quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A família Wittgenstein e o 3º Reich




Ludwig Wittgenstein será, para metade dos filósofos mundiais vivos, o filósofo mais importante do século XX, em disputa com Martin Heidegger para a outra metade. Apesar de Karl Popper ter sido o maior rival de Wittgenstein, sobretudo na vertente analítica anglo-saxónica, ainda assim ficará em terceiro lugar.

Mas o que ocupa a crónica de hoje sobre Wittgenstein, não é a faceta filosófica de 
Ludwig, mas a envolvência familiar, pessoal e social na Áustria, como família de ascendência judaica no tempo de Hitler. A 13 de março de 1938 a Alemanha anuncia oficialmente a anexação da República da Áustria, tornando-a mais uma província do 3º Reich. E a 18 de março Ludwig Wittgenstein, estando em Cambridge, no Trinity Colege, escreve uma carta a Keynes pedindo-lhe a opinião, uma vez que passando a ser cidadão alemão, e segundo a lei alemã, seria um judeu alemão. Portanto, tornar-se britânico era agora imperativo. Na qualidade de judeu alemão, se fosse agora até à Áustria, poderia não conseguir voltar a sair de lá. Mas o mundo dá muitas voltas, e o Anschluss iria colocar Wittgenstein face a face com a realidade do judaísmo da sua família, obrigando-o a lidar com nazis de alta patente em Berlim. Ludwig Wittgenstein ficou muito preocupado com a vida das irmãs a viver em Viena, que podia estar em perigo quando Hitler avisou: “se os judeus conseguirem uma vez mais mergulhar as nações numa outra guerra mundial, a consequência será a aniquilação da raça judia na Europa”. 

 
     Ludwig Wittgenstein                                       Paul Wittgenstein

Paul Wittgenstein, irmão mais velho de Ludwig, famoso pianista de uma só mão (havia perdido o braço direito na linha da frente russa da Primeira Guerra Mundial ao serviço da Alemanha), por sua vez, ao longo desse convulso verão de 1938 decidiu emigrar. Paul tinha duas filhas pequenas, e receava que as filhas fossem retiradas e educadas pelo Estado nazi. A sua fortuna, a sua família e a sua carreira de pianista, tudo isso pesava no prato da balança. Mas as irmãs - Hermine e Helene - rejeitaram os seus apelos para que o acompanhassem. Em todo o caso Helene não podia abandonar o marido, Max Salzer, porque estava gravemente doente. Paul Wittgenstein viajou até Inglaterra para informar Ludwig da situação da família e pedir o seu conselho sobre o local em que deveria instalar-se. O irmão recomendou-lhe a América. Mas antes teve de passar pela Suiça, porque lhe foi imposta a taxa de emigração de 1,6 milhões de Reichsmarks. Saiu da Europa em abril de 1939. E foi de Nova Iorque que encetou diligências diplomáticas no sentido de negociar com o 3º Reich a salvação das irmãs em Viena, cujo destino final, se tudo corresse mal, poderia acabar em Auschwitz. A família Wittgenstein apoiada por três advogados, um deles incluído por sugestão dos participantes nazis, iniciaram-se as conversações com a Chancelaria do Reich, o Ministério do Interior, e o departamento de divisas estrangeiras do Reichsbank. A base do negócio consistia na transferência para o Reichsbank de uma grande porção de divisas estrangeiras da família. 


No outono de 1938, Hermine e Helene adquiriram uns passaportes falsos, jugoslavos, na esperança de que, enquanto cidadãs da Jugoslávia, pudessem partir mais facilmente caso fosse necessário. Mas quase de imediato a polícia caiu sobre os falsários, e as irmãs foram presas. O tempo que passaram na prisão foi curto, mas afetou a sua saúde psíquica, senhoras de temperamento reservado e porte aristocrático. Tanto mais que tinham formatado a sua personalidade nos princípios da filantropia.

Mas enquanto as negociações se prolongavam e enredavam no tempo, as ameaças iam crescendo. As viagens entre Nova Iorque-Berlim-Zurique multiplicavam-se, e as irmãs iam ficando com os nervos em franja. A dada altura Paul, começou a levantar objeções, e contratou ele próprio um advogado nova-iorquino para representar os seus interesses. Estava disposto a pagar ao 3º Reich tanto quanto fosse preciso para assegurar o futuro das suas irmãs, mas nada mais do que isso. O Reichsbank encontrara facilmente maneira de pressionar as irmãs em Viena, para que estas persuadissem Paul a aumentar a oferta. 

O que estava em causa do lado dos nazis, do 3º Reich, hoje todos sabemos o que foi. Mas quando falamos da fortuna da família Wittgenstein, já é assunto que pouca gente sabe que era das maiores fortunas da Áustria nessa época. Adianto já que se conseguiu um final feliz. Será um indício não apenas da quantidade de dinheiro que estava em jogo, mas também da complexidade que o Reichsbank teve de enfrentar para lhe poder deitar as mãos. Desde logo Ludwig Wittgenstein percebeu que não era assunto que se pudesse tratar com as autoridades provinciais de Östmark, que foi o nome por que passou a Áustria a ser tratada por Berlim. Era inequivocamente um assunto que só podia ser tratado ao mais alto nível em Berlim. Por isso decidiu ser ele a tomar as rédeas do conflito. 




Ludwig Wittgenstein apenas se tornou súbdito britânico a 12 de abril de 1939. Agora na posse de passaporte britânico, podia finalmente regressar a Viena e daí viajar até Berlim para tentar assegurar o futuro das suas irmãs. A 5 de julho de 1939 viajou até Berlim instalando-se no Grand Hotel Esplanade, perto de Potsdamer Platz. Por curiosidade e coincidência, faço aqui um parêntese para dizer que foi neste Hotel, com outra arquitetura evidentemente, que eu me instalei em agosto de 1989, para frequentar o Congresso Internacional de Imunologia, que nesse ano se realizou em Berlim Ocidental. 

Na realidade, a partir do momento em que o Reichsbank entrou em ação, os Wittgenstein passaram a negociar diretamente com as autoridades de Berlim. Foi o próprio Hitler quem tomou a decisão final sobre a situação dos Wittgenstein. Os números mostram como era difícil conseguir uma Befreiung. Em 1939 existiam 2100 pedidos de reclassificação racial: o Fürer somente deferiu doze.

O que disse Ludwig Wittgenstein naquela quinta-feira em Berlim, no Reichsbank, 6 de julho de 1939, não se sabe. Apenas a sua irmã Hermine dizia que se orgulhava do modo como ele se comportara, impressionando o chefe da divisão de divisas estrangeiras do Reichsbank, pela sua clareza e a sua precisão nos detalhes. Sabe-se que esteve no dia seguinte em Viena com esta irmã, e que duas semanas depois viajou no Queen Mary até Nova Iorque para se encontrar com o seu irmão, Paul, e o advogado. Sabe-se que ficou no hotel Lexington Avenue, perto do Rockefeller Center. Mais tarde, Ludwig Wittgenstein disse que a única pessoa de que gostara em Nova Iorque fora um rapazito italiano que engraxava sapatos no Central Park e que duas vezes cuidara dos seus. Pagou-lhe o dobro do preço que ele pedira.

A 10 de fevereiro de 1940, o chefe da Reichsstelle für Sippenforschung, Dr. Kurt Mayer, enviou uma carta à divisão de Viena do Partido Nazi, comunicando a decisão tomada sem quaisquer restrições, de que Hermann Wittgenstein, nascido em Korbach a 12 de setembro de 1802, deveria ser considerado como sendo de sangue alemão para efeitos das Leis de Nuremberga. A carta refere uma ordem do Führer e chanceler do Reich. Essa decisão estendia-se aos seus descendentes para que não lhes viesse a causar quaisquer outras dificuldades. Faltava pouco mais de um ano para que as deportações dos judeus austríacos tivessem início em pleno. As irmãs de Wittgenstein
Hermine e Helene - sobreviveram ao resto da guerra sem voltarem a ser importunadas. Fora, de facto, Ludwig Wittgenstein que dera o golpe de asa final em Nova Iorque quando se encontrou com o irmão para dar por encerrado o negócio. Paul Wittgenstein providenciou então o pagamento ao Reichsbank, nada mais, nada menos, que 1,7 toneladas de ouro – o equivalente a 2% das reservas de ouro austríacas de que Berlim se apoderara em 1939. 

