quinta-feira, 25 de março de 2021

À carga! Os Paladinos




«Os vários movimentos que usam o termo “pela verdade” são, sem qualquer dúvida, negacionistas. O “pela verdade” faz parte da nada inocente novinlíngua da desinformação. Aquela manifestação nasce da arrogância da ignorância, que se julga sempre mais sabedora do que todos os outros, incluindo os que produzem prova científica depois de uma vida dedicada ao estudo de vírus, de epidemias e de doenças respiratórias. Com as redes sociais, o tempo parece ter andado para trás na relação de muitos com a ciência.» [Daniel Oliveira]

Os Paladinos originais foram os 12 pares de Carlos Magno, que aparecem na Canção de Rolando evocando a Batalha de Roncesvalles. Também podem ser considerados Paladinos os lendários Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, das lendas célticas. Paladino também é um tipo de personagem da ficção muito conhecido em épocas medievais, nas quais ele dispunha de poder sagrado e cujo lema era proteger os fracos, seguir a ordem e levar luz onde houvesse escuridão. Um Paladino é um herói cavalheiresco, errante e destemido, de carater inquestionável, que segue sempre o caminho da verdade, da lei e da ordem. O Paladino, cheio de bondade e justiça, viaja por entre os lugares mais obscuros do mundo, pronto para dar a sua vida a fim de proteger os fracos e/ou seus companheiros, e acabar com a escuridão trazendo a luz e esperança para os corações dos que estão ao lado dessa figura resplandecente.

Carga, aqui, tem um sentido polifónico, ou duplo. Podia ser “carga policial sobre os manifestantes”. Mas também pode ser “carga” (charge) no sentido da palavra francesa “charge” – uma ilustração de algo burlesco. Mais do que um simples desenho, charge é uma crítica político-social onde o artista expressa graficamente a sua visão sobre determinadas situações quotidianas através do humor e da sátira. Para entender uma charge, não é preciso ser necessariamente uma pessoa culta, basta estar a par do que acontece. A charge pode ter um alcance maior do que um editorial. Como desenho crítico, é temida pelas pessoas com poder. Grande parte das charges trabalham com a questão do exagero. As charges procuram expor situações ridículas, ou mostrar de forma não convencional temas normalmente tratados com maior seriedade. Uma charge nunca será autoexplicativa. Muitas charges dialogam com notícias e editoriais do próprio jornal em que foram publicadas. Essa interdisciplinaridade é utilizada de forma implícita, o que exige do leitor um conhecimento prévio dos discursos correntes para que possa entender a charge.



Os Paladin -  uma banda britânica de rock progressivo fundada em 1970. Eles atuavam ao vivo por todo o Reino Unido, enquanto trabalhavam para desenvolver o seu som, tocando uma mistura de rock, blues, soul, jazz e música latina. Criaram um som único com o uso de teclados duplos. Essas performances foram notadas pela “Bronze Records" (que também gravou Uriah Heep e Manfred Mann). Em 8 de janeiro de 1971, Os Paladin entraram no Olympic Studios em Londres para gravar o seu primeiro álbum homónimo, produzido por Philamore Lincoln. As críticas foram boas, mas as vendas foram dececionantes. Em 1972 lançaram o álbum “Paladin’s Charge!”, sendo Geoff Emerick o produtor, engenheiro do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.

Lado 2 - 2. "Mix Your Mind With The Moonbeams" - (Solley) - 6:00

Mix your mind with the moonbeams
Watch your sorrows in their rays
Let the cosmic light diffuse itself
In all its magic ways
Spread your mind from the moonbeams
To the distant skies beyond
Let the universe explain to you
You're just a ripple on the pond
And when you feel you're near the end
Then you reach out for a friend
You got to know where to go
You musn't impede the flow
It's there for you to show


quarta-feira, 24 de março de 2021

Frases – separando o essencial do acessório




De Magdalena Andersson, social-democrata, Ministra das Finanças da Suécia, acerca da isenção de impostos dos suecos reformados que vivem em Portugal:
 
“Se um paciente sueco e um paciente português estiveram lado a lado num hospital em Portugal, o português pagou impostos pelos dois. Muito interessante observar a forma como os cidadãos comuns em Portugal aceitam isto”.

De Henrique Monteiro:
Isto o quê? “A possibilidade de os mais ricos pagarem zero ou 10%, enquanto os cidadãos comuns pagam muito mais, uma injustiça que mina a credibilidade do sistema fiscal. Portugal é um enorme ‘offshore’ para reformados ricos. Gente que vem da Europa, com boas pensões, que pode comprar boas casas e que não é taxada, ou é-o em apenas 10% dos seus rendimentos de pensionista. Apesar dessas pensões atingirem valores que em Portugal teriam, de imposto, pelo menos 45%, e nos seus países de origem, tanto ou mais do que por cá. De facto, é impressionante como aceitamos esta desigualdade gigantesca. E dá-nos vontade de perguntar por onde anda o PCP, o Bloco e os restantes caça-desigualdades. O negócio para o nosso país é fantástico: se eles não viessem para Portugal também não pagariam nada às nossas finanças. Vivendo cá, pelo menos boa parte do ano, deixam o IVA e a miríade de taxas e taxinhas que vêm agarradas às transações mais diversas. É igualmente um bom negócio para um pensionista que aufira 10 mil euros. Na Suécia deixaria mais de cinco mil nos cofres do Estado. Aqui, não deixa nada, ou segundo legislação mais recente, deixa mil. A diferença (e tendo em conta o custo de vida mais baixo, o clima e a consequente qualidade de vida) provoca uma tentação óbvia.

De Daniel Oliveira:
"A cegueira perante regras erradas ou pouco claras poupa dinheiro ao Estado na relação com os pequenos, tira dinheiro ao Estado na relação com os grandes. O que o Estado perderia com o “planeamento fiscal” no negócio das barragens daria para salvar 12.500 restaurantes familiares, como o da ex-desempregada que não teve apoios por critérios objetivamente errados. O labirinto do burocrata serve para que o grande seja criativo e o pequeno seja tramado. O formalismo cego é a injustiça mascarada de rigor."

De Sérgio Sousa Pinto, numa entrevista a Maria João Avilez:

 


 

"Vivemos um período marcado por duas narrativas alternativas: uma diz-nos que o regime está esgotado, sem capacidade de se reconstituir, não se vislumbrando ninguém à altura de o fazer. Seria então preciso passar a outra coisa qualquer. O novo partido Chega, juntamente com um populismo torrencial, vive da revolta de muita gente que perdeu a fé no regime e no atual sistema de partidos; a outra narrativa diz-nos que o grande problema de Portugal consiste na direita! Ou seja, que derrotar a direita e resolver os problemas nacionais é, afinal, a mesma coisa. O que está por detrás disto é um quadro mental quase de tipo religioso, profundamente maniqueísta, em que o tal 'lado certo da história' — expressão pavorosa —, apropriado pela esquerda, defrontaria a reação, a inimiga da verdade, do bem e da virtude; o 'lado certo da História' consiste, portanto, na concertação entre as esquerdas e contra o quê? Não contra o atraso, as desigualdades, a pouca produtividade, a pobreza endémica — as nossas reais misérias — mas contra a direita, padroeira de todas as desgraças.

Ou mudamos ou acabaremos uma Suécia fiscal implantada numa Albânia económica. A classe média já exporta os filhos licenciados para fora. Um dia esses filhos enviarão remessas para financiar a velhice dos pais. O colapso da classe média significará a inviabilidade do país e do nosso regime democrático. Chega de propaganda, chega de atirar palavras contra a realidade. A realidade vence sempre.

Mário Soares era um homem do seu tempo. E na geração dele os populares eram os populares. Às vezes fazia-me lembrar o Clement Attlee quando andava de casa em casa pela Inglaterra a falar aos militantes do Labour e deixava os sapatinhos à porta, alguém havia de os engraxar porque naquele meio social era o que se fazia. Soares tinha essas marcas, mas, ao mesmo tempo, tinha essa familiaridade com o povo, apreciava-a verdadeiramente e divertia-se com ela. Aquilo não era fingido, nem um número penoso para bater todos os recordes da popularidade. Fazia as campanhas eleitorais com felicidade e enorme empenho, sabia como lhe eram indispensáveis à perceção da realidade. Nunca eram um ato gratuito. Eram uma condição sine qua non para que as transformações que considerava desejáveis pudessem vir a ocorrer. O que vemos agora são episódios: o Presidente da República a cortar o cabelo, a ir buscar uns bifes num saco de plástico... No fundo, é a continuação da cultura que Guterres tentou instaurar, só que agora nos surge de uma forma desabrida e descontrolada: Guterres inventou a teoria da dessacralização do poder e Marcelo — muito parecido com Guterres, no modo de pensar e na sua mundividência — elevou a dessacralização do poder a este extremo. Começou com Guterres a dizer que preferia ficar parado no trânsito sem batedores. E, então, primeiro tiraram-se os batedores, depois o carro oficial e por fim vai-se ali comprar uns pastéis de bacalhau."


