quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A definição cultural da Europa - [1]


O Império Romano, o definidor de limes (limites), acabou bifurcado no polo do Ocidente e no polo do Oriente. Por volta de 15 a.C., o reino de Noricum foi incluído no Império Romano. A partir daí, Limes Germanicus passou a ser a fronteira do Inpério na linha do Danúbio. Os Romanos construíram fortificações e assentamentos nas margens do Danúbio, incluindo Vindobona (onde hoje é Viena de Áustria)com uma população estimada entre 15.000 a 20.000. Em 180 d.C., os Germanos estavam dominados, e o general hispano-romano Maximus Decimus Meridius está com saudades de casa e pretende voltar.


 

No filme “O Gladiador”, o imperador Marco Aurélio diz a Maximus que o seu filho Comodo está apto para governar ,e quer que Maximus seja o seu braço direito. O seu desejo é que salve Roma da corrupção. Mas Comodo, ao saber isso, mata o pai. Proclama-se o novo imperador e pede a Maximus a sua lealdade. Maximus, no entanto, recusa. Maximus é preso pela Guarda Pretoriana. Maximus mata seus captores, embora não sem ferimentos, e cavalga para a sua casa perto de Trujillo. Mas quando chega encontra-a  destruída e a sua família assassinada. Maximus enterra a família e cuida dos ferimentos. Ele é encontrado por escravos que o levam para a cidade Zucchabar, na província romana de Mauretania Cesariensis, onde é vendido a um treinador de gladiadores chamado ProximoApesar de relutante, Maximus luta em torneios locais e faz amizade com outros dois gladiadores: Juba, um numidiano; e Hagen, um germano. As suas capacidades físicas do treino militar ajudam-no a vencer partidas e a ganhar reconhecimento de outros gladiadores e da multidão. Proximo revela que já foi um gladiador libertado por Marco Aurélio, e aconselha Maximus a ganhar a admiração da multidão, via para a recuperação da sua liberdade. Quando Comodo organiza "os150 dias de jogos", Proximo leva os seus gladiadores para lutar no Coliseu de RomaDisfarçado com uma máscara, Maximus combate como um gladiador cartaginês, uma reencenação da Batalha de Zama. Comodo é obrigado pela multidão a deixar os gladiadores viverem, e os guardas são impedidos de os matar. A próxima luta de Maximus é contra um lendário gladiador invicto chamado Tigre da Gália. Maximus vence o Tigre  e Comodo ordena que Maximus o mate. Mas Maximus não o mata. E então ouve-se o clamor da multidão: "Maximus Misericordioso". Maximus é o vencedor e Comodo vai à arena para impor a Maximus as insígnias. Então Comodo ordena a Maximus ainda disfarçado que tire a máscara. Maimus revela-se e declara vingança. Entram em luta. Apesar dos ferimentos, Maximus desarma Comodo, e a Guarda Pretoriana recusa-se a ajudar. Comodo então saca de uma faca escondida  e apunhala Maximus pelas costas, que sucumbe aos ferimentos. Antes de morrer, ele pede reformas políticas, para que os seus aliados gladiadores sejam libertados, e que o Senador Graco seja reintegrado. Os amigos e aliados de Maximus procedem com honras militares como "um soldado de Roma", a mando de Lucilla, e levam o seu corpo para fora da arena. Juba, pela calada da noite entra no Coliseu e enterra aí as estatuetas da esposa e do filho de Maximus, no local onde ele morreu. Juba promete que um dia se vão reencontrar. Mas Maximus, ainda vai ter de esperar.

Europa em bom rigor é mais um conceito cultural do que geográfico. Geograficamente é um falso continente. Portugal na Ponta de Sagres bem podia ser o ponto mais ocidental da grande massa continental que é a Ásia, e que agora alguns geógrafos chamam Eurásia. Por isso, não nos desenvencilhamos facilmente quando um chinês nos questiona acerca das fronteiras da Europa a Leste. 

Na mitologia grega, Europa era filha de Agenor, rei da Fenícia, e irmã de Cadmo. 
Um dia Zeus disfarçou-se de touro, para que a sua mulher Hera não percebesse, e raptou Europa levando-a para a ilha de Creta.

O uso do termo Europa desenvolveu-se gradualmente ao longo da História. Em Heródoto encontramos a descrição do mundo dividido em três continentes: Europa, Ásia e Líbia (África). Em 513 a.C. Dario I, imperador persa, atravessa o Bósforo e entra na Europa. Em 334 a.C. Alexandre o Grande, atravessa os Dardanelos e inicia a sua digressão pela Ásia que só o Ganges o faz parar. 

A definição cultural da Europa como terra da cristandade latina consolidou-se no século VIII, significando um novo local cultural criado através da confluência de tradições germânicas e da cultura cristã-latina. Quando o Império Carolíngio acabou as suas fronteiras era as mesmas que mais tarde vieram a constituir os países embrionários do que é hoje a União Europeia antes do alargamento a sul e a leste - França, Alemanha Federal, Luxemburgo, Bélgica, Holanda e Itália. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Ironia Histórica

 


Esta pandemia ainda não terminou e não é preciso esperar pelos historiadores para estarmos a ver em direto a ironia histórica a acontecer. Agora imaginem a ironia histórica acerca desta pandemia quando passar mais algum tempo e conseguirmos ver os factos com mais algum distanciamento.

Tipos de ironia situacional, como a histórica, supostamente lidam com a completa ignorância e a crença oposta em relação à realidade factual. No entanto, certas crenças de índole religiosa inculcam na nossa cabeça que o lado irónico das coisas da nossa história são obra da Providência Divina, e não do acaso ou da natureza humana. Tais ironias são muitas vezes mais evidentes, ou mais marcantes, a posteriori, quando vistas retrospetivamente à luz de desenvolvimentos que tornaram a verdade dos factos passados óbvia para todos. 
ironia situacional descreve uma discrepância acentuada entre o resultado esperado e os resultados reais de uma determinada situação. 

Os média e todo o espaço mediático vão-se alimentando de polémicas opinativas entre contrários. E a ironia é gerada pela polémica, quando factos apresentados por uma das partes da barricada são negados pela outra que incomoda não os quer ver. E, portanto, é a atitude negacionista que se impõe, que passa pela recusa em ver o facto para poder diabolizar o outro, o denunciante do facto. Um dos pecados dos média atualmente é estarem a dar conta da realidade condicionados por agendas que, embora legítimas e bem-intencionadas, são ingenuamente ultrapassadas pela ironia da história. Veja-se, por exemplo, o que se está a passar em Portland, nos Estados Unidos da América: grupos de extrema esquerda anarquista, que parasitando a causa dos #blacklivesmater, continuam a invadir as ruas destruindo tudo por onde passam e com palavras de ordem de "queremos vingança, não queremos Biden nem democracia". Ora, sejam bandos de fundamentalistas de extrema direita, sejam bandos de anarquistas de extrema esquerda, os média não podem ter um duplo padrão moral ao não dar a visibilidade devida destes factos relacionados com a violência gerada. Isso acaba por indignar todos aqueles que ao sofrerem na pele tal violência, mesmo tradicionalmente apoiantes de forças políticas de esquerda, são empurrados para o voto na extrema direita, que diz compreendê-los. À semelhança do que se está a passar nos EUA, tem-se passado em França com os recém-votantes em Le Pen, que anteriormente eram eleitores de esquerda. Além dos coletes amarelos, sabe-se também que a tremenda violência homofóbica por parte da comunidade muçulmana em França, praticamente só denunciada por Marine Le Pen, tem levado a uma parte considerável de pessoas homossexuais a votar na extrema direita, facto que cruza todas as suas barreiras e simbologias de esquerda adotadas num passado ainda recente.

