quarta-feira, 29 de março de 2023

O caso do Voo Avianca 52





O voo Avianca 52, em 25 de janeiro de 1990, que fazia escala desde o aeroporto internacional da Colômbia, com destino ao aeroporto internacional J.F. Kennedy, Nova Iorque, acabou em desastre por falta de combustível, e devido a erros dos pilotos na comunicação entre a aeronave e os controladores de tráfego aéreo. O vento contrário diminuía significativamente, e eles estavam indo rápido demais para terem condições de aterrar. Em geral, naquela situação, seria acionado o piloto automático, que reage de forma imediata e adequada à variação do vento. Esse equipamento, no entanto, estava com problemas e fora desligado. Por isso, o piloto arremeteu e executou uma volta. A aeronave descreveu um amplo círculo sobre Long Island e, mais uma vez, aproximou-se do Aeroporto Kennedy. De repente, um dos motores falhou. Segundos depois, outro motor parou. “Mostrem-me a pista de pouso”, o piloto gritou, na esperança desesperada de estar perto o bastante para tentar uma aterragem segura planando com o avião. Mas o Aeroporto Kennedy estava a 26km de distância. O 707 caiu na propriedade do pai do campeão de ténis John McEnroe, na elegante cidade de Oyster Bay, em Long Island. Dos 158 passageiros a bordo, 73 morreram. Em menos de um dia, a causa do acidente foi descoberta: falta de combustível. Não havia nada de errado com o avião.

A neblina era tão espessa que os pilotos não conseguiam descobrir onde estavam. C: Onde está a pista de aterragem? Não consigo ver. Não consigo ver. Não temos combustível... Eles recolhem o trem de aterragem. C manda K pedir outra orientação de tráfego. Dez segundos se passam. C: Não sei o que aconteceu com a pista. Não a vejo. K: Não a vejo.

O avião está com um nível perigosamente baixo de combustível. Eles perderam a primeira tentativa de aterragem. Não têm a menor ideia de quanto tempo o avião ainda tem para voar. C: Diga que estamos numa emergência. K: um-oito-zero no ... ah! Vamos tentar de novo. Estamos a ficar sem combustível.

K faz um reconhecimento de rotina das instruções da TC e só menciona a preocupação com o combustível na segunda metade da mensagem. É como se dissesse: “Sim, aceito mais um cafezinho. E, de repente, ah! Estou-me engasgando com um osso de frango.” Até que ponto seria levado a sério? O controlador de tráfego aéreo com quem K havia comunicado declarou depois: “Apenas interpretei aquilo como um comentário sem importância.” Em noites de tempestade, os controladores ouvem o tempo todo os pilotos dizer que estão a ficar sem combustível. Além disso, o “ah” que K profere entre as duas metades da mensagem é uma espécie de indivíduo maluco. Outro controlador que lidou com o caso naquela noite fez a seguinte afirmação: “O copiloto falou de uma maneira muito bizarra ... dando a entender despreocupação na voz dele.”

Este tipo de aberração comunicativa explica uma das grandes anomalias dos desastres aéreos. Nos aviões comerciais, pilotos e copilotos dividem de modo igual as tarefas da pilotagem. Mas, historicamente, os acidentes tendem muito mais a ocorrer quando o piloto está no comando. Isso parece não fazer sentido, uma vez que ele quase sempre é mais experiente. Combater o falso otimismo zombie tornou-se uma das principais cruzadas da aviação comercial nos últimos anos.

Mas, entretanto, o avião afastou-se do Aeroporto Kennedy após a primeira tentativa de aterragem que foi abortada. K volta a falar por rádio com a TC, procurando saber quando poderão tentar de novo fazerem-se à pista. C: O que foi que ele disse? K: Já informei que vamos tentar de novo porque sabemos ... quatro segundos de silêncio. C: Diga-lhe que estamos numa emergência. Mais quatro segundos de silêncio. C: Você disse-lhe? K: Sim senhor, já o informei … Um-cinco-zero, mantendo a 2 mil, Avianca, zero-cinco-dois. C está claramente a entrar em pânico. C: Avise que não temos combustível. K: Subir e manter a 3 mil. E ah! Estamos a ficar sem combustível. O mesmo erro novamente. Nenhuma menção à palavra mágica “emergência”, que é ao que os controladores de tráfego aéreo estão treinados a dar atenção. Apenas a mensagem “estamos a ficar sem combustível” no fim da frase, precedida por “ah!”. C: Você já avisou que estamos sem combustível? K: Sim, já avisei... C: Ok.

Se não fosse o prelúdio de uma tragédia, os diálogos pareceriam uma comédia. Pouco mais de um minuto passou. TC: Avianca zero-cinco-dois, vou conduzi-los para cerca de 15 milhas a nordeste, para depois voltar à aproximação. Tudo bem com vocês, como está o combustível?

Eles estão à beira do desastre! Um dos comissários de bordo entra na cabine e constata a gravidade da situação. O marcador mostra combustível vazio. Com o dedo, faz um gesto de cortar o pescoço. Mas não diz nada. Nem ninguém diz mais nada nos cinco minutos seguintes. Há uma conversa pelo rádio com menções a assuntos de rotina até que no painel de voo: “Chamas no motor número quatro.” A pista está a 26 km de distância. Trinta e seis segundos de silêncio. O controlador de tráfego aéreo pergunta pela última vez: Vocês têm combustível suficiente para chegar ao aeroporto? A gravação termina.

As investigações do National Transportation Safety Board indicaram uma falha dos pilotos ao tentar comunicar-se claramente com o controlo aéreo. Tudo o que eles precisavam fazer era dizer ao controlador: Não temos combustível para fazer o que você está a mandar. Necessitamos aterrar nos próximos 10 minutos. Eles não conseguiram transmitir essa mensagem. Requisitaram apenas prioridade, mas não declararam emergência de combustível em nenhum momento. Além disso, as péssimas condições atmosféricas dificultaram o pouso, fazendo com que consumisse uma maior quantidade de combustível. Por último, o cansaço e o stress dos comandantes, para pousar mais rapidamente, também foi um fator considerável. 

Os controladores de tráfego aéreo de Nova Iorque têm fama de rudes, agressivos e intimidadores. Apesar disso, também são ótimos. Lidam com um volume de tráfego fenomenal num ambiente muito limitado. A maneira como encaram a situação é: «Estou no controlo. Bico calado e faça o que eu digo.» São ríspidos com os pilotos. E quem não concordar com as ordens deles deve responder no mesmo tom. Aí eles dizem: «Tudo bem.» Mas, se o piloto não os enfrenta, eles estão se ralando. Num voo da British Airways que ia para Nova Iorque, os britânicos estavam a ser tratados com grosseria pelos controladores. Então disseram que pessoas como eles deviam ir a Heathrow aprender a controlar um avião. Eles estavam na maior. Para quem não está acostumado com esse tipo de diálogo, O controlo aéreo de Nova Iorque pode ser bastante intimidador. Existe uma história célebre de um piloto que se perdeu no Aeroporto Kennedy. Ninguém imagina com que facilidade isso pode ocorrer ali depois de o avião atingir o solo. É um labirinto. A questão é que uma controladora de voo se aborreceu com ele e disse: «Pare. Não faça nada. Não fale comigo enquanto eu não lhe dirigir a palavra.» Ela simplesmente o deixou de lado. Por fim, o piloto apanhou o microfone e disse: «Madame, eu fui casado com você em alguma vida passada?»

segunda-feira, 27 de março de 2023

O muro e os túneis de Berlim





Heidelberger Strasse, dividida a meio pelo Muro, ficou conhecida como a "Rua das Lágrimas". Nesta zona, foi onde proliferou um grande número de túneis.




Nesta foto icónica, que mostra os guardas do lado oriental a recolher o corpo de Peter Fechter, de 18 anos de idade, morto a tiro quando tentava escapar para o lado ocidental em 17 de agosto de 1962.



Túnel da Bernauer Strasse, que se iniciou com uma armação triangular antes de passar à forma quadrangular. No início do verão de 1962 a entrada de água no túnel levou à suspensão temporária das escavações. É o correspondente da NBC, Piers Anderton, quem está na entrada do túnel.


O Muro de Berlim em Agosto de 1989:





O Muro de Berlim em Novembro de 1989:







segunda-feira, 20 de março de 2023

A Irlanda da Idade Média

  


The Temple Bar, no distrito de Dublin, grande reputação na vida noturna irlandesa.

Tomando a história da Irlanda desde a Idade Média, verifica-se a sua identidade como um caso único, não só porque havia muitos reis exercendo o seu senhorio sobre pequenas unidades populacionais e seus territórios (chamados tuaths), mas também porque havia muitos graus de realeza, com regras e costumes elaborados a respeito da sucessão.