De António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas: 

"Teorias de conspiração estão a infetar a internet. O ódio tornou-se viral, estigmatizando pessoas e grupos. O mundo tem de se unir também contra esta doença. Excesso de informação sobre determinado tema, por vezes incorreta e produzida por fontes não verificadas ou pouco fiáveis, que se propaga velozmente (ex.: infodemia de notícias falsas nas redes sociais). A infodemia global está a espalhar-se". 


De David Marçal, especialista em comunicação de ciência: 

"O facto de acreditarem em mentiras torna-se numa dimensão identitária. As pessoas têm hoje um bilhete de entrada nesse clube restrito por acreditarem num disparate qualquer. Seja acreditarem que a terra é plana. Ou acreditarem que as máscaras não são úteis no combate ou na prevenção da Covid-19. Também tem a ver um pouco com a questão do efeito Dunning-Kruger. As pessoas são demasiado incompetentes para reconhecerem a sua própria incompetência. Nós tendemos sempre para eliminar a dissonância cognitiva. E, portanto, o que nós fazemos no caso de um enviesamento de confirmação é preencher tudo, vamos ao encontro e tentamos fazer o retrato que está de acordo com os retratos que já temos. Pensamos para tentar encontrar as provas que temos razão. É algo que todos fazemos. Mas quando estamos, emocionalmente, com um problema psicológico, estamos mais vulneráveis a fazer isso. Não acreditem na palavra de ninguém, porque é por aqui que entram os processos cognitivos que nos levam a acreditar e a disseminar Fake News. A sociedade científica mais antiga do mundo, a Royal Scociety, tem escrito em latim na porta o seu lema: 'Nullius in Verba'."

De David Dunning, psicólogo social: David Dunning desenvolveu em finais da década de 90 do século passado um estudo, acerca da confiança que as pessoas podem ter, o que sabem e o que não sabem, a ignorância que carregam quando pensam que sabem, mas não sabem. O que o efeito Dunning-Kruger mostra é que não sabemos o que não sabemos. A nossa ignorância é invisível para nós. Para quem sofre de ignorância, e somos todos nós em algum momento, e algumas pessoas mais vezes, sofrem de superioridade ilusória. Não conseguem reconhecer quando o seu conhecimento é inferior.

"Saber distinguir um verdadeiro perito de um falso perito também é uma aptidão. E à medida que avançamos na era da Internet, onde há tanta informação, esta vai ser uma aptidão chave que as pessoas devem aprofundar. saber separar um falso perito de um verdadeiro".
Por isso tem surgido a necessidade de se formarem grupos de jornalistas dedicados a esta temática infernal, a separar a verdade da mentira, a demonstrarem falácias. Tal como o 'Polígrafo SIC', são parte de um todo que tenta repor, a cada instante, a verdade. O contexto da pandemia da Covid-19 tem merecido a maior atenção, o que naturalmente se entende dadas as graves implicações que essas falsidades desempenham na saúde pública e estabilidade social. E depois os governos, e as organizações internacionais, também estão muito preocupadas com tudo o que se está passar com o fenómeno da pós-verdade. Por exemplo, um estudo levado a cabo pela Universidade de Bristol, em Inglaterra, refere que alguns pacientes com Covid-19 prolongada sentiram alívio dos sintomas após a toma da vacina. Mas isto é um dado muito duvidoso, porque os cientistas ainda não conseguem identificar se o fenómeno é realmente físico (biológico), ou apenas efeito placebo. De qualquer modo, se se concluir que se trata de efeito placebo, o que significa de sugestão psicológica, não deixa de ser um efeito positivo no que respeita ao bem-estar das pessoas do ponto de vista da saúde. E nesse caso, não faria sentido estar a desvirtuá-lo.

Repare-se nas implicações práticas do que se acabou de dizer, em defesa do princípio de separação entre o essencial e o acessório, ou a realidade tal como ela é, versus 'a ideologia'.  Porque para a ciência o que importa são as provas e os factos. Por isso não partilhe com ninguém o que outros colocam nos seus murais por mero sentimento. À medida que a pandemia avançou, disseminaram-se também nas redes fluxos de teorias, de mentiras, de falácias. Negacionistas e elementos de grupos anti-vacinas tornaram-se ativos na tentativa de colocar em causa os factos produzidos pela ciência. Vídeos, textos e fotografias foram usados com o objetivo de alimentar essas mesmas teorias. Supostos cientistas, médicos - alguns que perderam a licença para exercer, como é o caso do norte-americano Thomas Cowan, autor e médico antroposófico - especialistas e peritos juntaram-se em movimentos para erguer uma alegada verdade, sobre a doença, ou sobe as vacinas. Esses falsos especialistas, pseudocientistas, assentam na autoridade que têm: 'acreditem em mim que sou médico'.

A própria Comissão Europeia lançou um manual que tenta servir de guia, ou de farol, perante a escuridão que a mentira pode criar. Definiu as características que estas teorias têm em comum: um alegado plano secreto, um grupo de conspiradores, supostos elementos de prova que confirmam a teoria, falsas sugestões de que nada acontece por acaso e tudo está interligado, a divisão entre bons e maus e os bodes expiatórios.


terça-feira, 23 de março de 2021

Servidões




cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo
e tudo,
que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o traspassava pela metade das músicas
— e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas águas últimas
se misturavam com as águas primeiras



Herberto Helder morreu em Cascais a 23 de março de 2015. Nasceu em 1930 no Funchal. Estudou na terra natal até ao 5.º ano. Em 1948 matriculou-se em Direito, mas cedo abandonou esse curso para se inscrever em Filologia Românica, que frequentou durante três anos. Teve inúmeros trabalhos e colaborou em vários periódicos como A Briosa, Re-nhau-nhau, Búzio, Folhas de Poesia, Graal, Cadernos do Meio-dia, Pirâmide, Távola Redonda, Jornal de Letras e Artes. Em 1969 trabalhou como diretor literário da editorial Estampa. Viajou pela Bélgica, Holanda, Dinamarca e em 1971 partiu para África onde fez uma série de reportagens para a revista Notícias. Escreveu diversas obras em vários géneros, mas sempre com maior afeição pela poesia. Entre tantos títulos que poderia enumerar, deixo aqui os dois últimos: Servidões e Morte sem Mestre, 2013. Em 1994 foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa, que recusou. 

Observada pelo ângulo da continuidade com que desde sempre a poesia de Herberto Helder se deu a ler, A Morte sem Mestre corresponde, à partida, a um ponto extremo: o da forçada interrupção de um corpo pela brutal emergência do fim, a liquidação da sua biologia. O livro, ele mesmo, constitui como tal um lugar-limite que acolhe um pensamento-limite e sobre o limite, lugar e pensamento que tendem assim a um inevitável fora de cena, a um radical impudor que é também afirmação de um "impoder". Se o lermos sobre o traço do tempo, na extremidade 'ad quem' do itinerário orgânico da sua escrita, como etapa seguinte de um trajeto de irrevogável corrupção e ruína, provavelmente - e num sentido estritamente demoníaco -, A Morte sem Mestre não poderia deixar de ser o que é: mais do que esse objeto estranho que chocou a crítica, um objeto desastroso, 'exemplum' perfeitamente imperfeito de uma espécie de corpo-desastre que se apresenta como postergação (calculada?) do fulgor poético, assumindo essa «tarefa da poesia prostituída» segundo António Guerreiro, colocando-a sob a presumível égide de Sade ou de Bataille.

Neste caso, o poeta dedicou-se a condensar fragmentos do mundo em movimento primitivo e, para tal, deu a sua própria vida à linguagem. Hoje, diz-se e diz-nos: "filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas/ que escreveste contra tudo, pais e filhos,/ lugar e tempo, […] filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando dormem,/ essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas/ onde hás de ter o trabalho artesanal da morte".

Agora, o poeta está nu, no final da vida como no começo do mundo (ou na poesia da juventude) e por isso pede "que um qualquer erro de ortografia ou sentido/ seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro». Mais irónica, livre, fulgurante e moderna do que nunca, a metapoesia de Herberto Helder é a confissão magnífica de quem «queria fechar-se inteiro num poema/ lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena».

A Morte Sem Mestre é uma elegia, um lamento confessional, alimentado pela mensagem fúnebre dos poemas antigos, "tão fortes eram que sobreviveram à língua morta" e ainda vibram "entre os objetos técnicos no apartamento,/ rádio, TV, telemóvel,/ relógios de pulso". O poeta continua a cantar o presente das coisas mesmas, ainda em busca de uma luz de dentro, iluminando e despedaçando tudo. O acaso, o hermético, o concreto uniram-se após décadas de experiência da palavra, garimpando poesia como "um organismo internamente coerente e bastante". O que espanta é o arrojo, a vitalidade furiosa e orgânica deste livro, escrito aos 83 anos do poeta, e na sua melhor forma.




segunda-feira, 22 de março de 2021

O espanto em relação aos negacionistas da covid

 

O protesto que juntou mais de duas mil pessoas, começou por volta das 15:00 no Parque Eduardo VII. Os manifestantes desceram a Avenida da Liberdade em direção à Praça do Rossio, em Lisboa. Na sua maioria negacionistas, reclamam a posição das autoridades e dos meios de comunicação social perante a pandemia. A maioria dos mais de dois mil que saíram à rua na capital apresentou-se sem máscara e pareceu ignorar o distanciamento social. Perante as advertências das autoridades alguns contestaram, mas muitos acabaram por dispersar.

