segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Marx na barafunda dos movimentos sociais depois da crise de 2008


A crise de 2008 foi um catalisador para um renascimento do pensamento marxista, não necessariamente como uma proposta prática de revolução socialista, mas como uma ferramenta teórica poderosa para analisar as falhas e contradições do capitalismo contemporâneo. Marx foi "ressuscitado" como uma figura relevante para entender as crises do sistema, o que levou a um aumento do interesse por suas obras e a um renovado debate sobre suas ideias no contexto da economia global.

A crise financeira de 2008 e o colapso de Wall Street deram um impulso significativo aos marxistas e aos críticos do capitalismo para "ressuscitar" as ideias de Karl Marx. A crise expôs as fragilidades estruturais do sistema financeiro capitalista, gerando questionamentos sobre a validade de suas premissas centrais, como a autorregulação dos mercados e o neoliberalismo. Muitos intelectuais, economistas e ativistas viram essa crise como uma confirmação das críticas de Marx ao capitalismo, em especial sua análise sobre as crises cíclicas e a tendência do sistema de gerar desigualdades e instabilidade. Marx havia previsto que o capitalismo, com a busca incessante por lucro e a tendência à concentração de riqueza, levaria a crises periódicas que resultariam em grandes colapsos. Para os marxistas, a crise de 2008 foi vista como uma materialização dessas previsões: a especulação desenfreada, a desregulamentação financeira e a concentração de riqueza e poder nas mãos de poucos atores eram sinais claros daquilo que Marx havia descrito em suas obras, especialmente no "Capital".

Após a crise, houve um renascimento das discussões sobre Marx e suas ideias em universidades, think tanks e em movimentos sociais ao redor do mundo. A falha dos mercados em prever e evitar a crise, e a subsequente necessidade de intervenções gigantescas do Estado para salvar bancos e corporações, reforçou a crítica marxista de que o capitalismo é um sistema inerentemente instável e propenso a crises. Essa intervenção estatal maciça foi vista como uma negação da lógica neoliberal, mostrando que o livre mercado sozinho não era capaz de manter a estabilidade. A crise revelou e exacerbou a desigualdade económica. Enquanto muitas pessoas comuns enfrentaram desemprego e perderam as suas casas, os grandes bancos e corporações, que foram resgatados com fundos públicos, saíram relativamente ilesos. Isso revitalizou a narrativa marxista sobre a luta de classes, na qual os interesses do capital e do trabalho estão em conflito, e o Estado frequentemente atua em favor das elites.

A percepção de que as instituições financeiras e os grandes bancos estavam no centro da crise, praticando atividades especulativas arriscadas, deu credibilidade à crítica de Marx sobre a "fictícia" acumulação de capital, onde o valor é gerado à revelia da produção real, como a especulação financeira. A crise financeira também alimentou movimentos como o "Occupy Wall Street" em 2011, que criticava a concentração de riqueza e poder no "1%" e reforçava uma retórica próxima à marxista sobre a exploração e o domínio das elites financeiras. Esses movimentos ajudaram a popularizar novamente as ideias de Marx entre uma nova geração de ativistas e intelectuais.

Marx disse mais sobre o capitalismo, que estudou a fundo, do que sobre o socialismo. Karl Marx é amplamente reconhecido por sua análise aprofundada do capitalismo, especialmente em sua obra "O Capital", onde ele dedica mais atenção à crítica do sistema do que à descrição de como seria uma sociedade socialista. Marx considerava o capitalismo um estádio histórico necessário e inevitável no desenvolvimento das forças produtivas, mas também via as contradições internas, que eventualmente levariam à sua extinção. Ele estudou detalhadamente o funcionamento do capitalismo, explorando conceitos como a mais-valia, a exploração do trabalho e as crises cíclicas. Por outro lado, Marx escreveu muito menos sobre o socialismo ou o comunismo em termos concretos. Ele preferia não detalhar um "modelo" de sociedade futura, argumentando que seria imprudente tentar vislumbrar algo sem que as condições históricas fossem plenamente desenvolvidas. Para Marx, o socialismo emergiria das lutas e contradições do capitalismo, mas as características exatas dessa nova sociedade seriam definidas pelo processo histórico e pela prática revolucionária dos trabalhadores.