No século VIII, quatro províncias tinham surgido, definidas efetivamente pelas tentativas das principais famílias em exercer uma suserania consistente e dominante sobre as demais: Uí Cheinnselaig no sudeste (Leinster), até serem substituídos pelos Uí Dúnlainge a partir de cerca de 738; os Eógannachta no sudoeste (Munster), especialmente o ramo da família Cashel; os Uí Briúin no noroeste (Connaught) desde meados do século VIII; e os Uí Néill (O’Neill) no nordeste (Ulster) desde o começo do século VII. Os O’Neill desenvolveram um padrão de realeza alternante entre os ramos setentrional e meridional da família, associada à realeza de Tara, um foco simbólico similar ao da Rock of Cashel dos Eógannachta no sul. O conflito entre os super-reis tornou-se comum, se bem que, nessa altura, a subestrutura de reis secundários e tuath permanecesse substancialmente intacta.

A partir de 795, um novo elemento foi introduzido na política irlandesa pelos vikings, que assolaram e devastaram no início vastas zonas, mas depois acabaram instalando bases permanentes, a primeira delas em Dublin, em 841. A chegada dos vikings não significou uma total mudança na política irlandesa, uma vez que a sua tendência era ajustarem-se aos padrões existentes, aliando-se aos principais reis e sendo por estes usados como mercenários. A competição pelo estatuto de suserano continuou sendo os Uí Néill os mais bem-sucedidos em suas tentativas de ampliação de seu poder além de suas próprias fronteiras; a partir de meados do século X, eles assumiram títulos que sugerem o predomínio sobre a totalidade da ilha. Entretanto, suas pretensões foram abaladas pela penetração na direção leste dos Uí Briúin, embora estes fossem, por sua vez, ultrapassados por uma nova família, os Dál Cais de Munster, que tomaram Cashel em 964. A partir de 976, o mais famoso membro da família, Brian Borumha, desenvolveu uma série de operações militares até conseguir a submissão do Sul e da região central em 1002 e do resto do Norte em 1005-11. O êxito de Brian foi efémero; uma revolta em Leinster, em 1012, culminou com a sua morte em Clontarf, dois anos depois. Contudo, o facto de que todos os principais reis se lhe submeteram, assinala uma importante mudança na política irlandesa, a qual daí em diante passou a estar cada vez mais intimamente vinculada à próspera cidade de Dublin.

A mudança também se evidenciou quando o poder foi territorializado: os reis secundários perderam a sua independência e as dimensões das unidades fundamentais da realeza aumentaram substancialmente. Nos séculos XI e XII, uma série de reis não aparentados, de diferentes famílias, estabeleceram uma vasta hegemonia. Assim como os reis anteriores tinham usado a capacidade militar viking para seus próprios fins, também os super-reis rivais buscaram ajuda no exterior e, num lance decisivo em 1167, um governante Leinster recorreu a Henrique II da Inglaterra. Henrique talvez já tivesse recebido o reconhecimento de sua suserania sobre a Irlanda pelo papa inglês Adriano IV em 1156, e sua resposta foi rápida e devastadora. Com a intrusão no quadro político de uma aristocracia anglo-normanda, o fim da velha ordem estava selado. Richard de Clare (Strongbow), conde de Pembroke, comandou uma força armada que desembarcou na Irlanda. Dublin caiu em 1170 e, em 1171, o próprio Henrique II realizou a travessia para Wetherford e efetuou o que se pode chamar um triunfal avanço de uma ponta à outra da ilha.

A conquista normanda da Irlanda foi muito diferente da conquista da Inglaterra. Nunca foi completa e, embora em 1300 a maior parte da ilha estivesse nominalmente sob o controlo do monarca inglês ou de seus representantes em Dublin, na realidade a situação era extremamente complexa, um emaranhado de senhorios com a sobrevivência de chefes tribais gaélicos governando suas comunidades de acordo com as antigas leis e costumes do mundo céltico. Alguns beneficiaram-se consideravelmente com a nova ordem feudal e foram criados grandes feudos, com destaque para os Fttz-Gerald, os Lacy e os Butler. Floresceram cidades; alguns dos anglo-normandos recém-chegados foram assimilados pela cultura gaélica, tornando-se mais irlandeses que os próprios irlandeses. 
O interesse da monarquia inglesa era constante, mas seu envolvimento foi esporádico. Ricardo II, no final do século XIV, e os yorkistas no século XV, tentaram impor a paz e a unidade mas seus êxitos foram efémeros. Os esforços no sentido da proscrição do uso da língua, leis e costumes irlandeses, como os consubstanciados nos Estatutos de Kilkenny, em 1366, fracassaram. No final da Idade Média registrou-se um ressurgimento gaélico fora das regiões diretamente controladas por Dublin e outras cidades. 

A Igreja irlandesa, embora a tradição atribua a conversão dos irlandeses a São Patrício, ficou claramente provado que alguns missionários já andavam por lá antes dele. Limitou a sua atividade evangelizadora ao norte e centro da Irlanda. Entretanto, a importância de São Patrício é indiscutível e sobrevivem dois de seus escritos do século V. As igrejas e os sacerdotes que ele instalou estavam sob a jurisdição de alguns bispos, sem os centros urbanos que caracterizaram a Igreja continental. No decorrer do século VI, a Igreja irlandesa começou a mudar com a fundação de numerosos mosteiros, frequentemente com patrocínio real. As comunidades de Bangor, Clonfert, Derry e Durrow, Iniscealtra e Terryglass, Lismore, Moville e Killeedy já existiam no final do século VI ou começos do século VII. Muitas delas retiveram fortes ligações com as famílias de seus fundadores, que exerceram influência na nomeação de abades e, assim, na administração de seus bens. No decorrer desse movimento, alguns monges viajaram para terras estranhas, estabelecendo outras comunidades monásticas e entregando-se ao trabalho missionário. No século VIII, muitos mosteiros na própria Irlanda tinham-se tornado excepcionalmente ricos, patrocinando a produção de obras de arte — missais e vasos de culto de grande esmero e requintado acabamento — e participando também na política. No final desse século, os abades dos principais mosteiros controlavam mosteiros menores e dependentes, por vezes muito dispersos, e se tornavam aos poucos mais poderosos do que os bispos a cuja jurisdição tinham estado originalmente sujeitos.

No final do século VIII e durante o século IX, seu envolvimento na política era tal que abades entraram em guerra, enquanto suas ligações com famílias aristocráticas eram tão estreitas que reis, por vezes, exerciam funções tanto clericais quanto seculares. Isso ocorreu de forma sumamente notória no caso dos reis de Munster, como, por exemplo, Olchobar, que foi abade de Emly e rei de Cashel em 848. Em contrapartida, alguns bispos esforçavam-se por afirmar sua superioridade sobre outros e a igreja de Armagh notabilizou-se pelas tentativas de estabelecer a hegemonia (à maneira de um suserano) sobre toda a Igreja irlandesa. Contentou-se inicialmente em dividir essa hegemonia com a igreja de Kildare mas, no século VIII, Armagh estava reivindicando para si jurisdição apelatória em toda a Irlanda e uma posição comparável à dos bispos de Roma na Itália. Essas pretensões não foram mantidas a longo prazo, embora Armagh continuasse sendo uma igreja poderosa.

Nesse meio tempo, alguns clérigos e monges tinham-se desiludido com a temporalidade da Igreja e deflagraram uma campanha em prol de uma prática mais ascética. Esse movimento Culdee, como é conhecido, estava em franco progresso por volta de 800, especialmente associado a Tallaght; levou à fundação de casas mais ascéticas, por vezes em lugares muito isolados, à reforma da prática em algumas casas existentes e à produção de obras eremíticas de devoção. Tanto a linha poderosa quanto a ascética continuaram marcando a Igreja irlandesa até ao século XI. Alguns dos mais elaborados cruzeiros esculpidos foram fruto do patrocínio e da habilidade do século X.

No final do século XI, o movimento de reforma continental começou a tocar a Irlanda; mas o grande avanço ocorreu em meados do século XII com a obra de São Malaquias (m. 1148); seus propósitos para a Igreja irlandesa frutificaram após sua morte quando, no Sínodo de Kells (1152), a Irlanda foi dividida em 4 arcebispados e 36 bispados. O novo movimento monástico passou a exercer influência e a conquista anglo-normanda (1169-72), liderada pelo conde Strongbow e Henrique II, colocou grande parte da Irlanda de um modo ainda mais direto na corrente principal da Cristandade ocidental. Catedrais foram construídas em típico estilo normando e fundaram-se novas e poderosas casas monásticas, sobretudo por parte dos cistercienses. No século XIII, foi especialmente encorajada a presença de frades mendicantes; e eles (sobretudo seus elementos mais pobres e mais ascéticos) conservaram boa reputação até ao final do período medieval. Nos últimos anos da Idade Média, a Igreja irlandesa continuou refletindo as divisões sociais da ilha, principalmente em decorrência das fronteiras linguísticas entre a fala inglesa e a gaélica; porém, de um modo geral, harmonizou-se então com os usos da Igreja ocidental, mais do que ocorrera no começo da Idade Média. 

segunda-feira, 13 de março de 2023

A Florença dos guelfos e gibelinos no tempo da Peste Negra





Florença, no início da Idade Média era uma cidade de importância relativamente secundária, apesar de o seu papel como sede de um ducado lombardo. Mas mais tarde, como residência ocasional do margrave da Toscana, ascendeu a um lugar de destaque na Toscana e a uma posição proeminente na economia europeia depois do século XII. Sua grande riqueza, derivada principalmente da indústria (em especial a têxtil), combinada com o comércio e a atividade bancária, encorajou a imigração, o que resultou no rápido crescimento da sua população mas também contribuiu para as divisões internas.

