segunda-feira, 26 de agosto de 2019

O repovoamento da Europa a partir da Ibéria com o recuo do gelo

Arte Parietal do Paleolítico Superior – Gruta do Escoural

No período do Paleolítico Superior, entre 40 mil e 10 mil anos antes do presente, o território português também foi atingido pela última glaciação de Würm, ou última idade do gelo intercalada por pequenos períodos mais amenos. Aqui o protagonista já é um sapiens como nós, proveniente da última migração africana, alimentado por muita caça e alguma coleção de frutos e vegetais. Assim, a Gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, é o vestígio principal da Arte Parietal em Gruta típica deste período em toda a Europa e que se terá iniciado há 32 mil anos com o Aurinhacense e terminado há 10 mil anos com o Magdalenense. Nesta gruta, a primeira fase da intervenção artística terá decorrido no período Solutrense antigo e médio. Depreende-se que neste período gelado o homo sapiens terá levado uma vida mais de cavernas e nomadismo. As deslocações destinavam-se não só para caçar, mas também para procurar o sílex, preferencial, mas não exclusivo, para as ferramentas. E a Estremadura portuguesa é rica em sílex! O homem que habitava a Europa há 40 mil anos era o homem de Neandertal, que aparece há 300 mil anos na Europa e se extingue pelo início do Paleolítico Superior, há 40 mil anos. O Paleolítico médio, sendo o mais curto – de há 100 mil anos a 40 mil – é também o menos representativo no território onde hoje é Portugal.

Encontrado no abrigo do Lagar Velho na região de Leiria, temos o Menino do Lapedo, um mestiço Sapiens/Neandertal, que ronda precisamente a sua passagem por aqui há 28 ou 30 mil anos. João Zilhão, o paleoantropólogo que mais sabe acerca do Menino do Lapedo, enquadra-o na classificação de compromisso arqueológico/antropológico – Paleolítico Médio e cultura Musteriense – uma vez marcado pela cultura do ritual funerário, o canibalismo e o culto ao urso das cavernas.

Há 18 mil anos o gelo da Europa paleolítica encontrava-se no ponto máximo do último período glacial, com 2 km de espessura de gelo na zona dos Alpes, e com o mar a 125 metros mais abaixo do que está hoje. Um dos locais menos afetados pela glaciação foi a região franco-cantábrica – Astúrias e Sudoeste da Provença. Assim como foi o caso do Sul de Itália, Balcãs e Cáucaso. Mas a partir de 12 mil anos atrás o clima sofreu uma viragem com degelo. O seu efeito fez-se sentir noutros pontos do planeta, como por exemplo no sudeste asiático, onde há 40 mil anos existia um continente. A subida do nível do mar teve como efeito o aumento do número de ilhas à volta de Java.

Assim, no período que vai de há 12 mil anos até há 6 mil anos, a Europa passou a ser repovoada com migrações de homo sapiens a partir da Ibéria e dos Balcãs, onde se encontravam refugiados do gelo desde que os seus antepassados tinham vindo do Próximo Oriente para a Europa há cerca de 40 mil anos. No entanto há 12 mil anos ainda se tinha verificado um período de ligeiro arrefecimento. Como é sabido, o Próximo e Médio Oriente entrou na era do Neolítico há 12 mil anos, mais coisa menos coisa. Assim, foi possível a pastorícia e o desenvolvimento da agricultura, e com ela o aparecimento da cultura conhecida por Cultura Natufiense. Há 8 a 9 mil anos dá-se a inversão do pêndulo migratório, desta vez com um novo fluxo migratório Leste-Oeste.

O que intriga os cientistas é o facto de os marcadores genéticos dos povos Ibéricos do Paleolítico, que até aí tinham sido bem-sucedidos a defenderem-se do frio, terem desaparecido depois da vaga migratória vinda do Próximo Oriente há 8 a 9 mil anos. Não existe um consenso quanto aos povos da Ibéria, e particularmente os do Alentejo, terem adotado o Neolítico por si próprios ou ter sido uma civilização importada de fora. Acredita-se que as comunidades mesolíticas de caçadores recolectores do ocidente ibérico, nomeadamente os concheiros do estuário do Tejo e Sado, começaram a contactar com o modo de vida neolítico que veio de fora por via marítima. Já se encontram vestígios dos primeiros pastores e agricultores no Alentejo Central a partir de 5.500 a.C. adotar a cultura Neolítica no Alentejo. Agora, se é de imigrantes vindos do Leste, ou se é genuinamente de povos autóctones, é já outro tema. O que é certo é que o legado genético dos caçadores/coletores do paleolítico da Ibéria foi apagado por imigrações posteriores vindas do Próximo Oriente.

O contributo da genética no estudo das migrações tem sido revolucionário na reconstituição das migrações populacionais ao longo da história humana. Dentro dos haplogrupos do ADN mitocondrial, várias linhagens femininas, denominadas H, U, T, X, K e I, espalharam-se por toda a Europa vindas do Próximo Oriente há cerca de 40.000 anos, cujo efetivo populacional durante o Último Máximo Glaciar teria sido pequeno. Contudo, no refúgio ibérico, um maior efetivo populacional criaria a oportunidade para o aparecimento de novas linhagens mais recentes. Dentro daqueles grupos o haplogrupo H, é o marcador genético mais frequente da população europeia. Nos nossos dias estas linhagens perduram, sendo ainda mais frequentes na Ibéria. Por exemplo, em 499 amostras colhidas em Portugal, 25,5% são H1. Usando o relógio molecular, as suas idades apontam para 15.000 anos. À medida que o gelo ia recuando para Norte estes grupos também iam subindo pela Europa refazendo rapidamente o seu povoamento. Portanto, o atual património genético feminino europeu sinaliza esse repovoamento europeu a partir da Península Ibérica.

O ADN mitocondrial e o cromossoma Y são duas porções do genoma humano que permitem rastrear respetivamente as linhagens materna e paterna de um indivíduo. As mulheres transmitem o ADN mitocondrial aos descendentes dos dois géneros, ao passo que os homens, apesar de também possuírem obviamente mitocôndrias, não transmitem ADN mitocondrial. Em contrapartida transmitem o cromossoma Y, e obviamente apenas ao género masculino. O ADN mitocondrial e o cromossoma Y são haploides, isto é, são exemplares de transmissão uniparental. E às diversas formas polimórficas destes marcadores presentes na população dá-se o nome de haplótipos. E um grupo grande de haplótipos, que são séries de alelos em lugares específicos de um cromossoma constitui um haplogrupo. Em genética humana os haplogrupos mais estudados que podem ser usados para definir populações genéticas são os haplogrupos do cromossoma Y; e os haplogrupos do ADN mitocondrial. Assim, dentro dos
haplogrupos do cromossoma Y, temos o haplogrupo I2, que pode ser o haplogrupo de referência para o Homem de Cro-Magnon, remontando a 13.000-15.000 anos e tendo atingido a sua máxima frequência nos Alpes Dináricos, Balcãs. Por sua vez o haplogrupo I2a1 é de longe o maior ramo de I2 e o mais frequentemente ligado às culturas neolíticas do sudeste, sudoeste e noroeste da Europa. 



Na imagem supra vê-se um conjunto de materiais líticos constituído exclusivamente por seixos afeiçoados e lascas de quartzito, datáveis do Paleolítico inferior, mesmo que represente o sinal mais antigo da presença humana em território português, ou seja, há cerca de 500 mil anos. O Paleolítico inferior começa há 2 milhões e meio de anos e prolonga-se até há 100 mil anos. Este espólio é da Quinta do Curral Velho, Vila Nova de Foz Côa – Santa Comba, encontrado em terraço aluvial elevado sobre a margem esquerda do Côa. A cultura é do Acheulense e o homem é Heidelbergensis.O Vale do Côa deve ser o melhor local para sabermos como foi no território português a ocupação dos nossos Adão-e-Eva. Como foram e como foi a sua arte. O Vale do Côa está pejado de centenas, se não milhares de exemplares do que foi a primeira arte da humanidade.

