sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Theodor Herzl e o sionismo


Binyamin Ze'ev Theodor Herzl [2 de maio de 1860 - 3 de julho de 1904] foi um jornalista, jurista, escritor, dramaturgo e ativista político austro-húngaro, considerado o pai do sionismo político moderno. Herzl fundou a Organização Sionista Mundial e promoveu a ideia da imigração judaica para a Terra de Israel com o objetivo de estabelecer um Estado judeu. Por causa de seu trabalho sionista, ele é conhecido como o "Empreiteiro do Estado". Herzl é explicitamente mencionado na Declaração de Independência do Estado de Israel e é descrito nela como "o pai espiritual do Estado judeu". Assistiu ao caso Dreyfus em Paris e concluiu: “A assimilação é uma ilusão. Mesmo que os judeus se convertam, mesmo que sejam patriotas franceses ou alemães, nunca deixarão de ser vistos como judeus. A única solução é ter um Estado próprio.” O sionismo recupera uma dimensão antiga (o “povo de Israel” ligado à Terra Prometida), mas agora com linguagem moderna de nacionalismo. Por isso, em 1896, Herzl chamou ao seu panfleto fundador -- Der Judenstaat -- “O Estado dos Judeus”.


Theodor Herzl - 1904

Herzl nasceu em Pest, então parte do Reino da Hungria, de uma próspera família judia Neolog. Após uma breve carreira jurídica em Viena, tornou-se correspondente em Paris do jornal vienense Neue Freie Presse. Em 1878 a sua família mudou-se para Viena. Ele formou-se em Direito em 1884 e o seu trabalho inicial não tinha qualquer relação com a vida judaica, pois trabalhava como tarefeiro nos tribunais de Viena e Salzburgo. Ele queria muito ser um juiz em Salzburgo, mas a sua condição de judeu não o permitia. 

Em 1891 o jornal Neue Freie Presse ofereceu-lhe um cargo de correspondente em Paris. Ele aceitou o cargo, expressando, nesta época, as suas ideias num pequeno livro. Nesse cargo ele fazia ocasionalmente viagens a Londres e Constantinopla. O seu trabalho era inicialmente do género da crítica literária, descritivo e não político. Mais tarde ele tornou-se o editor literário do Neue Freie Presse. Herzl tornou-se simultaneamente um escritor de peças destinadas aos palcos vienenses, tendo sido autor de comédias e dramas. 

O uso do termo "sionismo" surgiu durante um debate público realizado na cidade de Viena, na noite de 23 de janeiro de 1892, e foi cunhado por Nathan Birnbaum, um escritor judeu local que fundara em 1885 a revista “Selbstemanzipation!” (Autodeterminação!). No entanto, considera-se que o "Pai do sionismo" tenha sido Theodor Herzl. Em 1894, cobriu o Caso Dreyfus, que desvelou na Europa o latente antissemitismo. Em 1895escreveu o célebre livro Der Judenstaat ("O Estado Judeu"). A principal ideia do livro era que a melhor maneira de formar um Estado judeu era a criação de um Congresso Sionista. Pouco tempo depois já havia formado o "Sionismo Político". 

Em 1897, Herzl convocou o Primeiro Congresso Sionista em Basileia, e foi eleito presidente da Organização Sionista. Ele iniciou uma série de iniciativas diplomáticas pedindo apoio para um Estado judeu. Junto do imperador alemão, Guilherme II, e do sultão otomano Abdul Hamid II, não teve sucesso. No Sexto Congresso Sionista em 1903, o Secretário Colonial Joseph Chamberlain, em nome do governo britânico, propunha o Uganda para a formação do Estado Judaico. Após o pogrom de Kishinev, foi recebida com forte oposição, pelo que foi liminarmente rejeitada.
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O termo "sionismo" é derivado da palavra "Sion" que, em hebraico, quer dizer elevado. Originalmente, Sião ou Zion era o nome de uma das colinas que cercam Jerusalém, onde existiu uma fortaleza do mesmo nome. Durante o reinado de David, Sião tornou se sinónimo de Jerusalém ou Terra de Israel. Em muitas passagens bíblicas, os israelitas são chamados de "filhos (ou filhas) de Sião". No Livro de Isaias, 62-1 -- o nome de Sião figura diversas vezes como equivalente para todo aquele que crê no Deus de Israel: Por amor de Sião não me calarei, e por amor de Jerusalém não me aquietarei, até que saia a sua justiça como um resplendor, e a sua salvação como uma tocha acesa. O século XIX foi uma época de irrupções nacionalistas em todo o mundo. Gregos, italianos, polacos, alemães e sul-americanos, entre outros, estabeleceram os seus movimentos nacionais em busca de singularidade política, étnica e cultural. Seguindo estes modelos, o sionismo foi o mais recente dos processos de renascença nacional a despertar na Europa.

A partir do Segundo Congresso Sionista, realizado em 1898, surgiram os Sionistas Socialistas, inicialmente um grupo minoritário, em sua maioria oriunda da Rússia, mas que exigiu representação na Organização Sionista Mundial. A presença dos sionistas socialistas seria cada vez maior, chegando à maioria dos delegados a partir do 18º Congresso, realizado em Praga, em 1933. Os sionistas socialistas formariam o principal núcleo político dos fundadores do Estado de Israel, gerando futuros líderes como David Ben-Gurion, Moshe Dayan, Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Alguns pensadores fundamentais para o conhecimento do sionismo socialista são Dov Ber Borochov e Aaron David Gordon. Ambos, porém, encontram em Moses Hess uma origem da combinação de um estado judeu e socialista. Diferentemente dos primeiros sionistas reunidos por Herzl, os sionistas socialistas não acreditavam que o Estado Judaico seria criado apelando à comunidade internacional, mas através da luta de classes e dos esforços da classe trabalhadora judaica na Palestina. Os socialistas pregavam o estabelecimento dos kibbutzim (fazendas agrícolas coletivas) no campo e de um proletariado nas grandes cidades.

A cisão da Organização Sionista pelos socialistas provocou a formação de um segundo bloco, a que se chamou de “Sionistas Políticos”, que tal como Herzl e também Chaim Weizmann, preconizavam a independência do Estado Judeu pela via diplomática. Em busca disso, o próprio Herzl encontrou-se com o Kaiser Guilherme II da Alemanha e com o sultão Abdulamide II da Turquia, com os quais pediu o apoio de seus países para o estabelecimento do Estado Judeu na Palestina. Após a morte de Theodor Herzl, em 1904, e com o fracasso de uma solução negociada para a independência do Estado Judeu, o sionismo político foi perdendo importância dentro da Organização Sionista.

Os maiores opositores dos sionistas socialistas seriam os sionistas revisionistas, que surgiram em 1925, liderados por Vladimir Ze'ev Jabotinsky, um filósofo liberal que pretendia reviver na Organização Sionista “o espírito e a doutrina de Herzl. Para os sionistas revisionistas, o Estado Judeu só seria viabilizado com a organização dos judeus em frentes paramilitares que combatessem, simultaneamente, a presença britânica na Palestina (a partir de 1917) e a resistência armada dos árabes muçulmanos da Palestina, que vinham atacando pessoas e propriedades dos sionistas. Os revisionistas também combatiam os socialistas, pois pregavam uma ideologia liberal e democrática (contrária ao marxismo) dentro da Organização Sionista e a defendiam para o futuro Estado Judeu.

O sionismo religioso combina o sionismo e o judaísmo religioso, baseando o sionismo nos princípios da Torá, Talmud e outros. Dizia-se que Moisés defendia ideias protonacionalistas na Torá desde que ele fugiu do Egito Antigo. Numa acepção menos comum, o termo pode também se referir ao sionismo cultural, proposto por Ahad Ha'am, e ao apoio político dado ao Estado de Israel por não judeus, tal como no sionismo cristão. Relativamente às críticas dirigidas ao sionismo, de que seria um movimento de cunho racista, tal não colhia porque palestinos e judeus não são racialmente distintos.
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Herzl estava com problemas de saúde. Sofria de malária, com insuficiência respiratória e cardíaca. Seguindo o conselho dos médicos, em 3 de junho, entrou no sanatório em Edlach on theSemmering, acompanhado da esposa. Em julho contraiu uma pneumonia. Ele estava com febre, hemoptises, consciência diminuída. Em 2 de julho, ele foi visitado pelo Rev. Hechler. Morreu em 3 de julho de 1904, às 17:00, devido a uma pneumonia, aos 44 anos. 
A cobertura do funeral na imprensa hebraica foi retratada como um grande evento mediático.
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O que é que os judeus têm de tão especial, que passados três mil anos (arredondando) continua a haver muito boa gente nos dias de hoje que não gosta nada deles. Porquê? O que há neles de tão profundo? Esta é uma pergunta muito complexa, que toca em história, religião, cultura, psicologia coletiva e até em preconceitos que atravessam os séculos. Desde cedo, os judeus se distinguiram por uma identidade religiosa, cultural e legal muito coesa. Enquanto outros povos da Antiguidade foram absorvidos ou desapareciam, os judeus mantiveram práticas próprias (alimentação, circuncisão, monoteísmo rigoroso). Isso chamava a atenção, porque eram “diferentes demais” dentro de sociedades politeístas. Esse "não se deixar assimilar" gerou, historicamente, tanto respeito como hostilidade.

