quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Hedonistas epicuristas e não-epicuristas




Nas chamadas conversas de café, a palavra hedonismo é utilizada com o significado de inclinação para os prazeres da carne sem preconceitos morais. Ora essa conceção está muito longe do hedonismo epicurista, porque Epicuro, o primeiro grande teórico do hedonismo, que associou essa ideia à felicidade (eudaimonia), compreendeu que prazer e felicidade não eram a mesma coisa. Eudaimonia é um termo grego que literalmente significa: "estado do ser habitado por um bom daemon (génio)". A sua tradução mais frequente, embora haja outras como um estado de plenitude do ser, é felicidade.

E esta sentença fez-me viajar de novo na memória. Quando eu era pequeno, no verão depois de jantar (21 horas mais coisa menos coisa), deitava-me numa pedra de granito de papo para o ar e punha-me a olhar para as estrelas, tentando decifrar a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Cassiopeia e Orion. às tantas as costas começavam-me a doer, mas eu não me importava, porque para além das estrelas, ouvia o murmúrio do mar, que saía de dentro da concha de um búzio que encostava ao ouvido, um brinde extra que eu deslocava de um aparador da sala de jantar da minha avó.

Por estes dias da Covid, depois de um bacalhau magnífico regado com um alentejano modesto e uma sobremesa contida, recolhi ao quarto e liguei a televisão. Num canal qualquer estava a passar um anúncio da UNICEF a alertar-nos que cerca de 400 mil crianças estão em risco de morrer de fome. Crianças e mais crianças a morrerem de fome e eu "que diacho, haverá também velhos a morrer assim?" Eu que me considero um velho, a desculpar-me do bacalhau. Mudo de canal e está um especialista em epidemiologia a ser entrevistado e a dizer que praticamente, os mortos da Covid são quase todos velhos com mais de 80 anos. E sigo para outro canal: um velho a ter alta de um hospital após internamento por Covid, e o stafe a elogiá-lo, a felicitá-lo, por ter vencido o bicho. E uma enfermeira dizendo que ele ainda estava ali para viver por muitos anos, e ele a abanar com a cabeça a dizer que não queria.




No meio de tanta notícia sobre os números da pandemia Covid, de tanto depoimento científico, e de tanto comentário político opinativo, veio-me à memória o início dos anos 1980. Estou a lembrar-me de Freddie Mercury e António Variações que morreram de SIDA, a doença provocada pelo vírus HIV, e eles ainda na pujança da vida. Dois músicos ainda hoje muito adorados por quem gosta de música e não só. 

Eram os anos 80 do século passado assolado por uma epidemia que se transmitia durante o contacto amoroso e que, de início, lavrava sobretudo entre os homossexuais. Os fanáticos religiosos não demoraram a vir dizer que se tratava de um castigo divino. A resposta também não se fez esperar, de início levantada nos meios artísticos, mas que depois se estendeu a "gente de bem".

Prazer e felicidade nem sempre coincidem. Às vezes o prazer traz mais infelicidade do que felicidade. Epicuro sabia muito bem que era assim, uma vez que recomendava que fôssemos prudentes quanto aos prazeres da carne, ainda que essa prudência nos pudesse dar um travo melancólico. A noção fundamental de hedonismo pode ser a ausência de sofrimento. Estamos felizes enquanto conseguimos manter longe de nós o sofrimento para além da dor. Aquele velho, que na hora da despedida do hospital rumo a casa de uma filha, disse que não queria mais, talvez nunca tenha ouvido falar de Epicuro, mas cá para mim eu pensei: "ora aqui está um verdadeiro hedonista epicurista".


Barcelona: Independentistas + Pablo Hasél




Centenas de pessoas saíram à rua para protestar contra a detenção de Pablo Hasél, marcadas pela violência e confrontos com os agentes da autoridade. 
Nos diferentes locais houve cargas policiais para tentar conter os manifestantes, que entoaram 'slogans' como “liberdade Pablo Hasel” e “os Bourbons são ladrões”. Empunharam também faixas com a frase “morte ao estado fascista”, reproduzindo a declaração de Hasél no momento em que foi detido. Os protestos estenderam-se a outras cidades catalãs e aconteceram noutras partes de Espanha. 

Uma das manifestações, de cerca de um milhar, começou de forma pacífica e decorreu até às portas do centro Penitenciário Ponent, em Lleida na Catalunha, onde está detido o rapper. Foram cantadas músicas dele e os distúrbios começaram pouco depois. Quando os manifestantes se aproximaram da prisão, alguns dos presos inclinaram-se para fora das janelas para gritar “liberdade de expressão", enquanto as pessoas que estavam na manifestação gritavam slogans a favor da libertação de  
Pablo Hasél. Os manifestantes ergueram barricadas com caixotes de lixo que foram incendiados perto da prisão. 

O historial do rapper com a justiça é já antigo, com recursos e penas suspensas pelo meio. Desde o início de 2010 que é acusado da prática de crimes, sendo que em 2014 foi mesmo condenado pela prática de crime de glorificação de terrorismo, até por músicas escritas com elogios a grupos terroristas, como a ETA ou o GRAPO. Mas é a sentença relativa a tweets publicados, entre outros sobre a monarquia e o rei emérito Juan Carlos I, que está em causa- “Parasitas”, “mafiosos”, “ladrões”, “monarquia mafiosa e medieval”, “gangue criminoso”: estes foram adjetivos utilizados pelo rapper que a justiça espanhola condenou em 2018. 
São frases e versos de canções com estas que justificam a mais recente condenação a nove meses de prisão, a que acresce o pagamento de uma multa de 30 mil euros:

Frases:
  • El mafioso de mierda del Rey dando lecciones desde un palacio
  • Guardia Civil torturando o disparando a emigrantes
  • Los parásitos de los Borbones siguen de trapis con los decapitadores de los homosexuales
  • Muchos temporeros durmiendo al raso están en peores condiciones que Ortega Lara y sin haber sido carceleros torturadores
Letras de canções: 
  • Me cago en la marca España explotadora y casposa
  • Si Froilán se disparó en el pie siendo menor de edad igual ahora que es mayor de edad va a disparar a toda la Familia Real
  • Quienes manejan los hilos merecen mil kilos de amonal
  • Es un error no escuchar lo que canto, como Terra Lliure dejando vivo a Losantos
  • No me da pena tu tiro en la nuca, ‘pepero’. Me da pena el que muere en una patera. No me da pena tu tiro en la nuca, ‘socialisto’. Me da pena el que muere en un andamio
  • ¡Merece que explote el coche de Patxi López! 
  • Siempre hay algún indigente despierto con quien comentar que se debe matar a Aznar
  • Mi hermano entra en la sede del PP gritando ¡Gora ETA! A mí no me venden el cuento de quiénes son los malos, sólo pienso en matarlos
  • Pienso en balas que nucas de jueces nazis alcancen
  • ¡Que alguien clave un piolet en la cabeza a José Bono!
  • Voy a decir como Corina: guillotina
  • Hijos de Franco condenando por ser franco
  • Pensiones más baratas que una hora de familia real
Hasél foi convidado a entregar-se voluntariamente à prisão mas recusou. O seu último tweet é um comunicado em que já avisava que não iria de livre vontade cumprir uma pena “tão injusta”. O prazo terminou na sexta-feira e foi dada ordem de prisão. Pablo tem o apoio de mais de 200 artistas, entre eles Pedro Almodóvar, Joan Manuel Serrat, Javier Bardem, Alba Flores, Fernando Trueba ou Vetusta Morla, que assinaram um manifesto no qual exigem a libertação do rapper.

Contextualizemos:

No dia 14 de fevereiro os partidos independentistas venceram as eleições na Catalunha, tendo conseguido a maioria no parlamento. A Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e o Juntos pela Catalunha conseguem 65 lugares num parlamento de 135 assentos. Mas a grande vitória da noite vai para o Partido Socialista da Catalunha, liderado por Salvador Illa, que alcança o maior número de votos e o mesmo número de deputados (33) que a Esquerda Republicana da Catalunha e mais um que o Juntos pela Catalunha. O Podemos, através do seu referente local Catalunha em Comum, entra no parlamento catalão com 8 deputados ultrapassando o Partido Popular que não vai além de três deputados. A Candidatura de Unidade Popular alcança nove lugares. O Ciudadanos tem o maior trambolhão, perdendo 30 lugares no parlamento relativamente à legislatura anterior. O partido passa de 36 para 6 deputados. A entrada mais espetacular no parlamento catalão é para a extrema-direita do Vox, que alcança 11 deputados. Tudo somado, os independentistas têm maioria absoluta e poderão, se chegarem a entendimento, formar um governo que promete pôr à prova o frágil executivo de Madrid.

No dia 16 de fevereiro os manifestantes vieram para a rua contestar a prisão de Pablo Hasél. No dia 12 de fevereiro Hasél havia comentado em sua conta do Twitter o prazo para que se entregasse: “Eles me prenderam de cabeça erguida por não ter cedido ao seu terror, por ter contribuído com o meu grão de areia para o que mencionei. Todos nós podemos fazer isso", escreveu em sua conta. E a Amnistita Internacional na Espanha publicava no Twitter que Pablo Hasél ir para a prisão era injusto: “Não vamos parar até que sejam revogados os crimes do Código Penal que limitam a expressão artística. Casos como este não podem ser repetidos". Já a Suprema Corte da Espanha disse em nota à imprensa que a liberdade de expressão tem os seus limites e é condicionada por outros direitos e exigências constitucionais.

As eleições do dia 14 de fevereiro não eram sobre a independência mas sobre a hegemonia dentro dos dois blocos políticos, o independentista e o que recusa a secessão. O principal confronto era protagonizado pela Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), que visava ultrapassar a coligação Juntos pela Catalunha (JxCat), inspirada pelo antigo presidente catalão, Carles Puigdemont. A ERC venceu tangencialmente. No outro campo, o Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC) marcou pontos: foi o mais votado e conquistou o mesmo número de mandatos que a ERC. Nestes termos, o candidato “republicano”, Pere Aragonès, deverá assumir a presidência da Generalitat e o PSC a liderança da oposição. Ambos defendem o diálogo com Madrid.