Arte Rupestre ao Ar Livre – Paleolítico Superior
É claro que, como a “idade do gelo” remetia os raciocínios para “os homens das cavernas”, levou tempo a descobrir a “Arte Rupestre ao Ar Livre”. A genuína atenção dos arqueólogos apenas passou a ser dada depois de 1994, quando a descoberta das gravuras paleolíticas do Vale do Côa já corria mundo. Pois, quando em 1980 foi chamada a atenção para uma rocha próxima de Mazouco (Freixo-de-Espada-à-Cinta), na margem direita do rio Douro, pouca gente se importou, incluindo as autoridades. Mas depois também fomos rápidos a recuperar o tesouro da arca perdida, nomeadamente com a suspensão da construção de uma barragem hidroelétrica que a remeteria definitivamente para o esquecimento. As gravuras mais antigas do Vale do Côa, do período do Paleolítico Superior, foram datadas com pelo menos 14.500 anos, embora pelas características estilísticas (Gravetense e Magdalenense superior) possam ser ainda mais antigas.

A ocupação humana do Vale do Côa, durante o Neolítico antigo, terá sido levada a cabo por pequenos grupos, que apresentavam alguma mobilidade. O fim do Paleolítico é marcado por profundas alterações climáticas, que motivaram uma mudança no modo de vida e, por consequência, nas mentalidades e na sua expressão artística. Dá-se início à sedentarização das populações e a um modo de vida produtor, com a introdução da agricultura e da pastorícia, e a uma nova classificação de idades: neolítico, cobre ou calcolítico, bronze e ferro. A idade do ferro marca, por sua vez, o fim da Pré-história, pois coincide com a invenção da escrita.

Assim, um pequeno grupo no Vale do Côa começaria no fim do Paleolítico a percorrer esta região alternando a ocupação dos sítios do fundo do vale com os sítios do planalto onde se formavam grandes reservas de água na sequência do degelo das neves durante a primavera. Estes reservatórios naturais atrairiam as manadas de gado herbívoro, muito conveniente para a caça. Em ambos foram identificados fragmentos de cerâmica manual com formas elementares, como recipientes esféricos, hemisféricos e globulares, alguns deles decorados. O material lítico é constituído por lascas e pequenos geométricos, obtidos, sobretudo, a partir de rochas locais, mas também de algum sílex importado de outras regiões. Para além da pedra lascada, identificaram-se alguns objetos de pedra polida, como sejam percutores e machados. Parece notar-se, no entanto, uma distinção importante entre os dois sítios. Um parece ter sido utilizado, sobretudo, para a pastorícia, associada à caça. Já o outro apresenta grandes recipientes cerâmicos, instrumentos polidos com gume, utilizados no desbravamento das florestas e uma relativa abundância de mós, poderá ter estado mais ligado ao processamento de alimentos vegetais, fossem eles cultivados ou espontâneos.




O período da Idade do Ferro na Península Ibérica, que decorreu entre 700 a.C. e o início da ocupação romana, este período caracteriza-se por uma maior hierarquização social e complexidade política, bem como uma correspondente instabilidade. Assiste-se, por outro lado, ao estabelecimento de contactos comerciais e culturais entre as populações peninsulares e as florescentes civilizações mediterrânicas, que vão contribuir para a introdução da escrita na Península Ibérica, marcando, assim, o fim da Pré-história.

As gravuras da Idade do Ferro, mais precisamente da 2ª Idade do Ferro, constituem seguramente o segundo conjunto mais relevante do Vale do Côa. Os motivos representados baseiam-se sobretudo na figura humana, que é retratada de forma isolada, ou montada em cavalos, demonstrando-se assim uma das novidades importantes da época: a domesticação deste animal. Estas figuras humanas tomam geralmente a forma de guerreiros. As figuras compõem geralmente cenas, que se acredita constituírem relatos de acontecimentos mitológicos. Para essa crença contribui o facto de muitas figuras apresentarem cabeças em forma de bico de pássaro. 
A ocupação desta época na região do Vale do Côa seguiria o padrão identificado para todo o noroeste peninsular. Assentaria numa rede de povoados fortificados no cimo dos montes, vulgarmente apelidados de castros, de onde se deteria um bom controlo visual da região envolvente e facilmente se abrigariam as populações em caso de conflito. Cada um destes povoados dominaria um pequeno território por onde se distribuíram os campos de cultivo e as zonas de pasto. Aqui esteve a antiga sede de bispado visigótico Caliabriga. Não é de excluir que alguns acastelamentos medievais tenham escolhido as mesmas implantações dos povoados proto-históricos, destruindo-os. Este parece ser o caso de Marialva, que as fontes romanas fazem corresponder à Civitas Aravorum, uma entidade político-administrativa romana, que tem origem numa etnia proto-histórica. Para além destes, a região do Vale do Côa estaria relacionada com outros grupos étnicos pré-romanos. Os Banienses teriam a sua sede administrativa no Vale da Vilariça. Esta arte da Idade do Ferro tem vindo a ser interpretada como delimitadora de fronteiras entre territórios de diferentes povos. O Vale do Côa situa-se no limite ocidental da Meseta Ibérica, dando-se aqui início aos planaltos centrais e às montanhas que marcam o litoral peninsular. Este limite natural definiria possivelmente as fronteiras entre povos, nomeadamente os famosos Lusitanos e os Vetões. A arte serviria assim para definir e manter os limites estabelecidos. A sua temática guerreira funcionaria como gestora das tensões políticas. É curioso verificar que o aparecimento da escrita parece ter provocado uma interrupção na arte rupestre do Vale do Côa. Este facto encontra-se atestado noutras partes do mundo, onde se verificam casos idênticos que parecem demonstrar que a arte rupestre é uma atividade típica das sociedades iletradas. No Vale do Côa, ao ciclo artístico da Idade do Ferro, que marca localmente o fim das sociedades sem escrita, segue-se um vazio até por volta do século XV/XVI quando surgem novos gravadores.

sábado, 24 de agosto de 2019

Göbekli Tepe


Göbekli Tepe é um sítio arqueológico na região sudeste da Anatólia (Turquia) com data que remonta a 8 a 10 mil anos a.C. Segundo Klaus Schmidt, o arqueólogo responsável pela descoberta, é formado pelos megálitos mais antigos do mundo. Mais de 200 pilares em cerca de 20 círculos são conhecidos atualmente. Cada pilar tem uma altura de até 6 metros e pesa até 10 toneladas. Os detalhes da função da estrutura permanecem um mistério. As escavações estão em andamento desde 1996 pelo Instituto Arqueológico Alemão. Em 2018, o local foi designado Património Mundial da UNESCO.

É dos locais de culto mais antigos até agora descobertos, do tempo dos caçadores-coletores do décimo milénio a.C. Está a revolucionar as teorias sobre o início da civilização neolítica. São monólitos decorados com baixos relevos de animais [leões, touros, raposas, serpentes e outros répteis, insetos, pássaros, particularmente abutres e aves aquáticas] e pictogramas abstratos. São símbolos sagrados. Já se vê aqui a cultura dos mortos do sudeste da Anatólia em que antes da sepultura os cadáveres eram expostos para serem devorados por abutres. As casas ou templos são edifícios megalíticos redondos. As paredes são de pedra tosca, com 12 pilares monolíticos em forma de T. 

Como não se encontraram lareiras, nem poços de lixo que sugiram terem sido habitações permanentes, tudo indica tratar-se de um templo de cariz religioso. Mas isso não deve surpreender se considerarmos que eram povos nómadas caçadores, ainda antes da agricultura. A estratigrafia de Göbekli Tepe é imponente.

