terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Testemunhos: golpistas e caça às bruxas

 

Como sente este momento histórico que estamos a viver? A pandemia é uma guerra diferente?

Seria mentira dizer que sinto indiferença. Gostaria de ser indiferente, de não me importar. Gostaria que a estupidez da Humanidade me tivesse vacinado contra a compaixão. Repito: gostaria que a estupidez da Humanidade me tivesse vacinado contra a compaixão. Não o consegui, pois sofro ao ver a dor dos outros. No entanto, olho para tudo isto com algum distanciamento. Quando estás a ler Tácito, Tito Lívio, Homero, Virgílio, Catulo, Xenofonte e Sófocles, isso ajuda-te a aceitar as regras terríveis do cosmos e do mundo. Ajuda-te a arrefecer, a serenar. Não te tira a compaixão: permite-te olhar com objetividade. Se morrer disto, vou morrer, não é que seja indiferente, mas estou um pouco de fora, não sei por que razão gritam tanto. [Arturo Pérez-Reverte]

 

Há pessoas oportunistas que fazem batota vacinando-se indevidamente à frente da sua vez, por não pertencerem aos grupos prioritários. Há pessoas que facilmente caem no conto do vigário, acreditam em milagres e em teorias da conspiração.
Porque será?
O Jornalista: “Temos informações de familiares que nos dizem que foram informados por médicos do Santa Maria de que o seu familiar, que está doente, por ter 70 anos, se houvesse algum problema não iria para os cuidados intensivos”. Responde o Diretor Clínico do Centro Hospitalar Lisboa Norte: “Isso é totalmente falso. Não há nenhum critério etário para admissão em cuidados intensivos ou em qualquer outra unidade de internamento.”
Francisco Ramos, coordenador das ações de vacinação, comparou, na SIC Notícias, em total despropósito, à pergunta do jornalista, acerca dos prevaricadores que se vacinaram indevidamente à frente da sua vez, se moralmente teriam direito a receber a segunda dose da vacina. O Jornalista insistiu várias vezes no caso do INEM no Porto. E Francisco Ramos respondeu que não conhecia o caso. Mas muito mais à frente no decorrer da entrevista o Jornalista volta à carga perguntando se os prevaricadores vão receber a 2ª dose. E Francisco Ramos, vendo-se que ficou atrapalhado com a pergunta, foi aqui que teve aquela tal tirada infeliz dos votantes do Ventura. E ainda disse que aquele tipo de pergunta feito pelo jornalista, seria um tipo de pergunta típico dos votantes de Ventura, “espírito vingativo”. E o Jornalista a azedar e a insistir na imoralidade dos prevaricadores … confundindo o apuramento de responsabilidades, a confirmar-se, deverem ser sancionados pelas instâncias devidas se cometeram um crime; com o castigo vingativo de quem recebeu a primeira dose da vacina, mesmo que indevidamente, violando regras de ética médica elementar. O disparate de abortar o processo de vacinação já em curso, uma espécie de justiça popular, porque remeter para o fim da lista os prevaricadores a serem vacinados encetando de novo o seu processo de vacinação, seria o mesmo que atirar para o lixo a dose da vacina já administrada.
Estamos ainda sem perceber como o “milagre” português foi parar ao inferno. A menos que o primeiro-ministro tenha razão quando diz suspeitar que agora a pandemia corre de Ocidente para Oriente.

As pessoas deixam-se impressionar facilmente pelo fantástico / mágico. Veja-se como as pessoas ficam perante um truque de ilusionismo quando não percebem como um coelho apareceu do nada. Perante fenómenos, aparentemente inexplicáveis, podemos acreditar nas coisas mais absurdas. Por razões de vária ordem, as pessoas alimentam o desejo de que Deus exista. E é o desejo que as induz a acreditar nisso, mesmo que não haja bons indícios que apontem nesse sentido. Em 1995, McArthur Wheeler assaltou dois bancos, no estado norte-americano da Pensilvânia, em pleno dia e sem usar qualquer disfarce. Quando foi preso, na noite desse mesmo dia, após a divulgação das imagens de videovigilância, mostrou-se surpreendido, porque tinha molhado a cara com sumo de limão, que, pensava, o tornava invisível perante as câmaras. Este caso foi o gatilho para que dois psicólogos se interessassem pelo estudo de casos como este, que mais tarde viria a ser conhecido pelo efeito de Dunning-Kruger. O efeito de Dunning-Kruger parece explicar fenómenos que agora estão mais à vista com o grande ruído informativo que circula à volta da pandemia. Por um lado, porque é que um número tão grande de pessoas embarca em disparatadas teorias da conspiração, acreditando, por exemplo, que as vacinas causam tudo e mais alguma coisa má, e que as redes de comunicação de quinta geração são a causa da pandemia. Mas, para além destes impactos que podemos considerar, apesar de tudo, relativamente benignos, o efeito de Dunning-Kruger pode estar por trás de fenómenos sociais mais perversos e perigosos.

Desde os relatos Bíblicos – como o da separação das águas do Mar Vermelho no tempo de Moisés; a ressuscitação de Lázaro por Jesus; aparições de Nossa Senhora - que há testemunhos de muita coisa sortida. Embora nem tudo, por exemplo: nunca ninguém testemunhou que, por obra sobrenatural, alguém com um membro decepado, lhe voltou a ser restituído.

Devemos sempre pesar a possibilidade de um relato testemunhal ser falso, uma vez que é mais plausível uma pessoa estar equivocada, ou até mesmo estar a mentir, do que haver um qualquer poder que por dá-cá-aquela-palha, viole as leis da natureza. Todos nós conhecemos ou vimos alguém acima de qualquer suspeita, em certas circunstâncias meter os pés pelas mãos. Os milagres são tão improváveis quanto toda a nossa experiência nos indica que é impossível fintar qualquer lei da natureza. Da mesma maneira que a água ferve sempre a 100 graus centígrados, também d
epois de chegarmos a cadáver permaneceremos mortos para sempre. É mil vezes mais fácil um relato ser falso do que ser milagroso. Há mais precedentes da possibilidade de logro do que de casos ou acontecimentos estapafúrdios que tenham contrariado a verdade científica. Há não apenas justificação de ordem racional, a priori, como de ordem empírica, para o facto de os testemunhos de milagres serem falsos.