As crenças das pessoas assentam em conteúdos proposicionais. Qualquer crença tem de ter um conteúdo proposicional. Qualquer crença pode ser considerada verdadeira ou falsa. E qualquer crença pode ser justificada ou injustificada, racional ou irracional. Ora, como é possível, que por esta Europa venham para a rua pessoas provocar distúrbios porque não acreditam que o SARS-CoV-2, o vírus causador desta pandemia, e que os obriga a ficar em casa, exista? A crença dessas pessoas é falsa, injustificada e irracional. Mas é um facto que essas pessoas existem.

Um conteúdo proposicional é construído a partir de conceitos. Teríamos de admitir que essas pessoas são incompetentes no manejo conceptual acerca de vírus e pandemias. Mas será isto suficiente para justificar essa "bacorada", ou será que tem de haver mais alguma coisa, como certo tipo de "lavagens maliciosas ao cérebro" das pessoas mais ignorantes e mais vulneráveis, por parte de gente mal-formada com agendas perniciosas?

Em Kassel, uma cidade no centro da Alemanha, vários milhares de manifestantes reuniram-se numa praça, sem distanciamento físico e sem máscara, tendo um grupo tentado forçar a passagem através de um cordão policial o que levou as autoridades a dispersá-los usando gás pimenta. Alguns manifestantes mostravam cartazes onde se lia "fim do confinamento" e "rebeldes do corona". O protesto foi convocado pelo movimento "Querdenker" ou "Anti-conformista", que organizou algumas das maiores manifestações "anti-corona" (contra as restrições impostas para combater a covid-19) na Alemanha desde o início da pandemia. O movimento reúne membros da extrema-esquerda, seguidores de teorias da conspiração, críticos da vacinação, bem como partidários da extrema-direita. A incidência acumulada de covid-19 na Alemanha nos últimos sete dias voltou a subir e está próximo de 100 novos casos por 100.000 habitantes, nível que, a manter-se, implicará um passo atrás na reabertura da sociedade alemã.

Por outro lado, há pessoas que estão contaminadas pelo fenómeno da pós-verdade ou das verdades alternativas, que inserem na proposição da crença a cláusula "para mim". Assim, eles dizem: "para mim, a covid é uma invenção das farmacêuticas." É uma 'verdade alternativa', para elas. Isto só pode ocorrer no contexto de um grupo de seres humanos estarem organizados de uma maneira particular. Ou seja, pode haver razões 'não epistémicas' para certas crenças (que não importa a verdade da crença, mas apenas vantagens pragmáticas dessa crença). E é aqui que reside o problema das falsas crenças, em que as pessoas se agarram a razões pragmáticas, não epistémicas, para terem como verdadeiras crenças estapafúrdias.

Seja como for que essas pessoas construam a racionalidade das suas crenças, elas acham, por exemplo, que têm boas razões para acreditar, por exemplo, que a Terra é plana, ainda que seja redonda como toda a gente sabe. E não são tão poucas assim as pessoas nos Estados Unidos que se batem pela tese da Terra plana. Os nossos antepassados pensavam que sabiam que a Terra era plana, e tinham essa crença como conhecimento. Mas estavam errados. É caso para dizer que os atuais crentes da Terra plana deitaram às urtigas o conceito de conhecimento, que tem de ser não apenas justificado, mas também verdadeiro.

Existe uma corrente de pensamento filosófico que defende a teoria da construção social do conhecimento. E não é a construção de 'coisas' que está aqui em causa, mas a construção de 'factos'. É um facto que 'um dólar' vale Xis euros e Y libras. E é um facto que uma peça de metal não é uma peça de metal, mas 'um euro'. O facto de um pedaço de papel ser 'um dólar' é um facto socialmente construído. Mas é um facto contingente. Poderia não ter existido se as necessidades e as circunstâncias tivessem sido outras.

Até aqui nenhum problema. Mas aquilo que disse Kant já nem todos os filósofos o acompanharam. E então o que disse Kant? Que o mundo tal como o vemos, uma parte é construída pela nossa mente. Mas também disse que não é à vontade do freguês. Pelo contrário, a nossa mente é obrigada a construir um mundo obedecendo a leis da natureza.

sábado, 20 de março de 2021

A invasão das profundezas humanas pelos processos automáticos




Quem usa um smartphone sabe certamente o que são apps. E sabe que está constantemente a ser solicitada por alertas escritos no seu telemóvel a fim de tomar uma decisão na personalização. As apps têm o propósito de facilitar o dia-a-dia à pessoa, fornecendo-lhe as mais diversas funcionalidades com infinitas possibilidades. As apps podem ser utilizadas em qualquer dispositivo móvel com a funcionalidade da localização. A consulta de mapas é o exemplo clássico para o interesse da localização, mas também pode servir para obter vales de descontos de lojas nas proximidades, ou para sugerir pontos de interesse para o viajante.

Uma das áreas em que as apps têm um enorme potencial é a área da saúde. Um exemplo recente foi a app da Stayaway Covid, que por acaso resultou num grande fiasco. 
Segundo a Siddiqui (2013), os dispositivos móveis podem ajudar na manutenção da saúde e prevenção da doença. As apps desenvolvidas para este efeito publicitam funcionalidades que ajudam a melhorar a acessibilidade a tratamentos bem como a rapidez e a exatidão dos exames de diagnóstico. As apps possuem funcionalidades que aproximam pacientes e entidades prestadoras de cuidados. Ou podem ajudar em coisas tão simples como a adesão à terapêutica, lembrando, por exemplo, que a pessoa não se esqueça da toma de um medicamento.

Mas o que neste artigo me interessa mais explorar no tema das apps é o seu reverso da medalha no que concerne à privacidade das pessoas, e o que está escondido das pessoas que as utilizam e desconhecem completamente. Estamos a falar de inteligência automática e os especialistas têm jargões próprios para falar desse lado sombra das apps. A invasão da privacidade por parte de um autodenominado "assistente pessoal digital", é um deles. Qual Cavalo de Tróia a assaltar o nosso interior psíquico. Em 2016, Satya Nadella, CEO da Microsoft, na conferência anual Ignite da empresa, apresentou o seu assistente pessoal digital - Cortana - dizendo que ele conhece-nos profundamente, seja através de entradas de texto, seja de fala. Não tem limites de conhecimento, seja a nosso respeito, seja a respeito do mundo. Cuida de nós, acompanha-nos para toda a parte.

A Cortana é um assistente pessoal digital desenvolvido pela Microsoft que usa o mecanismo de busca Bing para executar tarefas, definir lembretes, e responder a perguntas do utilizador. Depois a Microsoft passou a reduzir a presença da Cortana à frente do utilizador e converteu-o em assistente de diferentes integrações de software em 2019. Ele foi retirado da barra de pesquisa do Windows 10, em abril de 2019, e foi removido do iOS e Android em certos mercados, em 31 de janeiro do ano seguinte. A Microsoft integrou a Cortana no browser Microsoft Edge, instalado com o Windows 10. A Microsoft anunciou no final de abril de 2016 que bloquearia qualquer motor de busca que não fosse o Bing, o que levantou logo grande celeuma porque se tratava de uma prática que feria as regras da concorrência. 
Enfim, a Cortana pode reconhecer a voz natural sem a necessidade de entrada do teclado e responder a perguntas feitas pela busca do Bing: trânsito, meteorologia, desporto, bolsa, etc. Assim, com o Windows 10 o Microsoft Bing e todos os links seriam abertos com o Microsoft Edge. Mas o fito da Cortana é indexar e armazenar informações acerca dos utilizadores. Desligar a Cortana, por si só, não excluiria os dados do utilizador armazenados nos servidores da Microsoft. No Menu Iniciar do meu computador com o Windows 10 home aparece o Cortana. No entanto, ao clicar nele, aparece uma janela a dizer: "A Cortana não está disponível na sua região". Mas isto é a gozar connosco, porque esta personalização é uma forma de individualizar as operações que abastecem as bases de dados por forma a garantir um fluxo contínuo de informação acerca do nosso comportamento. 

Em 2017, o Facebook reduzira as suas ambições de inteligência automática para focar o assistente pessoal na missão fundamental: o comércio. Agora também há uma política de privacidade da TV, tal é a avidez de vigilância dos interesses comerciais que atuam nas nossas casas sem percebermos. Aleksandr Kogan, que também usou brevemente o nome de Dr. Specter, um cientista de dados americano nascido na Moldávia, ficou conhecido por ter desenvolvido a aplicação que permitiu à Cambridge Analytica recolher dados pessoais de 80 milhões de utilizadores do Facebook. A aplicação de Kogan deu-lhe acesso aos perfis do Facebook sem que os próprios soubessem. Os dados foram vendidos à Cambridge Analytica. Quando o Facebook lhe perguntou sobre esta aplicação, Kogan jurou que a sua pesquisa se destinava a fins meramente académicos.