Ainda vai ser preciso mais investigação, e ainda mais escavações na medida em que até agora só foi escavada uma parte, para termos uma noção mais aproximada como tudo isto aconteceu. Mas a opinião de Scmidt é que Göbekli Tepe é um santuário de montanha da idade que precede imediatamente o Neolítico. Schmidt considerou Göbekli Tepe um local central para um culto aos mortos, e que os animais esculpidos estão lá para proteger os mortos. Embora não tenham sido encontrados túmulos ou sepulturas até agora, Schmidt acredita que eles seriam descobertos em nichos localizados atrás das paredes dos círculos sagrados. Schmidt também se envolveu em especulações sobre os sistemas de crenças dos grupos que criaram Göbekli Tepe, baseados em comparações com outros santuários e assentamentos. Ele presumiu práticas xamânicas e sugeriu que os pilares em forma de T representam formas humanas. Alguns pesquisadores acreditam que a construção de Göbekli Tepe pode ter contribuído para o desenvolvimento posterior da civilização urbana, ou, como disse Klaus Schmidt, "Primeiro veio o templo, depois a cidade". 

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

São Bartolomeu


Podemos ir a Ponte da Barca ou Esposende às festas do São Bartolomeu. São Bartolomeu é alvo de especial veneração em muitas terras de Portugal. A 24 de agosto desacorrenta o Diabo para andar em liberdade. O Diabo anda à solta.

A tradição de São Bartolomeu do Mar, em Esposende, é muito sui generis. São Bartolomeu do Mar foi sede de uma freguesia extinta em 2013, no âmbito de uma reforma administrativa nacional, para, em conjunto com Belinho, formar uma nova freguesia denominadaUnião das Freguesias de Belinho e Mar com a sede em Belinho.

No dia 24 de agosto realiza-se a famosa romaria a São Bartolomeu do Mar santo padroeiro da freguesia. A tradição remonta ao século XVI e consiste em dar voltas à Igreja com um pinto (os locais dizem pito) preto ao colo, passar por baixo do andor (a barca de São Bartolomeu) e, de seguida, recebem o toque do santo na testa. Depois há que ir à praia "furar" ondas em número ímpar, ou seja, três, cinco, sete ou nove. Tudo isto para que as crianças ficassem afastadas de efeitos demoníacos.
O galo é um símbolo solar por excelência. Sendo preto, representa o sol oculto, a força necessária para ultrapassar a fase negra das forças caóticas mais arcaicas as águas profundas simbolizadas na passagem por baixo da barca. Ainda há quem cumpra a tradição, que consiste trazer de casa um galo preto cozinhado (de preferência arroz de frango caseiro), e comido no areal da praia.

Chegam a ser milhares as pessoas que cumprem o rito profilático de tirar o medo às crianças. Na praia, veem-se pessoas sentadas no areal e outras tantas a tomar o banho purificador. Como o Diabo anda à solta, a água do mar tem nesse dia um poder especial, mais devotado às crianças, livrando-as da epilepsia, da gaguez, enfim, dos males do Demo. No fim há a procissão que segue da igreja até à praia e depois regressa. Nela alinham vários andores e ainda em maior número os amortalhados.


Na foto acima vê-se o Menir de São Bartolomeu do Mar, com 2m de altura. Este monólito de granito parece ostentar uma figura antropomórfica, muito incipiente. Datado do Neolítico-Idade do Bronze (III-II milénio a.C.), teria uma vocação devocional com o culto de fertilidade. Há ainda tradições locais sobre o menir, dizendo-se que não pode ser retirado dali pois grandes males poderão assim chegar ao local, tais como o a invasão do mar a cobrir os terrenos férteis, acarretando na esterilização dos campos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Os Celtas e o culto do Sagrado nos dias de hoje


O termo “nações celtas” refere-se a territórios (nações na maioria das vezes sem o seu próprio estado) que na Europa Ocidental suscitou no início do século XX um maior aprofundamento, quer no que diz respeito à língua, quer no que diz respeito a características culturais. Nesse contexto, o termo "nações" ganhou significado ao entender-se como um grupo étnico de pessoas historicamente associadas a um território-raiz compartilhando uma identidade própria através de uma língua, uma cultura e uma mentalidade comum. Assim, para além da Irlanda, País de Gales, Escócia, Cornualha e Ilha de Man, cuja reivindicação de nação celta já era proclamada nos finais do século XIX, no século XX a Galiza também se juntou a esse grupo. No entanto, os esforços despendidos pelos Galegos no sentido de aproximação e criação de pontes com as outras nações celtas, foram sabotadas pela ditadura fascista que, entretanto, se instalou na Espanha. No entanto, a Galiza está incluída em numerosos atos de expressão e reivindicação da cultura celta, bem como as Astúrias.

Houve tempos em que uma tradição transmitida de geração em geração, apenas era reconhecida como um corpus identitário de uma civilização desde que fosse acompanhada de documentos escritos. Na história da humanidade sempre se privilegiou a escrita, por esta ser o meio mais seguro e mais fiel da preservação da memória do passado. Os gregos não tiveram o problema dos celtas, porque as obras literárias que deixaram desde o século VIII a.C. permitiu-lhes a entrada no rol dos povos civilizados.

Mas hoje podemos recuar ainda mais no tempo graças à introdução de novas tecnologias na área da arqueologia e da antropologia das religiões. Já ninguém duvida, por exemplo, que os construtores megalíticos que viveram do V ao II milénio a.n.e. foram extraordinários artesãos de uma civilização brilhante que ocupou uma grande faixa desta Finisterra à beira do Atlântico. E, no entanto, não nos deixaram literatura. Deles ficaram as pedras monumentais e os misteriosos símbolos nelas gravados a que chamamos civilização megalítica. Ora, é neste contexto que os autodidatas também embrulham os celtas. Há uma realidade incontestável: os celtas não escreveram nada antes de serem cristianizados. Foram monges eruditos que pacientemente recolheram em manuscritos preciosos os testemunhos que ainda circulavam oralmente. Mas ainda assim, sabemos muito pouco sobre eles.

Os celtas, segundo os autores gregos, aparecem na História por volta do ano 500 a.n.e. Segundo a historiografia oficial, o povo indo-europeu original terá surgido no sul da Rússia, de onde se expandiu em direção à Ásia, dando origem, por exemplo às culturas hindu e iraniana; e em direção à Europa, originando uma grande diversidade de culturas e civilizações. Estes povos, tendo cada um deles características muito próprias, têm uma base cultural comum que se torna evidente ao estudar-se a evolução do seu pensamento mítico-religioso. 



Mas é a Arqueologia que põe em evidência o aparecimento de uma nova forma de civilização na qual o ferro desempenha um papel fundamental. Chamou-se a este período Primeira Idade do Ferro, ou Civilização de Hallstatt, nome de uma estação arqueológica austríaca. E foi a partir desta região que os denominados povos celtas começaram as suas migrações, dirigindo-se sobretudo para ocidente, em vagas sucessivas. Se quisermos ir mais fundo na nossa história para compreendermos melhor as nossas tradições que remontam à matriz Celta e Indo-europeia do Norte de Portugal, e a natureza do nosso inconsciente coletivo, não podemos parar na história de D. Afonso Henriques, mas temos de ir mais dois milénios atrás. É uma longa tradição que mergulha raízes em civilizações de vários povos pré-romanos. Desde épocas muito longínquas que o extremo ocidental da Ibéria foi habitado por muitos povos. Mas a população da maior parte da Península Ibérica era essencialmente Indo-europeia. Do primitivo tronco comum Indo-europeu diferenciaram-se diversos ramos numa multiplicidade de povos, em que o tempo se encarregou de os amalgamar na designação de povo celta.



Mas estas migrações devem ter começado muito antes, ou seja, desde o fim da Idade do Bronze na Europa, que aponta para 800 a.C. E há quem acredite que foram estes primeiros falantes de língua indo-europeia que invadiram o noroeste da Península Ibérica em direção ao Fim do Mundo (Finisterra), e onde já aí habitavam outros povos: os da Civilização Megalítica. De uns e outros pouco se sabe.

Portanto, houve um primeiro fluxo migratório – que precedeu outros nomeadamente aquele relatado pelos gregos – cronologicamente situado na charneira das Idades do Bronze e do Ferro. O segundo fluxo migratório ocorreu depois do ano 500 a.C., que inclui, além dos gauleses e dos belgas, os antigos bretões insulares cujos atuais descendentes se encontram no País de Gales, na Cornualha e na Bretanha Armoricana.

