los, e eles percebiam isso muito bem, daí a sua angústia.

A Conferência de Moscovo, em cujo desfecho os Aliados juraram perseguir os “criminosos de guerra” até ao recanto mais remoto do planeta, ainda não acontecera, seria dali a algumas semanas, antes do fim do mês de outubro de 1943, mas a BBC já difundia, desde o verão sobretudo, uma propaganda maciça com esse tema, dando nomes, aliás com certa precisão, pois às vezes citava oficiais e até suboficiais de KL específicos, estava muito bem informada, a Staatspolizei por sinal se indagava como, e isso, é absolutamente exato observar, provocava um certo nervosismo nos envolvidos, ainda mais que as notícias da linha da frente não eram boas. Para preservar a Itália fôramos obrigados a desguarnecer a frente do Leste, e havia poucas chances de que conseguíssemos permanecer no Donetsk. Já perdêramos Briansk, Smolensk, Poltava e Krementchug, a Crimeia estava ameaçada, em suma, qualquer um podia ver que a coisa ia mal, e certamente vários deviam ser os que se perguntavam sobre o futuro, o da Alemanha de um modo geral, naturalmente, mas o deles em particular também.

Daí uma certa eficácia dessa propaganda inglesa, que não apenas desmoralizava alguns, citados, mas também outros, ainda não citados, encorajando-os a pensar que o fim do Reich não significaria automaticamente o seu próprio fim, tornando, por conseguinte, o espectro da derrota um pouquinho menos inconcebível. Isso é plausível, em todo o caso, no que se referia aos quadros do Partido, da SS e da Wehrmacht, a necessidade de os fazer compreender que uma eventual derrota também lhes dizia respeito pessoalmente, uma tentativa de motivá-los um pouco, que os pretensos crimes de alguns seriam aos olhos dos Aliados crimes de todos, no nível do aparelho em todo o caso, que todos os navios, ou pontes, como quiserem, ardiam em chamas, que não existia possibilidade de voltar atrás, e que a única salvação era a vitória.

E, com efeito, a vitória teria colocado tudo nos eixos, pois, se tivéssemos vencido, imaginem por um instante, se a Alemanha houvesse esmagado os vermelhos e destruído a União Soviética, nunca teria existido essa balela sobre crimes, ou melhor, teria, mas sobre crimes bolcheviques, devidamente documentados graças aos arquivos confiscados. Os arquivos do NKVD de Smolensk, evacuados para a Alemanha e recuperados no fim da guerra pelos americanos, desempenharam exatamente esse papel quando enfim chegou a hora em que foi preciso quase de um dia para o outro explicar aos bons eleitores democráticos porque os monstros infames da véspera deviam agora servir de muralha contra os heroicos aliados da véspera, então revelados como monstros ainda piores.

Stalin, como sabemos, zombava daqueles processos, tomava-os pelo que eram, uma hipocrisia, ainda por cima inútil. E depois todo o mundo, ingleses e americanos à frente, teria composto conosco, as diplomacias se realinhariam de acordo com novas realidades, e, apesar da inevitável gritaria dos judeus de Nova Iorque, os da Europa, que de toda a forma não iriam fazer falta a ninguém, teriam sido considerados perdas e danos, como todos os outros mortos aliás, ciganos, polacos, sei lá mais o quê.

Durante os anos 30, o que acontecia na Rússia, Roosevelt sabia. Esse amigo dos homens nunca se impediu de enaltecer a lealdade e humanidade de Stalin, a despeito aliás das repetidas advertências de Churchill, um pouco menos ingénuo sob certo ponto de vista, um pouco menos realista de outro, e se, portanto, tivéssemos feito a nossa parte e efetivamente vencido essa guerra, teria decerto acontecido a mesma coisa, aos poucos os empedernidos, que não teriam deixado de nos chamar de inimigos da espécie humana.

A Grã-Bretanha e a França viram-se obrigadas a garantir a estabilidade a fim de restaurar a ordem em suas colónias insurgentes ou, no caso dos Estados Unidos, de garantir a estabilidade do comércio mundial e combater os focos de revolta comunistas, como, aliás, sempre acabaram por fazer, com os resultados que conhecemos. Pois seria um erro grave pensar que o senso moral das potências ocidentais difere tão fundamentalmente do alemão. Afinal, uma potência é uma potência, e não se torna uma por acaso, ou tampouco permanece como tal. Os monegascos, ou os luxemburgueses, podem dar-se ao luxo de uma certa retidão política; é um pouco diferente no caso dos ingleses. Não era um administrador britânico, educado em Oxford ou em Cambridge, que já em 1922 preconizava massacres administrativos para garantir a segurança das colónias, lamentando amargamente que a situação política in the Home Islands tornasse impossíveis essas medidas salutares?

Não conviria reconhecer que a França, na véspera da Grande Guerra, atuava com muito mais intensidade no domínio do antissemitismo (sem falar na Rússia dos pogroms. E os planos, como sabemos, eram ainda mais ambiciosos: para os russos, a limpeza natural necessária deveria atingir, segundo os especialistas do Plano Quadrienal e do RSHA, trinta milhões, quando não se situar entre quarenta e seis e cinquenta e um milhões segundo o parecer dissidente de um Dezernent um tanto zeloso do Ostministerium.
O Reichsführer, transcorridos sete meses, fez-lhe então compreender que a sua proposta era interessante, mas prematura: “Vocês devem achar que os entretenho com demasiada frieza acerca de tudo isso. É, simplesmente, a fim de demonstrar que a destruição, sob nossos auspícios, do povo de Moisés, não procedia unicamente de um ódio irracional pelos judeus. A que ponto os antissemitas do tipo emocional eram malvistos no SD e na SS em geral?” Se pensarmos bem, podemos deduzir que essa vontade, ou pelo menos essa capacidade de aceitar a necessidade de uma abordagem muito mais radical dos problemas que afligem qualquer sociedade, não pode ter nascido senão das derrotas durante a Grande Guerra. Todos os países (exceto talvez os Estados Unidos) sofreram; mas a vitória, bem como a arrogância e o conforto moral resultantes da vitória, sem dúvida permitiu aos ingleses e franceses, e até aos italianos, esquecerem com mais facilidade seus sofrimentos e suas perdas e se recuperarem, às vezes até mesmo se comprazerem em sua autossatisfação e, portanto, se atemorizarem com mais facilidade, receando ver compromisso tão frágil desagregar-se.
Os alemães não tinham mais nada a perder. Foram tratados como criminosos, humilhados e despedaçados, e os mortos foram aviltados. Objetivamente, a sorte dos russos não foi nada melhor. Nada mais lógico, então, que pensar: Ora bolas, se é assim, se é justo sacrificar o melhor da nação, enviar para a morte os homens mais patriotas, mais inteligentes, mais devotados, mais leais da nossa raça, e tudo isso em nome da salvação da nação, e isso não servir para nada, então que direito à vida preservariam os piores elementos, os criminosos, os loucos, os débeis, os associais, os judeus, sem falar nos inimigos externos?

Os bolcheviques raciocinaram da mesma forma. Uma vez que respeitar as regras da pretensa humanidade não serviu de nada, porque insistir nesse respeito, que nem ao menos é reconhecido? Daí, inevitavelmente, uma abordagem um pouco mais rígida, mais dura, mais radical dos problemas. Em todas as sociedades, em todos os tempos, os problemas sociais foram arbitrados considerando-se tanto as necessidades da coletividade como os direitos do indivíduo. 
Os gregos abandonavam as suas crianças débeis; os árabes, reconhecendo que elas constituíam, economicamente falando, um fardo muito pesado para as suas famílias, mas não desejando matá-las, entregavam-nas aos cuidados da comunidade, pelo mecanismo da caridade religiosa obrigatória (um imposto para obras beneficentes). Ora, se adotarmos tal visão de conjunto, poderemos constatar que pelo menos na Europa, a partir do século XVIII, todas as diferentes soluções para os diferentes problemas – o suplício para os criminosos, o exílio para os doentes contagiosos (leprosos e tuberculosos), a caridade cristã para os imbecis – convergiram, sob a influência do Iluminismo, para um tipo de solução única, aplicável a todos os casos e declinável à vontade: o confinamento institucionalizado, financiado pelo Estado, uma forma de exílio interior se quisermos, às vezes com pretensões pedagógicas, mas sobretudo com finalidade prática - os criminosos na prisão, os doentes no hospital, os loucos no hospício. Depois da Grande Guerra muitos compreenderam que elas não eram apropriadas, que não eram mais suficientes para fazer face à nova amplitude dos problemas, em virtude da restrição dos recursos económicos e também do nível, outrora impensável, dos problemas (os milhões de mortos da guerra). Faziam-se necessárias novas soluções.

Mas por que então, seria a pergunta de hoje, os judeus? O que os judeus têm a ver com os loucos, os criminosos, os contagiosos? Entretanto, não é difícil admitir que, historicamente, os próprios judeus constituíram-se um povo eleito, o que foi um problema, querendo permanecer isolados a todo o custo. Os primeiros escritos contra os judeus, os dos gregos de Alexandria, muito antes de Cristo e do antissemitismo teológico, os acusavam de ser associais, de violar as leis da hospitalidade, fundamento e princípio político primordial do mundo antigo. Eram assim em nome dos seus interditos alimentares, que os impediam de comer na casa dos outros uma boa chouriça, ou um bom presunto. E o mesmo como anfitriões.
É claro que, depois de Jesus Cristo, houve a questão religiosa. Não procuro aqui, como poderiam achar, transformar os judeus em responsáveis pela sua catástrofe; procuro simplesmente dizer que uma certa história da Europa, lamentável na visão de alguns, inevitável na de outros, fez de modo com que, mesmo em nossos dias, em tempos de crise, seja natural voltar-se contra os judeus e que, se empreendêssemos uma refundação da sociedade pela violência, cedo ou tarde os judeus receberiam o seu quinhão. Cedo, no nosso caso, tarde, no dos soviéticos. E isso não seria em absoluto um acaso. Alguns judeus também, afastada a ameaça do antissemitismo, soçobram na desmedida.
*Reichsführer-SS foi um título especial da SS que existiu entre 1925 e 1945, a patente mais alta da SS após 1934. Era equivalente à patente de marechal de campo na Wehrmacht. Nunca houve mais de um Reichsführer-SS simultaneamente na SS, e ao todo apenas houve cinco: Julius Schreck (1925-1926); Joseph Berchtold (1926-1927); Erhard Heiden (1927-1929); Heinrich Himmler (1929-1945); Karl Hanke (1945). Exigia que os seus membros demonstrassem a sua ascendência ariana até 1750, com a finalidade de criar uma ordem de combatentes de "raça pura".

sexta-feira, 11 de março de 2022

Os judeus do Cáucaso



No século IX, Eldad ha-Dani visitou o Cáucaso e observou que os judeus das montanhas possuíam um excelente conhecimento do Talmude. Em determinada época os talmudistas de Derbent e de Chemakha, no Azerbaijão, eram muito reputados. Um viajante judeu, um tal de Judas Tchorny, achava que os judeus tinham chegado ao Cáucaso não depois, mas antes da destruição do Primeiro Templo, tendo vivido isolados de tudo, sob proteção persa, até ao século IV. Apenas mais tarde, quando os tártaros invadiram a Pérsia, os Bergjuden encontraram judeus da Babilónia que lhes ensinaram o Talmude. Portanto, apenas nessa época eles teriam adotado a tradição e os ensinamentos rabínicos. Mas isso não está comprovado. Para provas de sua antiguidade, seria preciso antes voltar-se para os vestígios arqueológicos, como as ruínas abandonadas do Azerbaijão denominadas Chifut Tebe, ‘Colina dos Judeus’, ou Chifut Kabur, ‘Túmulo dos Judeus’. São muito antigas. Quanto à língua, é um dialeto irânico ocidental moderno — isto é, não anterior ao século VIII ou IX, até mesmo X —, o que parece contradizer uma ascendência Caldeia direta, tal como propõe Pantyukov a partir de Quatrefages. Quatrefages, aliás, achava que os lesguianos, alguns svanos e khevsurs também tinham origens judaicas; em georgiano, khevis uria quer dizer ‘judeu do vale’.