Uma vez a salvo em Nova Iorque, Paul viria a revelar a sua dureza nas subsequentes negociações. A sua família integrou o grupo dos refugiados itinerantes, refugiando-se em Cuba antes de ser autorizada a juntar-se-lhe em 1941. 


Karl Wittgenstein

O pai de Ludwig Wittgenstein, Karl Wittgenstein, foi um dos empresários mais bem-sucedidos da monarquia do Danúbio. Karl veio de uma família alemã de origem judaica assimilada Meyer-Wittgenstrin, cujas raízes estão na pequena cidade de Laasphe na Renânia do Norte-Vestefália. Nasceu em 1847, sexto de onze filhos de Hermann Christian. Três anos depois, a família mudou-se para Vösendorf, na Baixa Áustria, onde nasceram os seus quatro irmãos mais novos, e para Viena em 1860. Aos onze anos, Karl Wittgenstein tentou, pela primeira vez, fugir de casa e, aos dezassete, deixou a escola após uma ameaça de repreensão: duvidara da imortalidade da alma em um ensaio. Em 1865, com um passaporte que havia comprado a um estudante de Viena com falta de dinheiro, viajou para a América. Levava consigo apenas um violino. Em Nova Iorque trabalhou como empregado e músico de bar, como professor (matemática, alemão, latim, grego e música, violino e trompa) e, finalmente, como timoneiro num barco do canal. Passados dois anos voltou para Viena. E então é a parir daqui que inicia a sua carreira na indústria siderúrgica como desenhador técnico no "laminador Teplitz" no norte da Boémia. Karl casou-se com Leopoldine Kallmus, em 1873, nascida em Viena e descendente de um talentoso pianista de origem judaica de Praga. O casal mudou-se para Teplitz por um ano, e a seguir para uma vila no distrito de Meidling. Depois disso, a família mudou-se para um imponente palácio, conhecido por “Palácio Wittgenstein”, no Alleegasse (hoje Argentinierstraße).

Em 1876 Karl Wittgenstein foi eleito para o Conselho Executivo, e em 1877 nomeado diretor. Poucos anos depois era o principal acionista. Em 1886, Karl Wittgenstein cedeu as suas fábricas de laminação de Teplitz à indústria siderúrgica de Praga, em troca de ações, Em 1889, Karl Wittgenstein finalmente funda a Poldihütte, uma empresa privada em Kladno. Ano do nascimento do nosso WittgensteinLudwig Joseph Johann Wittgenstein, o filho mais novo de uma prole de nove. Numa turbulência em que se viu investigado pelo governo austríaco, devido a práticas comerciais duvidosas, Karl Wittgenstein decidiu retirar-se de todos os seus cargos. Com 52 anos, viajou pelo mundo com a esposa, Leopoldine Kallmus. Além disso, ele vendeu toda a sua propriedade industrial, mas adquiriu em 1899 da Böhler AG a sua propriedade florestal de 5.000 hectares. Transferiu os recursos para a Suíça, Holanda e EUA, onde investiu em imóveis, ações e títulos. Portanto, a sua vasta fortuna sobreviveu à Primeira Guerra Mundial e à Grande Depressão. 



“Palácio Wittgenstein”

Após a morte de Karl Wittgenstein em 1913, houve várias mudanças de propriedade dentro da família. Desde o início dos anos 30, Hermine Wittgenstein (1874-1950), a mais velha das irmãs era a única proprietária do Palacete, por ser solteira. Durante a Segunda Guerra Mundial, o palácio magnificamente mobilado sobreviveu à guerra quase sem danos. Após a guerra, o palácio foi vendido ao Österreichische Länderbank, que o demoliu na década de 1950 para aí construir um edifício residencial moderno.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O Livro de Anatomia Descritiva de Gray




Com 19 anos, tendo ido já às inspeções e apurado para todo o serviço militar, mudei de cidade para frequentar a Faculdade de Medicina. O país mantinha a guerra em África, e tudo indicava que estava para durar. Por isso, tendo a tropa à perna, não tinha tempo a perder. 



Naquele tempo a cidade granítica do Porto era soturna. Tive a sorte de ficar alojado numa residência universitária em Arca d’Água, de onde podia tomar os elétricos: 7; 7/; 7//; 8 – para ir até à baixa e frequentar as aulas de Física e Química que eram dadas na velha Universidade ao lado do café Piolho, e da UNICEPE (Cooperativa Livreira dos Estudantes do Porto), a livraria onde comprava os livros, tendo sido o Grays’s Anatomy, o 1º, um calhamaço em inglês que pesava para burro. 



Para me ambientar comecei estas rotinas de aluno de medicina um mês antes do início das aulas, orientado por dois bons amigos meus conterrâneos. E assim entrei na Faculdade de Medicina pela mão deles a fim de conhecer o Teatro Anatómico, onde mais tarde iria passar horas a dissecar peças de cadáver orientadas pelo Gray. A Faculdade de Medicina estava instalada numa parte do edifício do Hospital Escolar de São João, e a Anatomia ficava nas imediações do Anfiteatro Norte, onde assistíamos às aulas teóricas de Descritiva do Prof. Castro Correia. E no 2º ano, as aulas teóricas de Anatomia Topográfica eram dadas pelo Prof. Abel Tavares. Com este, o Tratado de eleição era o Testut.

Interrompo aqui a minha narrativa, para passar a falar de Henry Gray, o herói do meu primeiro ano do curso de medicina. Gray nasceu em Londres em 1827, onde viveu a maior parte da sua vida. Em 1842 entrou como estudante no Hospital de São Jorge em Londres. E aí se dedicou por autodidatismo a estudar anatomia fazendo dissecações meticulosas. Em 1852, com 25 anos apenas, foi eleito membro da Royal Society. Em 1858 publica a sua primeira edição do Livro de Anatomia, com 750 páginas e 363 figuras - Gray's Anatomy: Descriptive and Surgical. Para isso foi ajudado por um amigo chamado Henry Vandyke Carter, um grande desenhador e demonstrador de anatomia no Hospital de São Jorge


Gray e Carter passaram dezoito dezoito meses a trabalhar juntos em dissecações a fim de reunir o material necessário. Carter era um desenhador exímio e criou uma série de litografias, enquanto Gray compunha os textos que as acompanhavam. Foi a qualidade das ilustrações de Carter - grandes, claras e funcionais, com as legendas devidamente integradas nas imagens - que destacou esta das outras obras de anatomia. Algumas das imagens eram em tamanho natural. Carter fez os desenhos a partir dos quais as gravuras foram executadas. A excelência das ilustrações de Carter contribuiu muito para o sucesso inicial do livro. Uma segunda edição foi preparada por Gray e publicada em 1860. Gray viria a falecer de varíola a 13 de junho de 1861, com 34 anos. É mais um caso de génio prematuramente vindimado. Provavelmente se continuasse a viver por muitos anos, e a prosseguir a sua carreira de cirurgião, teria realizado outros feitos notáveis. Carter, que partiu para a Índia a fim de se dedicar à medicina tropical antes de a obra estar terminada, morreu em 1897. 

