terça-feira, 6 de novembro de 2018

Caso as touradas acabassem . . .


          Tem havido muitos argumentos a favor das touradas, como aquela beleza de espetáculo que os censores querem esconder das crianças com medo que elas gostem.
          Há uma coisa que aficionados, e autores de textos a favor da tauromaquia, não falam: no sofrimento do animal o ser lidado. E todavia, não deve haver nenhum aficionado em qualquer parte do mundo que consiga, com honestidade intelectual, demonstrar que o animal não sofre, neste caso o touro. Sofrimento esse que não tem nenhuma justificação a não ser a emoção e o prazer de que gosta de ver. Não quero dizer com isto que esse prazer tenha que ser prazer de sadismo. Deixo este aspeto à pronúncia de psicanalistas.
          Penso que ninguém de índole razoável está disposta a admitir a defesa da tortura de animais para divertimento em espetáculos de bilheteira. Porque há limites morais para o modo como podemos tratar os animais.
          O fim das touradas talvez seja possível daqui a uma ou duas gerações a seguir, porque nessa altura já não deve ser possível a existência de aficionados da festa brava. E neste ponto não é necessário ir tão longe como invocar o estatuto moral dos animais. Pois não se trata de traçar uma linha que separe de um lado os que têm importância moral, e os que não têm. Como por exemplo, há quem defenda que todos os seres que têm consciência de si têm direito ao grau mais elevado de proteção moral.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A Democracia e o Poder


Só o poder pode criar o “governo das leis” e só as leis num “estado de direito” podem limitar o poder. Este é considerado segundo a tradição – que podíamos fazê-la recuar até Péricles (492-429), a maior personalidade política desse século de ouro da democracia de Atenas – o melhor enquadramento de um regime democrático.

Até ao início dessa Guerra do Peloponeso (431 a.C. - 404 a.C.) os problemas sociais eram mínimos devido ao equilíbrio e sucesso da democracia ateniense. Em 405 a.C., Esparta venceu Atenas na Guerra do Peloponeso, impondo várias mudanças para impedir a retoma do poder ateniense. Os muros do Porto do Pireu foram demolidos com a entrega de todos os navios. Assim, foi instalado em Atenas o governo dos Trinta Tiranos, um governo oligárquico que ocasionou uma crise no regime democrático. Mas em 403, um exército comandado por Trasíbulo derruba a oligarquia dos Trinta Tiranos. A democracia ateniense foi reestabelecida graças ao exército democrata, constituído inclusive por escravos e metecos.

Então é na década de 380 que Platão publica a República, analisando como o poder funciona e como a Atenas deveria ser governada, muito crítico em relação à Democracia, desqualificando-a. Um regime em que qualquer pessoa livre podia manifestar-se e deliberar na Ágora, não podia ser bom.

Platão tem o pensamento socrático como o melhor para o desenvolvimento do seu sistema político-filosófico crítico à democracia. A postura de Platão seria, portanto, uma radicalização da leitura socrática sobre a democracia. Conforme a visão ética de Sócrates, toda atividade humana deveria ser orientada para o conhecimento (episteme), ou seja, o saber sobre tudo que envolve determinado ofício. Somente a partir do domínio do conhecimento (episteme) é que se alcançaria a excelência ou virtude (areté) no fazer. Com isso, a excelência advém do conhecer o bem relativo à ação que se pretende realizar, o que indicaria que não há, efetivamente, virtude sem conhecimento. Nesse sentido, Platão descreve que para uma cidade ser considerada sábia, é necessário que aqueles que são responsáveis pela vigilância dela, possuam todo o conhecimento acerca da boa vigilância. A ordem moral e o saber orientariam os homens na aplicação da justiça como virtude, que significa que cada indivíduo cumpriria o que deve ser feito dentro da sua função na cidade.

Portanto, na Democracia, a ausência desta motivação e preparação adequada para uma atividade específica acarretava que o poder era apropriado por pessoas amadoras e despreparadas para exercerem as atividades de gerenciamento da pólis. De acordo com Platão, um governo sábio e legítimo seria de responsabilidade dos governantes que se dedicam ao conhecimento (episteme) da organização da cidade e à melhor conduta possível da mesma. O ponto negativo indicado por Platão é que, como no regime democrático não haveria uma divisão entre ricos e pobres da sociedade como na oligarquia, isso acarretaria no aparecimento de todo o tipo de comportamentos, que antes eram impedidos pela rigidez oligárquica. Esta liberdade distorcida, desenfreada e sem limites se resumiria à realização de desejos frívolos e superficiais, instaurando um laxismo e desrespeito às leis e aos indivíduos da cidade.

Mas a hegemonia de Esparta foi curta, tendo-a perdido para Tebas, que despontava como nova soberana da Grécia. Em 360 a.C., Esparta e Atenas uniram-se contra Tebas, ocasionando um enfraquecimento das grandes cidades gregas no final do século IV a.C. Com a divisão política conflituosa, e a dificuldade de se mantarem como centros de polarização política, tanto Esparta como Atenas permitiram a ascensão de outras pólis, sobretudo a hegemonia macedónica, apoderando-se da Grécia. E assim o regime democrático foi destruído para sempre em Atenas.

