terça-feira, 17 de agosto de 2021

Ainda mais ciência

 


As 'guerras da ciência' começaram quando os cientistas repararam que os sociólogos e historiadores da ciência pareciam empenhar-se em apagar muito do brilho da própria atividade científica. À boa maneira relativista, sociólogos, historiadores e críticos culturais puseram entre parêntesis as afirmações de objetividade e de verdade da ciência e encararam a ciência com um espírito puramente antropológico.

Alguns filósofos contemporâneos, com Richard Rorty em destaque, acreditando dar voz a uma tradição que remonta a Dewey e a Wittgenstein, pensaram que a única resposta a esta tese seria uma espécie de 'ironia' ligeira, um descomprometimento quanto a questões que, um dia, se podiam vir a revelar não ter valido a pena levar a sério. Ao contrário do relativista, a atitude mental do cético tem-se revelado, muitas vezes, mais merecedora de admiração. Contudo, o ceticismo tem as suas limitações.

Willard Van Orman Quine foi provavelmente o filósofo mais importante no campo da 'teoria do conhecimento' da segunda metade do século XX. Concebeu uma teoria subtil, original e abrangente acerca do verdadeiro processo através do qual a experiência se transforma em teoria. Quine sabia que nenhum dos caminhos que levam ao conhecimento é simples, infalível ou imune a infindáveis revisões e questionamentos. Nem os sentidos, nem o testemunho indireto, nem a história, nem a teoria nem a própria razão nos proporcionam terreno firme. Para usar a sua metáfora favorita, citada do positivista Otto Neurath, "somos como marinheiros condenados a reconstruir os nossos barcos em alto mar". Nenhuma das partes do barco é imune ao apodrecimento (engano que cede ao exame crítico). Cada tábua da embarcação está sujeita a ter de ser substituída. Mas para a substituir em alto mar, temos de nos apoiar nas outras partes enquanto fazemos isso. A única maneira racional de proceder no avanço do conhecimento: descobrir aquilo que funciona, e alterar aquela parte da nossa herança científica que não funciona tão bem. E mudar, tão cuidadosamente quanto possível, para que as experiências recalcitrantes que a natureza atravessa no nosso caminho, possam encaixar no que já existe. Este é o modo de proceder da ciência, com o seu modo de trabalhar, observando e experimentando, de conjetura em conjetura, de refutação em refutação, sempre num debate aberto, sem peias nem preconceitos.

Quine estava, em parte, em sintonia com as ideias pragmatistas do americano C. S. Peirce, famoso pela (muito criticada) definição de verdade: "o progresso da ciência está destinado a convergir a longo prazo". Mas o longo prazo é apenas um ponto imaginário num horizonte futuro. Existe a garantia de que o processo produzirá melhoramentos em cada um dos seus passos. É por acreditar neste processo que Quine não é considerado um cético.

Há, contudo, um lugar onde entra em ação um conjunto de processos diferente. Peirce e Quine têm talvez tendência para descrever a ciência como um tipo de atividade fechada sobre si mesma, procedendo segundo uma lógica interna e não precisando de auxílio do que está à sua volta. Mas é da maior importância perceber que isto é falso, e falso em muitos aspetos. A razão mais óbvia pela qual é falso é que a ciência institucional necessita de apoio. Necessita de tempo para a investigação, o que por sua vez exige investimento. É falso também porque todo o processo darwinista só funciona na condição de existirem as virtudes da integridade, da comunicação, da tolerância e da abertura de espírito. A ciência apenas pôde florescer quando a religião perdeu o poder de reprimir essas virtudes, e não é ainda capaz de florescer onde a religião ou outras forças mantêm esse poder. Por outras palavras, a ciência necessita de toda uma matriz cultural e política na qual possa desenvolver-se adequadamente. E nada nessa matriz pode ser dado como garantido.

Vemos pequenos exemplos disto em áreas específicas da atividade científica, sendo a este respeito a medicina a mais notória. O sábio, como nos ensinou David Hume, confere uma fé apenas académica a qualquer relato que seja favorável às paixões de quem relata. Poucos de nós se deixaram enganar quando a Associação Americana de Psiquiatria votou para transformar a maldade numa doença, inventando para esse efeito a disfunção resultante do défice de atenção, e abrindo assim caminho para que se receitasse a uma em cada sete crianças do país, uma droga dura do grupo das anfetaminas.

Cientistas, como Carlos Fiolhais, dizem que se perdeu confiança no Iluminismo. É bastante comum ver intelectuais declarar, como se fosse um facto consumado, que o projeto iluminista foi tentado e falhou. Mas nunca houve apenas um projeto iluminista. Muitos houve que foram bem-sucedidos, para além das esperanças mais irrealistas dos seus proponentes. O Iluminismo proporcionou a matriz de que falei, na qual projetos científicos puderam florescer. Ora, o nosso entendimento do mundo é melhor devido à física. O nosso entendimento de nós próprios é melhor devido à biologia. Vivemos mais tempo, alimentamo-nos melhor, e o “nós” inclui não apenas as pessoas dos países do primeiro mundo, mas também inúmeras pessoas do terceiro mundo. Cuidamos melhor do ambiente, e a seu tempo iremos gerir melhor o crescimento populacional. Fora das teocracias do Médio Oriente, mais pessoas usufruem de mais tipos de liberdade e de mais ensino, de mais oportunidades e talvez também de mais direitos do que alguma vez antes usufruíram. Devemos este progresso inteiramente à cultura forjada, no Ocidente, por Bacon e Locke, Hume e Voltaire, Newton e Darwin. O Humanismo é a crença de que a humanidade não precisa de se envergonhar de si própria. E estes são os seus grandes exemplos. Eles mostram-nos que não temos de considerar o conhecimento uma coisa ímpia, nem que a ignorância seja benfazeja. Não precisamos de olhar para a "fé cega" como outra coisa que não cega.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad



O Livreiro de Cabul é um livro de não-ficção escrito pela jornalista norueguesa Asne Seierstad sobre um livreiro, Shah Muhammad Rais (mudado para Sultan Khan no livro), e sua família em Cabul, publicado em norueguês em 2002.

Além de dar um relato histórico dos acontecimentos no Afeganistão em 2001/2002 - Asne Seierstad concentrou-se nas condições das mulheres afegãs que ainda vivem muito sob o domínio dos homens, em que as tradições afegãs permitem a poligamia e o casamento negociado.