Ironia socrática, termo que e deve ao filósofo Sócrates, dado que ele dissimulava ignorância como forma de confundir um adversário em polémica filosófica com ele. Sócrates fingia ser ignorante do tema em discussão, para extrair o absurdo inerente aos argumentos dos seus interlocutores. Fingia saber menos do que o seu interlocutor, quando estava convencido que sabia mais. É a técnica dos diálogos platónicos, fingir ignorância e, mais sorrateiramente, fingir credibilidade no poder de pensamento do seu oponente, para depois o armadilhar. Aristóteles menciona Eironeia, que em seu tempo era comumente empregada para significar dizer menos do que se quer dizer.

Schopenhauer, em O Mundo como Vontade de Representação, Volume 2, Capítulo 8, alegou que a total oposição entre o que é pensado e o que é visto constitui ironia. Ele escreveu: "... se com intenção deliberada algo real e percetível é trazido diretamente sob o conceito de seu oposto, o resultado é ironia simples e comum". Exemplos: Está a chover torrencialmente e dizemos: "Que tempo agradável hoje"; ou, de uma noiva feia é dito: "Ele encontrou um tesouro adorável"; ou, perante um homem desonesto: "Este homem é honrado". Apenas crianças e pessoas sem qualquer educação vão rir de qualquer coisa deste tipo. Aqui, a incongruência entre o concebido e o percebido é total.

Kierkegaard, filósofo dinamarquês, vê a ironia, a usada por Sócrates, como uma força disruptiva com o poder de desfazer textos e leitores. A frase em si é tirada das Palestras sobre a Estética de Hegel, e é aplicada por Kierkegaard à ironia de Sócrates. Essa tradição inclui: o crítico e romancista alemão do século XIX Friedrich Schlegel ("On Incomprehensibility"), Charles Baudelaire, Stendhal e Paul de Man. Ironia como negatividade infinita e absoluta. É negatividade, porque só nega; é infinito, porque não nega este ou aquele fenómeno; é absoluto.

História, vista através dos olhos dos historiadores modernos, é uma história de contrastes acentuados entre a forma como os protagonistas da história viam o futuro de seu mundo, e o mundo que realmente aconteceu. Por exemplo, durante a década de 1920, o The New York Times repetidamente desprezava palavras cruzadas. Em 1924, lamentou "o desperdício pecaminoso na descoberta totalmente fútil das palavras das quais se encaixarão num padrão pré-arranjado". Em 1925, disse: "A questão de saber se os quebra-cabeças são benéficos ou prejudiciais não é necessidade urgente de uma resposta, a mania, evidentemente, está a morrer rapidamente". Hoje, nenhum jornal americano é mais identificado com as palavras cruzadas do que o The New York Times.

Um exemplo trágico de ironia histórica foi a Primeira Guerra Mundial, em que os bem-pensantes diziam que aquilo acabaria num instante, era a guerra para acabar com a guerra. E isso se tornou um truísmo generalizado, quase um clichê. Outro exemplo pode ser o da Guerra do Vietname, na década de 1960 os EUA tentaram impedir que os vietcongues assumissem o Vietname do Sul. No entanto, é um facto muitas vezes ignorado que, em 1941, os EUA originalmente apoiaram o Viêt Minh em sua luta contra a ocupação japonesa. A Liga pela Independência do Vietname foi um movimento revolucionário de libertação nacional criado por Ho Chi Minh em 1941 na China, para obter a independência de colónia francesa durante a Segunda Guerra. E muitos mais exemplos poderiam ser dados, como o caso de Osama bin Laden apoiado pelos EUA na guerra da União Soviética contra o Afeganistão.

Na introdução de A Ironia da História Americana, Andrew Bacevich escreve: "Após o 11 de Setembro, a administração Bush anunciou a sua intenção de levar a liberdade e a democracia ao povo do Médio Oriente. Ideólogos dentro da administração Bush convenceram-se de que o poder americano, habilmente empregado, poderia transformar aquela região... Os resultados falam por si só. A ironia histórica é, portanto, um subconjunto de ironia cósmica, mas em que o elemento “Tempo” é obrigado a desempenhar o seu papel.

Na série Columbo, o personagem Tenente Columbo é aparentemente ingénuo e incompetente. Sua aparência desarrumada aumenta essa ilusão desordenada. Como resultado, ele é subestimado pelos suspeitos em casos de assassinato que ele está investigando. Com a guarda baixa e a sua falsa sensação de confiança, o Tenente Columbo é capaz de resolver os casos, deixando os assassinos se sentindo enganados.

Uma grande confusão cercou a questão da relação entre ironia verbal e sarcasmo. Sarcasmo não envolve necessariamente ironia e ironia muitas vezes não tem nenhum toque de sarcasmo. Isso sugere que os dois conceitos estão ligados, mas podem ser considerados separadamente. Quando Bessie Braddock disse que Churchill estava bêbado, Churchil respondeu: "Mas eu estarei sóbrio pela manhã, e você continuará burro”. O ridículo é um aspeto importante do sarcasmo, mas não da ironia verbal em geral. Por conseguinte, sarcasmo é um tipo particular de crítica para ridicularizar uma pessoa ou grupo de pessoas que incorpora ironia verbal. Por exemplo, uma mulher relata a sua amiga que, em vez de ir a um médico para se tratar, ela decidiu ir a um curandeiro espiritual. Em resposta, a amiga diz sarcasticamente: "Oh, brilhante, que ideia engenhosa, de certeza que te vai curar." Também poderia ter respondido com uma expressão irónica sem sarcasmo: "Grande ideia! Ouvi dizer que eles fazem um bom trabalho". Mas pode ser difícil distinguir de uma hipérbole ou de um eufemismo jocoso: "Essa é a melhor ideia que ouvi em anos!"; "Claro, que diabo, é apenas um cancro, você até podia ir a um endireita”.  

