sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Que tempo?


O tempo é inseparável da consciência. Sem consciência não haveria propriamente tempo, tal como intuitivamente o concebemos. O conceito de tempo nunca deixou de intrigar aqueles que gostam de pensar sobre o assunto. Por um lado, nós temos a tendência para objetivar os conceitos, isto é, segundo o jargão dos filósofos: “reificar”, que significa dar-lhes um corpo, uma substância. Mas, por outro lado, nós sentimos no próprio corpo o tempo a passar. O tempo passa sem cessar, nunca para. Mas, quando vamos analisá-lo, encontramos boas razões para rejeitar a ideia de que ele exista de uma forma independente, por si só. Assim como o presente está vinculado à consciência percetiva, o passado e o futuro estão vinculados à memória. Uma pessoa com doença de Alzheimer que tenha perdido a memória só tem presente, para essa pessoa passado e futuro não existem. Nós só temos a certeza de que vamos cumprir a promessa de amanhã nos encontrarmos com um amigo, ou ir fazer uma viagem dali a uma semana, porque temos memória de futuro. Marquei um encontro para amanhã no café tal à hora tal.



Templo de Poseidon no Cabo Súnio, Grécia - 444-440 a.C.
No regresso a casa, os marinheiros gregos sabiam que estavam a chegar quando ao longe avistavam o Templo de Poseidon, erguido num rochedo escarpado virado para o mar, no extremo do Cabo Súnio.
A associação íntima do tempo com o Universo remonta a Platão [428-347 a.C.]. Na cosmologia de Platão, tal como apresentada no diálogo Timeu, o Universo foi criado por um artífice divino que impôs ordem ao caos primordial, reduzindo-o à regra do que hoje chamamos de lei natural. Mas Platão via o Universo ligeiramente diferente dos astrofísicos de hoje: formas geométricas ideais em estado de absoluto descanso sem tempo. Enquanto o espaço era visto por Platão como uma estrutura preexistente na qual o Universo se encaixava, Platão já via o tempo ser produzido pelo Universo, sujeito a mudança. O tempo representava a mudança das coisas no mundo.

Antes de PlatãoParménides tinha divagado sobre o assunto. O tempo não pertence a nada que seja verdadeiramente “real”, faz parte da aparência do mundo que nos é revelada pelos sentidos, logicamente insatisfatório. A crença de Parménides consistia em pensar que o fluxo temporal não era um aspeto intrínseco da natureza última das coisas. O passado e o futuro deviam ser considerados tão reais quanto o presente.

Os físicos dizem que antes do Big-bang não existia tempo. Isto parece um oximoro, porque então o que é que eles querem dizer com o "antes" do Big-bang? Só falta dizer que o Big-bang surgiu do Nada. E o que é que eu estou aqui a fazer, se como uma extensão no tempo do Big-bang ao fim e ao cabo vim do Nada? E também não existia espaço. É por isso que para os astrofísicos Universo e Espaço são inextricáveis. São a mesma coisa. E assim, os astronautas vão para o Espaço quando saem da Terra. Não é separável o tempo do espaço. E só passou a haver espaço e tempo depois do Big-bang.
Houve um tempo
Que só queríamos passear
Pedimos a um pássaro ao vento
Que nos ensinasse a voar
Mas depois chegou o momento
Em que tínhamos de participar
Amar a vida e partilhar
Em harmonia com o tempo
Conta-se uma história interessante sobre o filósofo russo Nikolai Berdyaev, que, depois de ter defendido veementemente a insignificância e a irrealidade do tempo, de repente parou. E então olhou para o relógio. Ele não podia atrasar-se na toma do seu remédio.

Enquanto a seta do tempo descreve a irreversível sucessão de eventos antes-e-depois, a passagem do tempo refere-se à distinção que fazemos entre passado, presente e futuro. Essas duas propriedades intimamente associadas não devem ser confundidas. A série antes-e-depois é permanente, no sentido de que, se a declaração “B ocorre depois de A” for verdadeira, será sempre verdadeira. Por exemplo, a declaração de que a batalha de Waterloo ocorreu depois da batalha de Hastings é uma verdade permanente. A série antes-e-depois é a forma pela qual nós contemplamos normalmente uma cadeia de eventos no tempo. É o método de ordenação análogo à ordenação numérica, e é compatível com a ideia de “um Universo como um todo”. Por outro lado, a série de passado, presente e futuro caracteriza a forma pela qual nós realmente vivenciamos os eventos.

Não se pode definir o presente a não ser por referência ao aqui e agora. O presente é simplesmente o nosso “agora”, e, como essa é uma definição circular, não há razão para supormos que o que ela define tenha significância objetiva. O conceito de “agora” restringe-se ao nosso modo de perceção. Neste sentido, passado presente e futuro é mera abstração, ou seja, só há presente.

O “presente” de um indivíduo pode ser definido como tudo que interage com ele em um dado instante. É uma relação entre o indivíduo e o resto do Universo, tudo o que lhe está a acontecer num certo instante. Tudo o que é de facto presente para ele. Definindo o presente dessa forma, será possível mostrar que o presente é um conceito objetivo? É claro que só poderíamos ir contra isso se dois indivíduos pudessem simultaneamente ter diferentes “agora”. Portanto, não temos razão para não aceitar a sensata afirmação de que A e B têm um “agora” comum, e que as distinções que fazemos entre passado, presente e futuro não são meramente subjetivas.

A aceitação da Teoria da Relatividade proposta por Einstein não nos força a considerar a ordem dos eventos no tempo totalmente dependente do observador. A teoria realmente permite uma ordem de tempo objetiva para uma ampla classe de eventos, a saber, os que podem interagir com ou influenciar uns aos outros. Consequentemente, ao definir o conceito de presente para qualquer observador em termos de suas interações com o meio ambiente, não estamos em conflito com a Relatividade. Além disso, se o Universo admite um tempo cósmico comum para observadores fixados nas galáxias, em termos desse tempo cósmico, todos os eventos têm uma única ordem de tempo. Do ponto de vista dos observadores fundamentais, há uma ordem de tempo linear que é comum em todo o Universo, e uma distinção clara entre passado, presente e futuro. O Tempo e o Universo estão intimamente associados.

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