Após a aclamação da crítica global, muitas das descrições do livro foram contestadas por Shah Muhammad Rais. Durante uma viagem à Escandinávia em novembro de 2005, Rais declarou que estava buscando asilo na Noruega ou na Suécia, como refugiado político. Ele sentiu que as coisas reveladas sobre ele no livro de Seierstad tinham tornado a vida dele e de sua família inseguras no Afeganistão, onde versões piratas do livro haviam sido publicadas em persa. Inclusivamente, a segunda esposa – Suraia, processou-a por difamação. Em 24 de julho de 2010, Seierstad foi considerada culpada de difamação e "práticas jornalísticas negligentes", condenada a pagar indemnização a Suraia Rais. Mas Seierstad ganhou um recurso que anulou a decisão anterior e inocentou a autora e sua editora, Cappelen Damm, de invadir a privacidade da família Rais, e concluiu que os factos do livro eram precisos.

Então, Shah Muhammad Rais publicou a sua própria versão da história, Once Upon a Time There Was a Bookseller em Cabull que foi traduzido para o inglês e várias outras línguas.


Shah Muhammad Rais foi uma das primeiras pessoas que Asne Seierstad conheceu ao chegar a Cabul em novembro de 2001. Ela havia passado seis semanas, com os comandantes da Aliança do Norte, no deserto perto da fronteira com o Tadjiquistão, nas montanhas de Hindu Kush, no vale do Panshir e nas estepes ao norte de Cabul. Acompanhou as ofensivas contra o Talibans, dormido em chão de pedra, em cabanas de barro, na linha de frente. Nesta região a etnia predominante não é Pashtun, mas Tajique. Depois de semanas entre pólvora e cascalho, ouvindo conversas sobre táticas de guerra e avanços militares, foi reconfortante folhear livros e conversar sobre literatura e história. Shah Muhammad Rais tinha prateleiras abarrotadas de obras literárias em várias línguas. Havia coletâneas de poesia, livros sobre lendas afegãs, livros de história e romances. Era um bom vendedor.
«Primeiro os comunistas queimaram meus livros, depois foram pilhados pelos mujahedin, e em seguida queimados de novo pelos talibans. Um dia, convidou-me para jantar em sua casa. Encontrei a família toda sentada em volta de uma farta refeição posta no chão: uma de suas mulheres, os filhos, as irmãs, o irmão, a mãe e alguns primos. Sultan contava histórias, os filhos riam e contavam piadas. O tom era descontraído, ao contrário das refeições simples com os comandantes nas montanhas. Mas percebi logo que as mulheres pouco falavam. A bela esposa adolescente de Sultan ficava sentada quieta perto da porta com seu bebé sem dizer uma palavra. A outra de suas esposas não estava presente nesta noite. As outras mulheres respondiam a perguntas, recebiam elogios pela comida, mas não tomavam a palavra para iniciar uma conversa. Ao ir embora, disse a mim mesma: isto é o Afeganistão. Seria interessante escrever um livro sobre esta família.»

«No dia seguinte, voltei à livraria de Sultan e contei-lhe sobre a minha ideia. “Muito obrigado” foi só o que disse. Mas isso significava que eu teria que morar com eles. “Seja bem-vinda”, disse ele. Mudei-me para a casa deles num dia enevoado de fevereiro, levando comigo apenas o meu computador, blocos de notas, canetas, um telemóvel e a roupa do corpo. O resto sumira na viagem, em algum lugar no Uzbequistão. Fui recebida de braços abertos e logo passei a gostar de usar os vestidos afegãos que elas me iam emprestando.»
Começou a vender livros ainda adolescente. Tinha acabado de entrar para a engenharia, mas estava difícil encontrar os livros de que precisava. Numa viagem com o tio a Teerão, encontrou por acaso todos os títulos que estava procurando num dos ricos mercados de livros da cidade. Comprou vários exemplares que depois vendeu aos colegas em Cabul pelo dobro do preço. E assim nasceu o livreiro, e uma nova vida para ele: "Shah M Book Co". Como engenheiro só participou da construção de dois prédios em Cabul, antes que a sua mania por livros o arrancasse do mundo das construções. Novamente, foram os mercados de livros em Teerão que o seduziram. Andava na metrópole persa atrás de livros velhos e novos, livros raros e modernos, e encontrou obras que nunca sonhara que existissem. Comprou caixas e mais caixas de poesia persa, de livros de arte, de história e, para vender, livros didáticos para engenheiros.



«Abriu a sua primeira livraria em Cabul, entre lojas de temperos e kebabs, no centro da cidade. Eram os anos 1970, e a sociedade oscilava entre o moderno e o tradicional. O regente liberal e um tanto preguiçoso, Zahir Shah, estava no governo, e a sua tentativa de modernizar o país, embora timorata, provocou severas críticas dos religiosos. Houve protestos de vários mulás contra as mulheres da família real que se mostravam em público sem véu. As universidades e escolas do país cresceram consideravelmente em número, e com elas começaram as manifestações estudantis. Foram duramente combatidas pelas autoridades, e muitos estudantes foram mortos. Mesmo não havendo eleições livres, inúmeros partidos políticos surgiram nesta época, da extrema-esquerda aos fundamentalistas religiosos. Os grupos lutaram entre si e o sentimento de insegurança espalhou-se pelo país. A economia estagnou após três anos sem chuvas, e durante uma catastrófica fome em 1973, enquanto Mohammed Zahir Shah consultava médicos em Itália, seu primo Mohammed Daoud Khan tomou o poder que durava há 40 anos, e aboliu a monarquia. O regime do presidente Daoud foi ainda mais repressor do que o de seu primo, que durou até 1978 (assassinado em 28 de abril de 1978 em Cabul).»

«Mas a livraria de Sultan floresceu. Ele vendia livros e publicações editados por vários grupos políticos, de marxistas a fundamentalistas. Morava com seus pais e ia de bicicleta para a sua banca de livros em Cabul todas as manhãs, regressando a casa já de noite. Seu único problema era a insistência da mãe para que se casasse. Ela vinha sempre sugerindo novas candidatas, uma prima aqui, uma vizinha ali. Sultan ainda não queria começar uma família. Ele namorava várias jovens ao mesmo tempo, e não tinha pressa alguma de se casar. Queria estar livre para viajar e fazer negócios em Teerão, Tachkent e Moscovo. Em Moscovo, ele tinha uma namorada russa, Ludmila.»