Então o que é o Poder? À primeira vista o pensamento que nos vem à cabeça é dizer que este Platão devia ter vergonha na cara, quando para nós a Democracia é o melhor dos regimes políticos que alguma vez tenham sido inventados, particularmente a Democracia Antiga de Atenas do tempo de Péricles, paradigma da boa Democracia, a mais perfeita das formas históricas de Democracia. Platão acreditava que o exercício do Poder não era para todos, infelizmente, porque nem todos eram dotados de certas virtudes para o exercício de governar e deliberar sobre os rumos da pólis.

Para Platão o Poder era a força legítima sobre os outros, mas não a dominação. A dominação era ilegítima. E a Democracia era ilegítima porque era a mera dominação da vontade de uma maioria despreparada. Ele acreditava que para fazer leis era preciso saber fazê-las, sabedoria essa que ele apenas reconhecia aos filósofos. Foi daqui que surgiu um cisma entre democratas e filósofos, tendo perdurado até aos dias de hoje.

Em suma, para Platão, as pessoas que eram dotadas do “amor pelo conhecimento”, portanto, eram dignas de comandar as vidas alheias. Para todos os efeitos, era o bem que tinha algo de legítimo para se apropriar do poder. E só a procura do bem e a luta contra o mal faria sentido na vida de um filósofo. Foi com pensamento semelhante que o clero da Idade Média invocou Deus para legitimar a sua fonte de poder. E por ironia, foi também com o mesmo pensamento que os revolucionários da era Moderna invocaram o Povo de que emanava todo o poder para escolher os seus representantes. E para os dias de hoje a Constituição. O poder do deputado legislador, representante do Povo, vem-lhe do Povo. O que não é outra coisa senão Representação Transcendental do Poder no vocabulário platónico.

Para Espinosa e Maquiavel o poder invocado pelo clero não passava de uma qualquer forma de dominação legitimada por Deus. Era preciso uma grande disposição de espírito para ser vitorioso no jogo da dominação. Disposição essa que Maquiavel chamou “virtu”. O poder é algo que se conquista e se mantém com muito esforço. Não é uma dádiva natural. Ter “virtu” é ter conhecimento do que é necessário fazer para se conquistar e manter o poder, e ao mesmo tempo tem que se ser impetuoso o suficiente para levar a cabo o que se sabe ser necessário para tanto. Para Maquiavel, a política é a continuação da guerra por outros meios: mentira, engano, traição e por diante. Associado ao conceito de Democracia está a ideia excessivamente benévola de cidadão educado para a cidadania investido do poder de eleger os próprios governantes escolhidos de entre os mais sábios, os mais honestos e os mais esclarecidos.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Declínios civilizacionais


          Talvez para um cristão católico, o que se passou depois de Rómulo Augústulo ter sido deposto pelo general germânico Odoacro em 476, e até à entrada de Maomé II em Constantinopla em 1453, não foi o que durante séculos se disse: uma “idade de trevas”. A alvorada da civilização cristã, com todas as suas formas de criação, e que perduraram até aos dias de hoje, diz um católico, criou uma cultura com raízes comuns e unidade, apesar do seu passado conturbado em guerras internas. Uma herança cristã comum com boas credenciais históricas para a base de uma cultura e identidade comuns. Mas a retórica não cola à realidade, e ainda nos dias de hoje o cristianismo é tão divisório como outrora. Em todo o caso, hoje seria impensável o Papa ter aquelas ideias que os papas tiveram no tempo de Carlos Magno.
          Os romanos, antes da queda, estavam tão certos como nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria para sempre substancialmente inalterado. É o que alguns historiadores da atualidade, sobretudo os pós-estruturalistas, pensam para se sentirem mais confortáveis a discutir ascensões disto ou daquilo do que quedas ou declínios de aqueloutro. Parece que assim correm menos riscos, com um vocabulário otimista e positivo. Parece que há menos dificuldades e menos complicações se concebermos as transformações das sociedades de uma forma suave e contínua, essencialmente num sentido positivo. Portanto, para os intelectuais de agora, sobretudo os do norte da Europa, os povos germânicos foram sobretudo migrantes que se acomodaram pacificamente nas províncias romanas, e não invadiram coisa nenhuma. E a cultura de Roma evoluiu lentamente para novas formas.



          Depois de leituras de um lado e de outro, eu ainda acredito que os séculos pós-romanos assistiram a um declínio dramático na sofisticação e prosperidade económica, com impacte em toda a sociedade. Independentemente da influência do cristianismo, ao fim e ao cabo, sempre foram as condições materiais que condicionaram e ditaram os fluxos humanos para fazer andar a roda da História. Daí que eu também acredite, mais cedo do que tarde, que o declínio dos EUA e o fim da UE, à semelhança do fim da civilização greco-romana antiga arrastada pelo declínio de Roma, será inexorável.
          Tem sido nestes últimos tempos de “despreocupação descontraída com os factos” que se tem contrariado a teoria histórica que interpretava o facto de a civilização mediterrânica do mundo antigo, centrada em Roma, ter colapsado a partir do século V devido ao golpe de misericórdia dado pelas invasões germânicas. Em primeiro lugar, porque o conceito de civilização é um conceito ultrapassado pelo conceito de culturas. Segundo, porque não houve invasões nenhumas. Terceiro, porque Roma era um império.
          Estas ideias, tão auspiciosas e tão radicalmente diferentes, terão suportado o facto de o Império Romano, por si só, nunca ter merecido a satisfação dos líderes políticos como um antepassado honroso da União Europeia. Acreditam que uma União Europeia inteiramente mediterrânica marginalizaria a Europa do Norte, a Europa de Bruxelas e Estrasburgo, a pouco mais de 100 quilómetros da residência favorita de Carlos Magno e de Aachen, o local onde está enterrado.  