Em 2015, uma startup criada oito anos antes com o nome Realeyes, recebeu um subsídio de 3,6 milhões de euros da Comissão Europeia pelo projeto chamado SEWA (Sentiment Wild Automatic Analysis). O objetivo era desenvolver tecnologia automatizada para ler a emoção de uma pessoa ao ver um conteúdo, e depois determinar a relação com o seu apreço por esse conteúdo. Não tardou um prémio dos analistas de mercado, dado o interesse na publicidade. Ora, o SEWA usa um software especializado para vasculhar rostos, vozes, gestos, captados por sensores biométricos e microcâmaras. Captam os comportamentos mais subtis e profundos que escapam à mente humana. A mímica facial e as expressões corporais não verbais, que fogem ao controlo individual, que dá origem à fuga de informação da nossa subjetividade emocional, é capturada pelos algoritmos. Em 2016, Kaliouby, o CEO da empresa de pesquisa de mercado - Millward Brown, afirmou que o software de inteligência artificial roubava informação sobre as nossas emoções sem darmos conta disso. E mais, possuía 4,8 milhões de vídeos faciais provenientes de 75 países a partir de visualizações online. Kaliouby imagina que o rastreio emocional disseminado acabará por ser tão garantido como um cookie plantado no nosso computador e que rastreia a navegação online. Antevê que o YouTube conseguirá rastrear as emoções de quem assiste aos vídeos.

Moral da história, estamos na era da computação ubíqua, a era dos sensores espalhados por todo o lado. Entramos em mais uma transição de fase, que é semelhante ao que aconteceu nos finais dos anos de 1990 com a entrada em cena da internet. Ainda me lembro da minha excitação com o Navigator da Netscape quando adquiri o primeiro modem e abri uma conta de e-mail na Telepac, e a minha página pessoal no TerraVista. O Sapo veio depois. Estávamos em 1994, e os meus amigos diziam que eu era maluco com a extravagância da internet. E não era para menos, pois é difícil manter a sanidade mental quando tudo à nossa volta enlouquece.

Os governos europeus arrastados pela chamada "transição digital" estão a fazer um esforço no sentido de não ficarem para trás. O Orçamento de Estado Português para 2021 inclui medidas enquadradas no plano de recuperação económica de Portugal 2020-2030 e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) dividido em três áreas principais: resiliência; transição climática; transição digital. A transição digital dispõe de um orçamento é de 3 mil milhões de euros, num total de 13 milhões.

Shoshana Zuboff, professora emérita da Harvard Business School, que se interessa pelo efeito social das novas tecnologias, com uma vasta obra publicada, no seu ultimo livro "A Era do Capitalismo da Vigilância", dedicado ao modo como os utilizadores deixaram de ser simples clientes para passar a ser a matéria-prima de um novo sistema industrial, considera a revolução digital em curso a maldição deste século - a automação do eu entregue ao Grande Outro de bandeja, como condição necessária da automação da sociedade, tudo em prol de resultados garantidos para o Grande Outro. Numa retoma da perspetiva comportamentalista de cunho 'skinneriano', o Grande Outro 'googliano' e 'facebookiano' marca golos com a sua esperteza instrumental digital, ao transformar o 'famigerado mercado' num projeto de certeza total, à custa do excedente comportamental dos habitantes das redes sociais. É neste contexto que o chamado 'capitalismo da vigilância googliano e facebookiano' é capaz de instrumentalizar e controlar a experiência humana, e moldar o seu comportamento com fins lucrativos.

Todos os séculos têm a sua maldição, e esta é a 'maldição deste século': os utilizadores das plataformas das redes sociais a serem vistos por parte do Grande Outro Capitalista como meros organismos animais, à moda de Skinner, que servem as novas leis do capital impostas sobre todos os comportamentos de forma total. Uma nova forma de totalitarismo, portanto.

Hannah Arendt, que escreveu um tratado magistral - "As Origens do Totalitarismo" - previu o potencial destrutivo do behaviorismo de Skinner, quando lamentava a degenerescência do nosso conceito de pensamento, quando este é transferido para instrumentos eletrónicos. Nas palavras de Arendt: "A última etapa da sociedade laboral, a sociedade dos funcionários, que eufemisticamente são colaboradores, impõe automatismo e abdicação da vida individual. Um deixar-se ir ao abandono da sua individualidade entorpecida, num términos letal da história humana."

Até agora temos estado a falar em termos ocidentais. Mas falemos agora segundo os termos da China. Usando os mesmos instrumentos, o governo chinês desenvolveu um sistema de "crédito social" abrangente, que parece ser uma cópia do "1974" de George Orwell. O sistema classifica os comportamentos como bons e maus, visando a automatização da sociedade através da afinação, condução e condicionamento das pessoas, para que produzam comportamentos previamente escolhidos pelo Comité Central, considerados os mais desejáveis, e, portanto, capazes de evitar a instabilidade.

Tal como escreve a jornalista Amy Hawkins, num artigo para a revista Foreign Policy, ao invés de promover o regresso orgânico da moralidade tradicional para reduzir o abismo da desconfiança, o governo chinês preferiu investir a sua energia nas soluções tecnológicas, E é acolhido por um público farto de não saber em quem pode confiar, visto que não tem outra alternativa. O objetivo do governo chinês é tomar conta do controlo do sistema de algoritmos, e assim acabar com uma sociedade dissoluta com eficácia, mas sem grande esforço, uma vez que isso é feito automaticamente através dos dados trabalhados por esses algoritmos. Os algoritmos são uma espécie de "texto-sombra", mantido fora do alcance dos cidadãos, obrigando-os a adivinhar as melhores formas de aumentarem a pontuação do tal bom comportamento. Esta estratégia de adivinhação do "politicamente correto imposto de cima para baixo", por parte do cidadão, implica, por exemplo, cada um desfazer-se de amigos com baixa pontuação, e fazer outras amizades com pontuações elevadas, as quais, acreditam, a melhor forma de conseguir aumentar a pontuação. Por outro lado, quem estiver na lista negra, temendo que os amigos descubram e os risquem das suas listas de amigos, terão de fazer alguma coisa para não baixar a pontuação. Isto porque, é de forma dissimulada que cada um é riscado da lista de contactos dos outros. Tudo isto feito pelo algoritmo: a pontuação dos "mal-comportados" a cair a pique.

Ninguém sabe onde isto nos pode levar. Para já há muitos especialistas que acreditam que um sistema deste género, para 1,5 mil milhões de pessoas, com esta escala e com esse nível de complexidade, será difícil ou mesmo impossível de alcançar. É sabido que a cultura chinesa lida com a privacidade de uma maneira muito diferente da cultura ocidental. E habituaram-se a ter a sua vida escrutinada e guardada numa ficha, à qual não têm acesso desde os tempos de Mao Tsé-Tung.


quinta-feira, 18 de março de 2021

Intrigalhada kremliniana. De Brejnev a Gorbachev



Gorbachev com Reagan

O dia 10 de março de 1985 foi um domingo, mas Gorbachev, 54 anos [Mikhail Sergeevitch Gorbachev – Stavropol, 2 de março de 1931 - 90 anos ], Só voltou a casa do trabalho ao fim da tarde. Pouco depois, o médico Yevgeniy Chazov, 55 anos 
[1929 - 91 anos], Ministro da Saúde [1987-1990], telefonou-lhe para o informar que Chernenko morrera pelas 19:20.
Konstantin Chernenko, 73 anos [1911-1985] – sucedeu a Yuri Andropov como Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética [1984-1985] cujo sucessor foi Mikhail Gorbachev; sucedeu a Yuri Andropov como Presidente da União Soviética [1984-1985] cujo sucessor foi Andrei Gromiko; e chefe do Politburo da União Soviética [1971-1984].

Chazov também informara outros superiores: o primeiro-ministro Tikhonov; o ministro dos negócios estrangeiros Gromyko; o chefe do departamento geral do Comité Central 
Klavdy Bogoyubov. E marcou uma reunião de emergência do Politburo para as dez horas dessa noite.

Gorbachev tinha a certeza de que seriam vários os colegas do Politburo com esperança de vir a suceder a Chernenko. Além de Grishin, 71 anos, e de Grgory Romanov, 62 anos, imaginou que Tikhonov, 80 anos, provavelmente também estaria interessado na sucessão, e que o profundamente vaidoso Gromyko, 76 anos, sofria de um irreprimível desejo pelo poder. Gromyko não considerava Gorbachev um estadista “sério”, pelo que se juntara a Grishin e a Tikhonov, numa tentativa de o afastar da direção das reuniões do Politburo durante a doença de Chernenko. Mas a sucessão acabou por ser tranquila. Os outros adversários não só se submeteram a Gorbachev, como começaram a adular o novo líder que teria o destino de todos eles nas mãos.