Pela primeira vez, a soma dos independentistas passou o limiar simbólico dos 50%, mas o facto tem pouco relevo, dada a maciça abstenção. A Catalunha continua partida ao meio. Estas eleições poderão ter efeitos nacionais. A derrocada do Partido Popular (PP), que há dez anos era a terceira força política catalã e se vê reduzido a três deputados, criará problemas à liderança de Pablo Casado pois continua a hemorragia de eleitores para o Vox. Entre nacionalistas, prossegue a luta histórica que opõe a ERC, de Oriol Junqueras e Pere Aragonès, aos herdeiros da antiga Convergência, de Jordi Pujol. São duas famílias irreconciliáveis.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Como assim, Ensaio?


Virgínia Woolf observou, sobre Montaigne, que o autor dos Ensaios não é de modo algum explícito ao apresentar os seus próprios textos. Ela observa: “Estes ensaios são uma tentativa de comunicar uma alma. A esse respeito ele é explícito. Não é fama o que ele quer; nem está interessado em vir a ser citado no futuro; ele não está erguendo estátua na praça pública; ele só quer comunicar uma alma.” E mais adiante: “Compartilhar é a nossa tarefa; mergulhar corajosamente e trazer à tona os mais doentios pensamentos; não conciliar nunca; não fingir nada; se somos ignorantes, proclamá-lo".

Noutro texto, a mesma Virgínia Woolf apresenta um ensaio para o definir como ensaio. Depois de afirmar que a forma do ensaio é muito variável, e que a própria origem deste género literário é muito discutível, observa: “O princípio que o controla é simplesmente a necessidade de dar prazer; o desejo que nos leva a ele, quando o tiramos de sua concha, é simplesmente ter prazer”. No entanto, considera ser difícil atingir tal qualidade: “Um romance tem enredo, um poema rima; mas que arte pode o ensaísta usar nestes pequenos textos de prosa para manter-nos despertos e fixar-nos num transe que não é de descanso, mas antes de intensificação da vida. Num transe, mas com todas as faculdades alerta sob o sol do prazer?”

Ensaio, um dos mais misteriosos da tradição literária. Começa pela aparente aporia de que os caminhos para definir ensaio são invariavelmente ensaísticos, ou no mínimo aparentados ao ensaio. E todos eles tomam como ponto de partida Montaigne, o pai do uso moderno do termo, o pai do sentido moderno do termo.

Comecemos por um ponto preciso: a sensação de que o ensaísta parece, por escrito, dotado de uma integridade totalmente peculiar, considerado o âmbito literário. Sua voz (escrita) funde a voz do cidadão que leva o seu nome com a do autor/artista que também (mas nem sempre) leva seu nome. Convergem em sua existência o homem e o autor, indissociavelmente. Isso não se explica apenas por não ser o ensaio um género deliberadamente ficcional. Tal traço está configurado assim desde Montaigne. Dele disse Leigh Hunt, ensaísta inglês do período de ouro da imprensa ensaística, que viveu entre 1784 e 1859: “Ele foi o primeiro homem a ter coragem de dizer como autor o que sentiu como homem”. Coragem de dizer, com a voz de autor, isto é, com a forma da arte literária, o que sentiu como homem, como cidadão real, que não tem voz literária. O que nos leva a uma derivação próxima, de que o ensaio funciona como uma espécie de construção que se urde com a matéria-prima do autoconhecimento. Mais radicalmente ainda: o ensaísta escreve para si mesmo, porque é talvez o primeiro e, para seu desconsolo, talvez o único interlocutor válido de sua autodescoberta. Vale lembrar aqui a nota do autor que abre o Livro I dos Ensaios: “Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé”. Adverte-o ele de início, que só o escreve para si mesmo, e alguns íntimos, sem se preocupar com o interesse que poderia ter para o outro, nem pensar na posteridade. “Tão ambiciosos objetivos estão acima de minhas forças. (...) Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito.”

Ensaio é mais uma atitude mental do que propriamente um género literário. Provém de uma inteligência que se examina e se expõe por escrito, em texto organizado livremente. Montaigne, para dar vazão ao seu ímpeto, ao seu modo de pensar, teve de enfrentar o limite conhecido, forjando um texto híbrido de reflexão moral, divagação, conselhos, exibicionismo, erudição clássica e algo mais. Tão surpreendente é essa modalidade escrita que dá margem a especulações curiosas, como a de Daniel Boorstin, que, considerando a conhecida grande amizade de Montaigne com Étienne de la Boétie, subitamente interrompida com a morte prematura deste, Montaigne, considerando a falta do amigo, procurou um meio que substituísse aquelas conversas com o melhor amigo. 
Um de seus ensaios mais famosos, “Da amizade”, dedica várias páginas a uma saudade, do desaparecido amigo Etienne de la Boétie, para meditar sobre o elevado sentimento inscrito no título. Mas o começo do texto não sugere o sublime que a sequência apresenta, nem a consistência que o final impõe ao leitor. 

Montaigne diz que ele próprio é a matéria do seu livro, assinalando a característica de autoexame do ensaio, história de um pensamento que se procura. Os seus ensaios são uma tentativa de comunicar uma alma. Não é a fama o que almeja, nem a possibilidade de vir a ser citado no futuro. Comunicação é saúde; comunicação é verdade; comunicação é felicidade. Compartilhar é o nosso dever; mergulhar fundo e trazer à tona aqueles pensamentos escondidos, não escamotear nada; não fingir nada; se somos ignorantes, dizê-lo; se amamos nossos amigos, fazê-los saber isso.

Montaigne usou o ensaio como um meio de explorar as suas ideias a respeito da experiência humana, e seus ensaios são, num certo sentido, um meio de pensar e testar coisas no próprio ato de escrever. Daí que o ensaio é uma forma de prosa essencialmente itinerante e fragmentária, com uma linguagem expositiva não linear, sinuosa, ou, noutro sentido, de linguagem que acompanha simultaneamente vários tópicos em exame. Em função de tais traços, o género vive numa espécie de limbo: por um lado, o ensaio é certamente reconhecido como literatura; por outro, não se sabe exatamente em que canto do reino literário ele vive ou deve viver, ao redor do núcleo dos três géneros característicos apontados desde Aristóteles: drama, lírica e épica, em parceria com a biografia, o diálogo, o aforismo, a epistolografia, a história e outros. 

Em alguma parte de seus Ensaios, Montaigne declara que escreve para almas bem nascidas, que por elas deseja ser lido, com elas deseja entrar em comunicação. O que quereria dizer, exatamente, “almas bem nascidas”? Vejamos: não se trata de pessoas bem nascidas; não se trata de corpos bem nascidos; trata-se de almas, aqui; isto é, trata-se de um valor humano que pode aparecer num nobre ou num plebeu, num ambiente rico ou num pobre. Por outro lado, pode-se deduzir que, ao eleger tais almas como interlocução, Montaigne tenha varrido de seu horizonte as demais almas, todas as almas que por qualquer motivo não sejam bem nascidas. Com estas, nada, nenhuma preocupação. E de facto vemos que, desde a abertura dos Ensaios, ele mantém uma atitude de franca despreocupação para com estas, mantendo ao contrário sua atenção para as subtilezas que podem e devem ser invocadas e postas em análise para a interlocução com as outras, as almas bem nascidas. “É melhor que eu ofenda alguém uma vez do que ser aborrecido diariamente”, diz ele, numa demonstração de que há coisas bem mais importantes do que atender a expectativas alheias triviais. “Aliás, impus-me a obrigação de ousar dizer tudo o que ouso fazer, e lamento até que todo pensamento não seja passível de exteriorização”, afirma ele, num contexto em que percebe: “Estou certo de que entre os que se escandalizam com a licença de meus escritos muito poucos poderiam vangloriar-se de não se escandalizar com seus próprios pensamentos”. 

Porque terá Montaigne chamado “ensaios” aos seus escritos? Não falemos de Leonardo da Vinci, de Miguel Ângelo, de Maquiavel, de Rabelais, de Erasmo, de Lutero, dos variados homens que costuraram, no miúdo da vida ou no graúdo da arte, os inícios da Modernidade, época que é bem mais que um ponto na sucessão cronológica do Tempo. O ensaio é um irmão, um primo espiritual da ciência moderna, que nasce da experimentação, do risco, da ousadia. Mas falemos de Camões – Eis aqui as novas partes do Oriente / Que vós outros agora ao mundo dais; Garcia de Resende – Este mundo tam mudado; Francisco Sanches – Foi descoberto um novo mundo, e novas cousas numa nova Espanha ou Índias Ocidentais e nas Orientais; Bartolomé de las Casas – El descubrimiento deste nuevo indiano mundo; Pero Vaz de Caminha – ... a nova do achamento desta vossa terra nova; Garcia de Resende – Outro mundo novo vimos / Per nossa gente se achar; Pedro Nunes – Descobriram [os portugueses] novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos; e o que mais é: novo céu e novas estrelas.

Consta que em 1540, em Toulouse, cidade natal da mãe, ele teria tomado conhecimento de uns jogos florais de poesia. Acontece que se verificou um empate na atribuição do primeiro prémio. Então foi proposto que os concorrentes ensaiassem um último verso. Bem, seja como for, Montaigne viveu tempos interessantes naquela segunda metade do século XVI (1533-1592). E ele naturalmente era um indivíduo dotado, naquele universo social, entre a alta burguesia e a aristocracia, frequentado pela família burguesa aristocratizada. Homem político que fez questão de permanecer descolado das demandas imediatas de seu tempo e de seu lugar, a ponto de poder enxergar aquilo que seus contemporâneos estavam impedidos de ver, por convenção ou conveniência.

