quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Evolução territorial da Ucrânia - [1922 - 1954]

 

Por meio do Tratado de Brest-Litovsk, a União Soviética abriu mão de exercer soberania sobre grande parte do território ucraniano. Um tratado de paz assinado entre o novo governo bolchevique russo e as Potências Centrais (Império Alemão; Império Austro-Húngaro; Bulgária; Império Otomano), em 3 de março de 1918 em Brest (antigamente Brest-Litovsk), na atual Bielorrússia, pelo qual era reconhecida a saída da Rússia no conflito. O governo Bolchevique também anulou todos os acordos do Império Russo com os seus aliados da 1ª Guerra Mundial. O governo russo também perdoou as dívidas do governo otomano no acordo.

Mas a derrota dos Impérios Centrais na 1ª Grande Guerra, e ao mesmo tempo o fim do Império Russo provocado pela Revolução Russa de 1917, levou a que o território da Ucrânia fosse disputado. E assim se deu a guerra Polaco-Soviética no momento em que ressurgia o movimento nacional ucraniano que lutava pela autodeterminação em boa parte da Ucrânia [fevereiro 1919 – março 1921]. Em agosto de 1920 a Polónia venceu, e em março do ano seguinte foi firmada a Paz de Riga, com ganhos territoriais limitados para ambos os lados, que voltou a dividir a Ucrânia: a porção ocidental foi incorporada à nova Segunda República Polaca e a parte maior, no centro e no Leste, transformou-se na República Socialista Soviética Ucraniana, posteriormente unida à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, quando esta foi criada, em dezembro de 1922.


Ganhos por parte da Ucrânia dos países vizinhos: 1939 - a Volínia à Polónia; 1945 - a Transcarpátia à Hungria; 1948 - a ilha das serpentes à Roménia; 1954 - a Crimeia à Rússia. Por outro lado a Ucrânia perdera para a Moldávia a Transnístria em 1940. 

O mapa no tracejado a roxo representa a República Ucraniana de Kiev entre 1917 e 1921. O tracejado  a verde representa em 1918 a República dos povos do oeste ucraniano e da Ruténia dos Cárpatos (os primeiros estados ucranianos no rescaldo do fim da 1ª Guerra Mundial.

A grande mancha a verde representa a República Soviete Socialista estabelecida em 1922. A verde mais claro são os territórios dados à Rússia em 1924. A parte representada a cor amarela são os territórios dados pela Polónia à Ucrânia em 1939. A cor castanha são os territórios dados pela Roménia à Ucrânia em 1940. A cor rosa é território dado pela Ruténia checoslovaca dado à Ucrânia em 1945. O círculo vermelho são ilhas romenas dadas à Ucrânia em 1948. E a roxo é a Crimeia dada pela Rússia à Ucrânia em 1954.




A industrialização soviética teve início na Ucrânia a partir do final dos anos 1920, o que levou a produção industrial do país a quadruplicar nos anos 1930. O processo impôs um custo elevado ao campesinato, demograficamente a espinha dorsal da nação ucraniana. Para atender a necessidade de maiores suprimentos de alimentos e para financiar a industrialização, Stalin estabeleceu um programa de coletivização da agricultura pelo qual o Estado combinava as terras e rebanhos dos camponeses em fazendas coletivas. A fome tornou-se generalizada. Este processo histórico, conhecido como Holodomor, levou 25% da população ucraniana a morrer de fome. Na mesma época, os soviéticos acusaram a elite política e cultural ucraniana de "desvios nacionalistas", quando as políticas de nacionalidades foram revertidas no início dos anos 1930. Duas ondas de expurgos (1929-1934 e 1936-1938) resultaram na eliminação de quatro quintos da elite cultural da Ucrânia.


Durante a 2ª Guerra Mundial, o Reichskommissariat Ukraine foi o regime de ocupação civil de grande parte da Ucrânia ocupada pela Alemanha de Hitler (que incluía áreas adjacentes da Bielorrússia moderna e da Polónia pré-guerra). Entre setembro de 1941 e março de 1944, o Reichskommissariat foi administrada por Erich Koch. As tarefas da administração incluíam a pacificação e exploração da região a benefício da Alemanha. Antes da invasão alemã, a Ucrânia era uma República Soviética. 
A ocupação nazi da Ucrânia acabou com a vida de milhões de civis com assassinatos em massa. 

O Reichskommissariat Ukraine excluiu várias partes da atual Ucrânia e incluiu alguns territórios fora de suas fronteiras modernas. Estendeu-se no oeste da região de Volínia ao redor de Lutsk, ao longo do rio Bug do Sul, para as áreas ao redor de Kiev e no leste. Territórios conquistados mais a leste, incluindo o resto da Ucrânia - Crimeia e Bacia do Donbass/Donetsk, estiveram sob governo militar até 1943-1944. Em sua maior extensão, incluiu pouco menos de 340.000 Km2. O antigo território soviético entre os rios Bug do Sul e Dniester também foi excluído do Reichskommissariat Ukraine; este foi dado à Roménia, o denominado Transnístria, governada de Odessa por Alexeanu, o governador romeno. Também abrangia várias partes do sul da atual Bielorrússia, incluindo a Polésia, uma grande área ao norte do rio Pripiate com florestas e pântanos, bem como a cidade de Brest-Litovsk e as cidades de Pinsk e Mazir. Isso foi feito pelos alemães para garantir um suprimento estável de madeira e um transporte ferroviário e fluvial eficiente.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

O fotógrafo da pós-revelação


A fotografia é o melhor meio que nós humanos encontramos para apreender a própria aparência. A imagem do Ser é a exposição irreparável da pessoa - in persona, e, ao mesmo tempo, o seu permanecer oculto precisamente na abertura da objetiva. Uma fotografia é um lugar da comunidade onde se pode reconhecer. Mas a fotografia não deixa de ser o lugar por excelência do simulacro do mundo fantasmagórico. Não é o lugar da verdade. Isso não significa que a aparência dissimule o que se descobre, fazendo-o aparecer. Aquilo que o personagem é, verdadeiramente, não é nada mais do que essa dissimulação e essa inquietude na aparência. Pois a pessoa não é, e nem tem que ser, uma essência ou substância. Nem tem de ter algum destino específico. A sua condição é a mais vazia e a mais insubstancial entidade do Ser. O que fica oculto pela aparência não é algo que esteja por trás da aparência e tapado por ela. O que fica oculto é o mecanismo do aparecimento. Ou seja, a fotografia não é mais do que a aparência da própria aparência do Ser.



A exposição transforma-se assim num valor, que se acumula através das imagens e dos media. Se aquilo que as pessoas tivessem de comunicar fosse apenas uma coisa, a coisa em si, jamais haveria mundo propriamente dito. Haveria apenas sinais e sintomas de uma pura comunicabilidade. Que dito de outra forma é apenas linguagem.