A cor foi introduzida nas ilustrações em 1887, com a 11ª edição. Embora já não contenha os textos nem as ilustrações originais, o conceito perdurou e o livro continua a ser uma obra importante. As edições foram sendo ao longo do tempo revistas e atualizadas de acordo com os progressos no conhecimento e no entendimento da anatomia. No mundo anglo-saxónico, este livro de anatomia continua a ser a bíblia dos iniciados em medicina. A última edição, a 41ª, foi publicada em setembro de 2015, com 1600 páginas, 2260 ilustrações e pesa cerca de cinco quilos. Foi editada pela professora Susan Standring, do King's College de Londres, que reviu o texto de acordo com as regiões do corpo e não os sistemas, que era a disposição original, para corresponder ao modo conceptual da medicina atual. A obra está também disponível online e é considerada a maior fonte individual de informação anatómica.



Uma coisa que me inquietou no início foi o contrassenso de entrar no mundo da medicina pelos mortos. Primeiro os ossos. Depois os músculos. A seguir os órgãos. E por fim os vasos sanguíneos. As paredes dos corredores e átrios estavam cobertas de armários envidraçados guardando grandes frascos com as maiores aberrações mergulhadas em líquido de formol. Nestas montras do Museu, exibiam-se o raro e o único, o bizarro e o monstruoso. Aberrações da natureza colecionados ao longo de muitos anos. Expositores de partes de pessoas que não são pessoas.

No Teatro Anatómico propriamente dito, o nosso Assistente diz-nos que ali se encontra a anatomia saudável. A anatomia doente só iríamos ver no terceiro ano, na Anatomia Patológica. Ossos perfeitos, guardados em caixas de madeira: dois fémures, uma caveira, um perónio. No teste capitular as perguntas feitas pelo Prof eram as mais estranhas, como a do perónio: "quando se atira o perónio para cima de uma mesa, ele roda até parar. Quando pára, há uma faceta que fica sempre virada para baixo, paralela à mesa. Qual é?" Na aula prática seguinte perguntámos ao nosso Monitor de banca qual era a resposta certa. Ele disse que dependia. Se fosse o perónio da coleção do Prof era uma; mas se fosse com outro perónio qualquer podia ser diferente.

Todo aquele que procura a ordem do mundo não deve ir para medicina. Era assim que entravamos na arte de curar, a ouvir nas palavras introdutórias das primeiras aulas umas certas frases, umas certas máximas, que nos iriam alumiar o caminho até ao fim do curso. Isto, é claro, se ainda assim não tropeçássemos, aqueles que não desistiriam ao fim do segundo ano. A saúde é das coisas mais instáveis que há.

À volta da banca de mármore com o cadáver em cima, se dúvidas tivéssemos, ficaríamos de vez desenganados. Somos feitos de nada. A partir daí, o postulado “um ser humano - uma personalidade”, já não parecia uma coisa tão evidente. Uma coisa nós não iríamos poder ver na Anatomia: o sangue, o milagroso líquido, mais ou menos cinco litros, conforme o tamanho do corpo, que dá vida à vida.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Chartres


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Vale a pena fazer uma visita noturna à Catedral de Chartres. Por isso é aconselhável ir dormir a um hotel local. Recomendo o Best Western Premier Grand Monarque Hotel & Spa. Aterrar em Paris e depois: ou ir de comboio até Chartres por 10 €; ou ir de carro tomando a A10 e A11, 91 Km que se fazem numa hora e um quarto. 




É claro que não é uma visita prática de se fazer sozinho. É uma visita guiada a pensar em grupo e paga-se. Por isso, para nos integrarmos num grupo, temos várias hipóteses, para além de o hotel facilitar as coisas: através do Posto de Turismo de Chartres – Maison du Saumon – 8 rue de la Poissonnerie; ou entrar em contacto com a Catedral, através da internet ou por telefone, e reservar o hotel depois de saber se naquele dia é possível. O preço do bilhete da entrada que pode depender do número de pessoas, vai desde 3,20 € por 25 minutos; 45 minutos já custa 4,20 €, e um mais longo, cerca de 70 minutos, custa 6,20 €. 



O guia da noite, que é sempre um homem talhado para o efeito, misterioso, que durante o percurso vai contando histórias e segredos do que se passou por ali. Pelos caminhos subterrâneos da catedral, completamente às escuras, apenas com uma vela que cada um recebe para iluminar o caminho, entra-se na cripta. 

Depois no dia seguinte, de dia, pode visitar a catedral e apreciar os vitrais, que não se paga nada. Está aberta diariamente das 8:30 às 19:30. Ao nos dirigirmos em direção à fachada principal da catedral, para além de ficarmos impressionados com a verticalidade e majestade da arquitetura gótica, chama-nos a atenção o facto de as torres não serem iguais. E é assim porque uma representa o sol e a outra a lua.




O interior impressiona tanto pelos 37 metros de altura que alcança a nave central como pela harmonia de elegantes proporções, embora infelizmente já se tenha perdido a maioria da estatuária original. No piso da nave central, há um grande labirinto junto à entrada da fachada principal, do lado oeste, com 261,55 metros de extensão e quase 13 metros de diâmetro. É um caminho formado por 11 círculos concêntricos, representado no chão do edifício por exatamente 365 pedras brancas e 273 pedras negras fazendo uma alusão ao ano solar e lunar, com uma rosa no centro. Ao percorrê-lo, o indivíduo pode ter a impressão de que irá perder-se, mas sempre chegará ao centro. É uma representação do caminho simbólico que leva o homem a Deus. Como simbolismo da peregrinação a Jerusalém, muitos fiéis o percorriam de joelhos. Nessa caminhada, de aproximadamente 1 hora, o andar circular constante leva a pessoa a perder suas referências de espaço e tempo, entrando, no que se acredita ser um estado de meditação, aquietando sua mente e encontrando a paz. A chegada ao centro era o momento da conexão do peregrino, já purificado e preparado, com as energias celestes. 



Chartres é famosa pela miríade de figurinhas simbólicas na pedra, e também pelos seus vitrais, mais de 150, que narram passagens do Novo e do Velho Testamento. Ocupam uma superfície de 2.600 metros quadrados – considerada a maior superfície do mundo em vitrais. Alguns representam temática laica, e ilustram a construção da catedral. 80% dos vitrais ainda são os originais. O tom de azul utilizado é tão peculiar, e resistente ao tempo, que recebeu o nome de “bleu de Chartres”. Os seus vitrais se mantiveram intactos e a arquitetura sofreu pequenas alterações desde o século XIII. O interior da catedral, não sendo muito iluminado, faz com que os seus vitrais fiquem ainda mais nítidos para o visitante depois de ter estado longas horas na escuridão. 

Chartres está repleta de história e misticismo. A catedral, protótipo do estilo gótico da Europa, foi construída sobre uma antiga igreja românica. Começou a ser construída em 1020 e foi inaugurada em 1064. Em 1194, a catedral foi devastada por um incêndio. Foi feita uma reconstrução completa da sua nave e do coro. A maior parte da catedral atual foi construída entre 1194 e 1250. Durante a Revolução Francesa, a catedral foi quase destruída por uma multidão num ato contra a religiosidade e, neste mesmo período, as placas de bronze do labirinto foram retiradas, derretidas e usadas para fins militares. Em plena Baixa Idade Média, em disputa com Santiago de Compostela, era um dos lugares de excelência para os peregrinos da Europa que não tinham possibilidades de ir à Terra Santa. O peregrino não entrava na catedral pela porta principal, antes o fazia pela cripta, com o intuito de se purificar. Na cripta, ele rezava para a imagem da Virgem Negra e bebia a água do poço subterrâneo, que tinha a fama de realizar milagres. O peregrino ficava ali durante horas ou até dias em oração até se sentir harmonizado e purificado para então sim, subir até à catedral. Na realidade, a cripta faz parte da igreja românica anterior à construção da catedral, e, portanto, a sua arquitetura é diferente, sendo um local escuro propício à meditação introspetiva.