A ironia como técnica literária ou retórica, diz à superfície radicalmente o contrário do que quer dizer em profundidade. Há um enquadramento da ironia, daí a ironia verbal ser diferente da ironia dramática e da ironia situacional. Na ironia verbal o que o orador quer dizer é nitidamente diferente do significado que é ostensivamente expresso. A ironia verbal distingue-se da ironia situacional e da ironia dramática, pois é um ato de fala intencional. Por exemplo, se eu digo: "Não estou chateado!" revelando um estado emocional perturbado que o tom de voz não engana, não seria ironia verbal em virtude da sua componente performativa é mais um caso de ironia situacional e não de ironia verbal. Mas se eu dissesse as mesmas palavras sem revelar estados de alma, mas querendo dar a entender que estava chateado, neste caso seria ironia verbal. Essa distinção ilustra um aspeto importante da ironia verbal: proposições implícitas contraditórias com as proposições explícitas. Há, no entanto, exemplos de ironia verbal que não dizem o oposto do que se quer dizer. E há frases que têm todos os critérios para ser uma ironia, e todavia a expressão não é irónica.

A ironia dramática, cujo enquadramento é o da representação, explora o dispositivo de dar ao espectador um item de informação que pelo menos um dos personagens da narrativa desconhece (pelo menos conscientemente), colocando assim o espectador um passo à frente de pelo menos um dos personagens. O significado (trágico) do discurso incongruente, ou as ações de um personagem é revelado ao público, mas desconhecido do personagem em questão. Isto é encontrado já nas origens da tragédia grega, por exemplo em Sófocles. Em resumo, significa que o leitor/observador/ouvinte sabe de algo que um ou mais dos personagens da peça não estão cientes. Ironia trágica é uma categoria especial de ironia dramática. Em ironia trágica, as palavras e ações dos personagens contradizem a situação real, que os espectadores percebem plenamente. A incongruência criada, é o significado trágico do discurso, ou das ações de um personagem, que é revelado ao público, mas desconhecido para o personagem em questão.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Crise epistemológica de um cientista


Os colegas de E.A., médico neurocientista, 56 anos de idade, ficaram estupefactos quando partilhou com eles as suas novas convicções: não ter dúvidas da existência de uma vida para além da morte; e que a nossa consciência existe fora do corpo. Ora no que ele foi acreditar depois da sua Experiência de Quase Morte (EQM), quando esteve em coma induzido 8 dias nos Cuidados Intensivos devido a uma grave e rara infeção cerebral (meningite). E sendo ele um cientista que até aí só acreditava na ciência, passou a acreditar em Deus, na vida para lá desta vida depois da morte física, que a nossa mente existe fora do nosso corpo, que a nossa consciência não é um produto do cérebro.

Ele acabou por ter problemas com os seus pares no hospital onde trabalhava, ao baralhar-se das ideias acerca da morte cerebral e da consciência. Passar a defender ideias completamente erróneas na área da neurologia era uma coisa absurda para quem trabalha logo na área da neurociência. E depois não tardaram a aparecer os casos de má prática médico-cirúrgica. Como poderia ele considerar que o cérebro em coma induzido era um cérebro morto? A rutura epistemológica deste médico, em colisão com o paradigma científico, para além das suas participações no show televisivo da Oprah Winfrey, e das suas palestras em vários eventos religiosos, era de uma gravidade inaudita.
«Era tudo tão real, quase demasiado real, se é que isto faz sentido. À medida que a minha mente científica regressava, mais claramente eu via o quanto as minhas décadas de formação e prática de medicina entravam em conflito com o que tinha vivido, e mais compreendia que a mente e a personalidade continuam a existir para além do corpo. As memórias estavam lá, intactas e claríssimas, exatamente onde as tinha deixado.»
Este tipo de narrativas de pessoas que estiveram em coma, designadas por Experiências de Quase Morte (EQM), geralmente levam essas pessoas a acreditar irredutivelmente no Além. É muito difícil fazer um distanciamento da experiência em primeira pessoa, para que o discernimento do fenómeno seja feito segundo a perspetiva da terceira pessoa, que é a perspetiva que alicerça o conhecimento científico.
«O que eu tinha vivido era mais real do que a casa em que me encontrava. No entanto não havia espaço para isso na mundivisão das pessoas com formação médica e científica, a mesma formação que eu tinha passado anos a adquirir. Como é que eu ia criar um espaço onde estas duas realidades pudessem coexistir?»
Crise epistémica, ou epistemológica, é crise de conhecimento. E esta crise tem a ver com a desvalorização da objetividade, para estar em consonância com um compromisso emocional, e com as suas próprias convicções pessoais. A Epistemologia, como disciplina filosófica, estuda aquilo em que acreditamos. Isso tem a ver com a verdade objetiva, mas também com o que a nossa subjetividade aceita como verdade. Para além disso é preciso compreender as razões de uma crença. E se tais razões têm um fundamento lógico. Que fundamento lógico teve E.A. para romper com o seu paradigma científico, que não separa a mente do corpo, para regressar ao antigo paradigma cartesiano que separa a mente do corpo? Nenhum!

Mas há um tipo de rutura epistemológica mais sério que se deu a partir do último quartel do século XX por parte de uma certa fatia académica das ciências sociais ligada à denominada corrente pós-modernista. As transformações radicais que ocorreram nas ciências sociais gerou um abalo na área da filosofia da ciência/epistemologia, a qual descaracterizou o modelo fundacional assente na razão e na objetividade. Sucede que a partir da década de 1980 ganhou terreno uma nova epistemologia, como crítica à epistemologia convencional, com sede académica em setores da sociologia dita feminista e pós-colonial inspirada em Michel Foucault, e da filosofia pragmatista americana, com notoriedade para Richard Rorty. Esta corrente chegou mesmo a postular o abandono da Epistemologia como projeto filosófico. Este Relativismo, ao nivelar todos os saberes como igualmente respeitáveis, acabou por ignorar as consequências e as implicações desses saberes sobre o mundo.

Segundo Leon Festinger, as pessoas necessitam estruturalmente de uma consistência interior relativamente às suas crenças e comportamentos derivados. Uma desarmonia entre estes dois elementos é rotulada como dissonância cognitiva. Certas pessoas, devido a determinadas situações, como os estados de stress pós-traumático, entram num estado de dissonância cognitiva. A dissonância é assim causadora da negação de evidências objetivas, o que distorce a perceção da realidade. 
A memória, o pensamento e a linguagem desencontram-se por falta de coerência entre elas. E quando dois ou mais processos cognitivos entram em conflito, entramos em sofrimento. E então há que encontrar um ponto que faça sentido dentro do estado psíquico em sofrimento. 

Foi o que aconteceu neste caso do médico E.A., com uma epistemologia inconsistente com a natureza científica do seu conhecimento anterior. A experiência por que passou foi suficientemente forte para se sobrepor à razão, a injunção da esfera emocional sobre a esfera racional, e abalar as suas convicções científicas com um investimento num processo de cariz puramente religioso, para sua salvação.
 