A primeira máquina fotográfica dele foi uma antiga caixa retangular cuja objetiva abria em fole, e em que a focagem e a luz eram calculadas a olho. Depois de tirada uma fotografia tinha de rodar um botão para puxar o negativo até chegar à próxima exposição marcada por um número que aparecia numa janelinha redonda. Acontece que por vezes se esquecia dessa preparação do rolo fotográfico. Resultava daí que expunha a fotografia anterior à sobreposição da seguinte. E é assim que nessas fotografias surgiam, por vezes, uns fantasmas estranhos. É aquilo a que nos livros antigos de pergaminho se designa por palimpsesto. Só que neste caso era algo que acontecia por acaso, só detectada a posteriori quando de forma inesperada se viam as fotos em papel.


Tudo isto aconteceu há muito tempo, o que também se pode chamar uma dupla exposição da realidade. A surpresa de se tornar visível qualquer coisa diferente do que se está à espera, é que sem querer se pode transformar o acaso numa obra de arte, algo nada a ver com a beleza de qualquer arranjo.

Estas fotos aqui - em "The David King Collection at Tate" – mostram os 'retoques' que se faziam para as fotografias oficiais do regime soviético, onde chegavam a eliminar completamente pessoas que apareciam nas fotos originais. 


Na entrada dos soviéticos em Berlim, que marca o fim da Segunda Guerra Mundial, o fotógrafo Yevgeny Khaldei acrescentou ao seu registo original imagens de oficiais soviéticos hasteando a bandeira vermelha sobre o Reichstag para 'esconder' os soldados que apareciam na foto original saqueando um prédio.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O que faz as pessoas acreditarem em coisas estranhas?




Esta pergunta, que fez o título de um livro que Michael Shermer publicou em 1997, e chegou a Portugal em 2001, tinha como pano de fundo pseudociência, superstições e outras confusões do nosso tempo como, por exemplo, o negacionismo do Holocausto. Entretanto, o conhecimento na área do cérebro mais a inteligência artificial fizeram o seu caminho, onde particularmente cientistas portugueses têm dado cartas, tanto no campo da inteligência cognitiva como da inteligência emocional ou afetiva. E, no entanto, a realidade da credulidade em coisas estapafúrdias não tem diminuído, pelo contrário, basta analisar o que circula nas redes sociais. A comunidade científica não tem poupado esforços em dedicar o seu tempo a esclarecer os porquês deste fenómeno. Mas, na verdade, ainda não temos explicações sólidas e confiantes. O que se vai sabendo é que as pessoas dos grupos etários acima dos 50 anos de idade vão acreditando em quase tudo que vem à rede, apresentando dificuldade em distinguir o trigo do joio. Mas as pessoas dos grupos etários abaixo dos 50 anos de idade tendem a questionar tudo e um par de botas, acabando por não acreditar em nada, arriscando no que lhes vier à cabeça. De um modo geral, tudo o que vier da ciência, das academias, e das instituições políticas, é mesmo para arrasar.

A aparência torna-se para o homem o único lugar onde pode lutar pela verdade. É o valor facial daquilo que a formulação proposicional significante e comunicacional não consegue alcançar em toda a sua plenitude. Assim, a aparência é a única abertura do real a que temos acesso. O aspeto é o único lugar onde a comunidade se pode conhecer. É por assim dizer o rosto do mundo. A revelação do rosto é a revelação da própria linguagem. Ela não tem, por isso, nenhum conteúdo real, não diz a verdade sobre este ou aquele estado de espírito ou de facto, sobre este ou aquele aspeto do homem ou do mundo: é apenas abertura, apenas comunicabilidade. É como caminhar e direção à luz, uma janela virada para o mundo cuja luz muitas vezes nos ofusca. O homem, ao contrário dos outros animais, consegue apropriar-se da sua própria imagem dando-lhe um nome. E é assim que se separa das outras coisas, transformando o sentido da sua própria aparência numa história narrada.

Para adquirirmos a sabedoria da boa conduta de vida, é ilusório querermos valer-nos apenas da esfera cognitiva e intuitiva, porque há muita coisa na vida que é contraintuitiva, e muito mais contraintuitivo em relação ao que é retirado das equações matemáticas. Muitas vezes o erro está em não se levar em linha de conta o contexto e o circunstancial. Por outro lado, é ilusório pensar que podemos compreender coisas complexas com explicações simples. Muita gente hoje não admite reconhecer que para um leigo em determinada matéria complexa dificilmente o conseguirá compreender com explicações simplificadas. O que levou anos a ser compreendido por um especialista dificilmente poderá ser traduzido em palavras simples.

A quebra da confiança na ciência e nas instituições, a baixa humildade e alta arrogância é um panorama dos tempos atuais que infetou mais aquelas pessoas que passaram a saber mais um bocadinho, por via da ascensão social, do que as pessoas que se mantiveram no limiar de pobreza e com muito baixa literacia. As pessoas mais dependentes das instituições e com parcos conhecimentos e fraca literacia pseudocientífica, tendem a confiar mais nas instituições. Por mais paradoxal que possa parecer, é mais contraproducente, para uma boa conduta de vida, a falsa sensação de se saber alguma coisa, do que se reconhecer que não se sabe nada. O negacionismo em relação às vacinas, por exemplo, e a pulsão para o consumo e circulação da falsa informação, é mais abundante entre a classe média e média alta, do que entre pobres ou remediados.

Por fim, há que dar também uma nota negativa a uma certa arrogância de alguns cientistas quando excedem despropositadamente a sua intolerância em relação a métodos e a tratamentos não cientificamente canónicos, e que fazem parte de outras culturas em outras paragens geográficas, como é o caso dos países do denominado “Oriente”, com conhecimentos que foram consolidados pela tradição de muitas gerações ao longo de séculos, e que do ponto de vista desses povos se revelaram de extrema eficácia. Quem somos nós, os chamados “Ocidentais” para banalizarmos com tanta arrogância intolerante as opções de vida de gente com uma herança civilizacional milenar, por mais conservadora que possa ser? Até parece que o modelo da civilização ocidental só tenha virtudes, e não tenha culpas no cartório em relação aos males muito perniciosos que o planeta Terra está atualmente a sofrer em mar e terra.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O cérebro na identidade de género



Identidade de género refere o género (homem, mulher, não binário) com que alguém se identifica, tendo como base os padrões (roupas, corte de cabelo, etc.) e os comportamentos (papel social) estabelecidos ou formatados pela sociedade em geral dentro de uma cultura alargada. 
Identidade de género não é a mesma coisa que sexo biológico e orientação sexual. O cérebro e os genitais têm funcionamentos distintos na construção da identidade. O sexo é biológico, o género é social. A biologia não está necessariamente ligada com a construção da identidade de uma pessoa como mulher ou homem. Nos estudos desta área também se utiliza o termo transexual para designar a pessoa que se identifica com o género oposto ao seu sexo biológico. Uma pessoa que nasceu com o sexo masculino (nasceu homem) e se tornou mulher é uma mulher trans; uma pessoa que nasceu mulher e se tornou homem é um homem trans.

Ora, um indivíduo transgénero é uma pessoa que não se identifica com o género que lhe foi atribuído à nascença por via dos seus caracteres corporais que determinam o sexo da pessoa evidenciado nos seus órgãos genitais externos (pénis e escroto; vulva e vagina). Convém não confundir este aspeto que remete para a constituição do sentimento individual de identidade, com os diferentes papeis sociais de género que não são determinados biologicamente, mas sim pelas convenções sociais dento de um determinado espetro cultural e histórico.