O poço – o Poço Druida – que segundo alguns autores já existia antes de os celtas ali se instalarem, assenta sobre um mound (termo celta) numa confluência de veios subterrâneos de água sob a forma de um leque aberto. Mound significa colina onde se concentram forças telúricas de grande potência, chamadas dewouivre (ou vril). Há aqui muitas semelhanças com os sítios equivalentes da Grécia Arcaica, como é o caso do templo de Delfos. Aqui, eram os “vapores” que emergiam, e que colocavam as pitonisas num diferente estado de consciência. Acreditava-se que as correntes de wouivre do mound de Chartres atuavam no ser humano como centelha inicial de um processo transformador de consciência.Na base deste poço está o quadrado mágico dos druidas, sacerdotes-sábios dos celtas que antigamente de reuniam por aqui.



Outra imagem de Madona Negra famosa na catedral de Chartres é a de Notre Dame-du-Pilier. Ela foi colocada em cima de uma coluna para substituir a imagem destruída num incêndio dentro da cripta (a imagem que existe hoje é uma antiga cópia dela). Na verdade, a imagem policromada de Notre-Dame-du-Pilier era originalmente branca (era conhecida como Notre Dame-la-Blanche) e talvez ela tenha sido colocada dentro da parte de cima da catedral para enfraquecer o culto à Madona Negra que se realizava abaixo na cripta. Mas, por ironia, com a passagem do tempo Notre Dame-la-Blanche também se tornou… negra, porque foi escurecida pela fumaça das velas dos fiéis. E assim eles continuaram a devoção à Madona Negra na figura dela. Notre Dame-sous-Pilier recebeu uma vestimenta feita de tecido, que deu à imagem uma aparência piramidal em forma de sino. 

Dos muitos mistérios ligados a Chartres, e à construção da catedral, reza a lenda que foram os Templários que transmitiram aos seus arquitectos os conhecimentos de matemática pitagórica que iam buscar ao oriente.Os cavaleiros templários, muito ligados à história da construção de Chartres, também abraçaram a veneração da Virgem Negra, mas por outros motivos. De acordo com alguns autores, a Madona Negra também representava a senhora que está oculta, ou Maria Madalena. Nesse oceano de especulações e teorias, é bem possível que esse sincretismo realmente tenha ocorrido em Chartres nos tempos iniciais da cristianização da Gália. Mas se associação da imagem com Maria Madalena é incerta, com certeza há um vínculo estreito entra a catedral e a Ordem dos Templários. Na cripta, vários vitrais em pequenas janelas ainda ostentam a cruz templária e Bernardo de Claraval, um dos inspiradores da Ordem, foi um dos grandes incentivadores da construção da catedral. Filósofos da tradição esotérica, e homens de ciência, reivindicavam a sua afiliação a Pitágoras (o grande iniciado), herdeiro da sabedoria egípcia, detentor de um conhecimento de cunho divino.

As comunidades pitagóricas espalharam-se depois da morte do mestre, perdendo-se assim a coesão original de Crotona. O esoterismo ocidental reportou-se muitas vezes à iniciação e ao segredo dos mistérios. O pitagorismo marcou profundamente o neoplatonismo em determinados domínios entre os quais a metafísica dos números, a crença na vida da alma depois da morte, e o recurso às mediações e à doutrina da analogia. Desta gnose mística resultam uma doutrina da salvação. Num tímpano da Catedral está representado um templário; e no Pórtico ocidental, que se vê na imagem a seguir, está representado Pitágoras.



Seja como for, parece ser verdade não só a ligação entre a Ordem do Templo e os mestres construtores, bem como era ela uma grande financiadora da construção dessas catedrais. Em Chartres, no século XII, havia uma escola que se interessava em primeiro lugar pelo esoterismo, e pela filosofia platónica, que integra elementos da astrologia. Entre as disciplinas ensinadas, conta-se o clássico quadrivium. Um filósofo dessa época que se liga à escola de Chartres, é Alain de Lille. Um verdadeiro esoterista da natureza, na medida em que se dedica a descodificar as assinaturas no seio de um mundo imaginário. A especulação estética e simbólica da escola de Chartres, e a mística da natureza, é o grande influenciador do Renascimento.



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Cister e o nascimento de Portugal


A Ordem de Cister, e a Abadia de Cister nasceram em 1098 nos confins de uma floresta na Borgonha, sendo Roberto de Molesme um dos seus fundadores, juntamente com alguns companheiros monges. Roberto de Molesme [1028, Champanhe – 1110 Molesme], havia sido fundador do Mosteiro de Molesme em 1075, e deixara a congregação monástica de Cluny para retomar a observância da antiga regra beneditina, como reação ao relaxamento da Ordem de Cluny. 


O sexto abade de Cluny terá sido Hugo de Cluny, dito o Grande [1024-1109], desde 1049 até à sua morte. Foi uma das figuras mais marcantes do seu tempo. Serviu a nove Papas, foi conselheiro de imperadores, reis, bispos e superiores religiosos. Era descendente da família dos Duques da Borgonha, e, por conseguinte, parente próximo do Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal. Ele construiu a terceira igreja da Abadia em Cluny, a maior estrutura da Europa por muitos anos, com recursos doados por Fernando I do Reino de Leão e Castela, onde fundou priorados. A relação de Hugo com Fernando I e com Afonso VI, assim como a sua influência sobre o papa Urbano II, que tinha sido prior na Abadia de Cluny sob Hugo, fez dele um dos mais importantes e poderosos homens do final do século XI. 


Tudo isto se passa no Ducado da Borgonha, um dos estados mais importantes da Europa medieval, independente entre 880 e 1482. Não deve ser confundido com o Condado da Borgonha, outro território da França. O feudo do Duque da Borgonha correspondia aproximadamente à actual região da Borgonha que tem Dijon como capital. A dinastia inicial de duques da Borgonha extinguiu-se em 1026, com a morte sem descendentes do herdeiro da casa, o duque Otão-Guilherme. Mas o ducado já tinha sido anexado em 1004 pelo rei Henrique I de França, que se tornou duque em 1016. Em 1032 Henrique I concedeu o ducado ao seu irmão Roberto, que fundou o ramo capetiano de duques da Borgonha. 

Os borgonheses ou burguinhões eram um povo germânico oriundo da costa do Báltico, coabitando com suevos e vândalos desde o século III a.C. Eram celtas e tinham sacerdotes druidas. Ao serem empurrados pelos Hunos, acantonaram-se na região que recebeu o nome de "Borgonha", devido ao nome por que eram conhecidos. O que não foi pacífico, dado que mantiveram guerras constantes com os francos. A Borgonha, na época da origem de Portugal, era um reino independente que não pertencia ao reino da França.

Pois é dessa linha que descende Afonso Henriques. O último representante desta casa foi Filipe de Rouvres, que morreu de peste em 1361. A última duquesa da Borgonha independente foi Maria de Valois, que casou com Maximiliano I, imperador do Sacro Império Romano. No casamento estava estipulado que o segundo filho herdaria os domínios da mãe, mas Maria morreu num acidente de cavalo antes que isso acontecesse. Depois desta tragédia, o Ducado da Borgonha foi incorporado à França, enquanto o Condado da Borgonha (Franco Condado) e os territórios dos Países Baixos ficaram sob o controle dos Habsburgos.  

Convento de São João de Tarouca

Em Portugal, a Ordem de Cister ter-se-á estabelecido pela primeira vez, em São João de Tarouca, cerca de 1144. 

O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça foi fundado de raiz como mosteiro cisterciense, ao passo que outros inicialmente fundados no século XII, migraram de outras observâncias.

Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça

Bernardo de Claraval [1090-1153], por sua vez, funda o Mosteiro e Abadia de Claraval em 1115, juntamente com alguns monges vindos da Abadia de Cister, com dinheiro e terreno oferecido por Hugo de Champanhe [1074-1125], um dos fundadores da Ordem do Templo (Os Templários), Conde de Champanhe de 1093 até à sua morte. Isso explica muita coisa. Primeiro, a figura de Bernardo de Claraval que está por trás a mexer os cordelinhos. O que explica o precoce desenvolvimento da Ordem do Templo em Portugal. São Bernardo havia tido um papel importante junto da Santa Sé no reconhecimento definitivo da independência de Portugal face a Castela. O que só veio, no entanto, a acontecer, preto no branco, em 1179 (26 anos após a morte de Bernardo, e seis anos antes da morte de Afonso Henriques).