Não há nenhuma evidência científica de que a consciência continue após a morte. Mas essa é uma crença muito antiga, e quando digo antiga recuo até ao tempo dos Neandertais. Enterros fúnebres atribuídos aos Neandertais por antropólogos e arqueólogos, fundamentam-se no achado de flores e outros motivos simbólicos que ornamentavam os corpos cuidadosamente deitados nas covas encontradas.

Em todas as culturas e em todos os tempos históricos até aos nossos dias a crença em vida após a morte tem raízes perenes. Isto tem implicações notoriamente culturais, daí o facto de existirem conceções diferentes acerca do caso, conforme as tradições culturais: a ressurreição na tradição Cristã, e um pouco semelhante nas religiões ditas do Livro ou Abraâmicas; a reencarnação nas religiões da Índia, com forte implantação no Budismo; ou então na Doutrina Espírita herdeira de Allan Kardec

Um grave erro científico deste médico, a que a comunidade médica não foi parca em críticas, diz respeito ao que ele veio a afirmar acerca da morte cerebral, dizendo que o seu cérebro durante o estado de coma esteve morto. Ora, por causa das transplantações e órgãos, este aspeto foi muito estudado e sujeito a um grande debate nos últimos cinquenta anos. Só era possível retirar um órgão de uma pessoa doadora se ela estivesse inequivocamente morta, ou seja, no estado definido de cadáver. Assim, era preciso determinar o momento exato da morte porque, para o órgão ter viabilidade no recetor do transplante, a colheita de órgãos não podia demorar muito a seguir ao falecimento, e o órgão ser transplantado o mais rápido possível. A antiga definição de ausência de respiração e ausência de batimentos cardíacos não servia para este efeito. Por outro lado, o aperfeiçoamento técnico nas manobras de ressuscitação de pessoas em paragem cardíaca e pulmonar veio mostrar que ainda era viável a vida com qualidade de uma pessoa que fosse reanimada até 15 minutos após ter entrado em paragem. A partir daqui, o critério de morte utilizado pelos médicos para poderem encetar a colheita de órgãos para transplante passou a ser o de morte cerebral.

A morte cerebral é definida pela cessão de atividade elétrica no cérebro, mas mesmo aqui há correntes divergentes. Há aqueles que mantêm que apenas a atividade elétrica do neocórtex deve ser considerada a fim de se definir a morte. Por padrão, é usada contudo uma definição mais conservadora de morte: a interrupção da atividade elétrica no cérebro como um todo, incluindo, e sobretudo, o tronco cerebral, que é a parte que controla 
atividades vitais essenciais como a respiração e os batimentos cardíacos. O neocórtex é o que que está associado à consciência propriamente dita. Vários hospitais possuem elaborados protocolos para a determinação da morte, envolvendo entre os parâmetros mais básicos, várias eletroencefalografias em intervalos precisos, avaliados no mínimo por dois médicos diferenciados.

Seja como for, culturalmente, a questão do que acontece durante e após a morte, é uma interrogação e uma questão intuitivamente latente na mente humana. Tais questões vêm de longa data, e a crença numa vida depois da morte com uma posterior reencarnação ou mesmo a passagem para outros mundos, embora muito antigas, são ainda muito difundidas socialmente. Mas isto não é mais do que uma procura de consolação. A crença em vida após a morte pode, para esses, trazer algum consolo. Quanto ao inferno, já lá vai o tempo em que era uma questão muito temida. 

Que fique bem claro, do ponto de vista científico, não há evidências que corroborem a existência de espíritos ou algo com função similar que sobreviva após a morte. A consciência existe unicamente como resultado de correlações cerebrais. Essa hipótese é a que encontra corroboração científica atualmente, a vida cessa de existir no momento da morte. O que mais são doutrinas espiritualistas e outros cultos de neopaganismo para explicarem certos fenómenos psíquicos e êxtases místicos. A consciência tem uma origem física e precisa de um cérebro para se relacionar com o mundo. 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Consciência da perda de Si


A vida tem um princípio e um fim: nascimento e morte. Uma realidade de cada corpo que nele se opera a partir do momento em que é dado à luz. A vida humana é uma constante experiência que conduz a uma decadência do organismo, que esgota a sua força vital, por enfraquecimento ou doença do meio interno, e impossibilidade de se ajustar às modificações e agressões do meio externo. Este é um princípio geral a que todos os seres obedecem sem exceção: A mão invisível da entropia, ou a 2ª lei da termodinâmica. Paradoxalmente, a morte é uma consequência da vida. Sem vida não haveria morte. A pessoa humana morre desde que nasce; morre em cada instante, porque a morte não surge no momento. É um processo em movimento desde o nascimento à mercê do Acaso.

Na morte, o homem experimenta a mais profunda solidão, ao reconhecer o seu próprio desaparecimento. Ato único e irrepetível, de impossível relato, a pessoa humana tem experiência da morte através da morte dos outros, o que lhe permite pensar sobre o momento da sua morte, representando, antecipadamente, a interrupção da sua vida ao chegar a essa situação-limite – através da morte alheia, vive-se um pouco a nossa, fruto dos efeitos emocionais e do drama da perda de outrem.

A morte é a única experiência humana que não podemos partilhar – é impossível representar a própria morte, a não ser como espectador, pelo que é sempre através do que acontece aos outros que dela tomamos conhecimento ou proximidade, pois, quando chegar a nossa vez, já não poderemos comunicá-la. Desaparecemos como consciência de nós. Deste modo, a morte impõe a inexorável vulnerabilidade humana e a limitação do Si, do Eu. Mais do que um problema ou uma interrogação à razão, a morte constitui um enigma, um mistério – partida sem regresso, ponto de interrogação no limiar do desconhecido. O horror da morte, a angústia da morte, é o pensamento que perturba a pessoa pela perda da sua individualidade. É a Consciência da perda de Si. O apaziguamento dessa consciência para algumas pessoas é a esperança, a última a morrer, de que há um Além, uma sobrevivência post mortem



Aturo Pérez-Reverte diz: 
Se tivesse que dividir o mundo em dois grandes núcleos de pessoas, não seria entre bons e maus. Seria: entre os que aceitam com naturalidade que vão morrer, na boa;  e os que não o aceitam. As pessoas que aceitam que vão morrer, porque isso faz parte da ordem natural das coisas vivas, são melhores, até nas suas crueldades e nas suas violências — são realmente humanas. Os que acreditam que não vão morrer, porque uma outra vida os espera por trás da cortina cinzenta da madrugada, são estupidamente irresponsáveis, só prejudicam a humanidade, e a atualidade demonstra-o claramente. Saber que um dia tenho de morrer talvez tenha sido o que, paradoxalmente, me manteve vivo. 