O monoteísmo judaico foi radical para o seu tempo. Rejeitaram deuses alheios, o que foi visto como afronta direta à ordem política e religiosa dominante. Roma, por exemplo, considerava crime não cultuar os deuses cívicos. Mais tarde, com o cristianismo, surgiu o peso da acusação de “povo deicida” - por terem rejeitado e "matado" Jesus, conotado como falso Messias. Durante séculos, isso alimentou perseguições, expulsões e massacres na Europa. Quando o Islão ascendeu ao ponto de ter criado um império árabe, embora houvesse períodos de convivência com os judeus devido ao seu papel como “Povo do Livro”. Seja como for, onde quer que estivessem, os judeus não passavam de uma minoria distinta. Minorias, sobretudo quando bem organizadas e resilientes, tendem a despertar desconfiança. Os judeus eram frequentemente colocados em papéis sociais específicos (comércio, cobrança de impostos, finanças), porque outras profissões lhes eram vedadas. Isso criava a imagem estereotipada de “manipuladores de dinheiro”. Num mundo de desigualdade, é fácil que uma minoria visível seja transformada em bode expiatório. 

O judaísmo sempre deu enorme importância ao estudo, à palavra escrita e à interpretação, como é exemplificado com o Talmude, um paradigma de exegese. Essa ênfase no saber produziu ao longo dos séculos um número desproporcional de figuras marcantes em filosofia, ciência, política e artes. Isso tanto gerou admiração como inveja e ressentimento. Como o ser humano, por inerência, é dado a interpretações, essa natureza cognitiva teve como efeito colateral o fomento de superstições e teorias da conspiração. O que não deixa de ser extraordinário é a sua resiliência histórica -- sobrevivência ao exílio, à diáspora, à Shoah. É incomensurável a força simbólica que carregam. Tudo isso nos leva a concluir que a hostilidade é algo de profundo na relação humana para com povos minoritários e antigos, distintos. Daí que a resistência e resiliência dos judeus desperte simultaneamente admiração e aversão.

Focando neste momento mais a parte histórica e política, deixando temporariamente de lado a teologia, o problema já está bem documentado no tempo do Império Romano. O facto de se recusarem a participar no culto imperial foi visto como deslealdade política. As revoltas judaicas contra Roma (66–70 e 132–135 d.C.) constituem o marco decisivo do seu destino na diáspora. Diáspora tão atribulada durante tantos séculos depois da brutal destruição do Templo. O Templo ainda hoje é uma marca visível da sua origem identitária. Durante toda a Idade Média muitas profissões estavam vedadas aos judeus (propriedade da terra, cargos políticos, universidades). Restava-lhes comércio, artesanato e finanças. Isso acabou por ligá-los ao crédito, atividade malvista, mas indispensável. Reis e nobres muitas vezes usavam os judeus como cobradores de impostos e banqueiros da coroa. E depois, para agradar ao povo, ou para não lhes pagar as dívidas, expulsavam-nos através de pogroms. 

Pogroms famosos aconteceram com as Cruzadas, depois no tempo da Peste Negra (1348–49) em que foram acusados de envenenar os poços da água. Houve um tempo no mundo muçulmano em que os judeus eram considerados dhimmi (povo protegido). Mas em condição de subordinação e pagando impostos especiais. Mesmo assim, não escaparam a episódios de perseguição em Córdoba, Granada e no Iémen. Depois vieram as grandes expulsões da Península Ibérica no tempo dos Reis Católicos em Espanha e de Dom Manuel I em Portugal, respetivamente nos anos de 1492 e 1497. Os que quiseram ficar foram obrigados a converter-se ao cristianismo, passando com isso a ser classificados como "Cristãos-Novos". Isso, todavia, não lhes serviu de muito porque continuaram a ser suspeitos de praticar o judaísmo em segredo. A Inquisição perseguiu milhares. Esse clima criou a imagem do judeu como “estrangeiro perpétuo”: mesmo quando convertido, não era considerado confiável.

Entretanto, nos séculos XIX e XX, com o culminar da modernidade, os judeus ganharam cidadania em muitos países europeus. Isso libertou-os dos guetos, mas também desencadeou o antissemitismo racial. No século XIX, com o advento dos nacionalismos, os judeus deixaram de ser perseguidos só pela religião. Agora eram vistos como uma “raça inferior ou corruptora”. O caso Dreyfus em França (1894) revelou como até um oficial patriota podia ser considerado traidor apenas por ser judeu. O panfleto falso “Protocolos dos Sábios de Sião” (1903) espalhou a teoria da conspiração de que os judeus tramavam dominar o mundo. O nazismo levou o antissemitismo racial ao extremo: a ideia de “solução final” significava o extermínio físico dos judeus da Europa = Shoah ou Holocausto. Seis milhões (1941–1945) passaram pelos campos de concentração e em sequência exterminados pela via da cremação. Paradoxalmente, isso reforçou ainda mais a singularidade da História Judaica, porque nenhuma outra minoria europeia foi alvo de um plano tão sistemático de destruição.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

A aliança simbólica entre causas


O quadro atual da aliança simbólica no ativismo político pode ser resumido da seguinte maneira: O marxismo cultural forneceu a gramática da opressão; O pós-estruturalismo forneceu a desconfiança perante a verdade objetiva; O pós-colonialismo forneceu o inimigo comum que é o Ocidente; O feminismo interseccional forneceu a emoção e a culpa moral. Daí resultou uma aliança difusa, mas coerente no plano simbólico, entre ativismo anticapitalista e anti-ocidental. O feminismo interseccional e a academia geraram o “wokismo”. E a cereja no cimo do bolo representa os movimentos pró-palestina incondicionais, mesmo quando defendem grupos intolerantes. Tudo isso se une num mesmo arquétipo moral: “os oprimidos estão sempre certos”.

O pós-estruturalismo e a fragmentação da verdade marcam os anos de 1970 a 1990. Foi o apogeu dos pensadores franceses como Foucault, Derrida e Deleuze, que romperam com a ideia marxista de uma história racional e linear. Eles desconstruíram a própria noção de “verdade universal”, vendo-a como instrumento de poder. Foucault, em especial, influenciou a ideia de que todo o discurso é um ato de dominação. Assim, a linguagem tornou-se um campo de batalha política. É daí que surge a cultura “woke”. O poder é difuso e infiltrado nas instituições, na ciência, na sexualidade, na linguagem. A libertação passa a significar denunciar e desconstruir todas as estruturas de poder ligadas ao patriarcado e ao colonialismo. 
Mas essa visão radicalmente desconstrutiva destruiu também as bases de um debate racional. Tudo se transformou numa questão de “posicionamento moral”.

A fusão pós-colonial: Said, Spivak e a viragem anti-ocidental -- Nos anos 1980-90, autores como Edward Said, Gayatri Spivak e Homi Bhabha fundem o marxismo cultural com a crítica pós-colonial. O Ocidente é reinterpretado como um sistema global de dominação cultural e racial. Daí nasce a ideia de que o “Sul Global” é vítima permanente do “Norte Global”. Assim, a luta dos palestinos é incorporada como símbolo máximo do anticolonialismo contemporâneo. Israel passa a ser descrito não como uma nação democrática multicultural, mas como a “vanguarda colonial do Ocidente”. Isso levou a que o terrorismo perpetrado pelo Hamas passasse a ser normalizado como resistência e luta de liberação.

Nos anos 2010, o feminismo interseccional (Kimberlé Crenshaw) amplia essa lógica: todas as opressões se interligam. A mulher branca ocidental já não é “oprimida”, mas cúmplice do patriarcado e do colonialismo. O verdadeiro sujeito revolucionário passa a ser: mulher racializada, muçulmana, migrante, queer. É aqui que muitas académicas “wokistas” entram no jogo. Reivindicam a culpa histórica do Ocidente. Identificam-se com os “oprimidos” do Sul global. E, paradoxalmente, fecham os olhos às opressões internas do mundo islâmico, particularmente às mulheres. Essa moral da culpa torna-se quase religiosa: o ativismo é a penitência.

Este é o grande paradoxo: a condição absoluta de vítima. É abolida a responsabilidade moral, quer do indivíduo, quer da minoria oprimida. Um grupo pode cometer atrocidades desde que continue “oprimido”, desde que o inimigo seja o Ocidente. E quem define a opressão? O oprimido! A subjetividade do que se sente oprimido, do que se sente vítima, é a verdade absoluta. Assim, o Hamas é visto como “resistência”, não como terrorismo. E o discurso crítico é neutralizado com slogans morais: “colonialismo”, “apartheid”, “genocídio”. É um dogma, uma espécie de religião secular de salvação dos oprimidos, com toda a intolerância dogmática que isso implica.