Brejnev com Nixon

Até 1962, aproximadamente, o posto de Khrushchev na liderança soviética permaneceu sólido, mas em vista da derrota na crise dos mísseis, políticas demasiado liberais e diversos comentários inoportunos, os membros do partido começam a se preocupar com o futuro do país. Para piorar a situação, a economia estava de rastos, um descalabro, o que aumentou ainda mais a pressão. Aparentemente, Brejnev, 57 anos [Leonid Ilitch Brejnev 1906-1982] tinha-se mantido leal a Khrushchev. Mas em 1963 viu-se implicado numa conspiração iniciada pelo arménio Anastas Mikoyan, cujo objetivo era depor Khrushchev. Neste ano, sucede a Frol Kozlov na liderança do Comité Central, e passa a ser, por esse posto, o sucessor oficial de Khrushchev. 

Em 14 de outubro de 1964, aproveitando as férias de Khrushchev, os conspiradores executaram o seu golpe de estado e o retiram do poder, instituindo um triunvirato, cuja versão soviética seria denominada troika. Brejnev passa a Secretário Geral do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética [1964-1982], que é o líder máximo do Partido Comunista da União Soviética; Alexey Kosygin no lugar de Primeiro-Ministro; e o chefe de estado ou Presidente da União Soviética passa a ser Anastas Mikoyan [1895-1978], que depois é substituído por Nikolai Podgorny [1903-1983]- [entre 9 de dezembro de 1965 e 16 de junho de 1977]. Sucede-lhe Brejnev [1977-1982]

No final de 1978, ano em que Gorbachev foi para Moscovo e passou a fazer parte do Comité Central, uma central de vapor que fornecia calor a vários distritos de Moscovo falhou. Quando milhares de residentes recorreram a aquecedores elétricos, o excesso de consumo rebentou uma central elétrica, pelo que foram muitas as pessoas que receberam o Ano Novo em casas de banho à luz das velas, aquecidas por água quente. Ao mesmo tempo, Brejnev, obviamente enfermo, condecorava colegas idosos do Kremlin que mal se conseguiam mexer. Shakhnazarov, um funcionário de topo do Comité Central, foi despromovido por escrever ficção científica com implicações heréticas, por traduzir em privado o 1984 de George Orwell, e por apoiar Vladimir Vysotsky, cujas canções Andropov havia cantado uma ocasião à fogueira em Kislovodsk, num encontro de férias com Gorbachev.

Entre a chegada de Gorbachev a Moscovo e a morte de Brejnev, seis elementos governavam o país: Brejnev [19/12/1906 - 10/11//1982]; Suslov [21/11/1902 - 25/01/1982]; Gromyko [18/07/1909 - 02/07/1989]; Andropov [15/06/1914 - 09/02/1984]; Dmitry Ustinov [30/10/1908 - 20/12/1984]; Chernenko [24/09/1911 - 10/03/1985].

Gorbachev teve que aprender de imediato os meandros internos do Kremlin. Alexei Nikolayevich Kossygin [1904-1980], Primeiro-ministro entre 1964 e 1980, deu os parabéns a Gorbachev pela promoção. Mas Andropov fez questão de alertar Gorbachev que Alexei Nikolayevich o estava a cortejar, inclusivamente deixando-se discutir com ele na frente de Brejnev, que este num dos seus dias bons saiu em defesa de Gorbachev. Certo dia, quando Brejnev adormeceu a meio de uma reunião, outros membros agiram como se nada se passasse. Gorbachev consternado, queixou-se a Andropov. Mas este recordou-lhe que a estabilidade do partido, do país, e até do mundo, exigia que todos apoiassem Leonid Ilitch. As reuniões do Politburo decorriam à volta de uma mesa muito comprida, com Brejnev no topo, e Gorbachev na outra extremidade, cuja pasta era a da Agricultura. A mesa era tão comprida e a dicção de Brejnev tão arrastada, que Gorbachev mal distinguia o que ele estava a dizer. À direita de Brejnev sentava-se Suslov, e à esquerda Kosygin até ser substituído enquanto Primeiro-ministro por Nikolai Tikhonov. A Agricultura costumava ser o cemitério político do responsável. Não havia liberalização do processo de decisão nos níveis mais baixos, nem liberdade de escolha para as quintas coletivas e estatais. Tudo chegava prescrito do topo. Em 1981, Gorbachev, apesar de o seu gabinete ser um espaço muito pequeno, de teto baixo e venezianas, onde o ar cheirava à carpete sintética, começou lentamente a alargar o seu portefólio além da Agricultura, pese embora o facto de ter sido alertado que tal iniciativa levaria a desconfiança no Politburo.

Em julho de 1982, durante um um dos seus poucos momentos de lucidez, Brejnev pressionou Andropov a assumir o poder, telefonando-lhe a dizer que o ia transferir do KGB para o aparelho do Comité Central, à frente do Secretariado. Quando os secretários do Comité Central se reuniram para uma sessão formal, Andropov declarou subitamente: "Está na altura de começar" e pegou na cadeira. Ao ver Andropov lá sentado, Chernenko pareceu desabar, desaparecendo no fundo do seu cadeirão. Tinha acontecido uma espécie de "golpe-de-estado" debaixo do nariz de todos os presentes. Quando finalmente Brejnev morreu a 10 de novembro de 1982, Andropov já tinha todo o caminho desbravado. Substituiu o Primeiro-ministro Tikhonov por Gorbachev, despedindo outros preferidos de Brejnev por liberais como Gorbachev. A ideia de Andropov de reforma económica era visar preguiçosos e falsos doentes, levar a polícia a deter quem estivesse em lojas, banhos públicos e salões de beleza, quando deveria estar a trabalhar. Perto do final de 1982, Andropov disse a Gorbachev: "Mikhail, não se limite à agricultura. Tente envolver-se em todas as áreas da política. Aja sempre como se um dia vier a ter nas mãos a responsabilidade total. Estou a falar a sério".

Em maio de 1983 Gorbachev esteve de visita de uma semana ao Canadá. E o embaixador soviético no Canadá era Aleksandr Yakovlev, um homem que em breve se tornaria um colaborador chave no projeto prestroika de Gorbachev. Yakovlev assistiu ao discurso secreto de Khrushchev em 1956, que lhe "arrepiou o cérebro", com a sua exposição a poetas liberais durante o degelo a abrir-lhe um "mundo novo e belo". Mas também Yakovlev mantinha uma consciência dupla, ainda um escravo de uma representação tortuosa, mas tentando não se perder na imundície. O Canadá proporcionou a Yakovlev uma visão próxima e demorada do capitalismo democrático, além de bastante tempo para pensar nas lições que poderia dar à URSS. Em julho de 1983, Gorbachev convocou Yakovlev de volta a Moscovo para dirigir o Instituto para a Economia Mundial e para as Relações Internacionais da Academia de Ciências. Gorbachev estava a preparar-se para o futuro, mas ele ocultava-o cuidadosamente. Os elementos do seu círculo interno sabiam que esse tema era tabu.

Tatyana Zaslavskaya, Yegor Ligachev e Nikolai Ryzhkov são outros nomes importantes nesta rampa de lançamento de Gorbachev antes de tomar as rédeas definitivas do poder. Depois de 26 de dezembro de 1983, assumir o controlo do departamento do Comité Central, e começar a trocar os oficiais geriátricos do partido por aspirantes a reformistas, Ligachev e Gorbachev tornaram-se ainda mais chegados. Mas trocavam apenas palavras isoladas e mensagens escritas, uma vez que partiam do princípio de que tinham os gabinetes sob escuta. Nikolai Ryzhkov, apenas dois anos mais velho do que Gorbachev, engenheiro de formação, partilhava a opinião de Gorbachev de que o sistema estava apodrecido. Em 1983, quando Andropov o nomeou chefe chefe do novo departamento económico, Ryzhkov já reparara nos esforços vigorosos e determinados de Gorbachev para alargar os seus interesses além da agricultura, e também como os líderes superiores, com ciúmes dos seus privilégios, o tentaram fazer desaparecer. Ryzhkov acabaria por romper com Gorbachev.

Entretanto a saúde de Andropov deteriorara-se, a sua insuficiência renal precisava de diálise. A última sessão do politburo a que assistiu teve lugar a 1 de setembro de 1983. Para a sessão de dezembro escreveu um texto dizendo que durante a sua ausência forçada fosse Gorbachev a conduzir as sessões. Mas Chernenko e Tikhonov (primeiro-ministro), numa manobra de golpe de teatro, conseguiram dar a volta de modo a ser Chernenko (Kostya) e não Misha (Gorbachev). Andropov viria a morrer a 9 de fevereiro de 1984. Chernenko sucedeu a Andropov. Gorbachev afinal, não teve que esperar muito, pois Chernenko viria a morrer a 10 de março do ano seguinte. E foi melhor assim, porque quando chegou a hora da eleição de um novo secretário-geral, o nome de Gorbachev já era incontornável.