A recente reação dos italianos face às migrações e o papel da Organização Internacional para as Migrações



A maioria dos italianos não concorda com a seguinte opinião: “Queiramos ou não, não é possível parar a imigração, não se pode fazer nada em relação ao que foge ao nosso controlo”. Os italianos consideram que essa postura é potencialmente desastrosa. Assim como também rejeitam a ideia de que os germânicos do século V tenham sido imigrantes pacíficos. Não compram a teoria que é hoje padrão nas academias do norte da Europa: “. . . a dita invasão pacífica dos bárbaros não causou nenhum retrocesso civilizacional, antes pelo contrário. . .”


António Vitorino é o atual diretor geral da Organização Internacional para as Migrações, e segundo ele, os italianos culpam os imigrantes como bode expiatório dos seus problemas de fundo para os quais não querem ou não sabem resolver. As ideias de que as migrações são uma invasão, que põem em causa a identidade dos países de acolhimento, são falsas ideias feitas. É uma visão desfocada da realidade, impregnada de preconceitos e juízos apriorísticos completamente errados, de que os imigrantes descaracterizam as identidades nacionais dos países de acolhimento: “. . . temos, felizmente, casos de sucesso de sociedades abertas, tolerantes, onde o ajustamento e a convivialidade são garantidos por um esforço de duplo sentido — dos que chegam, para se adaptarem, e dos que os recebem, para se adaptarem à sua chegada. . .”

Esta ideia de invasão está muito ligada a fenómenos importantes, como seja o envelhecimento das sociedades mais ricas, comunidades de destino. Elas têm necessidade de rejuvenescimento para responder com maior agilidade e maior criatividade aos desafios de uma economia global mais competitiva e mais agressiva. Em todo o caso, Vitorino tem consciência de que a Europa não vai ficar como muitos europeus queriam: “tudo como dantes”. Ainda não sabemos todas as implicações que estas novas realidades vão ter sobre a sobrevivência da própria democracia. Apenas uma coisa é certa: a democracia representativa como a conhecemos no passado não vai ficar incólume a estas transformações. Não nega que haja riscos sérios. Mas também confia em que a sociedade, no seu conjunto, seja capaz de encontrar as respostas. Há uma certeza que tem: não é possível resolver problemas complexos na base de ideias simplificadas. As ideias podem ser simples, mas não podem ser simplistas. Isso é particularmente verdade nas migrações, onde o debate é, tantas vezes, dominado por estigmatizações.

As mudanças de perspetiva são sempre moldadas em parte por desenvolvimentos mais latos na sociedade moderna. Existe invariavelmente uma estreita relação entre a forma como vemos o nosso mundo e a forma como interpretamos o passado. As imagens dos povos germânicos do século V e da sua ocupação do Império Romano do Ocidente mudaram dramaticamente desde a Segunda Guerra Mundial, tal como se alteraram as ideias sobre os alemães modernos e o seu papel na União Europeia depois da “Queda do Muro de Berlim”. Os alemães foram reabilitados para se tornarem num elemento essencial da identidade europeia tal como a conhecemos agora.

Seja como for, apesar de algumas exceções, a Europa até agora tem sido um lugar tolerante, pacífico e mais acolhedor do que a maioria dos lugares do mundo. Mas agora as sondagens de opinião mostram consistentemente, em todos os países da Europa, que as migrações passaram para o topo da lista das preocupações públicas.

Na rota migratória da África Ocidental uma boa parte dos migrantes admitem que se lançaram ao inferno do deserto, e ao risco de naufrágio no Mediterrâneo, simplesmente para encontrar trabalho. Ora, nenhum destes migrantes tem direito a refúgio na Europa nos termos da Convenção de 1951para os refugiados, que consagra os direitos das pessoas que fogem da perseguição, mas não da pobreza. Eles arriscam a vida, mas a direita europeia gostaria que eles não arriscassem. E a esquerda dá prioridade aos refugiados, particularmente aos que fogem da Síria. Pessoas que se sujeitam aos horrores do deserto, aos campos de batalha da Líbia e aos barcos de morte do Mediterrâneo não o fazem de ânimo leve, e não são pessoas que serão facilmente impedidas de o fazer. Não é escolha deles ir para a morte. Mas se o governo não os ajuda, se o ACNUR não os ajuda, se ninguém os pode ajudar, então a única opção são os passadores. Quando se foge duma ditadura, da guerra ou da fome, e se é confrontado com novos conflitos, os passadores são a única oportunidade de segurança.