Desde os começos do século XIII, a nobreza e os grandes mercadores, secundados por grupos sociais inferiores, estavam divididos em dois partidos: os gibelinos, que apoiavam a causa imperial na luta entre o Sacro Império Romano Germânico e o Papado desde 1230, aproximadamente; e os guelfos, que eram favoráveis à causa papal, embora os interesses e lealdades de ambos os partidos fossem predominantemente locais. O conflito civil exigiu novos dispositivos para manter a ordem e, no final do século XII, o governo consular que administrara a comuna independente de Florença desde pouco depois da morte de Matilde da Toscana (1115), foi substituído pela Podestà (Signoria) para o exercício da magistratura suprema. A fim de assegurar uma administração imparcial, o Podestà foi recrutado, a partir do começo do século XIII, fora da cidade.

No transcurso do século XIII, o poder político passou a repousar cada vez mais nos mercadores organizados nas maiores guildas, graças ao sucesso internacional do comércio e dos bancos florentinos, o que foi confirmado pela emissão, desde 1252, do florim de ouro. Dois anos antes, a população não nobre tinha estabelecido a sua própria organização — uma espécie de Estado dentro do Estado — duplicando as instituições comunais em suas próprias magistraturas e conselhos. Isso durou até à vitória gibelina sobre o poder dos guelfos em 1260. Foi restabelecido numa base corporativista, agora de forma permanente, em 1282. Em 1293, a vitória do novo regime do povo culminou na exclusão das famílias nobres do governo, definidas como magnatas, e sua sujeição a severas punições por delitos contra os popolani. Os seis, depois oito, priores e o gonfaloneiro de justiça foram mantidos até ao século XVI no governo da cidade, ficando o Podestà reduzido às suas funções judiciais. A construção, iniciada no final do século, da nova catedral e do Palazzo Vecchio, indica a prosperidade de Florença e o orgulho dos cidadãos por suas realizações; também reflete o espetacular crescimento populacional, que por volta de 1338 tinha provavelmente superado a marca dos 100.000 habitantes.




O regime popular dos guelfos sofreu divisão na passagem do século XII para o século XIV, o que prenunciou o surgimento de facções de que Florença continuou sofrendo durante todo o século XIV, e que foi intensificado depois da Peste Negra. Outras fontes de conflito interno foram o antagonismo, aguçado pelas Ordenações de Justiça de 1293, entre a nobreza magnata e os setores populares com os contrastes sociais entre os artesãos das guildas menores e os patrícios das guildas maiores. Após o efémero governo despótico (1342-43) de Gautier de Brienne, duque de Atenas, os “novos homens” organizados nas guildas de ofícios conseguiram aumentar substancialmente a sua participação no governo; mas à recuperação patrícia seguiu-se uma tentativa da liderança oligárquica do partido guelfo, com vistas ao estabelecimento do controlo virtual do Estado. Na esteira da reação contra essa política, o descontentamento entre os trabalhadores submetidos às guildas da lã e da seda explodiu em 1378 na revolta dos Ciompi. A Peste Negra de 1348 tinha reduzido dramaticamente, talvez em mais da metade, a população de Florença, mas os efeitos económicos só estavam indiretamente relacionados com essa convulsão social. O regime democrático de guildas instalado após a sua supressão foi a última e a mais radical manifestação de organização corporativa no governo da cidade.

O regime que o substituiu em 1382 já não era dominado pelas guildas ou o partido guelfo. Instituições e valores corporativos continuaram sendo elementos importantes na política florentina mas deixaram de ter a influência de que desfrutavam anteriormente. O novo regime era aristocrático, na medida em que o patriciado ocupava uma posição predominante dentro de uma classe governante definida pela elegibilidade para altos cargos; mas as guildas de ofícios não estavam inteiramente excluídas do regime. A autoridade do governo foi reafirmada, embora as decisões mais importantes continuassem sujeitas ao consentimento dos conselhos legislativos. Uma das notáveis realizações do regime foi a expansão dos domínios florentinos pela aquisição de Arezzo, Pisa e Cortona com seus territórios, e a gradual transformação dos mesmos num Estado territorial. A oposição toscana ao expansionismo florentino ajudou o duque de Milão, Giangaleazzo Visconti, em sua investida rumo a essa região. Em suas guerras contra ele, desde 1390, os florentinos autoproclamaram-se defensores da liberdade contra a tirania; a morte de Giangaleazzo em 1402 e a conquista de Pisa em 1406 garantiram não só a independência da cidade mas também sua hegemonia na Toscana.

O regime aristocrático gozou de um notável grau de coesão até a década de 1420, quando, diante de uma crise fiscal e de renovada guerra com Milão, a cidade dividiu-se uma vez mais em duas facções. Tanto a implantação em 1427 de um imposto progressivo baseado na propriedade, o catasto, quanto a paz com Mião em 1428 não atenuaram essa divisão, que culminaria em 1433 com a vitória dos Albizzi sobre os Medici, e no exílio de Cosimo de Medici. O regresso deste em 1434 assinalou a derrota dos Albizzi, seguido por seu exílio e o de muitos de seus adeptos. Através de reformas, especialmente no método de eleger a Signoria, Cosimo estabeleceu gradualmente sua ascendência pessoal e a do seu partido, até obter o controle da administração e da legislação. Mas essas reformas defrontaram-se com repetida resistência e sofreram seu mais sério revés em 1456-66. Embora efêmero, o êxito dessa oposição ao controlo dos Medicis demonstrou a robustez das tradições republicanas.

Em 1478, a hostilidade dos Pazzi, apoiados por Roma, ocasionou um atentado contra a vida de Lourenço de Medici, do qual ele saiu ileso mas em que seu irmão Giuliano morreu apunhalado. A conspiração dos Pazzi resultou em guerra contra o papa e o rei de Nápoles; na conclusão da paz, a posição de Lourenço como chefe virtual da república estava decisivamente estabilizada e fortalecida, mas o papel da elite política do regime também foi promovido pela criação de um Conselho Supremo dos Setenta, a quem incumbia controlar a legislação, assim como a política externa e interna.

Estabelecido para mandatos de cinco anos, o Conselho foi periodicamente renovado até à queda do regime. Após a morte de Lourenço em 1492, Pedro não conseguiu preservar o delicado equilíbrio entre interesses divergentes que seu pai tinha realizado em Florença e do qual fizera a pedra angular de sua política externa. Impotente para impedir a invasão da Toscana por Carlos VIII, Pedro fugiu da cidade no meio a um levantamento popular (1494). Todas as instituições dos Medici foram abolidas mas os patrícios, que tinham desempenhado um papel decisivo na queda do regime Medici, e que haviam pertencido ao seu mais prestigiado grupo, não conseguiram restaurar o regime aristocrático do início do século XV. 

A criação de um Grande Conselho de mais de 3.000 cidadãos, devida em grande parte à pregação de Savonarola, imitando o maggior consiglio veneziano, era exclusivamente responsável pela legislação e as eleições para cargos oficiais. Tal, significou uma radical reforma constitucional que, embora ampliando substancialmente a participação ativa dos cidadãos na política, tornou possível para uma elite política manter um papel predominante no governo de Florença. Mesmo assim, o descontentamento patrício com as crescentes tendências democráticas no Grande Conselho levou em 1502 à transformação do gonfaloneirato de justiça num cargo vitalício. Não obstante, não foi a oposição interna, mas a pressão militar resultante da batalha de Ravena, que constituiu a principal causa da queda do regime republicano e do restabelecimento dos Medici em 1512. 

Com seu claro reconhecimento da autoridade papal e suas tentativas, quer bem-sucedidas quer frustradas, de realização da unidade cristã, o Concílio de Florença revela elementos de fraqueza e de força no movimento conciliar do século XV. Em 1437, o papa Eugénio IV transferiu o pernicioso Concílio de Basileia para Ferrara e em 1438 para Florença. Um grupo remanescente permaneceu em Basileia, num desafio ao papa. Uma poderosa delegação grega visitou o Concílio, chefiada pelo imperador bizantino João VIII, procurando ajuda militar para Constantinopla e oferecendo em troca a união religiosa; fórmulas de acordo, mediante concessões mútuas, foram combinadas em relação a divergências teológicas a respeito da cláusula Filioquee, o tipo de pão usado para a Eucaristia. Em compensação, iniciava-se uma Cruzada com patrocínio papal, mas que foi desbaratada em Varna em 1444. A queda de Constantinopla, em uma década, liquidou todas as esperanças de união.