Em 1128, a Ordem do Templo é oficializada no Concílio de Troyes com o inestimável apoio de São Bernardo, um homem com um carisma raro. Não admira que não tenham faltado interessados em entrar nesta ordem de cavalaria. Os Templários deverão ter chegado a Portugal em 1125 (três anos antes da sua oficialização pelo clero romano). Receberam as primeiras casas e propriedades em pleno Condado Portucalense. Receberam a doação da vila de Fonte Arcada da rainha D. Teresa. Em 1129, Hugues de Payens pede a São Bernardo que lhe escreva um sermão de exortação para facilitar o recrutamento de novos templários. Ora nesta altura, já D. Afonso Henriques é irmão da Ordem. Assim consta na carta de confirmação da doação de Soure, redigida em Guimarães e datada de 13 de março de 1129, nove meses depois da Batalha de São Mamede.

Em 1139 dá-se a célebre e mítica Batalha de Ourique, em que os monges cavaleiros participaram com grande valentia. É neste mesmo ano que o papa emite a bula Omne datum optimus que outorga grandes privilégios à Ordem do Templo. Fica isenta de dízima e com direito a nomear os seus próprios capelães e a construir igrejas.

É em 1140 que se dá o Recontro de Valdevez, onde hoje é Arcos de Valdevez, em que D. Afonso Henriques leva o rei de Castela e Leão de vencida. Este acontecimento abre o caminho para que em 1143 D. Afonso Henriques seja reconhecido em Zamora rei de Portugal na presença do cardeal legado do Papa Inocêncio II e do próprio Afonso VII, rei de Leão e Castela. É aqui que D. Afonso Henriques, para oficializar a sua independência face ao rei de Leão e Castela, passa a ser vassalo da Santa Sé, pelo que ficou comprometido a dar como tributo quatro onças de ouro por ano. Compromisso esse que D. Afonso Henriques nunca cumpriu.

O ano de 1146 é o ano do casamento de Afonso Henriques com Mafalda, filha do conde de Sabóia, o que reforça os laços com Borgonha. Mas é um tempo em que os mouros não dão sossego ao rei para os preparativos do enlace. Dois anos antes, os Templários de Soure, dada a sua grande inferioridade numérica, saem derrotados pelos mouros numa batalha perto de Santarém. Alguns morreram e os restantes foram encarcerados no Castelo de Santarém. Mas os mouros não esperam pela demora, no ano seguinte, um plano audaz e astucioso concretiza-se na conquista de Santarém, e os Templários podem libertar os irmãos que estavam presos. Este feito foi muito importante para D. Afonso Henriques, a ponto de dar todo o eclesiástico de Santarém aos Templários, e terrenos na zona de Alcobaça aos monges de Cister, na pessoa de Bernardo de Claraval, com o compromisso de aí edificar um Mosteiro. A sede dos Templários passa de Soure para Santarém, e aí constroem o seu primeiro templo de pedra em território português, a Igreja de Santa Maria da Alcáçova.


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Igreja de Santa Maria da Alcáçova

E é nesse mesmo ano, 1147, que os Templários acompanham Afonso Henriques para a tomada de Lisboa, que teria sido difícil caso se não tivesse dado o facto de receber apoio dos Cruzados vindos do norte da Europa, de passagem por Lisboa, antes de partirem para a Terra Santa. O cerco durou 17 semanas.

Para uma mais ampla perspetiva história, façamos aqui um parêntese para recuarmos até 711, quando se deu a invasão muçulmana na Península. Nessa altura os católicos eram infernais nas perseguições obsessivas às heresias. Por isso, o Islão foi uma benção, não apenas para os hereges cristãos, mas também para os judeus peninsulares que eram ferozmente perseguidos como deicidas, assassinos de Jesus. Acresce que nessa época os muçulmanos eram mais cultos, com um nível civilizacional muito superior ao dos cristãos católicos da Península. A influência do islamismo fez-se sentir mais no sul de Portugal do que no norte, incluindo a Galiza, onde dominava a heresia de Prisciliano. Sucede que na comunidade muçulmana, que veio para a Península, existiam também muitos mestres sufis, que eram o equivalente gnóstico do Islão. Ambas muito mais cultas que o cristianismo romano, ainda assim tiveram uma grande adesão popular. A sua origem no gnosticismo e filosofia neoplatónica, casavam bem com as tradições celtas próprias da vertente Atlântica. Praticavam o ideal da fraternidade humana, tinham reuniões noturnas e secretas e o seu ensinamento era iniciático, razão pela qual o voto de silêncio dos aderentes era total. As mulheres estavam completamente em pé de igualdade com os homens. Ora, "não havendo bela sem senão", é um facto que, no tempo da reconquista cristã, os abades de Cluny, vieram para a Península Ibérica com a missão de acabar com as crenças heréticas. E o alvo principal eram os moçárabes, os mais cultos. Mas as crenças religiosas não se mudam por decreto. 

Fechado o parêntese, deve dizer-se que o moçárabe era um cristão que fazia vida de árabe, mas conservava intacta a sua fé cristã. Por exemplo, o comércio marítimo à distância, era o género de vida típico dos árabes. E é aqui que se dá um facto curioso, pois muitos dos navegadores portugueses eram de origem moçárabeD. Afonso Henriques, anos depois da conquista de Lisboa aos mouros, em cumplicidade com muçárabes, mandou trazer as relíquias de S.Vicente da zona de Sagres para Lisboa. Hoje, por dentro da atual Igreja de S. Vicente de Fora, pode-se ver as ruínas do templo primitivo. Não deve ter sido por acaso que S. Vicente viria a tornar-se o protetor da navegação, tendo o seu culto sido muito importante durante o período dos Descobrimentos.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O lítio em Portugal e a economia: que economia?



Sempre foi assim o progresso, em prol de uma nova economia, sacrifica-se a velha economia com sacrifício dos que ficam para trás na História: Vilarinho da Furna, Rio de Onor, Várzea do Soajo . . . Agora é o lítio, que está a inquietar e a desassossegar principalmente os habitantes das regiões que já foram sinalizadas como tendo o subsolo rico em lítio, seja a região de Montalegre, seja a região da Serra de Arga. Do outro lado das populações estão as empresas, que nunca falam claro às populações.

Tomo aqui o termo “economia”, no sentido mais clássico, mais biológico, aquela que tem a ver com as pessoas, como , por exemplo, estas populações que vivem exclusivamente da pastorícia. Não “Economia” no sentido da disciplina científica, e que é hoje só por si, a mais influente ciência social. Ciência que consiste na análise da produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Historicamente, alguns dos melhores pensadores debateram-se com o problema de como entender a economia. Aristóteles foi um deles. Na sua obra “A Política”, identificou dois tipos de atividade na sociedade grega: a produtiva – oeconomia (oîkos, “casa” + nómos, “lei”); a distributiva – chrematistiké (khrêma, “dinheiro”). A prática crematística consiste em colocar a procura da maximização da rentabilidade financeira antes de qualquer outra coisa, em detrimento, se necessário, dos seres humanos e do meio-ambiente. É da natureza da prática crematística recorrer a diversas estratégias de ação nocivas, como especulação financeira, degradação sócio-ambiental, sem preocupação com as consequências.

Apesar de a Economia como ciência, pela influência intelectual que hoje em dia imprime na sociedade, dar azo a que os economistas profissionais reivindiquem um estatuto equivalente à física e à medicina, para terem também direito a um Prémio Nobel, a verdade é que não há ciência que coloque à sociedade mais problemas, não só pela sua fraca fiabilidade, como pela sua obscuridade. Daí os economistas serem os profissionais mais contestados na comunicação social. O que não admira, atendendo à sua complexidade e ao objeto de estudo: os comportamentos das pessoas no seu dia-a-dia e que tem que ver com a maneira como os seres humanos organizam a produção, a distribuição, o consumo e a troca de bens e serviços, o emprego e o investimento, a despesa pública, e sei lá que mais. Se tivéssemos que ser rigorosos na taxinomia de Aristóteles, esta disciplina, em vez de se chamar Economia, devia chamar-se Crematística.