O barão Peter Uslar, mais sensatamente, sugere uma migração judaica frequente e regular para o Cáucaso ao longo de dois mil anos, cada leva integrando-se mais ou menos às tribos locais. Uma explicação do problema da língua seria que os judeus trocaram mulheres com uma tribo irânica, os tatas, que chegaram mais tarde; eles próprios teriam vindo na época dos Aqueménidas como colonos militares para defender o desfiladeiro de Derbent contra os nómadas das planícies do Norte.

Cazares ou czares eram um povo de origem turcomana seminómade que dominou a região da Ásia Central a partir do século VII ao X. A palavra czar parece estar ligada a formas verbais túrquicas, significando "errante". Há lendas que sugerem que os judeus asquenazes são cazares que se converteram ao Judaísmo e passaram a fazer parte do povo judeu. Devido a ausência de evidências genéticas para a teoria cazar, ela não é levada a sério pelos académicos. A teoria mais aceita é a de que os judeus asquenazes são descendentes de judeus naturais que se casaram com cazares, assim sendo tanto descendentes dos judeus convertidos quanto dos hebreus originais.

A Cazária, Império Cazar ou Canato Cazar, foi um estado não-eslavo hoje extinto que existiu nas estepes entre o mar Cáspio e o mar Negro e parcialmente ao longo do rio Volga. É hoje considerado um símbolo tradicional da Rússia. Os Cazares foram importantes aliados do Império Bizantino contra o Império Sassânida, e também uma significativa potência regional em seu momento de máximo esplendor. Empreenderam uma série de guerras, todas vitoriosas, contra os califados árabes, evitando assim, possivelmente, a invasão muçulmana na Europa Oriental. Nos finais do século X, o seu poder declinaria frente à Rússia de Kiev, desaparecendo da história.

Os judeus de antes da Diáspora têm uma longa tradição guerreira. Esse conjunto de factos parece opor-se a uma origem Cazar. Ao contrário, a hipótese de Vsevolod Miller, de que os Bergjuden é que teriam levado o judaísmo aos Cazares, soa mais plausível. Um facto bastante convincente é que, tirando alguns rebeldes que se juntaram a Chamil, a maioria dos Bergjuden do Daguestão, talvez em virtude das perseguições muçulmanas, escolheu o lado russo durante as guerras do Cáucaso. Depois da vitória, as autoridades czaristas os recompensaram concedendo-lhes igualdade de direitos em relação às outras tribos caucasianas e acesso a postos na administração. Em primeiro lugar temos os documentos históricos, depois esse documento vivo que é a língua; em seguida, os resultados da antropologia física e cultural; as pesquisas etnológicas de campo; e a genética. Se nos pautarmos pelos documentos históricos, parece estabelecido que os judeus viviam no Cáucaso muito antes da conversão dos Czares.”

Os Bergjuden, então, praticamente não participavam da administração, exceto alguns arquivistas e funcionários subalternos. Seria interessante examinar a situação no Daguestão. Todos, na sala, sabiam pertinentemente que não havia chance de a Wehrmacht chegar ao Daguestão. Alguns inclusive suspeitavam – à exceção, talvez, de Korsemann e Bierkamp que, ao contrário, o Grupo de Exércitos A não tardaria a evacuar o Cáucaso. Ainda que Hoth conseguisse fazer a sua junção com Paulus, seria apenas para recuar o 6º Exército para o Tchir, quem sabe para o baixo Don. Bastava examinar um mapa para compreender que a posição do Grupo de Exércitos A ia-se tornando insustentável.
Köstring devia ter algumas certezas em relação a isso. Logo, era impensável encrespar-se com os povos montanheses por questão tão irrelevante quanto a dos Bergjuden: assim que estes percebessem o retorno do Exército Vermelho, haveria distúrbios - ainda que para provar, um pouco tardiamente decerto, a sua lealdade e o seu patriotismo. Recentemente, um dos Einsatzkommandos liquidara um sanatório para crianças tuberculosas numa zona remota da região de Krasnodar. A maior parte das crianças era de origem montanhesa, os conselhos nacionais protestaram vigorosamente, escaramuças custaram a vida de vários soldados.

Anoitecia. Uma geada espessa cobria tudo: os galhos retorcidos das árvores, os fios e postes das barreiras, a erva abundante, a terra dos campos quase nus. Era como um mundo de horríveis formas brancas, angustiantes, feéricas, um universo cristalino de onde a vida parecia banida. Olhei para as montanhas: o vasto paredão azul obstruía o horizonte, guardião de outro mundo, este, oculto. O sol, possivelmente para as bandas da Abecásia, caía por trás das cristas, mas a sua luz ainda vinha roçar os cumes, depositando sobre a neve sumptuosas e delicadas centelhas cor-de-rosa, amarelas, laranja, fúcsia, que corriam delicadamente de um pico ao outro. Era de uma beleza cruel, de tirar o fôlego, quase humana, mas ao mesmo tempo transcendendo todas as mazelas humanas. Pouco a pouco, bem ao fundo, o mar tragava o sol e as cores apagavam-se uma a uma, fazendo a neve passar de azul a um cinza alvar que reluzia serenamente na noite. As árvores incrustadas pela geada apareciam nos feixes dos faróis como criaturas em pleno movimento. Eu me sentia do outro lado, naquele país tão bem conhecido das crianças, do qual não se volta mais.
Os Judeus estiveram presentes na Arménia e na Geórgia contemporânea desde o Cativeiro de Babilónia. Os registos existem desde o século IV, mostrando que havia cidades arménias possuindo populações judaicas que variam de 10 000 a 30 000, juntamente com importantes assentamentos judaicos na Crimeia. A presença de judeus nos territórios correspondentes à Bielorrússia, Ucrânia e a parte europeia da Rússia moderna pode ser percebida entre os séculos VII e XIV. Sob a influência das comunidades judaicas caucasianas, Bulan - o General dos Cazares, e as classes dominantes da Cazária (localizada no que hoje é a Ucrânia, sul da Rússia e Cazaquistão), podem ter adotado ou se convertido ao judaísmo em algum momento no meio ou final do século VIII, ou início do século IX. Após a conquista do reino da Cazária por Esvetoslau I (969), a população Cazar judaica pode ter sido assimilada, ou migrado em parte.

Nos séculos XI e XII, a população judaica pode ter sido restrita a uma região separada em Kiev, conhecida como Cidade Judaica (antigo eslavo oriental: Жидове, Zhidove, ou seja, "Os Judeus"). A comunidade de Kiev estava orientada para Bizâncio. Outras comunidades ou grupos de indivíduos são conhecidos de Czernicóvia, e, provavelmente, Volodimíria. Naquela época, provavelmente terão sido encontrados judeus também no nordeste da Rússia, nos domínios do Príncipe André, o Pio (1169–1174), embora seja incerto até que ponto eles teriam vivido lá permanentemente. Embora o nordeste da Rússia tenha uma população judaica baixa, países a oeste tinham populações judaicas em rápido crescimento, à medida que as ondas de pogroms dos países da Europa Ocidental marcavam os últimos séculos da Idade Média. Uma parte considerável das populações judaicas moveram-se para países mais tolerantes da Europa Central e Oriental, bem como do Médio Oriente. Muitos judeus da Europa Ocidental migraram para a Polónia a convite do governante Casimiro III o Grande.

Os judeus asquenazes, de origem europeia, representam cerca de 90% dos mais de 13 milhões de judeus existentes no mundo atualmente. Segundo a hipótese conhecida como 'renana', os asquenazes descendem dos judeus que fugiram da Palestina após a conquista muçulmana, no ano 638 d.C. Ainda de acordo com esta teoria, eles se radicaram no sul da Europa e depois, no final da Idade Média, cerca de 50 mil deles se deslocaram da Renânia, na Alemanha, para a Europa do Leste. Alguns, entretanto, consideram esta hipótese inverosímil, porque o cenário seria impossível em termos demográficos, pressupondo um salto da população dos judeus da Europa oriental de 50.000 indivíduos no século XV a cerca de 8 milhões no começo do século XX. A taxa de natalidade seria, assim, dez vezes superior àquela da população local não judia. Isto apesar das dificuldades económicas, as doenças, as guerras e os pogroms, que arruinaram as comunidades judaicas.

Para tentar ver isto de forma mais clara, um estudo publicado na revista britânica Genome Biology and Evolution comparou os genomas (que formam o património genético) de 1.287 indivíduos sem vínculo familiar descendentes de oito grupos de populações judias e 74 de não judias. O geneticista Eran Elhaik (da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos) analisou estes dados, em busca de mutações no código de DNA ligadas à origem geográfica de um grupo. Estes indicadores já tinham sido utilizados no passado para lançar luz às origens dos bascos ou dos pigmeus do sul da África. Entre os judeus da Europa, o geneticista encontrou assinaturas ancestrais que apontam claramente para o Cáucaso e também, mais em menor medida, para o Médio Oriente. Segundo Eran Elhaik, estes resultados sustentam a teoria rival da hipótese renana, conhecida com o nome de 'hipótese Cazar'. De acordo com esta teoria, os judeus do leste europeu descendem dos Cazares, uma mistura de clãs turcos que se instalaram no Cáucaso nos primeiros séculos de nossa era e, influenciados pelos judeus da Palestina, se converteram ao judaísmo no século VIII. Os judeus Cazares construíram um império florescente, atraindo os judeus da Mesopotâmia e do Império Bizantino. Mas o império Cazar ruiu no século XIII, atacado pelos mongóis e debilitado pelas epidemias da peste negra.
Não pareciam russos típicos. "São judeus da montanha", explicou-me um amigo moscovita. "Vêm do Azerbaijão, anteriormente uma república soviética na região do Cáucaso". Fiz, de imediato, a associação. Os mercados de Moscovo guardam a tradição de contar com comerciantes do Cáucaso, que trazem produtos agrícolas de suas terras natais, premiadas com um clima mais ameno do que o cortante frio moscovita. Etnias como chechenos, azerbaijanos, ossétios, ingushétios, entre outros, predominam na paisagem das feiras livres. Em sua maioria muçulmanos, apresentam feições que lembram os turcos, como tez bem clara, muitas vezes com fartos cabelos e bigodes negros. A vestimenta mais frequente é o casaco de couro preto, para ajudar a enfrentar as intempéries da capital russa. Os nativos de Moscovo às vezes se referem de forma pejorativa aos originários do Cáucaso, chamando-os de "tchorney" (negros, em russo). Os judeus da montanha, portanto, também traziam a Moscovo algumas tradições comuns do Cáucaso, como os trajes e a presença maciça no comércio. Instalados no ondulado relevo caucasiano, há muitos séculos, e convivendo com a população maioritariamente muçulmana do Azerbaijão, ainda representam mais um exemplo histórico de resistência cultural e religiosa, já que mantiveram as tradições praticamente intactas, apesar das décadas de opressão e ateísmo soviético. E se destacam por manter vivo um fenómeno provavelmente único na atualidade, o da predominância judaica num centro urbano da Diáspora e que remete aos tempos do shtetel, na Europa Oriental. Krasnaya Sloboda, em solo azerbaijano, concentra quatro mil habitantes, que em sua esmagadora maioria são judeus da montanha.