Outras uniões religiosas estabelecidas em Florença foram mais permanentes: os latinos foram unidos à Igreja copta do Egito (1440), aos arménios (1439), caldeus e maronitas (1445). O Concílio também desferiu um significativo golpe nos elementos do movimento contra o papa. Sérias deliberações com os gregos tiveram lugar em Florença, não em Basileia; considerou-se que a autoridade suprema residia no papa e não no Concílio per se. Após a morte de Eugénio IV (1447), Nicolau V conseguiu a reconciliação com os cardeais recalcitrantes que permaneceram em Basileia.


quinta-feira, 9 de março de 2023

Belém






Belém é um local onde os arqueólogos encontraram vestígios de ter sido continuamente habitada por ancestrais humanos desde há cerca de 1,4 milhões de anos com sucessivas migrações vindas de África. E a história conta que Belém foi ocupada uma dezena de vezes. Passou pelas mãos de filisteus, israelitas, gregos, romanos, bizantinos, pelo califado árabe, pelas cruzadas, por Saladino, pelos mamelucos e pelos otomanos, que perderam a cidade para os britânicos na Primeira Guerra Mundial. E, na partilha das Nações Unidas, assinada em 1947, Belém retornou aos palestinos, também chamados de filisteus.

Onde é hoje a Basílica da Natividade, o imperador Adriano havia construído um monumento em homenagem a Adonis. Foi o imperador Constantino que transformou o lugar numa basílica, por volta da primeira década dos anos 300. Os samaritanos a destruíram durante a revolta de 529. E foi o imperador bizantino Justiniano que construiu o edifício que foi preservado até hoje. Religiosos gregos ortodoxos, arménios ortodoxos e católicos romanos dividem o legado na basílica.




Ao entrar na Manger Street, à direita está a Mesquita de Omar e à esquerda, a basílica. A entrada tem apenas 1,2 metro. Os religiosos dizem que a porta é baixa para que os fiéis se curvem em sinal de respeito. Mas há quem diga que Justiniano ordenou que a entrada fosse reduzida para evitar que os cavalos entrassem na igreja e lá fizessem suas necessidades. De facto, dá para ver a marca da antiga porta, na forma de um arco, que era muito maior.

Para chegar à gruta onde teria nascido Jesus, descem-se algumas escadas. A pedra da gruta fica à mostra em algumas partes. Independentemente da crença, é incrível estar num lugar que alimenta tanta história. 
Os territórios ocupados estavam tomados pelo exército. O presidente da Autoridade Palestina na época, Yasser Arafat, estava confinado em Ramallah, cercado por soldados, armas e tanques. Israel exigia que Arafat controlasse o que o Estado hebreu chamava e chama de ataques terroristas. Os palestinos fazem a seguinte narrativa metafórica: Israel tranca o gato numa jaula. Depois maltrata e fere o animal. Arafat já pode vir para dominá-lo. Israel culpa-o pela violência que foi feita ao gato.
A Igreja da Natividade foi cercada no dia 2 de abril de 2002. O exército estava atrás de militantes. Havia cerca de quarenta, entre eles Ibrahim Abayat, um líder da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, um dos grupos responsáveis por atentados suicidas em Israel. Na basílica, estavam também quarenta religiosos e moradores da cidade que se abrigaram ali. No total, havia cerca de duzentas pessoas. A história que se conta é que os militantes organizaram as tarefas dentro da basílica. Dividiram grupos e turnos para cozinhar, limpar e ficar de guarda. Como eles não sabiam quanto tempo ficariam ali, a comida era racionada: uma refeição só por dia; sopa e macarrão. Era o que havia na despensa dos padres. Desde o primeiro dia, o exército cortou a água e a luz.

Em 2008, Belém recebeu cerca de um milhão de turistas, a grande maioria peregrinos com o desejo de conhecer a Terra Santa e a Igreja da Natividade, onde teria nascido Jesus. O Har Homa, que começou a ser construído em 2002, hoje abriga cerca de 6 mil famílias israelitas. Para ser construído, Israel destruiu a última área de floresta que restava na região. E, segundo os palestinos, o Har Homa fecha o cerco de colonatos judaicas em torno de Belém, que, junto com o muro, separam Belém de Jerusalém. O assentamento continua a crescer e avança para dentro de Belém, ou seja, apesar das resoluções das Nações Unidas contrárias à ocupação, Israel continua invadindo terras palestinas e expulsando os árabes da sua própria casa.




Belém tem cerca de 180 mil habitantes, somando-se a população dos vilarejos e de outras pequenas cidades ao redor, cuja administração também é da responsabilidade da autarquia de Belém. As mais próximas são Beit-Sahour e Beit-Jala, cada uma com cerca de 12 mil habitantes. A maioria da população daqui já foi católica, mas há um êxodo crescente por causa das dificuldades impostas pela ocupação: desemprego, sistema de saúde e de educação precários, falta de perspectiva para os jovens, medo do exército israelita. 

quinta-feira, 2 de março de 2023

A nova lei das Ordens Profissionais. Uma evocação das guildas medievais





A nova lei das Ordens Profissionais – tal como está – prevê alterar questões como as condições de acesso às respetivas profissões, introduzir estágios profissionais remunerados e criar uma entidade externa para fiscalizar os profissionais. No texto final foram introduzidas – no ano passado – alterações como precisões sobre as taxas cobradas durante o estágio e a possibilidade de serem reduzidas. A duração dos estágios fixou-se em 12 meses, podendo ser maior em casos excecionais. Outra das alterações foi a aprovação da existência de um órgão disciplinar, que não estava previsto na anterior lei-quadro, que prevê a fiscalização sobre a atuação dos membros das ordens profissionais, composto por elementos externos às profissões respetivas. Outra das questões polémicas é a introdução das sociedades multidisciplinares.

Segundo dados do Conselho Nacional das Ordens Profissionais (CNOP), existem atualmente em Portugal 20 ordens profissionais, tendo as duas últimas sido criadas em 2019, a Ordem dos Fisioterapeutas e a Ordem das Assistentes Sociais. Estas ordens regulam a atividade de mais de 430 mil profissionais.

Apesar de ser um diploma complexo, Marcelo Rebelo de Sousa teve dúvidas sobre alguns aspetos e decidiu pedir a fiscalização ao TC. Entre as dúvidas do chefe de Estado está:
  • Avaliação final do estágio profissional feita por um júri independente, de “reconhecido mérito”, com elementos externos à atividade profissional em causa;
  • Um órgão disciplinar com elementos externos à profissão em causa, que não sejam membros da associação pública profissional;
  • A criação de um órgão de supervisão que exerce funções de controle dos profissionais da classe em questão;
  • O exercício de uma função na Ordem Profissional em causa ser incompatível com o exercício de funções dirigentes em qualquer cargo da função pública;
  • A criação da figura do provedor em cada associação pública que seja externo à profissão em causa e que defenda os destinatários dos serviços da profissão em causa e que seria designado pelo bastonário, sob proposta do órgão de supervisão e que não poderá ser destituído a não ser por “faltas graves” no exercício da função.

As guildas medievais, corporações de ofício (do latim "corpora" ou "collegia") também chamadas guildas ou mesteirais, associações de pessoas qualificadas em um ofício, que surgiram a partir do século XII com as transformações no sistema feudal. O seu objetivo consistia no controlo económico e no regulamento das profissões nas cidades. Essas corporações de artesãos eram organizadas por uma hierarquia (mestres, oficiais e aprendizes) que providenciava pela qualidade técnica da produção das mercadorias. Uma pessoa só poderia trabalhar num determinado ofício, e teria de ser membro da corporação. Caso esse costume fosse desobedecido, corria-se o risco de até mesmo ser expulso da cidade.

Uma guilda (no inglês arcaico “geld” = pagamento) era provida de solenidades, ligadas por alguma modalidade de juramento de vinculação entre elas por meio de formas rituais de comer e beber. Instituições desse tipo aparecem em numerosas culturas. E, embora o pagamento de joia e taxas de filiação seja uma característica constante das guildas, há na base uma ligação mais antiga entre pagamento e sacrifício pagão que o cristianismo tentou eliminar. A guilda era, contudo, uma instituição com profundas raízes, mais fácil de assimilar do que de abolir; e durante toda a Idade Média suas únicas rivais como forma de organização social eram a família, com todos os seus dependentes e servidores domésticos, e a corte.

As guildas clericais surgiram no século X. Londres tinha uma guilda para a manutenção da paz, a qual contava com o bispo entre seus membros. O mais importante papel da guilda na Igreja era, provavelmente, a edificação de igrejas e, de certa maneira, a definição da paróquia como uma comunidade de fiéis. A manutenção de uma igreja paroquial, excetuando-se o altar-mor e o coro, era responsabilidade dos paroquianos, e o empreendimento de construir o edifício e conservar a estrutura em boas condições exigia um esforço cooperativo que a guilda estava perfeitamente apta a promover. As guildas paroquiais e as guildas sociais que se encarregaram do acréscimo e manutenção de capelas e altares em igrejas paroquiais fixaram honorários para os sacerdotes e financiaram a aquisição de luminárias e serviços particulares, mantendo a estreita associação entre guilda e vida paroquial até ao fim da Idade Média.

