Quando o meu amigo soube que eu não ia votar nas autárquicas disse que eu era um mau cidadão. E eu, encolhendo os ombros, disse-lhe que o meu cadáver se estava ralando. Tinha visto uma pessoa rondar a minha casa. Mas, quando saí à rua, percebi o que se tinha passado ao deparar-me com um cadáver estendido na rua em cima do passeio. Já não uma pessoa, mas um cadáver.
Há um grande enigma entre o que é a vida biológica e o sentido da vida. A fronteira entre o agir e o deixar de ser, entre a vida biológica e a vida com sentido. A ironia é uma espécie de imunidade à tragédia humana. Um antídoto não apenas contra a ingenuidade dos outros, mas contra o próprio risco de viver numa crença coletiva vazia. Sob as camadas ideológicas, políticas e tecnológicas, continuamos primatas, criaturas que inventaram sistemas morais e estéticos para suportar o peso da autoconsciência. Essa lembrança é desconfortável para muitos, porque desmonta o verniz da civilização e revela o que há de instintivo, de territorial, de agressivo – mas também de frágil e de efémero – na nossa espécie.
A humanidade é uma espécie que se distrai de si mesma através de ideologias, modas e causas momentâneas. A ironia com humor faz parte do nosso sistema imunitário para resistir à insanidade coletiva, sem cair no desespero, tanto mais em tempos de tanta informação veloz que faz perder profundidade espiritual. Esse enigma existencial, que apenas alguns poucos se interessam desassombradamente, por decifrar. O corpo e os elementos retornam à ordem natural que é algo em vez de nada. É o limite último do pensamento humano: qualquer resposta já pressupõe aquilo que quer explicar. O nada, paradoxalmente, já é algo.

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