A teoria mais difundida sustenta que após o fim do exílio judaico na Babilónia, há cerca de 2,5 mil anos, alguns grupos permaneceram na região que corresponde à Pérsia histórica e ao atual Irão. De lá, os judeus buscaram refúgio nas montanhas do Cáucaso. Os "gorski ivrei" (judeus da montanha, em russo) falam o tat, dialeto originário do persa e modelado por uma influência hebraica. Antes de os comunistas tomarem o poder no Azerbaijão, em 1920, Krasnaya Sloboda abrigava 11 sinagogas. O Kremlin permitiu que apenas uma continuasse. Visitei-a em 1993, depois de desembarcar em Baku, a capital azerbaijana, e seguir de carro até àquele shtetel oriental. Acompanhei os serviços religiosos num sábado pela manhã. Conversei com líderes comunitários que me falaram, com entusiasmo, do renascimento e fortalecimento das tradições, agora livres das amarras do regime soviético, recentemente extinto. A cashrut, por exemplo, era uma característica marcante da rotina alimentar judaica, que visualmente mantinha os contornos de uma pequena cidade reconstruída no período da URSS. Ou seja, edifícios modestos em sua estrutura e acabamento, numa "arquitetura igualitária" imposta por Moscovo.

Segundo o Congresso Judaico Mundial, a comunidade judaica hoje, no Azerbaijão, país com população total de 8 milhões, contabiliza cerca de 20 mil integrantes, dos quais 15 mil seriam judeus da montanha, espalhados por cidades como Baku e Kuba, além da pequenina Krasnaya Sloboda. O restante da população judaica é formado por ashkenazi com raízes na Rússia ou por judeus originários da vizinha Geórgia, conhecidos na sociedade israelita como "gruzinim". Desde 1989, ao redor de 30 mil judeus azerbaijanos, entre os da montanha e os ashkenazi, emigraram para Israel. Depois de minha visita a Krasnaya Sloboda, retornei a Baku. Mas, antes de embarcar em mais um vôo da Aeroflot, visitei a família de Albert Agarunov, protagonista de uma história rara em tempos modernos. Trata-se de um judeu que se transformou em herói nacional num país muçulmano. Voluntariamente, Albert alistou-se para participar na guerra travada, nos anos 90, entre os vizinhos arménios e azerbaijanos. O jovem morreu em combate. Sua coragem e heroísmo tornaram-se célebres em todo o país.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Rus’ de Kiev





Rus’ de Kiev foi uma confederação de tribos eslavas do leste europeu que se estendeu entre os séculos IX e XIII, e que deu origem à Rússia, Bielorrússia e Ucrânia dos dias de hoje. Estendia-se assim do Mar Báltico ao Mar Negro. O primeiro líder a começar a unir as terras eslavas do Leste foi Oleg [882 – 912]. O Estado declinou no final do século XI e durante o XII desintegrou-se em várias potências regionais rivais. Foi ainda mais enfraquecido por fatores económicos, com o colapso dos laços comerciais com o Império Bizantino devido ao declínio de Constantinopla e a diminuição das rotas comerciais que o acompanhavam por seu território. Finalmente caiu à invasão mongol na década de 1240.

Rurik (em antigo eslavo oriental) Rodrigo de Ladoga, foi o mítico fundador varegue da monarquia russa, dando o nome à dinastia ruríquida, primeira dinastia imperial de czares russos. No século IX, a região próxima aos lagos Ladoga e Onega encontrava-se em disputas entre as mais de 500 cidades fundadas por diversas tribos eslavas que ali habitavam. Nesse período, segundo o registro das Crónicas Nestorianas, comerciantes suecos chamados varegues foram convidados a governar a região, pondo fim ao caos instalado. Teria dito à população: "A nossa terra é grande e rica, mas não há ordem dentro dela. Venham, pois, governar-nos como reis." Em 862, Rurik, chefe dos varegues, tomou Novgorod, uma das cidades eslavas mais promissoras, localizada nas margens do Rio Volga. Rurik morreu em 879, deixando Oleg como seu sucessor.

É quase lenda, a narrativa que diz que algumas tribos dos eslavos orientais convidaram três irmãos varegues (nome dado para os vikings da região dessa época) para os governarem na década de 860. Isso porque precisavam de ajuda para manter a independência e governar adequadamente diante de inimigos. Após dois anos, com a morte de dois dos irmãos, o mais velho, Rurik, passou a ser o único soberano inaugurando a dinastia que governaria Rus’ a partir de Novgorod. Oleg (cunhado de Rurik e que governou como uma espécie de regente do filho menor de Rurik, Igor’) conquistou a cidade de Kiev por volta de 882 inaugurando assim a Rus’ de Kiev. Rus’ seria assim o resultado da mistura da elite governante varegue com os eslavos orientais nativos. Essa gênese está envolta em controvérsia.

A origem comum e o facto de Kiev ter sido o berço da civilização russa atual explicam muito do caráter ambíguo (de amor/ódio) da relação existente hoje entre a Rússia e a Ucrânia. Parte dos ucranianos, principalmente os que vivem no leste do país, deseja ter laços íntimos com o “Grande Irmão” russo, ao passo que a outra metade, geralmente localizada no oeste do país, quer evitar a dependência e viver a sua própria vida.

Há dúvidas históricas. Historiadores soviéticos ou russos nacionalistas tendem a diminuir o papel dos varegues na formação de Rus’ dizendo terem sido eles apenas uma presença episódica que não teria alterado as dinâmicas internas já vigentes entre os próprios eslavos orientais. Sabemos que mais tarde, a partir do século XVI, se formará um Império Czarista, centrado em Moscovo, que, ao contrário dos impérios ultramarinos ocidentais, será basicamente um império terrestre contíguo a partir de um avanço para o Oriente. Vários episódios desse avanço serão narrados não como uma conquista a partir de Moscovo, mas sim como uma ocupação de espaços vazios ou formação de alianças a partir de convites dos nativos. Assim, a grande expansão para a Sibéria (no século XVII) será vista como migração de russos para uma imensa área vazia e despovoada. A incorporação da Geórgia ao Império Czarista em 1801 foi narrada como um pedido de intervenção do próprio rei georgiano Jorge XII para poder se livrar das constantes ameaças de invasão dos persas e turcos otomanos. Realmente, como a Geórgia e a Rússia eram da religião ortodoxa, e os georgianos estavam sob constante ameaça de conquista ou saque pelos persas e turcos muçulmanos, os governantes georgianos estavam há algum tempo pensando na aliança com a Rússia cristã ortodoxa como o mal menor.

É assim que Putin se serve do mito da incorporação amistosa aos impérios russos, vendo como uma contrapartida da missão civilizadora que as metrópoles ocidentais teriam exercido em suas colónias no ultramar. Convém lembrar que no século IX, e por um bom tempo, a Europa se recuperava das invasões e migrações bárbaras que destruíram o Império Romano do Ocidente no século V e se encontrava ainda, em grande parte, em estado de desorganizada fragmentação em feudos isolados e de economia de subsistência. Seria apenas a partir do século XII que a Europa Ocidental (as cidades, o comércio e as universidades), se reergueria com força, retomando numa lenta ascensão os centros da civilização do tempo da Antiguidade Grega e Romana.

Então, se na época, a florescente da Rus’ de Kiev não ficava atrás da Europa Ocidental, porque terá sido que a Rus’ de Kiev passou a ser mais atrasada que o Ocidente? A razão é explicada pelo fenómeno a que os ocidentais deram o nome de Renascimento. Passou-se de uma visão religiosa e divina para uma visão mais racional e antropocêntrica – que teria feito com que a Europa Ocidental tivesse um progresso científico, tecnológico e económico mais adiantado que outras regiões. Foi o domínio mongol e a mentalidade asiática que se abateu sobre a Rússia por dois séculos (XIII a XV) que impediu os laços com o Ocidente. O importante centro do comércio entre Ocidente e Oriente, que se fazia pelas largas rotas dos rios Volga e Dniepre, entrou em decadência. Após a queda do Império Romano do Ocidente, o Império Romano do Oriente (Bizâncio) ainda perduraria por dez séculos e exerceria forte influência na região de Rus’. Desde o início, o comércio entre os dois Estados foi forte e extremamente vital para Rus’, quando dominava a rota de comércio entre Ocidente e Oriente. Então, surgiu o passo crucial que marcaria uma aproximação civilizacional enorme entre eles: a cristianização de Rus’ no reinado de Vladimir, o Grande, no século X. A adoção do cristianismo no século X, durante o reino de Vladimir, o Grande, teve consequências fundamentais.

A Rus’ de Kiev adotou o cristianismo ortodoxo no século XI, quando houve o cisma definitivo que levaria à separação das igrejas cristãs do Ocidente (baseada no papa em Roma) e do Oriente (baseada em Constantinopla, no Império Bizantino). Moscovo seguiria Bizâncio, com quem tinha ligações históricas, e não Roma. O imperador Constantino, o Grande, que havia se tornado cristão e legalizado o cristianismo no império, fundou, em 330, uma nova cidade, que chamou de A Nova Roma de Constantino (Constantinopla). A cidade passaria a ser o grande centro político desse Império Romano do Oriente em gestação. O Império Romano do Oriente seguiria até o século XV sobrevivendo à queda do Império Romano do Ocidente pelas invasões bárbaras em 476. A Rus’ de Kiev até ali não tinha uma religião central: ao lado de figuras históricas ou grupos ocasionalmente convertidos às diferentes religiões, o grosso da população adorava diferentes deuses pagãos, dependendo da região. A adoção de uma religião oficial central monoteísta seria um fator integrador do desunido e descentralizado Estado de Kiev. Isso foi bem percebido por Vladimir. E a ligação religiosa com Bizâncio seria a rota mais natural e efetiva para tal, visto os estreitos laços já existentes entre os dois Estados. Vladimir se casou com Ana, a irmã dos imperadores bizantinos e, em 988, ordenando a destruição de todos os ídolos pagãos, batizou-se cristão, com seus nobres, nas águas do rio Dniepre, e determinou que toda a população de Rus’ fizesse o mesmo. Igreja e Estado se tornariam historicamente imbricados em uma relação simbiótica na Rússia, com preponderância para o monarca temporal. Uma missa ortodoxa é bastante intricada em seus detalhes e geralmente é, em sua maior parte, cantada. Os coros são importantíssimos. Os fiéis acompanham a missa basicamente em pé, sem bancos para sentar. Algumas missas, em datas especiais, como as de Ano-Novo, podem durar cinco horas ou mais. Pelas pesquisas de opinião, além dos 70% ortodoxos, há 6% de muçulmanos, 12% de ateus e menos de 1% de budistas, católicos, protestantes ou judeus. Frequentemente, as divisões religiosas se fazem em bases étnicas. Os ortodoxos estão maioritariamente entre os eslavos. O islão se concentra na região Volga-Ural e no norte do Cáucaso, onde tradicionalmente viveram os povos de origem turca. E a maioria dos budistas está nas três regiões de origem mongólica ou turco-mongólica: Buriátia, Calmúquia e Tuva.




terça-feira, 8 de março de 2022

Vi finalmente um uniforme SS: o ucraniano deixou-me ali e um Untersturmführer levou-me até Möritz



Era um jovem tenente, o militar que me veio buscar, que se apresentou e me deu as boas-vindas: “Minha tarefa é recebê-lo e levá-lo para a cidade no meu veículo.” Apertei-lhe a mão. Vamos nos dar bem com certeza, disse-lhe amavelmente. Quando estiver triste, venha-me procurar e beberemos do meu conhaque. Fez-me um gesto largo com a mão: “Na minha opinião, doutor, seu conhaque não vai durar muito tempo.” Segui o tenente. Perto das tendas notei uma série de grandes montes salpicados de neve. De vez em quando, através da área do aeródromo, repercutia uma detonação surda. O avião que me trouxera já partia de novo lentamente para o fim da pista. Parei para vê-lo descolar e o tenente me imitou. O vento soprava bem forte, era preciso ficar piscando os olhos para não se deixar cegar pela neve fina levantada da superfície do solo. Em posição, o avião girou sobre si mesmo e, sem fazer a menor pausa, acelerou. Deu uma guinada, depois outra, perigosamente próximo à rampa coberta de neve; depois as rodas deixaram o solo e ele subiu gemendo, dando grandes solavancos, antes de desaparecer na massa opaca das nuvens.