Giulia Daniele é uma académica do ISCTE, um exemplo de pessoa que se encaixa no que acabou de ser descrito. Define-se como ativista, vindo para a rua juntar-se à manifestação a favor da causa palestiniana. Ela estuda precisamente a questão da Palestina, com narrativas étnicas, e de colonização por parte de Israel. Esse enquadramento interpreta o conflito como colonialismo / dominação / injustiça histórica. Ela investiga o ativismo, especialmente feminista, cidadania e resistência. O artigo sobre #SaveSheikhJarrah exemplifica uma análise de ativismo digital + intervenções práticas de resistência. O uso do conceito de colonização de assentamento (“settler colonialism”).


Investigação académica é militância incondicional? Ser investigadora que questiona em narrativas, que estuda ativismo feminista, etc., é defender sem reservas o Hamas? Não se pode afirmar isso. Não se encontram declarações explícitas a apoiar a organização terrorista. Não há, pelo menos nas fontes, declarações públicas que defendam incondicionalmente o Hamas, ou ignorem completamente as suas complexidades.

No balanço, Giulia Daniele parece em muitos aspectos se encaixar no paradigma wokista. Ela trabalha com temas de opressão, resistência, ativismo, género, narrativas pós-coloniais, etc. Isso indica que ela partilha componentes centrais desse tipo de abordagem de “ativismo académico crítico”. Cessar-fogo imediato e ajuda humanitária. Numa dessas declarações, ao referir o novo centro de investigação, ela fala em “genocídio que se vê em direto há 20 meses”. Isso sugere que ela usa termos fortes e que a sua perspectiva acerca dos efeitos do conflito tende a colocar em foco as alegações de violação dos direitos humanos por parte de Israel bastante criticamente.

Grande parte do discurso ativista, incluindo o de académicos que se apresentam como “defensores dos direitos humanos”, centra-se quase exclusivamente nas vítimas palestinianas e na crítica a Israel. Há paralelamente um silêncio sobre as causas, nomeadamente os atos do Hamas no massacre de 7 de outubro de 2023. Para além de o Hamas ter como estratégia o uso de civis como escudo humano. É a típica narrativa truncada. Esse desequilíbrio moral e analítico produz um efeito indireto de branqueamento: o Hamas desaparece como agente moral, e passa a figurar apenas como uma “reação inevitável” à opressão.

A moral política do ativismo contemporâneo opera numa lógica binária: o oprimido tem sempre razão. Logo, se Israel é o opressor, qualquer ação do oprimido é, no mínimo, compreensível e, no máximo, justificada. Esta forma de raciocínio suprime a responsabilidade ética individual e institucional do Hamas. É aqui que o branqueamento se torna ideológico, mesmo sem intenção consciente -- ao absolver o oprimido de toda responsabilidade moral. Ele é transformado em vítima pura. O que, por implicação, limpa a imagem do Hamas. Portanto, mesmo de modo não intencional ou indireto, esse tipo de retórica acaba por contribuir para o branqueamento do Hamas. Não por simpatia explícita, mas por assimetria moral: fala-se da violência de Israel, ignora-se a violência do Hamas, e transforma-se a tragédia em Gaza numa narrativa onde o terror inicial desaparece.

O paradoxo é que, ao tentar denunciar a injustiça, essa visão termina por proteger o fanatismo, tornando-o invisível no discurso público. E isso, em última análise, não ajuda nem os palestinianos, nem a causa da paz. É preciso perceber o não-dito -- aquilo que não se afirma explicitamente, mas que está inscrito nas entrelinhas do discurso, nos seus silêncios, escolhas de vocabulário e enquadramentos morais. É aí que a semiótica entra: o significado não está apenas nas palavras, mas nos seus contrastes e omissões. A hermenêutica permite-nos ver o contexto histórico e simbólico, perceber que, ao falar de “genocídio”, “resistência” ou “colonialismo”, certos termos são chaves de leitura ideológica que ativam emoções e pertenças identitárias, mais do que raciocínios críticos. Para irmos ao fundo, às profundidades da mente humana, não basta a razão, ou a inteligência cognitiva. Aqui, temos de usar a inteligência emocional e performativa. É o toque fino das grandes e profundas questões: captar o tom, o desconforto, o modo como alguém fala de um tema sensível. E o que isso revela sobre a sua posição interior.

Juntando mais dimensões do nosso arcaboiço intelectual, identificamos algo que escapa à pura análise racional. Uma moralidade implícita, ainda que se afirme generosa e compassiva, na prática, absolve o mal quando vem do lado da nossa barricada, que consideramos sempre estar do lado certo da História. Ora, isso não existe, pelo menos para quem for pessimista antropológico, a postura binária de uma dialética entre "os bons e os maus", em que o "nós", obviamente, está sempre do lado dos bons. Um posicionamento deste tipo (pessimismo antropológico) é mais do que político, é civilizacional. Vai para além do sintoma. Porque a dificuldade está em manter uma ética da responsabilidade num mundo saturado de narrativas de vítimas e culpados.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Um caso único em toda a sua dimensão universal

O que é que os judeus têm de tão especial ?

De facto, há uma boa base histórica e política para dizer que a experiência judaica é sem paralelo. A criação do Estado de Israel em 1948 foi vista pelos judeus como reparação histórica e refúgio seguro. Mas também transformou o “problema judaico” em questão geopolítica. O conflito israelo-palestiniano gerou novas hostilidades, agora não apenas religiosas ou raciais, mas políticas e nacionais. Para parte do mundo árabe e islâmico, o Estado judeu é um corpo estranho, visto como produto do imperialismo ocidental. Para a extrema-direita europeia e americana, Israel alimenta a retórica de “judeus controlam a política mundial”.

O antissemitismo continua, mas assume formas diferentes. Na extrema-direita: teorias da conspiração sobre “domínio financeiro global”. Na extrema-esquerda a aversão é radical, uma mistura de hostilidade generalizada aos judeus. O paradoxo é que os judeus são hoje, demograficamente, um povo muito pequeno (menos de 0,2% da população mundial), mas politicamente e simbolicamente continuam a ter um peso enorme.

O “especial” dos judeus não é tanto algo neles mesmos, mas o facto de serem uma minoria persistente, visível e influente, que atravessou impérios, religiões e ideologias sem desaparecer. Essa resiliência é interpretada ora como exemplo de força cultural, ora como ameaça, e por isso gera tanto fascínio como hostilidade.

Muitos povos da Antiguidade desapareceram: hititas, sumérios, cartagineses, partos, e também filisteus (alegadamente os antepassados dos palestinianos). Os judeus, apesar da sua saga, desde o tempo das duas destruições do "Templo", seguido da diáspora no tempo do Império Romano e da ascensão do Cristianismo, mantiveram a sua língua litúrgica, o hebraico, bem como as leis, os costumes, e a sua férrea identidade. Não é o único povo de diáspora, outras diásporas existem (arménios, gregos, ciganos), mas nenhuma com tanta persistência simbólica universal. Isto já dá ao caso judaico uma aura de “sobrevivência milagrosa” aos olhos da História.

O judaísmo não ficou apenas como uma religião étnica. Ele gerou duas das maiores religiões universais da humanidade: Cristianismo e Islamismo. Assim, mesmo os povos que perseguiam judeus tinham de lidar com eles como raiz das próprias crenças. Esse paradoxo (serem a origem, mas recusarem-se a fundir-se no ramo maioritário) alimentou um ressentimento profundo. Nenhuma outra minoria carrega este peso universal: ser minoria e ao mesmo tempo “fundamento espiritual” do Ocidente e do Islão.

O ódio aos judeus é o ódio mais duradouro e adaptável da História. O antissemitismo é, para todos os efeitos, um modelo de ódio, que começou na Roma Antiga como questão política, em que recusaram sempre se submeterem a outras culturas. Na Idade Média os cristãos resolveram acusá-los de terem matado Deus (Jesus Cristo). O deicídio era, no entanto, uma questão religiosa. Mas no século XIX já se tratava de uma questão racial. E no século XX culminou no Holocausto, uma tentativa de extermínio. Hoje passa a ser uma questão geopolítica na convivência entre israelitas e palestinianos. O ódio nunca desaparece, apenas muda de roupagem conforme a ideologia dominante. Nenhuma outra minoria teve um ódio tão “plástico” e reaproveitável ao longo dos séculos.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Os povos do Médio Oriente e Norte de África


Os Povos do Médio Oriente e Norte de África envolvem Árabes + Persas + Turcos + Curdos + Berberes / Amazigh + Hebreus (Israelitas). Os árabes estendem-se do Atlântico (Marrocos) ao Golfo Pérsico (Omã) nesta série de países – Egito, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos, Sudão, Síria, Líbano, Jordânia, Palestina, Iraque, Península Arábica (Arábia Saudita, Iémen, Omã, EAU, Qatar, Kuwait, Bahrein). Falam vários dialetos da língua árabe. Ainda existe um subgrupo importante: beduínos (nómadas do deserto da Península Arábica e do Levante).