Apesar de uma grande parte do conhecimento que hoje temos no campo da cosmogonia ter partido da atividade solitária de alguns físicos e matemáticos, sendo Einstein um desses casos, a verdade é que não é essa a via da aquisição e progressão normal do conhecimento em ciência. Casos como Einsteins são exceções. No entanto, há testemunhos e testemunhos, pois a maior parte do conhecimento empírico que os cientistas adquirem resulta do testemunho de outros cientistas cientista a título individual. Mesmo sem que tenha que o ter percecionado diretamente por si. O mais relevante de cada ciência é transmitido interpares, quer diretamente, quer através da leitura dos seus escritos. E a designação geral para este tipo de conhecimento não é outra coisa senão conhecimento testemunhal coletivo. Mesmo Einstein, antes de ter produzido as teorias que inventou sozinho, apenas com a sua cabeça, teve de confiar em conhecimentos, como verdadeiros, transmitidos por outros. Nos últimos anos a crença no conhecimento testemunhal tem sido bastante abalada pela má fama das redes sociais. Temos justificação para não acreditar em nada do que Trump disse, porque tivemos provas suficientes de que ele mentiu.

A nossa aquisição da linguagem é o melhor exemplo do estatuto epistémico que o testemunho tem. Para adquirirmos uma linguagem temos de o fazer à custa do testemunho das outras pessoas. E depois, para dizermos que estamos a ver uma maçã vermelha, temos de previamente ter aprendido os conceitos de maçã e de vermelho. E isso só é possível fazer através de conhecimento testemunhal. Daí aquela graça que uma bailarina jugoslava contou quando veio para Portugal no início de 1990, e os seus amigos e colegas lhe pregavam partidas ao ensinar-lhe o português, introduzindo palavras obscenas nos diálogos. E depois, ela muito inocentemente, usava as palavras coloquialmente com outras pessoas pensando que estava a falar corretamente. E é claro, ela ficava muito intrigada porque é que as pessoas começavam a rir sempre que ela falava. Mas depois, aprendeu a falar o português muito corretamente.

Assim, podemos dar crédito à tese de que o testemunho é uma fonte essencial de conhecimento. Mas o trabalho científico da era moderna é um trabalho de colaboração. A colaboração é essencial. O testemunho dos colegas de profissão de um cientista tem de merecer o mesmo crédito que as indagações feitas pelo próprio. Em ciência o conhecimento testemunhal pode ter um estatuto de conhecimento em segunda mão, mas não é um conhecimento de segunda categoria. Parece paradoxal, mas não é, que alguns médicos aceitem o milagre com o argumento de a ciência não ter explicação para um fenómeno que aparentemente violou uma ou mais leis da natureza. Há relatos de episódios deste tipo em praticamente qualquer região do mundo, ligado sempre a uma religião, abundantemente relatado nos países em que a religião católica predomina. Só que tem um problema: esses relatos são falsos. Os médicos que o aceitam violam também uma lei, não da natureza, mas da ciência.
Porque será?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Dos sábios, e dos meandros da fé e da razão


Ninguém sabe onde está a sabedoria. Mas sabemos que ela só pode vir de uma coisa a que chamamos vida, esse mistério. E se há coisa que não tem lugar na sabedoria, mais do que a ignorância, é a ingenuidade. Sócrates fez questão de dizer, para memória futura, que era ignorante. Mas demonstrou não ser ingénuo quando preferiu partir bebendo cicuta, em vez de partir com escritos numa mala para um outro lugar. Harold Bloom escreveu todo um livro com esse título: "Onde está a sabedoria?" 




A sabedoria está na vida, e é o resultado de uma experiência de vida e de palavras. A Palavra, outro mistério, que não sabemos se nasce de dentro de nós, ou se nasce de fora de nós. Em linguagem filosófica, os filósofos dividem-se em internalistas e externalistas. Aliás, onde houver filósofos há sempre dois mundos em tudo, que são dois opostos simétricos. Um abismo de mundos invisíveis e silenciosos, a perceção da nossa insignificante pequenez no meio do Universo.

Harold Bloom, talvez o mais reconhecido crítico literário, apaixonou-se pela leitura assim que começou a andar, quando as suas irmãs lhe levavam os livros da biblioteca para casa. É pois natural que tenha tido o projeto de escrever um livro sobre a maneira como a leitura nos ajuda a viver e a compreender as nossas vidas. No entanto, quando ia a meio teve uma experiência que o levou à beira da morte. Após a convalescença, deitou fora as páginas que escrevera e, com um novo sentimento de urgência, escreveu esta obra, recorrendo a alguns dos maiores pensadores e escritores do mundo ocidental para melhor compreender e encontrar a sabedoria.

Em Onde Está a Sabedoria? Bloom, partindo da Bíblia, percorre a História até ao século XX, à procura de maneiras como a literatura pode influenciar as nossas vidas. A partir de comparações entre o Livro de Job e Eclesiastes, Platão e Homero, Cervantes e Shakespeare, Montaigne e Bacon, Johnson e Goethe, Emerson e Nietzsche, Freud e Proust, e finalmente, o Evangelho de Tomé e Santo Agostinho, Bloom apresenta-nos as várias (e por vezes contraditórias) formas de sabedoria que moldaram o nosso modo de pensar. Onde Está a Sabedoria? aprofunda o nosso entendimento e leva-nos a reler com uma paixão renovada as páginas dos escritores que mais contribuíram para o nosso sentido de quem somos.

Quando numa noite de verão e de céu limpo subimos ao Monte do Penedo, trepamos para o topo do penedo, e deitámo-nos na escuridão, de papo para o céu semeado de pontinhos luminosos. Não tardou entrarmos em diálogo com a luz das estrelas, fazendo perguntas incómodas. 
À volta do penedo há giestas que tivemos de atravessar, e no nosso corpo ficou agarrada a sua existência, o cheiro delas, os arranhões nas pernas e nos braços. A giesta é metáfora do mundo claro e limpo à nossa volta. 