É bom lembrar que passadores e traficantes não são a mesma coisa. Há diferenças entre passadores e traficantes. Os passadores são aqueles a quem os migrantes confiam e pagam para os transportar de um país para outro, que apesar de os tratarem com dureza, e por vezes com brutalidade, fazem-no em pleno teatro de operações com a clara cumplicidade dos migrantes. Ao passo que os traficantes contrabandeiam as pessoas sem que elas deem por nada, portanto, sem que tenham dado o seu consentimento como dão aos passadores. A intenção dos traficantes e pura e simplesmente escravizar essas pessoas, mantendo-as em cativeiro, e às mulheres obrigam-nas a prostituir.

sábado, 27 de outubro de 2018

O azar deles fomos nós?



Esta imagem podia ter a seguinte legenda: “Um Neandertal depois de ter ido ao barbeiro e passado pelo alfaiate”

Um minúsculo conjunto de variações genéticas nos separa dos homens de Neandertal. Mas isso fez toda a diferença. O homem de Neandertal viveu na Europa por mais de cem mil anos e, durante esse período, o impacto que provocou no ecossistema não foi maior do que o de qualquer outro grande vertebrado. Há muitas razões para se acreditar que, se os Sapiens não tivessem saído de África, os Neandertais ainda estariam presentes, com os seus cavalos selvagens e os rinocerontes-lanudos. Os Sapiens, vieram estragar tudo com a capacidade de representar o mundo por meio de sinais e símbolos. E com eles veio a capacidade de transformar o mundo, o que implica a capacidade de o destruir.

“Out of Africa” é o slogan que tem servido nos últimos 30 anos aos cientistas para afirmarem a teoria da origem africana do Homem Moderno. Essa teoria sustenta que todos os seres humanos modernos são descendentes de uma pequena população que viveu no nordeste de África durante 200 mil anos, até que há cerca de 120 mil anos um subgrupo dessa população migrou para o Médio Oriente e, de lá, outros subgrupos se dirigiram para a Europa, a Ásia e até mesmo a Austrália. À medida que se deslocavam para o norte e para o leste do velho continente encontraram os de Neandertal e outros humanos arcaicos, que já habitavam essas regiões, que por fim foram substituídos, uma maneira delicada de dizer que foram extintos. Esse modelo de substituição significa que antes de há cerca de 30 mil anos o Homo Neanderthalensis ter desaparecido, alguns membros do Homo Sapiens ter-se-ão pontualmente miscigenado com o Neanderthalensis. Os registos arqueológicos mostram repetidas vezes que, quando o Homo Sapiens ocupava a região onde vivia o Homo Neanderthalensis este desaparecia. Ou porque tenha sido de facto perseguido, ou porque tenha perdido a corrida evolutiva na competição com o Homo Sapiens, antes do seu declínio o Homo Sapiens teve sexo com o Homo Neanderthalensis.

Adão e Eva, ou o Homem Moderno, e as grandes migrações globais




Chamemos-lhe agora Homo sapiens sapiens ao Homem Moderno e cujo representante primitivo foi conhecido por “Homem de Cro-Magnon”, designação que se deve à localidade francesa onde os seus primeiros vestígios foram encontrados. Ele provinha do Sudoeste Asiático ou Próximo Oriente, e iniciou esta migração durante o Paleolítico Superior.

Há 18.000 anos o gelo da Europa paleolítica encontrava-se no ponto máximo do último período glacial, com 2 km de espessura de gelo na zona dos Alpes, e com o mar a 125 metros mais abaixo do que está hoje. Um dos locais menos afetados pela glaciação foi a região franco-cantábrica – no Sudoeste da Provença e nas Astúrias. Outros houve, como é o caso dos Balcãs, Cáucaso e sul de Itália. Mas a partir de 12.000 a.C. verificou-se uma viragem climática acompanhada de degelo, efeito que se fez sentir noutros pontos do planeta como por exemplo no sudeste asiático, que pelo efeito da subida do nível do mar deixou à superfície inúmeras ilhas à volta de Java, onde 40.000 anos antes existia um continente, o “Sunland”.

Na onda neolítica de migração do Homem Moderno para a Europa, num período compreendido aproximadamente entre 12.000 e 6.000 a.C. a Europa passou a ser repovoada com migrações de Homens Modernos, tanto a partir da Ibéria onde se encontravam refugiados do frio, como a partir do Próximo Oriente onde o Homem Moderno já vivia num regime de produção e de acumulação. Os povos da região da Palestina em 6.000 a.C. já haviam abandonado o modo de vida exclusivamente baseado na caça e na colheita de frutos. Assim, foi possível a pastorícia e o desenvolvimento da agricultura, e com ela surgiu a cultura que foi designada por ‘Cultura Natufiense’. É a partir daqui que o pêndulo se inverte de novo com uma nova onda migratória de leste para oeste. A porta de entrada mais provável terá sido a região do Mar Negro por três vias: o Estreito do Bósforo; o sistema fluvial Danúbio-Main-Reno; e o Cáucaso. O que intriga os cientistas é o facto de os marcadores genéticos daqueles povos ibéricos do Paleolítico, que foram bem-sucedidos, terem desaparecido e substituídos pelos marcadores genéticos desta vaga neolítica de povos vindos do Próximo Oriente.