Duas manifestações da guilda serviram para distorcer a sua história. Uma foi a guilda mercantil, que nos aparece quando a documentação da vida urbana se intensifica do século XI em diante, e que manteve um papel central nos negócios de algumas cidades durante séculos. Sua natureza e função foram largamente incompreendidas, porque os historiadores tentaram classificar as guildas como entidades e não como meios adaptáveis a uma variedade de fins. Com o aumento do comércio, as cidades cresceram. Essas cidades eram construídas com a união de burgos (fortificações), igrejas e terrenos. Seus habitantes eram mercadores. Com o passar do tempo, criou-se um embate entre a lógica feudal e a lógica das cidades, que era comercial. Para solucionar esse conflito, surgiram as corporações, que nada mais eram do que associações de mercadores, que tinham como objetivo garantir liberdade para as cidades em que viviam, de modo que houvesse crescimento contínuo desses locais. O homem da cidade queria ser livre e muitas vezes buscava a liberdade através da violência. Por isso, muitas das guerras travadas nas cidades foram lideradas pelas corporações de ofício. As mercadorias deveriam, ao chegar na cidade, serem, a princípio, analisadas e compradas pelos membros das corporações. Caso algum estrangeiro ou não membro comprasse ou trocasse alguma mercadoria antes dos membros, o infrator seria punido e o produto confiscado pelo rei. Ou seja, as instituições de poder estavam diretamente ligadas e dispostas pelas associações de mercadores, que determinavam os preços, assim eliminando a concorrência e ganhando cada vez mais poder.

Quando os cidadãos procuravam obter privilégios do rei ou de algum outro senhor, era natural que usassem a guilda como símbolo e como reforço de seu objetivo comum; também era natural que os mercadores protegessem seus interesses no país e no estrangeiro do mesmo modo. A partir do século XII, os boroughs ingleses, com frequência, mas não invariavelmente, procuraram assegurar-se do direito de estabelecer uma guilda mercantil entre os privilégios da cidade e, em alguns lugares, como Ipswich em 1200, a filiação à guilda era equiparada à liberdade do borough.

Há muitas cidades, contudo, onde não existe o menor vestígio de uma guilda mercantil; aquelas na Inglaterra nas quais a guilda desempenhou um destacado e duradouro papel nos assuntos cívicos ou apenas uma função secundária, como Calne, no Wiltshire, ou então, como Leicester, tinham senhores que não estavam dispostos a permitir o controlo burguês de seus próprios tribunais. O funcionário que presidia uma guilda chamava-se alderman [intendente], e os intendentes municipais podem ter tido sua origem nas guildas. O principal magistrado de Grantham foi conhecido por esse título até ao século XIX. Na maioria dos boroughs, entretanto, a guilda mercantil logo perdeu o significado dominante que pudesse ter tido para o tribunal do borough, que se converteu num órgão tanto administrativo como judicial. Mesmo assim, o edifício no qual o tribunal se reunia era frequentemente conhecido como Guildhall, como aconteceu em Londres, onde nunca houve qualquer guilda mercantil.

O outro uso urbano da guilda foi como um meio de organizar e controlar as artes e ofícios. É quase certo que as guildas foram usadas em algumas incipientes tentativas de artesãos afirmarem uma independência corporativa em relação aos patrões comerciantes, mas na época de documentação mais completa, final da Idade Média, as guildas ou corporações de ofícios regulamentavam a qualidade, a produção e o recrutamento para os diversos ofícios visando os interesses do empregador e do artesão qualificado e estabelecido. Uma vez mais, era a finalidade da organização, não a sua forma, que a distinguia das outras guildas, e era o contexto social do momento, não alguma ideologia peculiar da guilda, o que determinava seu objetivo. Entretanto, nos séculos XIV e XV, numa sociedade profundamente impregnada de formas religiosas, todas as guildas tinham fins religiosos e sociais que eram tão proeminentes quanto quaisquer outros fins. A manutenção de capelães, de orações pelos mortos, de providências para assistir aos irmãos e enfermos e indigentes e a seus dependentes, eram características regulares das guildas ou corporações de ofícios, assim como eram os únicos objetivos confessados de muitas outras irmandades.

Também era usual, nessa época, as guildas professarem o culto de determinado santo ou santos padroeiros, uma convenção que refletia e promovia a associação de santos com certos ofícios e profissões. A Virgem era objeto generalizado de devoção, mas de todos os cultos, o de Corpus Christi foi, provavelmente, o mais influente. Desde começos do século XIV, representações rituais da Paixão de Cristo na Páscoa evoluíram para elaborados espetáculos teatrais em igrejas e procissões alegóricas nas ruas; foi nesses eventos que os autos e outras formas de dramaturgia laica encontraram suas origens. No século XVI, a Reforma varreu as guildas e muitas de suas obras, mas as formas sociais da nova era ficaram devendo suas origens ao mundo medieval, em que a solene irmandade da guilda tinha sido não só uma força estabilizadora, mas também um potente motor de mudança.



Síndicos dos comerciantes de fazendas em Amsterdam. Rembrandt, 1662

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

A Palestina vista por Helena Salem





Texto baseado em Helena Salem 1948-1999], jornalista brasileira correspondente no Médio Oriente. 

Helena Salem, filha de imigrantes judeus, graduou-se em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1970, no auge da ditadura militar. Mas, desde meados da faculdade, começou a trabalhar na editoria internacional do Jornal do Brasil, onde se especializou em Médio Oriente. Depois de passar um ano em Itália, com uma bolsa de pós-graduação em Política Internacional, cobriu a Guerra do Yom Kippur, em 1973, nos países árabes, para o mesmo JB, permanecendo na região durante quatro meses. Ainda que de origem judaica, escreveu com abertura e simpatia sobre a Questão Palestiniana, o que haveria de lhe custar um alto preço. A partir daí teve uma vida profissional movimentada. Foi editora internacional do jornal Opinião, conheceu o exílio em Portugal, onde seria correspondente na Revista o Expresso. De volta ao Brasil, com a amnistia em 1979, trabalhou no Jornal da República e colaborou com diversos meios de comunicação, entre eles Folha de S. Paulo, até regressar ao quotidiano da redacção, como repórter especial de O Globo. Decidiu então dedicar-se à cobertura de cinema, sua (também) velha paixão. Cobriu os principais festivais nacionais e internacionais, e, com o cineasta Jorge Bodanzky, correalizou o documentário Igreja dos Oprimidos, inspirado num livro de sua autoria; esta coprodução franco-brasileira para a televisão francesa ganhou o prémio Margarida de Prata, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nos últimos anos de vida trabalhou como repórter especial para o jornal O Estado de São Paulo, escrevendo sobre cinema.
«Depois que voltei, certa vez, um editor de jornal, quando eu saía para uma chamada “grande reportagem”, advertiu-me: "Helena, ao falar com a fulaninha, não deixe de olhar para os pés dela, os dedos, como toma café, tudo, isso é que é importante, mais do que o que ela disser. Jornalismo é isso, o colorido, as fofocas"»
«Como, no caso, se tratasse de uma excelente atriz, inteligente, com várias coisas a dizer, não resisti em ponderar para o tal editor (que mais tarde cairia em desgraça): “Fulaninho, jornalismo é isso para você. Pode ser que tenha razão. Inclusive como sua repórter tenho de fazer o que você me pede. Mas te asseguro que para o La República, de Roma, jornalismo pode ser outra coisa; para o Expresso, de Lisboa, uma outra; para o Libération, de Paris, ainda outra, e o The Guardian, de Londres, também. Para só te citar alguns. Então, fulaninho, seja mais humilde, diz que você quer isso, porque a tua opinião sobre jornalismo é isso.” Também eu não fui humilde na resposta e ele certamente quis me esganar com os olhos. Mas era impossível, mais uma vez, engolir aquela ideia de uma verdade indiscutível, com que se tenta impor como universal um ponto de vista particular. No Brasil, a forte influência do jornalismo americano, supostamente imparcial, sem conotações políticas, verdadeiro, contribuiu muito para a difusão desse mito do jornalismo sem ideologia, sem cor, puro. Que, a propósito, de puro geralmente não tem nada. Como se a verdade revelada em cada linha não se ligasse à luz utilizada, ao local onde você escolhe colocar a câmara.»
Para ir de Belém para Jerusalém, o dono do hotel é que nos dá as coordenadas: toma-se o autocarro 21, na Hebron Road, perto de Beit-Jala. E não esquecer de o passaporte sempre à mão. A passagem custa 6 shekels. É sentar-se e aguardar que chegue o motorista. Se olharmos à volta pela janela do autocarro é possível que chegue a hora de algum homem estender o tapete no chão e voltar-se para Meca para orar à hora certa. Essa disciplina para a reza é uma imagem de marca no mundo muçulmano. Não importa o que estejam a fazer, param e rezam. A maioria de nós ocidentais, com agendas superlotadas, não consegue nem uma vez sequer no dia esses dez minutos para se comprometer com seja lá o que for: com a respiração, com um pouco de meditação, de reflexão. Terminada a reza, enrola-se o tapete e prossegue-se o que se estava a fazer.