Aqui chegados ao Noroeste Peninsular, os primeiros invasores de língua celta, tiveram que se esforçar para dominar as populações autóctones e as aculturar, isto é, ensinando-lhes a língua e a religião (o druidismo que era comum ao conjunto dos povos celtas), transmitindo-lhes os costumes e as técnicas, estruturas sociais e modo de pensar. Muitos dos monumentos megalíticos terão sido reativados pela civilização Celta. E temos os lígures que também cultuavam o deus Lug. Era para todos os efeitos um símbolo religioso aglutinador. E é também o caso de Lugo, na Galiza, que cultuava o deus Lug, e que possivelmente deve também estar relacionada com a etimologia das palavras lugar e local.

Mas não pararam por aqui, porque acabaram por descobrir que a ocidente ainda havia mais Terra, a Irlanda ou Ilha Verde. Os quintos conquistadores da Ilha Verde são chamados, nas narrativas, “Os filhos de Milé”, ou os “milesianos, que vieram do oriente e passaram pela Ibéria ou Hispânia. Correspondem precisamente aos Gaélicos, os representantes da sociedade irlandesa tradicional, tal como foi encontrada pelos primeiros missionários cristãos, e tal como ela era ainda quando aí chegaram os Anglo-Normandos de Henrique II Plantageneta.

Nas tais narrativas épicas, as invasões encontram-se sempre datadas à volta do 1º de maio; e as guerras, no decurso das quais morre um rei, ocorrem à volta do 1º de novembro. Nas narrativas épicas aparecem também mulheres mágicas, e frequentemente feiticeiras. Na perspetiva celta, as mulheres são dotadas de poderes ignorados pelos homens. É preciso não esquecer que a origem da história trágica de amor de Tristão e Isolda, tão célebre no mundo ocidental e chegando a ser considerada o símbolo do amor humano, está claramente inscrita na epopeia celta da Irlanda. A característica mais saliente destas heroínas femininas épicas é apresentarem múltiplas aparências, múltiplos rostos, múltiplos semblantes, geralmente três, tendo em consideração o número simbólico sagrado dos Celtas, vejam-se as formas de tríades ou de trísceles (a tripla espiral que, girando à volta de um ponto central, simboliza por excelência o universo em expansão).

Neste momento da História, a Irlanda é o sítio que conserva ainda as tradições mais arcaicas, o que já não se vê em mais nenhum lado. Segundo tudo leva a crer, a epopeia irlandesa, que conservou uma grande parte de arcaísmos, testemunha, mais do que qualquer outra tradição europeia, a existência de uma epopeia primitiva indo-europeia, ou indo-ariana, pois a comparação que se pode fazer com as narrativas dos Ossetas, povos do norte do Cáucaso que descendem dos Citas e dos Sármatas, é particularmente esclarecedora. Em ambas as tradições se encontram, apesar da distância a que se encontram, quer no espaço, quer no tempo, os mesmos episódios e os mesmos personagens, embora evidentemente com outros nomes.

O ensinamento da religião e outras tradições administrada pelos druidas consistia em transmitir aos jovens, durante cerca de vinte anos até ficarem prontos, que tinham de memorizar milhares de versos que resumiam de forma mnemotécnica o conjunto da tradição celta. A classe dos druidas subdividia-se em três categorias: os padres que eram juristas e mestres do pensamento; os bardos que eram poetas responsáveis pela preservação e ensino da memória coletiva; e as bruxas e bruxos ou adivinhos, que praticavam as formas mais populares da religião e se ocupavam da medicina. Ainda no tempo do Império Romano os druidas foram proibidos de ensinar, isto é, condenados ao silêncio. Sempre assim tem sido ao longo da História e da história das religiões. Os romanos em Roma também atiravam cristãos às feras na arena por não se submeterem à ordem estabelecida.

Os cristãos chamaram-lhes pagãos. Mas, de facto, os pagani começaram por ser pagãos face à religião romana antes de o serem face ao cristianismo. Mas havia outros cultos como o mitraísmo e os cultos de mistérios. O mitraísmo invadiu o império romano, e num dado momento chegou a rivalizar-se com o cristianismo. E com a invasão dos denominados “bárbaros” pelos romanos (que significava serem estranhos à cultura greco-romana) adaptaram-se melhor ao cristianismo do que à religião do império, mais racionalista e historicista. Os godos de início converteram-se ao arianismo, considerada uma heresia reprovada oficialmente pelos bispos. Em suma, a Igreja romana não podia tolerar a existência de comunidades célticas independentes e, de certa forma, autogeridas. E como a partir de certa altura o poder temporal e espiritual da Igreja passou a sobrepor-se a confundir-se, a luta empreendida pelo papado romano contra as cristandades célticas tomou um cariz político, e assim de uma ferocidade inaudita.



Mas em 476, data oficial do fim do império romano, o Ocidente europeu estava ainda muito longe de ser cristianizado. Mas a Irlanda manteve-se a salvo das investidas do imperialismo romano, e isso fez toda a diferença quanto ao processo de cristianização, que por estar livre, tornou-se mais fácil aos monges começar por ali na sua tarefa de conversão dos pagãos.

Paulo Orósio (385-420), historiador, teólogo, sacerdote cristão de Bracara Augusta, então cabeça da província da Galécia, fala de uma cidade na Galiza, a que chama Brigantia, onde havia monges que tinham relações com os monges da Irlanda e da Bretanha. Havia um Mosteiro perto de Mondonhedo, na Galiza, com o nome de Santa Maria da Bretanha. E havia um abade com o nome de Mailoc. É um nome celta, mas tanto podia ser gaélico como britónico armoricano. É provável que os monges tenham passado primeiro pela Galiza antes de se afoitarem para a Irlanda.

É sabido que uns séculos mais tarde, no continente europeu, mas não na Irlanda, surge o monaquismo beneditino, cuja regra oficial, se bem que com divergências com os celtas da Irlanda cujas origens do monaquismo céltico provinha diretamente do eremitismo oriental, acabou por se impor como regra quase universal. Outro aspeto importante para a divergência tinha a ver com a ausência de cidades na Irlanda. Os celtas possuíam apenas fortalezas-refúgios e mercados. De resto era uma vida pastoril com lenta evolução para a vida agrícola. Os monges não se contentavam em habitar as suas cabanas. Trabalhavam a terra, guardavam os rebanhos, ocupavam-se da alimentação e da bebida para o conjunto da comunidade. Acessoriamente combatiam na guerra. Formavam um clã, uma autêntica tribo, e envolviam-se deste modo na vida política, social, económica e cultural que girava à volta deles.


Assim, tornava-se mais difícil ao cristianismo da Irlanda moldar-se à organização eclesial romana. Estava perfeitamente enraizado no espírito céltico incorporar mulheres no culto. A mulher, como já se disse, sempre desempenhou um papel nas sociedades célticas primitivas muito mais relevante e prestigiante, do que nas sociedades mediterrânicas, a que estava vinculada a Igreja romana com o seu antifeminismo de São Paulo. Coisa que não conseguiu fazer grande caminho no seio das cristandades celtas. Por isso aqui houve uma participação ativa das mulheres, não apenas na direção dos mosteiros, mas também no ensino da religião e na celebração do culto. Contudo, as mulheres nunca foram sacerdotisas.

Por conseguinte, o sistema predominante era o da Abadia, nada semelhante ao sistema de igrejas no continente. Mas, seja como for, o monaquismo céltico tem características que ultrapassa as influências do eremitismo oriental. Com efeito, muito mais do que um solitário, o monge celta apresenta-se acima de tudo como um mestre espiritual à volta do qual acorrem numerosos discípulos desejosos de com ele levar uma existência comunitária. Por conseguinte, é muito possível que certos mosteiros celtas tenham pura e simplesmente substituído colégios de druidas. Vemo-lo no caso dos Cavaleiros da Távola Redonda, com as suas buscas e peregrinações.