O Povo Persa -- que faz parte na sua maioria do Irão, fala o persa farsi, mas há minorias no Afeganistão e Tajiquistão (falantes de persa/dari/tajique). Portanto, os persas constituem uma identidade cultural distinta dos árabes. Os turcos distribuem-se sobretudo pela Anatólia: Turquia (núcleo), Chipre do Norte (reconhecido apenas por Ancara). A língua é o turco, e uma cultura que é herdeira do Império Otomano. Os Curdos são um povo das montanhas entre Turquia, Iraque, Síria e Irão (Curdistão). Não têm Estado próprio e falam curdo, da família indo-europeia. Ainda vivem numa luta na esperança de um dia constituírem um Estado independente.


Os Hebreus ou Israelitas quase dispensam apresentações. O Estado de Israel resulta de uma concertação ocidental liderada pelos ingleses que culminou em 1948 na proclamação de independência em contestação de quase todos os outros povos do Médio Oriente. Os israelitas resultam de uma longa diáspora do povo judeu marcado pelo Holocausto nazi durante a Segunda Guerra Mundial. A língua é o hebraico moderno, embora também reconheçam o árabe falado por 20% da sua população de origem árabe.

Na Síria a grande maioria da população é árabe, de língua árabe e cultura árabe, embora existam minorias importantes (curdos, assírios, arménios, drusos, circassianos, turcomanos). Oficialmente, o Estado sírio é definido como parte do “mundo árabe”, e a Síria foi um dos berços do pan-arabismo (com figuras como Michel Aflaq, fundador do Baath). O Iraque também é maioritariamente árabe, mas com uma diversidade ainda mais acentuada: os árabes são a maioria, sobretudo no centro e sul); Curdos (no Norte, com autonomia na região do Curdistão iraquiano); outras minorias: turcomanos, assírios, yazidis, mandeus. Em suma, Síria e Iraque são, no essencial, países árabes, parte da chamada “nação árabe” (al-Umma al-ʿArabiyya), mas com mosaicos étnicos significativos. Diferem do Irão, por exemplo, que é persa no núcleo (ainda que também tenha árabes, curdos, azeris, balúchis). Ou seja, tirando Israel e o Irão, praticamente todos os outros países do Médio Oriente são árabes, com exceções importantes de minorias.

Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia fazem parte do chamado Magrebe Árabe. A língua árabe é oficial (embora no dia a dia se fale árabe magrebino, com grandes variações locais) e também o francês continua a ter peso (especialmente em Marrocos e Argélia). São reconhecidos como países árabes, membros da Liga Árabe. Nestes quatro países existe uma componente étnica muito forte de berberes / amazigh, povos nativos do Norte de África que têm hoje movimentos de afirmação cultural e linguística. 

O Mundo Árabe vai do Atlântico (Marrocos) até ao Golfo Pérsico (Omã), atravessando todo o Norte de África e o Médio Oriente, com exceção dos três casos já referidos: Turquia, Irão e Israel. Os berberes / amazigh distribuem-se pelo Norte de África (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Mali, Níger) e também não têm um Estado independente, com forte presença em Marrocos e Argélia. A língua amazigh é da família afro-asiática, diferente do árabe. São povos autóctones do Magrebe, anteriores à chegada dos árabes. Os beduínos são uma parte interna do mundo árabe, enquanto os berberes são um povo à parte, que foi parcialmente arabizado, mas preserva uma identidade distinta. Estas duas identidades étnicas entroncam nas grandes famílias da região do Médio Oriente – que envolve árabes, persas, turcos. 

Como se encaixam berberes e beduínos no Médio Oriente e Norte de África? A palavra “beduíno” vem do árabe badawī (بَدَوِي), que significa literalmente habitante do deserto. São árabes nómadas ou semi-nómadas, tradicionalmente criadores de camelos, cabras e ovelhas, vivendo em tendas e deslocando-se conforme as estações e a disponibilidade de pasto e água. A sua cultura está associada sobretudo à Península Arábica, mas também se espalham pelo deserto sírio, Jordânia, Iraque, Egito (Sinai) e até partes do Saara. Falam dialetos árabes, alguns dos quais preservam traços mais antigos do árabe clássico. Organizada em tribos (qabīla) e clãs familiares, com forte lealdade tribal. Códigos de honra: hospitalidade, coragem, lealdade à tribo e poesia oral são marcas centrais. Foram os beduínos que preservaram e transmitiram a poesia pré-islâmica, considerada uma joia da língua árabe. A partir do século XX, muitos beduínos foram sedentarizados pelos governos (especialmente na Arábia Saudita, Israel, Egito e Jordânia), passando a viver em cidades e aldeias. Mesmo assim, mantêm uma identidade própria e são vistos como guardiões da “tradição árabe”. Em alguns países (ex.: Israel, Jordânia, Egito) ainda há comunidades beduínas que vivem em tendas no deserto e mantêm parte do modo de vida antigo. Os berberes / amazigh não são árabes – são os povos autóctones do Norte de África, com raízes muito mais antigas, pré-islâmicas (existiam já no tempo dos faraós e romanos). Vivem principalmente no Magrebe (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia), e também em partes do Saara e do Mali/Níger. A língua amazigh/tamaziɣt é da família afro-asiática, como o árabe, mas diferente. Podem ser agricultores de montanha (Atlas), pastores nómadas no Saara ou até urbanos. Têm uma forte consciência cultural própria, distinta dos árabes. Hoje muitos são bilíngues (amazigh + árabe ou francês). Os movimentos de afirmação amazigh conquistaram reconhecimento. Por exemplo, a língua amazigh é oficial em Marrocos e na Argélia.

sábado, 4 de outubro de 2025

Em nome de uma bandeira “humanitária”


Essa flotilha rumo a Gaza, tal como já aconteceu noutras ocasiões, não deixa de ser um gesto simbólico mais próximo da encenação política do que de uma ajuda efetiva. Muitas vezes estes movimentos apresentam-se como atos de solidariedade, mas, na prática, funcionam como propaganda. E ao desafiar diretamente forças militares numa zona de conflito, arriscam não só a vida dos próprios como também a instrumentalização da causa que dizem defender.

Além disso, há uma hipocrisia latente: quem apoia de forma acrítica esse tipo de ação esquece que, ao colocar-se automaticamente “do lado de Gaza”, acaba por fechar os olhos ao carácter autoritário, teocrático e violento do Hamas. Essa contradição – lutar contra opressões no Ocidente, mas tolerar ou até legitimar opressões noutros contextos – é um traço típico do dogmatismo político de certas franjas da esquerda radical. Ou seja, não é que a preocupação com a situação humanitária em Gaza não seja legítima, mas o modo como é usada como pretexto para gestos espetaculares e irresponsáveis reduz a seriedade da causa. No fundo é uma fantochada que só acirra divisões e não resolve nada.

Gestos de “ativismo simbólico” ou solidariedade internacional, feitos em nome de causas justas, acabaram por, na prática, favorecer regimes ou movimentos autoritários. Muitos intelectuais e militantes de esquerda na Europa e na América Latina viam Cuba como um farol de libertação contra o imperialismo. No entanto, fechavam os olhos para a repressão política, a censura e os expurgos internos promovidos por Fidel Castro. O romantismo revolucionário serviu como uma espécie de "escudo moral" que ajudou a legitimar o regime durante décadas. A Frente Sandinista derrubou a ditadura de Somoza, o que gerou grande simpatia internacional. Muitos movimentos de solidariedade, sobretudo na Europa, mobilizaram-se para apoiar a Nicarágua com campanhas de ajuda, brigadas de trabalho voluntário e propaganda política. Mas esse apoio raramente incluía uma crítica séria às tendências autoritárias do sandinismo, como a perseguição a opositores, a instrumentalização da imprensa e a repressão a comunidades indígenas.

As Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) reuniram voluntários de todo o mundo contra o fascismo, o que em si parecia nobre. Mas, por detrás do romantismo, estavam fortemente controladas por Moscovo e pelo Comintern, que as usavam para reforçar a agenda estalinista na Península. Isso resultou na perseguição e eliminação de anarquistas e trotskistas, em nome de uma “unidade antifascista” que, de facto, consolidava um modelo autoritário. Muitos intelectuais e organizações de esquerda apoiaram, de forma acrítica, movimentos palestinianos em nome do anti-imperialismo. Porém, ignoraram que, em várias fases, esses grupos tinham uma forte componente islamista, autoritária ou mesmo terrorista. Assim, em vez de apoiar uma solução equilibrada de autodeterminação e paz, acabaram por reforçar narrativas que justificam violência indiscriminada.