Olhei novamente o monte de neve ao meu lado e percebi que era formado de cadáveres, empilhados como feixes de lenha, seus rostos congelados estampando um bronze um pouco esverdeado, semeado por barbas volumosas, com cristais de neve nas comissuras dos lábios, nas narinas, nas órbitas. Devia haver centenas deles. Perguntei ao tenente: “Não os enterram?” Bateu com o pé: “Como quer que os enterremos? O solo é como ferro. Não podemos desperdiçar explosivos. Nem trincheiras cavamos.” Caminhávamos; onde o tráfego formara trilhos, o solo estava liso, escorregadio, era melhor andar pela lateral, pela neve fofa. O tenente me conduzia em direção a uma linha baixa e comprida, coberta de neve. Eu achava que se tratava de bunkers, mas, ao me aproximar, constatei serem na verdade vagões semienterrados, com as paredes e os tetos protegidos por sacos de areia e degraus escavados diretamente no solo levando até às portas. No interior, oficiais azafamavam-se pelo corredor, os compartimentos haviam sido transformados em escritórios; lâmpadas fracas espalhavam uma luz suja e amarelada, e deviam alimentar uma estufa em algum lugar, pois não fazia muito frio.

O tenente sugeriu que eu esperasse em um dos compartimentos, após ter tirado uma pilha de papéis de cima dos assentos. Percebi decorações de Natal, grosseiramente recortadas em papel colorido e coladas no vidro atrás do qual se amontoavam terra, neve e os sacos de areia enregelados. “Quer chá?”, perguntou o tenente. “Não posso oferecer mais nada além disso.” Aceitei e ele se retirou. Tirei a minha capa e depois sentei-me no banco. O tenente voltou com duas chávenas de um arremedo de chá e me estendeu uma; bebeu a sua de pé na entrada do compartimento. “Não teve sorte”, disse ele timidamente, “em ter sido enviado para cá logo antes do Natal.” Dei de ombros e soprei o meu chá pelando: “Pois fique sabendo que me estou borrifando para o Natal.” — “Para nós, aqui, é muito importante.” Apontou a decoração. “Os homens prezam muito isso. Espero que os russos nos deixem em paz. Mas não se pode contar com isso.” Eu estava a achar aquilo curioso, parecia-me que os oficiais deveriam estar a preparar a retirada em vez de o Natal. “Os deslocamentos são rigorosamente controlados e não podemos levá-lo à cidade imediatamente. O senhor terá uma ligação esta tarde.

Um pouco mais tarde, entrou outro oficial, saudou-me distraidamente e pôs-se a bater vigorosamente numa máquina de escrever. Saí para o corredor, mas havia muita gente ali. Comecei a sentir fome, não me haviam oferecido nada e eu não queria pedir. Saí para fumar um cigarro do lado de fora, onde se ouvia o ronco dos aviões em meio a detonações mais ou menos espaçadas, depois voltei para esperar sob a percussão monótona da máquina de escrever. O tenente voltou a meio da tarde. Eu estava faminto. Apontou para o meu equipamento e disse: “Venha daí.” Segui-o até um Opel munido de correntes. Ele desejou-me boa sorte e eu Feliz Natal.

O carro partiu chocalhando. A pista, balizada por painéis táticos fixados em postes, tábuas e até mesmo pernas de cavalos congeladas, fincadas com os cascos para cima, estava escorregadia, e mesmo com as correntes o Opel derrapava com frequência nas curvas; em geral o oficial o realinhava, mas às vezes enfiava o carro na neve fofa e tínhamos que sair e empurrar para desvencilhá-lo. A cada paragem, oficiais deixavam o carro, outros ocupavam seu lugar; o vento aumentara ainda mais e aquilo ia-se tornando uma tempestade de neve: avançávamos lentamente, como às apalpadelas.

Finalmente surgiram as primeiras ruínas, chaminés de tijolo, bases de paredes alinhadas ao longo da estrada. Entre duas pancadas de chuva, avistei um painel: ESTALINEGRADO - ENTRADA PROIBIDA - PERIGO DE MORTE. Voltei-me para o meu vizinho: “É uma piada?” Ele me fitou com um olhar apagado: “Não. Porquê?” A estrada descia, serpenteando, uma espécie de penhasco. Abaixo, começavam as ruínas da cidade: grandes prédios perfurados por projéteis, incendiados, com as janelas escancaradas e sem vidraças. As ruas estavam atravancadas pelos escombros, às vezes removidos à pressa para abrir passagem aos veículos. Os buracos causados por projéteis e cobertos pela neve infligiam choques brutais aos amortecedores.

De ambos os lados desfilava um caos de carcaças de carros, camiões, tanques, alemães e russos misturados, às vezes até mesmo incrustados uns nos outros. Aqui e ali cruzávamos com uma patrulha, ou, para minha surpresa, com civis em andrajos, sobretudo mulheres, carregando baldes ou sacos. Tilintando suas correntes, o Opel atravessava uma ponte comprida, reparada com peças pré-fabricadas da engenharia, por cima de uma ferrovia: em baixo, estendiam-se centenas de vagões imóveis, cobertos pela neve, intactos ou esmagados pelas explosões. Em contraste com o silêncio da estepe, perturbado apenas pelo barulho do motor, das correntes e do vento, reinava ali um ruído constante, detonações mais ou menos abafadas, o grito seco dos PAK, o crepitar das metralhadoras.

Depois da ponte, o carro virou à esquerda, acompanhando a via-férrea e as carruagens de mercadorias abandonadas. À nossa direita perfilava-se um parque deserto e comprido; mais além, outros prédios em ruínas, encardidos, mudos, suas fachadas enfiadas na rua ou voltadas contra o céu como um cenário. A estrada contornava a estação, um grande edifício da época czarista, antigamente, ao que tudo indicava, amarelo e branco; na praça, em frente, aglomerava-se um novelo de veículos queimados, rasgados por impactos diretos, formas retorcidas que a neve mal amenizava. O carro enveredou por uma longa avenida diagonal: o barulho dos tiros intensificava-se, à frente eu percebia lufadas de fumaça preta, mas não fazia a menor ideia da localização da linha da frente. A avenida desembocava numa imensa praça vazia, atulhada de escombros, cercando uma espécie de parque delimitado pelos postes de luz.

O oficial estacionou o carro em frente a um prédio amplo, com, na esquina, um peristilo em semicírculo com colunas destruídas por disparos, sobrepujado por grandes sacadas quadradas vazias e escuras e, bem no topo, uma bandeira com a cruz gamada, pendendo frouxamente de uma vara. “O senhor chegou”, diz acendendo um cigarro. Saí do veículo, abri a bagageira e retirei o meu equipamento. Alguns soldados armados com submetralhadoras mantinham-se sob o peristilo, mas não avançavam. Assim que fechei a mala do carro, o Opel partiu, fez uma rápida manobra e subiu a avenida em direção à estação, chocalhando ruidosamente as suas correntes.

Observei a praça desolada: no centro, uma roda de crianças de pedra ou gesso, provavelmente restos de uma fonte, parecia zombar das ruínas em volta. Quando avancei em direção ao peristilo, os soldados me saudaram, mas barraram o caminho. Um deles me pediu os documentos num alemão estropiado e lhe estendi a minha caderneta de soldado. Examinou-a, devolveu-a com uma saudação e deu uma ordem lacónica, em ucraniano, a um de seus companheiros. Este me fez sinal para segui-lo. Subi os degraus entre as colunas, com o vidro e o estuque rangendo sob minhas botas, e penetrei no prédio escuro por uma ampla abertura sem portas. Logo em seguida alinhava-se uma fileira de manequins de plástico cor-de-rosa vestindo os mais diversos trajes: vestidos femininos, macacões de trabalho, fatos completos; as figuras, algumas delas com o crânio rebentado por projéteis, ainda sorriam idiotamente, as mãos erguidas ou apontadas num gestual juvenil e desordenado. Atrás, na penumbra, viam-se prateleiras ainda repletas de utensílios domésticos, vitrines espatifadas ou derrubadas, balcões cobertos de gesso e escombros.

Segui o jovem ucraniano através dos corredores dessa loja fantasma até uma escada vigiada por dois tropas; a uma ordem da minha escolta, afastaram-se para me dar passagem. Fui guiado até um subsolo iluminado pela luz amarela e difusa de lâmpadas racionadas: corredores, recintos fervilhando de oficiais e soldados da Wehrmacht, vestindo uniformes díspares, casacos regulamentares, agasalhos cinzentos de malha, capas russas com insígnias alemãs. Quanto mais avançávamos, mais a atmosfera se tornava quente, húmida, opressiva, eu suava abundantemente sob minha peliça. Continuamos a descer, depois atravessamos uma ampla sala de operações iluminada por um lustre de cristal, com móveis estilo Luís XVI e taças de cristal espalhadas por entre mapas e dossiês; uma ária de Mozart crepitava de um gramofone portátil instalado sobre duas caixas de vinho francês. Os oficiais trabalhavam de calça desportiva, de sandálias e até de short; ninguém me dava a mínima. Além da sala abria-se outro corredor, e vi finalmente um uniforme SS: o ucraniano me deixou ali e um Untersturmführer [patente paramilitar do Schutzstaffel (SS)] levou-me até Möritz.



A Batalha de Estalinegrado




A Batalha de Estalinegrado foi um grande combate travado entre a Wehrmacht (o exército da Alemanha Nazi) e seus aliados do Eixo contra as tropas da União Soviética pela posse da cidade de Estalinegrado (atual Volgogrado), nas margens do rio Volga, entre 23 de agosto de 1942 e 2 de fevereiro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. A batalha foi um dos pontos de viragem da guerra na Frente Oriental, marcando o limite da expansão alemã no território soviético. A partir daqui o Exército Vermelho avançou sempre até entrar vitorioso em Berlim.