Há que pense que as comunidades mesolíticas de caçadores recolectores do ocidente ibérico, nomeadamente os concheiros do estuário do Tejo e Sado, começaram a contactar com o modo de vida neolítico por povos do Próximo Oriente, que em vez de terem seguido as rotas referidas atrás, seguiram a via do Mediterrâneo. Já se encontram provas dos primeiros pastores e agricultores do Alentejo Central a partir de 5.500 a.C. A discussão acerca de os marcadores genéticos dos primeiros povos a adotar a cultura Neolítica no Alentejo ser de imigrantes vindos do Leste nessa altura, ou serem de povos autóctones, é já outro tema. O que é certo é que o legado genético dos caçadores/coletores do paleolítico foi apagado por imigrações posteriores vindas do Próximo Oriente.

A genética no estudo das migrações



A informação genética é muito importante para a reconstituição das migrações populacionais ao longo da história humana. O ADN mitocondrial e o cromossoma Y são duas porções do genoma humano que permite rastrear respetivamente as linhagens materna e paterna de um indivíduo. As mulheres transmitem o ADN mitocondrial aos descendentes dos dois sexos, ao passo que os homens, apesar de também possuírem obviamente mitocôndrias, não transmitem ADN mitocondrial. Em contrapartida transmitem o cromossoma Y, e obviamente apenas o sexo masculino.

O ADN mitocondrial e o cromossoma Y são haploides, isto é, são exemplares de transmissão uniparental. E às diversas formas polimórficas destes marcadores presentes na população dá-se o nome de haplótipos. E um grupo grande de haplótipos, que são séries de alelos em lugares específicos de um cromossoma constitui um haplogrupo. Em genética humana os HAPLOGRUPOS mais estudados que podem ser usados para definir populações genéticas são os HAPLOGRUPOS DO CROMOSSOMA Y (ADN-Y); e os HAPLOGRUPOS DO ADN MITOCONDRIAL (ADN-mt).

Assim, dentro dos HAPLOGRUPOS DO CROMOSSOMA Y, temos o HAPLOGRUPO I2, que pode ser o haplogrupo de referência para o Homem de Cro-Magnon, remontando a 13.000-15.000 anos e tendo atingido a sua máxima frequência nos Alpes Dináricos, Balcãs. Por sua vez o HAPLOGRUPO I2a1 é de longe o maior ramo de I2 e o mais frequentemente ligado às culturas neolíticas do sudeste, sudoeste e noroeste da Europa.

Dentro dos HAPLOGRUPOS DO ADN MITOCONDRIAL, várias linhagens femininas, denominadas H, U, T, X, K e I, se espalharam por toda a Europa vindas do Próximo Oriente há cerca de 40.000 anos, cujo efetivo populacional durante o Último Máximo Glaciar seria pequeno. Contudo, no refúgio ibérico, um maior efetivo populacional criaria a oportunidade para o aparecimento de novas linhagens mais recentes. Dentro daqueles grupos o HAPLOGRUPO H, é o marcador genético mais frequente da população europeia. Nos nossos dias estas linhagens perduram, sendo ainda mais frequentes na Ibéria. Por exemplo, em 499 amostras colhidas em Portugal, 25,5% são H1. Usando o relógio molecular, as suas idades apontam para 15.000 anos. À medida que o gelo ia recuando para Norte estes grupos também iam subindo pela Europa refazendo rapidamente o seu povoamento. Portanto, o atual património genético feminino europeu sinaliza esse repovoamento europeu a partir da Península Ibérica.

Svante Pääbo dirige o departamento de genética evolutiva do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva na cidade de Leipzig. Pääbo, que é sueco, muitas vezes é chamado de “pai da paleogenética”. Pääbo praticamente inventou o estudo do ADN antigo, quando anunciou o projeto em 2006, dizendo: “Eu quero saber o que mudou nos seres humanos plenamente modernos, comparando com os homens de Neandertal que tinham crânios bem grandes, maiores do que os de hoje”. Isso tornava difícil encaixá-los numa narrativa iniciada com macacos de crânio pequeno que evoluíram aos poucos até alcançarem as grandes dimensões do crânio de Einstein. Em ‘A descendência do homem’, publicado em 1871, Darwin faz apenas uma alusão passageira aos homens de Neandertal: “Devemos admitir que alguns crânios de extrema antiguidade, tais como os dos famosos homens de Neandertal, são bem desenvolvidos e espaçosos”.

Nos anos 1960, o arqueólogo americano Ralph Solecki descobriu os restos mortais de diversos homens de Neandertal numa caverna no norte do Iraque. Um deles, conhecido como Shanidar I, ou Nandy, sofrera graves ferimentos na cabeça que, presumiu-se, tinham-no deixado pelo menos parcialmente cego. Os ferimentos haviam cicatrizado, sugerindo que ele devia ter sido cuidado por outros membros do grupo. Um outro, Shanidar IV, parecia ter sido enterrado, e os resultados da análise do solo do túmulo convenceram Solecki de que Shanidar IV fora sepultado com flores. Ele interpretou o achado como evidência da profunda espiritualidade do homem de Neandertal.