Há os sedentários e há os caçadores. Eu sou um caçador, um protótipo, é claro. O caçador é aquele que tem de ir para longe a fim de procurar a comida. Vai e por vezes não volta. O mamute mata-o ou o leão devora-o. Quando o caçador consegue regressar e se senta ao pé da fogueira, é aquele que conta a história de tudo o que lhe aconteceu. É o que se converte em narrador. Sem desprezar o sedentário, o caçador tem a superioridade intelectual de quem saiu, viajou para longe e voltou com novas experiências. Voltar é muito importante. 

Gosto de ter 70 anos (vou fazer este ano) e continuar a acreditar que no fim da madrugada cinzenta pode não haver nada, pode não haver outra. Gostaria que a estupidez da Humanidade me tivesse vacinado contra a compaixão. Repito: gostaria que a estupidez da Humanidade me tivesse vacinado contra a compaixão. Não o consegui, pois sofro ao ver a dor dos outros. No entanto, olho para tudo isto com algum distanciamento. Quando estás a ler Tácito, Tito Lívio, Homero, Virgílio, Catulo, Xenofonte e Sófocles, isso ajuda-te a aceitar as regras terríveis do cosmos e do mundo. Ajuda-te a arrefecer, a serenar. Não te tira a compaixão: permite-te olhar com objetividade. 

Se morrer disto [da Covid-19], vou morrer, não é que seja indiferente, mas estou um pouco de fora, não sei por que razão gritam tanto. É que não é o fim do mundo. Não somos os bizantinos nas mãos dos turcos. Pior foi a batalha de Waterloo, ou ter a peste negra na Idade Média, ou a varíola numa tribo indígena. A Humanidade passou por momentos piores do que este. As pessoas esqueceram-se disso. 

Tenho 70 anos. Acha que na minha idade posso ter uma febre informativa? O que me resta é o meu veleiro, navegar, livros e serenidade. O meu barco é a minha outra vida, troquei a guerra pelo mar. Quando me sinto demasiado aburguesado, navego. Ouça, tenho 70 anos. A vida já não me vai dar mais surpresas. Olho para o mundo com a curiosidade do observador. Isso não é animador, nem otimista, nem bonito, mas é interessante. Pode ser que, se continuar assim, perca finalmente a compaixão. O meu sonho é perder a compaixão. Nesse dia, já nada me irá incomodar. Talvez o consiga. 

Dos afetos: amor, amizade, morte

 




A ironia e a morte são das coisas humanas mais certas. Mas ao mesmo tempo mais incertas quanto à sua duração. Três propriedades humanas que não encontram mais nenhuma que as supere quanto a frustração de expectativas.

São relações que se estabelecem entre as pessoas, cuja intensidade varia muito, mas mesmo as mais fortes podem ser quebradas. E, se bem que algumas relações podem ser retomadas depois de desfeitas, outras nunca mais se renovam, sobretudo as mais fortes. É obra da Fortuna sobre a qual não temos nenhum poder, sejamos fortes ou fracos segundo a nomenclatura nietzschiana. Apesar de um dos milhentos aforismos de Nietzsche subscrever a máxima popular: “Dos fracos não reza a História”, isso não é bem assim. Os fracos também contribuem para a História. Por exemplo, para Nietzsche os cristãos são uns fracos, e, todavia, já lá vão 2021 anos determinados por Eles.

Os que se zangaram podem reconciliar-se; os que foram ofendidos podem perdoar. Mas quando o desejo de reconciliação passa por querer agradar, a disponibilidade para aceitar esse desejo diminui. Em boa verdade, a não ser com farsa e hipocrisia, a renovação de uma amizade que se desfez é praticamente impossível.

Tudo tem o seu tempo.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

De clientes a matéria-prima do sistema digital

 


Com o título original editado em 2019 – The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power – Shoshana Zuboff, socióloga norte-americana e professora emérita da cátedra Charles Edward Wilson da Harvard Business School, revela-nos nesta obra, que analistas consideram o equivalente para o século XXI do que foi “O Capital” de Karl Marx para o século XIX, aquilo a que chama “Capitalismo da Vigilância”, metáfora para a nossa autodefesa digital.

Do mesmo modo que o Capitalismo pós-Revolução Industrial alterou o "Mundo Natural" no século XX, o Capitalismo Digital, que se expandiu a partir de Silicon Valley, está no século XXI a transformar a "Natureza Humana". Enquanto no século XX pós- Karl Marx a ameaça que pairou sobre nós foi uma espécie de “Big Brother Totalitário”, agora no século XXI é um Grande Arquiteto Digital omnipresente e omnipotente, que opera em função dos interesses de uma nata minoritária de capitalistas multimilionários a prometer um paraíso na terra a consumidores de vida fácil, qual colmeia interconectada por informação totalmente manipulada por máquinas que nos dominam.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

De Sagres a Baku com Camões e Heródoto


Camões na última estância dos Lusíadas canta o regresso à Pátria, tão amada dos heróis portugueses, depois de terem passado ainda além da Taprobana, o Sri Lanka.

Luís de Camões, para escrever os Lusíadas, tinha de ter lido muito dos autores clássicos da Antiguidade Grega e Romana. Basta ler a primeira e a última estância de "Os Lusíadas" para percebermos isso. Na Estância 156 - Canto X, lê-se

Ou fazendo que, mais que a de Medusa, / A vista vossa tema o monte Atlante, /
Ou rompendo nos campos de Ampelusa / Os muros de Marrocos e Trudante, /
A minha já estimada e leda Musa / Fico que em todo o mundo de vós cante, /
De sorte que Alexandro em vós se veja, / Sem à dita de Aquiles ter enveja. /

Fazendo, mais do que faz Medusa, que o monte Atlante trema ao avistar-vos. Ou que os muros de Marrocos e Trudante se rompam nos campos de Ampelusa. Assegurei que a minha já estimada e leda Musa em todo o mundo de vós cante, de modo que Alexandre se reveja sem ter de invejar Aquiles na sua glória. 



Atlante (o monte Atlas em Marrocos) até estremece ao avistar os Portugueses. Na mitologia grega a Medusa era uma das três górgonas que transformava em pedra aqueles que a contemplassem. Trudante era a capital de uma província marroquina. E Ampelusa é o cabo Espartel, a oeste de Tanger. Aquiles, cantado por Homero na Ilíada, era invejado por Alexandre, tal era a sua glória. 

Quem quer que olhasse diretamente para ela seria transformado em pedra. Ao contrário de suas irmãs górgonas, Esteno e Euríale, Medusa era mortal; foi decapitada pelo herói Perseu, que utilizou posteriormente a sua cabeça como arma, até dá-la para a deusa Atena, que a colocou em seu escudo. Na Antiguidade Clássica a imagem da cabeça da Medusa aparecia no objeto utilizado para afugentar o mal conhecido como gorgonião. 