O percurso é rápido, cerca de vinte minutos, se não tivermos problemas no checkpoint. O motorista entra em Beit-Jala e segue por uma rua bastante íngreme e longa que cruza a cidade. Passamos por um checkpoint volante do qual se avista o checkpoint de Jerusalém. O motorista pára neste checkpoint. Um soldado aparece no primeiro degrau com uma metralhadora em punho. Dá uma olhada geral e desce. O motorista recolhe os documentos de todos os passageiros, no caso o passaporte, e manda-nos descer do autocarro, em fila do lado de fora. Um dos soldados sobe novamente e faz a vistoria à procura de alguma coisa, como armas, explosivos, bombas, facas, qualquer objeto que possa ser usado num atentado. Outro soldado inspeciona a mala ou o saco dos passageiros. E um terceiro soldado confere os documentos. É cada vez menor o número de palestinos que têm autorização para entrar em Jerusalém: só doentes graves que precisam de tratamento especializado, quem têm emprego comprovado, e alguns casos especiais que recebem autorização temporária. E eles recebem uma permissão de acesso. Esses documentos é que são conferidos. Os soldados são muito jovens. Em Israel, é obrigatório adolescentes, homens e mulheres, a partir dos 17 anos, alistarem-se. E a mistura de tanta juventude com uma arma dessas na mão só poderia assustar.

Israel começou a restringir a movimentação dos palestinos principalmente a partir da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando ocupou mais terras árabes, deixando os palestinos, na época, com 22% dos 43,5% da parte que havia sido destinada a eles pela partilha definida pelas Nações Unidas, em 1947. A Resolução 242 da ONU dava aos israelitas 56,5% da área. Hoje, com o crescente aumento dos assentamentos ilegais e com a construção do Muro de Israel, os palestinos vivem em menos de 11% do território dividido pela ONU. Na Cisjordânia, são cerca de setecentos postos de controle, entre checkpoints, cercas de arame farpado, trincheiras e tipos diversos de bloqueios. Setenta e quatro por cento das ruas e estradas dos territórios ocupados são controlados pelo exército israelita. Esses dados são da organização não governamental Palestine Monitor.

A partir da primeira intifada, em 1987, foi implementado o sistema de permissão de acesso a Jerusalém, ao que o governo de Israel denomina território judeu. Depois, em 1988, proibiu a viagem de Gaza à Cisjordânia e vice-versa. Isso até hoje só é possível em datas e casos especiais, com autorização. Outra data marcante foi 1991; com a Guerra do Golfo, Israel, que é aliado dos Estados Unidos, se sentia entre inimigos e, vendo-se ameaçado de todos os lados, quis fechar mais as fronteiras. O sistema de permissão de acesso ao território israelita ficou mais rigoroso e individualizado. 
Desde 2000, quando aconteceu a segunda revolta palestina contra a ocupação, o cerco se fechou ainda mais. E com a construção do Muro de Israel, a partir de 2002, os palestinos dizem que vivem numa prisão a céu aberto.

Os atentados suicidas começaram em 2001, pelos chamados homens-bomba, e mulheres-bomba também, do Hamas, da Jihad Islâmica e da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa. Em 2006, uma mulher-bomba, com 57 anos,
 Fátima Omar Mahmud Al-Najar, era mãe de 9 filhos e avó de 41 crianças. Dias antes de cometer suicídio, Fátima havia participado no cordão humano formado por dezenas de mulheres palestinas em torno da mesquita de Beit Hanun, em Gaza, para proteger militantes palestinos sitiados por soldados israelitas. No dia 3 de novembro de 2006, o exército de Israel atirou contra mulheres e crianças que estavam ali com a justificação de que os homens estavam tentando fugir vestidos de mulheres. O exército ocupou Beit Hanun por duas semanas. Dezanove pessoas morreram, a maioria mulheres e crianças. No dia 23 de novembro, Fátima se aproximou de um grupo de soldados e detonou os explosivos. Ela morreu e cinco militares ficaram feridos.

Junto ao muro da Cidade Velha de Jerusalém h
á bastante judeus ortodoxos, roupa preta e cabelo com tranças a cair à frente das orelhas, com o livrinho da Torá pertinho dos olhos. A rua movimentada é a Jaffa Road, uma rua comercial famosa da cidade. Vê-se que há uma boa mistura de judeus e árabes por aqui. Os árabes que estão aqui moram ou trabalham na cidade, porque a maioria que vem dos territórios ocupados não pode circular por Jerusalém. Eles têm um destino certo, e se forem apanhados fora do itinerário são mandados de volta e podem até ser presos. A Cidade Velha ou Cidade Antiga de Jerusalém é retangular e cercada por uma enorme muralha. Em 1981, o lugar foi nomeado pela Unesco Património Mundial da Humanidade. Foi construída, provavelmente, pelo rei Salomão, entre 1000 e 900 a.C. Existem oito portões. A cidade concentra os principais locais sagrados e está dividida em quatro partes: a judaica, a cristã, a arménia e a muçulmana.

O bairro cristão está na parte noroeste. A Basílica do Santo Sepulcro é o lugar mais visitado, junto com a Via Dolorosa, o caminho percorrido por Jesus. A sudoeste, está o bairro arménio. O bairro muçulmano fica a nordeste, onde estão localizadas as duas mesquitas — a Cúpula da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa — e o Haram Ash-Sharif, chamado pelos judeus de Monte do Templo. O bairro judeu fica a sudeste, onde também ficam o monte Sião e o túmulo do rei David. Para entrar no bairro árabe tem de se encontrar o portal de Jaffa. As ruas da Cidade Velha são bastante estreitas e cheias de gente, muitos turistas, europeus, muitos africanos, orientais, gente de todos os lugares. E, além dos lugares sagrados, lojas, árabes ou beduínos que veem a alma das pessoas através dos olhos, muitas lojinhas de lembranças ou recordações.

Já é final de tarde. Os trabalhadores estão voltando para casa, e é hora também de nós regressarmos a Belém, o nosso hotel. O autocarro está lotado. São palestinos bastante simples que encontram serviço braçal em Jerusalém. A maioria trabalha na construção civil, como pedreiro. Muitos trabalham, inclusive, em assentamentos ilegais, construindo casas e prédios em terras palestinas, em terras que foram tomadas deles mesmos. No checkpoint, a mesma rotina: descemos, mostramos os documentos e, desta vez, temos de trocar de autocarro. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Génios e QIs





Christopher Langan alcançou uma espécie estranha de fama. N
ascido em 25 de março de 1952 é um fazendeiro de cavalos e autodidata americano relatado por ter a pontuação mais elevada de QI estimado no 20/20 da ABC entre 195 e 210. Em 1999 foi descrito por alguns jornalistas como "o homem mais inteligente da América" ou "do mundo".

Tornou-se a face pública do 'génio' na vida americana, uma celebridade fora de série. Convidado a participar em programas televisivos de atualidade, e abordado para entrevistas por várias revistas do jet-set, chegou a ser tema de um documentário do cineasta Errol Morris – tudo por causa de um cérebro que parecia desafiar qualquer descrição. O seu QI, medido com precisão, rebentava todas as escalas. Por causa disso, foi inventado um teste de QI especial para pessoas extraordinariamente inteligentes, e Langan foi submetido a esse teste, complicado demais para gente comum. Resultado: acertou todas as perguntas, exceto uma. 

No seu historial, Langan aos seis meses já falava com desenvoltura. Com três anos, ouvia na rádio aos domingos o locutor ler em voz alta banda desenhada, e ele acompanhava o text, aprendendo sozinho a ler. Aos cinco anos, começou a fazer perguntas ao avô sobre a existência de Deus – e lembra que se dececionou com as respostas. Na escola, Langan conseguia sair-se muito bem em testes de idiomas que nunca havia estudado. E mais: se tivesse a chance de dar uma olhadela na matéria por dois ou três minutos antes da chegada do professor, acertava todas as questões. No início da adolescência, quando trabalhava numa fazenda, começou a ler tudo o que encontrava sobre física teórica. Aos 16 anos, conseguiu decifrar uma obra-prima reconhecidamente intrincada – Principia Mathematica, de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead. Obteve nota máxima no exame padronizado que era aplicado a alunos do ensino médio na candidatura à universidade.




Quando Christopher tinha cerca de 14 anos, conta um irmão: “costumava desenhar coisas só de brincadeira, e pareciam fotografias. Aos 15 anos, imitava Jimi Hendrix perfeitamente na guitarra. Christopher faltava às aulas, aparecendo apenas nos testes, e ninguém podia fazer nada em relação a isso. Ele conseguia assimilar a matéria de um semestre inteiro em apenas dois dias. Em seguida, resolvia o que tinha de resolver e, depois, retomava o que estava fazendo antes.

O pai biológico de Langan, partiu antes de ele nascer, e constou que morreu no México. A mãe de Langan casou mais três vezes e teve um filho com cada marido. Seu segundo marido foi assassinado e o terceiro morreu por suicídio. Langan cresceu com o quarto marido, que foi descrito como um "jornalista fracassado" que continuou bebendo. Trancou os armários da cozinha para que os quatro meninos não pudessem chegar, e usou um chicote como medida disciplinar. A família era muito pobre; Langan lembra que todos eles tinham apenas um conjunto de roupas cada. A família mudou-se, vivendo por um tempo numa tenda de uma reserva indígena. Depois, em Virgínia City, no Nevada. Quando as crianças estavam na escola primária, a família mudou-se para Bozeman, no Montana, onde Langan passou a maior parte da infância. 