A relativa surpresa da reabilitação do universo clássico greco-romano soterrado por séculos de hegemonia cristã, aliás católica, na Europa. As invenções, os altos feitos das artes, as novas rotas para o Oriente inauguradas pelos Portugueses. A descoberta de um Mundo Novo a Ocidente pelos Espanhóis. Ainda assim, teremos um quadro precaríssimo do volume e da qualidade das novidades que se oferecem ao observador atento, como foi Montaigne, dando conta do tamanho da novidade e das sensações assustadoras que gerou. Mas, ante uma alma comum, isso se há de executar com brandura e moderação, porquanto uma tensão contínua a enlouqueceria: 
«Em minha juventude tinha necessidade de muito raciocínio e de advertências para seguir o caminho do dever, pois a saúde e o bem-estar não se prestam muito, ao que dizem, aos argumentos sérios e sensatos. Hoje a situação é diferente; as misérias da velhice advertem-me o bastante, tornam-me avisado e sereno. Da alegria excessiva passei à austeridade, o que é bem aborrecido; eis por que me entrego hoje, de quando em quando, a um certo desregramento, deixando o espírito divertir-se com fantasias de outra idade em que repousam. Ora, quero permanecer senhor de mim mesmo em quaisquer circunstâncias; a sabedoria também tem seus excessos e tanto quanto a loucura precisa ser moderada. Por isso, receoso de que, com seus excessos, venha a prudência a ressequir-me, a esgotar-me e a perturbar o meu equilíbrio, nos momentos em que o sofrimento não me persegue, “de medo que minha alma se prenda demasiado às suas dores”, desvio os olhos do céu borrascoso e nublado que, graças a Deus, encaro sem pavor mas não sem esforço. E eis-me comprazendo-me na lembrança das loucuras da mocidade, “o espírito, saudoso do que perdeu, volta-se inteiramente para o passado”. Que a criança olhe para a frente e o ancião para trás. Não será esse o significado da dupla face de Jano? Iria de bom grado buscar no fim do mundo um bom ano de verdadeira tranquilidade e alegria, eu que só tenho como objetivo viver de bom humor. Resolvi igualmente escrever esta obra em minha província selvagem, onde ninguém me pode ajudar ou corrigir, onde só frequento pessoas que não entendem sequer o latim de seu padre-nosso e menos ainda o francês. Escrito algures, fora talvez melhor, mas não tão meu, e seu objetivo principal, bem como seu mérito, está em ser a minha imagem exata. Só corrijo em meus textos os enganos, jamais os defeitos de minha personalidade. Pois não é assim mesmo que falo habitualmente? Não me mostro tal qual sou? Está certo, então. Cheguei ao que queria, pois todos me reconhecem no que escrevo.»
A tradição clássica, como se percebe, é trazida para o centro da arena de uma reflexão pessoal, de uma confissão. Não há reverência, não há deslumbramento. Os pensadores e escritores do passado são como companhia da alma que se está expondo aqui, porque também eles refletiram sobre a matéria-prima da vida. Reconhecendo que o seu texto, como produto, pode não ser bem recebido, ou pode ser em muitos sentidos incompreendido, Montaigne suspeita que talvez venha a ser censurado, por causa da linguagem. Mudança de paradigma, em suma, na passagem do mundo medieval para o moderno, da filosofia escolástica para a filosofia humanista. O ataque ao jargão escolástico fazia parte de uma crítica mais geral à cultura da Idade Média, a época da qual os humanistas acreditavam estar surgindo e contra a qual se definiam. A preocupação humanista com a elegância da linguagem, a preocupação empirista pelas coisas e não pelas palavras em si e uma certa desconfiança, senão um desprezo, pelos profissionais que se valiam do jargão (filosófico, mais que outros). Os humanistas, a exemplo do inventor do ensaio, eram gente elegante, amadora, que escrevia para o autoconhecimento e não por pedantismo. 
A qualidade essencial do ensaio é a persuasão, de tal modo que em sua forma pura, ele é um argumento; outra, derivada da primeira, a de que, sendo o ensaio um texto ocupado com ideias fundamentalmente endereçadas de um autor para um leitor, sua natureza seria primariamente incluída no campo dos escritos didáticos, expositivos, críticos. Viria daqui uma dupla consistência: o ensaio seria naturalmente uma forma de conhecimento, pelo argumento, e uma forma de arte, pelo estilo. 

Virginia Woolf, ao considerar a singularidade da obra de Montaigne, foi categórica: “Mas este falar de si mesmo, seguindo as próprias divagações e descrevendo todo o mapa, o peso, a cor e a circunferência da alma em sua confusão, sua variedade, sua imperfeição, esta arte pertenceu apenas a um homem: Montaigne”. O que pode ser um exagero, mas está longe de ser errado. Montaigne fundou um novo modo de escrita, a partir de sua vontade e embasado num certo património. De modo semelhante, é a ideia de Jorge Luis Borges quando comenta a relação de Kafka com os seus precursores: Montaigne não provém de uma tradição, mas funda-a, conferindo sentido, por sua plenitude literária, a algumas tentativas anteriores, quem sabe desde que alguns gregos inteligentes e sensíveis andaram escrevendo depoimentos e aforismos, tentativas que nele convergem e alcançam a sua melhor forma expressiva.

A trilha do ensaio veio a florescer de imediato noutro país, que não a França: a Inglaterra. Os Essais atravessaram velozmente a Mancha, que as obras de Shakespeare, pouco posteriores, levariam mais de um século a percorrer em sentido contrário, só sendo introduzidas na França por Voltaire, em 1731. De Francis Bacon (1561-1626) em diante (aí está o já mencionado Locke (1632-1704), veremos configurada uma autêntica tradição, específica, em terras inglesas, onde se junta John Dryden (1631-1700); Samuel Johnson (1709-1784); Samuel Taylor Coleridg (1772-1834). A partir de Montaigne o género ensaístico firmou-se na Inglaterra, adquirindo novas configurações, novos aspetos, novos compromissos. Diz-se que Francis Bacon teve acesso aos Ensaios de Montaigne por intermédio de seu irmão, Anthony Bacon, que conheceu o escritor francês. Bacon, ao tomar contacto com a obra de Montaigne, parece ter sido decisivo para a sua própria trajetória. Seus Ensaios são publicados pela primeira vez em 1597, e os textos sofrem sucessivas reformulações e adaptações, a gosto de uma ideia ensaística de exercício, escritos em inglês, ao contrário de suas obras científicas que foram escritas em latim para sobreviver ao tempo ... segundo ele.

Que os ensaios de Bacon tenham traços perfeitamente semelhantes aos do Ensaio de Montaigne, parece fora de dúvida. Uma obra como Novum Organum, inscrita nos domínios da filosofia, é, do ponto de vista do estilo, nada mais que uma sequência de aforismos sobre os assuntos de que se ocupa. Mas há espaço para observações como a do Aforismo XXXIII: “A glória dos antigos, como a dos demais, permanece intacta, pois não se estabelecem comparações entre engenhos e capacidades, mas de métodos. Não nos colocamos no papel de juiz, mas de guia”. Dois ensaios exemplares: “Da amizade” e “Sobre jardins”, que já pelos títulos insinuam um certo tipo de reflexão sobre temas banais. 
Qualquer tema serve, uma simples mosca pode ser o pretexto: "E Deus queira que o que estou ventilando agora não provenha de uma fonte estranha. Pouco importa o começo, vou encadeando ideias umas nas outras."

Gore Vidal, o ensaísta e romancista norte-americano, observou numa entrevista: “Suspeito que a única forma de prosa que vai fisgar o leitor do futuro é o ensaio, em que uma voz atravessa séculos e mundos até ao ouvido de outra pessoa. Ao fim, Montaigne e não Cervantes”. Mais ou menos na mesma posição está Bioy Casares. Em uma reflexão plena de sabedoria, dirá, apontando o interesse continuado do género: “Um dia sentimos que não há outra esperança nas letras do que o dossiê naturalista, ou a comédia de enredo, ou o sadismo, ou o adultério, ou os sonhos, ou a viagem alegórica, ou a novela pastoril, ou a alegação social, ou os enigmas policiais, ou a picaresca; outro dia nos perguntamos como pôde alguém interessar-se em tão desoladas loucuras. No meio desta mudança, historicamente justificável, mas essencialmente arbitrária, há alguns géneros perpétuos. Porque não depende de formas e porque se parece ao fluir normal do pensamento, o ensaio é, talvez, um deles”. Género perpétuo, para Bioy Casares, e género de futuro, para Gore Vidal. Talvez seja este o caminho para compreender, preliminarmente, a vigência do ensaio. Mais que noutros momentos do passado ocidental, o género ensaio ganha fôlego, se não como forma mais ou menos fixa (como na crónica), como atitude mental. A prosa de Clarice Lispector, bem como toda a produção de Jorge Luis Borges vem sendo lida segundo o critério do ensaio. A linha evolutiva do ensaio, gravada no cilindro rotativo dos séculos, consiste precisamente no trânsito gradual do pessoalismo de Montaigne (ensaios de) para o impessoalismo de (ensaios sobre).

Um ensaio sobre um certo "patrulhamento de linguagem"


A propósito da recente eleição de João Caupers para a presidência do Tribunal Constitucional, e de uma certa reação por causa de um texto seu de 2010 classificado como "homofóbico", Helena Matos, jornalista e colonista, num debate ontem na TVI, disse que daqui a pouco "não sobrará ninguém neste processo perigoso de patrulhamento e condicionamento de linguagem". Os argumentos dos "vigilantes politicamente corretos", a propósito de expressões de cariz homofóbico, baseiam-se na ideia que essas expressões perpetuam preconceitos, que num presidente do Tribunal Constitucional seriam inadmissíveis.




João Caupers, o professor de Direito eleito recentemente como presidente do Tribunal Constitucional, escreveu há onze anos no jornal de parede da Faculdade de Direito de Lisboa que é contra o “lobby gay”. Escreveu que nunca aceitaria que um filho seu “adolescente fosse ‘ensinado’ na escola que desejar raparigas ou rapazes era uma mera questão de gosto, assim como preferir jeans Wrangler aos Lewis ou a Sagres à Superbock”. Ou que: "Estou convencido de que existem mais vegetarianos do que homossexuais em Portugal – e, porventura, até mais adeptos do Dalai Lama. Não beneficiam, porém, do mesmo nível de acesso aos jornais, aos microfones das rádios e às objetivas das televisões . . . É que os homossexuais não passam de uma inexpressiva minoria, cuja voz é enorme e despropositadamente ampliada pelos media".