No continente o que deu que falar foi o Pelagianismo, com origem em Pelágio da Bretanha (350-423). Quando Pelágio chegou a Roma, notou que muitos cristãos viviam de maneira indecente e muitos outros pareciam não se preocupar com a crescente indiferença à pureza moral e obediência na igreja. Rastreou o problema até em Agostinho, nas Confissões, onde afirmava que ninguém podia ser continente (abster-se da imoralidade), a menos que Deus lhe desse essa dádiva. Argumentou que, se os cristãos acreditavam que não podiam ser continentes, era de se esperar que praticassem a incontinência. Pelágio escreveu então também um livro – Da Natureza – em que sustentava que os seres humanos podem ter uma vida sem pecado com seus “dons naturais” e que cabe a eles fazer isso. Esse foi o início da grande controvérsia a respeito do pecado original, do livre-arbítrio e da graça que ocupou a igreja por mais de cem anos e cuja repercussão continuou nos séculos seguintes. Os oponentes de Pelágio, liderados por Agostinho, acusaram-no de três heresias: Negar o pecado original; negar que a graça de Deus é essencial para a salvação; e defender o livre-arbítrio do homem, sem depender da graça de Deus.

Aconteceu que os monges celtas eram pelagianos na sua austeridade, ainda que não professassem as ideias de Pelágio. As práticas das comunidades conduziam à aquisição duma força espiritual e corporal que ultrapassava tudo. Por vezes, diz-se, que se sujeitavam voluntariamente às tentações da carne para exercitarem a força de vontade pela resistência. E também dizem que é daqui que surge a mística da demanda do Graal. Os cavaleiros que procuravam o Graal deviam ser perfeitos, não à partida, mas à chegada. Por conseguinte, o pelagianismo de um lado, e o cristianismo céltico do outro, representam um mesmo estado de espírito, um mesmo sistema de pensamento em uma data de questões, como é o cas da “visão do Outro Mundo”. Este sincretismo estranho justificava-se na medida em que se tratava de perpetuar a ideia de busca: a errância dos cavaleiros em aventuras extraordinárias à procura do Graal. Daqui derivaram os Trovadores que nas suas aventuras extraordinárias acabavam por se encontrar com seres femininos mágicos, um arquétipo todo semelhante à imagem da busca de Deus empreendida por qualquer ser humano.

Assim, no pensamento dos antigos celtas, que se veio a encontrar no pensamento de Pelágio, Deus está ao mesmo tempo presente e ausente. É, por assim dizer, a imagem do rei Artur que não faz nada por si mesmo, mas faz falta porque é o eixo à volta do qual gravita a sociedade ideal. O rei celta, perfeitamente inútil no terreno, deve estar presente para que os guerreiros obtenham a vitória.



É seguindo essa linha que mais tarde aparece um Escoto Erígena (810-877), mestre na Escola do Palácio sob a proteção de Carlos o Calvo, passando a ser o precursor dos escolásticos. Escoto Erígena não escondia a dívida que tinha para com o druidismo. Mas há quem diga que, antes de tudo, Escoto Erígena era um herdeiro do Pseudo-Dionísio, o Aeropagita. É conhecido como o autor de um conjunto de textos (Corpus Areopagiticum) que exerceram uma forte influência em toda a mística cristã ocidental na Idade Média. Esses textos foram muito lidos e admirados pelo Abade Suger de Saint-Denis, construtor do primeiro grande exemplar de arquitetura gótica: a basílica de Saint-Denis. Provavelmente um monge sírio do século V, que durante muito tempo se acreditou ser um tal Dionísio, ateniense e membro do Areópago e contemporâneo de São Paulo. Um pequeno tratado “A Teologia Mística”, originalmente escrito em grego, foi traduzido para o latim por Escoto Erígena.

Até ao século XVI os textos tinham valor quase apostólico, já que Dionísio fora o primeiro discípulo de Paulo de Tarso. Nessa época surgiram as primeiras controvérsias a respeito da sua autenticidade. Argumentava-se que os textos continham marcada influência de Proclo, da escola neoplatónica de Atenas, e, portanto, não poderiam ser anteriores ao século V. Mas somente a partir do século XIX essa tese foi aceita e o autor desconhecido passou e ser chamado Pseudo-Dionísio.

Esta teologia, considerada como negativa, devedora do neoplatonismo e sistemas filosóficos orientais, foi seguida por Escoto Erígena, acrescentando-lhe noções provavelmente oriundas do passado céltico. A unidade fundamental e paradoxal entre a Luz e as Trevas, posta em evidência pelo Pseudo-Dionísio, está em consonância com o pensamento druídico, o que não podia deixar de satisfazer Escoto Erígena e de encorajá-lo a ir ainda mais longe.




Era assim o Outro Mundo dos druidas, no qual os cristãos celtas e os seus descendentes que já não se intitulavam como celtas, se lançaram na demanda do Graal, evitando procurar Deus, pois sabiam muito bem que não o encontrariam. Contentavam-se apenas em procurar o Graal. Se o encontraram ou não, isso faz parte do mito, não se pode saber. De facto, a mundividência céltica não tem nada a ver com a mundividência romana, duas conceções opostas da Divindade.

A permanência e sobrevivência de crenças no nosso povo interiorizadas e exteriorizadas de muitas formas e feitios, mas que no essencial respeitam um tronco comum que remonta ao mais diáfano manto dos tempos, já não nos surpreende assim tanto depois de termos feito esta incursão, que já vai longa, aos nossos antepassados celtas. E também não nos chocamos com o fosso que sempre existiu entre a religião oficial dos clérigos intelectuais, e as práticas religiosas efetivas do nosso povo, que continua a visitar os lugares e a realizar cerimónias de algum modo intimista junto a antas e menhires. A raparigas vêm dançar à volta dum menhir na noite de festa do santo protetor de um lugar sacralizado pelos mortos que habitam num Outro Mundo.




Os Santuários raramente se deslocam dos lugares que o Sagrado eternizou. E as novas religiões recuperam antigos lugares para aí construírem novos edifícios. Às vezes chega a acontecer que um mesmo edifício serve para o culto novo. Sabe-se, por exemplo, que os dólmens e outros monumentos megalíticos, erigidos entre 4000 e 2000 anos a.n.e. foram por vezes utilizados por pessoas da idade do Bronze entre 200 e 900 a.C.; depois pelos Celtas; e depois por Nós. Isto obedece primeiro ao facto de que um lugar sagrado é para sempre sagrado, mesmo que mude a religião. Se por qualquer razão, a personagem que era cultuada num lugar consagrado se tornou incómoda, faz-se dela um demónio e devota-se esse lugar a poderes maléficos. Mas tem de haver sempre continuidade. Daí alguns estudiosos destas matérias do Sagrado acreditarem que a escolha dos lugares sagrados nunca é feita ao acaso. Seja em relação a fenómenos telúricos; sejam em relação a fenómenos solares, terá sido encontrada sempre uma justificação. E a justificação mantém-se sempre, apesar da mudança.

Um ritual não se inventa. É o resultado de uma lenta maturação, de uma síntese entre diferentes elementos preexistentes. É sempre herdeiro de uma longa tradição que encarna num certo contexto sociocultural. É nos costumes paralitúrgicos que mais frequentemente se manifestam as observâncias mais características, porque estes costumes são acima de tudo populares e testemunham assim uma memória ancestral transmitida de geração em geração, num nível essencialmente oral. É no folclore que sobrevivem os antigos ritos.

Um outro aspeto que já temos vindo a aflorar, e que também atravessa toda a história dos celtas, é o culto à Deusa-Mãe. Hoje, no mundo cristão, esse culto encontra-se em inúmeros santuários dedicados à Virgem Maria. De uma visita em tempos feita à Catedral de Chartres, procuramos depois aprofundar por leitura o significado do poço que se encontra na cripta da Catedral de Chartres, e que posteriormente demos conta de um poço do mesmo tipo existente na Quinta da Regaleira com o seu Palácio em Sintra. Chartres, segundo Júlio César, outrora era uma região com uma imensa floresta onde existia um centro religioso druídica. A catedral de Chartres foi construída sobre uma gruta onde funcionava uma capela subterrânea. Em suma, é o tema das grutas dedicadas à Santa Maria espalhadas um pouco por todo o território português.