Enquanto Aristóteles considerava a oeconomia como algo necessário a todas as sociedades, já a crematística era perigosa e destrutiva para a sociedade devido à ausência de limites relativamente às atividades envolvidas. A oeconomia era considerada uma atividade natural, enquanto a crematística não o era. A arte de fazer dinheiro com dinheiro era considerada imoral. Na Ética a Nicómaco, Aristóteles reconhece que as relações de troca têm uma dimensão moral. O comportamento dos seres humanos, a variável-chave da economia, mesmo nas economias das sociedades mais simples, é muito difícil de entender, pois as pessoas alteram os seus comportamentos conforme as mudanças do meio externo, que depende da forma como é interpretada a informação disponível. 

É impressionante como tantas atividades que em tempos eram consideradas imorais e mesmo ilegais se tornaram não apenas aceitáveis como foram consideradas benéficas para a sociedade. São Tomás de Aquino na Summa Theologica também analisa questões de economia na esteira de Aristóteles. Praticamente até ao fim do 1º milénio d.C. a maioria das trocas eram feitas em espécie. Os servos (caseiros na terminologia do norte de Portugal) pagavam aos seus senhores em trabalho e em resultado das colheitas. Mas a partir daí a Europa assistiu a um crescimento gradual da exploração de minas e cunhagem de moeda à medida que os mercados de expandiam, e havia mais coisas para vender e comprar. Isto levou à questão de saber como estabelecer um preço justo. E Tomás de Aquino abordou esta e muitas outras questões. Ele levou a questão do preço justo para o nível da ética, porque não podia afirmar que era ilegal. Ele bem sabia que pelo senso comum, não era ilegal comprar uma coisa por um preço e voltar a vende-la muito mais caro. Para qualquer pessoa parecia ser natural e não criminoso. Tomás de Aquino também considerava o dinheiro como algo não-natural, uma vez que não crescia sozinho. Este foi outro argumento que ele arranjou contra a obtenção de lucro através de empréstimos.

Ibn Khaldun [1332-1405], um filósofo, historiador e estadista muçulmano, que nasceu em Tunes e morreu no Cairo, foi um precursor da economia política clássica. A teoria do ciclo de vida das civilizações de Ibn Khaldun comparava a sociedade a um organismo vivo sujeito ao declínio e à morte como uma causa universal. Khaldun foi de facto um prolífico pensador de conceitos que hoje são pilares científicos da disciplina. Por exemplo, viu que o Estado tinha limites para aumentar os impostos. A dada altura os cidadãos seriam desencorajados de trabalhar mais, e isso acabaria por arruinar o Estado. Hoje isto é conhecido pela curva de Laffer, em que as taxas de tributação mais elevadas têm como consequência receitas fiscais mais baixas.

Adam Smith escreveu na sua História da Astronomia que o ser humano sente uma espécie de ansiedade relativamente àquilo que é inesperado e não lhe é familiar. Por isso, tentamos classificar e categorizar o mundo com vista a que tudo faça sentido. De acordo com Adam Smith, isto é o objetivo da filosofia, o encontrar a ordem no meio do caos. Ora a economia capitalista é dinâmica, não tem nada de estático. Portanto, qualquer teoria económica apenas faz sentido enquadrada no seu contexto histórico. Fora disso, vale o que vale, ou seja, não vale nada.

O Desenvolvimento Económico, um conceito que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, pretendia fazer ver que estavam em casa não apenas crescimento quantitativo, mas também avanços qualitativos. Ora, um dos pontos centrais era que esta teoria era para aplicar em países em vias de desenvolvimento. O explorador preocupava-se pouco com as condições em que ficavam as populações exploradas. Como consequência, a maioria dos países ditos em vias de desenvolvimento sofria de uma falta de integração setorial no seio das suas próprias economias, estruturadas para exportar o seu produto para o mundo industrializado. Ora, isto torna-os vulneráveis às oscilações dos preços das mercadorias mundiais. Daí a perpetuação da pobreza e das desigualdades. 

Schumpeter substituiu o conceito convencional de concorrência de preços pelo conceito de concorrência na inovação. Em vez de competir em termos de preços, as empresas competem levando novos produtos competitivos aos mercados, melhorando a qualidade dos produtos existentes, oferecendo serviços novos. E assim Schumpeter abri caminho a um novo conceito: destruição criativa - novas tecnologias e aperfeiçoadas no mercado, destrói o status quo na medida em que tudo o que existe num dado momento se torna rapidamente obsoleto. E isto provoca fortes rasgões no ecossistema, por causa das novas condições de produção e novos padrões de consumo.

Amartya Sen recebeu o Prémio Nobel da Economia  em 1998 pela sua investigação sobre o Índice de Desenvolvimento Humano. O bem-estar individual e social não é apenas uma questão de consumo de bens e serviços. Importa conhecer o PIB, mas também a esperança de vida e o nível de instrução, juntamente com outros fatores socioeconómicos. E aqui importa muito considerar o problema das desigualdades. Amartya Sen faz uma crítica profunda ao princípio da estrita racionalidade, em detrimento da empatia. Não há uma ordem social e económica estável racional sem ética.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

De novo à deriva


Osvaldo Spengler, em 1923, tocado pelo que aconteceu com a Grande Guerra, fazia profecias algo controversas relativas ao devir da Civilização. É claro que nessa altura o horizonte da cultura europeia ainda era universal, mais propriamente inglês, que durante século e meio aguentou um império que se estendia para lá da Índia. O Império tinha acabado.

E na verdade, a Guerra Mundial que se seguiu vinte anos depois daria razão a Spengler, não fosse o caso de passados outros vinte anos se terem afirmado no Ocidente outros protagonistas de impérios. Sim, para todos os efeitos a União Soviética foi um império ocidental em disputa com os Estados Unidos da América. Claro que durante todo o tempo da chamada Guerra Fria, falar de Império Americano não era propriamente um cumprimento. Mas esta evidência só se tornou significativa depois da queda do Muro de Berlim, que levou a União Soviética consigo na derrocada.

A Europa não pode entrar em decadência, sobretudo à maneira romana. É preciso recordar que apesar de ter sido vítima das suas contradições internas quase mortais, foi salva pelo Novo Mundo, sua antiga colónia. Teria começado aí a deriva da Velha Europa, como lhe chamou Donald Rumsfeld, não fosse a singularidade de a Europa na História, pelo menos desde César, ter dado ao mundo um Colombo e um Vasco da Gama. A deriva nada tem que ver com a história colonizadora no vasto mundo, mas com a divergência durante séculos com o Islão, e que perdura. Se não fosse isso, não teria havido a necessidade da Rota do Cabo, um desvio enorme para ultrapassar a barreira otomana no Mediterrâneo oriental. Agora, a história com o Oriente é outra história, pois é no Oriente que se define verdadeiramente o que significa Ocidente. 




A imagem mostra delegados dos países que participaram no Fórum Para a Cooperação Internacional Cintura e Rota (ICR) que decorreu em Beijing de 14 a 15 de maio de 2017. Participaram cerca de cinco mil delegados de 150 países, incluindo 40 chefes de governo e representantes de 90 organizações internacionais. A reunião realizou-se a seguir a uma visita bem sucedida à Europa efectuada pelo presidente da China, Xi Jinping, durante a qual foi assinado um Memorando de Entendimento com a Itália, país que se juntou a mais 16 da Europa Central e Oriental que já o havia feito. Também a Suíça e o Luxemburgo manifestaram a intenção de aderir à iniciativa. O acordo entre a China e a Itália foi recebido com muita cautela pelos outros pesos-pesados da União Europeia, designadamente a França que, apesar de tudo, ficou muito feliz com a assinatura de acordos multimilionários para benefício de fabricantes franceses, entre eles a Airbus.