A publicação data de 17 de Maio de 2010, dia em que foi promulgada uma alteração ao Código Civil que tornou legal o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Caupers dizia-se também revoltado com os cartazes que a Câmara de Lisboa tinha espalhado pela cidade, “a pretexto da luta contra a discriminação, promovendo a homossexualidade”, numa referência a uma campanha da Associação ILGA - Portugal, que mostrava a fotografia de uma mulher e uma criança e a pergunta: "Se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?”

O partido Bloco de Esquerda pede “retratação pública". A revelação destes escritos, que considera ofensivos e discriminatórios, levou a deputada bloquista Sandra Cunha a pedir a João Caupers para se retratar publicamente. “Não é digno de quem tem como função zelar pelo cumprimento da Constituição da República e do princípio da igualdade. Aguarda-se uma clara retratação pública”, escreveu a parlamentar no Twitter. 

Em resposta, João Caupers, diz: "os textos que então publiquei na página web da minha Faculdade constituíam um instrumento pedagógico, dirigido aos estudantes que, para melhor provocar o leitor, utilizava uma linguagem quase caricatural, usando e abusando de comparações mais ou menos absurdas, não refletindo necessariamente as minhas ideias". O professor argumenta que "o pensamento jurídico utiliza como ferramenta essencial a analogia, o que supõe a capacidade de descobrir entre duas situações aquilo que é igual e aquilo que é diferente. É por isso que é crucial treinar os estudantes de direito nesta metodologia".

Quando em 2014 João Caupers foi escolhido pelos conselheiros para se tornar também juiz do Tribunal Constitucional (TC), o professor universitário deixou um aviso em relação aos textos de opinião que tinha escrito para publicação online da Faculdade de Direito da Universidade Nova durante quatro anos: alguns deles eram muito datados, motivados por questões da atualidade, e não os teria redigido da mesma forma mais tarde. “Textos graves e amargos, uns, ligeiros e tolos, outros”, avalia. “Escrevi o que escrevi e assumo a inerente responsabilidade. Mas, na maioria dos casos, voltaria a escrever o que escrevi”. Dias antes de se ter referido a alguns dos seus textos como “tolos”, o académico e antigo diretor da Faculdade de Direito da Universidade Nova tinha defendido, na mesma plataforma, a inclusão, na Constituição, do chamado direito ao esquecimento – “o direito de não ser confrontado, para além do tolerável, com as pequenas vicissitudes de um passado que não deve ser mais do que isso mesmo: passado – e esquecido”.

A ILGA Portugal (Intervenção Lésbica Gay Bissexual Trans e Intersexo – LGBTI) demonstra a sua profunda preocupação face à eleição de João Caupers como presidente do Tribunal Constitucional, cujos posicionamentos homofóbicos e atentatórios aos Direitos Humanos remontam a 2010, no dia da promulgação da lei que garante igualdade no casamento entre pessoas do mesmo sexo. A consternação é redobrada numa altura em que avançam os movimentos extremistas e anti-género em Portugal e na Europa e num ano em que se delibera sobre o pedido de apreciação da constitucionalidade de normas constantes da Lei 38/2018, que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa. Trata-se de posicionamentos da ILGA e várias associações sobre este pedido apresentado em 2019 por pessoas deputadas do PSD e CDS.  

A Associação ILGA Portugal exige o cabal esclarecimento da parte de João Caupers, assim como um pedido de desculpas público a todas as pessoas LGBTI altamente impactadas pelos discursos e práticas discriminatórias no nosso país. Da parte do Tribunal Constitucional e sua presidência não se espera mais do que a garantia da não discriminação perante a lei e o cumprimento e garante da Constituição e dos Direitos Humanos. “Se já era inaceitável em 2010 este posicionamento de uma figura pública com cargo de alta responsabilidade, mesmo num clima de desconhecimento, homofobia social e pouca linguagem para as questões LGBTI, em 2021 – e estando Portugal entre os países mais progressistas e respeitadores de Direitos Humanos graças ao trabalho da sociedade civil – será no mínimo inaceitável, indigno (e questionável quanto à legitimidade para a ocupação do cargo) que o progresso legal e social não tenha sido acompanhado por Caupers, passados 11 anos”, considera Ana Aresta, presidente da Direção da ILGA Portugal.

A expressão de Helena Matos: “patrulhamento de linguagem” - está-se a referir à “cultura do cancelamento ou cultura do banimento”, uma forma moderna de censura, visando principalmente pessoas com notoriedade pública, que tenham tomado atitudes consideradas questionáveis pela cultura conotada com a esquerda e a que a direita chama do "politicamente correto". Esta censura estende o seu alcance retroativo até onde for preciso, uma espécie de escavação arqueológica, inclusivamente a tudo o que no passado, apesar de ser norma, seja censurado pelos critérios do presente, das redes sociais e quejandos. E o objetivo consiste numa espécie de vingança, de modo a prejudicar a carreira deses indivíduos cancelados. Em caso de celebridades, a sua base de fãs pode diminuir significativamente. Esta expressão “patrulhamento de linguagem” tem sobretudo conotações negativas e é normalmente usada em debates sobre liberdade de expressão e censura. É um tema polémico sem definição clara, utilizado comumente em discursos inflamados, com alta carga ideológica, muitas vezes com o objetivo de atacar outro grupo social ou político.

A cultura do cancelamento já afeta o ambiente editorial. Em 14 de julho de 2020 a jornalista Bari Weiss pediu a demissão do jornal New York Times, onde havia sido contratada para dar diversificação ao pensamento ideológico, dada a perseguição dos seus colegas por defender valores de direita. Formada em jornalismo pela Universidade Columbia, Bari Weiss deixou o cargo de editora de opinião do The New York Times, queixando-se do jornal por não a ter protegido do “bullying” constante dos colegas, por ela dar voz a opiniões divergentes da maioria de seus pares no jornal.

A ironia deste fenómeno, sendo uma prática associada a militância de esquerda, com motivação ideológica e política, é que se está a virar contra a própria esquerda, ao fomentar uma reação de sentido contrário por parte da extrema-direita, que a cada dia cresce exponencialmente com o apoio da indignação popular. E porquê? Porque está a ferir de morte um valor muito importante que é a liberdade de expressão, ao ser secundarizada a valores morais questionavelmente hipócritas.

Um grupo de 150 renomados jornalistas, intelectuais, cientistas e artistas esquerdistas ao perceberem o "tiro no pé" que a cultura do cancelamento lhes está acometendo publicaram uma carta no periódico Harper's Magazine onde reconhecem que esperavam com a cultura do cancelamento serem vítimas de censura pela direita radical. Mas o que sucedeu foi o contrário, a própria esquerda é que acabou por demonstrar toda a sua intolerância a visões opostas e tendência a demonstrar superioridade moral.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Igualdade de género a propósito de Yoshiro Mori



"Meus comentários inadequados causaram um grande problema. Sinto muito", disse há quatro dias Yoshiro Mori, presidente do comité dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 em 2021, e ex-primeiro-ministro, após fazer comentários sexistas que causaram uma onda de indignação internacional. A polémica estalou quando Mori, questionado sobre os planos do Comité Olímpico do Japão em aumentar o número de mulheres de 20% para 40%. Mori gerou críticas generalizadas ao dizer que mulheres falam demais e atrasariam o cronograma do evento. Incidente realça o debate sobre igualdade de género no Japão, um dos piores países no mundo neste quesito. 

O Comité Olímpico Internacional (COI) provocou uma petição online que recolheu mais de 150 mil assinaturas, ao classificar a declaração de Mori como "absolutamente inadequada" e "em contradição" com as suas diretrizes. As palavras de Mori também motivaram a retirada de centenas de voluntários japoneses inscritos para ajudar na organização dos Jogos e de corredores que iam participar do revezamento da Tocha Olímpica no Japão, cujo percurso está programado para o final de março.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados no ano passado devido à pandemia do coronavírus. No momento, estão programadas para julho, seguidos pelos Jogos Paralímpicos um mês depois. O presidente do Comité Paralímpico Internacional (IPC), Andrew Parsons, afirmou esperar que todo o alvoroço em torno das declarações de Mori leve a uma mudança positiva na diversidade e inclusão. "Acredito firmemente que, de todas as situações menos boas, algo bom deve sair disso", disse Parsons. "Espero sinceramente que a reação nacional e internacional dos últimos sete dias possa ser aproveitada para que a sociedade dê maior ênfase à diversidade e inclusão, não apenas em termos de representação de género, mas também de raça, sexualidade e pessoas com deficiência." Uma pesquisa recente no Japão apontou que 80% das pessoas preferem que os Jogos Olímpicos sejam cancelados ou adiados para o ano seguinte.

Como seu substituto, Mori indicou Saburo Kawabuchi, de 84 anos, ex-presidente do órgão regulador do futebol japonês e também ex-jogador de futebol. No entanto, após relatos de que o governo bloquearia a indicação, Kawabuchi recusou o pedido para assumir a chefia do comité organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Analistas questionaram porque é que uma mulher não foi nomeada. Os média do Japão apontaram três candidatas – Kaori Yamaguchi, Mikako Kotani e Naoko Takahashi, todas ex-atletas olímpicas medalhadas, qualificadas para o cargo e uma geração mais jovem.

A questão levou a um amplo debate sobre o preconceito de género na sociedade japonesa. O Japão ocupa a 121ª posição entre 153 países nas classificações de igualdade de género do Fórum Económico Mundial. Uma clara maioria dos japoneses considerou os comentários de Mori inaceitáveis, portanto o problema tem mais a ver com a falta de representação de mulheres em cargos de liderança. Este triste episódio pode ter o efeito de fortalecer o apelo por uma maior igualdade de género e diversidade nos corredores do poder
, disse Koichi Nakano, cientista política da Universidade de Sophia, localizada em Tóquio. 

