sexta-feira, 9 de agosto de 2019

“Português Suave” – revisitando Agostinho da Silva na “vontade de ser Portugal”



A vontade de ser Portugal, ou de se fazer Portugal, nunca ninguém soube ao certo das razões de ser Portugal. É possível que haja outras hipóteses para além daquelas já apresentadas: a vontade de certo número de barões, não senhores feudais, mas sujeitos que não queriam ser mandados por outros senhores; ou a vontade de empurrar os mouros mais para sul. Por que não admitir outra hipótese mais metafísica, digamos assim. Nós sabemos pouco da máquina da História. Sã Bernardo, o abade de Claraval tinha não apenas preocupações religiosas, talvez as políticas fossem as mais importantes. Estamos na dificuldade de saber que coisa é a vontade de um homem, ou se essa vontade não é mais do que o fenómeno visível de uma outra vontade. 

          Não há nada seguro, mas sabemos que acontece: aquilo que os políticos gostam de chamar carisma pode efetivamente galvanizar outros homens. Atribuir movimentos de gente à vontade de um homem é também outra hipótese, veja-se o caso de um Hitler. Para o movimento político São Bernardo criou um grupo de frades soldados: os templários. Uma tropa para limpar a Europa do que ainda cá ficara de muçulmano, e desimpedir os acessos aos lugares sagrados do Oriente.
          É uma hipótese como outra qualquer admitir que Bernardo de Claraval, como tinha boas relações com a Casa de Borgonha, e como aconteceu que uns cavaleiros vieram para o Noroeste da Península fazer a tal limpeza de que já falei, é provável que quando um desses cavaleiros veio para o Porto Calem, Bernardo tenha admitido que ele não teria de vir só pelo espírito de aventura, mas para levar por diante uma ideia mais gloriosa que o Santo tinha na cabeça. Tudo hipóteses!
          Então quanto às origens de Portugal palpamos nas trevas, não temos segurança nenhuma. Tinha muito pântano que os frades de Alcobaça ajudaram a secar. Os frades de Alcobaça são de São Bernardo. E os seus frades militares ajudaram a fazer Portugal. De resto a terra portuguesa era o que é hoje, rende pouco, dá poucas possibilidades. O mar sim, o mar era bom, não só dava o que era preciso para alimentar, como, porque tinha muitos e bons portos, muita navegação se acolhia aí. A navegação que vinha do Mediterrâneo lá para cima, para o norte da Europa, acolhia-se em Portugal.
          Se o país rendia pouco como era, renderia menos com areia. Uma coisa que havia a fazer era pôr uma fortaleza que impedisse o avanço da areia. Foi o que D. Dinis mandou fazer, plantar pinheiro para impedir a vinda da areia, e ainda dava o pinhão manso, a resina, e, quem sabe, a madeira. É evidentemente uma plantação ambígua.
          Um parente meu, de quem sou muito amigo, diz-me que não sabe quem é. Eu pergunto-lhe: você não é fulano? Ele diz, sou; onde é que mora? Rua tal; que idade tem? Tanto. Sabe tudo a respeito dessa pessoa e, quando acaba de expor a sua própria biografia, diz: mas não sei quem sou. Este homem põe um problema metafísico extraordinário. Que hipótese é que eu ponho para esse esquecimento? Aquele homem podia ter sido outras coisas, foi desde criança encaminhado naquele sentido, ou ele próprio se encaminhou e criou uma personagem que era o senhor Fulano. O que aconteceu foi que esse meu amigo se dedicou inteiramente a uma das pessoas que podia ter sido, mas que agora não tem mais significado. Ele precisaria de tirar dentro de si outro heterónimo com o qual se entretivesse. Mas é tarde! Agora já não dá. 

Perguntado a Agostinho da Silva, se não foi um erro os portugueses não terem aproveitado Colombo 
          Os portugueses já sabiam como se chegava à Índia. E sabiam que por ali não se chegava à Índia mais depressa. De maneira que acharam, para o que eles queriam, era pura perda de tempo. O que os portugueses queriam era chegar às especiarias para temperarem os europeus. Sim, talvez não fosse preciso produzir tanto cravinho em Zanzibar ou tanta canela lá no oriente, se não fosse preciso temperar muita coisa no mundo. Talvez os portugueses sejam uma gente tão especialmente interessante que seja necessária para temperar o mundo. Quando se diz que houve um objetivo económico nos Descobrimentos, é evidente que houve. Mas havia outras coisas que eram importantes: ver como era o mundo. Mas para isso faziam-se despesas e era preciso pagá-las. E por outro lado era preciso que agente se divertisse na vida. O Sérgio tem razão, que empresa desastrosa! Portugal só perdeu dinheiro com aquele negócio! 
O Velho do Restelo então teve razão. Somos pobres e vamos ficar mais pobres. 
          O essencial é que havia dois partidos em Portugal. O partido da terra e o partido do mar. Quem venceu foi o partido do mar. Mais ou menos pela mesma altura, na China deu-se o fenómeno contrário: quem venceu foi o partido da terra, e eles destruíram a sua marinha e fecharam as portas. Não tinha havido nada dos Descobrimentos com o Velho do Restelo. Não se tinha dado o mar pronto ao homem. A grande arma chinesa foi a cultura. Os mongóis ficaram mansinhos num instante, nem era preciso pôr muralhas nem coisa nenhuma, foi uma despesa inútil. Porque é que a cultura chinesa fez isso e a cultura portuguesa não fez? Já viu as ligações fantásticas que há de um lado e do outro do mundo? Os portugueses tiveram o seu império e foram lá até à China dar-lhes notícias. E agora todo o mundo ficou admirado com o acordo dos portugueses em relação a Macau.
          Esta economia é imoral. Se a pessoa tiver escrúpulos, não fica rico, sabe como é? É tirar ao próximo o máximo que for possível. Quando um operário que trabalhava numa fábrica de fazer pasta de dentes lembrou ao patrão que se podia tirar mais dinheiro daquilo alargando o buraco por onde saía a pasta, a pessoa sem dar por isso gastava mais pasta. Esse sujeito usou de quê? Fraude? Desonestidade completa! Nós vivemos do mal que existe. Se os industriais farmacêuticos fizessem Te Deum, missas solenes todos os dias para a doença sair completamente do mundo como é?
          Está um homem à porta da barraca a fumar o seu cigarrinho, talvez não de tabaco, mas de outra erva qualquer fumável, com pouco mais lá dentro que a máquina de café, absorto na paisagem gozando a vida. Passa um americano, ou um americanizado e pergunta: “Então a terra dá?”. Resposta: “A terra não dá nada, é uma miséria.”. Afirma o outro: “Prantando dá!”. Resposta: Ah! Prantando dá! Dá sim senhor!” Pergunta: “O senhor é doente?” Resposta: “felizmente não sou doente, posso trabalhar, posso fazer qualquer coisa, ainda ontem andei que tempos!” Pergunta: “Mas o senhor nunca tem vontade de trabalhar?” Resposta: “Ah muitas vezes, mas reajo sempre.” 
Ora aqui está um ponto interessante. Não é que o português não goste de trabalhar. Se ele gosta do trabalho, trabalha. Mas tem de lhe agradar o trabalho. Se não lhe agradar não trabalha. A economia do país era uma economia de ajuda mútua, uma economia de convivência, de cooperação. As pessoas se juntavam, se associavam sem grandes formalismos, cultivavam em comum e depois repartiam o produto. Por conseguinte aquilo era comunitarismo agro-pastoril, e talvez até marítimo. Ponto número um: era uma economia em que o domínio não era o lucro. Segundo ponto: aprendiam pela experiência. Terceiro ponto: uma política constituída por uma série de municípios, com os seus forais, com as suas constituições particulares, de várias origens, com os seus costumes marcados ali. 