Em 18 de setembro, fuzileiros soviéticos, após chegarem a Estalinegrado em barcaças, cruzando o Volga, posicionaram-se no gigantesco silo da cidade, repelindo dez ataques alemães ao longo de um único dia. Na mesma data, depois de almoçar com Hitler em seu quartel-general de Vinnitsa, um ajudante de ordens, Werner Koeppen, escreveu que “a ideia era destruir todas as grandes cidades da Rússia como condição prévia para uma duradoura dominação alemã sobre todo o país”. Também em 18 de setembro, Otto Thierack, o ministro da Justiça alemão e general da SS, chegou a um acordo com Himmler no que se referia à “entrega de elementos ‘insociais’ para o cumprimento das respetivas sentenças”. “Insociais” eram os judeus, os ciganos, os homossexuais, os russos, os ucranianos, os polacos condenados a mais de três anos de prisão por delitos comuns e os checos e alemães condenados a mais de oito anos de prisão por delitos do mesmo tipo. O “cumprimento das respetivas sentenças” consistiria em trabalhos forçados sob condições tão penosas e tão destituídas de apoio médico que seria inevitável a morte de centenas de milhares de condenados. Thierack também disse a Himmler que, a fim de adaptar os territórios orientais recentemente conquistados à instalação de alemães e à colonização, “os judeus, polacos, ciganos, russos e ucranianos acusados de infração não deveriam ser julgados por tribunais comuns, mas executados”.

A 22 de setembro, as tropas alemãs chegaram ao centro de Estalinegrado, mas os russos recusaram-se à rendição. Hitler, irritado por ainda não haver conquistado Estalinegrado ou, ao contrário do que esperara que houvesse acontecido algumas semanas antes com a cidade caucasiana de Grozny, demitiu o general Franz Halder, que desde o começo da guerra, havia mais de dois anos, fora chefe do estado-maior do exército, e substituiu-o pelo general Kurt Zeitzler. Este, porém, sentia o mesmo mal-estar que Halder quanto à situação dos alemães na Rússia e pediria, como seu antecessor e em vão, autorização para efetuar recuos temporários. Quando o marechal Keitel lhe disse que não irritasse Hitler referindo-se, diante dele, às baixas alemãs, Zeitzler teria replicado: “Quando um homem começa uma guerra, precisa ter nervos que lhe permitam ouvir críticas sobre os seus resultados.”

Na manhã do dia 23 de setembro, os russos desencadearam um contra-ataque nos subúrbios do noroeste de Estalinegrado. Poucas horas antes, dois mil novos soldados siberianos haviam-se metido em barcos e atravessado o Volga. Lenta, mas decididamente, entre ferozes combates corpo a corpo, os alemães foram obrigados a recuar. Ainda nesse dia, numa tentativa de retomarem a progressão no Cáucaso, os alemães lançaram a operação Attica, pretendendo evoluir pelas margens do mar Negro através de Tuapse e evoluir até Sochi, Suchumi e Batum. No entanto, os defensores soviéticos não os deixaram chegar sequer a Tuapse. Em 24 de setembro, seiscentos guerrilheiros soviéticos, alguns fardados com uniformes alemães e utilizando artilharia pesada, incendiaram a cidade de Ryabchichi, um entreposto inimigo para reforço e reabastecimento na estrada Smolensk-Briansk. Talvez tenha sido um sentimento de vulnerabilidade que levou Ribbentrop a dar, no mesmo dia, instruções no sentido de “apressar, tanto quanto possível, a evacuação dos judeus de vários países da Europa”. As negociações deveriam começar imediatamente, como explicou o subordinado de Ribbentrop, Martin Luther, com os governos da Bulgária, Hungria e Dinamarca, “com o objetivo de iniciar a evacuação de judeus”. Em 25 de setembro, durante um comício do Partido Nazi em Oslo, a aviação britânica atravessou o mar do Norte e atacou o quartel-general da Gestapo na cidade, com o objetivo de destruir os arquivos da resistência norueguesa guardados no edifício e de demonstrar o poder dos aliados. O edifício não foi atingido, mas quatro pessoas que o rodeavam morreram. Ainda assim os nazis entraram em pânico; muitos fugiram da cidade e a reunião terminou em caos.

No mesmo dia, em Estalinegrado, tanques alemães saídos de Gorodishche chegaram ao limite defensivo ocidental, a fábrica Krasny Oktyabr e a parte sudoeste da fábrica Barrikady, na margem do Volga. O heroísmo dos defensores da cidade seria uma página de glória na história soviética. Lyuba Nesterenko, uma jovem enfermeira, encurralada num porão, cuidou de 28 homens gravemente feridos antes de morrer com um ferimento no peito. Em 27 de setembro, embora a bandeira com a suástica houvesse sido desfraldada na sede do Partido Comunista, em aparente sinal de triunfo, novos reforços atravessaram o Volga, desembarcando sob fogo mortífero e apressando-se em ocupar qualquer armazém ou subsolos de edifícios já destruídos. Nesse dia, Hitler voou de Vinnitsa para Berlim, contando que poderia anunciar a conquista de Estalinegrado, onde suas tropas haviam penetrado até às margens do rio – no entanto, não haviam conseguido dominar a cidade.

Em 29 de setembro, Hitler, em Berlim, avisou os seus generais do perigo de uma invasão pelo Ocidente. Numa tentativa de mitigar a fúria dos ataques aéreos anglo-americanos, ordenou a construção de torres maciças de defesa antiaérea em Munique, Viena, Linz e Nuremberga, que eram semelhantes a fortalezas e que passaram a ser conhecidas como torres de artilharia. Em 1 de outubro, as forças russas no Cáucaso conseguiram finalmente conter o avanço alemão. No mesmo dia, em Berlim, Rommel dizia a Hitler que a supremacia aérea britânica e as falhas dos oficiais italianos sob seu comando forçaram-no a desistir da sua marcha sobre o Cairo.

Os americanos também contribuíram para as batalhas de Estalinegrado e do Cáucaso; nos seis meses que antecederam novembro de 1942, os Estados Unidos entregaram à União Soviética, em grande parte através da Pérsia, 56.445 telefones de campanha, 614 quilómetros de fio para esses aparelhos e 81.287 metralhadoras Thomson, que constituíram, sem dúvida, um acréscimo chegado em boa hora ao arsenal e aos meios de comunicação soviéticos. Na Rússia ocupada, não haviam sido, porém, interrompidos os massacres de habitantes judeus de aldeias e cidades da Rússia branca. Em 5 de outubro, um engenheiro alemão, Hermann Graebe, testemunhou o assassinato de quinze judeus diante de uma vala, nas imediações da cidade de Dubno.

Em 11 de outubro, depois de 51 dias de combates contínuos, nem a infantaria nem os carros de assalto alemães conseguiram ocupar posições seguras em Estalinegrado; os alemães preparavam um último e, esperavam, devastador ataque. Entretanto, dois dias mais tarde, na frente de Moscovo, guerrilheiros soviéticos abririam 178 brechas no caminho de ferro Bryansk-Lgov; a sabotagem foi realizada por especialistas treinados em Tula e lançados de paraquedas atrás das linhas alemãs. Em 14 de outubro, deu-se o novo assalto alemão contra Estalinegrado, destinado a expulsar os defensores da cidade escondidos em todos os recessos e abrigos, em todos os armazéns e ruínas, em todos os redutos fortificados em fábricas e nas margens do rio. Trezentos tanques alemães participaram na ofensiva. Ainda assim, a fábrica de tratores, apesar de completamente cercada, não caiu – entre ela e a fábrica Barrikady, os edifícios foram capturados pelos alemães, recapturados pelos russos e novamente tomados. Lutava-se em cada sótão, em cada andar, nas ruínas de construções e em porões.

Durante a noite, 3.500 soldados soviéticos feridos foram transportados em barcos e chegaram a salvo no outro lado do Volga. Acossados em terra, atacados pelo ar e assaltados por levas e mais levas da infantaria alemã, os defensores de Estalinegrado recusavam-se à rendição e continuavam a defender suas ruínas ainda em 15 de outubro. O assalto alemão, com toda a sua fúria e apesar das vitórias conquistadas, falhara. Porém, recomeçaria três dias depois, com igual intensidade, obtendo como resposta uma defesa cuja tenacidade não tinha precedentes.

Enquanto a batalha de Estalinegrado entrava em seu terceiro mês, a resistência e o terror cresciam evidentemente atrás das linhas alemãs. Em 14 de outubro, na cidade polaca de Piotkrow, os alemães iniciaram a deportação de 22 mil judeus para Treblinka, numa operação que durou sete dias. Entre os deportados e mortos nessa semana encontrava-se uma menina, Lusia Miller, que escrevera a um amigo dias antes da deportação: “É realmente terrível, e terrivelmente triste, que jovens precisem morrer, porque tudo em mim quer viver. E, no entanto, nesta idade, aos 13 anos, uma pessoa mal começou a descobrir a vida. Talvez por isso pareça tão prematuro. Não sei. Mas a verdade é que não quero morrer.”

Em 16 de outubro, as forças alemãs e russas combatiam sob chuva pesada. A fábrica de tratores já não podia resistir; as tropas soviéticas das fábricas Barrikady e Krasny Octyabr rechaçavam todas as tentativas de assalto. Em 20 de outubro, contudo, os russos não detinham mais do que 915 metros da margem ocidental. “O Führer está convencido de que os russos estão à beira do fim”, escreveu o marechal Keitel em 21 de outubro, acrescentando: “Ele diz que vinte milhões de pessoas morrerão de fome.” Nesse dia, muito atrás das linhas, uma companhia de polícia alemã descobriu um acampamento de judeus na floresta. Tais recantos representavam uma tentativa maravilhosa num mundo brutalizado. Não apenas homens armados protegiam centenas de mulheres, crianças e idosos na inóspita floresta como conseguiam comida e vigiavam contra aqueles que buscavam destruir o santuário. No ataque de 21 de outubro, porém, os alemães mataram 461 pessoas. Somente uma dúzia conseguiu escapar. Também foram mortas duas famílias camponesas, por “manterem contacto” com resistentes locais.

Bastante ao sul, em Elista, no posto mais oriental dos alemães, dois guerrilheiros foram capturados em 22 de outubro, tendo vindo de Astracã e sido largados de paraquedas na região. Durante as semanas seguintes, muitos outros guerrilheiros seriam igualmente lançados nessa região. Um esquadrão da cavalaria cossaca ajudou os alemães a caçá-los, mas, conforme admitia um relatório alemão: “É muito frequente que estes bandos batam temporariamente em retirada para recomeçarem novos ataques a partir de seus esconderijos.”

segunda-feira, 7 de março de 2022

Guerra na Ucrânia: Mariupol perdida e em Kiev o cerco aperta

 



A retirada de civis de Mariupol, no Sudeste, através de um corredor humanitário, foi cancelada pelo segundo dia consecutivo, mantendo milhares de civis à mercê do fogo cruzado entre as forças russas e ucranianas. E em Irpin, nos arredores da capital Kiev, este domingo demonstrou o que pode acontecer aos civis que tentam fugir, sem garantias de segurança, de uma zona de combate: pelo menos oito pessoas morreram, entre as quais os quatro membros de uma família que tinha acabado de cruzar uma ponte danificada, e cuja morte foi testemunhada por repórteres do New York Times. Terão sido atingidos por disparos da artilharia russa. De resto, Irpin e outros subúrbios ocidentais de Kiev foram palco de violentos combates, no que indicia um apertar do cerco das forças russas à capital, de onde já só é possível sair para Sul.

domingo, 6 de março de 2022

Stalin com Harry Hopkins

 



“A maior fraqueza de Hitler”, disse Stalin a Harry Hopkins, em 31 de julho de 1941, “reside no enorme número de povos oprimidos que o odeiam e no comportamento imoral de seu governo”. Tais povos, acrescentou Stalin, “como muitos outros milhões de indivíduos nas nações ainda por conquistar, têm apenas uma fonte onde buscar o encorajamento e a força moral de que precisam para resistir a Hitler: os Estados Unidos”.