É em momentos como aqueles que somos convocados pela sabedoria das perguntas. Descobrimos que há um Todo que se nos dá a conhecer, do qual nós fazemos parte de uma forma inextricável, sem saber qual a razão de tudo isto. É tempo perdido se convocamos a razão para nos esclarecer, porque tais interrogações são do domínio da experiência vivida. E a perceção da metáfora convida-nos a procurar a sabedoria no sentido das coisas, e não na razão. Depois de percebermos a metáfora dizemos: tudo isto faz, ou tem, sentido. E deixamos de procurar a razão de tudo isto. O sentido da realidade é conhecido nas coisas mais simples. E reservamos a razão para a complexidade, que é apenas nossa.

Esta é a mensagem do Universo que nos chega por aquilo que damos pelo nome de . A tal revelação divina que nem todos conseguem receber, e que costumam dizer: "Um dom pelo qual não fui tocado".
É através do tátil roçar da vida que tudo pode acontecer no escuro do poço: Estar aqui e não estar. Um trabalho de humildade contínuo na escuridão dos nossos dias, que nunca se sabe que podem ser inesperadamente rasgados pela claridade de uma estranha e inesperada luz.

A sabedoria não brota apenas de momentos de epifania, mas também da face penosa da existência humana: guerra e paz; migrações e luta pela sobrevivência; realizações técnicas e artísticas. Não podemos saber se é o Mal que vence o 
Bem, ou se é o Bem que vence o Mal. 


Hannah Arendt, judia, escapou por uma unha negra aos campos de extermínio nazi. Mas ousou questionar os fundamentos teológicos do sionismo. E não hesitou em denunciar a cumplicidade dos Conselhos Judaicos na tenebrosa tarefa do Holocausto. Doutorada em Filosofia, recusou-se separar o pensamento da ação. E professando tradicionais ideias de esquerda, não hesitou em equiparar o Totalitarismo comunista ao fascista. Ora, no que respeita às conceções do Mal, Hannah gerou um terramoto intelectual depois das suas cinco reportagens que fez para o The New Yorker em 1961, e reunidas em 1963 em livro, do julgamento de Eichmann em Jerusalém, cuja sentença resultou na sua condenação à morte. Eichmann foi um dos mais altos responsáveis pelo extermínio dos judeus. Mas os Conselhos Judaicos colaboraram nas deportações. 

Hannah Arendt teve então uma abordagem surpreendente do caso Eichmann sob a tese da "Banalidade do Mal." Trata-se do Mal Absoluto, o Mal em si mesmo. O Mal radical é de tal ordem que transcende todos os seus agentes. O Mal é tido como um agente em si mesmo, que age através da destruição metódica do pensamento. Anestesiando emoções e interrogações, banalizando progressivamente a existência humana até à sua negação. Mesmo que arrancassem metodicamente a pele a Eichmann, o mistério do horror permaneceria. Na esteira de Nietzsche, O Mal era um fenómeno demasiadamente humano, encrustado na essência de toda a Humanidade, e não apenas avulso em cada homem. No entanto, de modo algum Hannah Arendt pretendia com isto absolver Eichmann. Não! Tratava-se de usar Eichmann para ir muito além dele, e pensar. Porque o pensamento era o único antídoto que tinha para combater o veneno que Eichmann simbolizava. Poucos a compreenderam. Durante vários anos teve que sofrer uma violenta campanha contra si.

domingo, 31 de janeiro de 2021

A condição humana


A sabedoria introduz-nos no mistério mais impenetrável que é o da condição humana. O que hoje podemos saber com a simples ligação de um televisor, outrora era imaginado pelo ouvir dizer, que se exprimia por mitos e lendas. Assim, a sabedoria deste tempo é posta à prova nesta experiência de viver os acontecimentos do sofrimento e da morte coletiva, como se estivéssemos a ver Auschwitz em direto.

É a revelação dos limites da natureza humana, em que o amor é mais forte do que a morte. É o mistério da Humanidade feita à imagem de um Deus Big Brother que persiste em não mostrar a sua imagem. É o  mistério da Humanidade que se destrói a si própria na ânsia de experimentar o poder que tem. 



Numa conferência de imprensa, o médico responsável do INEM explicou ter tomado aquela decisão para evitar o desperdício iminente de vacinas que, de outro modo, iriam para o lixo. No dia 8 de janeiro, uma sexta-feira, e o último dia de administração da primeira dose da vacina foi informado, já depois do almoço, de que havia 11 vacinas, já preparadas em seringas, que não tinham destinatário, já que todos os profissionais identificados como prioritários pela delegação já tinham sido vacinados. Então, depois de ponderação, acabaram por ser vacinadas 11 profissionais de uma pastelaria ao lado das instalações do INEM. Porquê essas pessoas? “Foi apenas circunstancial. Por motivos de proximidade e de segurança, já que estando aqui ao lado isso facilitava a monitorização de eventuais efeitos secundários” 
A norma da Direcção-Geral da Saúde que determina como se deve proceder à descongelação, diluição e administração da vacina da Pfizer/BioNTech, prevê que a vacina só pode ser administrada “até seis horas após o momento da diluição”, devendo depois ser para “descartar”. As 11 pessoas externas ao INEM receberam igualmente a segunda dose da vacina, administrada na sexta-feira passada. 

Quando um jornalista na TV, perguntou ao Coordenador da Task Force das Vacinas, se pessoas que tinham recebido a primeira dose indevidamente, teriam direito a receber a segunda dose, Francisco Ramos teve o cuidado de chamar a atenção que seria agora infame termos uma atitude de vingança ou castigo para com essas pessoas. Claro que foi cometido um erro, mas depois de o erro cometido não faria sentido uma atitude tão pouco cristã.

Os mitos são férteis em peripécias humanas, que nos ensinam como devemos viver sem Queda. Como diria Aristóteles, há um equilíbrio a atingir. Ideais e interesses podem-nos levar para lugares em que não deveríamos estar. É claro que encontrar a mistura certa não é fácil. Autenticidade, Sinceridade e Integridade: é bom de dizer, mas difícil de fazer Ser.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Você merece. Merece?