Assim, um indivíduo transgénero não reconhece que o corpo que tem seja o corpo com o qual se identifique (identificar-se como mulher e ter um corpo de homem; identificar-se como homem e ter um corpo de mulher). É preciso referir que a categoria transgénero nada tem a ver com homossexualidade (orientação sexual com atração por pessoas do mesmo sexo, ou género). Identidade de género e orientação sexual são dimensões diferentes que não se devem confundir. Um indivíduo transgénero pode ter as mesmas variações que as pessoas cisgénero têm em relação à sua orientação sexual (hétero, homo, bissexual). Cisgénero, habitualmente, é o termo empregado para designar as pessoas que não apresentam incongruência entre o sexo de nascimento e o género com o qual se identificam. Já o termo transgénero, genericamente, é utilizado para designar as pessoas que apresentam incongruência entre o sexo de nascimento e o género com o qual se identificam.


Até à data tem sido muito mais fácil mudar a anatomia genital de alguém do que a sua mente. Hoje, a transexualidade já não é vista pela ciência e pela Organização Mundial de Saúde como uma doença. E alguns países têm reconhecido o transexual como um terceiro género. 
O género não é uma opção. A pessoa não escolhe ser uma coisa ou outra. No entanto, importa saber que existem situações genéticas raras que não se podem confundir, como, por exemplo, é o caso da síndrome de Morris, ou síndrome de Insensibilidade Androgénica – condição de intersexualidade produzida por uma alteração genética ligada ao cromossomo X, caracterizada pela incapacidade parcial ou total da célula para responder aos androgénios – hormonas masculinas como a testosterona. Esta falta de resposta da célula prejudica ou impede o desenvolvimento da diferenciação sexual masculina, do pénis no feto, bem como, do desenvolvimento das características sexuais secundárias na puberdade, mas não prejudica o desenvolvimento de características sexuais femininas. Assim, os indivíduos que geneticamente são do sexo masculino XY, por não responderem aos androgénios terão uma composição genética de um homem, mas se desenvolverão com algumas ou todas as características fenotípicas (físicas) de uma mulher. Intersexuais não são hermafroditas. Não são pessoas com genitais masculinos e femininos ao mesmo tempo. Não é assim. O mito, o tabu e a lenda distorcem uma realidade muito mais complexa. Há mais de 40 causas diferentes para sua origem. A OMS estima em 1% a percentagem de pessoas intersexuais no mundo todo.

Tudo começa ainda no útero. Por volta da décima semana de gestação, as células que vêm formando o feto desenvolvem a genitália. Pela vigésima semana, a área do cérebro ligada à identidade de género começa a se formar. Se coincidir com o sexo biológico, nascerá uma pessoa cisgénero, ou seja, que se reconhece no sexo previamente formado. Se houver incongruência, nasce uma pessoa transgénero. Entre os 2 e 3 anos de idade, é a idade em que começam a evidenciar-se os sinais de que há algo que não bate certo. Portanto, as discrepâncias na identidade de género podem ser identificadas logo na infância. E as pesquisas podem ser desencadeadas no sentido de estudar a estrutura do cérebro correlacionada com a disforia de género. E isso é importante para prevenir os traumas psicológicos graves ligados a uma transição de género que tem de se fazer.

Estudos muito recentes na área da neurociência identificaram o lobo da ínsula como a área cerebral correlacionada com a identidade de género, ou seja, com a perceção do próprio corpo. Lobo da ínsula é um lobo profundo, situado no fundo do sulco lateral de cada hemisfério do cérebro. A ínsula tem forma triangular com vértice ínfero-anterior, separada dos lobos vizinhos por sulcos pré-insulares. Possui cinco giros (curtos e longos). Suas principais funções são fazer parte do sistema límbico e coordenar quaisquer emoções, além de ser responsável pelo paladar. Sensações corporais internas e sensações viscerais são mapeadas no sistema nervoso central pela ínsula.

Comparando o lobo da ínsula de cada hemisfério cerebral de homens e mulheres cisgénero, por imagem de ressonância magnética, verificou-se que esse lobo é mais reduzido nas mulheres quando comparado com o dos homens. E o mesmo acontece de forma invertida nas pessoas transgénero: pessoas que se identificam como mulheres com corpo de homem apresentam um lobo da ínsula mais reduzido em ambos os hemisférios cerebrais; e vice-versa, pessoas com corpo de mulher, mas que se identificam como homem apresentam uma ínsula como a dos homens cisgénero.

É importante lembrar que não existe um cérebro tipicamente feminino ou masculino. O que ocorre são ligeiras diferenças estruturais, muito mais subtis do que a diferença dos órgãos genitais, por exemplo. Por outro lado, a variação individual nas estruturas cerebrais é enorme de pessoa para pessoa, independentemente de as pessoas serem homens ou mulheres.

Os pesquisadores ressaltam também que o menor volume de substância cinzenta em uma área do cérebro não significa necessariamente que a mesma exibe um menor número de células nervosas. As diversas regiões de substância cinzenta cerebral apresentam uma massa de sinapses e de terminações nervosas que pode mudar de volume dinamicamente; por exemplo, em algum momento da vida o aumento de densidade de uma região cerebral pode ser o reflexo de mais atividade, acarretando um aumento subtil de volume de substância cinzenta local.

Em conclusão, o cérebro dos indivíduos transgénero, no que diz respeito à diferenciação sexual, não acompanha o sexo do corpo que é determinado geneticamente. O cérebro das pessoas trans, em relação ao género com que se identificam, deve sofrer alguma influência errada no decurso da sua gestação, provavelmente de ordem hormonal ou química. Há especificidades cerebrais nos indivíduos trans. Este dado é importante para combater a ideia de ideologia de género. Não se trata de uma questão de prática ideológica, na medida em que existe uma base estrutural que é detetável. Todavia, deve ter-se a noção de que ainda não se sabe tudo a respeito, e, por conseguinte, seria simplismo a mais darmos o assunto da disforia de género por concluído. Mas já é o grande passo dado quando já se sabe que é um problema biológico de raiz, e não apenas uma moda sociológica. E foi relevante ter-se encontrado 
uma diferença na ínsula de pessoas trans, área onde afinal se estabelece a fisiologia da perceção corporal. De resto a ínsula é uma região com múltiplos elementos e muitas atribuições. O que se pode afirmar é que, sobretudo numa investigação em que foram estudas mulheres trans, foram encontradas variações nesta estrutura que se correlacionam com a característica das mulheres trans. E não foi o tratamento hormonal que se mostrou relacionado ao volume diminuído da ínsula. O que se espera agora é que estes estudos prossigam começando mais precocemente na idade de modo a que a abordagem terapêutica e psicoterapêutica seja mais atempada.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Postos à prova





Todos estamos a ser postos à prova, seja o elefante africano do Seremgeti, seja o lobo ibérico do Gerês. Todos estamos em vias de extinção. A natureza da Terra está a mudar. Mas a 
Natureza tem muito mais mérito do que Deus, que é uma invenção dos homens, um engano, uma fantasia. A Natureza não engana. Ao passo que Deus é um brincalhão, parece que está a gozar com  a gente que acredita nele.