Para o seu projeto, Pääbo conseguiu 21 ossos do homem de Neandertal descobertos numa caverna na Croácia. O projeto enfim começou a gerar resultados úteis quando um dos membros da equipa de Pääbo, David Reich, geneticista da Escola de Medicina de Harvard, notou algo estranho. As sequências do homem de Neandertal eram, como se esperava, muito semelhantes às sequências do homem atual. Entretanto, eram ainda mais semelhantes às de certos seres humanos do que de outros. De modo mais específico, europeus e asiáticos partilhavam mais ADN com o homem de Neandertal do que com os africanos. Então a primeira reação de Reich foi tentar livrar-se desse resultado, pensando que isso devia estar errado.

Portugal teve um papel importante a desempenhar quando em 1998 um fóssil dito e transição foi encontrado no vale do Lapedo, em Leiria, de há aproximadamente 24.500 anos. Os autores desta descoberta, pertencentes a uma equipa liderada pelo arqueólogo João Zilhão, afirmam existirem características híbridas entre os Homens Modernos e os Neandertais, sobretudo ao nível do crânio, da mandíbula e da dentição. Ficou conhecida por “Criança do Lapedo” – um híbrido resultante de várias gerações, à volta de 200, uma vez que a datação do enterramento dista vários milénios do possível desaparecimento do Neandertal da Península Ibérica há 28/30 mil anos.

Num artigo publicado na revista Science em maio de 2010, eles apresentaram o que Pääbo passou a referir como a hipótese da “substituição permeável”. Antes de os seres humanos modernos “substituírem” os de Neandertal, tiveram relações sexuais com eles. Essas interações geraram filhos, que ajudaram a povoar a Europa e a Ásia. A hipótese da substituição permeável vinha fornecer a mais forte evidência possível para se tratar da mesma espécie. Algumas dessas criaturas híbridas sobreviveram e tiveram seus próprios filhos, que, por sua vez, tiveram filhos, e assim por diante, até aos dias atuais. Ainda hoje, pelo menos trinta mil anos depois, o sinal é distinguível: todos os não africanos, desde os nativos da Nova Guiné, chineses da etnia Han, ou franceses, carregam algo entre 1% e 4% do ADN dos homens de Neandertal.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Relembrando Hobbes sem medo nem reverência


          Descansemos por umas horas, que os rumores não param de chegar de toda a parte às nossas redações. Já não há espaço para uma posição esperançosa em relação aos agentes do mal que deambulam por aí.
          Aubrey, amigo e biógrafo de Hobbes, conta o episódio dos “Elementos de Euclides” que Hobbes viu pousado sobre uma mesa na casa de um nobre que visitara em Florença, ao qual não resistiu em abrir e folheá-lo. Diz que ele se apaixonou pela geometria depois de o ter começado a ler do fim para o princípio. Em novembro de 1640 Hobbes torna-se o primeiro fugitivo da guerra civil ao trocar a Inglaterra por Paris. Em 1649 Carlos I Stuart haveria de ser decapitado com perturbação por toda a Europa. Hobbes, então com 45 anos, viajou pela Europa como era apanágio dos intelectuais bem-pensantes daquela época. Chegou a encontrar-se com Descartes, manifestando-lhe a sua preocupação com o rumo que o debate sobre a diferença entre aparência e realidade estava a ter.
          Hobbes estava com medo. Não medo de que o mundo pudesse não ser como nos parecia, mas sim medo de que fosse. Hobbes era um pensador audaz até à insolência, inclinado à provocação e à disputa. E, todavia, era o medo que elegia como a questão central da própria filosofia política.
          Em Os elementos da lei encontramos uma descrição sintética do estado de natureza, ligada a uma argumentação que Hobbes nunca mais abandonaria. Em tal estado, os homens são substancialmente iguais e têm os mesmos direitos (entre os quais o de ofender e de se defender): por isso vivem numa condição de guerra perene, de “desconfiança geral”, de “medo recíproco”. Eles saem dessa situação intolerável renunciando a uma parte dos próprios direitos: um pacto que transforma uma multidão amorfa num corpo político. Nasce assim o Estado, aquele que Hobbes chamará Leviatã: um nome que no Livro de Jó designa uma baleia, um gigantesco animal marinho que ninguém consegue fisgar com um anzol.
          Na foto em epígrafe, O frontispício do Leviatã, Hobbes cita, na tradução latina de são Jerónimo, um versículo extraído do capítulo 41 do Livro de Jó: “Non est super terram potestas quae comparetur ei”, não existe poder sobre a terra comparável a ele.
          Para Hobbes o Estado surge de um pacto nascido do medo. Na Europa assolada pelas guerras de religião, na Inglaterra dilacerada pelos conflitos entre rei e Parlamento, a paz se mostrava a Hobbes como o bem supremo, merecedor de qualquer sacrifício: uma ideia que o acompanharia até à morte.
          Mas um pacto estipulado numa circunstância de constrição, como a que caracterizava o estado de natureza, pode ser considerado válido?