Após a renúncia, o Comité Olímpico Internacional comunicou que está "mais comprometido do que nunca" em organizar os Jogos em meados deste ano. O COI continuará lado a lado com seu sucessor para garantir a segurança dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 em 2021.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Atletas Transgénero


O presidente Joe Biden assinou uma série de ações executivas no primeiro dia no cargo, entre as quais uma ordem de combate à discriminação contra pessoas LGBT+. Donald Trump havia proibido pessoas transexuais de se alistarem nas forças armadas, enfatizando a importância do "sexo biológico" em vez da identidade de género. As pessoas que se identificam como não-binárias - nem masculinas nem femininas - agora podem selecionar o título neutro de género "Mx" na página de contacto do site da Casa Branca. "As crianças devem ser capazes de aprender sem se preocupar se terão acesso negado aos balneários escolares", diz a ordem de Biden. "Os adultos devem ser capazes de ganhar a vida e buscar uma vocação sabendo que não serão demitidos, rebaixados ou maltratados por causa da forma como se vestem, nem se conformando com estereótipos baseados no sexo." Biden publicou uma longa lista de candidatos LGBT+ durante a campanha presidencial e disse que queria assinar nos seus primeiros 100 dias a Lei da Igualdade, que proibiria explicitamente a discriminação contra pessoas LGBT+.
Hannah Mouncey é uma atleta “Mulher Trans”, atleta de andebol australiana transexual, que anteriormente jogava pela equipa de andebol masculina com o nome de Callum Mouncey. Callum estreou-se na equipa de andebol com 23 anos, tinha 1,90 metros e pesava 100 quilos. Sempre se mostrou um atleta talentoso. Já aos 24 anos, este jovem passou a chamar-se Hannah Mouncey, e assumiu-se como“Mulher Trans” ao iniciar o seu processo de mudança de género. Aos 30 anos de idade, Hannah passa então a fazer parte da equipa australiana de andebol feminino, até que estalou a polémica. A atleta esperava ser convocada para o Mundial de Andebol. Porém, tal desejo acabou por não se concretizar. Surpreendida pelo sucedido, acabou por descobrir que as colegas de equipa tinham vetado o seu nome. Razão? Não se sentiam à vontade com a sua presença no balneário. Diga-se que Hannah Mouncey mantém tal e qual a masculinidade corporal que tinha, e as colegas de equipa não se sentiam à vontade com a sua presença no balneário a exibir o seu pénis. 

Sarah, que nasceu num corpo de homem, chegou a sonhar em ser polícia, mas hoje prepara-se para ser a primeira mulher de Portugal a participar no concurso internacional de beleza de transexuais e promete lutar contra a discriminação. Sarah Inês Moreira, tinha 29 anos em 2016 quando decidiu participar na 4.ª edição do concurso Miss Trans Star Internacional, o equivalente ao concurso de Miss Mundo. O principal motivo para se candidatar a um concurso de beleza de transexuais do mundo inteiro era a oportunidade única de trazer a público a luta da comunidade transexual e dos seus direitos. Especialmente o direito ao trabalho a que aquela minoria se vê tantas vezes privada. Sarah Moreira é a primeira “Mulher Trans” portuguesa a conseguir mudar de nome e de género no Registo Civil. Aos dez anos de idade, Gil, era o seu nome, tomou consciência que a sua identificação psicológica era de menina. "Foi quando comecei a frequentar o ensino básico que senti aquele 'clique', porque eu não me identificava com o género masculino. Identificava-me sempre com o género feminino". Aos 16 anos tomou a iniciativa de tomar hormonas. A alteração do nome e do género no cartão de cidadão foi possível anos mais tarde, com a mudança da lei portuguesa, e depois de um acompanhamento psicológico por uma equipa multidisciplinar de sexologia clínica, envolvendo psicólogo, psiquiatra, endocrinologista e cirurgião plástico. Antes de ter o seu nome alterado no Cartão de Cidadão era complicado dirigir-se a uma repartição pública, mas hoje, depois de a lei ter sido alterada em 2011, "um alívio muito grande", confessa. O sonho de ser polícia talvez venha do facto de ter tido um padrasto polícia, a pessoa da família que mais rapidamente a aceitou como transexual. Hoje, argumenta que como está com quase 30 anos não se vê a regressar aos bancos da escola para estudar e ser polícia, mas uma certeza tem, a de conseguir adotar uma criança. Sarah é hoje uma mulher sofisticada, que se diz um ser humano igual a todos aos outros e que se imagina casada no futuro, talvez a brincar com os seus filhos. "Como qualquer mulher", assume.
Estudo demonstra que lei portuguesa é das que mais defende os direitos da comunidade LGBT+. A orientação sexual não deve ser motivo de discriminação, concedendo, por isso, proteção aos seus cidadãos homossexuais.

Estatisticamente, por cada 12.000 homens à nascença há um que se assume “Mulher Trans”, em que a sua identidade de género, o seu sentido psicológico não coincide com o sexo masculino que lhe foi atribuído à nascença. Por norma o sexo do registo civil em princípio tem de coincidir com os genitais. Das mulheres à nascença, a percentagem das que se assumem “Homens Trans” é quase semelhante. Estas pessoas são classificadas cientificamente como tendo uma disforia de género. Sendo assim, estas pessoas só se sentem bem se forem reconhecidas no género em que se sentem, e se não lhes forem vedados os acessos às atividades específicas desse género. Só para dar um exemplo: um Homem Trans, que é socialmente uma mulher, luta para que a deixem fazer parte de uma equipa de futebol masculina (o inverso do caso 
Hannah Mouncey), não se importando com os balneários. Portanto, pretende viver socialmente de acordo com o sexo contrário ao do nascimento, independentemente de se ter submetido a intervenções médicas, ou não.

É preciso que se diga que a disforia de género não obriga necessariamente a uma vinculação de cariz sexual. A sexualidade é um fenómeno à parte, sem matizes sexualizadas. As pessoas transexuais podem ser: heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais ou até assexuais (desprovidos de sexualidade, ou seja, sem qualquer tipo de atração sexual). Assim, no âmbito da problemática do Transgénero e da Transsexualidade, para efeitos de identificação as pessoas cisgénero são as outras pessoas que não são transgénero.
 

Desde 2011 que é consensual, ao nível das organizações internacionais, a designação "sexo" ser usada no âmbito biológico; e género  como a auto representação de uma pessoa como homem ou mulher, ou como essa pessoa é respondida por instituições sociais. Abraçou-se a distinção entre o sexo biológico e a construção social de género. Conceptualmente, antes de 2011 muitas instituições não faziam distinção entre sexo e género. Isto significa que qualquer tipo de relação entre homens e mulheres incluía sempre a ordem sexual. Mas, como já foi aflorado acima, o género está muito para lá da mera sexualidade, que em muitos casos nem sequer é tida nem achada. George Herbert Mead (1863-1931) já havia procurado mostrar, através do contraste com outras culturas, como cada um de nós pertence a um sexo e tem um temperamento que é compartilhado com outros de nosso sexo e do sexo oposto. Os temperamentos que reputamos naturais num sexo são meras variações do temperamento humano às quais os membros de um ou ambos os sexos podem ser, com maior ou menor sucesso, aproximados através da educação. Elementos de tais papéis incluem vestimenta, modo de falar, gestos, profissão e outros fatores que não são limitados pelo sexo biológico. Por se presumir que os aspetos sociais de género são normalmente os aspetos de interesse na sociologia e disciplinas relacionadas, papel de género é normalmente abreviado por género, sem que haja ambiguidade neste contexto.

As diferenças sociais entre homens e mulheres despertam o interesse sociológico porque estão intimamente relacionadas às desigualdades e às relações de poder numa sociedade. E a Sociologia clássica interpreta as desigualdades e diferenças entre os géneros ligadas às diferenças biológicas que são mais abrangentes: cromossomas, hormonas, tamanho cerebral, herança genética. São determinantes das diferenças comportamentais entre homens e mulheres. Ou seja, essas diferenças são verificadas em todas as sociedades, e que, por isso, os fatores naturais são responsáveis pelas desigualdades entre os géneros, negando, portanto, a importância dos processos de interação social na questão do comportamento humano. 

A diferença conceptual entre sexo e género foi estabelecida pelo psicólogo norte-americano Robert Stoller em 1968: sexo refere-se aos aspetos anatómicos, morfológicos e fisiológicos (genitália, gónadas, cromossomos sexuais, hormonas). Stoller estudou casos de meninos e meninas intersexo, ou que possuíam "genitais escondidos" e que foram educados de acordo com um género que não correspondia ao seu sexo biológico. Esses meninos e meninas, mesmo depois de saberem que suas genitálias externas eram atípicas ou sofreram alguma mutilação acidental, empenhavam-se em manter os padrões de comportamento de acordo com os quais haviam sido educados. 

A sociologia pós-moderna, para a distinguir da sociologia clássica, uma sociologia construtivista,  tentou abolir as dicotomias universais, pese embora até à data com resultados muito sofríveis, ou mesmo medíocres. Neste caso, os objetos de investigação sociológica são, em grande medida, definidos por urgências sociais. Questões sociais e problemas sociológicos caminham juntos. Assim, os problemas relacionados ao trabalho, à saúde, à política, à educação, à família, à religião, à violência, às ciências, à cultura, à identidade, ao corpo, às tecnologias produtivas e reprodutivas, e à sexualidade passaram a ser tratados com o ‘olhar de género’. E foi esse olhar que deu visibilidade às relações de dominação e poder que dividem o mundo social em géneros. Foi questionada uma ordem sexual tida como natural.