O que dá sentido à frase é o verbo




Este “bilhetinho”, como Agostinho da Siva gostava de lhes chamar, são uma espécie de “podcasts” de um tempo em que ainda não havia internet, mas que Agostinho profetizava que a física estava desembocando num enigma: “em física a energia é um ente vivo. Nós somos uma fração dessa energia. Não há coisa nenhuma no mundo que não seja energia, a não ser uma coisa grave que os físicos ainda não puseram a claro, que é o intervalo entre os grãos de energia.” 
O que dá sentido à frase é o verbo. O homem chegou e… o outro. Que é que ele fez? Matou, beijou, que é que ele fez? Não se percebe nada. Então o verbo é aquilo que dá significado à frase. O Evangelho de São João diz exatamente que ao princípio era o verbo. Podia ser a palavra. Mas João vai ao grego buscar a palavra que é logos, donde vem a palavra lógica. Então podia traduzir-se do Evangelho de João: ‘ao princípio era a lógica’ – a coerência. Quer dizer: o fundamental do universo é que ele é coerente, é que ele é lógico. 
Então o logos grego, o verbo do São João, seria aquilo que dá significado ao mundo. A ciência é aquilo que conduz logicamente à porta do mistério. Agora como é, a ciência é capaz de penetrar o mistério ou não? O mais longe que se pode chegar é à matemática. Então eu digo: o mundo é uma matemática. E pergunto logo: sem o matemático? Nunca teve arquiteto?



Nesta foto vê-se o local do suicídio de Antero de Quental juto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada – ilha de São Miguel nos Açores. Em 1890, devido à reação nacional contra o ultimato inglês, de 11 de janeiro, aceitou presidir à Liga Patriótica do Norte, mas a existência da Liga foi efémera. Quando regressou a Lisboa, em maio de 1891, instalou-se em casa da irmã, Ana de Quental. Nesse momento o seu estado de depressão era permanente. Parece que Antero era um bipolar.Então em junho regressa a Ponta Delgada. E em setembro, no dia 11, comete suicídio com dois tiros, num banco de jardim junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança, onde está na parede a palavra "Esperança". Diz Agostinho da Silva: 
O Antero em certas alturas da sua vida, queria o nada, como se fosse um budista puro. Ligar-se ao nada. Nesse momento o nada é alguma coisa. É a dificuldade do budismo. Bom, querer nada é um engano. Quer-se sempre alguma coisa. Por exemplo: ‘quero viver’. Para mim basta esta resposta, porque há pessoas que não querem viver. Por que razão é que a pessoa quer morrer? A pessoa em geral apresenta várias razões. Se diz que quer viver, excelente! Mas é preciso querer. Inútil perguntar a uma pessoa o que quer se ela não está na disposição de querer seja o que for (rizos…) 

PortoGraal e o culto popular do Espírito Santo




O culto popular do Espírito Santo é um culto de identidade para o povo português. O culto popular, não o culto eclesiástico do Espírito Santo. Quais as origens do culto do Espírito Santo em Portugal? Tudo começa com Joaquim de Fiore [1135-1202] – frade cisterciense e filósofo místico, defensor do milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo. Dedica-se a estudar o problema da Trindade, uma coisa complicadíssima dentro da teologia. O tempo e a eternidade são uma e a mesma coisa. Assim, há uma época em que a História é uma história do Pai; uma época em que a História é uma história do Filho; e uma época em que deve haver a história do Espírito Santo. A época em que ele estava era a época do Filho; a época do Velho Testamento tinha sido a época do Pai; e haveria de vir a época do Espírito Santo. Sempre embrenhado no seu labor, Fiore retirou-se para o eremitério de Pietralata, acabando depois por fundar a Abadia de Fiore nas montanhas da Calábria. A nova abadia tornou-se, ainda em vida de Joaquim, o centro de uma nova ordem independente, embora baseada nos princípios beneditinos da Ordem de Cister, mas mais rigorosa e mais mística.

Entremos agora por um excurso histórico a fim de percebermos o contexto da ligação de Joaquim de Fiora e a entrada do Espírito Santo joaquimita em Portugal. A Calábria fazia parte do reino da Sicília. Tudo começou com Roberto Guiscardo, na sequência das invasões normandas, conquistando a cidade de Régio da Calábria, e onde confirmou o seu título de duque da Calábria. Um irmão de Roberto, no comando de um grupo de cavaleiros, em 1061, desembarcou em Messina e invadiu a ilha que então estava sob domínio árabe. Em 1072 conseguiu chegar a Palermo. Depois em 1127, o Condado da Sicília uniu-se ao Ducado da Apúlia sob o governo de Rogério II da Sicília. Rogério tinha o apoio do antipapa Anacletro II, que o coroou "rei da Sicília" na catedral de Palermo, no Natal de 1130. Em 1139, o Tratado de Mignano garantiu a Rogério o reconhecimento de seu reinado pelo papa legítimo. Foi por meio de seu almirante Jorge de Antioquia que Rogério então atacou o Império Bizantino e fez da Sicília o poder marítimo dominante no Mediterrâneo por quase um século. No tempo de seu neto, Guilherme II, o reino da Sicília foi governado durante duas décadas em paz e prosperidade. Porém, a sua morte sem herdeiros em 1189 iniciou um período de caos, e em 1194 o reino caiu sob o domínio da dinastia Hohenstaufen.

A ilha da Sicília proclamou-se independente e elegeu como rei Pedro II de Aragão [1178-1213] – Conde de Barcelona desde 1196 e senhor de Montpellier desde 1204 até à sua morte.

Mais tarde viria na sucessão Pedro III de Aragão, o Grande [1239-1285] – Conde de Barcelona e rei de Valência desde 27 de julho de 1276; e rei consorte da Sicília desde 1282 até à sua morte. Ora, a filha mais velha de Pedro III de Aragão, Isabel [1271-1336], veio para Portugal e casar com D. Dinis [1261-1325], rei de Portugal. Não existem fontes históricas exatas sobre a data e local de nascimento de Isabel, pelo que este ponto não é consensual. Sabe-se, no entanto, que cresceu e recebeu esmerada educação em Barcelona, onde estava instalada a Corte de Pedro III de Aragão.

Assim, é natural que Isabel tenha trazido na cabeça muitas histórias, entre as quais a história de Joaquim de Fiore e as ideias do Espírito Santo. D. Dinis instalou Isabel em Alenquer, com mais uns tantos frades franciscanos discípulos de Joaquim de Fiore, que na altura se chamavam espirituais para os distinguir dos outros que eram os observantes. E rompe assim em Alenquer a grande festa do Espírito Santo, que foi evoluindo com várias composições. A primeira festa é em Alenquer já com ela, numa igreja que ainda lá existe. Há três momentos: a coroação de uma criança como Imperador do Espírito Santo; a distribuição de comida gratuita; e a libertação dos presos. Este culto com o passar do tempo foi-se transladando para muitos outros sítios, nomeadamente para os Açores, e daqui para San Diego da Califórnia, bem como obviamente para o Brasil.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Santo Graal




É uma expressão medieval que designa normalmente o cálice usado porJesus na última Ceia e onde, na literatura, José de Arimateia colheu o sangue de Jesus durante a crucificação. Mas este nome também aparece nas sagas celtas e nos mitos do Rei Artur e na busca dos cavaleiros da Távola Redonda. Na Idade Média a lenda cristianizou-se. Teria sido a própria Maria Madalena que guardou o cálice e o levou para França onde passou o resto de sua vida. A lenda tornou-se popular na Europa nos séculos XII e XIII, fixada nos romances de Chrétien de Troyes, particularmente através do livro "Le Conte du Graal" publicado por volta de 1190, e que conta a busca de Parsifal pelo cálice. Parsifal é descrito como o filho da Dama Viúva, designação que se tornou estimada pela Maçonaria. Robert de Boron, entre 1200 e 1210 escreve a versão mais popular da história, já com todos os elementos da lenda como é conhecida hoje: Roman de L'Histoire du Graal. 

Os romances do Graal eram originalmente provenientes da corte do conde de Champanhe, que estava intimamente associado com a fundação da Ordem do Templo. Mas na literatura o Graal entra numa diversidade de contextos de grande confusão e mistificação. Por exemplo, Godofredo de Bolonha descendia de Lohengrin, o Cavaleiro do Cisne. E Lohengrin era filho de Parsifal. Guilherme de Gellone, governante do principado medieval no sul de França durante o reinado de Carlos Magno, é o herói de um poema de Wolfram von Eschenbach, conhecido como Willehalm. Diz-se que Guilherme estava associado à família do Graal. Parece assim assim ser a única figura das obras de Wolfram cuja identidade histórica pode efetivamente ser determinada. Parece que Wolfram se está a referir a uma família real. 