 

Os senhores da guerra



Um senhor da guerra é um antigo oficial, mas também pode ser uma pessoa qualquer obcecada pelo poder e pelo dinheiro, sem escrúpulos, que aproveita o desmoronamento do Estado para obter o miniestado informal, por si mesmo, no qual possa reinar como um ditador. Na maioria dos casos, o senhor da guerra tem o apoio de um clã, ou de uma tribo, aquela a que pertence. Os senhores da guerra semeiam o ódio tribal. Mas isso é coisa que não admitem. Anunciam sempre que lideram um movimento, que tem objetivos fundamentalmente nacionais. Ou então, um movimento para a libertação de qualquer coisa.

Os Pashtuns historicamente conhecidos como afegãos são um grupo étnico iraniano nativo da Ásia Central e do Sul, é o maior grupo étnico do Afeganistão. A língua nativa do grupo étnico é o Pashto, uma língua iraniana. Além disso, Pashtuns étnicos no Afeganistão falam o dialeto dari do persa como segunda língua. O número total de Pashtuns é estimado em cerca de 63 milhões; no entanto, esse número é contestado devido à falta de um censo oficial no Afeganistão desde 1979. E o segundo maior grupo étnico do Paquistão.
 



Na foto, Mullah Baradar Akhund, sentado com um grupo de homens, na declaração da tomada de Cabul, gravada a partir de um local não identificado, e transmitida ontem ao fim do dia pela Al-Jazeera.

O povo Pashtun é um intrincado sistema de tribos. Os Pashtuns continuam a ser um povo predominantemente tribal, mas a tendência da urbanização começou a alterar a sociedade à medida que cidades como Kandahar, Peshawar, Quetta e Cabul cresceram rapidamente devido ao fluxo de Pashtuns rurais. Apesar disso, muitas pessoas ainda se identificam com vários clãs. O sistema tribal tem vários níveis de organização: a tribo em que eles estão é de 4 grupos tribais maiores: Sarbani; Bettani; Garghashti. Então divididos em grupos de parentesco chamados khels, que por sua vez se dividem em grupos menores (pllarina ou plarganey), cada um composto por várias famílias estendidas chamadas kahols.

No Afeganistão, as décadas de guerra e a ascensão Taliban, para além de imensas dificuldades sociais, tornaram a vida das mulheres num inferno. Muitos de seus direitos foram reduzidos por uma interpretação rígida da sharia (a denominada lei islâmica). As vidas difíceis de mulheres refugiadas afegãs ganharam considerável notoriedade com a imagem icônica de Sharbat Gula, retratada na capa de junho de 1985 da revista National Geographic. 




Direitos legais restringidos em favor de seus maridos ou parentes do sexo masculino. Por exemplo, embora as mulheres possam oficialmente votar no Afeganistão e Paquistão, algumas foram mantidas longe das urnas por homens. Outra tradição que persiste é a swara, uma forma de casamento infantil que foi declarada ilegal no Paquistão em 2000, mas continua em algumas partes. As organizações de direitos humanos continuam a lutar por maiores direitos das mulheres, como a Rede de Mulheres Afegãs e a Fundação Aurat no Paquistão, que visa proteger as mulheres da violência doméstica. 

Em “O Livreiro de Cabul”, Asne Seierstad, descreve-nos como foi a execução da livraria de Sultan Khan. A queima de livros numa gélida tarde de novembro de 1999. Ao lado das crianças em volta da fogueira estava a polícia religiosa com chicotes, cassetetes e kalashnikovs. Eles consideravam todos os que cultuavam fotos, livros, escultura, música, dança, filmes e livres-pensadores como inimigos do povo. A rotunda de Charhai-e-Sadarat em Cabul ficou iluminada durante horas por uma fogueira de livros. Nesse dia, estavam apenas na lista de execução livros com imagens. Ignoravam os textos heréticos nas prateleiras bem diante de seus olhos. Os soldados não sabiam ler, e não sabiam distinguir entre a doutrina taliban e a herética. Mas sabiam diferenciar imagens de letras, e seres vivos de mortos.

Os soldados vinham frequentemente ameaçar o livreiro. Ele tinha recebido ameaças da mais alta autoridade Taliban, além de ter sido intimado a comparecer perante o ministro da Cultura, na tentativa das autoridades o seduzirem para o livreiro ceder à vontade dos talibans. Sultan Khan não se importava em vender as sombrias publicações dos talibans, desde que vendesse outras obras às escondidas como romances e poesia. Era um livre-pensador e achava que todas as vozes deviam ser ouvidas. Mas também queria vender livros de história, publicações científicas, obras ideológicas sobre o Islão. Os talibans consideravam os debates uma heresia, e a dúvida um pecado. Tudo, exceto decorar o Alcorão, era desnecessário, até perigoso.

Quando os talibans chegaram ao poder em Cabul, no outono de 1996, os profissionais de todos os ministérios foram afastados e os mulás assumiram a governação de tudo, do banco central às universidades. O seu objetivo era recriar a sociedade em que vivia o profeta Maomé. Mesmo quando os talibans negociavam com companhias de petróleo estrangeiras, mulás sem nenhuma especialização técnica sentavam-se à mesa das negociações.

sábado, 14 de agosto de 2021

Afeganistão: As mulheres temem o regresso dos talibans





A Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) estima que cerca de 250.000 afegãos fugiram das suas casas desde o final de maio, com receio de que os talibans reimponham a sua interpretação estrita e impiedosa do Islão, sobretudo que eliminem os direitos das mulheres. 80% destes deslocados são mulheres e crianças. Apesar de a sociedade ser ainda muito conservadora e dominada pelos homens, muito mudou para as mulheres nas últimas duas décadas. As raparigas estão nas escolas e as mulheres, no parlamento, no governo ou nas empresas. As coisas voltarão a ser como eram, com a tomada do poder de novo pelos Talibãs? Há que pense que não. Podem voltar para trás das paredes e não conseguirem sair tanto. Mas há coisas que são irreversíveis, como poderem educar os seus próprios filhos de uma forma que não podia acontecer há 25 anos.

O Afeganistão é um dos países mais pobres do mundo, encontrando-se em 169º da lista de 189 países do Índice de Desenvolvimento Humano, publicada pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas. A esperança média de vida é de 64 anos e o rendimento nacional bruto per capita é de 1.970 euros.

Os talibans intensificaram a reconquista do território do Afeganistão nas últimas semanas, desde que os militares norte-americanos iniciaram a retirada. O Mullah Abdul Ghani Baradar é o líder político da equipa de negociação que está sedeada em Doha, que visa alcançar um acordo que possa conduzir ao cessar-fogo. Mas o processo não tem visto avanços significativos nos últimos meses. Considerado um dos comandantes de maior confiança de Mullah Omar, Baradar foi capturado pelas forças de segurança na cidade de Karachi, no sul do Paquistão, em 2010 e libertado em 2018.