Ao longe uma igreja caiada de branco. Junto ao adro o vermelho do marco do correio contrasta com o silêncio do sino do campanário lá no alto, como um espinho afiado. Poucas décadas após a sua construção está já ao abandono. Primeiro caiu o telhado sobre as vigas curvadas pelo peso dos anos. A água entra no travejamento e começa a decomposição. Ao lado, o hospital, vê-se que esteve em chamas. A derrocada de um edifício atrai sempre os mirones. 

O homem-lobo atravessa o asfalto para o outro lado da estrada de onde não vê a igreja. Mas vê uma bomba de gasolina. Se não fosse o batimento cavo do coração o silêncio seria perfeito. O asfalto brilha como se tivesse chovido. O lugar parece estar morto, nem um gato se vê para amostra. Uma paisagem de Edward Hopper, portanto.




O degelo há muito que havia acontecido. Todo o povoado se havia deslocado mais para o Norte, onde agora o povo, essa palavra ambígua, se dedica à plantação de vinha nova e frutos silvestres. A peste havia devastado a aldeia. E o povo fugiu para a cidade, invadindo as ruas, criaturas de máscara envoltas em nuvens de fumo. Antes que a putrefação dos cadáveres começasse, os corpos foram incinerados. A necrópole apenas alberga as cinzas dos mortos. Só a incineração dos cadáveres poderia impedir que eles fossem profanados.

Deve-se viver a vida olhando para a frente, mas só se pode entendê-la olhando para trás, já dizia o mestre Kierkegaard. Naquela altura a minha imaginação infantil era alimentada pelos filmes do faroeste: Bonanza, Laredo, High Chaparral. O meu primeiro velocípede foi um triciclo aos 3 anos de idade. Aos dezoito anos, foi uma motorizada Flandria em segunda mão, com um motor a dois tempos e, como vi logo depois, com defeito nos travões. Fui experimentá-la, primeiro dando um passeio pelo jardim de Arca d’Água, e depois o acidente da praxe. Aconteceu à noite, com chuva forte, numa estrada rural cheia de curvas. Um carro em sentido oposto manteve o farol alto e a luz cegou-me. Achei que ia bater bem de frente, porém no último instante saltei da moto (expressão de um eufemismo absurdo para uma manobra potencialmente salvadora, mas também potencialmente fatal). A moto foi para um lado (ela não acertou no carro, mas ficou destruída) e eu para o outro. Por sorte, eu estava com casaco de couro, capacete, botas e luvas, e mesmo que a queda me tenha arrastado uns vinte metros pela estrada, estava enlameada por causa da chuva, e como tal muito escorregadia. Não sofri sequer um arranhão.

Falemos então do homem-lobo, Marcos Rodríguez Pantoja. Foi vendido a um pastor aos sete anos e após a morte do pastor, viveu sozinho com os lobos na Serra Morena. Aos 19 anos, voltou à civilização, mas teve dificuldade para se ajustar. O seu caso foi objeto de uma tese de doutoramento em Antropologia por Gabriel Janer Manila: "He jugado con lobos". Entre os sete e os dezanove anos viveu apenas com uma alcateia que o adotou, protegendo-o de qualquer contacto humano. Fugiu aos maus-tratos humanos. Viveu com os lobos os melhores anos da sua vida. Viveu livre de qualquer tipo de maldade. Mal voltou a entrar na sociedade humana, é verdade que teve gente boa a querer ajudá-lo. Mas o que sobrou foi gente má. E ele teve que lidar de novo com a vigarice humana.




Mais tarde, tornou-se tema do filme - Entre Lobos, no qual aparece brevemente. Em março de 2018, deu uma entrevista na qual disse estar dececionado com a natureza humana e desejou poder voltar às montanhas e deixar a sociedade. Marcos perdeu a mãe, tinha apenas três anos de idade. Seu pai então casou com outra mulher, que o maltratou. Na década de 1950, eles se estabeleceram em Fuencaliente, na Serra Morena, onde se dedicaram ao fabrico de carvão vegetal. Aos sete anos, Marcos foi vendido, ou então mais benevolentemente entregue a um proprietário local que possuía um rebanho de cabras com um pastor. E com o pastor ainda teve tempo de aprender algumas coisas de animais e de lobos. Abandonado à Natureza em algum momento após essa mudança de tutela, o certo é que passou muitos dias perdido na serra, sem comer. Até que foi encontrado por uma loba, quando estava deitado a dormir no covil com as suas jovens crias. E foi com a carne que a loba trazia para as suas crias que Marcos passou a ser alimentado a pouco e pouco. 

Em 1965, passados já onze anos a viver dento de uma alcateia, acabou por ser encontrado pela Guarda Civil. Nesta altura era um ser humano apenas biológico, mas com educação de lobo. Viveu dos sete aos dezanove em completo isolamento dos seres humanos, tendo apenas por companhia uma família de lobos. A Guarda Civil levou-o para Fuencaliente à força, amarrado e amordaçado, enquanto uivava e mordia como um lobo.

Foi um padre e as freiras de um hospital que o ensinaram a recuperar a linguagem falada, bem como toda a aprendizagem de uma pessoa socializada, desde a higiene à alimentação à mesa de garfo e faca. É verdade, chegou a estar internado no Hospital de Convalescentes da Fundação Vallejo, em Madrid, até ser reintroduzido como adulto na sociedade. Todavia, não chegou a aprender a ler e escrever. Depois de ter deambulado por vários sítios acabou a residir, até hoje com 71 anos de idade, em Rante, perto de Orense, onde foi recebido por uma espécie de mecenas, Manuel Barandela Losada, que já faleceu, um polícia aposentado que o acolheu muito impressionado com a sua história.

Atualmente, Marcos é um protegido de uma família holandesa, sendo frequentemente convidado por conselhos municipais, associações e diversas organizações para dar palestras e narrar a sua experiência. E assim tem preenchido o seu tempo a ir a programas de entretenimento televisivos, inúmeros programas de televisão contando a sua história.

O estudo do caso foi realizado pelo antropólogo e escritor Gabriel Janer Manila, que entre novembro de 1975 e abril de 1976, entrevistou Marcos Rodríguez Pantoja para estudar as medidas educacionais necessárias para a sua integração. O antropólogo afirmou que as causas do abandono de Marcos não foram fortuitas, mas deliberadas e resultado de um contexto socioeconómico de extrema pobreza. A sobrevivência de Marcos foi possível graças às habilidades básicas adquiridas na fase anterior de seu abandono, bem como a sua extraordinária inteligência natural. Durante o seu isolamento, a criança aprendeu os sons dos animais com os quais vivia, e assim os ia imitando para comunicar com eles. Com isto foi perdendo pouco a pouco a linguagem humana. Ao regressar à vida humana teve de reaprender tudo de novo, passando por grandes desapontamentos com a crueldade humana, com grande animosidade até contra a malvadez humana, e contra a balbúrdia da vida humana nas cidades excessivamente ruidosas e insuportavelmente malcheirosas e poluídas. Não tinha qualquer dúvida em afirmar que a vida entre humanos era muito pior do que a vida com os lobos e outros animais. Ele considera que as dificuldades que sofreu, quando foi reintroduzido na sociedade, se deveram a terem sido introduzidas já muito para além da idade devida. É sempre penoso, quando um animal humano entra na civilização, já depois de ter atingido a idade adulta, e até essa idade ter aprendido a viver com os lobos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Trocaram-se certificados de aforro por cartões de crédito quando foi anunciado o iPhone 5S



Que milhares de pessoas façam fila diante da Apple Store três ou quatro dias antes do lançamento do último modelo de iPhone não é algo que a sociologia, a psicologia ou, evidentemente a economia possam explicar. Para compreendê-lo, é preciso contar com os instrumentos conceptuais da psicanálise, os quais nos permitem captar de que modo um objeto técnico pode adquirir valor libidinal, isto é, transformar-se em causa do desejo.