O padrão que se repete é este: o romantismo ativista foca-se na luta contra um inimigo “visível” (o imperialismo, o fascismo, o capitalismo, Israel, os EUA), mas fecha os olhos para os males do lado que apoia. Isso cria uma cegueira seletiva que, no fim, perpetua autoritarismos. Ao longo da história contemporânea, certas formas de ativismo político – muitas vezes oriundas da esquerda radical – revestiram-se de uma aura de nobreza e solidariedade internacional. Porém, quando analisadas em profundidade, revelam um paradoxo: em nome de causas justas, acabaram por legitimar ou reforçar regimes e movimentos autoritários. Exemplos como a Revolução Cubana e a Nicarágua sandinista mostraram como intelectuais e militantes do Ocidente, fascinados pelo ideal anti-imperialista, fecharam os olhos para práticas repressivas internas. O mito da “ilha da liberdade” ou da “revolução popular” tornou-se mais forte do que a realidade concreta de censura, perseguições e concentração de poder.

Desde os anos 70, vários movimentos pró-palestinos encarnaram a mesma contradição: denunciavam, com razão, a ocupação e a violência contra os palestinianos, mas abraçavam sem crítica grupos que recorriam ao terrorismo e ao autoritarismo religioso, como se esses males fossem secundários perante o “inimigo principal”. O denominador comum destes episódios é a cegueira seletiva: o ativismo dogmático identifica um inimigo absoluto (o capitalismo, o imperialismo, o fascismo, Israel, os EUA) e, nesse processo, absolve ou relativiza os erros do campo que apoia. A exigência ética e crítica é sempre unilateral.

O Caso Atual: Flotilhas e Gaza. As flotilhas que hoje se dirigem a Gaza com alegada ajuda humanitária ilustram esse padrão. Sob a bandeira da solidariedade, encenam gestos espetaculares que pouco contribuem para aliviar o sofrimento real da população. O resultado é duplo: alimentar narrativas radicais e oferecer legitimidade indireta ao Hamas, um movimento teocrático e violento. O ativismo político, quando guiado por dogmas, transforma-se numa fantochada perigosa: teatraliza a solidariedade, mas sacrifica a lucidez crítica. Em vez de contribuir para soluções equilibradas, reforça divisões e dá oxigénio a atores autoritários. A maturidade política consiste precisamente em resistir a esses encantos românticos e reconhecer que nem todo inimigo do nosso inimigo é nosso aliado.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Os netos e o património da herança dos fundadores


Muitas vezes, o padrão que se observa é este: Primeira geração (o fundador) – o homem (ou a mulher) que constrói o património, normalmente com esforço pessoal, sacrifício e uma mentalidade de risco e trabalho duro. Segunda geração (os filhos) – crescem já num ambiente de maior conforto. Podem herdar o negócio ou o património, mas muitas vezes não têm o mesmo impulso, porque não sentiram na pele a luta inicial. Há um risco de dispersão, má gestão ou até de afastamento do espírito empreendedor. Terceira geração (os netos) – por vezes, retomam o valor do legado, inspirados pela figura do avô. Eles podem olhar para trás com mais distância, ver o “mito fundador” e sentir orgulho, tentando reconstruir ou perpetuar o que foi deixado. Ou seja: os netos são, muitas vezes, mais determinantes que os filhos na continuidade ou na transformação do património.

Entre máximas e ditados, há este: “Pai rico, filho nobre, neto pobre” (ou variantes). A ideia é que a riqueza construída numa geração pode ser dissipada na seguinte, mas os netos, tendo perdido, voltam a valorizar a herança ou a história do avô. Claro que isto não é uma regra universal. Em muitas famílias, são os filhos que continuam com sucesso. Mas, estatisticamente, há vários estudos em sociologia e economia familiar que mostram essa tendência de erosão patrimonial ao longo de gerações. O que faz com que os netos muitas vezes assumam um papel de “reconstrução” ou de “restauração da memória”.

A famosa frase inglesa “Shirtsleeves to shirtsleeves in three generations” (das mangas de camisa para as mangas de camisa em três gerações) traduz exatamente isso: o fundador enriquece, os filhos desfrutam, e os netos podem acabar por perder. Nos EUA, famílias industriais do século XIX (como os Vanderbilt) viram parte da fortuna dissipar-se rapidamente nos filhos, mas alguns netos procuraram restaurar prestígio ou reinventar-se em áreas culturais e sociais. Muitos títulos nobiliárquicos tinham património que os filhos imediatos geriam mal, sobretudo quando viviam no luxo das cortes. Vários netos, ao herdarem ruínas financeiras, voltavam a casar estrategicamente ou a empreender para recompor a herança. No Japão existe o mesmo provérbio: “Rice paddies to rice paddies in three generations” (arrozal a arrozal em três gerações). Alguns netos, após dissipação pelos filhos, retomavam as terras ou reinventavam o negócio, honrando o avô.

Estudos económicos mostram que 70% das fortunas familiares desaparecem na segunda geração e 90% até à terceira. Fonte: pesquisas de consultoras como Williams Group Wealth Consultancy e UBS. Os filhos tendem a estar “demasiado próximos” do esforço do pai para valorizarem ou sentirem a necessidade de replicar. Já os netos, que olham o avô como herói fundador, muitas vezes sentem-se compelidos a “honrar o legado”. No Douro, os séculos XVIII e XIX viram o nascimento dos principais fundadores do negócio do Vinho do Porto tendo criado boas fortunas. Mas, alguns filhos a seguir, dissiparam parte dos ganhos. Foi sobretudo já no século XX que vários netos reestruturaram as casas vinícolas e transformaram-nas em marcas globais de prestígio. Hoje, muitos descendentes já não vivem só da herança, mas de negócios reconstruídos pelos netos e bisnetos.

Soares dos Reis, Borges & Irmão (ourivesaria e banca) – os filhos muitas vezes não tinham o mesmo talento do fundador, mas os netos tentavam reerguer negócios ou consolidar propriedades rurais. Famílias agrícolas do Alentejo – durante o século XIX e início do XX, muitos grandes proprietários fundaram casas agrícolas prósperas. Os filhos, vivendo mais de rendas, pouco inovaram. Foram os netos, já em pleno século XX, que, perante crises agrícolas, buscaram novas estratégias (como turismo rural ou diversificação de culturas). Ramos Pinto – fundada em 1880. Após o esplendor inicial, foram sobretudo os descendentes das gerações seguintes (netos incluídos) que internacionalizaram a marca e preservaram o prestígio.

D. Antónia Ferreira (“Ferreirinha”), no século XIX, consolidou uma fortuna imensa no Douro. Os filhos usufruíram, mas parte da gestão tornou-se complicada. Foram os netos e bisnetos que reorganizaram os negócios e deram continuidade, transformando a marca num ícone até à sua aquisição por grupos maiores (hoje é da Sogrape).
O Fundador (1ª geração): D. Antónia Adelaide Ferreira (1811–1896) herdou vinhas no Douro e transformou-se na maior empresária do Vinho do Porto do século XIX. Resistiu à filoxera (praga que devastou vinhas), modernizou práticas agrícolas, apoiou viticultores endividados e construiu um verdadeiro império vinícola. Os Filhos (2ª geração): Herdaram o património, mas não tinham a visão empreendedora da mãe. A gestão fragmentou-se e parte da energia criativa perdeu-se. Alguns viviam mais de rendas do que da inovação. Os Netos (3ª geração): Já em pleno século XX, os descendentes reorganizaram os negócios. Criaram sociedades modernas e abriram o vinho Ferreira ao mercado internacional. Mantiveram o prestígio da marca até ela ser integrada na Sogrape (1987).
Espírito Santo – Ricardo Espírito Santo fundou a Casa Bancária em 1869. Os filhos continuaram, mas foi sobretudo a geração dos netos que expandiu o banco no século XX. A história terminou com a queda do BES em 2014, mas é um bom exemplo de como os netos podem tanto reforçar como arruinar um legado.
O Fundador (1ª geração): José Maria do Espírito Santo e Silva (1835–1915) abriu em Lisboa a Casa Bancária Espírito Santo Silva. Em pouco tempo tornou-se um dos mais importantes banqueiros do país. Legado: solidez bancária + prestígio burguês. Os Filhos (2ª geração): Deram continuidade ao banco, mas sobretudo consolidaram o que o pai já tinha feito. Não foram tão visionários quanto ele. O banco cresceu, mas ainda num modelo clássico e relativamente conservador. Os Netos (3ª geração): Aqui houve expansão brutal: Criaram o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (1920). Tornaram-se o maior grupo financeiro privado de Portugal. Nos anos 70 já tinham ramificações em seguros, imobiliário e internacionalização. Curiosamente, no século XXI, foi também uma geração de descendentes (Ricardo Salgado, bisneto do fundador) que acabou envolvida na derrocada do BES em 2014. → Mostra como os netos podem tanto reerguer como arruinar um legado.

sábado, 27 de setembro de 2025

Ser e estar


"Ser" vem do latim esse (“existir, ser”), que por sua vez vem da raiz indo-europeia es-, presente também no grego antigo eimí (“sou, estou”) e no sânscrito asmi. "Estar" vem do latim stare (“estar de pé, permanecer, ficar”), ligado à raiz indo-europeia sta- (“ficar de pé, permanecer”), que acontece também em palavras como stabilis → “estável”. “Ser” está ligado ao núcleo ontológico da existência; “estar” denota a postura no espaço, depois metaforicamente estendida ao estado ou condição. "Ser" tende a indicar algo essencial, permanente ou identitário. "Estar" indica algo circunstancial, transitório ou posicional. Daí a diferença que o português (e o espanhol) conseguiram preservar de modo mais nítido que o latim clássico, onde esse cobria ambos os domínios, e o latim vulgar começou a reforçar stare para distinguir a ideia de estado circunstancial.