Na literatura medieval, a procura do Graal representava a tentativa por parte do cavaleiro de alcançar a perfeição. Em torno dele criou-se um complexo conjunto de lendas relacionadas com o rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda para obtê-lo e devolver a paz ao reino. Misturam-se elementos pagãos e cristãos relacionados com a cultura celta. 

O Graal não passa de literatura medieval, apesar de se reconhecer que alguns personagens possam realmente haver existido. Uma grande coincidência foi as lendas do Graal terem vindo à superfície no auge das Cruzadas. Uma mistura de acontecimentos que envolvem o reino franco em Jerusalém; os templários estavam no pico d seu poder; e a heresia cátara estava a ganhar u impulso que ameaçava verdadeiramente o monopólio do cristianismo em Roma. Em 1209, um exército de cerca de trinta mil cavaleiros e soldados a pé, da Europa do Norte, desceu como um furacão sobre o Languedoque, a zona montanhosa que faz parte hoje do sul de frança. Na guerra que se seguiu, todo o território foi devastado. Quando a Cruzada acabou, o Languedoque tinha sido completamente transformado em barbárie, tal como era caracterizado o resto da Europa. Nessa altura o Languedoque não fazia parte do que oficialmente é a França. Era um principado independente, cuja língua e cultura tinham mais a ver com a Catalunha e Aragão do que com a França. O principado era governado por famílias nobres, sendo a casa dos condes de Toulouse e a poderosa casa de Trencavel as mais importantes. E dentro dos limites deste principado florescia uma cultura que, na época, era a mais avançada e sofisticada da Cristandade, excetuando naturalmente Bizâncio. A instrução era tida em elevada consideração, o que não acontecia na Europa do Norte. Floresciam a filosofia e outras atividades intelectuais como a poesia. Estudava-se o grego, o árabe e o hebraico. E em Lunel e Narbonne prosperavam escolas devotadas à cabala (a antiga tradição esotérica do judaísmo). 

Nas representações de José de Arimateia em vitrais de igrejas, ele aparece segurando não um cálice, mas dois frascos ou galheteiros". Independentemente da veneração popular, esta referência é fundamental para o entendimento do simbolismo do Santo Graal. No século XV esta tradição assumia claramente uma grande importância para indivíduos como o rei René d’Anjou, que colecionava “taças Graal”. 

Avalon é a mítica ilha das macieiras onde vivem os heróis e deuses celtas e onde teria sido forjada a primeira espada de Arthur - Excalibur. Na Cornualha, o nome Avalon - que em galês se refere à maçã - é relacionado com a festa das maçãs, celebrada durante o equinócio de outono. Acredita-se que Avalon é Glastonbury, onde tanto Arthur como Guinevere teriam sido enterrados. A abadia de Glastonbury, onde repousaria o casal, é tida também como o lugar de conservação do Graal. 

A primeira referência literária ao Graal é "O Conto do Graal", do francês Chrétien de Troyes, em 1190. Tratava-se de um poema inacabado de 9 mil versos que relata a busca do Graal, da qual Arthur nunca participou diretamente, e que acaba suspensa. Um mito por si só, "O Conto do Graal" é uma obra de ficção baseada em personagens e histórias reais que serve para fortalecer o espírito nacionalista do Reino Unido, unindo a figura de um governante invencível a um símbolo cristão. 

José de Arimateia foi, portanto, o primeiro custódio do Graal. O segundo teria sido seu genro Bran. No final da sua vida Bran terá sido decapitado e a sua cabeça levad apar aLondres como um talismã.Algumas seitas sustentam que o Ciclo do Graal não estará fechado enquanto não aparecer o terceiro custódio. Esta resposta parece vir com "A Demanda do Graal", de autor desconhecido, que coloca Galahad como único entre os cavaleiros merecedor de se tornar guardião do Graal. 

Toda a história é mudada quando contada pelo alemão Wolfram von Eschenbach, quase ao mesmo tempo que Boron. Em "Parsifal". Eschenbach coloca na mão dosTemplários a guarda do Graal que não é uma taça, mas sim uma pedra: "Sobre uma verde esmeralda. Ela trazia o desejo do Paraíso: era objeto que se chamava o Graal"! Para Eschenbach, o Graal era realmente uma pedra preciosa, pedra de luz trazida do céu pelos anjos. Ele imprime ao nome do Graal uma estreita dependência com as forças cósmicas. A pedra é chamada Exillis, Lapis exillis ou Lapis ex coelis, que significa "pedra caída do céu". 

É a referência à esmeralda na testa de Lúcifer que representava seu Terceiro Olho. Quando Lúcifer, o Anjo de Luz, se rebelou e desceu aos mundos inferiores, a esmeralda partiu-se e a sua visão passou a ser prejudicada. Um dos três pedaços ficou em sua testa, dando-lhe a visão deformada que foi a única coisa que lhe restou. Outro pedaço caiu ou foi trazido à Terra pelos anjos que permaneceram neutros durante a rebelião. Mais tarde, o Santo Graal teria sido escavado neste pedaço. Compare o Graal-Pedra de Eschenbach com a não menos mítica pedra Filosofal que transformava metais comuns em ouro, homens em reis, iniciados em adeptos. Matéria e transmutação, seres humanos e sua transformação. 

O Graal-Taça é tido como um episódio místico e o Graal-Pedra como a matéria do conhecimento cristalizado em uma substância. Já o Graal-Livro é a própria tradição primordial, a mensagem escrita. Em "José de Arimateia", Robert d Boron diz que "Jesus Cristo ensinou a José de Arimateia as palavras secretas que ninguém pode contar nem escrever sem ter lido o Grande Livro no qual elas estão consignadas, as palavras que são pronunciadas no momento da consagração do Graal". Em "O Livro da Tradição", no capítulo referente ao Graal, encontramos interessantes referências aos espetaculares fenómenos desencadeados pelas esmeraldas e por outras pedras verdes. 

É lógico que esta explicação física para o Graal não exclui a existência de um Graal espiritual e místico do qual o objeto material seria o reflexo. Ao final, pergunta-se: qual a natureza do Graal? Cálice, Pedra ou Livro? A base pagã foi exaustivamente explorada por James Frazer em “The Golden Bough”: um ritual relacionado com o ciclo das estações a morte e o renascimento do ano. Tanto na mitologia irlandesa como galesa, há repetidas referências à morte, renascimento e renovação, bem como um processo regenerativo semelhante em relação à terra.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A inteligência do polvo


A inteligência do polvo é surpreendente. E a consciência? Bem, muitos ainda devem estar lembrados daquele polvo, chamado Paul, um octopus vulgaris, que no Mundial de Futebol 2010, acertava no resultado dos jogos. Paul morreu de causas naturais em 26 de outubro de 2010 enquanto descansava. Quando chega a hora, o seu corpo desfaz-se aos bocados. Para as suas capacidades mentais, o polvo tem uma via curta demais.

Para alguns cientistas, o grau de inteligência cognitiva é tal que, a ideia de o polvo ter uma consciência não choca. Mas isto levanta um problema: que mecanismos estão então envolvidos na formação de uma consciência? Como o polvo está longe de ter um cérebro como nós, o modelo explicativo para a formação da consciência dele não pode ser concebido numa estrutura anatómica rígida de cérebro. É então de pressupor que a consciência precisa do resto do corpo para além do cérebro.

Não existe uma linha anatómica clara que nos permita dizer: “esta espécie é consciente; aquela espécie apenas é uma máquina insensata.” Nem faz sentido falar de consciência em outros animais, tendo como ponto de partida o nosso paradigma de “estado subjetivo interior”.

Vendo o exemplo do Reino Unido, que é de resto muito semelhante a outros países, a legislação governamental regula com mão pesada as experiências com animais vivos, para garantir que os procedimentos salvaguardem a ausência de dor no animal.

Ora, no Reino Unido, para além dos habituais mamíferos, também é incluído o polvo octopus vulgaris, um invertebrado como é sabido, muito abundante no ocidente que vai desde a costa sul de Inglaterra até ao litoral do Senegal, passando pelo Mediterrâneo. Mas mais, uma outra espécie de polvo – eledone cirrhosa – espécie típica portuguesa, não está incluída na lista da tal legislação protetora.