Recordemos que os talibans, com raízes no movimento mujahidin, são um grupo que, com o apoio dos Estados Unidos, afastou as forças soviéticas do Afeganistão nos anos 80. E são um dos grupos que lutou na guerra civil em 1994. Dois anos mais tarde, controlavam a maior parte do país, onde impuseram a lei islâmica, a sharia. O movimento fundado e liderado no início pelo Mullah Mohammad Omar foi derrubado pelas forças afegãs apoiadas pelos americanos, na sequência dos ataques de 11 de setembro de 2001. Os talibans voltam agora a controlar militarmente o Afeganistão, dominando, a cada dia que passa, mais províncias do país, atualmente dois terços d território. Não tardará, chegarão a Cabul. Todo o mundo está apreensivo e suspenso do que irá acontecer.

De acordo com especialistas contactados pela Reuters, os Haqqanis foram os introdutores do ataque suicida no Afeganistão e considerados culpados por vários atentados de elevada visibilidade no Afeganistão. Entre os alvos do grupo encontra-se o antigo presidente Hamid Karzai, o hotel mais importante de Cabul e a Embaixada da Índia. Deverá ter cerca de 50 anos e o seu paradeiro é desconhecido. Sirajuddin Haqqani é filho do fundador da rede Haqqani, Jalaluddin Haqqani. Lidera a rede estabelecida pelo pai na década de 1970, um grupo que opera na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão e supervisiona os recursos financeiros e militares naquela região. Sher Mohammad Abbas Stanikzai era um ministro taliban até o grupo ser afastado do poder. Viveu em Doha durante 10 anos e dirigiu o gabinete político dos talibans em 2015. Também participou nas negociações com o governo afegão, e representou os radicais em viagens diplomáticas por diferentes países.

Abdul Hakim Haqqani é o líder da equipa negocial dos talibans. Antigo presidente do supremo tribunal do movimento, lidera um influente conselho de teólogos e um dos líderes em quem Akhunzada mais confia. Haibatullah Akhunzada é o líder supremo, aquele tem a palavra final no que respeita a questões políticas, militares e religiosas. Sucedeu a Akhtar Mansour, morto num ataque de drone em 2016, perto da fronteira com o Paquistão. Conhecido como o "líder dos fiéis", Akhunzada ensinou e pregou durante 15 anos numa mesquita de Kuchlak, no sudoeste do país, quando subitamente desapareceu em maio de 2016. Estima-se que tenha cerca de 60 anos e o seu paradeiro é desconhecido.

Mullah Mohammad Yaqoob é filho do fundador Mullah Omar. Atualmente é responsável pelas operações militares do grupo e dado como residente no Afeganistão. Foi proposto como líder supremo em vários momentos de sucessão, mas, dada a sua idade, cerca de 30 anos, e alegada falta de experiência em batalha, terá tomado a iniciativa de patrocinar Akhunzada.

Ébola e uma pequena história de Hans Rosling



Esta é uma pequena história de Hans Rosling, que passou três meses na Libéria como epidemiologista no Ministério da Saúde, ajudando a enfrentar a crise do ébola. Libéria, Serra Leoa e Guiné-Conacri - é apenas uma pequena parte do continente que sofreu um surto catastrófico.




Tudo começou, no final de 2013, na parte sul e muito remota da Guiné-Conacri, que depois se espalhou pelas fronteiras para a Serra Leoa e Libéria. Surtos mais curtos no Senegal, Mali e Nigéria foram rapidamente controlados. Na Libéria, o número de casos aumentou lentamente para cerca de cinco por dia em julho de 2014. Era quando deveria ter sido contido, mas essa oportunidade infelizmente se perdeu, porque o vírus caiu nos bairros pobres da capital, Monróvia. Lá a doença começou a espalhar cada vez mais rápido, pois cada pessoa infetada infetava, em média, mais duas. Isso causou uma duplicação em menos de um mês.



No final de setembro de 2014, Chris Dye e a sua equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicaram um estudo, histórico, mostrando que se nada fosse feito para conter a curva epidémica, o número de casos dispararia, continuando a dobrar em menos de um mês. É aqui que entra Hans Rosling, e é ele a contar:



Foi quando me juntei à equipe de vigilância epidemiológica na Libéria. Tive que me juntar à resposta a este terrível surto, pois tive uma experiência de pesquisa de muitos surtos semelhantes em partes remotas da África. Fui lá como professor universitário, entrei no Ministério da Saúde e conheci Luke Bawo (os dois na foto acima), chefe da vigilância epidemiológica. Ele me pediu para me juntar a ele como vice-chefe de vigilância epidemiológica e dividimos um escritório durante as 12 semanas que trabalhei no ministério. Minha mentora e professora foi Margaret Lamunu (os três na foto abaixo) que havia parado o Ébola no Uganda há uma década, e agora trabalha para a OMS. Margaret me ensinou os detalhes do Ébola. E há muitas especificidades, talvez acima de tudo a alta contagiosidade dos doentes graves que dificulta até mesmo a colheita de dados.

 



Fiquei muito impressionado com a seriedade do propósito e do trabalho árduo que foi colocado para entender a epidemia pelos líderes e profissionais na Libéria. Os funcionários trabalharam depois do pôr-do-sol, quando a eletricidade já tinha sido desligada durante a noite para economizar diesel. Foi altamente motivador trabalhar com pessoas tão dedicadas.

E também foi muito inspirador fazer parte de um amplo apoio internacional. Foi uma nova experiência para mim, como professor da Academia Sueca de Ciências, trabalhar com os militares, como o General Gary Volesky, que liderou a Divisão Aerotransportada do Exército dos EUA – 101, e forneceu apoio de transporte crucial, e o Major Morris Hunh do Exército De Libertação Popular Chinês, que construiu uma grande unidade de tratamento na capital. Outra experiência muito positiva foi reportar à presidente e aos ministros mais importantes do governo. E foi isso que aconteceu. A curva virou porque foram construídas unidades de tratamento de ébola suficientes. O Médicos Sem Fronteiras comandava o maior. A curva caiu rapidamente de 50 casos por dia em outubro para 10 por dia até ao final de novembro, após o qual a queda foi mais lenta. No final do ano ainda havia cerca de cinco novos casos por dia, em média.