Cada produto que sai para o mercado transforma-se automaticamente em objeto caduco. Ao mesmo tempo o sujeito demanda o novo, cada vez mais novo, mais rápido, porque o avanço da técnica também pode ser medido (com um rigor quase científico) em função da velocidade com que um objeto deixa de satisfazer o consumidor. A “frustração desequilibrada” que o iPhone 5S provocou nos expectantes e ávidos consumidores de sonhos gerou uma séria queda das ações da Apple.




O extraordinário desenvolvimento da técnica, unido aos interesses da indústria e do capital, conseguiu produzir em massa aqueles que denominamos objetos de consumo, que constituem a base da economia capitalista. Como bem sabemos, um objeto de consumo não é sinónimo de um objeto de necessidade. Se os seres humanos se conformassem com os objetos de necessidade, ou, dito de outro modo, se os seres humanos só fossem regidos pelos rigorosos imperativos da necessidade, o capitalismo simplesmente não poderia existir. Se ele existe, é porque se dedica ao fabrico em massa de objetos cuja virtude fundamental consiste em entrar em sintonia com o objeto inconsciente que opera como causa de nossos desejos. O que é um objeto em linguagem psicanalítica? E o desejo? Um desejo é, para dizê-lo nos melhores termos freudianos, a perversão de uma necessidade. E é isso que, nem mais nem menos, faz de nossa espécie algo incomparável com qualquer extrapolação para o resto dos seres vivos.

O que resta do tempo que passa





O que será mais inquietante, ou angustiante, a ideia de que todos teremos um fim ou de que não pode haver um fim? Enquanto esperava pelo tempo que não passa, perguntei que coisa é o mundo quando vi na TV o Telescópio Espacial James Webb ir para o espaço com a missão de procurar a origem do Universo.

Chegados aos setenta, o melhor é não esperar por nada exceto o sono de todas as noites em que um dia já não acordaremos. Quem espera saber as coisas que se virão a saber e que ainda não se sabem, fica com um anseio permanente de não conseguir chegar a tempo. O anseio é irmão do medo. Que o nosso destino é morrer, todos devem saber. A diferença está no morrer a tempo. Esse é o grande paradoxo, de não querer chegar atrasado. Nas Mil e Uma Noites é o entretenimento que adia a iminência da morte executada.

Eu sou do tempo das leituras dos grandes guias da Internationale Situationniste dos anos 1970, em que se faziam críticas tenazes da espetacularização do social nos media, ou seja, nos meios massificados de comunicação mediática, que criam dinâmicas de controlo social, mental e corporal. Poder-se-ia pensar que a sociedade do espetáculo mais não é que uma forma tardia e desencantada dos contos de As Mil e Uma Noites e que estes constituem uma espécie de prelúdio oriental das atuais telenovelas que passam na TV. Contudo, se a televisão é realmente a nossa Xerazade, então provavelmente não haverá qualquer alegre escapatória às mil interações da iminência da morte.

O desaparecimento de um filho pequeno por rapto, que nunca mais voltou, para uma mãe, é muito pior do que se tivesse morrido. É o caso de uma mãe que ainda espera pelo filho 23 anos depois de ter desaparecido por rapto quando ainda tinha 6 anos de idade. A mãe está ainda desesperada, visível no seu fácies escavado. Como não pode ter a certeza de que o filho morreu, não é possível fazer o luto da perda definitiva. A incerteza é o pior que pode acontecer nestes casos. Não são poucos os que se matam por medo da morte incerta. O suicídio surge talvez como a medida mais radical para triunfar sobre a incerteza do futuro.

Nas últimas 24 horas morreram 256 pessoas de covid-19, na França. Número de novos casos será muito expressivo. Filas para testes no aeroporto de Lisboa esta tarde. As cheias no Brasil fazem 20 mortes na Baía. Duas barragens colapsaram. Milhares de famílias desalojadas. Na Catalunha foi decretado o recolher obrigatório por causa da covid. E alguns catalães protestam, quando por exemplo só têm 15 minutos para beberem uma sangria num bar. Em vigiar e punir Michel Foucault analisou em detalhe a feição totalitária das medidas disciplinares a quem é cerceada a liberdade. Proibir a movimentação de alguém sempre foi uma prerrogativa do poder patriarcal.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Chi-Rho




Chi-Rho, é um monograma do nome de Jesus Cristo (cristograma) muito usado antes mesmo do tempo do imperador Constantino, e adquiriu grande popularidade depois que ele o adotou para o seu lábaro (estandarte militar usado pelos antigos romanos). O símbolo que forma o monograma é formado pela sobreposição das duas primeiras letras (iniciais) chi e rho - XP - da palavra grega "ΧΡΙΣΤΟΣ" (Cristo).

Conta a história que Constantino tivera a visão do Chi-Rho no céu quando estava a caminho da difícil batalha da Ponte Mílvio, onde o aguardava um exército maior e mais forte sob a liderança de Magêncio. E ouviu uma voz proclamar: "Por este sinal conquistarás". Constantino ordenou rapidamente que o Chi-Rho fosse pintado em todos os escudos dos soldados e em seu estandarte. O exército de Constantino ganhou a batalha. Há outra versão que diz que ele teve um sonho na noite anterior da batalha, e que alguém em seu sonho lhe disse para colocar o símbolo em seus escudos para enfrentar o inimigo.

Eusébio de Cesareia deu dois relatos diferentes dos acontecimentos. Em sua história da Igreja, escrita logo após a batalha, quando Eusébio ainda não tinha tido contacto com Constantino, ele não menciona nenhum sonho ou visão, mas compara a derrota de Maxêncio, afogado no Tibre, com o do faraó bíblico, e credita a vitória de Constantino à proteção divina. Num livro de memórias do imperador romano que Eusébio escreveu após a morte de Constantino (Sobre a Vida de Constantino, por volta de 337-339), uma aparição milagrosa é dito ter vindo na Gália muito antes da Batalha da Ponte Mílvio. Nesta versão posterior, o imperador romano estava ponderando os infortúnios que se abateram sobre os comandantes que invocaram a ajuda de muitos deuses diferentes, e decidiu buscar ajuda divina na próxima batalha do Único Deus. Ao meio-dia, Constantino viu uma cruz de luz imposta sobre o Sol. Anexado a ele, em caracteres gregos, estava o ditado "Τούτῳ Νěκα!" ("Com este signo vais conquistar!"). Não só Constantino, mas todo o exército viu o milagre. Naquela noite, Cristo apareceu para o imperador romano em um sonho e disse-lhe para fazer uma réplica do sinal que tinha visto no céu, o que seria uma defesa certa em batalha.