Na sequência de bulling na escola primária, aos 12 anos começou a treinar pesos motivado pelo desejo de lutar contra os agressores. Langan frequentou o ensino médio, mas passou os últimos anos envolvido em estudos por conta própria. Ele fez isso depois de os professores lhe terem negado os seus pedidos peculiares. Sozinho, entrou pela matemática avançada, física, filosofia, latim e grego. Langan recebeu duas bolsas de estudo integrais, uma para o Reed College, em Oregon, e outra para a Universidade de Chicago. Ele escolheu o primeiro, que mais tarde chamou de "um grande erro". Teve um "caso real de choque cultural" no ambiente urbano desconhecido. Ele perdeu a bolsa de estudo uma vez que sua mãe não enviou as informações financeiras necessárias. 

Langan regressou a Bozeman e integrou a corporação de Bombeiros do Serviço Florestal por 18 meses antes de se matricular na Montana State University-Bozeman. Diante de problemas financeiros e de transporte, e acreditando que ele poderia ensinar os professores mais do que eles poderiam ensinar a ele, desistiu. Ele assumiu uma série de empregos em mão-de-obra intensiva por algum tempo, como trabalhador da construção civil. E depois passou a ser um fazendeiro ao estilo dos tradicionais cowboys.

Segundo Gladwell, quando Oppenheimer tentou envenenar o tutor em Cambridge, ele usou seu conhecimento social e seus pais usaram sua influência para que Oppenheimer simplesmente fosse enviado para ajuda psiquiátrica sem quaisquer consequências criminais ou académicas; em contraste, quando a mãe de Langan perdeu um prazo para ajuda financeira, Langan perdeu a bolsa de estudo e quando Langan tentou convencer a administração da faculdade no Reed College a mudar uma classe para um momento posterior, seu pedido foi negado. Langan cresceu na pobreza e teve um início de vida instável, cheio de abusos, o que criou um ressentimento de autoridade décadas após as dificuldades académicas. Ele teve pouca ou nenhuma orientação dos pais ou professores, e nunca desenvolveu as habilidades sociais necessárias para lidar e superar os desafios.

Em 1999, Langan e outros formaram uma Associação sem fins lucrativos chamada Mega Foundation para aqueles com QI de 164 ou acima. Em 2004, Langan mudou-se com sua esposa, uma neuropsicóloga clínica, para o Norte do Missouri, onde instalou um rancho de cavalos no qual realiza atividades para a Mega Foundation. Em 2008, ele apareceu nu programa tipo "Quem quer ser milionário" tendo ganhado US $ 250.000. 

Langan desenvolveu uma ideia que ele chama de "Modelo Cognitivo-Teórico do Universo", uma conexão mente-realidade através da qual pretende construir a tal Teoria de Tudo. Nada de dogmas religiosos. Todavia, não há bela sem senão, dado ter-se tornado num espatifado teórico de conspirações com seguidores da estafada "alt-righ" e outros da extrema-direita.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Ludwig Wittgenstein e o golpe de asa de 1,7 toneladas de ouro entregues ao Reichsbank



Quando a Alemanha anexou a Áustria no Anschluss, em 1938, a família vienense Wittgenstein passava a ser uma família de judeus abrangida pelas leis de Nuremberga de 1935.Três dos avós de Ludwig Wittgenstein eram judeus. E os Wittgenstein, como austríacos, também eram por lei cidadãos da Grande Alemanha. A 13 de março de 1938 a Alemanha anuncia oficialmente a anexação da República da Áustria, tornando-a mais uma província do 3º Reich. E a 18 de março de 1938, Ludwig Wittgenstein, estando em Cambridge, no Trinity Colege, escreve uma carta a Keynes pedindo-lhe a opinião, uma vez que passando a ser cidadão alemão, e segundo a lei alemã, seria um judeu alemão. Portanto, tornar-se britânico era agora imperativo.

Wittgenstein começou a investigar a aquisição da cidadania britânica ou irlandesa com a ajuda de Keynes, e aparentemente teve de confessar a seus amigos na Inglaterra que ele já havia deturpado a ascendência com um avô judeu, quando na verdade ele tinha três. Na qualidade de judeu alemão, se fosse agora viajar para a Áustria, poderia não conseguir voltar a sair de lá. O mundo dá muitas voltas, e o Anschluss colocou Wittgenstein face a face com a realidade étnica da sua família, obrigando-o a ter de lidar com nazis de alta patente em Berlim. Ludwig Wittgenstein ficou muito preocupado com a vida das irmãs a viver em Viena, quando Hitler avisou: “se os judeus conseguirem uma vez mais mergulhar as nações numa outra guerra mundial, a consequência será a aniquilação da raça judia na Europa”.

Paul Wittgenstein, irmão mais velho de Ludwig, famoso pianista de uma só mão (havia perdido o braço direito na linha da frente russa da Primeira Guerra Mundial ao serviço da Alemanha), por sua vez, ao ver por onde ia o verão de 1938, decidiu emigrar rumando a Inglaterra antes de ir para os EUA. 
Paul Wittgenstein viajou até Inglaterra para informar Ludwig da situação da família e pedir o seu conselho sobre o local em que deveria instalar-se. O irmão recomendou-lhe a América. Ele partiu tão repentina e silenciosamente que por um tempo as pessoas acreditaram que ele era o quarto irmão de Wittgenstein a ter cometido suicídio. Paul tinha duas filhas pequenas, e receava que as filhas fossem retiradas e educadas pelo Estado nazi. A sua fortuna, a sua família e a sua carreira de pianista, tudo isso pesava no prato da balança. Mas as irmãs - Hermine e Helene - rejeitaram os seus apelos para que o acompanhassem. Em todo o caso, Helene não podia abandonar o marido, Max Salzer, porque estava gravemente doente. 

As Leis de Nuremberg classificavam as pessoas como judeus - Voll Juden - se tivessem três ou quatro avós judeus; e mestiços - Mischling - se tivessem um ou dois. Isso significava que os Wittgenstein estavam abrangidos por essa lei. Foi de Nova Iorque que Paul encetou diligências diplomáticas no sentido de negociar com o 3º Reich a salvação das irmãs em Viena, cujo destino, se tudo corresse mal, poderia acabar em Auschwitz. A família Wittgenstein apoiada por três advogados, um deles incluído por sugestão dos participantes nazis, iniciaram-se as conversações com a Chancelaria do Reich, o Ministério do Interior, e o departamento de divisas estrangeiras do Reichsbank. A base do negócio consistia na transferência para o Reichsbank de uma grande porção de divisas estrangeiras da família guardadas na Suíça.

Ludwig Wittgenstein apenas se tornou súbdito britânico a 12 de abril de 1939. Agora na posse de passaporte britânico, podia finalmente regressar a Viena e daí viajar até Berlim para tentar assegurar o futuro das suas irmãs. A 5 de julho de 1939 viajou até Berlim instalando-se no Grand Hotel Esplanade, perto de Potsdamer Platz (por curiosidade e coincidência, faço aqui um parêntese, para dizer que foi neste Hotel, com outra arquitetura evidentemente, que eu me instalei em agosto de 1989, para frequentar o Congresso Internacional de Imunologia, que nesse ano se realizou em Berlim Ocidental). Na realidade, a partir do momento em que o Reichsbank entrou em ação, os Wittgenstein passaram a negociar diretamente com as autoridades de Berlim. Foi o próprio Hitler quem tomou a decisão final sobre a situação dos Wittgenstein. Os números mostram como era difícil conseguir uma Befreiung. Em 1939 existiam 2100 pedidos de reclassificação racial: o Fürer somente deferiu doze.

O que disse Ludwig Wittgenstein naquela quinta-feira em Berlim, no Reichsbank, 6 de julho de 1939, não se sabe. Apenas a sua irmã Hermine dizia que se orgulhava do modo como ele se comportara, impressionando o chefe da divisão de divisas estrangeiras do Reichsbank, pela sua clareza e a sua precisão nos detalhes. Sabe-se que esteve no dia seguinte em Viena com esta irmã, e que duas semanas depois viajou no Queen Mary até Nova Iorque para se encontrar com o seu irmão, Paul, e o advogado. Sabe-se que ficou no hotel Lexington Avenue, perto do Rockefeller Center. Mais tarde, Ludwig Wittgenstein disse que a única pessoa de que gostara em Nova Iorque fora um rapazito italiano que engraxava sapatos no Central Park e que duas vezes cuidara dos seus. Pagou-lhe o dobro do preço que ele pedira.

A 10 de fevereiro de 1940, o chefe da Reichsstelle für Sippenforschung, Dr. Kurt Mayer, enviou uma carta à divisão de Viena do Partido Nazi, comunicando a decisão tomada sem quaisquer restrições, de que Hermann Wittgenstein, nascido em Korbach a 12 de setembro de 1802, deveria ser considerado como sendo de sangue alemão para efeitos das Leis de Nuremberga. A carta refere uma ordem do Führer e chanceler do Reich. Essa decisão estendia-se aos seus descendentes para que não lhes viesse a causar quaisquer outras dificuldades. Faltava pouco mais de um ano para que as deportações dos judeus austríacos tivessem início em pleno. As irmãs de Wittgenstein - Hermine e Helene - sobreviveram até ao fim da guerra sem voltarem a ser importunadas. Fora, de facto, Ludwig Wittgenstein que dera o golpe de asa final em Nova Iorque quando se encontrou com o irmão para dar por encerrado o negócio. Paul Wittgenstein providenciou então o pagamento ao Reichsbank, nada mais, nada menos, que 1,7 toneladas de ouro – o equivalente a 2% das reservas de ouro austríacas de que Berlim se apoderara em 1939. Uma vez a salvo em Nova Iorque, Paul viria a revelar a sua dureza nas subsequentes negociações. A sua família integrou o grupo dos refugiados itinerantes, refugiando-se em Cuba antes de ser autorizada a juntar-se-lhe em 1941.