Leonor está na adolescência → a ênfase recai na fase circunstancial da vida, que passará. Leonor é adolescente → põe a tónica na identidade atual dela (definição social ou biológica). Ambas as formas são possíveis, mas com nuances diferentes. Paulo Rangel é ministro → enuncia o cargo, como identidade institucional. Paulo Rangel está ministro → menos usual no português europeu moderno, mas existe como recurso estilístico para destacar o caráter temporário, circunstancial da função. É uma forma expressiva, que até sugere crítica (por exemplo, insinuando que o cargo não o define essencialmente). Essa distinção entre “ser” e “estar” é um luxo linguístico raro. Em inglês, to be cobre os dois, mas perde-se a nuance (daí se dizer que traduzir português ou espanhol para inglês é “aplainar” uma subtileza ontológica).

Encontrei alguns bons exemplos jornalísticos portugueses recentes em artigos de opinião. “Estar ministro” ou expressões próximas, suscitaram provocação mas com sentido pedagógico, mostrando diferenças semânticas. No jornal ECO, artigo de 29 de agosto de 2025: “Miranda Sarmento, o académico que está ministro para reformar as Finanças Públicas”. Aqui “está ministro” contrasta com “é ministro”, implicando que embora tenha o cargo, é algo provisório ou especial, um "estar" para reformar. No Jornal de Negócios, na seção de opinião: “Ninguém é ministro, mas está ministro. E esta diferença fundamental, que a língua portuguesa exprime tão bem, nunca se deve perder de vista …” Este é quase explicitamente reflexivo: afirma que “estar ministro” reflete algo diferente de simplesmente “ser ministro”. Sublinha-se que “esta diferença … nunca se deve perder de vista”, sugerindo consciência de nuances semânticas ou discursivas.

Esses usos mostram que “estar ministro” funciona como marca discursiva: não é só informar que alguém ocupa o cargo, mas situar esse alguém no cenário de mandato, expectativa, preparação ou mudança. Pode passar uma sensação de algo em curso, inacabado, ou de performance, em vez de simplesmente um estado institucional estável.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O meio académico ocidental que enquadra um conjunto de correntes críticas


Estudos pós-coloniais, e teoria crítica da raça, nas últimas décadas, ganharam força em certos departamentos universitários, sobretudo nas ciências sociais e humanidades. Há alguns pontos chave que ajudam a entender o que se passa na cabeça dessas pessoas. Muitos académicos, com a teoria crítica da raça,  partem da premissa de que o colonialismo europeu e a supremacia branca moldaram profundamente as estruturas económicas, políticas e culturais do mundo moderno. A narrativa que daí resulta tende a ver “o homem branco” como beneficiário de séculos de opressão, com uma responsabilidade histórica contínua. Figuras como Churchill são reavaliadas não pelo seu papel em momentos decisivos (como na Segunda Guerra Mundial), mas pelo seu pensamento e ações em contextos coloniais, onde as expressões conotadas com visões racistas não são contextualizadas com a sua época. Hoje, em alguns meios académicos, o critério moral (ligado à igualdade racial, de género ou à luta contra a opressão) é visto como mais importante do que qualquer outro contributo. 

Parte dos académicos, imbuídos de uma polarização identitária e militância intelectual, não vê o seu papel apenas como o de analisar, mas também como o de corrigir injustiças históricas. Daí que os ativistas por estas causas têm levado a efeito um processo de apagamento de representações icónicas da época passada derrubando estátuas, ou reescrevendo a História. A Universidade, no seu campus, transformou-se num campo de ativismo político. 
A categoria “homem branco” é usada como símbolo do poder histórico hegemónico. Por isso argumentam que o ataque a essa categoria é entendido como um ataque a esse sistema de poder, e não necessariamente às pessoas individualmente. 

No entanto, na prática, esse discurso reificado tende a cair no mesmo tipo de generalizações que criticam, acabando por ser recebido como um ataque ad hominem. Muitos destes académicos analisam apenas o imperialismo europeu, ignorando ou relativizando outros impérios e formas de escravatura (árabe, asiática, africana pré-colonial, etc.), criando uma visão parcial da História. Essa seletividade, não é inocente, faz parte de uma narrativa política de trincheira destinada a concentrar a culpa histórica num grupo específico. Não é que todos esses académicos se levem a sério nessa do "homem branco". O “homem branco europeu” é um símbolo que se tornou, para o ativismo político, o avatar histórico de um sistema global de opressão. Como é mais fácil atacar símbolos do que sistemas complexos, a retórica acaba por se tornar simplista e, para muitos observadores, injusta ou até hipócrita.

A força dessa visão no próprio Ocidente – e não tanto nos países que viveram o colonialismo europeu de forma mais direta – tem a ver com um conjunto de fatores que se juntaram desde os anos 60 e 70 e que ainda ecoam a revolução cultural de 1968 e o pós-guerra. Depois da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente (especialmente EUA e Europa Ocidental) entrou num período de autocrítica intensa: o nazismo mostrou ao mundo até onde o racismo institucional podia ir. Movimentos de direitos civis nos EUA pelo fim do colonialismo, e as lutas contra a Guerra do Vietname, criaram um clima em que criticar o poder estabelecido era moralmente prestigiante.

Estas correntes pós-coloniais e feministas, que veem o “homem branco europeu” como sinónimo do poder histórico, e que é preciso combater, são herdeiras do marxismo. Paradoxalmente, este discurso só foi possível no Ocidente, pelo menos até ao segundo mandato de Trump, porque era mais fácil ter este discurso num contexto seguro, com liberdade de expressão e poucos riscos pessoais. Académicos no Ocidente podiam atacar a sua própria civilização sem medo de perseguição estatal, o que não aconteceria em países como a China, ou a Rússia, só para exemplificar os maiores. Mas agora com Trump também está a ser possível. O baixo custo político de atacar o “homem branco” no Ocidente acabou. Até agora, antes pelo contrário, era-se recompensado academicamente.

Ao longo de décadas, certos departamentos universitários foram dominados por linhas ideológicas homogéneas de esquerda abrangendo tudo e um par de botas – desde estudos de género, pós-coloniais, teoria crítica da raça. Quem quisesse fazer carreira, trabalhar essas áreas no alinhamento era como ter uma mina para a excelência curricular. Dando loas à narrativa dominante tinha garantida todas as portas abertas para o sucesso. Ao passo que questionar o "wokismo" era correr o risco de ser empurrado para a porta da rua. E o desemprego por muitos e maus anos. Isto criou um efeito de câmara de eco, onde as ideias se foram reforçando sem oposição séria.

Muito do vocabulário e da estrutura do pensamento contra o homem branco vem de debates americanos sobre escravatura. Coisas de Jim Crow, segregação, e racismo policial. A academia europeia importou esse enquadramento, mesmo quando ele não encaixa perfeitamente na história local. Por exemplo, aplicar a lógica de relações raciais dos EUA a Portugal ou à Noruega, até parece uma piada. Em sociedades democráticas e liberais, atacar o grupo dominante é visto como mais corajoso e ético, do que criticar minorias. Todas as minorias são sagradas. Ora, isso acabou por dar azo a todo o tipo de abusos. Essa assimetria moral criou o espaço para discursos muito agressivos contra o “homem branco”, que são inaceitáveis independentemente do grupo a que é dirigido.