De resto, ainda que a confusão se tenha apoderado dos espíritos em consequência da mistura de tradições diversas, certos lugares sagrados continuam a suscitar o mesmo fervor. Os múltiplos santuários dedicados a Maria Madalena não são todos de importação judaico-cristã. A imagem daquela que ousou amar Jesus com um amor ambíguo acabou por se adaptar a personagens femininas mais heréticas, especialmente aquelas que são conhecidas por: Ishtar, Afrodite, Vénus ou Morgane. Provavelmente a origem da lenda das Três Marias.

É claro que falta falar do fenómeno oportunista do falsário. Nem todos os santuários da Europa ocidental são forçosamente herdeiros dos antepassados que tenho vindo a referir. Montségur não tem nada que ver com os celtas, ainda que existam fábulas em torno deste lugar a propósito do Graal. Assim como Rennes-le-Château é uma igreja como as outras, não passando de manipulações da opinião com fins especulativos e teorias da conspiração. O mistério tem o seu encanto. O desconhecido excita a imaginação. Montségur é o reino do confucionismo. A estranha história de Otto Rahn e as tentativas inspiradas pelos nazis para encontrar o Graal nesta fortaleza cátara, não serviram para compor as coisas. O catarismo é um dualismo de origem oriental. Não pode haver confusões com o druidismo, um monismo de origem norte-europeia. Foi a versão alemã do Graal, o Parsifal de Wolfram von Eschenbach – e o que Wagner fez na sua obra – que é responsável por esta confusão. Com efeito Wolfram mistura com a lenda celta primitiva, elementos germânicos e elementos orientais que dão ao seu Graal um significado completamente diferente. O espírito celta não tem nada que ver com isso, nem tão pouco o cristianismo celta.



terça-feira, 20 de agosto de 2019

As mordomas de Viana no espaço mítico imaginário do Alto Minho

O imaginário e o fantástico do Alto Minho remontam à tradição celta. Apesar de os Romanos, e posteriormente os Cristãos, terem tentado eliminar o que havia de tradição Celta no noroeste da Península Ibérica, o certo é que a tradição popular manteve de forma dispersa e fragmentária aspetos que eram típicos da religião matriarcal do povo celta. Esse combate foi reiterado em inúmeros sínodos ao longo dos últimos mil e quinhentos anos. Mas na realidade, ainda se mantêm aqui e ali cultos místico-naturalistas atestados pelas fontes santas, árvores sagradas e penedos cultuados. A sacralidade da Natureza, embora cristianizada e apadrinhada por santos e santas, manteve-se. 



Na foto podemos apreciar duas arrecadas celto-castrejas oriundas da Galiza, e ao lado vemos uma jovem vianense a exibir um par de arrecadas atuais. Tanto num caso como no outro são lindíssimos objetos de filigrana em ouro. É uma evidência, as arrecadas de Viana remeterem para os tempos pré-romanos. É bom recordar que a cidade de Viana tem a sua origem no antigo Castro de Santa Luzia, onde há dois mil anos proliferavam joias em ouro como as que vemos aqui. Ainda hoje perdura a ideia de uma função mágico-religiosa dessas peças em ouro. Assim, podemos arriscar que estas festividades da Romaria à Senhora da Agonia, enquadram-se na tradição mítico-religiosa cristã do Norte de Portugal, mas ainda profundamente impregnada de motivos pagãos que remontam ao tempo da civilização Celta. 

Apesar de estas evidências entrarem pelos olhos dentro de uma normal inteligência intuitiva, a verdade é que durante a época em que nas academias pontuavam as correntes de pendor historicista – que ainda perduram, mas que agora se nota o começo de uma certa abertura para o imaginário popular de cariz esotérico – toda a influência do elemento Celta na história do território português e galego, foi ostensivamente desvalorizado, para não dizer negado. É um fenómeno que atravessou outras áreas do conhecimento e que ainda perdura. Veja-se o caso do aquecimento global, em que ainda há poucos anos cientistas eminentes negavam a evidência das alterações climáticas que os ambientalistas tanto se esforçavam para o mostrar. 

Ora, os trajes típicos de Viana do Castelo, e por assim dizer do Alto Minho, espelham quão importante e rica foi a presença da estética feminina na linguagem mítica dessas comunidades que remontam a tempos que as sociedades modernas urbanas desconhecem. Cada peça do traje tem um lugar certo e um momento próprio. Os trajes transportam, por isso, uma mensagem mítica, que confere o sentimento de pertença a uma comunidade com significados próprios, que se tornam sagrados pela via do ritual. As mulheres tiveram um papel fundamental neste processo, ao sacralizarem os espaços e os trajes. A rapariga que entra na solenidade como Mordoma, faz o peditório para a festa muito compenetrada da função que isso representa para o espírito do Sagrado. 

Todas as sociedades, ao longo dos tempos, tentaram definir as relações do homem e da mulher como casal, e dentro das estruturas sociais existentes. Para isso, atribuíram a cada um determinado lugar, que varia sensivelmente de acordo com os costumes e as tradições de cada povo. Entre os celtas as estruturas sociais eram as de todos os povos indo-europeus; isto quer dizer que a tendência era o patriarcalismo com o homem em primeiro plano. Mas ao analisarem-se os costumes, é surpreendente a constatação de que a condição feminina entre os celtas é mais respeitada que entre os povos do Mediterrâneo. É sabido que gregos e romanos mantinham a mulher num estatuto bastante secundário. Os celtas, ao contrário, atribuíam-lhe certos direitos que só chegaram ao Mediterrâneo séculos mais tarde.

Os celtas que invadiram a Europa ocidental por volta do século V a.C. não eram numerosos; constituíam uma elite guerreira e intelectual, e encontraram, nos territórios que vieram a ocupar, populações autóctones de densidade bem maior, às quais impuseram sua cultura, sua língua, sua religião e suas técnicas. Mas em contrapartida, assimilaram dos autóctones alguns costumes, especialmente os referentes às relações. Assim, as condições muito especiais do estatuto da mulher, que se observam no quadro da civilização celta, devem ser buscadas na herança dos povos outrora instalados na Europa Ocidental.

O que é de salientar é a relativa independência da mulher em relação ao homem. A mulher pode ter bens próprios, como objetos de uso, joias e cabeças de gado. Como o sistema celta admitia a propriedade mobiliária individual juntamente com uma propriedade rural coletiva, a mulher podia dispor de tal propriedade a seu bel-prazer, vendendo-a se assim quisesse, adquirindo outras por meio de compra, de prestação de serviços ou por doação. Ao casar-se, a mulher conservava seus bens pessoais e os levava consigo em caso de dissolução do casamento. Isso mostra eloquentemente que a mulher conseguira, numa sociedade patriarcal, manter uma certa predominância e uma autoridade moral incontestável.

O casamento celta, aliás, era uma instituição flexível, resultante de um contrato cuja duração não precisava necessariamente ser definitiva. A mulher escolhia livremente seu marido, pelo menos teoricamente, pois às vezes os pais arranjavam casamentos por oportunismo económico ou político. Mas mesmo nestes casos, a moça era consultada. O mesmo acontecia nas famílias reais em que a transmissão da soberania se dava às vezes por intermédio da mãe, ou do tio materno; existem lembranças flagrantes dessa prática de transferir a herança aos filhos do irmão da mãe. O exemplo mais célebre é o de Tristão, herói de uma lenda medieval de origem celta, herdeiro de seu tio materno, o rei Mark. 

O nome de Morrigane (Morrigu) que significa "grande rainha", evoca o da "fada" Morgana das novelas arturianas e do ciclo do Graal, tratando-se em qualquer dos casos do mesmo arquétipo mágico (sexual e guerreiro). Morrigane é bem o tipo de mulher celta vista pelos autores das epopeias mitológicas.