Na maioria das versões do mito, enquanto Medusa esperava um filho de Poseidon, deus dos mares, teria sido decapitada pelo herói Perseu (semi-deus), que havia recebido do rei Polidetes de Sérifo a missão de trazer a sua cabeça como presente. Com o auxílio de Atena, de Hermes, que lhe forneceu sandálias aladas, e de Hades, que lhe deu um elmo de invisibilidade, uma espada e um escudo espelhado, o herói cumpriu sua missão, matando a Górgona após olhar apenas para seu inofensivo reflexo no escudo, evitando assim ser transformado em pedra. Quando Perseu separou a cabeça da Medusa do pescoço, duas criaturas nasceram: o cavalo alado Pégaso e o gigante dourado Crisaor.

Camões era conhecedor disto tudo. O que não tem nada a ver com a expressão: "Vai chatear o Camões". Se alguém te estiver a chatear muito, e tu que és boa pessoa não queres que outra pessoa também seja chateada, manda-lo ir chatear alguém que já tenha morrido. Como Camões está morto, talvez ele tivesse paciência para o aturar.

Heródoto de Halicarnasso

Halicarnasso, situada no sudoeste da Anatólia, onde hoje existe uma vila turca chamada Bordum, foi na Antiguidade uma importante cidade, entre os séculos V e IV a.C., de onde era natural Heródoto o grande historiador grego. Situa-se na ponta mais ocidental da Ásia quando se encontra com o Mediterrâneo. Baía suave e harmoniosa. O tempo de Heródoto é o tempo de Sócrates, Buda, Confúcio. Naquela altura Halicarnasso, na Ásia, era uma colónia grega, de Jónios, terra dos Cários, súbditos dos Persas. A Europa como continente, ainda não existe. Europa é filha de Agenor, rei fenício. Na mitologia, Zeus transformado em touro vai raptá-la e possuí-la em Creta. Halicarnasso, cidade portuária, ali ancoravam barcos de comerciantes fenícios; de gregos do Pireus e Argos; de egípcios da Líbia e do delta do Nilo. Heródoto, ainda jovem, fugiu para Samos, no rescaldo de uma rebelião contra Ligdamis, tirano de Halicarnasso. Talvez terá partido dali para o resto do mundo conhecido na altura. Chega a Atenas, mas não permanece aí muito tempo, porque um édito determina que só se pode tornar cidadão ateniense quem tenha nascido na Ática. Vai-se embora, viaja, e só no fim da sua vida fixa residência em Thurioi, colónia grega no sul de Itália. Heródoto desaparece, e não se conhece o ano e o lugar exato da sua morte. 

Indo de barco da ilha grega de Cós, no mar Egeu, chega-se em pouco tempo à baía de Bordum, Turquia. Deparamo-nos com iates parados, mas durante a manhã podíamos ter visto os pescadores a vender o peixe acabado de pescar no mar. O fundo do mar Egeu está cheio de despojos dos naufrágios de tempos imemoriais. Muito desse material foi recolhido, estando exposto no Museu de Arqueologia Submarina: uma enorme coleção de ânforas, muitas delas com cinco mil anos, bem como vários objetos de vidro. 




Um mundo que Heródoto conheceu muito bem. No fundo do mar Egeu jazem galeras fenicias, e perto de Salamina jaz a grande armada persa, que os gregos não quiseram poupar ao grande Xerxes. Um mundo que é relatado a Heródoto por informadores que encontra pelo caminho, nas suas viagens da Grécia à Cítia. Heródoto coloca sempre a frase "como me disseram" acrescentando "há várias versões sobre o caso". 

Mas no mapa de Heródoto também há Pérsia e Cáucaso; Arábia e Mar Vermelho; Egípcios e Fenícios. Quanto à Europa diz ele: "Ninguém sabe ao certo se, do lado leste ou norte, é rodeada por mar. Em longitude, sabe-se que corresponde às outras duas partes do mundo juntas. Não se conhece o nome de quem estabeleceu estas fronteiras, nem onde lhes foi buscar as designações." Heródoto consagra a sua vida a uma infatigável procura por respostas: Porque é que as pessoas fazem guerras? O que é que pretendem exatamente ao começar uma guerra? Qual é a motivação? No tempo de Heródoto havia uma guerra persistente: de um lado a Grécia; do outro lado a Pérsia. 

Um grupo de pequenos estados gregos a ocidente venceu a potência oriental porque sacrificaram tudo pela liberdade. Mas por serem dados à discórdia e à discussão, não conseguiram formar um Estado comum. Mas aqui entrou Tucídides, com a sua monumental Historia da Guerra do Peloponeso. Heródoto era ávido de conhecimento do "mundo bárbaro", o mundo dos Cários, dos Citas, 
mas também a Babilónia e as Colunas de Hércules. 


Naquela época a terra é representada como uma placa circular rodeada pelas águas do grande rio Okeanós. E o Mar Egeu com as suas ilhas e costas, era o centro daquele mundo. Ele mostra a história do mundo através do destino dos homens. Estão sempre presentes pessoas concretas, com nome, sejam grandes ou pequenos. Ao interrogar testemunhas descobre que as pessoas lembram-se daquilo que querem lembrar; não daquilo que aconteceu na realidade. Voltar ao passado tal como foi é impossível. O que há são versões, todas elas credíveis. O que depende? Bem, depende de quais são as nossas expectativas. O passado não existe. Apenas existem versões dele. Heródoto deve ter sido dos primeiros a confrontar-se com esta complicação. E assim Heródoto descobre que há muitos mundos, cada um diferente dos outros. Por isso, em cada manhã depois de mal dormido, por causa da sua inquietação de menino curioso, parte, incansável, para uma nova viagem. Heródoto deixou-nos um livro - Histórias, fruto de talento e arte de escrever com verdadeira mestria. 

No mundo de Heródoto, o Homem era o único depositário da memória. Portanto, para chegar àquilo que guardava na memória era preciso aproximar-se de outras pessoas. Quando as encontrava, juntava-se a elas à fogueira para as ouvir. E anotava. Assim começa a Reportagem Jornalística. Heródoto viaja pelo mundo para contactar com as pessoas que tenham alguma coisa para lhe contar. Dizem-lhe quem são. E cada um conta a sua história. Mas Heródoto interroga-os: "Como sabem quem são e de onde vêm?" E então eles dizem que ouviram de outros, dos seus antepassados, que contavam as histórias à roda de uma fogueira. E eles agora fazem o mesmo, com os próximos. O dito conhecimento tem a forma de histórias de diversa índole. Lendas e mitos, mas quando as ouvem contar, e depois quando as voltam a contar, acreditam ser a verdade mais verdadeira, a realidade mais real.

Da Ponta de Sagres a Baku




A Ponta de Sagres – Promontorium Sacrum, é um promontório localizado a sudoeste da vila de Sagres em Portugal. Fica 4 km a leste e 3 km a sul do Cabo de São Vicente, tido como o extremo sudoeste da Europa continental. Da sua falésia escarpada, constantemente batida pelo vento, o visitante usufrui uma deslumbrante panorâmica ao longo da costa, com destaque para as enseadas de Sagres, o Cabo de São Vicente, e a imensidão do Oceano Atlântico.