O polvo não tem um cérebro como os mamíferos. O sistema nervoso dos moluscos é formado por um conjunto de gânglios que se distribuem da cabeça até aos tentáculos, controlando várias funções. Mas os cefalópodes são os únicos moluscos em que os gânglios estão condensados de forma a funcionar como um cérebro centralizador. O que o caracteriza é a capacidade de armazenamento de memórias, e consequentemente, capacidade de aprendizagem.

Um polvo é, em primeiro lugar, um organismo com um vasto sistema nervoso e um corpo ativo e complexo. Tem capacidades sensoriais muito boas e capacidades extraordinárias no campo do comportamento. Se há alguma forma de experiência subjetiva que acompanhe a sensação e a ação num sistema vivo, ela existe em grande quantidade num polvo.

Os polvos, pelo menos os de algumas espécies dos mares da Austrália pouco profundos, têm um estilo oportunista e exploratório do mundo. São curiosos e gostam de novidade. E reconhecem o mesmo objeto ainda que transformado ou visto de outras perspetivas. É a chamada faculdade das “constâncias perpétuas”, que é uma proeza de outros invertebrados como as abelhas e algumas aranhas. Como elas, os polvos também são bons navegadores, não se perdem no regresso a casa, mesmo seguindo percursos diferentes no regresso.

O polvo tem um sistema nervoso diferente do nosso, em que a distribuição de neurónios pelos tentáculos é mais rica e de certo modo mais independente do comando central no cérebro. Usando a metáfora do jazz, o cérebro é o maestro e os membros os músicos. São executantes que recebem só instruções em bruto e muito gerais da parte do maestro, que confia que eles toquem qualquer coisa que se ouça. O contraponto não é entre o sistema nervoso e o corpo, mas entre o cérebro central e o resto do organismo, que tem a sua própria organização nervosa. O corpo é o seu próprio controlador até certo ponto, em vez de um corpo guiado pelo cérebro.

Quando se trata de camuflagem, os polvos são imbatíveis. Podem tornar-se completamente invisíveis a um observador a menos de um metro. Ajuda-os a circunstância de quase não terem partes rígidas, podendo assumir, praticamente, qualquer forma que queiram.

Os biólogos que estudam as genealogias dos animais ao longo da evolução darwinista dizem-nos que para encontrarmos o antepassado comum a polvos e a humanos temos de recuar no tempo até cerca de 600 milhões de anos, uma criatura achatada em forma de verme a partir da qual se bifurcou em duas linhagens: um ramo para a linhagem dos vertebrados, e o outro ramo para a linhagem dos cefalópodes. Pelo menos até há muito pouco tempo os biólogos achavam que para um animal ter uma inteligência acima da média entre os animais tinha de possuir um cérebro de tamanho significativo. E isso é o que acontece com os polvos, no ramo evolutivo dos cefalópodes, e com os humanos no ramo evolutivo dos vertebrados.

Durante algum tempo acreditou-se, com base no registo fóssil, que o grupo dos cefalópodes (polvos, chocos e lulas) apareceu pela primeira vez há 170 milhões de anos. A ideia de que os cefalópodes modernos irromperam de repente, e há relativamente pouco tempo, pode ser usada para sustentar a perspetiva de que os grandes sistemas nervosos dos cefalópodes apareceram numa espécie de acidente evolucionário único, a que se seguiu alguma diversificação. É como se fosse um excesso de inteligência de acaso, tanto mais em animais com uma vida tão curta e tão associal.




Mas estas ideias baseadas nas provas fósseis, e ainda por cima pouco seguras em animais de corpo mole, mudaram com a entrada em cena dos estudos genéticos. E é assim que as estimativas em relação a ancestralidades estão todas a mudar. Assim, os polvos não aparecem há 170 milhões de anos, mas sim há 275 milhões. Atrasar esta divisão 100 milhões de anos não é brincadeira nenhuma num paradigma científico que se reclama do rigor e da exatidão. Os cenários que se colocam nas conjeturas evolutivas são naturalmente muito diferentes, já para não falar também na ecologia dos oceanos.

Em 2015, foi sequenciado o primeiro genoma do polvo. Dos genes podemos deduzir novas informações sobre como os sistemas nervosos são construídos. E o que é interessante é que as ferramentas genéticas a nível molecular para a construção dos sistemas nervosos do homem e do polvo são as mesmas. A perspetiva mais recente é de que não foi por acaso que os sistemas nervosos complexos dos polvos evoluíram da forma como evoluíram.

A inteligência em vertebrados e cefalópodes são experiências independentes na evolução da inteligência animal. O que se passou no ramo dos vertebrados entre os mamíferos e aves, passou-se no ramo dos cefalópodes entre polvos e lulas. A relação entre os polvos e as lulas parece ser bastante semelhante à relação entre os mamíferos e as aves. Há 320 milhões de anos, apesar de em corpos absolutamente diferentes, uns de um lado com esqueleto ósseo, outros sem esqueleto nenhum, desenvolveram-se cérebros de alta complexidade.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

“Zás! Estava de volta. Foi a sensação mais gloriosa que alguma vez tive”



O título deste artigo é uma frase dita por T.C., um caso do acervo de casos clínicos de Oliver Sacks, que um dia foi atingido por um raio quando telefonava de uma cabine telefónica perto de um lago. Foi atingido na cara e projetado pelo ar. 

Então começa a contar que se lembra de ter olhado à sua volta e ver o seu corpo estendido no chão. “Disse para mim mesmo ‘merda, estou morto!”. Viu algumas pessoas a correr para o corpo e uma mulher, que estivera fora da cabine à espera de poder usar o telefone, debruçada sobre ele tentando reanimá-lo. Sentiu-se a flutuar numa luz branca azulada e viu os seus filhos percebendo que eles estavam bem, e ele com uma sensação de bem-estar e de paz. 

T.C. soube que tinha regressado ao seu próprio corpo porque sentiu dores – dores provocadas pelas queimaduras que sofrera na cara e no pé esquerdo, os pontos de entrada e saída da descarga elétrica que o seu corpo sofrera. 

Duas semanas mais tarde, já se sentindo com forças, apesar de alguns problemas de memória, regressou ao trabalho. O que aconteceu a seguir ainda o deixou mais espantado: a vontade insaciável, que nunca tinha tido, de ouvir música para piano. A música que gostava de ouvir era rock. E então, na sequência do seu súbito desejo de ouvir música para piano, T.C. começou a ouvi-la na sua cabeça. Uma música interminável que nunca se esgotava. Quando queria que parasse tinha que a desligar com esforço. 

Assim, três meses depois de ter sido atingido pelo raio, T.C., que antes era um homem jovial e um bonacheirão dedicado à família, não dedicava o tempo livre a mais nada a não ser à música. Passou a acreditar que lhe fora concedido um dom especial depois de ter passado por uma transformação. Até ali nada crente em deuses, depois da sua experiência de quase morte tornou-se mais espiritual e crente na reencarnação. 

Para quem seja um duro de ouvido a nível musical, como eu, olha para esses grandes talentos musicais como se fossem uns extraterrestres. A propensão para a música aparece na infância, sendo visível e determinante em todas as culturas, e provavelmente remonta aos começos da nossa espécie. E, no entanto, a música é das propriedades humanas mais misteriosas, dado que, na perspetiva da evolução dos processos biológicos de causa e efeito, não se sabe para que serve. É algo muito diferente do que se vê noutros animais, como por exemplo o canto dos pássaros. Assim como todas as artes, é possível que a música faça parte daqueles excessos em que a vida é pródiga. 

A capacidade para apreender a música pode ser afetada nos dois sentidos: num extremo conduzindo a uma incessante repetição de melodias que ficam no ouvido, como acontece em certos ataques epiléticos; e no extremo oposto ser praticamente anulada por outro tipo de lesões cerebrais. 