Tivemos que chegar a zero identificando cada pessoa que esteve em contacto com cada caso, e visitá-los diariamente por 21 dias. A única coisa que torna o Ébola fácil de combater é que os pacientes não são contagiosos durante o primeiro dia de doença. Então, se eles estiverem isolados durante o primeiro dia a epidemia vai acabar. Em um caso, uma única pessoa infetada passou a infeção para mais de 20 pessoas, a maioria das quais morreram. O Dr. Tolbert Nyenswah tem resistência e sabedoria. Como vice-ministro da saúde, ele lidera a resposta ao ébola na Libéria. Estou convencido de que ele levará a Libéria a zero casos.

***

Hans Rosling faleceu a 7 de fevereiro de 2017 de cancro. Foi um médico, académico e orador público sueco. Foi professor de saúde internacional no Instituto Karolinska e foi cofundador e presidente da Gapminder Foundation, que desenvolveu o sistema de software Trendalyser.

Quando ele tinha 20 anos, em 1968, os médicos disseram a Rosling que havia algo de errado com seu fígado e, como consequência, ele parou de beber álcool. Aos 29 anos, com uma família jovem, ele teve cancro testicular que foi tratado com sucesso. Em 1989, foi diagnosticado com hepatite C. Com o passar dos anos, isso progrediu e ele desenvolveu cirrose hepática. No início de 2013, ele estava nos estágios iniciais de insuficiência hepática. No entanto, ao mesmo tempo, novos medicamentos para hepatite C surgiram e ele foi para o Japão comprar os medicamentos necessários para tratar a infeção. Ele expressou preocupação sobre o uso restrito das novas drogas devido aos altos custos, afirmando que é crime não dar a todas as pessoas com hepatite C acesso aos medicamentos. Em 2016 foi diagnosticado um cancro no pâncreas, do qual morreu a 7 de fevereiro de 2017.

Rosling passou duas décadas a estudar surtos de uma doença paralisante a que se deu o nome do konzo, em áreas rurais remotas em toda a África. Em parceria com Julie Cliff, Johannes Mårtensson, Per Lundqvist e Bo Sörbo descobriram que os surtos ocorriam entre populações rurais atingidas pela fome em Moçambique, onde uma dieta dominada por mandioca insuficientemente processada resultava em desnutrição simultânea e alta ingestão de cianeto dietético.

O filho de Rosling, Ola Rosling construiu o software Trendalyzer para animar dados compilados pela ONU e pelo Banco Mundial que o ajudaram a explicar o mundo com gráficos. Cofundou a Gapminder Foundation juntamente com seu filho Ola e sua nora Anna, para desenvolver o Trendalyzer para converter estatísticas internacionais em gráficos interativos em movimento. As apresentações provocativas que resultaram o tornaram famoso. As suas palestras usando gráficos Gapminder para visualizar o desenvolvimento mundial ganharam prémios. As animações interativas estão disponíveis gratuitamente no site da Fundação.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Alterações climáticas. Isto vai mudar?




Se isto vai mudar? Vai! Mas não vai ser à custa do nosso livre-arbítrio. Vai ser à custa da drástica diminuição do número de seres da espécie humana. Como? As vias são múltiplas, uma delas é a diminuição da natalidade. Em Portugal, 69% (dados de 2018) das mães trabalham, em 1995 eram 59%. 56% das crianças que nascem são de pais não casados, e 19% os pais não vivem juntos; em 1960 apenas 9% eram filhos de pais não casados, e em 1990 15%. A idade média da mãe, no primeiro filho, é de 30,4 anos; em 1960 era 25 anos, em 1990 24,7 anos. Em 1960 cada mãe tinha, em média, 3,2 filhos, em 1990 1,6 filhos; hoje 1,4.

Virá um aumento da mortalidade por via de novas doenças infeciosas, catástrofes naturais e artificiais, guerras? Só os absolutamente radicais têm solução: são vegans, não tomam vacinas nem medicamentos, só viajam a pé ou de bicicleta e mais uma série de coisas (claro que se todo o mundo adotasse isto, os níveis de emissões, poluição, etc. diminuiriam drasticamente, assim como subiria em flecha a taxa de mortalidade). Não responde aos anseios do mundo.




O sexto relatório do IPCC, cuja primeira de quatro partes foi publicada ontem, causa um efeito paradoxal. O contraste não pode ser maior, entre a produção de relatórios científicos e o estrondoso fracasso no plano prático da ação concreta que seria necessária para combater as alterações climáticas. Fracasso prático, pois apesar de todos os alertas, a verdade é que desde 1988 a humanidade emitiu mais gases de efeito estufa para a atmosfera do que desde que o Homo é sapiens até aí.

Este relatório confirma-nos tudo aquilo que há anos ainda poderia suscitar dúvidas. O que está em curso já é inevitável e não é reversível. Contudo, a ação coletiva não pode baixar os braços. Há que mitigar e adaptar o que pode ser adaptável. Os últimos 70 anos foram de uma irresponsável aceleração consumista. Agora só nos resta mudar para um estilo de vida onde a resiliência se conjuga com dignidade. Continuar a ignorar todos os alertas é obsceno. O futuro reserva caos e miséria, o que vai comprometer ainda mais a sobrevivência humana em largas regiões da Terra. Muitas das medidas em curso falham redondamente o teste do futuro.

De férias – entre a sarça ardente e a escuridão




Chegados a Dakar, passámos lá três dias antes de tomarmos a carreira até à sua aldeia natal. Metade dos habitantes das cidades africanas não tem uma ocupação definida. O que é que já fizeram? Quase tudo. No dia marcado dirigi-me à estação. Ele já lá estava à minha espera. Não tardaram aparecer os vendedores ambulantes, que não me largavam. Só desandaram quando apareceram mais passageiros. Um pequeno autocarro de 12 lugares sentados. Quando o autocarro arrancou éramos trinta passageiros. Dentro do autocarro um ar abafado e malcheiroso. A estrada, junto ao Atlântico, percorria ao longo de uma floresta de embondeiros.

Na aldeia não havia vedações, ou sebes. Todo o espaço é livre. Os campos ficam longe, onde parte da população trabalha. O seu único utensilio é a enxada. Cultivam mandioca e milho. Antes de lá chegarem já o calor aperta. A vida aqui é uma luta constante, entre a sobrevivência e a malária. A mulher ocupa grande parte do seu tempo a preparar a comida. À noite ouvem-se vozes, histórias cada vez mais raras, porque a aldeia aproveita o pequeno arrefecimento da noite para dormir.