A região entre a Ponta de Sagres e o Cabo de São Vicente foi usada para fins religiosos desde a época do Neolítico, existindo menires no concelho de Vila do Bispo, onde ambos se situam. O Promontório de Sagres foi sempre importante para os navegadores porque oferece abrigo às embarcações. 



Na Antiguidade, Estrabão acreditava que o promontório era o ponto mais ocidental de "todo o mundo habitado". De facto, o Cabo de São Vicente está mais a oeste, mas, por estar mais a norte, o mapa de Estrabão da Península Ibérica é rodado no sentido dos ponteiros do relógio, ficando os Pirenéus numa linha norte-sul, e pode ter sido tomado como estando mais a oeste. No entanto, o ponto mais ocidental da Península Ibérica e da Europa continental é o Cabo da Roca, mais a norte.

A Ponta de Sagres é o local mítico da Era dos Descobrimentos, onde o Infante D. Henrique, filho do rei de Portugal – D. João I, empregou cartógrafos para o ajudarem a mapear as costas da Antiga Mauritânia, e promoveu viagens de reconhecimento para tal. Contratou um especialista em instrumentação e cartografia, Jaime de Maiorca, de modo que os seus capitães puderam ter a melhor informação e equipamento náuticos da época. Tal conduziu à lenda da Escola Naval de Sagres. O Infante D. Henrique construiu uma capela junto da sua casa em 1459, à medida que ia passando mais tempo em Sagres ou nas proximidades nos anos seguintes. Veio a falecer em Sagres em 13 de novembro de 1460.


Na Antiguidade, Ibéria era o nome que os gregos e romanos davam a um reino que abrangia uma região do Cáucaso onde hoje é a Geórgia, que durou entre o século IV a.C. e V d.C. Este nome sempre suscitou uma certa intriga entre os historiadores desde Heródoto, dada a sua afinidade linguística (indo-europeia) com o nome de Península Ibérica dado à Hispânia no extremo ocidental da Europa. Sempre suscitou a ideia de alguma relação de parentesco entre os povos ditos "iberos" do Oeste e do Leste. Mas nunca souberam explicar isso dada a grande distância geográfica entre os dois nomes. E a ter origem numa mesma etnia indo-europeia primordial, não definiram de onde se teriam originado ambas etnias. 

Essa teoria da origem próxima comum teria sido bem aceita na Geórgia medieval, tendo o proeminente escritor religioso do país, Giorgi Mthatzmindeli (1009-1065) se referido a alguns nobres georgianos que teriam pretendido viajar até ao extremo sudoeste da Europa para visitar os Georgianos do Oeste. A área era habitada por várias tribos relacionadas entre si, conhecidas como "iberos" por antigos autores. O reino local, Cártila, deve o seu nome a um mítico chefe de nome Cartlos. 

Os povos Moschi (Tubal e Mesech) que a Bíblia e muitos historiadores clássicos mencionam, e os seus prováveis descendentes Sasper, citados por Heródoto, teriam sido os responsáveis pela consolidação das diversas tribos nessa região. A provável origem etimológica de Ibéria derivaria de Sasper >Speri >Hberi >Iberi. Os Moschi teriam se deslocado para o nordeste em migração, sendo que sua principal tribo, os Metsqueta, originaram o nome da capital. Seu primeiro assentamento teve o nome dado por autores medievais georgianos, Arrian-Kartli, sob o domínio do Império Aqueménida. Foram governados por um príncipe de nome mamasakhlisi. 

A obra medieval Moktsevai Kartlisai («Conversão da Ibéria») fala de um certo Azo e seu povo, os quais se assentaram na futura capital Mtsqueta, fica perto de Tbilisi. Outras antigas crónicas, as Kartlis Tskhovreba ("História da Ibéria"), informam que Azo seria um oficial de Alexandre Magno, que derrotou uma dinastia local e conquistou o território, tendo sido depois expulso por Parnabazo I da Ibéria. 

A contínua rivalidade entre o Império Bizantino e o Império Sassânida pela supremacia no Cáucaso, e a fracassada insurreição por parte dos georgianos no ano de 526, levou a que o Rei da Ibéria ficasse com um poder apenas simbólico, pois o país estava sob domínio persa. A Ibéria passou a ser uma província persa administrada por um governador. Em 582, nobres georgianos solicitaram ajuda ao imperador Maurício I de Constantinopla para fazer renascer o Reino da Ibéria, mas, em 591, os bizantinos e os persas preferiram fazer um acordo para dividir a região, ficando Tbilisi com os persas e Mtsqueta com os bizantinos. 

Baku



Baku, capital do Azerbaijão, está situado na costa oeste do Mar Cáspio, região do Cáucaso. Localizada a 28 metros abaixo do nível do mar, é a capital mais baixa do mundo. A cidade interior de Baku, juntamente com o Palácio de Shirvanshah e a Torre das Donzelas, foram inscritas como Património Mundial da UNESCO em 2000. 

A cidade é o centro científico, cultural e industrial do Azerbaijão. Muitas das instituições azeris mais importantes têm a sua sede lá. O Porto Internacional de Comércio Marítimo de Baku é de dimensão considerável. A cidade é conhecida por ventos fortes, daí o apelido de “cidade dos ventos”.

Traços de assentamento humano remontam à Idade da Pedra. Desde a Idade do Bronze foram descobertas esculturas de rocha perto de Bayil, e uma figura de bronze de um pequeno peixe descoberto no território da Cidade Velha. Isso levou alguns a sugerir a existência de um assentamento da Idade do Bronze dentro do território da cidade.

Azerbaijão localiza-se na região da Transcaucásia que demarca a separação entre a Ásia e a Europa. As fronteiras do Azerbaijão estendem-se por um total de 2 648 km, dos quais: 1.007 km são com a Arménia; 756 km com o Irão; 480 km com a Geórgia; 390 km com a Rússia; e 15 km com a Turquia. Cerca de 450 km são com o Mar Cáspio, cuja costa forma uma fronteira natural a leste. É atravessada pela cordilheira do Grande Cáucaso a norte, sendo o centro formado por vastas planícies. O Grande Cáucaso, o Pequeno Cáucaso e os montes Talysh cobrem cerca de 40%  do seu território. Quase a metade de todos os vulcões de lama estão concentrados no AzerbaijãoOs rios e lagos formam a maior parte da rede hidrológica do país, portanto as principais fontes de água são águas superficiais. Eles se formaram durante um grande período geológico e mudaram significativamente, ao longo do tempo, o que é comprovado pelos restos de rios antigos que ainda existem. Todos os rios desaguam no Mar Cáspio. O maior lago é o Sarysu (67 km²), e o maior rio é o Kura com 1.515 km, que é transfronteiriço. 