Eusébio escreveu no Vita que o próprio Constantino lhe havia contado esta história "e confirmou-a com juramentos" no final da vida "quando fui considerado digno de seu conhecimento e companhia". "Na verdade", diz Eusébio, "se mais alguém tivesse contado essa história, não teria sido fácil aceitá-la". Eusébio também deixou uma descrição do lábaro, o padrão militar que incorporou o sinal de Chi-Rho, usado pelo imperador Constantino em suas guerras posteriores contra Licínio.

Na imagem que se segue está representado no sarcófago de Domitila em Roma, século IV, o Chi-Rho envolvido por uma coroa de flores simbolizando a vitória da Ressurreição sobre a morte. Crucificação e Ressurreição estão intrinsecamente ligadas.




Depois de Constantino, o Chi-Rho tornou-se parte da insígnia imperial oficial. Ficou demonstrado que o Chi-Rho estava estampado nos capacetes de alguns soldados romanos. Moedas e medalhões cunhados durante o reinado do Imperador Constantino também traziam o Chi-Rho. No ano 350, o Chi-Rho começou a ser usado em afrescos e sarcófagos cristãos. Magêncio [278 - 312] ou Maxêncio o usurpador, filho de Maximiano, montou um exército entre 306-307 e conquistou Roma, que esperava ser proclamado césar- Parece ter sido ele o primeiro a usar o monograma Chi-Rho ladeado pelo alfa e pelo ômega. 

Em 2020, arqueólogos descobriram em Vindolanda, no norte da Inglaterra, um cálice do século V coberto de iconografia religiosa, incluindo o Chi-Rho. [Ver imagem abaixo]. Este achado lançou uma nova luz sobre um período menos compreendido do passado romano na Grã-Bretanha. Vindolanda foi um forte romano para forças auxiliares que guardava a Stanegate, uma importante estrada romana que ia do rio Tyne até Solway Firth, estuário que fica na fronteira entre Inglaterra e Escócia. Enterrado entre um prédio em escombros, agora conhecido por serem os restos de uma igreja cristã do século VI, eram 14 restos fragmentários de uma incrivelmente rara taça cristã ou cálice. Embora em condições muito degradadas devido à sua proximidade com a superfície do solo, cada fragmento do vaso foi encontrado coberto por símbolos levemente gravados, cada um representando diferentes formas de iconografia cristã da época. A combinação de tantas dessas gravuras e o contexto da descoberta fazem deste artefacto um dos mais importantes do seu tipo vindo do cristianismo primitivo na Europa Ocidental. É o único cálice parcial sobrevivente deste período na Grã-Bretanha e o primeiro artefacto desse género a vir de um forte na Muralha de Adriano.




As marcas parecem ter sido adicionadas, tanto para o exterior quanto para o interior deste copo, pela mesma mão ou artista e embora agora sejam difíceis de ver a olho nu, com o auxílio da fotografia especializada, os símbolos foram cuidadosamente gravados e o trabalho começou agora uma nova jornada de descoberta para desbloquear os seus significados. As gravuras incluem alguns símbolos bem conhecidos da igreja primitiva, desde o Chi-Rho, incluindo navios, cruzes e peixes, uma baleia, um bispo feliz, anjos, membros de uma congregação, cartas em latim, grego e potencialmente Ogam.


Condado de Champanhe





Condado de Champanhe foi uma entidade feudal, dependente do antigo Reino de França, cujos titulares tinham a consideração de um dos seis Pares da França primitivos, a mais alta consideração nobiliária do reino. O condado nasceu da fusão dos condados de Meaux e de Troyes, que até meados do século XII esteve dividido entre os herdeiros do conde Teobaldo IV de Blois. As regiões foram anexadas pelos condes de Vermandois, ao que se incorporaria, mais tarde, o Condado de Blois. Embora descrito apenas com o título de Conde de Troyes, Hugo I foi o primeiro a proclamar-se Conde de Champanhe, por volta do ano 1102.

Henrique I de Champanhe [1126 - 1181] - O "Liberal" - 
herdou a região que logo foi província de Champanhe enquanto que seus irmãos menores, Teobaldo V de Blois e Estêvão de Sancerre repartiram entre si as diferentes dependências que ficaram adscritas ao condado do Blois. Henrique I, em 1179, cria um código de leis para a região.

Filipe IV, o Belo [1268 - 1314], rei de França e de Navarra, conde de Champanhe, em 1284, casa com Joana I de Navarra, herdeira do Condado de Champanhe, dá-se a anexação do condado à coroa Francesa. Durante a guerra dos cem anos, em 1420, a região é sitiada e tomada pelo rei inglês Henrique V. Joana I de Navarra ou Joana I de Champanhe [1273 - 1305], foi rainha soberana de Navarra e condessa de Champanhe desde 1274, e rainha consorte de Filipe IV de França. Era filha do rei Henrique I de Navarra e de Branca de Artois.



Troyes

A corte do Conde de Champanhe, uma escola influente de estudos cabalísticos e esotéricos em Troyes, florescia desde 1070. Troyes, em 1128, via os Templários a serem oficialmente incorporados. Troyes permaneceu como o centro estratégico da ordem durante os dois séculos seguintes; e ainda hoje existe um bosque adjacente à cidade chamado Forêt du Temple. Em Troyes, surgiu um dos primeiros romances sobre o "Cálice" - possivelmente o primeiro -, escrito por Chrétien de Troyes. Em 1104, o conde de Champagne reuniu-se num conclave com nobres de alta linhagem, pelo menos um dos quais estava recém retornado de Jerusalém. Entre os presentes, havia representantes de algumas famílias - Brienne, Joinville e Chaumont. Também estava presente o soberano André de Montbard, um dos cofundadores da Ordem dos Templários e tio de São Bernardo.

Logo após o conclave, o Conde de Champanhe partiu para a Terra Santa e permaneceu lá quatro anos, retornando em 1118.  Ao retornar, ele imediatamente doou um pedaço de terra à Ordem Cisterciense, cujo eminente porta-voz era São Bernardo. Nesse pedaço de terra São Bernardo construiu a Abadia de Claraval, onde estabeleceu a sua própria residência e consolidou a Ordem Cisterciense. Meia dúzia de abadias foram construídas nos dois anos seguintes. Por volta de 1153, existiam mais de trezentas. São Bernardo, em pessoa, fundou várias. Este crescimento extraordinário coincide com o da Ordem do Templo, que nos mesmos anos se estava expandindo da mesma maneira. 