Chernenko estava de tal modo doente que por vezes tinha de ser levado em braços para a sala de reuniões do Politburo antes de os colegas serem convidados a entrar. E no último momento acabava por ser Gobarchev a presidir às sessões. E Tikhonov continuava a tentar virar Ligachev contra ele. Mas Gorbachev, para além do vigor da idade que contratava com a decrepitude dos outros líderes, era muito erudito e transbordava de simpatia com o seu sorriso. Gorbachev queria associar-se a pessoas novas que fossem capazes de pensar pela sua própria cabeça. E queria que a União Soviética se abrisse ao mundo, e provar que ao visitar a Itália e a Grã-Bretanha, podia ainda provar que estava à altura dos líderes estrangeiros. 

A ocasião para a viagem a Itália surgiu com o funeral de Enrico Berlinguer, o líder do partido comunista italiano que era muito crítico dos soviéticos desde a invasão da Checoslováquia e depois do Afeganistão. Inicialmente o Politburo não queria enviar Gorbachev devido às suas "tendências democráticas", que entretanto mudou de ideias devido à sua facilidade em falar com os italianos sem ser agressivo. Gorbachev leu Antonio Gramsci, o filósofo marxista italiano. Mikhail e Raisa Gorbachev viajaram depois até londres a 15 de dezembro de 1984. Com a nova guerra fria em curso, a primeira-ministra Margaret Thatcher procurava aproximar-se dos líderes comunistas, e Gorbachev era a pessoa certa naquele momento histórico, depois de ter sido nomeado presidente do Comité de Negócios estrangeiros do governo soviético, ainda que fosse um posto honorífico que, regra geral, pertencia ao segundo-secretário do partido.

A 16 de dezembro, a senhora Thatcher, o marido Denis e ministros do gabinete e seus assessores aguaradavam os Gorbacheves no Grande Salão. Gorbachev entra no salão com um sorriso rasgado, animadíssimo. Thatcher recordou que que Raisa vestia um elegante traje de estilo ocidental que ela própria vestiria. Raisa Gorbachev era encantadora, educada, tão diferente das esposas dos líderes anteriores. Ela fez questão de confidenciar que queria que todos soubessem que não era mais uma daquelas esposas macambúzias de lenço na cabeça. Quanto ao diálogo que se estabeleceu entre os dois líderes políticos, isso é outra história enigmática. Thatcher concentrou-se no estilo de Gorbachev: "Ele sorria, ria-se, usava as mãos para enfatizar as palavras, modulava a voz, seguia um argumento até ao fim, e era um argumentador arguto. Não parecia, de todo, desconfortável, gostei dele".

Quando o líder do partido trabalhista Neil Kinnock o pressionou, em privado, quanto aos direitos humanos, sobretudo no caso do dissidente Natan Sharansky, que há sete anos estava numa prisão soviética, Gorbachev respondeu com um chorrilho de obscenidades e de ameaças contra "montes de esterco" e espiões como Sharanky, e era na prisão que ele iria ficar. Em 1986 Gorbachev iria dar ordens para o libertar numa troca de prisioneiros mais vasta. Enquanto os Gorbacheves estavam em Londres, Ustinov morreu em Moscovo, a 20 de dezembro. Gorbachev atalhou a viagem e regressou a casa. Nos dois meses e meio que se seguiram, a saúde de Chernenko agravou-se.

A prática estalinista de acelerar a morte do caruncho do soviete supremo da União Soviética desaparecera havia muito. Apenas se mantiveram umas escaramuças menores perpetradas pelos adversários de Gorbachev no Politburo que preferiam Grishin como sucessor de Chernenko. Mais do mesmo, setenta anos de idade, e uma carreira absolutamente apagada. A 7 de março de 1985, Chernenko terá perguntado a Gromyko: "Não acha que está na altura de me afastar?". A isso, o fleumático Gromyko respondeu: "Não há necessidade de apressar os acontecimentos, Konstantin Ustinovich". Três dias depois, Chernenko morria a 10 de março, e no dia 11 de março Grishin confirmou a desistência: "Não podemos nem vamos nomear alguém que não Mikhail Sergeevitch Gorbachev.

segunda-feira, 15 de março de 2021

«Suacelência minimizava-lhe os feitos dizendo: "Ora, esses colonos precisavam de um preto decorativo"»

 


Decorativo é a puta que o pariu.
Calma, Bartolomeu. Não vale a pena o alvoroço, o Administrador nem está aqui.
O que o gajo tem é inveja . . . Vou-lhe mostrar uma coisa, espere . . .
A custo, abre um gavetão no guarda-fatos. Um cheiro a naftalina se espalha quando ele retira uma bandeira verde às riscas brancas.
Suacelência pediu-me, de joelhos, esta bandeira.
De joelhos?
Pensava que era uma bandeira do Sporting.
E não é?
É da Companhia Colonial de Navegação. Do Sporting é ele, esse satanhoco do Administrador.

O Administrador fazia pouco das suas glórias marítimas. Quando Bartolomeu desembarcava do Infante D. Henrique, as pessoas olhavam-no como um herói que vencera horizontes. Não era por méritos próprios que o mecânico negro seguia no navio. Ele era tripulante apenas como instrumento de uma mentira: de que não havia racismo no Império Lusitano. Suacelência sofria de inconfessável inveja de um passado que não lhe abrira nenhuma porta. Pois vivia um presente em que, apesar da farda, ele não era porteiro de nada.

Saudades do colonialismo coisa nenhuma! Eu tenho saudade é de mim mesmo, saudade de Deolinda, minha filha . . . Diga-me uma coisa: você nunca chegou a conhecer minha filha Deolinda?
Nunca! mentiu o médico
Sabe, Doutor: eu que sou pai nem sempre a conheci. Essa vida do barco fez de mim uma ave de migrações trocadas. Já não sabia se estava indo, se estava vindo.
O médico arruma o estetoscópio e os restantes apetrechos que nem chegou a usar. No limiar da porta, o velho mecânico interrompe-lhe a saída.

A propósito, Doutor, afinal eu pago ou me apago?
Não entendo.
Falo de pagamento das consultas, das suas visitas. A minha mulher diz que o senhor tem sido pago. Eu não sei de nada...
O médico se atrapalha, finge olhar o corredor que conduz para a saída. Parece que chove lá fora. Para ele pelo menos, o mundo vai-se convertendo numa aquosa tela.
Mia Couto - Venenos de Deus, Remédios do Diabo, 2008

Do Chiúme à Baixa do Cassanje

 


O espectro de Salazar pairava sobre as calvas pias labaredazinhas de Espírito Santo corporativo, salvando-nos da ideia tenebrosa e deletéria do socialismo. A PIDE prosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de democracia, primeiro passo para o desaparecimento, nos bolsos ávidos de ardinas e marçanos, do faqueiro de cristofle. O cardeal Cerejeira, emoldurado, garantia, de um canto, a perpetuidade da Conferência de São Vicente de Paula, e, por inerência, dos pobres domesticados. O desenho que representava o povo em uivos de júbilo ateu em torno de uma guilhotina libertária fora definitivamente exilado para o sótão, entre bidés velhos e cadeiras coxas, que uma fresta poeirenta de sol aureolava do mistério que acentua as inutilidades abandonadas. De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de um navio cheio de tropas, para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida ao Governo que me possibilitava, grátis, uma tal metamorfose, compareceu em peso no cais, consentindo, num arroubo de fervor patriótico, ser acotovelada por uma multidão agitada e anónima semelhante à do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir, impotente, à sua própria morte.
[...]
Outro vodka ? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Lacusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado em torno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio de cemitério dos refeitórios, casernas de zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilómetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, e íamos morrer, íamos morrer e chovia, chovia, sentado na cabina da camioneta, ao lado do condutor, de boné nos olhos, o vibrar de um cigarro infinito na mão, iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia.
[...]
Vamos abandonar o Chiúme na direção do norte, as viaturas em coluna aguardam que embarquemos, e eu, imóvel no centro da sanzala, enjoado pelo odor decomposto da mandioca a secar os ossos brancos no teto das palhotas, tento desesperadamente fixar, nesta manhã de janeiro lavada pela chuva da noite, imersa numa claridade excessiva que dissolve os contornos e afoga na sua luz sem piedade os sentimentos delicados ou demasiado frágeis, tento desesperadamente fixar, dizia, o cenário que habitei tantos meses, as tendas de lona, os cães vagabundos, os edifícios decrépitos da administração defunta, morrendo pouco a pouco uma lenta agonia de abandono: a ideia de uma África portuguesa, de que os livros de História do liceu, as arengas dos políticos e o capelão de Mafra me falavam em imagens majestosas, não passava afinal de uma espécie de cenário de província a apodrecer na desmedida vastidão do espaço, projetos de Olivais Sul que o capim e os arbustos rapidamente devoravam, e um grande silêncio de desolação em torno, habitado pelas carrancas esfomeadas dos leprosos. As Terras do Fim do Mundo eram a extrema solidão e a extrema miséria, governadas por chefes de posto alcoólicos e cúpidos a tiritarem de paludismo nas suas casas vazias, reinando sobre um povo conformado, sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal. O almirante Tomás fitava-nos da parede com pupilas de vidro idiota de urso empalhado, milícias de espingardas veneráveis adormeciam encostados à própria sombra sob os telheiros de zinco dos postos de sentinela junto ao arame inútil. E, no entanto, havia a quase imaterial beleza dos eucaliptos de Ninda ou de Cessa, aprisionando nos seus ramos uma densa noite perpétua, a raivosa majestade da floresta do Chalala a resistir às bombas, os púbis tatuados das mulheres, por trás de cuja curva de bule cresciam, ao ritmo cardíaco dos tambores, filhos que eu ansiosamente desejava menos passivos e melancólicos do que nós, que se não acocorassem, vencidos, diante das palhotas, passando-se uns aos outros o cachimbo de cabaça.
[...]
Lá fora, o cipaio que vigiava o motor da eletricidade munido de uma espécie de mosquete de conquistador espanhol, ressonava sob o telheiro de cimento. Morcegos do tamanho de perdizes rodopiavam a cambalear nas proximidades dos candeeiros, fogos pálidos consumiam-se na penumbra densa das sanzalas, soba Macau, soba Pedro Macau, soba Marimba, junto à pista da aviação, que o capim constantemente invadia, as luzes da Chiquita tremiam, nítidas, na distância, constelação de estrelas improváveis. A seguir ao início da guerra haviam morto ou expulso para o Congo os Mô-Holos e os Bundi-Bângalas que habitavam primitivamente a Baixa do Cassanje, e substituído as suas aldeias por Gingas da área de Luanda, mais obedientes e acomodatícios depois de o seu chefe ter apodrecido vinte anos nas prisões coloniais a pretexto de um crime qualquer. De coroa de lata na cabeça, incrustada de brilhantes de vidro, posto a ridículo, perante o seu povo, pelo Estado corporativo, que o obrigava a um humilhante uniforme do imperador de carnaval, o rei vagueava no seu quimbo à maneira dos doentes mentais nas enfermarias psiquiátricas, olhado com desgosto incrédulo pelos velhos da tribo. No entanto, o soba Bimbe e o soba Caputo, do outro lado da fronteira, continuavam a luta, e avistavam-se de Marimbanguengo as bases do MPLA no Congo, construções minúsculas que cresciam. A D. Áurea inclinou-se amavelmente para a professora das menstruações de Niágara, que coçava à socapa a flor-de-congo dos sovacos: — Como vai de saúde, D. Olinda?