No caminho de regresso, já no final da viagem, fizemos uma pequena paragem de descanso à sombra de uma árvore. Um tipo de árvore que existe por estas paragens, quase sempre isolada. Uma copa abundante, sempre verde. Quem percorrer os planaltos africanos, na imensidão do Sahel e da savana, terá oportunidade de ver uma imagem surpreendente que se repete muitas vezes. Superfícies imensas cobertas de areia e queimadas pelo sol em planuras sem fim de erva seca, sarças ressequidas dispersas por aqui e por ali. De repente, surge uma árvore solitária com ramos muito salientes, o seu verde exuberante e fresco tão intenso. Já ao longe se vê a sua mancha clara e viva sobre a linha do horizonte, embora não corra nenhuma brisa, as suas folhas movem-se e vibram levemente. Como é que surge aqui esta árvore no meio de uma paisagem verdadeiramente lunar? Para encontrar outra temos de percorrer por vezes muitos e muitos quilómetros.




Quando chega o meio-dia, e o ar começa a ficar incandescente, quem pode refugia-se à sombra da árvore – crianças e velhos, e se houver gado na aldeia, ele também. É melhor passar o calor do meio-dia à sombra da árvore. Nas barracas de argila é tudo apertado e abafado. Debaixo da árvore é mais arejado, podendo até acontecer que corra uma ligeira brisa. África significa milhares de situações variadas e diversificadas, mas completamente opostas. Alguém afirma: reina a guerra. E tem razão. Outra pessoa declara: reina a paz. Também tem razão, pois tudo depende. Onde? Quando?

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Era um Redondo vocábulo


Joana Afonso, filha de José Afonso, lembra-se de uma disputa entre ela e o irmão Pedro:
« Mas também queria o quarto arrumado. Lembro-me do meu irmão Pedro, com menos quatro anos e meio, que acabou com um brinquedo novo no lixo. Não me recordo de qual era o brinquedo, mas estávamos naquelas discussões: ‘É meu’, ‘é meu’, ‘não é nada, é meu.’ Ele veio e deitou-o fora. ‘Não é de ninguém. Nunca mais quero ouvir essa discussão’. Resultou até hoje. Não tivemos mais discussões dessas. O meu pai não suportava o egoísmo. Era tudo na base de: ou é de todos ou não é de nenhum!»

Mais do que impor regras, o que José Afonso transmitia aos filhos eram valores de partilha e de respeito pelo outro.



Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa


Vitorino conta que, quando José Afonso os visitava no Redondo, trazia sempre cadernos onde escrevia textos e um gravador grande. De vez em quando interrompia a conversa e fazia vozes para o gravador, em vários tons, como se fizesse arranjos para futuras canções.
«Andava sempre a perguntar-nos por histórias para escrever canções do quotidiano. Em maio de 1974, por exemplo, estávamos nós a cantar no Coliseu do Porto e entra uma mulher com uma cesta à cabeça com uma galinha de fora, a dançar o vira ao nosso lado. Está filmado, passou na televisão! Eram estas situações que o Zeca adorava.»

"Era um redondo vocábulo", escrito na prisão de Caxias e de forte pendor surrealista, é assim elogiado por Janita Salomé, irmão de Vitorino:
«É uma forma de falar de amor brilhante, genial. Só conheço este nível em poetas como o Herberto Helder. Ainda ontem à noite estive a ler a poesia dele e o último poema do livro editado pela Assírio & Alvim, escrito no início dos anos 50, era ele muito jovem, é de uma profundidade impressionante. O cenário é o da morte da avó, a avó estendida e as mãos juntas, e a visão que ele nos dá do fim e do princípio da vida, dessa constante no decorrer do tempo, é notável. E isso nele era espontâneo, não era elaborado.»

sábado, 7 de agosto de 2021

Vilar de Mouros há 50 anos


Dois verões sem festivais de música ao ar livre é de enlouquecer, Mark Knopfler que o diga com o seu Shangri-La. É indescritível o desalento que muitos estão a sentir neste momento, festivaleiros e não só, para quem o Verão de 2021 significa o segundo consecutivo em que não conseguirão reencontrar os seus festivais de música de eleição.
Fui para Vilar e Mouros, faz hoje precisamente 50 anos, também era um sábado, à boleia com o Fernando. Completamente despreocupados, não levamos tenda, não levamos saco-cama, porque íamos ficar na casa de umas primas do pai do Fernando, a 100 metros do recinto onde se ia realizar o festival.
Partimos de Braga rumo a Vilar de Mouros, para assistir a um acontecimento inédito: Elton John e Manfred Mann em Vilar de Mouros, para além de uma dúzia de bandas rock portuguesas. Depois de várias boleias pelo caminho, chegámos lá já de noite, dentro de uma carrinha Citroen sem janelas, ainda com restos de milho e farinha, o fulano devia ser padeiro. E mal saíamos da carrinha demos de caras com um rapaz quase da minha idade, mais novo cinco dias, também chamado Fernando, os três da mesma terra, ele vestido à hippy, nós com roupa em segunda mão comprada na Trofa, na Rouparia Económica, um armazém de roupa importada da América. Nada de mochila às costas, que ideia? Ainda não entrara na gíria festivaleira. Por isso zarpamos para Vilar de Mouros como se fôssemos tomar café como habitualmente ao Peninsular da Arcada em Braga. Desenhamos apenas num pedaço de cartolina um dedo polegar gigante a dizer: Vilar de Mouros.




Como já disse, tivemos o privilégio de dormir e comer numa casa mesmo junto à ponte sobre o rio Coura, e não podia ser mais perto do recinto onde ocorreu o festival, a menos de cem metros. Lá viviam umas primas do pai do meu amigo, que nos receberam e trataram principescamente. E no dia seguinte apareceu por lá um tio do Fernando, o irmão mais novo do pai, que trazia consigo uma cabeleira, como se pode ver na foto tirada pelo tio com uma polaroide, onde estou sentado no carro do marido da prima do meu amigo.