O pai de Ludwig Wittgenstein, Karl Wittgenstein, foi um dos empresários mais bem-sucedidos da monarquia do Danúbio. Karl veio de uma família alemã de origem judaica assimilada Meyer-Wittgenstrin, cujas raízes estão na pequena cidade de Laasphe na Renânia do Norte-Vestefália. Nasceu em 1847, sexto de onze filhos de Hermann Christian. Três anos depois, a família mudou-se para Vösendorf, na Baixa Áustria, onde nasceram os seus quatro irmãos mais novos, e para Viena em 1860. Aos onze anos, Karl Wittgenstein tentou, pela primeira vez, fugir de casa e, aos dezassete, deixou a escola após uma ameaça de repreensão: duvidara da imortalidade da alma em um ensaio. Em 1865, com um passaporte que havia comprado a um estudante de Viena com falta de dinheiro, viajou para a América. Levava consigo apenas um violino. Em Nova Iorque trabalhou como empregado e músico de bar, como professor (matemática, alemão, latim, grego e música, violino e trompa) e, finalmente, como timoneiro num barco do canal. Passados dois anos voltou para Viena. E então é a parir daqui que inicia a sua carreira na indústria siderúrgica como desenhador técnico no "laminador Teplitz" no norte da Boémia. Karl casou-se com Leopoldine Kallmus, em 1873, nascida em Viena e descendente de um talentoso pianista de origem judaica de Praga. O casal mudou-se para Teplitz por um ano, e a seguir para uma vila no distrito de Meidling. Depois disso, a família mudou-se para um imponente palácio, conhecido por “Palácio Wittgenstein”, no Alleegasse (hoje Argentinierstraße).

Em 1876 Karl Wittgenstein foi eleito para o Conselho Executivo, e em 1877 nomeado diretor. Poucos anos depois era o principal acionista. Em 1886, Karl Wittgenstein cedeu as suas fábricas de laminação de Teplitz à indústria siderúrgica de Praga, em troca de ações. Em 1889, Karl Wittgenstein finalmente funda a Poldihütte, uma empresa privada em Kladno. Ano do nascimento de Wittgenstein – Ludwig. Numa turbulência em que se viu investigado pelo governo austríaco, devido a práticas comerciais duvidosas, Karl Wittgenstein decidiu retirar-se de todos os seus cargos. Com 52 anos, viajou pelo mundo com a esposa, Leopoldine Kallmus. Além disso, ele vendeu toda a sua propriedade industrial, mas adquiriu em 1899 da Böhler AG a sua propriedade florestal de 5.000 hectares. Transferiu os recursos para a Suíça, Holanda e EUA, onde investiu em imóveis, ações e títulos. Após a morte de Karl Wittgenstein em 1913, houve várias mudanças de propriedade dentro da família. 
Portanto, a sua vasta fortuna sobreviveu à Primeira Guerra Mundial e à Grande Depressão. Desde o início dos anos 30, Hermine Wittgenstein (1874-1950), a mais velha das irmãs era a única proprietária do Palacete, por ser solteira. Durante a Segunda Guerra Mundial, o palácio magnificamente mobilado sobreviveu à guerra quase sem danos. Após a guerra, o palácio foi vendido ao Österreichische Länderbank, que o demoliu na década de 1950 para aí construir um edifício residencial moderno.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Dwight Carlton Harris – um sobrevivente do Lusitânia



Já passavam alguns dias após o naufrágio do Lusitânia, a 7 de maio de 1915, quando Dwight Carlton Harris (1884-1970) decidiu então escrever a sua mãe de um hotel em Dublin.



Graças a Deus eu vim em segurança através da experiência mais terrível que alguém poderia imaginar! Mal posso escrever sobre isso. Estou a sofrer bastante com o choque, mas felizmente sinto-me melhor esta manhã. A viagem até sexta-feira às 14h foi perfeita. Nunca vi o oceano tão calmo. Em mau tempo de nevoeiro na manhã de sexta-feira, das 7h às 11h. Soberbo dia ensolarado claro depois. Levantei-me às 11, li durante algum tempo no convés, e por volta das 12h30, fui ao escritório do Purser e peguei o pacote de joias e dinheiro; $500 em ouro. Fui para a minha cabine, pendurei o pingente de diamante e pérola no pescoço, também o anel de noivado e o anel de esmeralda. Fixei o grande broche de diamante dentro do bolso do meu casaco e, antes de sair da cabine, destranquei a bolsa de lona que tinha o meu colete salva-vidas. Coloquei o ouro de US $ 500 no bolso das calças e depois desci para almoçar! Enquanto estava à mesa, tive uma sensação mais intensa, nervosa, que veio sobre mim, e levantei-me e saí sem terminar o almoço. Caminhando de volta para o lado estibordo sou surpreendido por uma faixa branco-esverdeada na água. Era o torpedo.

Fiquei sem pinta de sangue. Um momento depois, uma explosão estonteante sacudiu o navio e enviou uma enorme coluna de água duas vezes mais alta que o navio; água do mar, carvão, lascas de madeira, desceram sobre nossas cabeças. Fui esmagado contra a borda lateral do navio, e todo encharcado. Corri de volta e, quando cheguei à entrada principal com o navio bem alinhado a estibordo, fiquei com medo de entrar na minha cabine, pois achava que ela estava a afundar. Tirei os sapatos e deitei fora o meu casaco com o livro e o chapéu. Peguei no colete salva-vidas e coloquei-o. A essa altura, a água estava a chegar ao convés. Um oficial me chamou da ponte para subir, mas eu balancei a cabeça. Levantei-me no trilho e, quando a água subiu até o convés, atirei-me ao mar e nadei para longe do navio o máximo possível.

 Dwight Carlton Harris viu tudo o que aconteceu. O primeiro bote salva-vidas, que já estava na água, tinha apenas dois marinheiros nele quando o chamaram para nadar até lá. Mas ele não foi. O segundo barco estava suspenso e pendurado em linha reta com as cordas encravadas. O terceiro e o quarto barcos estavam lotados de pessoas e em segurança. O quinto barco também não correu bem, inclinou-se quando começaram a baixá-lo, e todos caíram. O sexto barco desceu em segurança. A ponte do capitão estava nivelada com a água, e a popa subiu rapidamente, e o navio mergulhou para a frente. Então, uma grande bolha branca-esverdeada e turbulenta se formou. A massa humana lutava no meio dos destroços, enquanto o navio se afundava.

A bolha ficou cada vez maior, tendo chegado a vinte metros dele com os destroços. Ao aproximar-me de um barco virado ouviu um rapazinho gritar por seu pai. Nadou até ele; disse-lhe para não chorar e agarrar o seu colarinho, o que ele fez. Com os membros entorpecidos do frio, conseguiu chegar ao barco virado. Depois, por sorte, marinheiros de salvamento vieram e os levaram num bote salva-vidas danificado. Avistaram um veleiro. Mas um dos botes salva-vidas intactos chegou ao veleiro antes deles, colocando pessoas a bordo e depois dando a volta. Finalmente foram recolhidos depois de terem estado na jangada danificada uma hora.

Sábado de manhã, levantei-me às 8 e saí e comprei um jogo de roupas secas. Comprei uma camisa, pijama, meias e boné na noite em que fui salvo. Um fato azul, e uma camisa macia e gola, e uma capa de chuva. Enquanto eu estava me adaptando, um jovem americano de cerca de 18 anos entrou na loja; disse que queria algumas roupas. O lojista perguntou se ele tinha algum dinheiro e, quando ele disse que não, disse que nada feito. Então eu aprontei-me a ajudá-lo e disse ao lojista para encaixá-lo, o que ele fez. Nunca vi ninguém tão grato. Ele tinha uma expressão tão horrível em seu rosto, eu nunca vou esquecer. Perguntei se ele tinha batido no rosto, mas ele disse que não, e então percebi que ele deve ter perdido alguém. Perguntei-lhe, e ele disse que era a mãe dele. Coitado, agradeço a Deus que você não estava comigo. Cheguei a Dublin no comboio das 15h e estou na cama desde que cheguei, totalmente acabado. Eu tive o médico ontem - eu estou bem da cabeça aos pés. Mas meus pés estão muito doridos. Eu tive um golpe no meu pé direito, e parecia ontem como se estivesse um pouco envenenado. Fo por isso que mandei ontem chamar o médico. Ele tratou, e já parece muito melhor. Vou a Londres esta noite. O comboio sai às 8h10 e chegarei lá às 6h da manhã. A travessia de barco, que eu temo, é de apenas 2 horas e 40 minutos.