António Lobo Antunes - Os Cus de Judas, 1979

Tinha 8 anos de idade em 15 de março de 1961, mas lembro-me . . .




Lembro-me de ver durante vários dias, estávamos em 1961 e eu com 8 anos de idade, a minha avó e o meu pai junto do rádio, à noite à hora do jantar, muito apreensivos e atentos às notícias. E lembro-me de em 1963 me ter despedido do meu padrinho, militar de artilharia na altura capitão, todos em lágrimas porque partia no Infante Dom Henrique para a sua primeira comissão no Ultramar em Moçambique - Quartel General em Nampula, cenário de guerra em Mueda.

O regime, isolado internacionalmente, ia-se degradando quando a 15 de março de 1961 começava a guerra colonial. Os massacres da UPA (União dos Povos de Angola), depois FNLA, liderada por Holden Roberto, no Norte de Angola, apanhavam o governo e as chefias militares de surpresa. Apesar de, a 4 de Março, o adido militar da embaixada dos Estados Unidos ter avisado Lisboa de que o Governo norte-americano tinha informações de que a União dos Povos de Angola preparava ações violentas para chamar a atenção das Nações Unidas, onde se iria realizar um debate sobre o problema angolano, ninguém ligou. 

A 4 de fevereiro tinha acontecido o assalto à prisão de Luanda, seguido da revolta da Baixa do Cassanje contra a empresa luso-belga que dominava a cultura do algodão na zona, a Cotonang, numa gestão que até a PIDE considerava pejada de injustiças e que o Governo não ignorava. Cerca de 200 homens atacaram alvos na capital, sobretudo cadeias, com o objetivo de libertar presos políticos e obter algumas armas. A ação foi um fracasso e levou também à morte sete elementos das forças de segurança. No funeral que se seguiu, a violência voltou a explodir, com a população branca armada a disparar indiscriminadamente sobre os negros que assistiam à cerimónia.

Em Nambuangongo, e outras povoações e fazendas no Norte de Angola, homens com catanas na mão e outras armas rudimentares, invadiram e embrenharam-se numa matança que, segundo as contas de diferentes historiadores, terá vitimado entre 300 a 800 brancos e milhares de cidadãos negros, de etnias diferentes da dominante no seio da UPA, a bacongo. No documentário de Joaquim Furtado para a RTP A Guerra, uma mulher identificada como Deolinda de Castro, de olhar vazio, acabada de chegar a Luanda depois de sobreviver a esse dia, conta para a câmara de televisão como viu os atacantes chegarem à sua casa. “Eram bandidos que vinham para matar. UPA! UPA! Diziam todos ‘viva!’, com as catanas no ar. Havia umas seis armas, o resto [eram] catanas. O meu marido vinha a correr à frente deles e mataram-no no terraço.” Holden Roberto, líder da UPA, estava em Nova Iorque, a participar numa conferência da ONU em que se votava uma resolução sobre Angola, nesse dia. Em declarações a Joaquim Furtado justificou o facto de a sua organização não ter reivindicado, de imediato, os ataques de 15 de Março. “A maneira como o povo reagiu custou-me”, disse. E admitiu ainda: “Vi imagens que não me agradaram. Fomos ultrapassados com aqueles assassinatos em grande escala. Ficámos surpreendidos. Não é uma ação, foi uma reação. A reação do povo foi incontrolável.”

A 13 de Abril de 1961, fracassa o golpe do ministro da Defesa, general Botelho Moniz – que defendia a descolonização e tinha o apoio dos Estados Unidos e da administração Kennedy – para depor Salazar.  Adriano Moreira toma posse como novo ministro do Ultramar. O chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, general Beleza Ferraz, aliado de Botelho Moniz, também é substituído. Decapitado o topo da hierarquia militar, Salazar assume o cargo de ministro da Defesa e é então nessa noite que, em comunicação ao país através da rádio e da televisão, pronuncia a frase que ficou inscrita na memória coletiva como um slogan — “Para Angola rapidamente e em força” . . . “Se é precisa uma explicação para o facto de assumir a pasta da Defesa Nacional mesmo antes da remodelação do Governo que se verificará a seguir, a explicação pode concretizar-se numa palavra e essa é Angola. Andar rapidamente e em força é o objetivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão”.

António de Spínola que, 13 anos mais tarde, vai ter um papel fundamental no golpe do 25 de Abril e será o primeiro Presidente da República da democracia – o seu livro Portugal e o Futuro, de 1973, defende uma solução política, federativa, para acabar com a guerra – ainda está, em 1961, com Salazar. 
A 17 de Abril de 1961 partiram por avião quatro companhias de infantaria ligeira, os Caçadores Especiais. Outras se seguiriam por mar, sendo os militares recebidos como heróis à sua chegada à colónia em pé de guerra. A partir de Luanda eram enviados para o interior norte e leste, restaurando a autoridade portuguesa em zonas que alguns julgavam já perdidas, como Nambuangongo, em Agosto. A 20 de Abril de 1961, a Assembleia Geral das Nações Unidos aprova uma resolução contra a política colonial portuguesa por 73 votos a favor – incluindo o dos Estados Unidos – nove abstenções (Brasil, França, Inglaterra, Bélgica, entre outros) e dois votos contra – a Espanha de Franco e a África do Sul.

John Kennedy, é assassinado em novembro de 1963. Toda a pressão da administração americana para a mudança de regime falhara: os Estados Unidos, em plena guerra fria, precisavam da base militar dos Açores. Salazar tinha o trunfo Açores para jogar e jogou-o – diminuindo a pressão pró-independência das colónias africanas desencadeada pelos Estados Unidos. 
Quatro anos depois, em 1965, quando a guerra se tinha alastrado à Guiné e a Moçambique, Salazar profere o famoso discurso do “orgulhosamente sós”. Foi a 18 de Fevereiro de 1965, na tomada de posse da nova comissão executiva da União Nacional, o partido único do regime. 

Em 1961, os sinais de desagregação do regime já eram evidentes. Por isso, a sua capacidade de durar – com Salazar e depois com Marcelo Caetano – com frentes de batalha em vários países africanos é um fenómeno difícil de explicar. 
Em 1961, a chegada das imagens dos massacres do Norte de Angola a Portugal emocionou a população e levou, mesmo alguns opositores do regime, a proclamar o apoio a Salazar na luta pela manutenção das colónias. A chegada das imagens dos massacres do Norte de Angola a Portugal emocionou a população e levou, mesmo alguns opositores do regime, a proclamar o apoio a Salazar na luta pela manutenção das colónias. 

Mas a violência dos acontecimentos de 15 de Março, com ataques a povoações e fazendas de colonos no Norte do país, que deixaram mutilados e retalhados os corpos de homens, mulheres, crianças e bebés ainda dentro do berço, brancos e negros, tinha chocado toda a gente. Era o fim do mito de que o colonialismo português era diferente do belga, mais “benigno”, e que por isso não levaria a ações violentas por parte da população africana. Foi o ato que faltava para levar, finalmente, Salazar a agir e a enviar para o país os militares há muito reclamados pela administração colonial.