Abadia de Claraval, na região de Champanhe

Com São Bernardo, os cistercienses obtiveram ascendência espiritual sobre a Europa. Com Hugues de Payen e André de Montbard, os Templários obtiveram ascendência militar e administrativa sobre a Terra Santa, e tal ascendência se espalhou rapidamente pela Europa. Por trás do crescimento de ambas as ordens fulgurava a presença de tio e sobrinho, bem como a riqueza, a influência e o patrocínio do conde de Champagne. Estes três indivíduos constituem um elo vital. São como marcadores rompendo a superfície da história, indicando as ténues configurações de algum desígnio elaborado e oculto. Se tal desígnio realmente existiu, ele não pode ser atribuído apenas a estes três homens. Pelo contrário, deve ter envolvido muita cooperação de outras pessoas e uma grande e meticulosa organização. Organização talvez fosse a palavra-chave, pois era a organização comparável à de uma Ordem. 

Bernardo de Claraval [1090 - 1153] em 1128 participou no Concílio de Troyes, que delineou a regra monástica que guiaria os Cavaleiros Templários que rapidamente se tornou o ideal de nobreza utilizado no mundo cristão. Depois da morte do papa Honório II, em 1130, Bernardo foi instrumental para reconciliar a Igreja durante o chamado "cisma papal de 1130", que só terminaria definitivamente com a morte do antipapa Anacleto II em 1138. No ano seguinte, Bernardo ajudou a organizar o 2º Concílio de Latrão. Em 1141, Inocêncio convocou o Concílio de Sens para tratar da denúncia de Bernardo contra Pedro Abelardo. Com bastante experiência em curar cismas na Igreja, Bernardo foi em seguida recrutado para ajudar no combate às heresias que grassavam no sul da França. Na Terra Santa, depois da derrota cristã no cerco de Edessa, o papa encarregou Bernardo de organizar a 2ª Cruzada, cujo fracasso seria depois considerado parcialmente culpa sua.

Há lendas que associam São Bernardo a Portugal. E Agostinho da Silva era um fã de São Bernardo. Diz-se, por exemplo, que o próprio Bernardo teria vindo a Portugal quando se estabeleceu a Ordem de Cister no Mosteiro de São João de Tarouca, em 1142), e até que teria estado na Abadia de Alcobaça. Ora, sabe-se que Bernardo nunca saiu para muito longe da Abadia de Claraval na região de Champanhe durante cerca de quarenta anos lá enclausurado. Seja como for, e
studos recentes dão como certo que São Bernardo está associado à independência de Portugal através dos seus cordelinhos de longo alcance. Parece ter sido por sua mediação (ou pelo menos, por mediação da sua Abadia) que o Papa enviou um delegação que reconheceu, senão a independência nacional, pelo menos o título de Ducado, sendo o duque - Afonso Henriques.  

Em 1146, notícias alarmantes para os cristãos começaram a chegar da Terra Santa. A maior parte do Condado de Edessa havia caído nas mãos dos turcos seljúcidas depois da vitória muçulmana no Cerco de Edessa. O Reino de Jerusalém e os demais Estados estabelecidos pelas Cruzadas estavam agora à beira de um desastre similar. Diversas embaixadas, vindas do Reino Arménio da Cilícia, chegaram Roma para pedir ajuda ao Papa. Na Germânia estava-se no tempo de Frederico Barba Ruiva (Frederico I do Sacro Império Romano Germânico).
 O papa Eugénio foi pessoalmente à França depois para reforçar a pregação e, assim como já havia acontecido na cruzada anterior, a pregação deu início a uma série de ataques à população judaica da região. Um fanático monge francês chamado Radulphe foi, aparentemente, o responsável por muitos massacres em Colónia, Mainz e Worms. Diziam que os judeus não estariam contribuindo financeiramente para o resgate da Terra Santa.

Os últimos anos de Bernardo foram de grande tristeza por causa do fracasso desta cruzada, que, por ter sido pregada principalmente por ele, acabou tornando-se também um fracasso pessoal. Ele considerava que era seu dever enviar um pedido de desculpas ao Papa e ele foi inserido na segunda parte do "Livro de Considerações". Nele, Bernardo explica como os pecados dos Cruzados teriam sido responsáveis pelo desastre. Quando iniciou a sua tentativa de convocar uma nova cruzada, Bernardo tentou desassociar o seu nome completamente da Segunda Cruzada.

Em 1153, um nobre da região - simpatizante dos cátaros tornou-se o sexto grão-mestre da Ordem do Templo. Seu nome era Bertrand de Blanchefort [1109 - 1169] , e seu lar ancestral se situava num pico de montanha a poucos quilómetros de Béziers e de Rennes-le-Château. Bertrand de Blanchefort, que presidiu a Ordem de 1153 até 1170, foi provavelmente o mais importante de todos os grão-mestres templários. Antes de seu comando, a hierarquia e a estrutura administrativa da Ordem eram nebulosas. Foi Bertrand quem transformou a organização dos Templários na instituição hierárquica soberbamente eficiente, bem organizada e disciplinada que ela veio a ser. Foi Bertrand quem lançou os Templários na alta diplomacia e na política internacional. 

Qualquer que tenha sido sua misteriosa missão, os Templários gozavam de imunidade especial. De todos os templários da França, foram os que permaneceram sem ser molestados pelos senescais de Filipe, o Belo, em 13 de outubro de 1307. Naquele dia fatídico, o comandante do contingente de templários em Béziers era o senhor de Goth. E o arcebispo de Bordéus - peão vacilante do rei Filipe, antes de tomar o nome de papa Clemente V - era Bertrand de Goth. Além do mais, a mãe do novo pontífice era Ida de Blanchefort, da mesma família de Bertrand de Blanchefort. 
O Obituário de Reims dá sua morte em 2 de janeiro de 1169. Ele foi feito prisioneiro depois que o rei Balduíno foi derrotado em Banyas em 1157. A derrota permitiu que uma emboscada fosse marcada para Blanchefort, que havia dispensado seus soldados francos após a batalha cessar. Ele foi mantido em cativeiro por três anos em Alepo antes de ser libertado para o Imperador Bizantino Manuel I Comnenus, quando o imperador fez as pazes com Nur ad-Din.

Bertrand acompanhou o rei Amalrico I durante a expedição ao Egito em 1163. A expedição terminou em fracasso, apesar dos números consideráveis que os cristãos poderiam usar. Bertrand se recusou a participar de uma segunda expedição em 1168, já que grandes perdas eram quase certas. Ele foi sucedido por Filipe de Milly. Blanchefort pediu ao Papa que usasse o título de "Mestre pela Graça de Deus", que se encaixava na posição dos Templários como estrelas em ascensão na igreja, um favor que Roma alegremente concedeu. Suas reformas internas foram mais importantes no entanto. Ele escreveu os "Retraits", que estabeleceram estrutura dentro da ordem. Isso significava que os cavaleiros tinham papéis e protocolos mais claros. Ele também estabeleceu verificações dentro das lideranças da ordem, o que impediu que futuros Grão Mestres decidissem a direção dos Templários, sem o apoio dos cavaleiros. O seu trabalho na criação de papéis de negociação dentro da ordem também vale a pena notar. Após a fracassada expedição ao Egito, foram os Templários que ajudaram a elaborar um tratado de paz.

