quarta-feira, 13 de novembro de 2024

A propósito dos tumultos de Amesterdão



Ontem, um elétrico e várias viaturas foram incendiados na sequência de tumultos nas ruas da capital dos Países Baixos. Imprensa neerlandesa diz que polícia de choque foi mobilizada para o local dos desacatos, mas situação ainda não está controlada. As agitações nas ruas de Amesterdão voltaram ontem à noite na sequência dos distúrbios anteriores que envolveu o confronto entre dois movimentos: de um lado apoiantes do povo palestiniano e do outro a claque israelita de uma equipa israelita de futebol que havia ido jogar a Amsterdão com o Ajax. Nesta última manifestação um grupo com dezenas de pessoas começou os tumultos na capital neerlandesa, atirando material pirotécnico contra várias viaturas. Dos desacatos resultaram alguns incêndios, com várias viaturas a ficarem queimadas assim como um elétrico da cidade. Na altura do incidente não havia passageiros no interior do veículo sendo que o fogo foi, entretanto, extinto.

Este tipo de terrorismo, de baixa intensidade e de baixo custo, está a aterrorizar os velhos e a provocar psicose nos novos no continente europeu. O conceito de "terrorismo de baixo custo" refere-se a ações de violência realizadas com poucos recursos e que têm como objetivo causar medo e desestabilização de forma desproporcional ao seu custo operacional. Essas ações podem ser realizadas por indivíduos ou pequenos grupos que utilizam meios improvisados, como veículos ou armas caseiras, para atingir alvos civis em locais públicos. Essa forma de terrorismo é difícil de prever e prevenir, tornando-se um desafio significativo para as forças de segurança e os governos.

O impacto psicológico desse tipo de violência é profundo. Para a população mais velha, que pode ter uma memória histórica de tempos de maior segurança e estabilidade, esses incidentes podem ser particularmente aterrorizantes e criar uma sensação de vulnerabilidade. Já para os mais jovens, que cresceram num ambiente urbano onde esses ataques volta e meia são mais comuns, normaliza a violência e a psicose, levando a um estado de alerta constante e desconfiança. A repercussão destes acontecimentos vai além do impacto imediato, afetando a confiança coletiva na capacidade do Estado de proteger seus cidadãos. Isso também alimenta debates intensos sobre políticas de segurança, imigração e integração, e contribui para a polarização política, com segmentos da população defendendo medidas mais rígidas e outros insistindo em abordagens que respeitem direitos e liberdades civis.

Se as raízes do extremismo, como a exclusão social, o desemprego e a falta de perspectiva para jovens em comunidades marginalizadas, não forem abordadas de maneira abrangente, o "terrorismo de baixo custo" continuará a ser uma ferramenta eficaz para desestabilizar e incutir medo, minando a coesão social e alimentando movimentos extremistas de diversas vertentes.

O mito das "Cassandras" – uma referência à personagem mitológica que previa desastres, mas cuja voz era ignorada – serve para criticar precisamente aqueles que hoje dizem: “isso não existe… isso não é o caso”. Há coisas que se evitam antes do tempo, porque quando chega o seu tempo – e acaba sempre por chegar se não se contrariar – já é tarde demais. Já foste. É a crítica ao "politicamente correto" que desconsidera os alertas sobre o aumento de tensões étnicas e sociais em algumas áreas da Europa.

Hoje, confrontos étnicos e episódios de violência em grandes centros urbanos, associados a questões de integração, exclusão social e diferenças culturais, parecem dar alguma validade a essas advertências. A percepção de que houve um excesso de idealismo é um argumento frequentemente usado por críticos dessas políticas. O desafio para as sociedades europeias é duplo: lidar com as consequências de políticas anteriores, que podem ter subestimado a complexidade da integração cultural, e, ao mesmo tempo, enfrentar a polarização crescente que se aprofunda com o surgimento de discursos nacionalistas e populistas. Essa situação exige respostas que reconheçam os problemas sem recorrer a generalizações simplistas ou à demonização de comunidades inteiras, o que apenas alimentaria mais tensões.

Os confrontos étnicos visíveis hoje são um sintoma de uma falha em equilibrar o ideal de acolhimento humanitário com a necessidade prática de manter a segurança e a coesão social. As políticas futuras precisam ser mais pragmáticas e ponderadas, com foco em soluções que vão além do binarismo entre aceitação irrestrita e fechamento total. Isso inclui políticas de integração mais eficazes, estratégias de segurança reforçadas e um diálogo honesto sobre as capacidades de absorção cultural e social de cada país.

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