O conceito "Iniciativa Cintura e Rota" (ICR) foi apresentado pela primeira vez pelo presidente chinês em discursos pronunciados em Astana e Jacarta em 2013. Desde então, em pouco mais de cinco anos a ideia conquistou a atenção, imaginação e apoio de mais de 150 países. Dois ramos fundamentais dão corpo à ideia: a constituição de uma rede rodoviária, ferroviária e de fibra óptica em toda a Ásia, estendendo-se à Europa; e uma série de rotas marítimas ligando a China à Europa, África e América Latina. E qual é o papel da Rússia no meio desta tenaz? Pois
 o presidente russo, Vladimir Putin, foi um dos principais oradores do Fórum de Beijing. Expôs a sua visão da ICR, segundo a qual não havia dúvidas de que se tratava de um autêntico caminho para o desenvolvimento. A iniciativa chinesa estava estreitamente em sintonia com o objectivo russo de estabelecer aquilo a que Putin chamou "a maior parceria eurasiática”. A cooperação entre os membros da União Económica da Eurásia e os projectos da ICR chinesa vai muito para lá dos benefícios económicos, disse o presidente russo. “A maior parceria eurasiática tem como objectivo promover um alinhamento mais próximo com os vários projectos de integração bilateral e multilateral que estão em andamento na Eurásia”, acrescentou Putin. 

As palavras do presidente Putin são palavras que funcionam como o pior dos pesadelos do Ocidente. Como sublinha Andre Vltchek, “nada aflige mais o Ocidente do que a perspectiva de perder o controlo absoluto sobre o mundo”. Os Estados Unidos tentam, há décadas, impedir o desenvolvimento de uma parceria política, estratégica e militar entre a Rússia e a China. Ainda não conseguiram perceber, porém, que as suas políticas e atitudes fornecem um grande impulso à cooperação sino-russa. A Iniciativa Cintura e Rota é a expressão mais clara da perda de controlo pelo Ocidente. É por isso que os Estados Unidos pressionam cada vez mais alguns dos seus aliados, como a Alemanha e a Austrália, a não participarem no gasoduto Nord Stream 2, no caso germânico, e a unir-se ao confronto com a China no Mar da China Meridional, no caso australiano.

O facto de 152 nações de todas as regiões do mundo se terem associado à Iniciativa Cintura e Rota demonstra que a maioria dos países do mundo encara este projecto como uma alternativa melhor do que a intimidação, a destruição financeira, as invasões e ocupações a que os Estados Unidos recorrem para manter a sua hegemonia e a sua visão do mundo. A razão está certamente do lado dessas nações. O Fórum da ICR de Beijing demonstrou amplamente que está em curso uma mudança tectónica na paisagem geopolítica do mundo. O grande perigo para a estabilidade do planeta é se o Ocidente, na sua luta para manter os privilégios de que desfrutou durante os últimos 400 anos,  não tiver clarividência suficiente para perseguir uma estratégia consentânea com a mudança da paisagem geopolítica do mundo, que é tão forte que se assemelha, numa imagem metafórica, aos movimentos tectónicos que estão na base da formação do continente Euro-asiático por via da chamada "deriva dos continentes".

Esta complexidade não impediu, porém, a propaganda chinesa de tentar transformar a estratégia conhecida como “One Belt, One Road” (OBOR) numa história para adormecer crianças. Literalmente. O nome dado à iniciativa não ajuda a esclarecimentos. One Belt: refere-se às ligações terrestres entre a China e a Ásia Central, replicando a Rota da Seda que durante séculos foi o eixo que dominou o comércio mundial entre o Extremo Oriente e a Europa. Foi a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, no final do século XV, que coincidiu com o seu declínio. One Road: trata-se da rota marítima através da qual a China pretende reforçar a sua ligação ao Sudeste Asiático e conectá-lo a África, onde a presença de empresas chinesas é já assinalável. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Lembrando o Muro com Günter Grass





Tinha-me baldado aos trabalhos do 7º Congresso Internacional de Imunologia a decorrer no lado ocidental do Muro de Berlim. Naquele dia 3 de agosto de 1989, passei toda a manhã a tirar fotografias ao Muro, na zona de Reichstag. Do outro lado do Muro viam-se as Portas de Brandeburgo e o posto de vigia com um militar lá dentro armado. Nesta foto são evocados 8 alemães de leste que foram abatidos pelos guardas do Muro quando tentavam passar para o lado de cá.

Nos intervalos das conferências para o café, e à mesa das refeições, não se falava apenas de ciência e de ratos de laboratório, mas aqui e ali vinha à baila a aposta de que aquele Muro não ia ficar ali de pé por muito mais tempo. De resto, a SIDA ainda era a estrela do momento, onde milhares de cientistas, quatro deles galardoados com o Nobel, ainda andavam à nora para perceber o que diferenciava o VIH-1 do VIH-2 Português, tendo este sido isolado em vários pacientes africanos por investigadores portugueses. Quando se deparou em 1985, em amostras de doentes provenientes da Guiné-Bissau, com um vírus HIV com um comportamento diferente, a investigadora e professora catedrática da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, Odette Santos Ferreira, percebeu que aquilo tinha um significado extraordinário. No ano seguinte, publicava na revista Science, já acompanhada de uma equipa luso-francesa, a descoberta de um segundo vírus da SIDA, o VIH-2. 

Nas ruas de Berlim Ocidental víamos palavras escritas nos autocarros como: “Glasnost Perestroika”, mas poucos arriscariam apostar que dali a três meses aconteceria o que agora recordamos ainda fascinados passados trinta anos. Íamos ver as Portas de Brandeburgo, mas com o Muro e as torres de vigia de permeio. A fotografia seguinte foi tirada do cimo da Coluna da Vitória, símbolo da Unidade Alemã sob a direção da Prússia.



E esta outra foto foi tirada de dentro do autocarro já na parte final do percurso pelas ruas de Berlim Leste e depois de termos ido ao Museu Pergamón, que comporta lá dentro o fabuloso e original Altar de Pérgamo, E a grandiosa Porta de Ishtar, da Antiga Babilónia.



Na visita de autocarro ao lado de lá, fomos levados a este enorme monumento (na foto) em homenagem a 80 mil soldados soviéticos que morreram na Batalha de Berlim e deram as suas vidas para derrotar a Alemanha entre abril e maio de 1945, que fica dentro do Treptow Park, na região leste de Berlim, ainda existia o muro, e não me enfureci por ter estado hora e meia retido no Checkpoint Charlie sob um mise-en-scène de lupas, e guardas a meter carrinhos de mão com espelhos por baixo do autocarro, maioritariamente de japoneses, cujos passaportes de meia dúzia haviam sido retidos para beneplácito do chefe. Era a História da Guerra Fria ao vivo, por dentro, com laivos do “Tinker Tailor Soldier Spy”, de John le Carré, mas que já se sentia no ar um cheiro, sugestivo de que algo e muito extraordinário estava para a acontecer dali a nada. 



Só víamos nas largas avenidas de seis faixas os pequenos e frágeis Trabant; víamos velhotas sentadas às portas dos urinóis com um pratinho de moedas em cima de uma cadeira; víamos bustos de Lenine; e não víamos gente nas ruas a passear; nem montras de lojas; nem aparências de polícias; apenas turistas a pé dentro do Museu de Pergamón, e encafuados em autocarros em movimento pelas avenidas e Praças de Berlim Leste. Karl-Marx-Allee, uma grande avenida com casas estilo anos 50 em decadência, um café Moskau. 