Sem pretensões de historiador profissional, nem amador sequer, é Vilar de Mouros porque as condições extraordinárias do local, abrigado e diversificadamente rico, atraíram no século VIII os Mouros, que construíram uma aldeia de acordo com a sua cultura. No século IX, Paio Bermudes, no âmbito da reconquista da região norte, hoje designada por Entre-Douro-e-Minho, assenhoreou-se deste vilar e mandou construir uma igreja em honra de Santa Eulália, mártir hispânica. Com as incursões normandas a população migrou para o interior, tendo Vilar de Mouros beneficiado com este movimento dada a sua interioridade. Com estas convulsões o povoado passou para a posse do rei como terra autossustentada com monte, minas, sobrado, gado, vinho, pão e sal que era produzido no lugar de Marinhas onde o fluxo das marés se fazia sentir. Em 1855 com o encerramento da Fábrica de Cerâmica de Viana, alguns operários fundaram no lugar de Além Ponte, em Vilar de Mouros, uma nova fábrica que exportava principalmente para o mercado galego a sua produção. O barro vinha da Figueira da Foz e de barreiras locais, e a areia para o vidro era transformada no moinho do Viso da Quinta da Barze




E agora dou entrada ao médico Augusto Barge, o grande impulsionador dos festivais de Vilar de Mouros. A primeira experiência já tinha sido conseguida em 1968, onde reuniu a Banda da GNR, Zeca Afonso, Carlos Paredes, Luís Gois, Adriano Correia de Oliveira, Quinteto Académico+2, Shegundo Galarza e alguns grupos folclóricos. Estima-se que assistiram a este festival cerca de quinze mil pessoas, repartidos por três dias. Bom, então para o Festival de 1971, depois de alguma indefinição, acabou por ser contratado Elton John, por 600 contos; e os Manfred Mann que terão custado pouco mais de cem contos. É claro, estavam contratados automaticamente os conjuntos (como se dizia nessa altura) portugueses: Quarteto 1111, Pentágono, Sindikato, Chinchilas, Contacto, Objectivo, Bridge, Beartnicks, Psico, Mini-Pop, Pop Five Music Incorporation, e outros.

Vilar de Mouros, a partir daí, passou a ser um destino turístico. O Dr. Barge exercia em Lisboa, mas sempre que chegava a Vilar de Mouros, a sua casa tornava-se num consultório. Os mais carenciados, o Dr. Barge fazia questão de ajudar. Daí a estima que granjeou no povo, que o recorda como o homem que colocou a aldeia no mapa. Se hoje ainda há alguma reverência perante a figura do médico, em 1971, numa comunidade rural, a palavra de um médico pode-se quase dizer que fazia lei. E isso foi determinante para o sucesso deste festival, não só para a aceitação perante a comunidade local, mas também como fator de crédito perante a sociedade em geral e até perante os intervenientes diretos. Não era um qualquer empresário, negociante ou investidor a promover o festival, mas um médico com vida organizada, com meios financeiros, com património à vista e com reconhecimento social, que dava crédito à iniciativa.




Rapidamente as estradas se encheram de jovens de cabelo comprido e vestidos de forma extravagante. O trânsito automóvel entre Caminha e Vilar de Mouros esteve parado durante horas, e a aldeia transformou-se de repente num enorme acampamento, numa confusão indescritível. Os terrenos reservados pela organização para acomodação dos campistas foram-se transformando em parques de estacionamento de automóveis, que não tinham sido previstos e todos os cantos serviam para montar uma tenda ou apenas um simples toldo. As margens do Rio Coura desapareceram debaixo do colorido das lonas das tendas, a paisagem transformou-se por completo em milhares de jovens. Nos locais de maior confluência alguns hippies vendiam artesanato típico do movimento e que atraía muitos curiosos. A população assistia a tudo isto com estupefação, mas ao mesmo tempo curiosa, como se de uma invasão pacífica e exótica de bárbaros se tratasse. Também havia estrangeiros - "Non-problème", o movimento hippie era internacional, pacifista e demonstrava-o na prática. Durante todo o Festival não houve registo de qualquer incidente ou altercação e a segurança esteve a cargo de um pelotão de 45 elementos da GNR do Porto, e, obviamente de alguns elementos da DGS (polícia política) que não chegou a uma dúzia. Até chegaram a protagonizar uma cena cómica ao confundirem a soprano Elisette Bayam com outra pessoa na clandestinidade. As forças da GNR tiveram uma atuação pautada pela discrição, procurando não estar à vista. 




A comida nas redondezas esgotou-se em todo o lado passado pouco tempo. Inclusivamente, há relatos de populares que distribuíram alimentos pelos festivaleiros mais esfomeados. Os campos de milho e as hortas começaram a receber visitas. Os sanitários colocados para o efeito não chegaram para as encomendas. No final do Festival, pode-se mesmo dizer, a maior parte das culturas estavam dizimadas. A população condescendeu de uma maneira geral, até porque tinha a promessa do Dr. Barge em indemnizar todos os prejuízos. Muitos festivaleiros optaram por se deslocar a freguesias vizinhas na busca de alimentos. Caminha, em breve, se viu invadida por uma turba esfomeada. A primeira reação dos comerciantes foi encerrar os seus estabelecimentos. Mas depois, com a atitude pacífica e simpática dos hippies, mudaram de opinião. As lojas abriram, e os cafés serviram o melhor possível toda a gente que aparecia.




Muitos dos que trabalhavam no campo tinham emigrado “a salto” para França, onde aprenderam, da noite para o dia, novas profissões, fazendo todos os sacrifícios para um dia regressarem. Estávamos em 1971 na chamada “primavera Marcelista” que, após alguns tímidos avanços e outros tantos recuos, não logrou vingar. Se é certo que a muito contestada PIDE tinha mudado de nome e agora era designada por DGS, os métodos eram os mesmos e os objetivos não tinham sido alterados. A guerra em África continuava a matar e a mutilar jovens, o Estado continuava a recusar qualquer solução política, apostando tudo na solução militar que já se arrastava há uma década. A censura continuava vigilante e ativa. Os cortes na imprensa e todo o tipo de proibições estavam a tornar-se cada vez mais ridículos. E o ridículo também mata regimes políticos. Na esfera do censor estavam os livros, o cinema, a imprensa e o mundo da música onde inúmeros cantores de intervenção foram banidos por completo. Tudo o que tivesse a autoria, por exemplo, de José Mário Branco, José Afonso ou Ary dos Santos era proibido e apenas podia ser editado ou transmitido clandestinamente. De facto, Portugal vivia entre a angústia da guerra, o desconhecimento da situação real, o isolacionismo político e um nível sócio cultural muito atrasado em relação aos vizinhos europeus.