Voltando ao slogan da L’Oréal do post anterior, o que a L'Oréal quer dizer é: “Você poderá merecer se comprar esta coisa”. O slogan original começou por ser: “Porque eu mereço”. Mas valeu a pena, para a empresa, é claro, ter mudado para: “Porque Você merece”. A questão é muito diferente, quando somos nós a merecer. As nossas vaidades estão sempre prontas ao estímulo. Subliminarmente o que sucede é a pessoa ficar desesperada porque na verdade ela não é nenhuma beldade de passadeira vermelha. Mas a L'Oréal vai levá-la aos píncaros da perfeição: "olhe para o que eu lhe digo, se comprar este creme, ou a tinta para o cabelo desta cor, estará a comprar um pouco da mesma magia, o lugar onde também poderá estar". Os seres humanos sempre se deram ao esforço de cuidarem da aparência pessoal. Nas Sepulturas da Idade do Bronze encontra-se um pouco de tudo, desde espelhos, pentes, e adornos como colares e brincos. 
A ambição de se possuir algo com tal estatuto rende à L'Oréal os seus milhares de milhões.» 

As pessoas que aparecem nos anúncios estão simplesmente para além desta linguagem de trapos. Não se importam com o que pensemos delas. A personagem no anúncio é uma ficção, uma criatura da nossa própria imaginação dirigida e manipulada. Tal como Narciso, a audiência do anúncio aproxima-se de um fantasma, que desaparecerá logo que tenha caído na esparrela de possuí-lo, com a compra de uma promessa, que não passa de uma ilusão breve, de também fazer parte de um olimpo de deuses. É uma desgraça, esta crença arrogante de que nós somos o centro das preocupações dos outros, a crença de que só temos direitos, em que os deveres são para o Estado e os governantes. E o panorama que se vê agora com as redes sociais, é que não vamos para melhor, mas para pior. Todo o tipo de egocêntricos aduladores e manipuladores com opiniões erradas.

É claro que não nos devemos desfocar do essencial. Os cirurgiões plásticos têm uma razão de ser, que tem a ver com a deformidade, com a mutilação, que arruínam a aparência das pessoas atraiçoadas pela sorte que lhes roubou a dignidade e o sentido do Si. As desfigurações são terríveis. Mas o que é absurdo é aquelas pessoas, ao mexerem no que está quieto, ao alterarem o que
 tinha sido moldado pela evolução natural da ordem da vida com aquele tipo de operações plásticas, se desfiguram. Estes casos de cosmética não têm nada a ver com o acidente ou o infortúnio da doença que desfigurou, e que precisa do auxílio da cirurgia plástica reconstrutiva. Ao fim de contas não dá boa reputação acabarmos sob o bisturi do cirurgião, em que a demanda do corpo perfeito foi inflacionada pela indústria da cirurgia estética, numa ímpia aliança com o mundo da moda e do Photoshop. Por conseguinte, o que você está a merecer é ser vítima dessas manipulações indignas. Infelizmente, no mercado do recrutamento de pessoas para um emprego, é melhor ser-se mediano e ter boa aparência, do que ser-se brilhante e pouco atraente. Não admira que o mundo do trabalho e do emprego tenha chegado onde chegou. Uma grande confusão de valores. 

Não são só mulheres a caírem neste engodo, tenha calma. Os homens também andam amedrontados, e desesperados com a sua aparência por efeito da idade, da poluição, dos vícios, dos desleixos, da gulodice. Todo esse medo escraviza-os num mundo de dor, desespero e miséria. Milhões de pessoas em todo o mundo se submetem voluntariamente ao bisturi do cirurgião plástico por vaidade. Ainda tenho memória do que aconteceu em França há já uma década quando foi dado o alarme das próteses de silicone mamárias defeituosas em cerca de 30 mil mulheres. E elas apavoradas com a possibilidade de o implante rebentar-lhes no corpo a todo o momento: "Os antidepressivos que algumas tinham deixado de tomar, com o efeito curativo dos implantes mamárias, agora voltaram a ter de tomar, porque vivem com uma bomba relógio dentro do corpo. Nem conseguem dormir." 

Narciso era afinal uma figura ridícula vítima do seu amor próprio. E ao mesmo tempo o engodo e o alvo de tal vaidade. Ninguém deveria aceitar a futilidade da vaidade e da arrogância, a falta de decoro ao ir meter-se nas mãos de um cirurgião plástico por triviais razões cosméticas. Poderia dizer-se que é como se o corpo não fizesse parte do Ser, mas parte do Ter, como um anel, um broche ou um Porsche. Um terrível exemplo de cobiça e inveja. É que a vaidade precisa da lisonja, do elogio. Mas as outras pessoas têm outros interesses, que são os seus. A lisonja continua a ser um bem escasso. Na mitologia grega Narciso foi deixado por sua conta. E essa também era uma moral a retirar do mito.

A questão de fundo é que a cobiça desonra o melhor "sentimento de Si", a melhor ideia que temos de nós mesmos. Depois de termos sido tolhidos pelo aperto da serpente, é quase impossível sair do carrocel da ganância, da vaidade nunca satisfeita, que obviamente acaba na ganância do dinheiro. A magia não funciona, e o consumismo tomba inevitavelmente num fracasso estrondoso. Mas a imaginação é persistente, teimosa, e tenta de novo. E assim se abre um sombrio processo de pessoas que se tornam clientes desesperançadas, suplicantes, desfiguradas caçadoras de ilusões de um belo infinito, cujo favor reverte para os cofres do fabricante.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Eutrapelia


Hoje já pouca gente sabe o que é eutrapelia, uma palavra antiga de origem grega. Era uma das verdadeiras virtudes, para Aristóteles: alguém que sabe ter uma conversa bem equilibrada entre o bom senso e o chocarreiro; alguém que para ser agradável é hiperbólico, mas a seguir diz com um sorriso: “estava a brincar”. É como Cristina Ferreira dizer naquele anúncio, a sorrir: “Porque Você Merece”



Ou então uma amiga de Cinha Jardim, como Castelo Branco, que já não a via desde as últimas operações plásticas ao pescoço e diz: “Você agora parecia-me uma daquelas criaturas do Frankenstein”. Mas a seguir diz em tom de gracejo: "Estava a brincar minha querida".