Agora dou espaço a Günter Grass
para uma narrativa vista por gente de Berlim Leste:
Num dia de Inverno gelado, a que correspondia um céu azul aguado por sobre a cidade agora já não dividida, a 17 de dezembro, quando o até então partido mais importante estava reunido em congresso no pavilhão do Dynamo de Berlim, para se mascarar com um novo nome, num domingo, que levou para a rua gente de todas as idades. Lá apareceram eles cheios de energia para os lados da Leipziger Straße. As silhuetas de alto e magro e baixo e forte, fundiam-se num só chapéu de feltro escuro e sobretudos com uma mistura de lã cinzenta. Em breve tinham ultrapassado a Casa dos Ministérios, mais concretamente o seu lado norte. Ora gesticulava a metade alta, ora a atarracada. Um em amplas passadas, o outro em passinhos curtos. O bafo que deitavam dissipava-se em nuvenzinhas brancas a caminho da da Potzdamer Platz, onde o muro que servira de fronteira já fora demolido em toda a largura da rua, e se encontrava aberto à circulação nas duas faixas de rodagem. Uma passagem que só muito devagar deixava escoar o trânsito de uma metade da cidade para a outra, entre dois mundos, de Berlim para Berlim.
Atravessaram uma terra de ninguém com décadas de desertificação, agora transformada em grande superfície ávida de proprietários; desde logo começou a haver projetos, qual deles o mais ambicioso na fúria da construção. Moral: subiram os preços dos terrenos. O Ocidente com o Tiergarten passou a permitir-lhes liberdade de movimentos. Hoftaller com a pasta a abarrotar, além do termos e da caixa do pão, trazia sempre consigo um guarda-chuva miniatura. Quando chegaram ao Muro, sem vigilância, após uma breve hesitação, optaram pela brecha da direita, em direção à Porta de Brandeburgo. Metal sobre pedra: já ao longe tinham começado a ouvir picar com nitidez. Com temperaturas abaixo de zero um ruído daqueles propaga-se ao longe. Um renque de pica-muros colados uns aos outros, trabalhavam com luvas por causa do frio, esboroando a muralha que do lado ocidental era uma autêntica obra de arte do grafiti. Fora da zona de martelagem, por assim dizer no segundo elo da desmontagem levada a cabo pelo Ocidente, já se fazia negócio. Estendidos sobre panos ou jornais, ali estavam pedregulhos de respeito e cacos minúsculos. Peças de exposição que tinham o seu preço. Claro está, compradores não faltavam desde que lhes apresentassem um certificado datado - "Muro de Berlim autêntico" - juntamente com o souvenir. Por fim, Hoftaller disse: "Isto entristece-me, embora nós tivéssemos previsto este derrube, pelo menos desde o caso 'Sputnik'.

O caso 'Sputnik' deu-se a 18 de novembro de 1988, quando a edição alemã da revista soviética Sputnik foi eliminada da lista de publicações distribuídas por via postal. Entre outras razões, foi proibida por ter levantado em artigos publicados as questões que se prendiam com os crimes de Estaline.
A gente gostava de saber quem é que abriu o ferrolho. ora, quem é que passou a cábula ao camarada Schabowski? Quem é que lhe deu licença para fazer declarações? Frase após frase , vociferando... A partir de hoje ... Então Fonty, quem é que se lembrou da formulazinha mágica "Abre-te Sésamo"? Quem foi? Não admira que o Ocidente tivesse apanhado um choque, quando, a partir de 9 de novembro, dez mil, que digo eu, cem mil pessoas se passaram a pé e com os seus Trabis. Ficaram verdadeiramente perplexos ... gritavam uma loucura ... uma loucura!
Günter Schabowski foi membro e porta-voz da comissão política do Partido Socialista Unificado da Alemanha (PSUA ou SED, iniciais de Sozialistische Einheitspartei Deutschlands), o partido único comunista durante a maior parte da existência da autodenominada República Democrática Alemã. Schabowski ganhou fama mundial em 9 de novembro de 1989 por propiciar acidentalmente a abertura da fronteira interna alemã, incluindo o Muro de Berlim. Schabowski erradamente anunciou, numa conferência de imprensa internacional em directo/ao vivo, que todas as leis para viajar ao estrangeiro tinham sido derrogadas. Às 18 horas, Günter Schabowski apresenta à comunicação social internacional as mais recentes decisões do regime, mas sem mencionar na altura a abertura das fronteiras. Em resposta a uma pergunta, Schabowski lê em voz alta um documento anunciando que vão ser entregues vistos para viajar ou emigrar para o estrangeiro "sem condições" prévias. "A partir de quando?", pergunta um jornalista, Günter Schabowski hesita e depois improvisa: "Do que eu sei agora, imediatamente" (Nach meiner Kenntnis... ist das sofort, unverzüglich). Como consequência, vários correspondentes estrangeiros começam a noticiar que os "alemães de Leste podem ir para o estrangeiro a partir de agora. Curiosamente, o erro foi apenas respeitante à data, já que o plano inicial era derrogar as leis (vistas já como insustentáveis devido às fugas em massa de alemães do leste para a República Federal Alemã via Hungria e Checoslováquia. Dezenas de milhares de alemães orientais acudiram imediatamente ao Muro de Berlim, onde os guardas fronteiriços se viram forçados a abrir as vias de acesso a Berlim Ocidental por causa da pressão popular, o que provocou a posterior queda e o desmantelamento do Muro. Nas posteriores purgas da velha guarda, Schabowski foi expulso rapidamente do SED. 
Andava muita gente a passear, turcos também. Jovens casais faziam-se fotografar como pano de fundo o Muro, sólido como que construído para a eternidade, para que pudessem mais tarde, muito mais tarde, recordar. Aqui se encontraram famílias separadas havia muito tempo. Viajantes vindos de longe ficavam espantados. Japoneses em grupos. Um bávaro com traje típico. A tudo isto sobrepunha-se o ruído dito dos pica-muros, que exerciam o seu ofício com obstinação, como se fossem pagos à peça. Um senhor de idade avançada, com óculos de segurança e orelheiras, lascava a preceito com um berbequim sem fio. E havia crianças a observar. E mulheres jovens ofereciam aos soldados flores, cigarros, laranjas, barras de chocolate, e naturalmente bananas. A partir daí a banana passou a ser comprada em grandes quantidades, tornando-se o símbolo da Reunificação, porque era coisa que não havia nos tempos da RDA. E milagre atrás de milagre, aqueles homens de uniforme, até há pouco tempo prontos a abrir fogo, deixavam-se presentear, até espumante ocidental aceitavam.
Dali até hoje, a Alemanha unificada tornou-se a maior economia da Europa. Em outubro, a taxa de desemprego voltou a descer ligeiramente, para 4,7%, apesar da conjuntura económica, o que riscou 30.000 alemães dos centros de emprego. Um comentador da revista “Der ­Spiegel” lembra que a história se escreve de forma diferente nos “dois paí­ses”, opondo o milagre económico da República Federal da Alemanha (RFA) ao desemprego em massa da RDA.

Um alemão, 45 anos, nascido em Leipzig mudou-se para Berlim Leste a tempo de assistir à queda do Muro. Sabe que a extrema-direita sempre foi um problema na RDA e só deixou de ser tabu a partir de 1990. A insatisfação com a política de portas abertas aos migrantes da chanceler é anterior à crise migratória de 2015. Os mais velhos votam AfD porque se sentem enganados ao perderem as garantias como pensionistas. Os mais novos estão a leste, não têm a noção de nada. Passadas três décadas, ainda é comum mencionarem-se as regiões da Alemanha, e comparar as situações de um lado e do outro.

Um alemão, 51 anos, cujo pai de origem turca chegou a Berlim em 1963 com o estatuto de “trabalhador convidado, ainda se lembra de vender aos turistas pedaços de cimento arrancados ao Muro com uma picareta. Hoje é dono de um café em Kreuzberg, e alimenta um portal noticioso em idioma turco sobre a comunidade imigrada, “para contar a verdade sobre os factos”. Os turcos foram dos primeiros afetados pela reunificação, por causa da concorrência no emprego.