A segunda abordagem, a das sociologias pós-modernas, é guindada pela socialização de género que interpreta as desigualdades entre homens e mulheres como decorrente da socialização em papéis diferentes. Assim, no contato com organismos sociais (família, escola, igreja, etc.) é que as crianças aprendem a agir de acordo com as expectativas relacionadas ao seu sexo biológico, sem considerar, entretanto, que os indivíduos podem rejeitar ou modificar os papéis sociais de género. A sociologia contemporânea refere-se aos papéis de género masculino e feminino como masculinidades e feminilidades, respetivamente no plural ao invés do singular, enfatizando a diversidade tanto dentro das culturas como entre as mesmas.

Na década de 1980, a maioria dos escritos feministas passaram a concordar no uso de género apenas para aspetos socioculturais adaptados. Os estudos de género iniciaram-se na década de 1960, na Europa e nos Estados Unidos, em que outros grupos sociais, como os negros e homossexuais, também se organizavam para reivindicar o direito à diferença. Nesses movimentos, embora as mulheres militassem da mesma forma que os homens, o seu papel era considerado secundário, com os homens nas funções de comando dentro da militância, o que levou à problematização das questões de género nesse contexto. As características e comportamentos que reputamos como naturais de um género são construções sociais e culturais e que, portanto, não podem ser interpretadas como determinados por aspetos biológicos. A partir da década de 1990, passa-se aos estudos de género, que buscam explicar como as diferenças entre mulheres e homens são utilizadas para justificar, e até mesmo legitimar, desigualdades. Os estudos de género emergem na mesma época em que eclode a chamada segunda onda do feminismo, revelando o diálogo entre o feminismo e as teorias sociais, constituindo, também, base teórica e científica para a contestação das desigualdades sociais entre mulheres e homens. 

A filósofa Judith Butler analisa, de maneira crítica, a dicotomia entre sexo e género: para ela, os corpos sexuados podem ser base para uma variedade de géneros e que o género não se limita apenas às duas possibilidades usuais. Esse desdobramento do conceito de género foi dado nos anos 1990, através da teoria queer, que questiona a normatividade heterossexual e ressalta o "aspeto socialmente contingente e transformável dos corpos e da sexualidade". Para Butler o género é uma performance que se dá em qualquer corpo, "portanto desconectado da ideia de que a cada corpo corresponderia somente um género". Butler percebe o corpo da mesma forma que o género, como uma construção cultural, ressaltando o aspeto cultural/social da vinculação entre sexo e género. Com a proposição de género como performance, Butler também vai deitar por terra o peso metafísico da identidade de género. Para ela, não há identidades que precedam o exercício das normas de género, é a vivência que acaba por criar as normas. É a repetição das normas de género que o promove.

A questão é: o que determina alguém como masculino ou feminino? Na maioria dos casos isto é tido como trivial, mas a questão se complica para pessoas intersexo ou transgénero. Jurisdições diferentes têm adotado respostas diferentes para esta questão. Praticamente todos os países permitem mudança do estatuto legal de género nos casos de intersexualidade, quando o sexo designado no nascimento é considerado biologicamente incerto. E um reconhecimento de um estatuto que já existia, mas desconhecido no nascimento. Mas agora as jurisdições dão provimento a procedimentos para mudanças no sexo legal de pessoas transgénero. O sexo designado, quando há indicações de que a genitália sexual pode não ser decisiva em casos particulares é normalmente definida por uma série de condições, incluindo cromossomas e gónadas. Assim, por exemplo, em muitas jurisdições uma pessoa com cromossomos XY mas com ovários pode ser reconhecida como do género feminino no nascimento.

A possibilidade de alterar o sexo legal, para pessoas transgénero em particular, têm colocado a situação insólita de em algumas jurisdições da mesma pessoa ter sexos diferentes para diferentes áreas da lei. Por exemplo, na Austrália, pessoas transgénero poderiam ser reconhecidas como tendo o género que identificavam sob muitas áreas da lei, incluindo a previdência social, mas não para a lei do casamento. Assim, por um período, foi possível para a mesma pessoa ter dois sexos diferentes sob a lei australiana.
Também em sistemas federativos, como é o caso dos Estados Unidos, é possível que uma mesma pessoa tenha um sexo sob a lei estadual e outro sob a lei federal.  

domingo, 14 de fevereiro de 2021

As trevas emergentes do Capitalismo Digital


Em julho de 2017, o Wall Street Journal relatou que, desde 2009, a Google procurava ativamente, e financiava, professores universitários para investigarem e escreverem dissertações que apoiassem o ponto de vista da Google quanto à regulação da atividade destas empresas do capitalismo digital. Por outro lado, o New York Times noticiava que o diretor da New America Foudation cedeu à pressão da Google e despediu um dos académicos mais respeitados, juntamente com a sua equipa de dez investigadores, no seguimento de uma investigação antimonopolista a propósito das sanções aplicadas pela União Europeia, no valor de 2,7 mil milhões de dólares, à Google. A notícia acrescentava que a Google ultrapassava todas as empresas no que respeitava aos seus sofisticados métodos para exercer a sua influência sobre os reguladores e os poderes políticos. Neste domínio, a Google tinha expandido até ao topo a sua dinâmica de mercado de expropriação humana, só secundada pelo Facebook, e a traduzi-la em previsões comportamentais tão cobiçadas pelos anunciantes e operadores de marketing na internet.

A matéria-prima do capitalismo digital são os dados e a sua extração e análise. A bem dizer, a matéria-prima são os utilizadores das redes sociais, porque os dados têm a ver com os hábitos e comportamentos das pessoas. Uma atividade não apenas de espionagem dos nossos comportamentos, como também da sua manipulação e condicionamento. As plataformas físicas que conectam computadores e smartphones numa rede virtual quase infinita, operada por inteligência artificial, mas controlada pela inteligência humana de uns tantos, apropria-se de dados que têm a ver com os comportamentos das pessoas e as suas relações sociais em grande escala.

Se um utilizador das redes sociais tiver a veleidade de preservar a sua privacidade e estar em segurança, das duas uma: ou estuda com exaustão o tema para perceber o que está a utilizar, o que não é para todos; ou então mais vale não entrar no sistema. É quase impossível estar a salvo de qualquer risco. Em primeiro lugar nada é gratuito. Se é gratuito, porque é que é gratuito? Mas a maior parte das pessoas não está para isso, quer algo que funcione e, de preferência, que seja gratuito. O WhatsApp faz isso e fá-lo muito bem há muito tempo, mesmo antes de ter sido comprado pelo Facebook
É importante referir que a informação não é vendida, algo consagrado no acordo entre o WhatsApp e o utilizador, mas pode ser trabalhada e partilhada com o Facebook, sendo suscetível de ser confiscada. Hoje já são as plataformas a decidir que dados podem ser cedidos às autoridades, mas o caminho da cifragem total é ainda muito incerto. A guerra pela informação está apenas a começar.

Com 2 mil milhões de pessoas, mais do que em qualquer país do mundo, o WhatsApp enfrenta críticas pelo envio de informação para o império Facebook. Há milhões de utilizadores a mudar para o Telegram ou o Signal. A empresa-mãe, o Facebook, controla um conjunto de aplicações, um ecossistema que permite saber com quem se fala, o que se vê, partilha e gosta, aquilo que se compra e onde se está. A maior parte desconhecerá que o WhatsApp não se cinge a recolher informações de contacto e que até a informação financeira pode ser recolhida. Ou que o Messenger também tem acesso a dados de saúde e fitness, financeiros e de compras, assim como ao histórico de navegação e de pesquisa. 

Ao fim e ao cabo, todas as aplicações, todas as marcas, vão dar ao mesmo. Tudo depende da forma como usamos e para que usamos as aplicações. Não há problema de maior se esta for utilizada para falar com amigos ou com a família, mas a situação inverte-se em âmbito profissional. Quem trabalhe com material classificado, com riscos de segurança de informação, deve ter cuidado. Em causa não está propriamente o conteúdo das mensagens, cuja cifragem é bem feita. O que interessa ao mercado digital são os metadados. A informação que o utilizador dá é suficiente para montar um quadro, um perfil do utilizador. 
É um manancial de informação que cada um disponibiliza a uma única empresa a cada segundo, cujas consequências para a vida futura começam a ser visíveis. Nunca sabemos até onde são levados os nossos dados. O problema aqui não é bem a informação isolada, mas como é depois trabalhada. Os dados de saúde e fitness no Messenger podem ser usados para quê? Podem ser usados, por exemplo, pelas seguradoras para avaliarem o risco de fazerem um seguro de determinada pessoa. Se considerarem, pelos grupos que frequento, pelo que partilho e pelo que procuro, que sou um doente de risco, posso não conseguir ser segurado. Posso mesmo nem conseguir um crédito bancário no futuro. 

Quando a Google foi criada, em 1998, a Internet Mundial aberta ao público utilizador de computadores ainda era uma criança. Estávamos ainda na Segunda Modernidade, e o lema da empresa era ser uma força social libertadora e democrática. Mas o ano 2000 marca indelevelmente a entrada na Terceira Modernidade. Poucos anos passados, a base de dados do motor de busca Google estava cheio de informação colateral relacionada com as interações entre os seus utilizadores. E não tardou que os seus técnicos tenham percebido o que podiam fazer com essa informação colateral. O que inicialmente não passava de matéria residual, transformou-se em matéria-prima de um processo de aprendizagem da máquina, hoje chamada inteligência artificial. Efetivamente, os utilizadores que fazem as pesquisas no Google não são nem produto acabado, nem cliente, são fonte de abastecimento de matéria-prima para ser trabalhada pelos algoritmos da inteligência artificial. Os resultados desse trabalho sobre as pesquisas que fazemos no Google é que é o produto. É a fonte para as previsões dos nossos comportamentos que vão ser compradas pelos verdadeiros clientes da Google, e estas previsões sim, é que fazem a riqueza astronómica da Google

No início, a Google apresentou a sua filosofia empresarial, que efetivamente revelava que o utilizador é que fornecia a matéria-prima. E na volta o utilizador recebia os serviços melhorados em crescendo. Neste ciclo de reinvestimento virtuoso ambas as partes ganhavam. Um estado de equilíbrio, portanto. Assim, o motor de busca Google cumpria a sua declaração de missão: organizar a informação mundial para a tornar universalmente acessível e útil. Mas, entretanto, deu-se o crache das “dot.com”, no início deste século XXI, um terramoto do qual a Google deu a volta por cima, dando o dito por não dito, passando a interessar-se pela publicidade. E os utilizadores de fornecedores da matéria-prima, passaram a ser a própria matéria-prima, como se fosse tão inerte como a restante matéria-prima industrial. Por outras palavras, a Google não se limitaria a ser uma mineira a minar os dados comportamentais, para apenas se limitar a melhorar o serviço aos utilizadores, mas para lhes ler a mente, com o intuito de fabricar os melhores anúncios na caça do consumidor alvo. Ao encontro dos melhores interesses do utilizador enquanto consumidor a partir dos traços colaterais do seu comportamento online. Com o acesso único da Google aos dados comportamentais, seria agora possível conhecer o que um dado individuo num dado lugar e tempo pensava, sentia e fazia. Mas isto só estava ao alcance de uma minoria de especialistas académicos. Nessa altura, o resto do mundo ainda estava num estado torpor psíquico profundo. Isto é, ainda estava adormecido para tão inéditos e ousados atrevimentos deste capitalismo digital da terceira modernidade. Estava-se efetivamente a galgar a terceira modernidade.