De acordo com o romantismo cultural (dado na Europa por volta dos séculos XVIII e XIX) que procurou aprofundar as diferentes origens do povo contra os estados imperialistas da época, é nos países mais ocidentais, eminentemente rurais e com uma cultura muito parecida, onde o termo "celta" é adotado como um rótulo de autoidentificação. Por um lado, a diferenciação cultural histórica é reivindicada, e por outro lado, há um interesse mútuo naqueles outros povos que compartilham a mesma língua. Os dados linguísticos apoiam a uniforme celticidade substancial de lusitanos, galegos, galeses e irlandeses. 

domingo, 18 de agosto de 2019

Um passeio pelo Românico




Bravães – Ponte da Barca, para ver um cordeiro místico esculpido na pedra, encimado por uma cruz orbicular, e muito mais imagens que podem contar diversas histórias. O templo de São Salvador de Bravães é uma joia do Românico Português, do século XII, passe as controvérsias acerca das datações.

 

Ali se terão instalado monges de São Bento, colocados já depois de D. Afonso Henriques, sob proteção direta da Ordem do Templo. Estes monges beneditinos estavam sujeitos à primitiva regra do Monte Cassino. Por volta do século XIII o cenóbio passou para as mãos dos monges de Santo Agostinho. Em meados do século XV o cenóbio foi secularizado pelo arcebispo de Braga.

Os colunelos e as respetivas arquivoltas do pórtico formam um conjunto absolutamente notável em termos artísticos, e não menos surpreendente nas suas conotações esotéricas de influência orientalizante.




Arnoso – Entrámos na estrada Braga/Famalicão, nº 14, perto da Cruz, para observar o tímpano sobre a porta principal do Mosteiro cujo primitivo templo havia sido mandado construir por Frutuoso, bispo de Dume, em Braga, em pleno período visigótico, século VII. A traça atual remonta à reconstrução do século XI, após ter sido destruído pelos mouros. Na foto acima vê-se a cruz orbicular, que há quem lhe chame cruz pátea (derivada do francês croix pattée significando cruz patada).



Rates – Póvoa de Varzim, Igreja Românica de São Pedro de Rates

Igreja Românica de Rates, constitui um dos mais importantes monumentos românicos medievais no então emergente reino de Portugal, dada a relevância das formas arquitetónicas e escultóricas, e um dos mais importantes mosteiros beneditinos clunicenses.



O edifício atual é resultado da refundação clunicense do século XIII, graças à doação do Mosteiro de Rates ao Priorado ligado à Ordem de Cluny, feita pelo Conde Dom Henrique de Borgonha, para que ali fosse implantada a Regra Beneditina.



Até 1552, a igreja guardava o Corpo de São Pedro de Rates antes de este ter sido transferido para a Sé de Braga. São Pedro de Rates seria um bispo ordenado por Santiago Mata-Mouros e decapitado quando celebrava uma missa. Um eremita chamado Félix deu sepultura ao corpo mutilado e decomposto do bispo.


O acesso ao templo faz-se pelo imponente portal axial de cinco arquivoltas e arcos de volta perfeita, inserido na fachada ligeiramente assimétrica e contrafortada.



Rio Mau – Vila do Conde, Igreja de São Cristóvão

Esta descrição é de José Saramago: "Realmente um templo muito simples com a força estética que de súbito sufoca e oprime o viajante. No tímpano do pórtico, vê-se ao centro a figura do báculo, que se diz ser Santo Agostinho; mais duas outras menores e uma ainda mais pequena que parece uma criança enfaixada segurando a Lua com os braços levantados; e a ave e o Sol por cima da cabeça."



Lembrando-me que na Idade Média Rio Mau e Rates estavam alinhados pelo Caminho de Santiago, voltámos a Rio Mau. A representação do ‘Agnus Dei’, que se vê na foto a seguir, com a cruz orbicular a sair da perna esquerda levantada do cordeiro, é estranha! E ainda mais a cabeça do cordeiro que mais parece a de uma serpente. Esta figura vê-se melhor quando se sai do templo e se olha para o tímpano pelo lado de dentro.




Na realidade a figuração da capela-mor é riquíssima, com uma variedade impressionante e desconcertante de símbolos. Por exemplo: numa coluna à direita temos um personagem com um escudo e uma espada em forma de ‘tau’. Noutro lado encontramos quatro figuras, uma delas tem a mão sobre o coração e não tem barba nem cabelo. E ao lado outra parecendo estar a tocar viola medieval. Noutro capitel uma ave está ladeada por duas figuras canídeas em posições inverosímeis, cujo simbolismo desafia a nossa mente racional.



Tudo isto deve estar relacionado com cultos esotéricos em plena Idade Média de tradições muito anteriores à entrada do cristianismo romano na Península. É preciso lembrar que de início a maior parte do cristianismo no ocidente peninsular era um cristianismo herético. Um deles era o priscilianismo, pregada por Prisciliano e derivado de doutrinas gnóstico/maniqueístas ensinadas por Marcus, um egípcio de Mênfis. Prisciliano, (340-385), oriundo da Galiza, teve grande influência aqui. Acabou por ser condenado pela Igreja oficial, romana, por heresia e a prática de rituais mágicos. Em 385 é decapitado em Tréveris após confissão sob tortura.

 



sábado, 17 de agosto de 2019

Algo mais sobre a Suástica

Da peregrinação do artigo anterior, resultou que demos conta que a cruz suástica é um símbolo universal, que se encontra praticamente em toda a parte do mundo, ainda que com algumas variações aqui e ali na orientação e curvatura dos braços. Como tinha dito, a palavra ‘suástica’ vem do sânscrito svtika, que significa “boa sorte” ou “bem-estar”. Talvez represente o movimento do Sol no céu. Até hoje, é um símbolo sagrado no hinduísmo, no budismo, e por aí fora. A ubiquidade deste símbolo pode ser explicada por ser um sinal muito simples, daí se encontrar em todos os tempos e lugares por onde tenha passado o espírito humano. Apesar dessa explicação simples, há teorias como a do entrelaçamento cultural, e a teoria da difusão cultural. A hipótese mais provável é a de que o desenho se tenha desenvolvido ao mesmo tempo em mais do que um lugar no Neolítico, sem necessidade de difusão. 

Quase todas as grandes sociedades através da história usaram este símbolo – maias, celtas, judeus, cristãos, os antigos gregos e romanos. Parece que as tribos nativas americanas, como os Navajo, usavam-na em rituais de cura. Na história europeia, o desenho foi associado a deuses nórdicos como Thor e Odin. Na Ásia, o sinal tinha fortes laços com o hinduísmo e o budismo. Na China assume o significado de número dez mil. No Japão a suástica (卍 manji =万字 é usada para representar templos e santuários em mapas, e continua a ser um dos importantes símbolos religiosos do budismo, orientada para a esquerda representa o amor e a misericórdia (o mais predominante no Japão), para a direita caracteriza a força e a inteligência. 

Devido ao crescente interesse europeu pelas antigas civilizações do Oriente, a partir do século XIX houve uma corrida às escavações arqueológicas. Durante as suas extensas escavações, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann encontrou esse símbolo no local da antiga Troia. A descoberta do grupo linguístico indo-europeu em 1790, bem como as descobertas de objetos contendo a suástica nas ruínas de Troia, tiveram um grande efeito na arqueologia, que pôde unir os povos pré-históricos da Europa com os antigos indo-arianos. O Museu do Vaticano contém várias amostras de cerâmica etrusca com a suástica representada. 

Não tardaram as especulações, desde ser um símbolo religioso de ancestrais remotos dos alemães; outros pesquisadores e estudiosos europeus ligaram o símbolo a uma possível cultura ariana, a qual haveria abarcado a Europa e a Ásia. Assim, no início do século vinte, a suástica estava em grande moda na Europa. Ela possuía inúmeros significados, mas o mais comum era como símbolo de boa sorte e bons auspícios. Mas não tardou que na Alemanha, grupos racistas se apropriassem da suástica como símbolo da identidade ariana, de que os alemães se orgulhavam serem descendentes. Assim os nazis se apropriaram da suástica – Hakenkreuz, i.e. Cruz Gamada – como seu símbolo, no ano de 1920. O símbolo era usado na bandeira, bem como em distintivos e braçadeiras do partido nazi na Alemanha. O conceito de pureza racial, ponto central na ideologia nazi, ultrapassou tudo o que a metodologia científica aceita. 

