domingo, 10 de novembro de 2024
Ver a representação política com os olhos de uma criança de 10 anos
A franqueza e a simplicidade de uma criança de dez anos refletem a ideia de olhar a realidade sem os filtros que a sociedade adulta, muitas vezes, impõe através do politicamente correto. E foi assim que muitos americanos e americanas consideraram Trump, pela forma direta, como eles, gostam de falar, sem “rodriguinhos” como dantes se dizia na nossa terra. Sem o polimento tradicional da linguagem política. Essa franqueza pode ter seus méritos em expor questões que são, por vezes, varridas para debaixo do tapete em nome da civilidade e do consenso.
Estas questões têm de ser vistas sem os filtros da brandura do politicamente correto, que por ditames da civilidade não podem ser ditas. E quando se está alienado da realidade, a realidade encarrega-se de colocar os gonzos nos eixos. Shakespeare, em suas obras, frequentemente destacou a ideia de que a verdade e a realidade acabam por emergir, independentemente das tentativas de encobri-las ou suavizá-las. É uma chamada de atenção, quando uma sociedade ou liderança se afasta demasiadamente das realidades concretas em nome de convenções e narrativas politicamente aceitáveis. E o que sucede é que, quando assim é, a verdade tende a impor-se de forma abrupta ou com consequências inesperadas.
Assim, olhar essas questões sem medo de desagradar ou contrariar convenções pode ser necessário para lidar com os desafios profundos da integração cultural, da segurança e da coesão social. Isso não significa que a franqueza se deva tornar um pretexto para a desumanização ou a retórica simplista. É preciso enfrentar a realidade de maneira honesta e pragmática, mas também com um sentido de responsabilidade e humanidade que permita soluções com equanimidade para todos sem exceção.
Os distúrbios nas capitais europeias por razões que ainda há muito pouco tempo eram ditas "por dá cá aquela palha", estão a encaminhar as tribos urbanas em rede para aquilo que William S. Lind chamou "guerras moleculares" a caminho de guerras civis 4GW. É o reflexo da tensão subjacente nas sociedades urbanas contemporâneas. Essas tensões, alimentadas por uma combinação de desintegração cultural, desigualdade social e políticas identitárias estão a dar força às chamadas "tribos urbanas", que formam redes de lealdade e identidade paralelas às estruturas estatais tradicionais. William S. Lind, teórico da guerra de quarta geração (4GW), descreve essas guerras como conflitos onde o Estado perde o monopólio da violência para atores não estatais, como grupos insurgentes, milícias ou redes tribais. As "guerras moleculares" que Lind menciona são uma forma de conflito fragmentado, onde pequenas células ou grupos agem de maneira descentralizada, criando um ambiente de instabilidade que pode corroer as bases da ordem social e do Estado-nação.
Os distúrbios urbanos recentes, muitas vezes impulsionados por ressentimentos acumulados e exacerbados pelos gurus mediáticos, podem ser vistos como uma manifestação preliminar desse fenómeno. Essas revoltas frequentemente expressam frustrações que vão além das questões imediatas, como abusos policiais ou desigualdade, refletindo uma alienação mais profunda e uma desconexão entre certas comunidades e o Estado. A ameaça de que esses distúrbios se tornem mais coordenados e se transformem em conflitos de quarta geração – onde não há linhas de frente claras e a violência se espalha de forma difusa pelas cidades – é uma preocupação crescente para analistas de segurança. Isso exige que os governos europeus repensem as abordagens de integração, segurança e coesão social para prevenir uma escalada que possa evoluir para um conflito mais grave e prolongado.
A crescente intensidade das insurreições urbanas e os desafios associados à fragmentação social colocam a União Europeia numa posição complicada, especialmente quando se trata de responder com seus métodos convencionais de governança e gestão de crises, que muitas vezes priorizam o diálogo, a moderação e o respeito aos direitos civis. No entanto, quando essas abordagens são percebidas como ineficazes diante de distúrbios significativos, a confiança pública nas instituições europeias pode ser abalada. Estas insurreições estão a ser de tal maneira fortes que já tenho dúvidas que a União Europeia as possa vencer com os seus métodos convencionais. Viktor Órban está a ganhar cada vez mais adeptos, já para não falar de Marine Le Pen. Estes políticos advogam por políticas mais rígidas em termos de imigração, segurança interna e defesa da identidade cultural. Orbán, em particular, apresenta-se como um defensor de um modelo alternativo ao liberalismo dominante da UE, priorizando o que ele chama de "democracia iliberal", que enfatiza o controlo estatal, o nacionalismo e medidas mais duras contra movimentos disruptivos. Marine Le Pen e outros políticos de orientação semelhante na Europa capturam essa onda de insatisfação ao prometer respostas mais diretas e contundentes às questões de segurança e identidade. Para muitos cidadãos preocupados com a escalada dos distúrbios e a aparente ineficácia das abordagens tradicionais, essas figuras representam uma esperança de restabelecimento da ordem.
Se a União Europeia não encontrar um meio de responder eficazmente às insurreições e de lidar com a integração social e a segurança de forma mais robusta, há o risco de que a narrativa política se incline ainda mais para a direita, com o fortalecimento de políticas nacionalistas e autoritárias. Isso poderá redefinir o equilíbrio de poder dentro do bloco europeu, criando tensões entre estados-membros que compartilham diferentes visões sobre como enfrentar esses desafios. Além disso, "as no-go zones" estão a aumentar, em qua a polícia do Estado não entra, o que proporciona que aí se estabeleçam as bases operacionais de todo o tipo de gangues.
As chamadas "no-go zones", áreas onde a presença e a autoridade da polícia do Estado são limitadas ou inexistentes, tornaram-se uma preocupação crescente em várias cidades europeias. Esses espaços são frequentemente associados a regiões com alta concentração de comunidades imigrantes ou marginalizadas, onde fatores como desemprego, exclusão social e desconfiança nas autoridades contribuem para a criação de um ambiente onde as normas estatais têm pouco ou nenhum poder. Nessas zonas, a ausência de aplicação efetiva da lei cria um vazio e poder que pode ser explorado por gangues e redes criminosas que estabelecem as próprias regras. Isso não só prejudica a segurança e a coesão social, mas também desafia a soberania do Estado em manter a ordem dentro de seu próprio território. A presença de bases operacionais para atividades ilegais, como tráfico de drogas, tráfico de pessoas e outras formas de crime organizado, compromete ainda mais a capacidade de recuperação e a estabilidade dessas áreas.
A incapacidade ou a relutância das autoridades em intervir nessas zonas pode ser interpretada como uma fraqueza estrutural do Estado, o que, por sua vez, alimenta a percepção de que métodos convencionais de policiamento e políticas de integração falharam. Isso contribui para a popularidade de líderes que defendem políticas de "mão dura" e o reforço das fronteiras e da segurança interna.
No entanto, é importante reconhecer que a solução para o problema das "no-go zones" vai além do simples uso da força. Embora medidas de segurança possam ser necessárias, uma abordagem sustentável precisa também abordar as causas subjacentes, como a falta de oportunidades económicas, a integração cultural e o fortalecimento das instituições sociais. Sem isso, essas áreas continuarão a ser terreno fértil para a proliferação de redes paralelas que desafiam a autoridade do Estado e alimentam tensões maiores na sociedade.
Sem comentários:
Enviar um comentário