A pesquisa de uma palavra desencadeia automaticamente um anúncio de acordo com o perfil do pesquisador, tudo gerido matematicamente em frações de segundo, com uma previsão inacreditavelmente tão minuciosa e acertada. A este tipo de previsão chama-se agora informação de perfil de utilizador. E o anunciante já não precisa de se deitar a adivinhar. É a certeza da exatidão matemática que estamos a falar. Agora já percebemos quem são os verdadeiros clientes da Google ou do Facebook: os Anunciantes, a quem vendem os dados derivados do nosso comportamento como utilizadores. Um subproduto das nossas ações, portanto, mas que é transformado em ouro preditivo. Nós, os utilizadores, somos a mina expropriada, da qual se extrai o ouro, matéria-prima para as fábricas da Google e do Facebook. Os seus produtos são as provisões sobre o nosso comportamento que é vendido aos seus clientes, ou seja, as empresas que vão colocar a publicidade a fim de nos influenciarem a comprar os seus produtos.

Para todos os efeitos, a Google e o Facebook são empresas intermediárias entre nós e os fabricantes ou vendedores das chamadas comódites, que estamos interessados em comprar. Estas empresas operadoras das redes sociais colhem, desfazem e apropriam-se da natureza humana e vendem-na num mercado digital. É a extração do comportamento humano para fins de fabrico e venda. Desde cedo que os produtos preditivos da Google se destinavam à venda para publicidade direcionada. Mas a publicidade foi o começo não o seu fim. Qualquer agente interessado em comprar informação probabilística sobre o nosso comportamento pretende depois influenciar o nosso comportamento futuro. Para isso, as empresas clientes da Google, ou do Facebook, pagam pelo conhecimento futuro do nosso comportamento, para melhor nos venderem os seus produtos.

Estamos, então, na Terceira Modernidade. A Segunda Modernidade teve início com a Revolução Industrial no século XVIII, depois da Revolução Científica do século XVII, que constituiu a Primeira Modernidade. Associado a tudo isto está o Capitalismo. E a
s várias transformações por que passou o Capitalismo na Modernidade, nunca se fizeram sem tumultos sociais. Por isso, esta última transformação para o Capitalismo Digital não iria ser exceção.  

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A definição cultural da Europa - [3]



O Castelo de Bran na Roménia - na fronteira entre a Transilvânia e a Valáquia - é uma das atrações turísticas mais populares da Roménia por estar associado ao "Castelo do Drácula", uma referência ao Príncipe Vlad TepesVlad Drakul, ou Vlad O Empalador, de que falaremos a seguir, mas sem fiabilidade histórica. Localiza-se próximo de Bran, na vizinhança da cidade de Brașov, no condado com o mesmo nome, na parte central do país, 166 Km a norte de Bucareste. É um monumento nacional e marco histórico da Roménia na fronteira entre a Transilvânia e a Valáquia, no sopé dos montes Cárpatos em plena floresta. 

O romance de Bram Stoker [1847-1912] - "Drácula" 1897 - terá contribuído para a ligação errónea deste castelo a Vlad Drakul (Drácula histórico ou Vlad Tepes), mas ao mesmo tempo deu asas ao mito do Drácula que se tornou conhecido pelo mundo dando aso a vários filmes famosos. E assim o Castelo de Bran é promovido como a residência do personagem 'Drácula' que dá título ao romance. Portanto, é um personagem fictício. O personagem é o mais famoso vampiro da ficção, e segundo o Guiness Book, o monstro e vilão fictício com maior número de aparições mediáticas, diretas ou indiretas. O personagem também é creditado no romance como um dos precursores da origem das lendas sobre lobisomens. O Conde Drácula pode ter sido inspirado no voivoda (príncipe) Vlad Țepeș (Vlad III).




O primeiro documento que menciona o Castelo de Bran é um ato emitido por Luís I da Hungria, datado de 19 de novembro de 1377, pelo qual o rei concedia aos saxões de Kronstadt (Braşov) o privilégio de construírem uma cidadela de pedra. Em 1378 o castelo começou por ser usado na defesa contra o Império Otomano.

Depois do final da Segunda Guerra Mundial e da expulsão da família real da Casa de Hohenzollern-Sigmaringen, o castelo foi ocupado e nacionalizado pelo regime comunista, tendo sido transformado em museu. Atualmente, o castelo alberga um museu aberto ao público, exibindo peças de arte e mobiliário colecionados pela Rainha Maria (Maria Alexandra Vitória - Kent, 29 de outubro de 1875 – Sinaia, 18 de julho de 1938, primeira filha de Alfredo, duque de Saxe-Coburgo-Gota e da grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia, tendo sido neta da rainha Vitória do Reino Unido e do czar Alexandre II da Rússia) a última rainha consorte da Roménia, casada com  Fernando I da Roménia.

Em 2005, o governo romeno fez passar uma lei especial que permitia a restituição do Castelo de Bran, aos seus legítimos proprietários. No dia 26 de maio de 2006, a Roménia, agora um estado membro da União Europeia, devolveu a posse do castelo ao Arquiduque Dominic da Áustria, Príncipe da Toscânia, conhecido como Dominic von Habsburg, um arquiteto a residir no Estado de Nova York, tendo colocado o castelo à venda (avaliado pela revista norte-americana Forbes em 140 milhões de dólares). Mas em 2014, o castelo-fortaleza estava à venda por 58 milhões de euros.

Ora, a 125 km de Bran fica Arefu, no condado de Curtea de Arges, na região da Munténia, a cerca de 180 km de Bucareste. É nesta sub-região da Valáquia, província histórica da Roménia a norte do rio Danúbio que se encontra a Fortaleza de Poenari, e aqui sim, onde Vlad III Dracul, defendeu o seu território, portanto, o verdadeiro castelo de Vlad Drakul (Drácula histórico ou Vlad Tepes).




Castelo de Poenari, ponto estratégico de observação durante conflitos, e também refúgio de Vlad III. Diz a lenda que foi de uma destas torres que a primeira esposa de Vlad III se atirou, episódio que curiosamente Bram Stoker fala no seu livro, e que aparece no filme Drácula de Francis Ford Coppola, 1992. O castelo foi construído no começo do século XIII e ampliado durante o governo de Vlad III, com a mão de obra de prisioneiros. Hoje, a construção está em ruínas. 

Vlad III, ou príncipe Vlad Tepes, utilizou em várias ocasiões este castelo com fins militares durante o seu reinado, no século XV. A sua fama de crueldade e brutalidade serviu de inspiração para o famoso vampiro do livro de Bram Stoker. Essa história de sugar o sangue e a vitalidade dos outros é uma lenda velha, que existe desde a Antiguidade. Não dá pra saber se algum dia a prática existiu mesmo. Vlad III era cruel, é verdade. Mas a sua prática favorita era o empalamento. 




Vlad III foi um voivoda (príncipe) da Valáquia. Era o segundo filho de Vlad II, que foi voivoda da Valáquia de 1436 a 1442 e de 1443 a 1447. Vlad e o seu irmão mais novo Radu chegaram a ficar reféns do Império Otomano em 1442, como garantia da lealdade do pai. O irmão mais velho de Vlad, Mircea, e Radu, acabaram assassinados na sequência da invasão da Valáquia em 1447 por João Corvino, regente-governador da Hungria. Corvino nomeou como novo voivoda da Valáquia um primo em segundo grau de Vlad, Ladislau II.

Entretanto Constantinopla é capturada pelo exército otomano, comandado pelo Sultão Maomé II, em 1453, após um cerco de 53 dias. Maomé II transfere a capital otomana, que era em Edirne, para esta grande cidade. A paz na região da Transilvânia-Valáquia é restaurada em 1460. Maomé II, o Conquistador, ordenou a Vlad que lhe pagasse tributos, mas Vlad capturou e empalou os emissários do sultão. Em fevereiro de 1462, Vlad invadiu território otomano, massacrando milhares de turcos e búlgaros. Então Maomé II lança-se contra a Valáquia para substituir Vlad por Radu, o seu irmão mais novo. Vlad chegou a tentar capturar o sultão uma noite em Târgoviște, mas o sultão e muitos comandantes de seu exército já haviam partido da Valáquia. Vários cidadãos passaram a apoiar Radu para o trono. Vlad buscou auxílio na Transilvânia, a Matias Corvino, rei da Hungria, no final de 1462. Tal tentativa saiu-lhe furada, tendo sido aprisionado por Matias

Vlad foi mantido em cativeiro em Visegrado de 1463 a 1475. Foi neste período que episódios da sua crueldade começaram a circular pela Alemanha e pela Itália. Foi libertado a pedido de Estêvão III da Moldávia, no verão de 1475. Lutou no exército de Matias contra os otomanos na Bósnia, no começo de 1476. Tropas húngaras e búlgaras o auxiliaram a forçar Bassarabe Laiotă, que tirou Radu do poder, a fugir da Valáquia em novembro. Bassarabe ainda retornaria com apoio otomano antes do final do ano, e Vlad ainda estava vivo para o assassinar. Acredita-se que Vlad Ţepeş tenha passado dias fechado nas masmorras enquanto os otomanos controlavam a Transilvânia. Vlad morreu em Bucareste a 14 de dezembro de 1476.