As pessoas com ouvido absoluto, como um Mozart, conseguem imediatamente, sem pensar, saber o registo exato de qualquer nota, sem reflexão ou comparação com uma referência externa. Conseguem fazer isto não só com qualquer nota que ouçam, mas com qualquer nota que imaginem ou ouçam na cabeça. A precisão do ouvido absoluto é variável, mas estima-se que a maioria das pessoas que o têm consigam identificar mais de setenta tons na zona média da amplitude auditiva, e que cada um destes setenta tons tem, para elas, uma quantidade singular e característica que o distingue em absoluto de qualquer outra nota. Para a maioria de nós, uma capacidade destas de reconhecer tons auditivos como um sexto sentido, parece uma coisa sobrenatural, porque é um sentido que nunca poderemos vir a ter. Mas para quem nasce com ouvido absoluto, é uma coisa perfeitamente normal. Até acontece, se ouvirem uma peça familiar de música na tonalidade errada, ficarem muito perturbadas. 

O ouvido absoluto é particularmente interessante porque ilustra todo um outro reino de perceção, de propriedades que a vida tem, algo que a maioria de nós nem consegue imaginar. Mas a natureza vital é muitas vezes traiçoeira, não dando beleza sem senão. Existe uma maior prevalência de associação de ouvido absoluto com cegueira precoce. Estima-se que cerca de metade das pessoas com ouvido absoluto nasce cega, ou cega muito precocemente. 

Uma outra bizarria são as sinestesias musicais, como por exemplo ver cores associadas a sons musicais. Um verdadeiro sinesteta pode envolver qualquer um dos sentidos numa junção instantânea de sensações, como cada intervalo musical ter o seu próprio sabor. As sinestesias podem ser mais frequentes do que as estimativas que são feitas, dado que a maioria das pessoas que as têm muitas vezes não chegam a averiguar que aquilo que lhes acontece não acontece aos outros. Acham que as sinestesias que possuem fazem parte da normalidade. Essas pessoas e nós só ficamos a saber se lhes perguntarmos. O caso de Paulo D.G. é engraçado porque um dia na escola, quando estava distraído a olhar para o espaço, o professor perguntou-lhe para onde ele estava a olhar. E ele respondeu que estava a contar as cores até sexta-feira. A turma inteira desatou a rir, e a partir daí guardou estes assuntos para si próprio. Só mais tarde se veio a interessar pelo fenómeno da sinestesia depois de um colega lhe ter falado nisso. 

De todas as formas de sinestesia, a sinestesia musical com efeitos de cor, é uma das mais comuns em músicos profissionais, e provavelmente a mais dramática. E a variabilidade é quase infinita. Para muitos músicos a cor faz parte da música, não se trata de nada adicional que venha a despropósito. E em certos casos de compositores, a cor faz parte integral do processo criativo. 

As técnicas atuais de imagens do cérebro através de Ressonância Magnética Funcional e Tomografia de Emissão de Positrões, mostram inequivocamente a ativação simultânea ou co-ativação de duas ou mais áreas sensoriais do córtex cerebral de sinestetas. 

Só nos primeiros anos deste século V.S. Ramachandran e E.M. Hubbard contribuíram com grande engenho experimental para o estudo da sinestesia. Por exemplo, conseguiram fazer a distinção entre a sinestesia genuína da pseudo-sinestesia. Mas o mais notável foi ter-se verificado a existência de sinestesias também para conceitos e ideias. Desde a descrição dos primeiros casos de sinestesia que a palavra significa fusão de sentidos, porque se pensava que só existia ao nível sensorial. Mas há pessoas que fazem este tipo de junções noutras categorias, uma união de ideias em vez de sensações: certos dias da semana serem masculinos e outros serem femininos; certos números serem maus e outros serem bons. Para estes sinestetas, não se trata de caprichos nem de fantasias, mas sim de correspondências fixas. 

A explicação para estes fenómenos que acabei de descrever reside no grau pouco habitual de transativação entre áreas do córtex sensorial que são, na maioria de nós, funcionalmente independentes. Consiste num excesso anatómico de ligações neurais entre diferentes áreas do cérebro. Parece que é assim que nascemos, tal como acontece com outros animais. Mas depois na primeira infância dá-se um grande desbaste, aquilo que outros autores, como por exemplo Baron-Cohen, designam por “poda de sinapses entre neurónios”. Toda a observação comportamental dos bebés sugere que os sentidos do recém-nascido estão fundidos, longe de estarem bem diferenciados como na vida adulta. Em vez disso estão misturados entre si numa confusão sinestésica. 

A partir daqui se abrem novas perspetivas para o estudo do fenómeno da perceção. Que combinações adequadas de perceções são necessárias para reconhecer plenamente o mundo externo e os seus conteúdos? Que tipo de combinação certa de sensores é preciso reunir para que possamos ter aquela epifania, quando damos uma dentada numa bela maçã vermelha acabada de ser colhida da macieira numa refrescante manhã de um solarengo dia de agosto. Supõe-se que nos indivíduos com sinestesia, uma anomalia genética impede a eliminação completa da hiperligação que existe à nascença e que deveria ser cortada, mas que persiste na vida adulta um maior ou menor remanescente do labor embrionário da criação. Sabe-se que é na adolescência, um estádio do nosso desenvolvimento chave em muitas coisas, que se dá o rito de passagem para vida adulta. Mas não se sabe ainda se isto se deve a mudanças hormonais, ou a reorganizações cerebrais independentes, ou a um movimento direcionado com determinação, regido por formas mais abstratas de pensamento.

Sinestesias


O compositor Alexander Scriabin era tido como um sinestésico. Assim como Olivier Messiaen, ou o pintor Kandinsky, também exemplos de artistas sinestésicos, encontravam equivalências entre som, cor e sentimento.
Em 1997, Vilayanur S Ramachandran, neurocientista do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia, e Edward Hubbard, atualmente na Universidade de Wisconsin-Madison, iniciaram em 1997 uma investigação sobre a sinestesia. A dificuldade estava em encontrar pessoas assim, dada a sua baixa incidência, na melhor estatística 1/ 2.000. 
No início desse ano letivo, com uma turma de 300 alunos tentaram a sorte. Estando o anfiteatro cheio, Ramachandran disse: “Certas pessoas que se consideram normais afirmam poder ver sons ou números coloridos. Por exemplo, uma diz que quando vê o “sete” escrito a preto numa folha de papel branco vê o vermelho; e com o “cinco” vê o azul. Outra pode dizer que é para o “três” que vê vermelho e para o “dois” que vê o azul. Se alguma de vocês experimenta isso, por favor levante o braço”. 
Ninguém levantou o braço. Ramachandran ficou dececionado. Quando ele e Hubbard já estavam a conversar no seu gabinete depois da aula, bateram à porta. Eram duas estudantes. Uma delas disse: “Sou uma dessas pessoas que falou no anfiteatro, doutor Ramachandran. Não levantei o braço porque tive vergonha. Tive medo que os meus colegas pensassem que eu era maluca. Eu não sabia que havia outras pessoas assim como eu, ou que essa condição tinha um nome.” Este é um, entre muitos, dos problemas que os cientistas do cérebro têm pela frente quando se propõem estudar certas extravagâncias humanas. Com muitos a dizer por aí que têm visões de Elvis, ou dobram colheres com a mente, não estão para arriscar o ridículo, preferindo varrer para debaixo do tapete as bizarrias em que o nosso cérebro é fértil.
Ramachandran descreve que, entre as muitas bizarrias sensório-percetivas, as sinestesias mais frequentes são as que associam a visão de cores com sons musicais. As sinestesias consistem em experiências sensoriais raras que certos indivíduos experienciam associando sensações de um sentido à de outro. Apesar de haver aqui um traço genético, isso deve-se ao facto de anatomicamente os centros da audição nos lobos temporais estarem próximos das áreas da cor no lobo occipital e centros da cor mais elevados. Antes de nascermos o cérebro “tem tudo misturado”, passo a expressão. E após o nascimento começa o processo de poda ao nível de muitas ligações neuronais, a fim de estruturarmos as nossas receções sensoriais nos seus devidos lugares. Mas há uma mutação genética em que essa poda não se faz com eficiência. E por isso os sinestésicos conservam muitas das ligações intrauterinas, com ativações cruzadas entre áreas que deviam funcionar sem interferência mútua. 

sábado, 3 de agosto de 2019

De Akhenaton a Tutankamon



Para contextualizar a entrada na cena da História do povo hebreu, nem sempre coincidente com a tradição bíblica e outros mitos, vou-me socorrer das fontes com origem na história do Egito. Mas começo por um acontecimento que não tem propriamente relação com o Egito, mas que teve repercussões em todas as margens à volta do Mediterrâneo: a gigantesca erupção vulcânica na ilha de Tera, situada numa região perto onde hoje é Santorini, a cerca de 200 quilómetros a sudeste da Grécia continental, e as repercussões sísmicas que se fizeram sentir à distância. Esse acontecimento não tem uma data precisa, estando numa estimativa situado entre 1650 a.C. e 1450 a.C. A erupção foi um dos maiores eventos vulcânicos na Terra registados na história. A erupção devastou Santorini, incluindo o assentamento minoico Acrotíri, bem como as comunidades agrícolas em ilhas próximas e na costa de Creta. Tal acontecimento é encarado como a causa motora do fim das avançadas civilizações minoica e micénica, seguido do período histórico mais enigmático da Antiguidade Mediterrânica e de onde emergiram os denominados Povos do Mar.