Tal como em Woodstock, o Festival de Vilar de Mouros, em 1971, deu prejuízo. Apoio estatal não houve. E o único patrocínio chegou do Secretariado Nacional da Informação, no valor de Trinta Contos (30.000 Esc.). Só em publicidade, feita apenas em Portugal, a organização terá gasto cerca de Trezentos Contos. Houve as receitas da bilheteira. Pelas contas do Dr. Barge, o Festival custou Dois Mil Contos. A RTP comprometeu-se financiar com uma verba pelas filmagens do Festival.  Mas à última hora o seu presidente, Ramiro Valadão, voltou com a palavra atrás. Apenas apareceu uma pequena equipa para um apontamento de reportagem. É claro, não seria de esperar outra coisa senão serem convidados a abandonarem o recinto. Bem diferente foi o modo como a imprensa internacional foi recebida, pois circularam com todo o à vontade, tendo muitos deles dormido e comido na casa do Dr. Barge. Em meados dos anos 80 tive o prazer de conhecer o Dr. Barge na sua casa de Vilar de Mouros, numa visita que fizemos com um casal de amigos. Nessa altura, na pequena aldeia de Vilar de Mouros, a meia dúzia de quilómetros de Caminha, o tempo continuava a passar devagar, como em todas as aldeias minhotas. 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Ser branco, ser bom: Barbara Applebaum




Ser branco, ser bom: cumplicidade branca, responsabilidade moral branca e pedagogia da Justiça Social - Barbara Applebaum, 2010 Nova Iorque, Lexington Books


Barbara Applebaum iniciou a sua viagem, que se tornou a premissa para este livro, ao fazer a pergunta: “Implemento o que defendo teoricamente?" 
Applebaum começa por dizer que reconhece a sua própria posição como uma pessoa branca. E que tenta descrever uma pedagogia que desconstrua desassombradamente o espaço que ocupa no mundo. A raça está repleta de anedotas na literatura, seja quando é simplificada, seja quando é reificada.

Applebaum está convicta de que o ensino para a Justiça Social requer mais do que boas intenções. Na verdade, requer uma forte dose de moral e responsabilidade. Constatou que os estudantes brancos, apesar de bem-intencionados, tinham dificuldade em compreender a sua cumplicidade com o racismo. Esta alienação levou-a a ter a ideia de que uma pedagogia que aborde a questão do racismo precisa de ser explícita. Daí ela ter encetado a pedagogia da cumplicidade branca. 

Applebaum defende que a cumplicidade acaba por ser inevitável, quando o homem branco desfruta de privilégios sem justificação. E defende que isso não o desresponsabiliza. Applebaum oferece uma extensa revisão da literatura sobre 'ser branco', e estudos críticos sobre a problemática da brancura. Um dos conceitos primordiais que ela trabalha, é o conceito do ser 'branco'. Trata-se da brancura como uma forma performativa de ser. É essencial para o seu argumento de que a cumplicidade, inaceitável, não é um estado neutro de ser, mas sim um princípio ativo de comportamento racista. Ela apresenta exemplos específicos disso na sua própria prática de ensino quando interpela os bons alunos brancos. Até estes têm dificuldade em compreender o que representa 'beneficiar' do racismo. O sistema da civilização do homem branco europeu está montado de forma a privilegiar à partida o homem branco. E isso vê-se no dia-a-dia, nos comportamentos que reforçam esse sistema indevidamente. 

Applebaum faz um reparo muito importante ao referir que muitas vezes os brancos preferem distanciar-se assumindo uma postura moralmente superior ao tentarem ser neutros. Isto reforça a ideia de que, de alguma forma, a brancura é a norma não dita. Applebaum mostra as formas pelas quais a negação branca se tornou assustadoramente predominante, citando exemplos como a Fundação para os Direitos Individuais na Educação. Formas de policiar e limitar a educação da Justiça Social, para reforçar os poderes da brancura. Uma acumulação diária de pequenos atos de racismo que muitas vezes passam despercebidos aos próprios brancos. Estes exemplos explícitos de negação do privilégio do homem branco apoiam a tese de Applebaum: de que a cumplicidade branca, ainda que inconsciente, é predominante, e como tal prejudicial. Daí a razão para ela nas suas aulas encorajar os brancos a pensarem em si mesmos como um grupo responsável, como privilegiados, independentemente da circunstância pessoal ou da relação individual com o privilégio. 

Este tem sido o contributo de 
Barbara Applebaum para uma conversa mais ampla sobre a pedagogia da Justiça Social. Reconhece que, embora a sua teoria se baseie em interações individuais entre alunos e professores, baseia-se numa análise do racismo que é sistémica, seja consciente ou inconsciente a nível interpessoal. Ela sugere que se deve pesquisar mais para perceber como a cumplicidade também desempenha um papel noutras opressões, que podem incluir a islamofobia, a homofobia ou o classismo.

O que aqui se diz é realmente que confessar o privilégio branco está longe de ser suficiente. Os estudantes brancos deviam aceitar a sua cumplicidade no perpetuar de um racismo sistémico,  simplesmente porque são brancos. O racismo deles foi aprendido e internalizado, e assim o vão perpetuando mesmo sem darem conta disso. Applebaum exige mesmo, que os seus alunos acreditem no seu paradigma, que é o paradigma herdeiro das teorias de Michel Foucault. Portanto, se no fim das suas aulas, eles exibirem qualquer discordância, isso significa que eles não se empenharam o suficiente para compreenderem o assunto da maneira certa. Ela tem a certeza de que está na posse da 'verdade'. Como tal, acha-se no direito de sancionar os alunos reprovando-os.

A Teoria Crítica da Educação diz mesmo que é perigoso permitir que os alunos expressem discordâncias da Teoria. O conhecimento pós-moderno da realidade social é inabalável, pois a 'verdade' é o que é construído pela linguagem. A linguagem constitui a nossa realidade. É ela que fornece a estrutura conceptual, a partir da qual o significado é produzido. Esta tese do poder da linguagem é a pedra de toque da teoria pós-moderna. Daí que o seu impacto na Justiça Social é de um valor inestimável. É fundamental para controlar o que pode e o que não pode ser dito. Uma espécie de imperativo categórico que permeia todos os estudos culturais, e por maioria de razão, os estudos em Justiça Social. É claro que esta tradição de pensamento dos pós-estruturalistas franceses, ousou desconstruir tudo o que tinha a ver com os alicerces epistémicos da ciência importados da filosofia iluminista. Mas o ser crítico não quer dizer que não seja, do ponto de vista epistémico, pensamento desleixado. Os argumentos são pobres e carentes de evidência. 

Aqui chegados, neste contexto, podemos compreender melhor como estas ideias chegaram ao ativismo político, e como foi possível recentemente um vendaval tão estranho como o derrube em catadupa de tudo o que fosse estátua de branco conotado com o colonialismo racista europeu. Tudo muito certo, um radicalismo concordante com 
a forma como os "princípios pós-modernos" deveriam ser aplicados volvidos meio século após a sua nascença.