Vlad III era filho do nobre Vlad II “Dracul”, que governou antes dele a Valáquia. Aliás, foi daí que surgiu o nome “Drácula”. Em latim, draco significa dragão – ordem à qual Vlad II pertencia, cuja principal função era defender a Europa cristã dos turcos. Mas, em romeno atual, dracul significa diabo. Logo, Drácula é também “filho do diabo”. Dá para ver como Bram Stoker se inspirou nesse personagem. Vlad III ficou preso doze anos no Reino da Hungria. Mas o regime da detenção não era muito rígido. Tanto que Vlad III se casou, teve filhos e chegou à condição de membro da família real – tudo isso enquanto ainda era prisioneiro. Anos depois, decidiu reconquistar a Valáquia, pela terceira vez. Ele contou com o apoio de forças húngaras e de seu primo, o príncipe da Moldávia, Estevão. Nessa época, Radu já tinha morrido, e quem mandava na Valáquia era Bassarabe, o Velho. Quando Vlad III lá chegou, o governante ficou tão assustado que preferiu fugir a encará-lo de frente. A reconquista, portanto, correu bem. Só que, no mesmo ano, Vlad III morre misteriosamente. Ele tinha 45 anos. Enquanto parte dos historiadores diz que ele morreu em batalha contra os turcos, que estavam a tentar recolocar Bassarabe no poder, outros sustentam que ele sucumbiu numa emboscada armada pelos burgueses descontentes de seu próprio reino, assim como tinha acontecido com seu pai. 

Conta-se que um dia 
Vlad viu um aldeão com a camisa toda suja e perguntou-lhe se a sua mulher era saudável. O aldeão respondeu que sim. Consequência: a mulher do aldeão ficou com ambas as mãos decepadas. E Vlad fez questão de lhe arranjar outra mulher. E que servisse de emenda. Vlad tinha prazer em comer na frente das suas vítimas empaladas.  A crença de que o conde Drácula é um morto vivo veio de um episódio numa das suas muitas batalhas, em que sofreu um forte golpe na cabeça, que o deixou em coma. Depois de os seus companheiros o verem caído no chão, bateram em retirada levando consigo o seu corpo. Vlad acordou do coma como se nada tivesse acontecido, e logo depois de recobrar os sentidos, retornou à batalha levando o seu exército à vitória e a uma das mais sangrentas batalhas, criando assim a crença que ele havia retornado dos mortos como um morto vivo.


A definição cultural da Europa - [2]

 

Desde o século XVI que havia entre os alemães eruditos um melindre a propósito de haver comunidades germânicas, como os Saxões da Transilvânia, que estavam separadas, mas que também eram da mesma cultura e falavam a mesma língua. Ao longo da sua história, a Transilvânia foi dominada por diferentes povos e estados. No início do século II a.C., sob o governo de Rubobostes, um rei Dácio da Transilvânia, o poder dos dácios na Planície da Panónia, a região entre os Cárpatos, os Alpes Dináricos e os Balcãs, aumentou com a derrota dos Celtas que anteriormente detinham o poder na região. Existia um reino da Dácia, pelo menos, desde o início da primeira metade do século II a.C. sob o governo do rei Oroles. De facto, os dácios pareciam tão formidáveis que Júlio César considerou a possibilidade de enviar uma expedição contra eles, só não aconteceu porque entretanto foi assassinado. Por volta da mesma época, Burebista foi assassinado, e o reino foi dividido em quatro (ou cinco) partes sob o comando de governantes separados. Os Dácios eram o tal povo germânico que foi dominado pelos Romanos, mencionados no filme "O Gladiador", e da narrativa do post anterior.

Contudo, de modo algum eles foram subjugados, e em épocas posteriores, para manterem a sua independência, eles aproveitaram cada oportunidade de atravessar o congelado Danúbio durante o inverno para devastar as cidades romanas na província da Mésia. Foi o coração do Reino da Dácia entre 82 a.C. e 106 d.C. Nesse último ano foi conquistada pelo Império Romano, passando a fazer parte da província romana da DáciaOs Dácios venceram duas vezes os romanos: no reinado de Diurpaneu (Campanha dácia de Domiciano, entre 86 e 88); e no do grande Decébalo (Campanha dácia de Trajano, entre 101 e 106). Depois destes dois graves reveses, os romanos, sob o comando de Técio Juliano, obtiveram uma notável vantagem, mas foram obrigados a entrar em acordo de paz devido à derrota de Domiciano pelos marcomanos. Decébalo devolveu as armas que havia obtido e alguns dos prisioneiros. No entanto, os dácios ficaram independentes, Domiciano concordou em adquirir imunidade pelo pagamento de um tributo anual.

Para pôr um fim a esse desonroso arranjo, ou talvez para restaurar as finanças do Império Romano com a captura do famoso Tesouro de Decébalo, Trajano resolveu conquistar a Dácia para assim controlar as minas de ouro dácias da Transilvânia. O resultado da primeira campanha (101–102) foi o cerco da capital dácia, Sarmizegetusa, e a ocupação de parte do país. A segunda campanha (105–106) obteve o suicídio de Decébalo e a conquista do território que formaria a província romana: Dácia Trajana. A história da guerra é apresentada por Dião Cássio, mas o melhor comentário sobre a mesma é a famosa Coluna de Trajano em Roma. 
O domínio romano, contudo manteve-se precário. Adriano, ciente da dificuldade em mantê-lo, considerou o abandono do país. Só não aconteceu, considerando a segurança que era preciso manter dos numerosos colonizadores romanos. No governo de Galiano (256), os godos atravessaram os Cárpatos e expulsaram os romanos da Dácia, com a exceção de alguns locais fortificados entre os rios Tímis e Danúbio. Nenhum detalhe do evento foi registado, apenas em Festo: "no governo do imperador Galeno a Dácia foi perdida". Após 256 as inscrições e moedas romanas desaparecem. Aureliano (270–275) retirou todas as tropas e fixou a fronteira romana no Danúbio. Uma nova Dácia Aureliana foi reorganizada ao sul do rio Danúbio, com a capital em Sérdica = Sófia, atualmente a capital búlgara. Após a retirada dos romanos a Transilvânia foi invadida por uma sucessão de tribos, nomeadamente: carpos, visigodos, hunos, gépidas, avaros e eslavos.

"Eslávia" começava a leste do Elba e se prolongava para sul até ao Mar Negro. No século XIX, muito depois dos governantes Habsburgos terem estabelecido uma autoridade de facto sobre territórios que se estendiam até bem dentro daquilo que é hoje a Ucrânia, o chanceler austríaco Metternich, numa expressão que ficou célebre, podia dizer que a Ásia começava na Landstrasse, a estrada de Viena em direção ao Leste. Húngaros e Austríacos tinham na cabeça uma linha imaginária invisível que percorria a Europa de Norte a Sul. A única grande movimentação populacional na Europa depois da chegada dos Magiares à planície do Danúbio foi a deslocação para Leste dos colonos alemães, uma terra incógnita composta por povos rudes que ali estavam à espera da civilização e de governo. 




A Transilvânia é conhecida pela beleza das paisagens dos Cárpatos e pela sua rica história de estórias. É limitada a leste e a sul pela cordilheira dos Cárpatos. E historicamente estendia-se para oeste até aos montes Apuseni. A primeira menção à região em registos históricos é dum documento de 1075 e usa a expressão do latim medieval: terra ultra silvam (terra além da floresta). Em Sancti Gerhardi, do século XII, é usado o nome Partes Transsylvanæ, com o mesmo significado, o qual é mantido na forma Transsilvania em documentos medievais posteriores do Reino da Hungria.

Desde o século XVIII que foram realizados censos oficiais com informações sobre a população da Transilvânia. Em 1 de maio de 1784, o imperador José II mandou realizar o primeiro censo oficial do Império Habsburgo do qual a Transilvânia fazia parte. Os dados foram publicados em 1787 e registavam apenas a população total (1 440 986 habitantes). Fényes Elek, um estatístico húngaro do século XIX, estimou em 1842 que a maioria da população transilvana nas décadas de 1830 e 1840 era romena (62,3%) e magiar (23,3%). O primeiro censo oficial na Transilvânia no qual se fez uma distinção entre etnias, com base na língua materna, foi realizado pelas autoridades austro-húngaras em 1869. A população magiar da Transilvânia aumentou para 24,9%. E em 1910 já era de 31,6%. No mesmo período a percentagem da população romena diminuiu de 59% para 53,8% e a percentagem da população saxã (alemã) decresceu de 11,9% para 10,7%. Segundo o censo húngaro de 1910, a região tinha 5 262 495 habitantes. As políticas de "magiarização" contribuíram muito para essa mudança.

A percentagem da maioria romena aumentou significativamente desde a declaração da união com a Roménia depois da Primeira Guerra Mundial, em 1918. A proporção de magiares na região entrou num declínio acentuado à medida que mais habitantes das zonas rurais migraram para zonas urbanas, onde a pressão para a assimilação e "romenização" era maior. A expropriação de propriedades rurais de magnatas magiares, a distribuição de terras a camponeses romenos e a política cultural de romenização que se seguiu ao Tratado de Trianon, 1920, causaram atritos entre a Hungria e a Roménia. Outros fatores incluíram a emigração de populações não romenas, assimilação e migração interna dentro do território romeno. Estima-se que entre 1945 e 1977, 630.000 pessoas migraram do chamado Velho Reino (os territórios do Reino da Roménia até 1918) para a Transilvânia; e 280.000 emigraram da região para outras áreas da Roménia, principalmente para Bucareste.