Entre 1352 a.C. e 1336 a.C. Akhenaton reina no Egito e implanta um novo culto religioso como uma forma de monoteísmo cuja divindade é o Sol. Manda construir uma nova cidade com o mesmo nome na margem direita do Nilo. Atualmente as ruínas deste local são conhecidas como Amarna, o nome da aldeia egípcia próxima. As suas reformas religiosas apelidadas de “Revolução de Amarna” mergulham o país em conflitos. Quando Akhenaton chegou ao trono o domínio do Egito em Canaã estava a enfraquecer por causa das pressões provenientes dos hititas a norte. Nessa altura ainda não existia Israel a norte e Judá a sul. Pode-se dizer assim: durante o reinado de Akhenaton o império cananeu do Egito desmoronou-se. Mas Akhenaton estava mais preocupado com a revolução religiosa do que com a política, para além de não ter capacidades especiais para a administração. Assegurava que só existia uma única divindade, Ré-Herakhte, manifestada na forma de Áton, o disco solar. Compreensivamente, as reformas de Akhenaton destabilizaram profundamente as instituições de Tebas que até então controlavam o Egito. Para cimentar a sua rotura com a tradição de Tebas, Akhenaton pôs grande empenho na construção de uma nova capital.

Sucede-lhe Tutankhaton. Pouco se sabe sobre as políticas internas nos bastidores da sucessão. Manobras políticas certamente levaram a que subisse ao trono uma criança chamada Tutankhaton (1336-1327 a.C.). Após a sua subida ao trono, mudou o nome para Tutankamon, o que indicava o declínio do culto de Áton e o regresso ao poder das instituições de Tebas. Tutankamon morreu ao fim de nove anos sem deixar nenhum herdeiro. Quem se tornou rei foi o general Horemheb, que deu continuidade ao desmantelamento da heresia atoniana. Demoliu a cidade que Akhenaton tinha instituído como capital, e suprimiu toda as referências a Áton e a Akhenaton nos monumentos espalhados por todo o país e empreendeu uma campanha contra os elementos do culto com mais influência. Tal procedimento teve u enorme impacto nos seguidores de Akhenaton.

Horemeheb governou cerca de 27 anos. Moreu por volta de 1315 e nos seus dias finais nomeou Ramsés I para subir ao trono. Pouco tempo depois Ramsés I nomeou Seti I como seu corregente. Foi no reinado de Seti I, que terá ocorrido entre 1290 a 1279 a.C. que os egípcios terão procurado recuperar o controlo ao longo das rotas que vão do Egito a Canaã. Ramsés I, tal como Horemeheb, era um general sem sangue real. Todavia, provinha do Norte e não de Tebas. A subida ao trono de um faraó oriundo do Norte, não podia ter-se processado com facilidade em Tebas e noutros locais do Egito e do seu império.

O renascimento institucional de Tebas significava o imediato decréscimo da importância do culto de Áton. Assim, o chefe dos sacerdotes de Akhenaton representava a principal ameaça à continuidade da importância de Tebas. Portanto, a sua vida corria perigo, pois era preciso eliminá-lo. Ao estar ciente desse destino fugiu. Mas não fugiu para Canaã, porque a passagem para Canaã era mais difícil de atravessar. Fugiu para a Etiópia.

Ora, é aqui que entra em cena Moisés e o momento do episódio bíblico do Êxodo. Moisés devia ser um sacerdote atoniano. A Bíblia realmente refere que Moisés teve uma mulher etíope. E as suas relações com os etíopes seriam boas e convenientes, uma vez que os etíopes estavam desejosos de enfraquecer a autoridade egípcia. Essa nação tinha sido um território independente que foi dominado pelos egípcios durante séculos. No período hicso, a Etiópia parece ter-se aliado mais a estrangeiros do que a Tebas.

Moisés e os seus seguidores é possível que se tenham instalado no território associado à tribo de Ruben, já em território fazendo parte de Canaã, apesar de Canaã ter voltado a ser dominado pelo Egito no tempo Seti I, e depois Ramsés II. Seja como for, com o tempo os seguidores de Moisés foram-se espraiando para o Jordão Central, até que atravessaram o rio e dirigiram-se para os montes desabitados da parte central de Canaã, fragmentando-se por pequenas comunidades. Mas foi a partir destes montes que se espalharam para norte e para sul formando colonatos.

São contemporâneas do que acabei de descrever as ondas de invasão por parte da poderosa confederação dos Povos do Mar, neste caso denominados filisteus. Conduzidos por castas de guerreiros gregos, os Povos do mar estabeleceram fortes raízes neste novo território. Foi então que chegaram a lutar ferozmente contra o Egito no tempo de Ramsés III.

As pressões exercidas pelos Povos do Mar em Canaã e contra o Egito podem ter facilitado a formação do que veio a ser conhecido mais tarde como confederação tribal de Israel. E assim a travessia do Jordão por parte dos seguidores de Moisés que os levou a instalarem-se naquelas terras altas. É claro que as alegações bíblicas estão muito longe destas versões da História. Pouco depois a monarquia emergiu. Entre 1005 e 967 a.C. David da tribo de Judá é rei dos hebreus, e Jerusalém é fixada como capital.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Os ‘Franj’ do tempo das cruzadas



No quarto capítulo do livro ”As Cruzadas vistas pelos Árabes” – a 1ª edição em português das Edições 70 é de 2013, mas a 1ª edição original em francês já é de 1983 – , Amin Maalouf descreve o estado de espírito das gentes de Damasco naquele verão de 1100, que se anima quando, depois de tantas derrotas sucessivas e tantas humilhações infligidas pelos Franj (os franceses, ou os francos no vocabulário dos sírios), chegam notícias que Saint-Gilles, Godofredo e Boemundo, os três principais obreiros da invasão franca, tinham sido neutralizados. Os que estavam descoroçoados pela aparente invencibilidade dos ocidentais recobram ânimo.

Amin Maalouf segue a narrativa de Ibn al-Qalanisi [1073-1160] – cronista árabe em Damasco – “Deus concedeu a vitória aos muçulmanos que mataram um grande número de Franj. Boemundo e alguns dos seus companheiros foram capturados e conduzidos acorrentados para o norte da Anatólia. Na altura em que assediava a cidade de Acre, Godofredo, senhor de Jerusalém, foi atingido por uma frecha que o matou.”

E Amin Maalouf prossegue: “Só na primavera de 1100 é que o seljúcida descobriu subitamente a necessidade de uma guerra santa contra os infiéis. Um dos seus vassalos, um chefe beduíno do planalto dos Golan, queixou-se das repetidas incursões dos Franj de Jerusalém que lhe pilhavam as colheitas e roubavam os rebanhos, de modo que Dukak resolveu intimidá-los. Num dia de maio, quando Godofredo e o seu braço direito Tancredo, um sobrinho de Boemundo, regressavam com as suas tropas de uma razia particularmente frutuosa, o exército de Damasco atacou-os. Ajoujados com os despojos, os Franj foram incapazes de travar combate. Preferiram fugir, deixando atrás de si vários mortos. O próprio Tancredo escapou por uma unha negra.”