Marx, ao não dizer nada sobre o socialismo levou a que os seus seguidores, os "marxistas", produzissem o chamado "marxismo". Assim, desde as abordagens mais centralizadoras do socialismo soviético até às interpretações mais libertárias ou descentralizadas, avultou de tudo um pouco. Mas o que é claro é que Marx estava mais preocupado em desmascarar as dinâmicas do capitalismo e prever suas inevitáveis crises, do que em desenhar um modelo concreto de sociedade futura. Isso explica, em parte, porque continua um teórico influente na análise do capitalismo. Suas críticas como a exploração da força de trabalho e a ganância sem limites, ainda são consideradas valiosas por muitos economistas e pensadores críticos. Marx, um incréu, mas crente na História como máquina, à qual os humanos se subjugavam, falhou a quadratura do círculo com a sua utopia idealista. Marx, sendo um materialista dialético muito próximo dos deístas, crentes no Grande Arquiteto do Mundo que depois da obra feita retirou-se para ir jogar aos dados, via a história como uma força objetiva movida pelas condições materiais e pelas contradições internas das relações de produção. Para ele, a história seguia leis deterministas, com a economia como motor central da mudança social. Os seres humanos, na visão de Marx, estavam sujeitos às forças históricas que, inevitavelmente, os conduziriam do feudalismo ao capitalismo e, eventualmente, ao socialismo e comunismo. No entanto, essa crença na "inevitabilidade" do progresso histórico é uma das maiores falhas que os seus críticos lhe apontam.

Marx subestimou a complexidade do comportamento humano e as variáveis políticas e culturais que interferem nos processos históricos. A ideia de que a história seria uma "máquina" implacável que levaria à emancipação dos trabalhadores, por meio da luta de classes, falha em reconhecer que os seres humanos não são meramente passivos diante de forças económicas. As escolhas individuais, a moralidade, a cultura e as ideologias desempenham papéis cruciais na forma como as sociedades evoluem, e isso complicou a visão mecanicista de Marx. A "quadratura do círculo" que Marx tentou alcançar com a sua utopia idealista falhou, em grande parte, porque sua visão de um comunismo inevitável ignorava as questões práticas e institucionais. Embora Marx tenha sido implacável em sua crítica ao capitalismo, ele ofereceu poucas soluções concretas acerca de como se fazia a transição para o socialismo. Essa falha foi evidente nas tentativas do século XX de implementar o marxismo, como na União Soviética, onde as contradições internas dos regimes marxistas/leninistas levaram a novas formas de opressão, em vez da emancipação humana.

Além disso, ao descartar a religião como um "ópio do povo" e relegar as questões espirituais para o lixo, Marx subestimou o papel que a fé e as crenças não materialistas desempenham na vida humana e na motivação de ações coletivas. Sua confiança na "necessidade histórica" de que o socialismo triunfaria pode ser vista, em retrospectiva, como uma forma de idealismo secular, onde a história assume um papel quase divino de determinar o destino humano, sem levar em conta as incertezas e contingências do processo histórico. Portanto, a utopia marxista, embora poderosa como crítica do capitalismo, falhou na sua execução porque tratou a história como um processo mecânico e subestimou o papel da agência humana, da política e da cultura na formação das sociedades. O resultado foi uma teoria com profundas implicações analíticas, mas limitada em sua capacidade de oferecer uma alternativa viável para além da crítica.

O que foi curioso foi alguém ter decretado o fim da História com o fim da União Soviética, ainda que a expressão já tenha sido utilizada por Hegel. A ideia do "fim da História" proclamada por Francis Fukuyama após o colapso da União Soviética foi também um anúncio de uma morte manifestamente exagerada. O Fim da História e o Último Homem (1992), argumentava que o fim da Guerra Fria e o colapso do comunismo marcaram o triunfo final da Democracia Liberal e do capitalismo de mercado, considerados a forma política e económica definitiva para a humanidade. Ele via esse momento como o ponto culminante de uma evolução histórica, sugerindo que não haveria mais alternativas sistémicas para substituir o liberalismo democrático.

No entanto, a expressão "fim da História" tem suas raízes no pensamento de Hegel. Para Hegel, a História era um processo teleológico, ou seja, movido por um propósito final: a realização da liberdade humana e da autoconsciência plena, manifestada no Estado racional. Hegel via o desenvolvimento histórico como a manifestação progressiva do Espírito Absoluto, culminando no Estado prussiano do século XIX, que ele acreditava ser a realização concreta dessa liberdade racional. Embora Hegel não visse literalmente o fim dos eventos ou da mudança, ele acreditava que a humanidade havia alcançado um estágio de desenvolvimento onde a liberdade e a racionalidade estavam plenamente realizadas, em um sentido filosófico.

Fukuyama reinterpretou essa ideia no contexto do fim da Guerra Fria, sugerindo que, com a queda do comunismo, não haveria mais disputas ideológicas ou económicas fundamentais sobre o tipo de sistema político e económico a ser adotado globalmente. Isso, para ele, seria o "fim da História" no sentido hegeliano: o triunfo final de um modelo que seria aceite como universal. Contudo, rapidamente se verificou que Fukuyama estava a sonhar. Embora o fim da União Soviética tenha, de facto, colocada uma pesada pedra no túmulo do comunismo, a História continua na sua longa marcha a caminho do infinito. A China, a Rússia, o Sul Global, as crises climáticas, estão a dizer que a História está longe de terminar. Assim, a ideia do "fim da História" pode ter capturado o espírito otimista de uma época, mas revelou, mais uma vez, quão limitada é a nossa cabeça pensadora acerca da humanidade e do mundo. 


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