Em 13 de outubro de 1307, os Templários em toda a França foram capturados pelos senescais de Filipe, o Belo. É uma afirmação que não encerra toda a verdade. Os Templários, de pelo menos uma preceptoria,  - a preceptoria de Béziers, deslizaram sorrateiramente sob o olhar da rede armada do rei. 

Lenda da Cabração




Cabração é uma antiga freguesia portuguesa do concelho de Ponte de Lima, com 16,43 km² de área e 118 habitantes (2011). Pela última Reorganização Administrativa do território das freguesias, de acordo com a Lei nº 11-A/2013 de 28 de janeiro, esta freguesia juntamente com a freguesia de Moreira do Lima passou a constituir a freguesia de Cabração e Moreira do Lima, com sede em Moreira do Lima.




Cabração é terra antiquíssima como se documenta pelo conhecimento que se tem da existência de um povoado castrejo pré-romano e do Convento da Carrapachana cuja localização não foi ainda possível determinar com absoluta segurança, apesar dos vestígios de ruínas no Outeirinho e na Costa. Mas, a humildade da terra não permitiu despertar até ao presente o interesse dos arqueólogos.

Não obstante, aqui nasceram algumas das mais ilustres figuras de Ponte de Lima como foi o Dr. Augusto Joaquim Alves dos Santos que, para além de eminente pedagogo, teólogo, escritor, político e cientista, foi o introdutor do estudo da Psicologia em Portugal, tendo na Universidade de Coimbra criado um laboratório, atualmente transformado em museu que ostenta o seu nome.




Rodeada de floresta e sem iluminação pública até há escassas quatro décadas, Cabração viveu ao longo de séculos isolada na encosta da serra, fechada sobre si mesma, temerosa do bulício que ocorria à sua volta. De importantes acontecimentos que vieram a ficar na História chegava, por vezes, o som longínquo que ecoava para além dos montes, umas vezes do lado da Galiza quando a Espanha esteve a ferro e fogo, outras mais a sul quando os realistas proclamaram em Viana do Castelo a restauração do regime monárquico. Na Cabração, apenas aqui foi hasteada a bandeira monárquica por essa altura, na casa que foi dos Carmo.

O padre Miranda foi o último pároco que ali exerceu tal ofício. Era extraordinária a afluência diária de visitantes à localidade. O atendimento era geralmente feito durante a manhã até à hora de almoço. E, no exterior da capela de Nossa Senhora do Azevedo, podia ver-se uma longa fila de automóveis que por vezes chegava às três dezenas. A pequena capela enchia-se por completo de pessoas que invariavelmente recorriam aos serviços do gentil pároco. Este procurava saber os pecados que condenavam a “alma penada” a encostar-se à criatura que atormentava. E, com umas valentes bofetadas, sempre acompanhadas de algumas preciosidades do nosso mais requintado vernáculo, lá tratava de enviar a alma atormentada para “o alto do monte onde só ouvisse cantar o mocho”…

O padre Manuel Lopes Miranda faleceu em 26 de Janeiro de 1978 e foi sepultado em jazigo de família, em Barcelos, no cemitério paroquial de Cristelo, sua terra natal. Com ele, a prática do exorcismo extinguiu-se na freguesia de Cabração. Resta na memória dos seus habitantes, sobretudo dos menos jovens, a forma como o mesmo era tratado – O “Pintinho”!




É de um Almanaque de Ponte de Lima que foi retirada a "Lenda da Cabração", escrita pelo Conde de Bertiandos em 1923: "Cabras são Senhor . . .".
Após o recontro no Rego do Azar, quis D. Afonso Henriques deambular pelas montanhas próximas, caçando ursos e javalis. Convidou alguns poucos ricos-homens e infanções. Quando estavam no sítio que hoje se chama Cabração, apareceu muito açodado o Capelão das freiras de Vitorino das Donas, que à frente de moços com cestos pesados andava desde manhã à busca do real monteador, com um banquete mandado do Mosteiro. Em boa hora vinha a refeição. Estendeu-se na relva uma toalha de linho e sentados em troncos de carvalho cortados à pressa, começou o jantar. Alegre ia correndo.

D. Nuno, o Soares, que o chamavam assim para o diferençar de seu avô, a quem chamavam D. Nuno o Velho, e cujas proezas ainda se recontavam em toda a terra da Cerveira, começou a trinchar um leitão assado. "Parece-me que tens mais jeito para matar infiéis", – disse-lhe o Rei brincando. "Ai Real Senhor, antes eu ficasse morto com os últimos que matei, que desde essa refrega não passo um dia que me não lembre do momento em que o bom cavaleiro Gonçalo da Maia exalou o derradeiro suspiro encostado ao meu peito."

"Quisera eu ouvir da tua boca essa heroica morte do Lidador", interrompeu o Monarca triste, mas curioso. E o Senhor da Torre do Loivo obedeceu, com voz pausada e lágrimas nos olhos. Ia escurecendo o dia e era tão esquisita a coincidência de estar ali um punhado de homens, senão solenizando um aniversário, festejando uma vitória, que talvez um pressentimento apertasse o coração dos guerreiros.

Dos lados da Galiza… Atentos, escutavam silenciosos a narração. De golpe ergueu-se o Espadeiro e olhou fito para as bandas da Galiza. "Que examinas D. Egas?" – perguntou o Príncipe. "Vejo além muito ao longe um turbilhão de pó, que se aproxima. São talvez inimigos que procuram encontrar-nos descuidados." De facto vagalhões de poeira negra encobriam multidão fosse do que fosse. O ruído do tropel era cada vez mais distinto.

"Sejamos prestes" – gritou o Rei, cingindo o seu enorme espadão. Todos fizeram o mesmo. "Cavalgar, cavalgar". Já não era outra a voz que se ouvia, enquanto cada um se dirigia para o lugar onde prendera o seu cavalo. O capelão olhou, escutou e sentou-se começando a comer aqui e além os deliciosos postres e bebendo aos goles pachorrentos um licor estomacal, resmungando… –"Deixá-los ir que voltam breve. Eu era capaz de apostar todo o mel deste monte, em como sei que inimigos são aqueles. E mais dizem que é mel igual ao do Himeto. A história do Lidador é que lhes esquentou a cabeça."

“Cabras são…” Pouco depois voltavam os monteadores rindo à gargalhada. – "Cabras são": – disse o rei ao apear-se, e, dirigindo-se ao padre: – "Bem fizestes vós que não bulistes". E D. Afonso tomando um púcaro e enchendo-o de vinho, acrescentou – "Bebei todos, que estais muito quentes e podeis ter um resfriado, e dizei-me depois se não valeu a pena o engano para nos refrescarmos agora com este delicioso néctar. Capelão, quero comemorar o caso de confundir rebanho de cabras com mesnada de leoneses e beneficiar o convento para vos honrar a vós que fostes, não sei se mais perspicaz, se mais valente do que nós debicando mui sossegadamente em todos os doces. Vou coutar aqui uma terra, para que as boas monjas possam de vez em quando apanhar bom ar da montanha e rir-se de nós." Riscou-se o couto e nessa noite os cavaleiros dormiram na ermida da Senhora de Azevedo. O dito do Rei “Cabras são” corrompeu-se em Cabração.