Por um tempo, a eutrapelia passou a significar piadas obscenas e grosseiras. A palavra aparece apenas uma vez no Novo Testamento em Efésios 5:4, onde é traduzida como "gracejo grosseiro".

O influente filósofo medieval Tomás de Aquino viu a eutrapelia sob uma luz positiva, novamente, favorecendo a antiga noção aristotélica de que ela é uma boa atitude para relaxamento mental, e constitui uma diversão honrosa. Em Summa Theologica, Tomás de Aquino considera a eutrapelia como um gracejo virtuoso e moderado. Na segunda metade do século XIII, o conceito foi considerado um estado de prazer judicioso - isto é, lícito e bom - e voltou a ser considerado uma virtude.

Alberto Magno, mestre de São Tomás de Aquino, que morreu em 1280, e que com efeito havia lido a Ética a Nicómaco de Aristóteles, tratou de explicar ao seu pupilo que a eutrapelia, termo que não quis traduzir para não retirar o seu sentido próprio, mas que se podia resumir a atividade lúdica, se podia incluir no elenco das virtudes cristãs. Filha da temperança, necessária ao pleno exercício da vida humana, o brincar traz boa disposição, e como tal constitui uma forma de recreação, ou seja, de reparação do espírito.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A situação pede urgência

 

Em Portugal

Nos rodapés da TV lê-se: 

Fique em casa, estamos aqui por si

Hospital Xis fechou urgências / Em Y 20 ambulâncias na Urgência em fila de espera
Hospitais em L sem vagas / Hospital Z em taxa de esforço de 300%
Enfermarias em contentores / Um monte de botijas de oxigénio
Morgues ampliadas / Ambulâncias noutro hospital paradas em filas de espera
Contentores frigoríficos / Médicos mercenários / Médicos infetados
Açambarcamento de vacinas /Surto num hospital infetou 199 pessoas
Doentes para o estrangeiro / Mas em Badajoz a situação é alarmante
Hospital de campanha / Luxemburgo disponível para ajudar
Estruturas de retaguarda espalham-se pelo país
Hoje houve recorde de mortos por Covid-19 e doentes internados
Por milhão de habitantes Portugal  é o pior do mundo
Um hospital esgota a sua capacidade de oxigénio e transfere doentes para outros hospitais
O sistema não aguenta tanto doente a ser oxigenado

Dominamos a matéria, manipulamos as leis da física, o dinheiro circula à volta do globo à velocidade da luz, e, todavia, parece que estamos a ir diretamente pelo caminho do Caos. A racionalidade esgotou-se e a sabedoria é escassa. E os responsáveis dizem que nada há a fazer perante a catástrofe, mas que entre mortos e feridos, alguém há de escapar: os poetas.

A nossa conceção das mutações milenares não inclui a recompensa dos bons e o castigo dos maus, mas a multiplicação da injustiça. No fim, seja de um terramoto, seja de um tsunami, quem se lixa? Não é preciso dizer, toda a gente sabe. As convicções morais são impotentes para combater os interesses das empresas destruidoras que entre o tempo da recolha do maior bem da Natureza, e o tempo da devolução na forma de resíduos tóxicos, algo de mau acontece porque ninguém quer renunciar ao conforto e ao consumo.

Nenhuma empresa quer limitar os seus lucros. Nenhum governo se atreve: a impedir a produção; o tráfico de armas e de droga; o tráfico financeiro e branqueamento de capitais. O apelo à cidadania substituiu o apelo à moralidade. É no processo inexorável das mutações em que o pecado dá lugar ao crime. No mundo tudo muda, constantemente, em todos os níveis. E nunca sabemos de onde vem e para onde vai: a mudança.

É melhor viver com pouca coisa, e não ter medo. Muitas vezes confunde-se utopia com ideal. Se utopia quer dizer que é tudo aquilo que não existe em nenhum lugar, que só serve para nos evadirmos da realidade; ideal quer dizer ilusão alimentada pelas utopias. O aparente otimismo das utopias baseia-se na ilusão de que o imaginário se torna possível.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Sophia



Ao nosso lado os mortos em surdina /Bebem a exalação da nossa vida. /
São a sombra seguindo os nossos gestos, /
Sinto-os passar quando leves vêm / Alta noite buscar os nossos restos.

Sophia de Mello Breyner Andressen – do poema: “Os mortos de Hécate”

Hécate
, deusa grega dos mortos, fere à distância, agindo segundo a sua vontade, é a qualidade em que se baseia especialmente Hesíodo da Teogonia, 425-435. Na imagem, Hécate está representada num friso do Altar de Pérgamo, que se encontra no Museu Pergamon, em Berlim. 

Estava associada a encruzilhadas, entradas, fogo, luz, a lua, magia, bruxaria, o conhecimento de ervas e plantas venenosas, fantasmas, necromancia e feitiçaria. Ela reinara sobre a terra, mar e céu, bem como possuía um papel universal de salvadora. Ela era uma das principais deidades adoradas nos lares atenienses como deusa protetora e como a que conferia prosperidade e bênçãos diárias à família.




Sophia perde-se nos caminhos. Adora viagens. Diz que nunca conseguiu encontrar um nome numa lista telefónica. Assim como se irrita quando ouve a campainha da porta ou do telefone. Por outro lado, é uma pessoa que mergulha nos poemas como gosta de mergulhar no mar. E esta qualidade já lhe tem feito muito mal à memória de trabalho, a chamada memória de curto prazo, aquela que se apaga com facilidade. Um dia esqueceu-se de um filho ainda pequeno, embora traquinas, numa loja onde entrou para comprar alguma coisa. E o miúdo escapuliu-se para explorar todo aquele bricabraque. Já estava na rua quando se lembrou que se tinha esquecido do filho na loja. Obviamente que o foi buscar a correr. Mas quando chegou à loja, a criança estava amuada, o que custou embaraços a Sophia para provar que era a mãe da criança. 