Em 6 de agosto, Hitler voou de Borisov a Berdichev para visitar o quartel-general de outro grupo de exércitos. Com ele, viajou Walther Hewel, que registou em seu diário: “Igreja do mosteiro arruinada. Caixões abertos, execuções, cidade horrível. Muitos judeus, vivendas antigas, solo fértil. Muito calor.” Hitler regressou ao seu quartel-general em Rastenburg. No dia seguinte, o comandante da polícia alemã no setor central, Von dem Bach, comunicou ao quartel-general da SS em Berlim que suas unidades haviam realizado trinta mil execuções desde a sua chegada à Rússia. A Brigada de Cavalaria da SS também enviou, nesse dia, um relatório para Berlim, comunicando que efetuara, até a data, 7.819 “execuções” na zona de Minsk. Para garantir o máximo sigilo, ambos os relatórios foram enviados no sistema de cifras Enigma. Assim, puderam ser lidos pelos serviços secretos britânicos. É provável que Hitler também tenha lido esses relatórios; cinco dias antes, o chefe da Gestapo, Heinrich Müller, escrevera, de Berlim, aos comandantes das quatro forças especiais, incluindo o general Nebe da força especial B, sublinhando que “o Führer deve ser continuamente informado, a partir de Berlim, acerca do trabalho das forças especiais no Leste”.

Muito longe de Leningrado, em direção sudeste, começaram em 8 de setembro, na região do Volga, as deportações dos seiscentos mil indivíduos de origem alemã radicados na região havia duzentos anos. Com as forças alemãs preparadas para entrar em Kiev, Stalin, receando eventuais sabotagens e perturbações, tomou a medida draconiana de deportar um povo inteiro. A partir daí, cerca de cem vilas e aldeias, de Marxstadt a Strassbourg, perderiam seus habitantes de língua alemã.

Em 9 de setembro, o comandante soviético da frente sudoeste, marechal Budyonny, pediu autorização a Stálin para abandonar Kiev, o que Stalin recusou. Nesse dia, no Atlântico norte, dezesseis submarinos atacaram um comboio de 65 navios mercantes a caminho da Grã-Bretanha. 
Na batalha que se seguiu, quinze navios mercantes foram afundados, mas não antes que um submarino atacante, o U-501, fosse obrigado a vir à superfície para escapar às cargas de profundidade lançadas por duas corvetas
canadenses, Chambly e Moosejaw, ambas em viagem de treino quando receberam a notícia do combate. Pouco depois desse êxito, a corveta Chambly foi bombardeada pela aviação alemã; enquanto afundava, um tripulante, Stoker Brown, foi sorvido pelo alçapão da torre de comando e desapareceu como mais uma vítima da guerra no mar.

Em 11 de setembro, o marechal Budyonny apelou novamente a Stalin por uma autorização para “uma retirada geral” de Kiev, apoiado pelo principal homem do Partido Comunista na cidade, Nikita Khrushchev. Poucas horas depois, era demitido de suas funções. Num telefonema para o general Kirponos, em Kiev, Stalin ordenou ao comando militar da cidade: “Parem, de uma vez por todas, de procurar novas linhas para onde recuar e procurem maneiras de resistir, apenas de resistir.”

Hitler ordenou a suspensão do assalto a Leningrado. A cidade deveria ser obrigada a render-se por causa da fome. Cinco divisões blindadas, duas divisões motorizadas e boa parte do apoio aéreo do exército de Von Leeb deviam abandonar a frente de Leningrado no intervalo de uma semana. Von Leeb protestou. As trinta divisões soviéticas encurraladas na cidade estavam à beira da destruição. As tripulações dos blindados alemães mais próximos já distinguiam as torres douradas do edifício do almirantado.

As forças alemãs encontravam-se às portas de Kiev, terceira cidade atacada na União Soviética, a seguir a Moscovo e Leningrado. Em 16 de setembro, após quatro dias de apelos urgentes do general Kirponos a Stalin, dizendo que era demasiado tarde para retirar as suas tropas da cidade e dos arredores, o marechal Timoshenko autorizara a retirada de Kiev. Passariam ainda, no entanto, outras 48 horas antes que Stalin confirmasse a ordem. Em 18 de setembro, dia em que teve início a tardia retirada, a primeira coluna de mil homens, comandada pelo general Kirponos, foi alvo de uma emboscada, ficando cercada. Atingido por estilhaços de mina na cabeça e no peito, Kirponos morreu em menos de dois minutos. Seus exércitos lutaram com bravura para escapar à ratoeira. Embora quinze mil homens tenham conseguido salvar-se, os alemães fizeram mais de quinhentos mil prisioneiros. Para o Exército Vermelho, era uma quebra grave, maciça, de sua força de combate, mas os alemães tinham bons motivos para estar preocupados; nessa semana, Berlim anunciou que 86 mil militares alemães haviam morrido em combate desde a invasão à Rússia três meses antes.

Em breve, tal quantidade seria mais do que duplicada. Nesse setembro, a recuperação das forças de Tito na Jugoslávia ocupada aumentaria as preocupações dos círculos militares alemães. Às primeiras horas de 17 de setembro, de um submarino britânico, com base em Malta, desembarcava na costa da Dalmácia, próximo a Petrovac, um agente britânico, o coronel D. T. Hudson, que imediatamente entrou em contacto com Tito e Mihailovic, comandante de Cetnik. Uma semana depois, os homens da resistência de Tito, setenta mil ao todo, com poucas armas e quase sem munição, capturaram a cidade de Uzice, onde se situava uma fábrica de espingardas que produzia quatrocentas armas por dia, e mantiveram-na durante dois meses. A resistência na Jugoslávia, tal como na Rússia, começava a perturbar e a imobilizar um número crescente de tropas alemãs.

Em 19 de setembro de 1941, as forças alemãs entraram em Kiev enquanto Leningrado era alvo do maior bombardeamento aéreo e de artilharia desde o início da guerra, quando 276 bombardeiros alemães conseguiram romper as defesas antiaéreas da cidade. Mais de mil habitantes morreram, incluindo muitos já feridos, que se encontravam num hospital atingido. Dois dias depois, 180 bombardeiros atacaram a ilha de Kronstadt, o mais importante núcleo de defesa de Leningrado; a cidade e seu estaleiro naval sofreram graves estragos.

Em 8 de outubro, no sul da Rússia, Mariupol caiu em mãos alemãs; as tropas de Hitler haviam chegado ao mar de Azov. “Em termos militares”, disse, no dia seguinte, aos jornalistas estrangeiros em Berlim, o assessor de imprensa de Hitler, Otto Dietrich, “a Rússia soviética foi derrotada”. No entanto, a resistência soviética não fora vencida nem haviam sido neutralizados os tanques T-34. E, na transmissão internacional da BBC, uma voz murmurava, em alemão, após se ouvir sete segundos passarem no relógio: “De sete em sete segundos, morre um alemão na Rússia. Será seu marido? Será seu filho? Será seu irmão?” Em 10 de outubro, Stalin retirou o general Zhukov de Leningrado, quando foram registadas na cidade as primeiras mortes por fome, para entregar-lhe o comando de uma recém-formada frente
ocidental e para deter o avanço dos alemães sobre Moscovo. A campanha contra o sistema judaico-bolchevique é o aniquilamento total dos alicerces de seu poder e o extermínio das influências asiáticas na região europeia. Este objetivo, explicava Reichenau, “impõe às tropas tarefas que ultrapassam a rotina limitada da guerra convencional”, de modo que o soldado alemão “deve estar plenamente persuadido da necessidade de castigar severa, mas legitimamente, a sub-humanidade judaica”.

Em 20 de outubro, 500 mil russos de ambos os sexos foram mobilizados em Moscovo para abrir 8.000 Km de trincheiras e de valas antitanque em volta da cidade. Ao mesmo tempo, foram instalados 300 Km de arame farpado. Os alemães estavam a apenas 100 Km da capital soviética. 
Em Londres, ao saber que os exércitos alemães estavam a 100 Km de Moscovo, Churchill e seus chefes de estado-maior decidiram que os tanques fornecidos aos russos deveriam ser acompanhados por sobressalentes para três meses, “sejam quais forem os sacrifícios necessários”.

Em 24 de outubro, forças alemãs entraram em Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia. Em Vilna, 3.700 judeus, entre os quais 885 crianças, foram perseguidos pelas ruas do gueto e levados para Ponar, onde seriam fuzilados. Centenas de pessoas, escondidas em caves para escapar à ronda, foram arrastadas para a rua e abatidas.

Em Berlim, o burocrata Adolf Eichmann, encarregado da emigração judaica, aprovou uma proposta apresentada por Heirich Lohse, na semana anterior, para que os judeus que seriam deportados para Riga, vindos de Berlim, Viena e outras regiões do Reich, incluindo Luxemburgo, fossem gaseados no interior de camiões. A decisão sobre exterminá-los dessa forma foi redigida em 25 de outubro, pelo juiz Alfred Wetzel, conselheiro para assuntos judaicos no Ministério dos Territórios Ocupados do Leste; o juiz lembrou que o Dr. Viktor Brack, funcionário da chancelaria de Hitler cujo programa de eutanásia fora recentemente suspenso, havia “coordenado o fornecimento de instrumentos e de material para matar pessoas por meio de gás tóxico”. Para “colaborar com a instalação dos edifícios e das fábricas de gás necessários”, o Dr. Brack estava disposto a enviar a Riga seu especialista em química, Dr. Kallmeyer. O objetivo, explicava o juiz Wetzel, era “evitar incidentes como aqueles ocorridos durante os fuzilamentos de judeus em Vilna”, quando as execuções “foram realizadas à vista de todos”. O “novo processo garante que incidentes semelhantes não sejam possíveis”.

Em 31 de outubro, em Poltava, iniciou-se um período de seis dias de execuções, quando foram mortas 740 pessoas, discriminadas no Relatório da Situação Operacional na URSS no 143 como “três funcionários políticos, um sabotador, 137 judeus, 599 doentes mentais”. Os duzentos doentes restantes, internados no hospital psiquiátrico de Poltava, considerados “curáveis”, foram enviados como operários para uma fábrica de instrumentos agrícolas. Após as execuções, o hospital psiquiátrico foi transformado num hospital de campanha, e a “roupa íntima, o vestuário e os utensílios domésticos” dos antigos pacientes foram postos à disposição do novo hospital.

Em 7 de novembro, Stalin esteve na praça Vermelha, onde, do alto do mausoléu de Lenine, passou em revista às tropas, incitando-as, em seu discurso, a fazerem tudo para defender a “santa Rússia”. Os soldados saíram da praça Vermelha pela rua Gorki, seguindo para a frente de combate. O solo endurecera durante a noite, possibilitando o avanço dos tanques alemães, finalmente a salvo da lama
pegajosa que tudo invadia e impregnava e que constituíra um obstáculo tão grande ao seu avanço nas duas últimas semanas de outubro.