No fundo, isto faz parte do eterno paradoxo ocidental. Quanto mais livre, mais autocrítico e seguro é o ambiente. Mais ele permite, e até incentiva narrativas que demonizam o seu património histórico. E como essa maioria hoje tem menos coesão identitária e menos vontade de se defender como grupo, o campo fica aberto para a retórica da autoagressão. E é aqui que entra a ironia da História, com o regresso de Donald Trump. Muitas destas correntes académicas estão agora a começar a provar do próprio veneno que andou a ser lançado pelo menos nos últimos trinta anos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

A propósito da megalomania de Trump



No seu discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, ontem, o presidente norte-americano não poupou nas críticas à ONU. Donald Trump acusou a ONU de não o ter ajudado nos seus vários esforços de paz: 
«As duas coisas que recebi das Nações Unidas foram umas escadas rolantes com defeito e um teleponto com defeito", ironizou o presidente dos EUA em Nova Iorque, referindo-se aos problemas técnicos em torno do seu discurso na sede da ONU, uma instituição que, segundo ele, "está muito longe de atingir o seu potencial. A melhor economia de sempre no mundo.»
Trump passou a detalhar aquelas que diz serem as suas conquistas, declarando ter acabado com sete guerras “intermináveis” em sete meses. 
«Nenhum outro presidente jamais fez algo parecido» Acusou a ONU de não o ter ajudado nos seus vários esforços de paz. Pena ter de fazer eu estas coisas e não a ONU. Qual é o propósito das Nações Unidas? Não chega nem perto de atingir o seu potencial. A única coisa que parece fazer é declarações veementes, mas depois nunca concretiza nada. São palavras vazias, e palavras vazias não resolvem guerras. Não só as Nações Unidas não estão a resolver os problemas, como estão a criar problemas, como por exemplo com a imigração descontrolada. A ONU está a financiar um ataque aos países ocidentais e às suas fronteiras. A ONU apoia as pessoas que entram ilegalmente nos Estados Unidos.»
Reconhecer o Estado palestiniano é uma "recompensa" para o Hamas. Passando para o conflito no Médio Oriente, Donald Trump disse que o reconhecimento unilateral do Estado da Palestina por vários países, concretizado no domingo e na segunda-feira, é uma “recompensa às ações terroristas” do movimento islamita palestiniano Hamas, incluindo os ataques de 7 de outubro de 2023, que desencadearam o conflito na Faixa de Gaza. “Reconhecer o Estado palestiniano seria uma recompensa demasiado grande para os terroristas do Hamas”, disse, acusando o movimento islamita de estar a rejeitar “ofertas razoáveis para a paz”.

Em seguida, mudou de assunto para falar sobre a guerra na Ucrânia. Trump admitiu que pensou que este seria o conflito mais fácil de resolver devido à sua boa relação com o presidente russo, Vladimir Putin, mas acrescentou: "Na guerra, nunca sabemos o que vai acontecer”. Trump instou a Europa a “intensificar os esforços” e a acabar com a compra de produtos energéticos russos. E 
também apontou o dedo à China e à Índia, acusando-os de serem “os principais financiadores” da máquina de guerra russa. "A China e a Índia são os principais financiadores da guerra em curso porque continuam a comprar petróleo russo. Nem os países da NATO reduziram suficientemente a energia russa. Trump encerrou o seu discurso, que durou aproximadamente uma hora, com uma mensagem sobre migração e energia renovável.
«Para encerrar, quero apenas repetir que a imigração e o alto custo da chamada energia verde renovável estão a destruir grande parte do mundo livre e grande parte do nosso planeta. Países que prezam a liberdade estão a desaparecer rapidamente por causa das suas políticas sobre estes dois assuntos. Vocês precisam de fronteiras fortes e fontes de energia tradicionais se quiserem ser grandes novamente».
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Originalmente, “megalomania” era usada em psiquiatria para descrever uma obsessão com poder e grandeza. Hoje, o termo caiu em desuso técnico e é mais comum em linguagem popular, para designar vaidade desmedida, desejo de poder ou autoimagem insuflada. É o nível mais brando da psicopatologia que pode ser visto como traço de personalidade (frequente em líderes autoritários, figuras públicas e até em certos empresários). Quando se utiliza o termo “delírio de grandeza” – aqui entramos num quadro mais clínico. “Delírio” já implica uma crença falsa, fixa e inabalável, que não cede à evidência. Exemplo: acreditar ser escolhido por Deus, ou ter uma missão messiânica inquestionável. Não é apenas arrogância: é convicção delirante. Pode aparecer em perturbações como a esquizofrenia, perturbações delirantes ou fases maníacas do transtorno bipolar.

Mas quando se utiliza o termo “psicose” – é um estado mental global em que a pessoa perde contacto com a realidade: pode incluir delírios, alucinações, pensamento desorganizado. Nesse nível, a megalomania/delírios de grandeza são apenas um dos sintomas, mas não explicam tudo. Já é doença mental grave, com impacto funcional profundo. A progressão faz sentido como um continuum de gravidade. Traço de personalidade narcisista ou megalomaníaco → Delírio de grandeza persistente → Quadro psicótico pleno. No entanto, clinicamente nem sempre é uma progressão inevitável. Muitas pessoas com traços megalomaníacos nunca desenvolvem delírios, e nem todos os delírios levam à psicose generalizada.

Aplicada essa grelha a líderes como Trump, a maior parte dos especialistas diria que ele se enquadra mais em traços narcisistas/megalomaníacos (primeiro nível), talvez roçando os delírios de grandeza, mas sem sinais de psicose verdadeira.


Em 2024, mais de 200 profissionais de saúde mental assinaram uma carta aberta (um anúncio de página inteira no New York Times) afirmando que Donald Trump apresenta “malignant narcissism”, uma perturbação severa de personalidade que mistura várias características como narcisismo, manipulação e falta de empatia.

Especialistas como Bandy Lee (psiquiatra) também têm falado de “perturbações da personalidade” no discurso público de Trump, mencionando grandiosidade, impulsividade, reatividade. Grande parte dos psiquiatras usa o Goldwater Rule, regra ética da Associação Americana de Psiquiatria, que desencoraja ou proíbe que psiquiatras façam diagnósticos de figuras públicas sem uma avaliação direta. Alguns argumentam que, dada a gravidade do comportamento observável com implicações de perigo para todo o mundo, há justificação para levantar preocupações mesmo sem um exame clínico pessoal. No The Independent, Lance Dodes, por exemplo, disse que Trump exibe sinais de algo “próximo da psicose”, especialmente sob stress. Ele falou de “ideias delirantes” que aparecem quando Trump está sob pressão, sugerindo que ele perde o contacto com a realidade nesses momentos. Outra alegação é de que Trump, em discursos ou ações, rejeita evidências factuais que contradizem as suas crenças ou afirmações, ou se mantém em crenças que muitos verificam ser falsificáveis. Esse tipo de comportamento enquadra-se nitidamente nos “delírios de grandeza”.

Allen Frances, que foi um dos autores do DSM para transtornos de personalidade, escreveu que diagnosticar Trump (ou qualquer figura pública) como se ele tivesse um transtorno mental é “bullshit” se for feito de forma leviana ou sem base clínica sólida. Ele alerta para o risco de confundir “mau comportamento”, vaidade ou má retórica, com transtorno mental grave. Muitos apontam que mesmo que Trump exiba traços de personalidade narcisista ou de grandiosidade, isso não significa automaticamente que ele está em psicose. Psicose implica um nível fora da realidade que normalmente exige diagnóstico clínico claro, como alucinações, delírios fixos persistentes, desorganização extrema do pensamento.

A percepção pública tem sido avaliada através de sondagens que mostram que uma parte dos eleitores nos EUA acha que Trump não tem a saúde cognitiva ou mental adequada para continuar como presidente. Em contraste, há também quem acredite exatamente o oposto, reforçando a sua robustez ou capacidade de liderança, mesmo reconhecendo falhas ou comportamentos polémicos.


O Livro: The Dangerous Case of Donald Trump (vários psiquiatras, editado por Bandy Lee) é um conjunto de ensaios de psiquiatras que analisam comportamentos públicos, argumentando que há risco para a democracia e que muitos sinais são clínicos. Porque é relevante, mesmo citando limitações éticas, os psiquiatras decidiram publicar avaliações clínicas públicas. O Goldwater Rule é uma regra da American Psychiatric Association que recomenda não diagnosticar figuras públicas sem avaliação direta. Isso é central para interpretar qualquer diagnóstico público sobre Trump. Alguns profissionais reivindicam dever cívico para comentar; outros dizem que isso viola ética clínica. Allen Frances alerta contra diagnósticos públicos levianos; defende que Trump não preenche os critérios formais dessa grelha psiquiátrica, sendo mais um comportamento estratégico da política.

The Guardian, AP, The Lancet, Finantial Times – dão cobertura à polémica, mostrando como a comunidade psiquiátrica se dividiu, como o público reagiu e os riscos de rotular politicamente. Contextualiza o debate entre opinião clínica, ética e política. Nenhuma publicação clínica revista por pares confirmou de forma consensual que Trump tem psicose. Diagnósticos formais (DSM) em contexto clínico requerem avaliação direta; por isso há sempre uma lacuna entre análises públicas e diagnósticos formais.

No livro The Dangerous Case of Donald Trump, há capítulos em que autores falam de crenças fixas de Trump (por exemplo, negação de resultados eleitorais, insistência em teorias de conspiração) como possivelmente características de delírio, ou no mínimo de crenças resistentes a evidência. Na carta dos mais de 200 profissionais afirma-se que Trump “cumpre” critérios observáveis do DSM para narcisismo, transtorno de personalidade antissocial, e paranoia. Isso é usado como argumento de “malignant narcissism”. Embora não seja um artigo académico formal, é uma forma de discussão pública de critérios comportamentais.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A húbris trumpista no tempo das novas redes sociais



No Egito, Moisés, começou por liderar uma rede social que comunicava de porta em porta. Isto é só para dizer que as redes sociais remontam ao tempo da passagem das trevas para a luz. A questão que me traz é que poucos foram aqueles que souberam reverter as redes da luz para as trevas como fizeram os nazis na década de 1930. Os nazis não só criaram a sua própria rede propagandística (rádio, imprensa, organizações juvenis, rituais públicos), como neutralizaram redes rivais (sindicatos, partidos, imprensa livre, movimentos religiosos independentes) de forma sistemática e total. Esse “golpe” não foi apenas repressivo, mas substitutivo. E agora? O que se está a passar na América com Donald Trump a Presidente?