Sophia bebe muito chá e fuma cigarros atrás de cigarros, como se vê nesta sua bela fotografia. 

Os versos de Sophia não têm palavras a mais. Qualquer poema perde por uma palavra a mais que se torna desnecessária. Os poemas de Sophia são de uma avidez de luz e de mar: Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto ao mar. Sophia tomou como epígrafe de vida a frase do bisavô dinamarquês: “A minha casa é o caminho do mar”. Quanto ao avô, Sophia ouvia-o a entoar Camões, e "Camões parecia-me um palácio de vidro, transparente, luminoso, atravessado por uma luz doirada.”

Miguel Sousa Tavares, um filho, lembra-se dela sempre a recitar poesia em voz alta e a dançar pela casa enquanto lia. Nunca eram poemas dela. Esses escrevia-os a altas horas, quando os meninos supostamente deviam estar a sonhar com as histórias que ela lhes lia até adormecerem. O marido, Francisco Sousa Tavares, por vezes vinha a Pide e levava-o preso. Nessas ocasiões, Sophia pegava no seu pequenino Miguel e deitava-o na sua cama. Tinha medo, sobretudo medo de fantasmas.

Sophia de Mello Breyner Andersen nasceu a 6 de novembro de 1919 no Porto. Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno. O seu avô, Jan Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho João Henrique, em 1895, comprado a Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. Como afirmou em entrevista, em 1993, essa quinta "foi um território fabuloso com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa". A mãe, Maria Amélia de Mello Breyner, é filha de Tomás de Mello Breyner, conde de Mafra, médico e amigo do rei D. Carlos. Maria Amélia é também neta do capitalista Henrique Burnay, de uma família belga radicada em Portugal, e futuro conde de Burnay.

Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu, aos 84 anos, no dia 2 de julho de 2004, em Lisboa, no Hospital Pulido Valente. O seu corpo foi sepultado no Cemitério de Carnide. Em 20 de fevereiro de 2014, a Assembleia da República decidiu homenagear por unanimidade Sophia com as honras de ficar no Panteão Nacional. A cerimónia de trasladação teve lugar a 2 de julho de 2014.

Desde 2005, no Oceanário de Lisboa, os seus poemas com ligação forte ao Mar foram colocados para leitura permanente nas zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem a força da sua escrita enquanto estão imersos numa visão de fundo do mar.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Marcelo – o Homem só


Ao volante do carro que gostaria de trocar em breve, Marcelo Rebelo de Sousa, sem máquina e sem partidos, como há cinco anos, mas agora também sem selfies e sem afetos, um só tema: a pandemia e a morte. Vemo-lo a votar em Celorico de Basto, e voltamos a vê-lo à hora do fecho das votações, a chegar a sua casa, em Cascais. Os jornalistas já lá estão à sua espera. Mas é como se não estivessem, com toda a calma, retira um fato do banco de trás, e várias pastas da mala do carro, e num vai vem entre o carro e a casa, vai arrumando as coisas com toda a parcimónia. E os jornalistas limitam-se a dar-nos a ver o Presidente, o estadista. Finalmente, fecha a porta. Mas voltamos a vê-lo meia hora depois na rua, a pé, com uma saca de plástico, e lá dentro traz o seu jantar que foi buscar a um restaurante ali perto, em take away: um bife, arroz e salada de tomate. E só o voltamos a ver entre as 23 e 24 horas, para o seu discurso de vitória na Faculdade de Direito de Lisboa, sem mais ninguém, um homem absoluto, qual eremita, qual Homem de Vitrúvio.




Marcelo, mas não há marcelistas. Com o número de mortos Covid-19 a galopar, não há espaço para outra coisa senão tratar da pandemia. É um presidente popular, mas não é nenhum cara de pau, nem nenhum populista, e com essas premissas leu o seu discurso: 
«Os portugueses querem sair deste quase ano de vida dilacerada, para um horizonte de esperança e sonho. É inconcebível que, no 50º aniversário de Abril, não se possa dizer que não somos mais livres, justos, solidários, do que no início da caminhada. […] A principal lição destas eleições é uma: se a pandemia durar e for mais profunda, tudo o resto correrá pior, durará mais, será mais difícil de recuperar. O mais urgente do urgente chama-se combate à pandemia. Temos de fazer mesmo tudo para travar e inverter um processo que está a pressionar as nossas estruturas de saúde. Temos de garantir aos nossos heróis que não há dois Portugais, o deles sempre no limite - e o nosso a viver de longe ou a tratar distraidamente demais o drama de tantos milhares de portugueses.» 

Sozinho, o indivíduo só se tem a si mesmo, desesperadamente preso a si mesmo, surgindo a angústia que, como Kierkgaard, se torna metáfora da noção de responsabilidade como culpabilidade. O conceito de angústia revela a indecisão do homem, o "pathos" em que o indivíduo chega à consciência de si mesmo e se declara face ao Nada (Deus?), reconhecendo o seu destino inexorável de mortal e, precisamente porque esta pandemia simboliza a "rutura do mundo", ou seja, a morte. É que o isolamento, em que estamos obrigados pelo “Confinamento” atrai a obsessão da morte. E a obsessão da morte traz o isolamento. 

Marcelo reza, é um católico praticante, devoto. Mas também é um Homem da Renascença, um Vitruviano de Leonardo da Vinci, símbolo do universo como um todo, porque apesar de tudo rege-se pela razão. Colocado no centro do mundo, o Homem tem perante si o caminho livre para chegar a si mesmo e, ou, a qualquer lugar. O lugar do Homem não está circunscrito; o seu lugar é o próprio universo, o Ser Universal. Procura salvar os portugueses, não pelo reconhecimento e submissão a Deus, mas pelo conhecimento e pela ciência. É por isso um Humanista da Renascença, que projeta a sua ilimitada confiança no futuro, para o qual tende o progresso da Humanidade. Está convencido de que se iniciou um novo ciclo, encontrado o caminho que conduz à verdade, sem "a venturas". O Homem é autossuficiente e pode aperfeiçoar-se através das suas próprias forças.