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Os Passadores de Agadez


          Como fenómeno, a passagem de migrantes por Agadez não é nova, mas para os seus habitantes foi só nos últimos cinco anos que a palavra ‘migração’ entrou no vocabulário deles. Para os viajantes e mercadores que se atrevem na travessia do Sara, Agadez sempre foi incontornável. Mas agora é também ponto de passagem obrigatória para gente subsariana que arrisca a sorte da rota pela Líbia a fim de entrar na Europa. Até há uns dez anos podia-se também chegar à Europa via Senegal e com destino às ilhas Canárias. Ou de Marrocos para os enclaves espanhóis no noroeste de África. Mas essas rotas estão hoje cortadas. E por essa razão Agadez, no centro do Níger, adquiriu uma importância ainda maior como etapa de migração.
          Só alguns condutores locais, poucos e escolhidos, sabem quais os trilhos que conduzem ao outro lado do deserto do Sara. Em três dias de condução, são muitos os cruzamentos que se podem falhar, e onde africanos ocidentais, muitos nigerianos, camaroneses ou senegaleses vão morrer antes de arriscarem a morte no Mediterrâneo. Para estes migrantes, há o perigo do mar Mediterrâneo. Mas há quem diga que o perigo do “mar do Sara” não é menor.



          Muitos dos passadores do Níger, antes de se dedicarem a traficar migrantes subsarianos, eram guias turísticos em excursões pelo Sara. Mas essa indústria desapareceu na esteira de uma insurreição regional. Cada um com a sua carrinha Toyota de caixa aberta faz o trajeto dessa rota invisível que conduz à Líbia com 30 passageiros empilhados como sardinhas. É preciso ser-se um grande perito do deserto, pois em segundos as habituais tempestades de areia mudam a topografia das dunas, e em menos de uma hora uma carrinha pode ficar toda soterrada debaixo da areia. E se se perdem, acaba-se o combustível. Depois acaba-se a água. E sem água não se dura vivo mais do que três dias.
          Além do risco do deserto, há o risco dos bandidos e dos jihadistas. Muitos morrem numa dessas emboscadas quando não têm a sorte de um resgate. Ninguém sabe quantos morrem destas diferentes maneiras. E, contudo, o número dos que arriscam continua a bater recordes. Qualquer pessoa com meios pode tomar um autocarro nas costas da Nigéria e seguir até ao fim em Agadez, ao fim de vinte horas de viagem, onde os condutores dos autocarros param e os passadores entram. Os pátios são os lugares ideias para esconder uma centena de migrantes até partirem para norte. Em média, os passadores cobram o equivalente a 500 euros por cada migrante. A polícia faz de conta que é proibido, mas a corrupção é muita, e o exército não manda parar ninguém. Num ano cada passador pode fazer 350 mil euros. No total dos passadores deve rondar os 22 milhões de euros. E estima-se que milhão e meio fique para os subornos da polícia.


          Esta é mais uma das realidades nuas e cruas da migração para a Europa. É fútil qualquer tentativa para fazer parar as migrações. Até porque não há ninguém interessado em tentar detê-las. As agências de viagens agora estão fechadas e entaipadas, desde que uma rebelião de berberes e a ascensão duma representante regional da al-Qaeda, em 2007, interromperam o comércio turístico. Os hotéis estão na sua maioria fechados e saqueados. As autoridades do Níger explicam que o boom do tráfico de pessoas deve ser visto pelo prisma do colapso da economia. Muitos artesãos viram-se obrigados a mudar de trabalho. E alguns agora são contrabandistas.


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Despreocupação descontraída com os factos



Dois tópicos: o da violência simbólica infligida por quem tem mais poder sobre o corpo do sujeito; e o do afeto dos chamados “eleitores” do mundo ocidental por candidatos cujas ideias se apresentam perfumadas por um perfume barato fedendo a fascismo, num tempo descendente de um outro tempo em que na Europa as ciências sociais foram marcadas pela chamada “teoria crítica”. Era uma teoria que tinha como objetivo principal o desejo de fazer avançar a norma no combate à opressão patrocinada pela ciência de cunho positivista.

Este livro em epígrafe “The Seduction of Unreason”, de Richard Wolin, um filósofo oriundo do movimento da “New Left” dos anos 60, e que se define como um pensador liberal no sentido norte-americano da palavra (ou seja, não conservador), é uma provocação aos pensadores pós-estruturalistas. Um dos atingidos foi Jacques Derrida (1930-2004), que só não ficou à beira de um ataque de nervos porque faleceu no ano da publicação. Ele critica um pós-estruturalismo ou pós-modernismo, enquanto corrente intelectual ampla e heterogénea que se caracteriza, essencialmente, pela oposição aos ideais racionalistas, humanistas e universalistas do Iluminismo. Um pós-estruturalismo que por sua vez é crítico de uma ciência considerada como uma forma de poder e de opressão ao serviço da democracia liberal-capitalista. É um pós-estruturalismo que desvaloriza a racionalidade, sustentando o relativismo cultural da verdade em prol da defesa da identidade minoritária.

Alguns anos antes, anos 70/80, Habermas já havia escrito um ensaio crítico sobre Foucault acusando-o de “normativista críptico”. A acusação era que, embora o trabalho de Foucault fosse claramente alimentado por um conjunto de preocupações morais, ele se recusava a dizer claramente quais eram os seus comprometimentos morais, utilizando em vez disso um vocabulário normativamente carregado, como “poder” ou “regime”, como dispositivos retóricos para induzir o leitor a partilhar as suas avaliações normativas, enquanto negava oficialmente que estava a fazer algo desse tipo, fingindo que não tinha valor algum.