Para a grande maioria dos portugueses e, certamente, para quase todos os que viviam na então metrópole, a revolta dos camponeses da Baixa do Cassanje, e a repressão violenta que se seguiu, com a Força Aérea a arrasar 17 aldeias com recurso ao napalm (estima-se que o número de vítimas destas ações possa ter chegado às 10 mil), nunca acontecera. Ao contrário do que se passou com a violência do 15 de Março, em que os relatos e imagens dos corpos chacinados e mutilados à catanada de brancos e negros foram amplamente divulgadas na imprensa (e até junto da ONU, onde imagens ampliadas de bebés e mulheres mortas foram exibidas pelo representante português), os acontecimentos da Baixa do Cassanje tinham sido silenciados pela censura. 

domingo, 14 de março de 2021

A expressão dos afetos com vocabulário hipocorístico


Foi ao ouvir a canção (popular) dos caracóis de Amália Rodrigues, 1968 (são caracóis são caracolitos/ são os espanhóis são espanholitos), que me lembrei da forma como desde criança me habituei a ouvir e a tratar as pessoas da minha família. A bem dizer toda a gente da nossa terra se tratava assim, entre si, pelo diminutivo do nome próprio: Mariazinha, Tininha, Fernandinho, Tizinha, tia Miquinhas . . . E então nem se fala, quando nos momentos de alegria irrompíamos com diminutivos carinhosos, soltando toda a nossa felicidade espontânea, que no caso em apreço, não tem nada a ver com diminuição de tamanho. Na linguagem coloquial, as formas sintéticas dos diminutivos, tanto nos substantivos, como nos advérbios e adjetivos, são, na maioria das vezes, utilizadas não só como diminutivos, mas também para indicar as várias manifestações da nossa emotividade.

Consultando um Dicionário fico a saber que há um termo para isto: hipocorístico. Designa a utilização do diminutivo em nomes e palavras cujo processo linguístico semântico se destina a exprimir o nosso lado afetivo. Constituem processos hipocorísticos os diminutivos de nomes próprios, tais como: Aninhas ou Anita, Zé ou Zeca, Tó ou Toni. Mas também palavras de parentesco - por truncamento: vô ou bu, vó, ti, mana; ou por reduplicação silábica: mamã, papá, vovó. O uso frequente de hipocorísticos pode ser também um traço dialectal e sociolectal, sendo além disso típicos de um registo de língua familiar e informal.

Os termos hipocorísticos são um fenómeno linguístico universal em qualquer língua. Na língua inglesa: Dan de Daniel; Chris de Christopher; Dick de Richard; Steve de Stephen ou Steven. Na língua russa: Katya de Ekaterina; Dacha de Dária; Kólia de Nikolai; Vânia de Ivan; Nástikienka de Anastássia. E por aí fora. 

Em russo, familiares e amigos mais próximos costumam usar apelidos, como por exemplo Masha, Nastya, Pasha, Dima, que para contextualizar, em português seria algo como Mariazinha, Anastacinha, Pavelzinho, Dmitrinho. No entanto, ao nos dirigirmos formalmente a uma pessoa que não conhecemos, jamais devemos chamá-la pelo apelido ou sequer pelo nome apenas. Deve-se usar sempre a combinação nome + patronímico. Convém não confundir com os patronímicos. Por exemplo, Gorbachov faz parte da família Gorbach. E não é apenas o "ov" que indica a origem familiar. É comum encontrarmos sobrenomes masculinos terminando com "ov" ou "ev", assim como sobrenomes femininos terminando com "ova", "eva". Por exemplo, a tenista Maria Sharapova pertencente à família Sharap. 

Dois amigos encontram-se e um deles convida o amigo para conhecer a sua casinha (diminutivo afetivo, de aconchego). Quando o amigo chega em frente à casa, declara admirado: “Que casinha!” Na realidade, o amigo ficou admirado porque não era uma casinha, (no sentido de pequena), mas uma casa grande, um casarão. Entram na casa e o dono pergunta ao amigo:
“Vai um cafezinho?” E o amigo responde: “Não, obrigadinho . . . E o que me diz do escândalo desse doutorzinho da merda que mal chegou à nossa terrinha começou logo a cagar postas de pescada?" "Não faça caso, são boatos do nosso povinho, coitadinho . . . Ó amorzinho, amorzinho . . . chega aqui que te quero apresentar um grande amigo. O Amaro, esse, é inofensivo, não passa de mosquinha morta."
Existem diminutivos que, apesar de etimologicamente serem considerados diminutivos, atualmente perderam esse significado, pois adquiriram significados especiais, dissociados da palavra original. Não se pode mais, com rigor, falar de diminutivos, pois são, na verdade, eufemismos ou metáforas. Propaganda eleitoral impressa em formato pequeno, com a foto do candidato e informações sobre ele, tanto pode ser uma folhinha como um santinho (os santinhos que os padres davam às crianças na catequese). Vários amigos juntam-se para jogar forte no Euromilhões e fazem uma vaquinha.

E os diminutivos sensuais? Aquelas palavras afetuosas que se usam para designar o que é agradável, sensual ou excitante. "Ela estava toda nuinha!". "A sério? Nem ao menos uma cuequinha?". Calvin Klein, vem engarrafando o trânsito de Londres, devagarinho. Quando o diminutivo sugere alguma recomendação, isto é, dar a alguém alguma incumbência, alguma ordem, isto não indica mais lentidão ou ligeireza da realização do ato, mas sim acentuar a recomendação, reforçar o sentido: "Vá depressinha e não demore!". Embora os verbos não admitam flexão de grau, quando aparecem no diminutivo, eles são usados como um desvio gramatical, intencional, estilístico.

Na linguagem coloquial, onde as manifestações de ternura se caracterizam pela intensidade e natural exagero, é comum o advérbio e o adjetivo, por afinidade com os substantivos, assumirem uma forma diminutiva, utilizando os sufixo ‘inho’ com um valor superlativo. Os mais cínicos diriam que se o Zeca fosse um pouquinho mais sincero, estaríamos agora mais confiantes em relação à pandemia. Mas ele é igualzinho ao Nando, que foi cedinho para a cama. Ele com jeitinho lá vai levando a água ao moinho. Os diminutivos deverão ser sempre analisados dentro de um contexto, pois só assim se terá a noção exata do seu significado.

Um bicho pequeno é um bichinho; um gato pequeno, um gatinho; uma dor pequena, uma dorzinha. Ou seja, na língua portuguesa os diminutivos são expressos utilizando-se a própria palavra com a adição de um sufixo - inho(a) ou - zinho(a). No português, existem mais sufixos que exprimem essa mesma ideia de diminuição,  (z)ito(a) em lugar de - inho(a): rapazito, casita. Qual é o diminutivo de mosca? Mosquinha? Pode ser. E mosquito? Está bem, é outro inseto. Mosca é mosca, mosquito é mosquito. Mas de onde veio a palavra mosquito? Isso mesmo, veio de mosca + o sufixo diminutivo - ito. Agora vejamos o paliteiro. Retire um palito. De onde é que veio o objeto palito? Do paliteiro, claro. Mas estamos a falar de palavras. E a palavra 'palito', qual é a sua origem? Veio de pau (que no latim era escrito palu + a terminação diminutiva -ito.) Ou seja, palito nada mais é que um pauzinho.

O sufixo - iscar aparece na formação dos verbos com noção diminutiva: chuviscar, mordiscar, rabiscar (que na sua origem significa fazer pequenos rabos). O sufixo - isco aparece em vários substantivos: chuvisco (a chuva miúda); marisco (pequeno animal do mar). Asterisco, na sua origem, significa pequeno astro. Por isso, a palavra é 'asterisco' e não asterístico. Quem disser asterístico é como dizer chuvístico e marístico. Músculo veio do latim musculu, que inicialmente significava só ratinho e depois ganhou o sentido de músculo. A palavra latina foi formada de mus (rato) + a terminação diminutiva -culu. O músculo foi associado ao rato por causa de seus movimentos rápidos de contração e distensão. Do latim mus saiu o mouse. Testículo veio do latim testiculu, palavra formada de testis (testemunha) + a terminação diminutiva - culu. Quer dizer, testiculu foi formado para significar pequena testemunha. 

Na maioria dos casos, a noção de diminutivo perdeu-se e a palavra ganhou outro sentido, como no caso da costela (diminutivo de costa); ou goela (do latim gulella, diminutivo de gula, garganta); ou tabela (do latim tabella, diminutivo de tabula, tábua). Folheto, vareta, sineta, saleta, caneta (diminutivo de cana porque na sua origem o objeto era um estilete feito de uma cana aguçada na extremidade. A palavra cana veio do latim canna, cana, tubo. A palavra latina foi dar no italiano canna e recebeu uma terminação aumentativa para virar cannone, que é a origem da palavra canhão, em português.