O Humanismo exalta a razão humana, a lógica e a experiência no plano do conhecimento e a vontade no plano da ação, isto é, o poder para dominar, controlar e governar os apetites e as paixões. O Homem é, pois, capaz de guiar-se a si mesmo, desde que, por meio da razão e da vontade, estabeleça normas de conduta e códigos para todos os aspetos da vida prática. 

O avanço dos conhecimentos e da técnica trouxe novas vacinas, e as pesquisas em todos os campos do saber permitem que tenhamos fé que vamos continuar a retardar a morte do velho envelhecido. Curar doenças tidas como incuráveis, aumentar a capacidade cerebral, alargar o espírito, aumentar os prazeres dos sentidos.  

domingo, 24 de janeiro de 2021

Milhares de migrantes hondurenhos


Há uma semana milhares de hondurenhos atravessaram a fronteira da Guatemala com o objetivo de chegar aos Estados Unidos. Eles partiram a pé de San Pedro Sula, uma cidade no norte das Honduras, levando o pouco que podiam, e começaram uma longa viagem a pé. Abandonam um país saturado pelo desemprego, pela violência, pela pandemia e pelos graves danos causados pelos dois furacões que atingiram a América Central. Inicialmente a polícia guatemalteca recebeu ordens para deixar passar os migrantes, devido à presença de famílias com crianças, mas há oito dias no departamento de Chiquimula, a 200 Km da Cidade da Guatemala, agentes tentaram bloquear o fluxo de cerca de 6.000 pessoas. Muitos migrantes acabaram por voltar para trás, enquanto outros fugiram para as montanhas e tencionam forçar a passagem noutra altura. De acordo com a Reuters, mais de duas mil pessoas passaram a noite de domingo para segunda-feira na estrada, ao relento. 




“Não temos trabalho, nem comida, por isso decidi ir para os Estados Unidos”. O Presidente eleito dos EUA, Joe Biden, já anunciou que vai reverter muitas das políticas de Trump, nomeadamente a imigração. No entanto, membros da Administração Biden aconselharam os migrantes da América Central a não fazerem a viagem rumo aos Estados Unidos, alertando que a sua entrada no país não será imediata e que as alterações na política de imigração levam tempo.

“Os migrantes e requerentes de asilo não devem acreditar nas pessoas da região que vendem a ideia de que a fronteira será aberta de repente para todos no primeiro dia. Não será”, disse Susan Rice, nomeada como conselheira de política interna de Biden.

Honduras é o segundo país mais pobre da América central e um dos mais pobres do Ocidente, e sofre de uma elevada taxa de desemprego. A agricultura é o mais importante na sua economia, empregando quase dois terços de sua mão de obra. Os principais produtos das suas exportações são o café, banana e camarão. É um país fortemente dependente dos Estados Unidos, para onde vão 70% das suas exportações e de onde se originam mais de 50% das suas importações.

O presidente, Juan Orlando Hernández Alvarado, cujo mandato começou em 27 de janeiro de 2014 e terminou em 27 de janeiro de 2018, foi reeleito para um novo mandato até 27 de janeiro de 2022, após uma votação considerada fraudulenta pela oposição e pelos observadores internacionais. O governo declarou o estado de emergência. Cerca de 30 manifestantes foram mortos e mais de 800 presos. Segundo as Nações Unidas e a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, "muitos deles foram transferidos para instalações militares, onde foram brutalmente torturados”.

Há muitos anos que os hondurenhos não têm tido sossego, apesar ou por causa, de serem o amigo mais fiel dos Estados Unidos na região. No início da década de 80 do século XX, o país estava bem guarnecido de militares e equipamentos americanos que lhe chamavam USS Honduras. Foi o tempo dos Contras apoiados pelos americanos contra os Sandinistas. Pelas mãos da CIA e do general Alvarez, pelo menos 10.000 pessoas foram assassinadas ou desapareceram. Falava-se, na altura, de um “esquadrão da morte”, criado pelos americanos para a Nicarágua e Honduras, o Batalhão 316.

Quando a CIA e o governo dos Estados Unidos começaram a treinar torturadores nas Honduras e a sabotar a vontade democrática do povo da Nicarágua, em nome da luta contra o comunismo, não era de admirar, dado os precedentes que já havia da intervenção dos Estados Unidos na América Latina. A primeira vítima tinha sido a Guatemala, onde o presidente democraticamente eleito, Jacobo Arbenz, concedeu, em 1952, estatuto legal ao Partido do Trabalho, comunista. Comunistas ocuparam cargos importantes no seu governo, pondo as grandes empresas americanas furiosas. Assim, prepararam Anastasio Somoza, no sentido de derrubar Arbenz e instalar uma ditadura de direita, de modo a favorecer amigavelmente os interesses das empresas americanas no seu próprio país.

sábado, 23 de janeiro de 2021

"O bípede de polegar oponível"

 

«. . . o bípede de polegar oponível nesse temível estado de dependente absoluto, . . .; e a mão hábil das invenções e do artesanato, essa mão da motricidade fina, capaz de colocar um fio de lã no mínimo buraco de uma agulha, . . . a mão que pede ajuda, a mão que dá ajuda. Tudo o resto talvez sejam ocupações eticamente intermédias dos ágeis dedos de um cidadão. No dia limite, no último instante, a tua mão será convocada: para salvar ou para pedir a salvação.»  GONÇALO M. TAVARES


Eu sou ambidestro, mas podia ter sido esquerdino; para uns, canhoto, para outros, sinistro. O nosso Presidente é esquerdino; Paul McCartney idem; Jimi Hendrix aspas. Há teorias para tudo, e existe claramente uma correlação entre ser canhoto e ter um pendor para artista. Ou seja, ser criativo. Talvez porque os canhotos são obrigados desde novos a adaptar-se e a encontrar soluções num mundo desenhado ao contrário para eles, ou porque já pensam numa direção diferente da maioria. O que a Ciência diz sobre essa suposta vantagem não tem tanto a ver com a mão que é predominante, mas com a destreza inconsistente das duas mãos, o que leva a que experimentem mais e, em certos instrumentos como o piano, sejam obrigados a rever a sua coordenação motora, a aplicar elevados níveis de concentração, a adaptar-se a um ensino musical pensado para destros, o que aumenta a sua plasticidade cerebral. Pelos vistos pensam mais depressa, têm uma organização mental melhor, lutam melhor, têm melhor memória. Por exemplo, Mark Knopfler é canhoto, mas toca guitarra com a direita. Se calhar o estilo de fingerpicking do guitarrista dos Dire Straits é um reflexo do que venho expondo. Seja como for, o tempo de ensinar esquerdinos a serem destros já acabou, e existem imensos instrumentos para quem não toca direito. 