Godofredo de Bulhão [1058-1100] foi um dos líderes da Primeira Cruzada e o primeiro soberano do Reino Latino de Jerusalém. Era senhor do Ducado da Baixa Lorena que lhe havia sido atribuído por Henrique IV do Sacro Império Romano Germânico em 1087, após um longo período de lutas. Mas era um nobre menor, a sua influência na Europa viria só depois das cruzadas. Os filhos não primogénitos de nobres, como era o caso de Godofredo, viram a oportunidade de estabelecer um domínio seu no exterior, em terras que se podiam conquistar aos muçulmanos. Em junho de 1098, ainda no contexto da Cruzada dos Pobres, participou da tomada de Antioquia, após um longo e sofrido cerco que viu alguns cruzados voltarem à Europa, desanimados com a aparente impossibilidade da conquista. Quando Aleixo I, em Bizâncio, teve notícias da situação desesperada, pensou que os ocidentais estavam derrotados e não veio em sua ajuda, conforme tinha prometido. Por isso, quando a seguir os cruzados finalmente tomaram a cidade, decidiram que também eram inválidos os juramentos feitos a Aleixo I. Boemundo, o primeiro a entrar na cidade, acabou por assumir o controlo destes domínios, depois de derrotar as forças muçulmanas de Cerboga de Mossul.

Os francos, mal chegaram à Cidade Santa em junho de 1099, de imediato construíram escadas de madeira para subir as muralhas. O ataque principal ocorreu a 14 e 15 de julho. Godofredo e alguns dos seus cavaleiros foram os primeiros a penetrar na cidade. E uma vez lá dentro, seguiu-se o que é sabido: o massacre de muçulmanos e judeus. Mas o objetivo programado só foi conseguido ao fim de três anos, com a posse do Santo Sepulcro.

Boemundo de Taranto ou Boemundo de Altavila [1058-1111], um dos líderes da Primeira Cruzada, tornou-se assim o primeiro príncipe de Antioquia. Durante a sua vida, até à tomada de Antioquia, Boemundo assinava documentos simplesmente como Roberti ducis filius (Filho do duque Roberto). O seu filho e sucessor Boemundo II de Antioquia referia-se ao pai como magnus Boamundus (que pode ser lido como Boemundo o Grande, provavelmente pelos seus feitos guerreiros, se bem que conste que era de uma grande compleição física. Também era conhecido como Boemundo o Velho, para se diferenciar do filho, supostamente o Novo).

A partir daqui a principal fonte sobre este assunto vem de Guilherme de Tiro [1130-1184], cronista do reino de Jerusalém do final do século XII, mas como é habitual nos cronistas destes tempos, a sua credibilidade deixa muito a desejar. Em suma, não sabemos muito sobre as fontes de Guilherme de Tiro. E isto pode muito bem colocar em dúvida algumas das suas afirmações. Pode ter-se baseado em relatos populares, ou numa tradição oral não muito fiável. Em alternativa, pode ter consultado seguidores interessados ou apologéticos, limitando-se a reproduzir o que eles lhe diziam. Por exemplo, Godofredo já era um herói lendário entre os descendentes dos primeiros cruzados. Acreditava-se que tinha sido possuidor de uma imensa força física, inclusivamente que lutara e vencera contra um urso na Cilícia, e que decapitara um camelo com um golpe de espada. Juntava à coragem, a prudência, a moderação e a piedade mais viva. Por ter sido o primeiro governante da Jerusalém cristã, foi idealizado em histórias posteriores, já no tempo de Guilherme de Tiro.

Na verdade, Godofredo foi apenas um dos vários líderes da Primeira Cruzada. Apesar da aceitação geral, de que o cruzado bolonhês tomou o título de Advocatus Sancti Sepulchri (Protector do Santo Sepulcro), este título só surge numa carta que não foi escrita por Godofredo. Mas como Godofredo nunca assumiu o estatuto de rei de Jerusalém, assim aquele título faz sentido porque é uma forma de afirmar que considerava a Terra Santa, e Jerusalém em primeiro lugar, como propriedade de Cristo, e talvez, por extensão, da Santa Sé. Era assim um posicionamento de servidor e defensor da Igreja. Sendo nominalmente senhor do Santo Sepulcro, este mantinha-se sob a autoridade eclesiástica. Durante a sua curta soberania sobre Jerusalém (cerca de um ano), Godofredo teve de defender o novo reino contra os fatímidas do Egito, que foram derrotados na batalha de Ascalão.

Quem lhe sucedeu foi Balduíno de Bolonha, o seu irmão mais novo, este sim, o primeiro a ser coroado rei de Jerusalém quando sucedeu ao irmão, dado que Godofredo, como se disse acima, nunca quis receber o estatuto de rei. Um dia, sem ter sido convocado, apresenta-se no palácio de Balduíno um tal Hugo de Payens acompanhado de mais 8 cavaleiros. Não se sabe o que lá foram fazer, mas pelo menos sabe-se que foram bem recebidos. É preciso contextualizar melhor esta história.

No contexto das Cruzadas, antes da Primeira Cruzada oficial, como se tem vindo a contar o protagonismo de Godofredo de Bolonha juntamente com um grupo que incluía Raimundo IV de Toulouse, Boemundo de Taranto, Roberto II da Flandres e Estêvão II de Blois, houve uma falsa partida, a chamada Cruzada dos Pobres, pregada pelo Papa Urbano II em 1095.

Ora, é ligado a este espírito que surge, numa nebulosa histórica muito mal contada, a milícia dos Pobres Cavaleiros de Cristo organizada por esse tal Hugo de Payens, um fidalgo francês da região de Champanhe, que viria a ser o primeiro mestre e fundador da Ordem dos Templários (1119?). Hues de Paiens delez Troies, na versão de Guilherme de Tiro. Ele era de uma família que, segundo cartas que pertenciam à Abadia de Molesmes, tinha parentesco com os Montbard, família de Bernardo de Claraval, e era originalmente um vassalo do conde Hugo de Champanhe. Hugo de Payens havia casado em 1108 com Elisabeth de Chappes. Esta união durou pouco tempo, Elisabeth morreu em 1113 ou 1114, e então ele partiu para a Terra Santa, onde já havia estado uns anos antes. Desta vez ele estabelece-se em definitivo. Junta-se a Godofredo de Saint-Omer, fundando então a partir dos Pobres Cavaleiros de Cristo que operavam para defender o Túmulo de Cristo, como se disse, a Ordem do Templo. Hugo de Payens dirigiu a Ordem do Templo por quase vinte anos, até à sua morte na Terra Santa em 1136.

Portanto, Hugo de Payens viveu em Champanhe durante os primeiros tempos da sua vida. A data exata do nascimento é desconhecida, mas pode ter sido entre 1070 e 1080. É provável que Hugo de Payens fosse um senhor de renome, mas sabe-se que não participou no Concílio de Clermont em 1095 convocado pelo Papa Urbano II, o qual desencadeou o movimento das Cruzadas. Nessa altura ele ainda estava na corte do conde de Champanhe. Só mais tarde, em 1104, ele acompanha Hugo de Champanhe à Terra Santa, onde permaneceu por três anos. E só quando de volta a casa, em 1107, recebe o domínio de Payens dado pelo conde de Champanhe.

Curiosamente, Fulquério de Chartres, cronista da Primeira Cruzada, e que acompanhou o exército de Balduíno I de Jerusalém como capelão, não faz qualquer menção a Hugo de Payens, ou a algo muito remotamente relacionado com os templários. Na verdade, existe um silêncio notável sobre as atividades dos templários durante os primeiros tempos da sua existência. E, todavia, em 1128, ou pouco depois, um opúsculo louvando as virtudes dos templários foi publicado por nada mais nada menos que São Bernardo, abade de Claraval – “Em Louvor da Nova Ordem de Cavaleiros” – o principal porta-voz da Cristandade nessa época. Entra então a partir de agora em cena o grande vulto que foi Bernardo de Claraval, que sabemos quão preciosa foi a ajuda que deu a Hugo de Payens para consolidar o império templário. Após o reconhecimento de Hugo de Payens como Grão-Mestre da ordem religiosa-militar, em 1128, Bernardo ajuda-o a redigir as regras de conduta que guiariam os cavaleiros, com um prefácio entusiástico, baseadas nas da ordem monástica cisterciense. No final desse ano Hugo de Payens visita a Inglaterra, e já é recebido com grande reverência pelo rei Henrique I. Este Henrique era o quarto filho de Guilherme I de Inglaterra, tendo reinado de 1100 a 1135.