A seguir à derrota da Alemanha nazi em 1945, os governos dos países Aliados legislaram tornando ilegais as organizações nazis. Os seus símbolos e a sua propaganda foram removidos e a sua disseminação foi criminalizada. Os subsequentes governos alemães do pós-guerra continuaram a banir os símbolos nazis e a sua propaganda, incluindo a suástica. Hoje, na Alemanha e em outros países europeus, apesar de ter ressurgido a ideologia nazi – os chamados neonazis – exibir publicamente símbolos nazis, inclusive pelas redes sociais, é proibida por lei e os indivíduos que violem tais disposições legais estão sujeitos a ações judiciais. Nos Estados Unidos, a pretexto de ser protegida a expressão livre, não é ilegal exibir símbolos e propaganda nazi. Por conseguinte, a suástica nazi é mais um epifenómeno nesta galáxia simbólica.

Por foros do mundo celta no noroeste de Portugal

Onde hoje estou – Braga – já há mais de dois mil anos se haviam instalado primeiro os celtas e depois os romanos. Os Celtas eram conhecidos por ‘Bracaros ou Bracari’. Parece que foram eles que deram o nome a Braga (Bracara). E é no reinado de Augusto (27 a.C. – 14 d.C.) que a cidade ‘Bracara Augusta’ é fundada sobre o povoado celta que restava no local, pois os Romanos quando aqui chegaram destruíram muita coisa. 



A Citânia de Briteiros, pela riqueza dos restos arqueológicos da Idade do Ferro, deve ter desempenhado um papel político importante na região dos ‘Callaeci’, que evoluiu para Galiza. O Balneário, a avaliar pela decoração da estela principal com o arco semicircular em baixo, é muito interessante pela forma pentagonal e pelo símbolo gravado no vértice superior, uma suástica celta (neste caso de três braços, também designada por trísceles). 

O símbolo “trísceles”, como uma estrela de três pontas curvas, confere ao símbolo a ideia de movimento. Também pode ser definido como um conjunto de três espirais concêntricas. É um dos elementos mais presentes na arte celta, e a sua origem no ocidente europeu é atribuída à cultura do povo indo-europeu ainda na época neolítica. Na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, podem observar-se esculpidas em pedra de granito vários tipos destas suásticas celtas – tetrásceles (quatro braços); suásticas flamejantes, uma de nove braços e outra de doze) – que continuaram a marcar uma forte presença tanto na decoração popular como na arte românica e gótica, e até manuelina, podendo ver-se no Mosteiro dos Jerónimos uma suástica flamejante com cinco braços. Bem, na Sociedade Martins Sarmento há um manancial destes símbolos gravados nas pedras, não passando despercebida a cruz orbicular inscrita no círculo, e a estrela de cinco pontas. 


A cruz orbicular – também conhecida por cruz templária – é a cruz inscrita no círculo em movimento, sendo o centro o motor imóvel, a quinta essência, contendo desta forma as duas suásticas. Sendo o círculo a expressão geométrica da Divindade, os dois traços em cruz é a expressão da “substância primordial” e do pensamento divino. A partir dos séculos XI/XII, começa a aparecer em praticamente todos os templos românicos em Portugal. Estes templos são fortalezas de pedra, com janelas diminutas, claramente viradas para o recolhimento em segurança física e também votadas à meditação e introspeção. Todos os reis portugueses, até Sancho II, usaram esta cruz no respetivo selo. Os Templários portugueses usaram-na como símbolo místico. Com D. Dinis, e com a extinção da Ordem do Templo pelo Papa, a cruz estiliza-se na Cruz da Ordem de Cristo, que passou a aparecer a partir daí nas velas das caravelas portuguesas. Este símbolo terá sido trazido por cristãos orientais, ainda no período pré-nacional, que chegaram cá pelas rotas fenícias. 


Apesar de ser a cruz que os Templários Portugueses adotaram, esta cruz é um símbolo encontrado em muitos lados da Antiguidade. Na foto acima vê-se a mesma cruz de um baixo relevo no peito do rei assírio Assurnasirpal II, que governou a Assíria entre 884-859 a.C. A sua origem insere-se na tradição antiquíssima da cruz inscrita no círculo. A cruz de quatro braços iguais, apontando para os quatro pontos cardeais, é o símbolo da totalidade do Cosmos, inspirando os próprios mandalas. 

Suástica – do sânscrito – significa cruz. A origem, e o seu significado, perdem-se na Antiguidade, nada que ver com a cruz onde Cristo foi crucificado. É muito anterior. Foi encontrada uma do século XV a.C. em Cnossos (Creta), e várias na Assíria do século IX a.C. Aliás, a cruz no Cristianismo só começou a ser usada a partir do séc. V d.C. Até aí, o símbolo dos cristãos era o peixe (Icthus). 


A suástica com os braços virados para esquerda, portanto rodando para a direita, no sentido dos ponteiros do relógio – conhecida como a suástica de Vishnu – representa o movimento da construção, da ordem e da harmonia. Ao passo que a suástica com os braços virados para a direita, rodando em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio – conhecida como a suástica de Shiva – simboliza o movimento de destruição. A cruz orbicular inclui geometricamente os dois movimentos. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Planando entre Paredes de Coura e Viana do Castelo




          Depois da música dos “New Order” no Festival de Paredes de Coura, e uns mergulhos no rio Coura, eis-nos em Viana do Castelo para assistir às Festas da Senhora da Agonia.
          Enquanto no Festival de Paredes de Coura cem mil jovens caem num tal estado de encantamento, que se esquecem do seu laço misterioso com a Mãe-Terra, tornando-se indefesos face à terrível alienação sem transcendência que é a da nossa época. A Romaria da Senhora da Agonia segue o padrão medieval: as autoridades eclesiásticas superintendem o programa religioso e as autoridades pagãs o programa profano. Esta festa, que dura cinco dias, atrai milhares de pessoas vindas de todo o lado.


          Em Viana ainda se faz a comunicação mágica entre o Céu e a Terra, vivenciando o tempo mítico das origens e sacralizando o espaço da sua terra. Veneram-se os antepassados que adoravam as árvores e os penedos numa emoção cósmica e transcendente. Ao passo que em Paredes de Coura ouve-se a música que nos transporta às esferas sublimes do sentimento, mas que no dia seguinte, pode-se ouvir a mesma melodia, mas não com o mesmo sentimento.
          Em Viana a função simbólica é vital para o relacionamento humano com o divino. Em Paredes de Coura ignoram-se tais influências do Sagrado, que também são desprezadas pelos intelectuais positivistas reducionistas e pelas elites mediáticas com fome de futuro. Esta festa, em grande medida, é uma exaltação da mulher vianense, bem refletida no conhecido cortejo da mordomia e nos trajes míticos que enverga, de um colorido deslumbrante. E o ouro que trazem consigo recorda os antigos cultos solares do povo celta. Mas também existe a contraparte guerreira, representada pelos Zés-Pereiras que percorrendo a cidade ao som dos bombos acompanhados pelos Gigantones e Cabeçudos pontuam o momento mágico desta festividade. No dia 20, a padroeira dos pescadores é solenizada nas águas do mar. Daí que não seja de estranhar o facto de a padroeira ter o nome de Agonia, a quem os pescadores recorrem quando no mar, agonizantes, sentem o perigo de vida iminente. Mas depois se transmuta num hino à cor e alegria. 
          Muito do que hoje fazemos e comemoramos, sem que disso tenhamos consciência, provém de um tempo mais longínquo do que queremos admitir. É essa a questão das origens. O estudo da História serve para mostrar como o presente é solidário com o passado. Não apenas o geral dos nossos costumes e dos objetos de que nos servimos diariamente, mas também os sentimentos de que se compõe a nossa existência. Por baixo deste progressismo vazio e superficial ainda vive um património milenar. Mas apesar de uma boa parte do “povo” ainda o vivenciar, a verdade é que a elite desta Europa envelhecida governa-a totalmente esquecida e alheada dessa realidade.