Este artigo, que à partida parecia nada ter a ver com política, se calhar também tem a ver com política. Conceções essencialistas e tipológicas em humanos são hoje insustentáveis​. Uma pessoa, um voto, uma pessoa, um cidadão, uma pessoa, uma identidade cívica. Numa sociedade democrática todos são iguais, e essa igualdade deriva da pessoa humana, do indivíduo, e só depois é que tudo o resto, todos os fatores de identidade contam: género, cor da pele, orientação sexual, religião. Para os procedimentos da democracia, devem ser invisíveis. Na verdade, a nossa tradição democrática assenta na condição de cidadão, e não deve ser subqualificada. 

A democracia é uma escolha cultural e política, não parte de uma descrição sociológica nem antropológica da sociedade. O sistema de quotas, que está a crescer, assumidas na lei ou implicitamente funcionando como exclusão ou vantagem, torna, em nome da igualdade, as pessoas desiguais e perverte a cidadania. E não permite combater os males que estão por trás da desigualdade. Há qualquer coisa de errado quando, para combater o racismo, se estabelecem quotas que na maioria dos casos redunda no género e na cor da pele. E isto é que é, ao contrário do que o “politicamente correto” pensa, qualquer coisa de retrocesso civilizacional. O discurso cada vez mais hegemónico sobre o género, a preferência sexual, a cor da pele, a etnia ou a religião tem o resultado não resolver o problema de fundo: a pobreza, a exclusão, a desigualdade de oportunidades. Enquanto se viver numa sociedade desigual, ela tenderá a potenciar todos os fatores de exclusão. E esses fatores incluem o género, a orientação sexual, a cor da pele, a etnia e a religião. Se se quer combater o racismo e a discriminação, é na luta social que está a chave para combater as injustiças, e não nas boas intenções.

O uso do termo "raça" para significar algo como subespécie entre os seres humanos está errado; o homo sapiens sapiens não se subdivide em raças, como consta na declaração da UNESCO. Em ciência, o termo não se aplica a uma espécie tão geneticamente homogénea como um ser humano. Os estudos genéticos têm fundamentado a ausência de claras fronteiras biológicas. Assim sendo, o termo "raça" não é usado na terminologia científica, tanto em antropologia como em genética humana. O que no passado tinha sido definido como "raças" é agora definido como "grupos étnicos" ou "populações".

Depois da 2ª Guerra Mundial, as associações do conceito de raça com ideologias e teorias que se tinham desenvolvido desde os finais do século XIX, foram proscritas, dado que o uso da palavra "raça" passou a ser muito problemático. A palavra raça foi substituída por outras palavras que são menos ambíguas e emocionalmente menos carregadas, como populações, povos, grupos étnicos ou comunidades. 
Segundo Claude Lévi-Strauss, se os grupos humanos se distinguem, e se para tanto precisarem de ser distinguidos, então devem sê-lo unicamente em termos culturais. De facto, é unicamente pela cultura que os grupos humanos ou sociedades se distinguem e se diferenciam; e não segundo a sua natureza biológica. Quer dizer que, se é necessário a manutenção das distinções, o fenómeno não é de forma alguma natural. Não deriva da biologia, mas da antropologia cultural no sentido amplo. O racismo consiste precisamente no contrário, em fazer de um fenómeno cultural um fenómeno pretensamente físico, natural e biológico. Claude Lévi-Strauss explica ainda em Raça e História (que foi também publicado pela UNESCO) que a imensa diversidade cultural, correspondendo a modos de vida extraordinariamente diversificados, não é em nada imputável à biologia: ela se desenvolve paralelamente à diversidade biológica, seja da cor da pele, ou qualquer outro aspeto filogenético. Os etnólogos estimam que, postas de lado as supostas diferenças genéticas e fenotípicas, as populações humanas são principalmente diferenciadas pelos seus usos e costumes, que são transmitidos de geração em geração. A espécie humana caracteriza então pela sua grande diversidade cultural. 

A diversidade cultural sobrepõe-se à biodiversidade
diversidade cultural está para a espécie humana, assim como a biodiversidade está para as outras espécies, seja natural ou manipulada pela espécie humana. A diversidade humana fenotípica foi consequentemente absorvida pela cultura. E é importante distinguir bem os dois domínios para não recriar, mesmo involuntariamente, os discursos racistas e não científicos. Nessa ótica, as diferenças culturais aparecem como mais importantes. 

O homo sapiens sapiens conheceu curtos períodos de isolamento que deu origem a diversos grupos étnicos. Mas o processo de globalização mais antigo processado pelas grandes migrações do passado, levou à mestiçagem que, apesar de tudo, acabou por ser mais nítida ao nível da cultua do que ao nível fenotípico. Por outro lado, até as culturas sociais isoladas, muito poucas sobreviveram isoladas tempo suficiente para gerar diferenças genéticas muito substanciais. Para que as características fenotípicas (anatómicas) se evidenciassem, seria necessário uma cultura manter-se isolada por mais tempo do que aquele que precedeu a época dos grandes fenómenos migratórios. Isto não significa que as forças da seleção natural não continuem a operar em populações humanas, só que essas forças precisam de muitos milhares de anos para que os seus resultados sejam visíveis. Existe a evidência de que determinadas regiões do genoma sofreram seleção direcional nos últimos 15 mil anos. Mas também há dados científicos para dizer que antes do início do Paleolítico Superior, há cerca de 50 mil anos, já existiam como expressão cultural universal, a língua falada, a música e o desenho.