No presente, Trump segue a lógica de concentração da narrativa e deslegitimação das redes concorrentes. Controla a imprensa, restringe influenciadores não alinhados, e modela todo o ecossistema mediático para reforçar a narrativa oficial. É claro que Putin já faz o mesmo há mais tempo. Manipula redes mediáticas, reprime ONGs e assassina opositores, mantém um “cinturão” de desinformação interna e externa.  No entanto, Trump quer fazer passar a ideia de que não controla as redes como num regime autoritário. Tenta criar um ecossistema mediático paralelo (Fox News, Truth Social, podcasts, influenciadores) e minar a confiança no sistema informativo tradicional. Apesar de tudo não tem o monopólio absoluto sobre os canais como teve Hitler. Trump opera em contextos onde a multiplicidade de canais ainda persiste e teima sobreviver.

Trump opera num país que não perdeu hegemonia, mas sim parte do consenso interno. Hitler criou um sistema totalitário: um partido único que controlava sindicatos, associações de juventude, imprensa, cultura, educação, religião (na medida possível). Rede centralizada e exclusiva. Por outro lado, o Partido Comunista Chinês funciona como rede única, todos os canais (digitais, impressos, televisivos e educacionais) são vigiados e controlados. O espaço para redes independentes é quase nulo. E Putin mistura controlo estatal e tolerância seletiva a redes “neutras” ou alinhadas. A oposição independente é marginalizada, ou eliminada. Ainda assim espera-se que Trump esteja mais distante de Hitler, porque depende de liberdade de imprensa para existir, embora a ataque constantemente. Propaganda e mito são as fundações dos ditadores. Narrativa de pureza racial e destino histórico; uso de espetáculo visual e ritual político como cimento da rede.  “Make America Great Again” [MAGA] é o "slogan-mito": Apelo emocional a um passado idealizado.

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No tempo de Hitler, um dos alvos de ataque foi a rede bancária dos judeus, uma rede poderosa que já vinha do tempo dos Templários. Os seus condicionalismos de comerciantes ambulantes, para além da seleção de um certo tipo de inteligência, deram-lhes uma sabedoria como ninguém. E isso foi-lhes fatal na mente paranoica de Hitler e seus quejandos nazis. Mas a rede bancária europeia tem raízes medievais antes dos Templários, mas os Templários foram, de facto, um marco. Criaram um sistema de letras de câmbio que permitia a um peregrino depositar dinheiro num Castelo Templário em Paris e levantá-lo em Jerusalém. Essa prática, ao reduzir o risco de assaltos, criou uma confiança transnacional, algo muito raro no período medieval.

Quando a Ordem dos Templários foi destruída no século XIV, parte desse know-how financeiro espalhou-se para outras redes. Foi o caso das Casas Bancárias de famílias italianas como os Médici, os Bardi e os Peruzzi. Mas as famílias judaicas não desapareceram. Atuavam secretamente como banqueiros, por razões óbvias. Com mobilidade forçada, devido às perseguições, famílias judaicas atuavam em rotas comerciais longas. Daí a importância do fomento da literacia no seu seio, com ênfase na alfabetização e nos números para a contabilidade e os contratos. O problema é que, no imaginário antissemita europeu, isso foi distorcido numa narrativa de “rede secreta de controlo financeiro”. Hitler absorveu essa fantasia alimentada por falsos documentos. Os Protocolos dos Sábios de Sião deram muito que falar. Foi forjada uma retórica onde o “judeu internacional” era o inimigo invisível que supostamente manipulava governos, mercados e imprensa.

Antes dos Templários (séculos IX–XI) a função de emprestar dinheiro e financiar comércio já existia em feiras medievais com as rotas árabes que circulavam pela Lombardia. Alguns mercadores judeus atuavam como intermediários financeiros por estarem em contacto com várias regiões e línguas. Por isso, a ideia de que “os judeus inventaram os bancos” é um mito que ignora o papel dos árabes e das Casas da Lombardia. Os Templários criaram um sistema bancário transnacional seguro para peregrinos e cruzados com depósitos, créditos e transporte de ouro e prata. Tinham sedes e fortalezas em toda a Europa e no Médio Oriente. Praticavam algo muito próximo da letra de câmbio, antecipando a lógica bancária moderna. Riqueza e influência geram lendas de “tesouros secretos” e “sociedades ocultas”. Foi o que aconteceu depois da dissolução da Ordem dos Templários  que supostamente sobreviveram à dissolução por decreto de Filipe, o Belo, ou Filipe IV de França [1268-1314].

Com o fim da Ordem dos Templários, em 1312, parte das práticas e conexões foi absorvida pelas casas bancárias dos Médici, Bardi, Peruzzi, Fugger. Judeus continuaram ativos como banqueiros em contextos onde cristãos não podiam legalmente cobrar juros, mas o seu papel era muito desigual de país para país. Em muitos casos, serviam apenas como prestamistas locais, não como grandes banqueiros internacionais. Daí que se tenha fixado a ideia do “judeu agiota” como arquétipo negativo, reforçada em literatura e legislação discriminatória.

Em finais do século XVIII a Europa assiste à ascensão dos Rothschild. Família judaica alemã que criou um sistema bancário multinacional com sucursais em cinco capitais europeias (Frankfurt, Londres, Paris, Viena, Nápoles). Financiou governos e grandes projetos, ganhando prestígio e influência. Estratégia empresarial. Casamentos endogámicos para proteger o sigilo foi sistemático. Tornaram-se símbolo do “banqueiro judeu global”, alvo de panfletos antissemitas, mesmo que outras famílias cristãs fossem igualmente poderosas (Baring, Lazard, Morgan).

Os “Protocolos dos Sábios de Sião”, que apareceram em 1903, eram um falso documento criado pela polícia secreta russa, descrevendo um suposto plano judaico para dominar o mundo. Hitler incorporou essa mentira no Mein Kampf e na propaganda nazi. Aproveitou as crises económicas para culpar “o judeu internacional” pela miséria alemã. O regime apresentava todos os banqueiros judeus (e, por extensão, todos os judeus) como parte de uma rede única e malévola, ignorando que muitos judeus eram pobres e que havia banqueiros cristãos igualmente influentes.

Hoje estamos outra vez neste ambiente de teorias da conspiração a coberto do velho chavão da “Nova Ordem Mundial” cm a ideia de que ela é um monopólio judeu secreto. Não passa de uma ficção construída sobre pedaços de verdade, inflacionados e distorcidos. Portanto, é uma narrativa herdada de séculos de preconceito e paranoia. E tudo isto se cruza com o que continuamos a ver nos posicionamentos de trincheira em relação ao que se passa na Palestina. De um lado os remorsos do Holocausto. Do outro lado o antissemitismo exacerbado na forma de anti-sionismo. Ao antissemitismo clássico [Europa, séculos XIX-XX: demonização do judeu como manipulador económico e inimigo interno] junta-se o anti-sionismo contemporâneo que se traduz em hostilidade política ao Estado de Israel. 

Israel conseguiu, em menos de 80 anos, transformar um território pequeno, árido e hostil num polo agrícola, tecnológico e militar de alta performance. Do ponto de vista de quem vive em pobreza crónica (como grande parte da população palestiniana sob bloqueio ou em campos de refugiados), esse contraste é brutal alimentando narrativas simplistas: “Se eles têm tanto e nós tão pouco, só pode ser porque nos roubaram.” Esse tipo de raciocínio é ancestral, porque é mais fácil atribuir o sucesso alheio ao roubo ou a conspirações. Israel beneficiou de redes pré-existentes da diáspora judaica (capital, know-how, contactos internacionais). Isso permitiu acesso rápido a tecnologia, mercados e diplomacia que outros países da região não tinham. Para o palestiniano médio, esta rede é invisível como realidade histórica e visível apenas como mito. E a inveja social como combustível político acaba por se impor. A inveja social (“porque eles têm e nós não”) torna-se mais inflamável quando se conjuga com a questão da identidade dos povos ligada ao binarismo de opressores e oprimidos. Líderes políticos e grupos militantes exploram esse ressentimento para reforçar coesão interna. A desigualdade de resultados entre Israel e Palestina é estrutural e não vai desaparecer a curto prazo. Enquanto isso, qualquer sucesso israelita será lido, por muitos palestinos (e não só), como prova de injustiça. Esse ciclo é alimentado tanto pela realidade das condições de vida como pelo mito conspirativo herdado de outras épocas.