Tal como as bombas britânicas caíam em Berlim, as bombas alemãs caíam em Leningrado, enquanto na retaguarda das linhas alemãs, nos arredores de Minsk, na Rússia branca, doze mil judeus eram massacrados em fossas. Três dias depois, chegou a Minsk um comboio com mil judeus vindos de Hamburgo. “Sentiam-se”, recordou uma testemunha ocular, “como pioneiros trazidos para colonizar o Leste”. Poucos sobreviveriam aos massacres dos meses seguintes; os seis mil judeus de Frankfurt, de Bremen e do Reno que se juntaram a eles ainda nesse mês não tiveram melhor sorte. “Por mais que a guerra dure”, disse Hitler nas comemorações anuais do Putsch da Cervejaria em Munique, em 8 de novembro, “o último batalhão em campo será alemão”. E acrescentou, em tom de triunfo: “Estamos decidindo o destino da Europa para os próximos mil anos.” 

Em 9 de novembro, na Crimeia, as forças alemãs ocuparam Ialta. Em 12 de novembro, a temperatura na frente de Moscovo desceu a doze graus negativos. Muitos soldados alemães encontraram nas ulcerações provocadas pelo frio um inimigo inesperado e mutilante. Hitler, em Berlim, continuava a falar sobre o que aconteceria após a vitória sobre a Rússia. “Daremos aos nativos tudo de que precisam: comida em abundância e bebida de má qualidade. Se não trabalharem, vão para campos de concentração e serão privados de álcool.” Das laranjas ao algodão, acrescentava Hitler, “tudo por ser produzido naquele país”. A posição dos alemães, tão impressionante no mapa, piorava a cada dia. A partir de meados de novembro de 1941, o frio era tanto que as sentinelas que adormeciam acidentalmente em seus postos eram encontradas mortas, congeladas, na manhã seguinte. Os russos estavam mais habituados a sobreviver em temperaturas tão baixas. Além disso, defendiam a sua pátria e a sua capital. Em 17 de novembro, próximo de Volokolamsk, um soldado raso, Efim Diskin, único sobrevivente de sua bateria antitanque e também gravemente ferido, destruiu cinco tanques alemães com sua única arma. Mais tarde, recebeu o galardão de Herói da União Soviética.

Os russos começavam a preparar-se para uma ofensiva de grande envergadura, com o intento de salvar Moscovo. Muito habilmente, conseguiram ocultar dos pilotos de reconhecimento e dos serviços secretos alemães o avanço de suas reservas. O “inimigo”, comentou o general Halder em seu diário, em 18 de novembro, “não tem forças na retaguarda e, provavelmente, está numa situação ainda pior do que nós”. Quem vivia uma “situação” muito pior do que todos os combatentes que se defrontavam nos campos gelados da Rússia ou nas dunas da Líbia eram os três milhões de homens do Exército Vermelho, ou talvez ainda mais, capturados pelos alemães ao longo dos cinco meses anteriores. O destino de sete mil homens como esses foi descrito pelo comandante de um regimento da artilharia alemã, que os viu no campo de concentração. As janelas do edifício onde viviam, escreveu ele, “têm vários metros de altura e de largura e não têm resguardo de qualquer espécie. O edifício também não tem portas. Os prisioneiros vivem, assim, praticamente ao ar livre, e, todos os dias, morrem de frio às centenas, para não falar naqueles que sucumbem à exaustão”.

Nove dias depois, 4.500 judeus eram assassinados no porto de Kerch, na Crimeia; duas semanas depois, 14.300 judeus foram mortos em Sebastopol. Os massacres foram presenciados por centenas de pessoas e pormenorizadamente descritos nos Relatórios da Situação Operacional na URSS, distribuídos para altos funcionários e oficiais superiores alemães em trinta a sessenta exemplares. Na frente de Moscovo, as forças alemãs avançaram, em 23 de novembro, até 48 Km da capital, alcançando a aldeia de Istra, um centro de peregrinação da Rússia ortodoxa, conhecido pelos crentes como Nova Jerusalém. No dia seguinte, as cidades de Klin e de Solnechnogorsk foram tomadas pelos alemães, abrindo-se, assim, a principal autoestrada de Moscovo para o norte. Em Berlim, celebrou-se, em 25 de novembro, o quinto aniversário do Pacto Anticomintern. Um número considerável de estados estava associado ao objetivo de derrotar a Rússia comunista: Alemanha, Itália, Japão, Hungria, Espanha, Bulgária, Croácia, Dinamarca, Finlândia, Roménia e Eslováquia.

Contra-atacando a partir do norte, as forças soviéticas atravessaram o congelado Volga num ponto próximo de Kalinin. Ao sul, atravessando o canal de Moscovo, vindos do leste, expulsaram os alemães de Yakhroma, libertando o caminho de ferro em direção ao norte. Apesar da ordem de Hitler para que seus exércitos mantivessem as posições a todo custo, as divisões foram sendo repelidas lenta e difícil, mas inexoravelmente, por dois a oito quilômetros, e, ao norte de Moscovo, onde a ameaça havia sido mais grave, por 17 Km. Nesse dia, a Grã-Bretanha declarou guerra aos três parceiros de Hitler na luta contra a Rússia: Finlândia, Hungria e Roménia. Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Canadá fizeram o mesmo.

Operação Barbarossa: Invasão alemã da União Soviética em 22 de junho de 1941




Após a Revolução Russa de 1917 e final da Primeira Guerra Mundial, a Ucrânia foi brevemente uma nação independente, e em 1920 tornou-se parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a União Soviética. Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha invadiu a Ucrânia. Mais de seis milhões de ucranianos, a grande maioria deles civis, morreram na guerra. Em 1944, a União Soviética recuperou o controlo da Ucrânia sob o comando de Joseph Stalin e expandiu suas fronteiras para incluir territórios tomados da Roménia, Polónia e antiga Checoslováquia (atual República Checa).

Quando Ribbentrop insistiu em afirmar que a Grã-Bretanha estava derrotada e que seu império seria, por conseguinte, repartido entre as potências do Eixo, às quais a Rússia deveria, pois, aliar-se, Molotov comentou agressivamente: “Se é assim, por que estamos sentados neste abrigo? E de quem são as bombas que caem tão perto que as ouvimos?” Foi, porém, outra declaração de Molotov que convenceu Hitler quanto às dificuldades crescentes que as ambições soviéticas trariam caso o pacto Molotov-Ribbentrop de agosto de 1939 permanecesse como a base da política alemã; a dado momento da discussão no abrigo, Molotov chegou a afirmar a Ribbentrop que a Rússia nunca abdicaria de seus interesses nos acessos ocidentais do Báltico: as águas do Kattegat e do Skagerrak, entre a Dinamarca e a Noruega, outrora sob controlo dinamarquês e, naquele momento, sob controle alemão.

Hitler ficou indignado, mas a verdade é que seus planos de guerra contra a Rússia prosseguiam sem interrupção. Em 13 de novembro, quando Göring o avisou que a força aérea alemã talvez não tivesse força para destruir o poderio industrial russo, Hitler disse-lhe que as necessidades a longo prazo da guerra contra a Grã-Bretanha tornavam essencial o controlo dos campos de petróleo no Cáucaso. A guerra contra a Rússia podia ser ganha em poucos meses. Göring devia preparar sua força aérea para iniciar a ofensiva no 1º de maio. Em 16 de novembro, dois dias depois de Coventry, houve um ataque contra Hamburgo; embora a nebulosidade e o gelo tornassem impossível um ataque preciso contra alvos militares, as bombas foram lançadas, matando 223 civis alemães.

Na tarde de 21 de junho, Hitler escreveu a Mussolini, dizendo-lhe que havia tomado “a mais difícil decisão da sua vida”. Pouco depois das 21h, o chefe de estado-maior da região militar de Kiev, general Purkayer, telefonou ao marechal Zhukov em Moscovo para comunicar-lhe que um sargento alemão “procurou nossos guardas na fronteira para dizer que as tropas alemãs avançavam para posições de ataque e que a ofensiva começaria na manhã de 22 de junho. Zhukov telefonou imediatamente a Stalin, que o convocou para o Kremlin, juntamente com Timoshenko. Sob o nome de Operação "Barbarossa", a Alemanha nazi invadia a União Soviética a 22 de junho de 1941, naquela que foi considerada a maior operação militar germânica da Segunda Guerra Mundial.

Stalin ainda hesitava. “É muito cedo para uma diretiva como essa – talvez a questão ainda possa ser resolvida pacificamente.” Concordou, porém, em enviar uma diretiva a todos os conselhos militares nas regiões de fronteira, prevenindo-os de que “um ataque alemão repentino é possível”. Stalin acrescentava, no entanto, que as tropas soviéticas não deviam “deixar-se incitar ao combate por provocações alemãs”. A diretiva, assinada nessa noite por Timoshenko e Zhukov, ordenava que os bastiões das zonas fortificadas fossem “secretamente guarnecidos de homens” às primeiras horas de 22 de junho, que todos os aviões fossem dispersos pelos aeródromos “antes da alvorada” de 22 de junho, que “todas as unidades” ficassem em estado de alerta e que fossem feitos preparativos “para o blecaute das cidades e de outros alvos”.

Trinta minutos depois da meia-noite, na primeira hora de 22 de junho, Zhukov comunicou a Stalin que a sua diretiva havia sido transmitida a todas as regiões de fronteira enquanto Hitler, após o jantar com Albert Speer e com o almirante Raeder, falava sobre seus planos para a criação de uma base naval alemã na costa norueguesa, próxima a Trondheim. Seria o maior porto em toda a Alemanha e, junto a ele, seria construída uma cidade para cerca de 250 mil alemães. A cidade seria incorporada à Grande Alemanha. Hitler pôs, então, um disco no gramofone, executando para seus convidados alguns compassos de “Os Prelúdios”, de Liszt. “No futuro próximo, vocês ouvirão muitas vezes esses acordes”, disse ele, “pois será nossa fanfarra de vitória na campanha da Rússia”.

Às primeiras horas de 22 de junho, quando as forças alemãs se encontravam na fronteira soviética, prontas para a invasão, 2,5 milhões de soldados soviéticos enfrentavam 3,2 milhões de alemães. As reservas soviéticas, disponíveis para a defesa de Moscovo, de Leningrado e das regiões industriais da bacia do Donetsk e dos Urais, eram de 2,2 milhões de homens. Esses números, porém, eram enganadores: somente trinta por cento das tropas soviéticas estavam equipadas com armas automáticas e apenas vinte por cento dos aviões soviéticos, e nove por cento dos tanques, eram modelos modernos.

Hitler, trocando Berlim por um novo quartel-general, a Toca do Lobo, próximo a Rastenburg, na Prússia Oriental, disse ao general Jodl: “Basta-nos arrombar a porta a pontapé para que o edifício inteiro se desfaça, tão podre ele está.” No entanto, nem mesmo a confiança de Hitler era isenta de reservas. “No início de cada campanha”, disse ele a um membro de seu estado-maior algumas horas mais tarde, “abre-se uma porta para um quarto escuro, onde nada se vê. Nunca se sabe o que estará escondido”.