Em 1139, o Papa Inocêncio II – um antigo monge cisterciense de Claraval e protegido de São Bernardo – emitiu uma bula segundo a qual os templários não deviam obediência a nenhum poder secular ou eclesiástico para além do próprio papa.

A partir daqui, de toda a Europa começam a afluir os filhos mais novos das famílias nobres para se alistarem nas fileiras da Ordem. E de todos os quadrantes da Cristandade choviam doações em dinheiro, bens e terras para a Ordem. O próprio Hugo de Payens doou as suas propriedades. Todos os novos recrutas eram obrigados a fazer o mesmo, sendo compelidos a renunciar a todos os seus haveres. Uma década depois a Ordem do Templo já detinha quantidades substanciais de propriedades em França, Inglaterra, Escócia, Flandres, Espanha e Portugal, e claro, no Ultramar. Uma coisa era o voto de pobreza a título individual, outra coisa era a Ordem. Todas as doações eram bem-vindas, mas a Ordem estava proibida de dar fosse o que fosse. Mas o Ultramar, esse, com a última forteza a cair em 1291 – Acre – estava todo sob controlo muçulmano, incluindo a Terra Santa.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Povo eleito, ou termo de identidade e residência?

Desde a Antiguidade que a ideia de raça e a proclamação de que os judeus são um “povo eleito” enfurece outros povos e nações. Sobretudo os fundamentalistas e ortodoxos, na medida em que cultivam o desprezo e até a abominação do “estrangeiro”. São exemplos famosos os casos de Espinosa e de Freud, indivíduos tão estranhos como insuportáveis. Se consultarmos a História do Império Romano do Oriente, já nessa altura os judeus exasperavam governantes e vizinhos pelas suas formas idiossincráticas não apenas doutrinárias como de práticas de vida já nessa altura vistas como bizarras. Assim, a singularidade dos judeus alimentou suspeitas, teorias da conspiração, e coisas ainda mais graves como o ódio. Controvérsias à parte, a verdade é que o “caso judaico” perdura num arrasto civilizacional com mais de três milénios. Podemos epigrafá-lo com a fórmula desmedida que vem da tradução menos literalista do Génesis 22,18: “Farei a tua descendência tão múltipla como as estrelas do céu, como as areias das praias do mar. E na tua descendência todas as nações da Terra serão abençoadas”.

Um caso famoso de antissemitismo foi o caso Dreyfus em França, escândalo político que dividiu a França por muitos anos nos finais do século XIX. Centrava-se na condenação por alta traição de Alfred Dreyfus, de ascendência judaica, em 1894. Tratava-se de um oficial de artilharia do exército francês acusado de um processo fraudulento conduzido a portas fechadas. Dreyfus estava na verdade inocente, cuja condenação se baseava em documentos falsos. Quando os oficiais de alta patente franceses perceberam isto, tentaram ocultar o erro judicial. Este caso foi acompanhado por uma onda de nacionalismo e xenofobia que invadiu a Europa no fim do século XIX. Ele era um dos raros judeus do estado-maior francês. O zelo dos seus defensores foi imediatamente atribuído a uma conspiração judaica.

As profundas razões que estavam por trás desse antissemitismo conspirativo assentavam nos habituais problemas económicos e financeiros. O ataque ao poderio da alta finança ou dos grandes bancos transformava-se sistematicamente num ataque àqueles judeus identificáveis com a classe capitalista. Noutros setores da vida económica os judeus também serviam de bode expiatório. Por exemplo, em Viena, os alfaiates judeus que tinham vindo da Galícia auferiam salários muito inferiores aos dos sues colegas vienenses. Ora, quando os tempos difíceis chegaram, que ciclicamente acontecem sempre, a “culpa” do desemprego foi atribuída aos judeus. Nos campos e áreas rurais, os agricultores pediam dinheiro emprestado a prestamistas judeus. Depois nos anos agrícolas maus detestavam os judeus por sere implacáveis na cobrança das dívidas. Contudo, o ódio ao judeu capitalista, ou a competição económica direta entre judeus e cristãos nas cidades, ou o antissemitismo rural baseado no medo que os camponeses crivados de dívidas sentissem do prestamista judeu, não eram os únicos fundamentos do antissemitismo económico. Também havia o antissemitismo daqueles que nunca tinham na vida visto um judeu. Léon Blum, que fez uma carreira brilhante à frente do Partido Socialista, era um judeu francês assimilado. Pois apesar disso, a direita era sarcástica com dichotes, tais como: “volta para Jerusalém, malandro…”.

Foi na Rússia, todavia, que o antissemitismo se manifestou sob a forma de violência física. Neste país, no início do século XX, vivia um quinto da população judaica do mundo inteiro, cerca de cinco milhões de pessoas acantonadas em áreas delimitadas da Rússia Ocidental. Desde a última década do século XIX que se passaram a verificar repetidos pogroms contra eles. Estes ataques eram deliberadamente organizados, quer por civis, que pela polícia, no intuito de desviar as atenções do descontentamento com o regime czarista. Foi na Rússia que surgiram os famigerados Protocolos dos Sábios de Sião, fomentado por fanáticos movidos por ódio racial, para provar a existência de uma conspiração judaica de nível mundial.

Daí que, quando se dialoga com o judeu ortodoxo acerca da sua identidade, se desencadeie uma discussão tão conturbada: seja pelos mitos; seja pelos rituais arcaicos; seja pela propaganda de cariz tribal. É claro que a demência homicida desencadeada ao longo de toda a monstruosa história dos pogroms e expulsões, massacres e dispersão, deportações e Shoah, tornou praticamente impossível e indefensável qualquer discussão despida de paixão.

A genética populacional mostra-nos hoje sem erro que não há país nenhum onde os habitantes possam reclamar por um qualquer critério de raça pura. Hoje todos somos fruto de uma grande miscigenação ao longo de milénios. Todos somos filhos de migrantes. Por isso é um disparate brutal toda a loucura do tribalismo invertido que vai dos paranoicos inquisidores aos esbirros fascistas.

A identidade é mais produto do discurso do que da genética. É produto de um pacto entre o ser e o sentido por intermédio da linguagem cujo eixo está centrado na palavra. Foi assim que os judeus gravaram palavras escritas a letras de fogo ditadas por Moisés no Monte do Sinai, sopradas da sarça ardente pelo vento. A Bíblia tem sido o seu passaporte ao longo de séculos de deslocações e de exílio. Gramatical e metafisicamente, o hebraico não dissocia passado, presente e futuro. A flexão do futuro pertence ao presente. Foi essa a verdadeira literalidade, e o verdadeiro paradoxo do messianismo.

Pegando no termo de identidade de Espinosa, excomungado pelas autoridades religiosas de Amesterdão por ateísmo, embora ele se reconhecesse como um panteísta, ainda assim ele se considerava anos mais tarde, na sua última morada em Haia onde vários filósofos como um Leibniz o iam visitar para dois dedos de conversa, enquanto cidadão do mundo, descendente de judeus imigrantes vindos de Portugal, ia polindo as lentes para satisfazer encomendas de cientistas que em toda a Europa estavam a fazer a revolução científica da modernidade. Quando ele afirmava que era judeu, os outros perguntavam-lhe que “eu” era esse, que ego estaria implícito nessa afirmação. E então ele respondia, com orgulho, que era uma verdade evidente por si própria.

Jean-Paul Sartre, na sua ironia desconcertante, afirmou que é o antissemita que define o judeu. Ou seja, o judeu é uma abstração estipulada de fora com conotação e estigma. Mas a verdade ortodoxa diz que o judeu é alguém que observa as várias centenas de instruções, prescrições, proibições, rituais e normas de dieta e indumentária que regula a vida quotidiana entre um e outro Sabat. Em resumo, essencialmente, de certo modo, é a observância que pesa mais do que a crença.