Richard Wolin também procura atingir os pensadores como Georges Bataille, Maurice Blanchot e Paul de Man, seguidores de Martin Heidegger, que tiveram um papel central na “transmutação” de ideias próximas de ideologias totalitárias de direita (fascismo e nazismo) em ideias que passaram a ser apresentadas como “progressistas”, “democráticas” e de esquerda. Tal veio a desembocar no desconstrucionismo de Jacques Derrida, cujo relativismo extremo acabou por contaminar a própria ideia de verdade e de justiça. É claro que todos estes pensadores remetem para Nietzsche, onde os nazis também foram beber inspiração. Os textos dos pós-estruturalistas franceses, como Michel Foucault e Jaques Derrida, efetivamente surgem com uma imagem “desnazificada”, com sublimes preocupações estéticas e de crítica cultural e social.

A maioria das pessoas que recentemente se pronunciou sobre o caso “da violência sobre o corpo”, nas redes sociais, foi no sentido de haver algo de errado nesse tipo de argumentação. É claro que todos os pronunciamentos que se fazem neste tipo de redes é de um modo geral pouco refletido e carregado de exageros retóricos, o que acaba por descambar no assassinato de caráter e na intimidação, cujo fito consiste em limitar a opinião dos outros. Muitas pessoas simplesmente não estão para entrar numa discussão com alguém cuja estratégia básica de argumentação é acusar todos os que discordam de si de serem racistas ou agentes de lavagens cerebrais.

Encontrar respostas precisas para questões complexas pode ser um trabalho árduo, e, por conseguinte, “a despreocupação descontraída com os factos” é tida como a “atitude”. A postura de um cidadão perante um candidato político ou é de uma atitude a favor ou contra. E de um modo geral esta atitude é uma atitude afetiva. Pode-se dizer que um cidadão se sente indiferente em relação ao candidato, mas o característico da indiferença é a ausência de certos sentimentos ou emoções e não a sua presença. Contudo, nem mesmo a indiferença é uma ausência pura; há algo que se sente quando não nos importamos com uma coisa ou quando somos indiferentes a isso. Como a insensibilidade, a indiferença é ao mesmo tempo um sentimento e uma ausência de sentimento. As posturas afetivas são tipicamente involuntárias. O sentido em que isto é assim é que não são questões de escolha ou decisão. Isto não é surpreendente visto que a maneira como alguém se sente não é habitualmente uma questão de escolha ou decisão. Quando se sente desprezo ou respeito por outra pessoa, não se escolheu habitualmente desprezá-la ou respeitá-la. Podemos, é claro, escolher mostrar respeito, mas não se pode escolher ter respeito por alguém se nada conseguimos ver nela que mereça respeito.

Há uma outra atitude diferente desta: a “malevolência epistémica”. A malevolência epistémica é a que atualmente está ligada aos “factos alternativos”. A malevolência epistémica é uma atitude, mas não uma atitude afetiva como “a despreocupação descontraída com os factos”. É o caso de quem nega a importância da atividade humana no aquecimento global, ou de quem faz campanha contra as vacinas. Em todos os casos, a estratégia básica é usar cientistas para denegrir o trabalho dos seus colegas convencionais e sugerir que os factos são menos claros do que na realidade são. São uma espécie de “cientistas alternativos” que lutaram contra as provas científicas e espalham a confusão em muitas das mais importantes questões do nosso tempo. Uma questão óbvia é: por que razão haveria um cientista de respeito querer fazer o que os “cientistas alternativos” fazem? Sem dúvida que os incentivos financeiros devem ser consideráveis. Não nos deve, portanto, surpreender, a difusão e manutenção de conhecimentos e atitudes que têm o efeito oposto ao conhecimento científico sério e honesto.

É por isso que não deixa de ser desconcertante ver como a esquerda tradicionalmente universalista, herdeira do Iluminismo e da Revolução Francesa, acabou por capturar os seus ideais e as reivindicações sociais e políticas pela noção de “desrazão” (‘unreason’ no texto em inglês). Verdade, direitos humanos, justiça e democracia, que estavam na linha da frente da luta contra o obscurantismo, acabou por se perder na nebulosa do pós-estruturalismo/pós-modernismo. Parte do pensamento de esquerda, a chamada esquerda pós-marxista, foi capturado pelo perspetivismo nietzschiano ao assimilar as suas ideias de não haver factos, mas apenas interpretações. E assim relativizou as normas sociais e/ou jurídicas da sociedade liberal-burguesa, denunciando-as como expressão de interesses particulares ou relações de poder que arbitrariamente favorecem alguns povos, culturas ou grupos sociais em detrimento de outros. Com este fundamento filosófico e epistemológico os “progressistas pós-modernistas” consideram-se em posição de “desconstruir” as normas dos grupos dominantes, ou privilegiados socialmente, e denunciar a hipocrisia social que lhe está subjacente, proclamando, em alternativa, que todas as “culturas são boas”.