Ao meio-dia de 22 de junho, a força aérea alemã já havia destruído mais de mil aviões soviéticos no solo ou em combate: um quarto de todos os efetivos aéreos russos. Nesse dia, tanto a Itália quanto a Roménia declarou guerra à União Soviética. Ao cair da noite, haviam sido tomadas as cidades de Kobryn e de Pruzhany, situadas na zona fortificada. No dia seguinte, em Moscovo, foi criado um conselho de evacuação, composto por três elementos, entre os quais Alexei Kosygin, que organizaria o desmantelamento, a transferência e a reconstrução de mais de 1.500 fábricas de armamento e de outras unidades industriais da Rússia Ocidental e da Ucrânia para locais seguros ao leste. Além dos Urais, longe de qualquer combate provável, ou mesmo possível, em cidades distantes como Sverdlovsk, Kurgan e Chelyabinsk, na Sibéria e nas cidades do Cazaquistão.

O exército alemão está numa guerra contra o bolchevismo, não contra os povos russos. No entanto, o general Lemelsen continuava a aplicar a ordem de Hitler para que aqueles identificados como comissários políticos e guerrilheiros “fossem separados e fuzilados”. Somente por esse meio, explicava, o povo russo poderia ser libertado “da opressão de grupos judaicos e criminosos”. A última semana de junho foi assinalada por constantes reveses para os soviéticos nos campos de batalha. Desde os primeiros dias da ofensiva alemã, os judeus foram escolhidos como principais vítimas de aniquilamento. Quando, em 25 de junho, as forças alemãs entraram em Lutsk e encontraram um médico judeu, Benjamim From, a operar uma mulher cristã no hospital, ordenaram-lhe que interrompesse.

Em 27 de junho, duas forças Panzer, reunindo-se a leste de Minsk, encurralaram e atacaram trezentos mil soldados russos, sendo cinquenta mil na própria cidade de Minsk. Na batalha, morreram dezenas de milhares de homens. Quase todos os outros foram feitos prisioneiros. Na noite de 29 de junho, Lvov, capital da Galícia Oriental, caiu em mãos alemãs naquilo que um historiador chamou de “um pesadelo de massacres e de caos”, que começou com a morte de três mil presos políticos ucranianos pelo NKVD. Mal as tropas russas se retiraram, algumas delas custosamente, pois a cidade estava cercada, os nacionalistas ucranianos começaram a massacrar judeus no meio da rua. Mais ao Sul, na cidade de Jassy, soldados romenos mataram, num acesso de violência, cerca de 250 judeus enquanto outros 1.194 morreram num vagão selado que efetuava uma viagem de oito dias rumo ao sul, com destino à vila de Kalarash. Não eram os primeiros judeus massacrados sob a cobertura das operações da guerra. Três dias antes, passadas menos de 48 horas desde a entrada das tropas alemãs em Kovno, os habitantes lituanos da cidade voltaram-se contra os mais de 35 mil judeus residentes dali, matando mais de mil. Em 30 de junho, na região de Borisov, na margem leste do rio Beresina, Jakov Kreiser, general soviético judeu de 36 anos, liderando uma divisão motorizada de infantaria, resistiu durante dois dias à ofensiva dos tanques de Guderian. Entretanto, reforços soviéticos avançavam o mais depressa possível para a linha Drissa-Mozyr. Mais tarde, como recompensa por seu feito, Kreiser receberia a cobiçada distinção de Herói da União Soviética. Ao sul de Borisov, no entanto, após tomarem a vila de Bobruisk, as forças alemãs estabeleceram uma posição avançada além do Beresina. Cada cidade soviética, vila e aldeia homenagearia seus heróis e suas vítimas dessas primeiras semanas de guerra. Leningrado, por exemplo, ainda recorda seu primeiro escritor caído em combate, Lev Kantorovitch, membro de um destacamento de fronteira, morto nas imediações de Enso em 30 de junho. Enquanto grande número de russos morria em combate, a aplicação do “Decreto dos Comissários” fazia com que muitos outros fossem, todos os dias, abatidos a sangue-frio. Também em 30 de junho, o cadete da SS Peter Neumann, de 21 anos, recebeu ordens de seu tenente para abater dois comissários que sua unidade capturara numa pequena aldeia às portas de Lvov. Quando Neumann hesitou, a tarefa foi entregue ao cabo da SS Libesis, “um alegre camponês do Tirol”, recordaria Neumann, “que ganhara duas vezes a cruz de ferro em combate”; “tranquilamente, descontraidamente, como se tivesse todo o tempo do mundo, Libesis abordou os comissários. ‘Você é um Comissário do Povo?’, perguntou, num russo rudimentar. ‘Sou. Porquê?’, ambos responderam.” Libesis tirou a pistola do coldre, “mirou sucessivamente suas cabeças rapadas” e matou os dois homens. “De um momento para o outro”, recordou Neumann, “não havia mais Comissários do Povo”.


sexta-feira, 4 de março de 2022

Kharkiv em conflitos pretéritos





Em Kharkiv, seria preciso encontrar imediatamente roupas quentes. Na estrada, o céu estava limpo, azul, nuvens de passarinhos rodopiavam nos bosques; perto das aldeias, os camponeses ceifavam os juncos dos lagos gelados para cobrirem as suas isbás. A estrada em si continuava perigosa: o frio, em determinados lugares, congelara as cristas caóticas de lama levantadas pela passagem dos blindados e camiões, e aquelas arestas endurecidas faziam os veículos derraparem, rasgando os pneus, às vezes chegando a provocar capotagens quando um motorista fazia mal uma curva e perdia o controlo do carro. Em outros trechos, sob uma fina camada que se rompia sob as rodas, a lama continuava viscosa e traiçoeira.

Nos arredores estendiam-se a estepe vazia, os campos cultivados, algumas florestas. Eram cerca de 120 Km de Poltava a Kharkiv: a viagem demandava um dia. Entrava-se na cidade por subúrbios devastados, paredes calcinadas, reviradas, derrubadas, por entre as quais, rapidamente retiradas, agrupavam-se em pequenos montes as carcaças retorcidas e queimadas do material bélico desperdiçado na vã defesa da cidade. O Vorkommando instalara-se no Hotel International, que dava para uma imensa praça central, dominada, no fundo, pelo aglomerado construtivista do Dom Gosprom, prédios cúbicos, dispostos em arco de círculo, com duas arcadas altas e retangulares, e por um par de arranha-céus, espantosa construção para aquela grande cidade preguiçosa, com suas casas de madeira e velhas igrejas czaristas.

A Prefeitura, incendiada durante os combates, exibia fachadas maciças e renques de janelas abertas. No centro da praça, um imponente bronze de Lenine dava as costas para os dois blocos e, indiferente aos veículos e blindados alemães estacionados aos seus pés, conclamava os passantes com um gesto largo. No hotel reinava a confusão; a maioria dos quartos tinha os vidros quebrados, um frio insuportável penetrava pelos vãos.

O Standartenführer, o médico Erwin Weinmann, contrastava positivamente com o seu predecessor. Era um homem jovem, fisionomia preocupada, quase triste, autêntico nacional-socialista por convicção. Assim como o Dr. Thomas, que também era médico de profissão, trabalhava há vários anos na Staatspolizei. Causou imediatamente boa impressão. “Passei vários dias em Kiev com o Brigadeführer Thomas”, disse antes de qualquer coisa, “e ele me explicou as imensas dificuldades que os oficiais e os homens deste Kommando tiveram que enfrentar. Saibam que não foi em vão e que a Alemanha está orgulhosa dos senhores. Vou passar os próximos dias familiarizando-me com o trabalho do Kommando; com esse objetivo, gostaria de ter uma conversa franca e livre com cada um de vós, individualmente.”

Na véspera da chegada de Weinmann a Kharkiv, Von Reichenau, depois da sua corrida matinal sob 20 graus negativos, pifou. Segundo alguns, vítima de um enfarte do miocárdio; segundo outros de uma embolia cerebral. Weinmann soubera da novidade no comboio, por um oficial do AOK. Como Von Reichenau ainda vivia, o Führer ordenara que ele fosse levado de volta para a Alemanha; o avião caiu perto de Lemberg, tendo sido ainda encontrado preso no assento, bastão de Feldmarschall na mão, triste fim para um herói alemão. Depois de algumas hesitações, o Generalfeldmarschall Von Bock foi designado para o seu lugar; no mesmo dia de sua nomeação, os soviéticos, procurando capitalizar sucessos em Moscovo, lançavam uma ofensiva a partir de Izyum, ao sul de Kharkiv, em direção a Poltava. Fazia agora 30 graus negativos, não havia quase mais nenhum veículo circulando, o abastecimento tinha que ser feito em vagão panje e a Rollbahn perdia mais homens que as divisões na linha da frente.

Já os russos alinhavam divisões de um temível novo tanque, o T-34, invulnerável ao frio e que aterrorizava os Landser, mas não resistia aos 88 dos alemães. Paulus transferiu o AOK de Poltava para Kharkiv, o que animou um pouco a cidade. Os russos certamente pretendiam instalar um cerco a Kharkiv, mas a sua tenaz norte nunca saiu do lugar; a tenaz sul investiu contra as linhas alemãs e foi contida com dificuldade, perto do fim do mês, em frente a Krasnograd e Paulograd. Os atentados, apesar da feroz repressão, multiplicavam-se; sem dúvida a escassez que grassava na cidade contribuía para isso. O Sonderkommando não foi poupado, um escritório da Wehrmacht, no Maïdan Tereleva, no centro da cidade. Nas proximidades, três velhas kolkhozianas, sentadas em caixotes, permaneciam na expectativa de vender alguns tristes e murchos legumes; na praça, ao pé do monumento bolchevique à libertação de Kharkiv (a de 1919), meia dúzia de crianças brincava, não obstante o frio, com uma bola de pano.

Weinmann mostrou-se mais preocupado com a estupidez dos Orpo do que com a morte:

“Tentamos melhorar as nossas relações com a população local, e matamos os seus filhos? Teremos que julgá-los.” Fui cético: 
“Vai ser difícil, Herr Standartenführer. A reação deles foi infeliz, mas compreensível. Além disso, faz meses que eles recebem ordens para fuzilar crianças; não faria sentido puni-los pela mesma coisa.”
 "Não é a mesma coisa! As crianças que executamos eram condenadas! Estas eram crianças inocentes.”
“Se me permite, Herr Standartenführer, a base em que são decididas as condenações torna essa distinção bastante arbitrária.” Esbugalhou os olhos e suas narinas fremiram de raiva; subitamente, recompôs-se e se acalmou. 
“Vamos mudar de assunto, Hauptsturmführer. De toda a forma, há vários dias queria conversar consigo. Acredito que deva estar muito cansado. O Dr. Sperath acha que está à beira de um esgotamento nervoso.”
“Perdão, Herr Standartenführer, mas permita-me contrariar essa opinião. Sinto-me muito bem.” Ofereceu-me um cigarro e acendeu outro para si. 
“Hauptsturmführer, sou médico por formação. Também sei reconhecer determinados sintomas. O senhor está, como se diz vulgarmente, completamente consumido. Não é o único, aliás: quase todos os oficiais do Kommando estão no limite. Por outro lado, o inverno já provocou uma forte queda de atividade e estamos em condições de funcionar com efetivos reduzidos por um ou dois meses. Muitos oficiais vão ser substituídos ou dispensados com licença médica prolongada. Os que têm família voltarão para a Alemanha. Os demais, como o senhor, irão para a Crimeia, para sanatórios da Wehrmacht. Parece que lá é muito bonito. Poderá inclusive tomar um banho daqui a algumas semanas.” 
Um sorrisinho insinuou-se em seu rosto estreito e ele me estendeu um envelope. 
“Aqui estão as suas autorizações de viagem e seus certificados. Está tudo em ordem. O senhor tem dois meses, depois veremos. Bom descanso.”