O nome Azerbaijão, provém do nome de Atropates um sátrapa do Império Aqueménida, que se tornou sátrapa do Império Medo no tempo de Alexandre Magno. A palavra Atropates é uma transliteração grega de um nome iraniano antigo, provavelmente da Média, que significa "Protetor do Fogo (Sagrado)" ou "A Terra do Fogo (Sagrado)". Este nome grego é mencionado por Diodoro Sículo e Estrabão. Durante as eras seguintes, o nome evoluiu para Aturpatakan e depois para Adharbadhagan, Adharbayagan e Azarbaydjan, até chegar ao atual, Azerbaycan. O vocábulo pode ser traduzido como "O Tesouro" ou "O Tesoureiro do Fogo", ou "A Terra do Fogo".

As evidências mais antigas do estabelecimento humano no território do Azerbaijão datam do fim  do Paleolítico. E estão relacionadas à cultura Guruchay, da caverna de Azykh. As culturas do Paleolítico Superior e da Idade do Bronze são testemunhadas pelas cavernas de Tagilar e Zar. 
No século IX a.C. os Citas se assentaram na região. Depois deles vieram os Medos dominar a região ao sul do rio Arax, tecendo um vasto império entre 900-700 a.C., integrado por volta de 550 a.C., no Império AqueménidaMais tarde, a região se tornou parte do império de Alexandre Magno, a que lhe sucedeu o Império Seleucida. No século I d.C., os romanos organizaram duas campanhas caucasianas e chegaram a Baku. Perto da cidade, em Gobustan, foram descobertas inscrições romanas datadas de 84 a 96 d.C. Esta é uma das primeiras evidências escritas para Baku. Entre os anos de 189 a.C. e 428 d.C., a metade oeste do Azerbaijão, foi conquistada pelos Medos sob o comando do Reino da Arménia, governado pelas dinastias artaxíada e arsácidaDepois da divisão do Reino da Arménia pelo Império Sassânida e pelo Império Bizantino, em 387, as províncias de Artsaque e Uti, que tinham populações etnicamente misturadas, passaram à Albânia (do Mar Cáspio). O Império Sassânida transformou a Albânia em um Estado vassalo no ano de 252, enquanto o rei Urnair adotou o cristianismo como religião oficial no século IV. Apesar das numerosas conquistas dos sassânidas e dos bizantinos, a Albânia permaneceu individualizada até ao século IX. O Califado Omíada rechaçou os sassânidas e os bizantinos da região e transformou a Albânia num Estado vassalo, após a resistência cristã, liderada pelo rei Javanxir, que foi suprimida em 667. O vazio político deixado pelo declínio do Califado Abássida foi preenchido por numerosas dinastias locais. No início do século XI, o território foi gradualmente dominado por ondas de tribos oguzes vindas da Ásia CentralA primeira dessas dinastias turcas a se estabelecer foi a dos Gasnévidas, que invadiram a área hoje conhecida como Azerbaijão, em 1030. As populações pré-turcas que viviam no território da moderna República do Azerbaijão falavam diversos dialetos indo-europeus e caucasianos, entre eles a língua arménia e uma língua iraniana chamada azeri arcaico, que foi gradualmente substituída pela língua turca, precursora da língua azeri de hoje.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Erínias ou Fúrias


As Erínias ou Fúrias entram aqui a propósito da História que de tempos a tempos se torna mais sombria. Pelos vistos anda muita gente furiosa com os oportunistas das vacinas que se vacinam à frente da sua vez, e que levou O Coordenador da task force da Vacinação em Portugal - Francisco Ramos - a demitir-se alegando por causa desse problema. De entre as muitas pessoas Furiosas, respigo o exemplo da Bastonária das Enfermeiras, com o seu espírito justicialista e vingativo, que se indignou com  prevaricadores e benevolentes envolvidos nesse escândalo de vacinação indevida de falsos prioritários, vacinando-se à frente dos outros no processo de vacinação covid-19. A Bastonária escreveu numa rede social: 
 «Também ouvi dizer que a Presidente da SS de Faro, ilustre esposa de um Secretário de Estado, eu para nomes sou horrível, mas acho que a ilustre é Margarida Flores e o partner é o SE da administração local, acho que se chama assim. Pegou nela, dizem, na família e nuns amigos socialistas e toca de fazer de fura filas e chicos espertos a tomar a vacina. Se assim for, a quantidade de trastes por metro quadrado no País, que é pequenino, está insuportável! Oh criaturas horrorosas, fina flor do entulho! Que gente é esta meu Deus. Atenção, dizem . . .» 
Se não foi assim que as coisas se passaram, foi grave, porque espalhada a mentira já não há como a travar. E parece que tal facto não ocorreu. Mas ainda assim, quando foi contactada por um dos visados para a informar de que nem sequer fora vacinado, a bastonária acrescentou um postscriptum: 
«Entretanto ligou-me agora o SE Jorge Botelho, agora fixei o nome, referindo que não foi vacinado, nem ele, nem a esposa mas que tem critérios para ser. Ficou aborrecido com o que as pessoas dizem. Achei que devia pôr aqui a sua posição mas confesso que fiquei confusa, não foi mas tem critério. Lembrei-me de outra coisa também, o critério neste país para se ter um alto cargo público, família.»
Perante a informação de que estava a difamar alguém, a bastonária não corrigiu o que escreveu. Preferiu manter a dúvida. E passou ao ataque, sobre as relações familiares na ocupação de cargos públicos, sem qualquer relação com os factos em causa e o processo de vacinação. E não pediu desculpa.

Bem e o Mal misturam-se nas peripécias da vida humana: "Lê-se Hannah Arendt e acredita-se” no deus sem fé que se esconde no coração do homem e da mulher vazio de hoje. Crê-se, afinal, um justo nos antípodas do personagem da peça de Camus. Quem de entre nós, poderá atirar a primeira pedra?

As Erínias na mitologia grega eram personificações da vingança. Enquanto Némesis (deusa da vingança) punia os deuses, as Erínias puniam os mortais: Tisífone (Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Inominável). Os Romanos importaram dos Gregos esta mitologia com outros nomes: Fúrias – Furiæ ou Diræ. Viviam nas profundezas do Tártaro, onde torturavam as almas pecadoras julgadas por Hades e Perséfone, seus pais. Outra versão afirma que nasceram das gotas do sangue que caíram sobre Gaia quando o deus Urano foi castrado por Cronos. Pavorosas, possuíam asas de morcego e cabelo em forma de serpente.

As Erínias, deusas encarregadas de castigar os crimes, especialmente os delitos de sangue, são também chamadas Euménides (Εὐμενίδες), que em grego significa as bondosas ou as Benevolentes, eufemismo usado para evitar pronunciar o seu verdadeiro nome, por medo de atrair a sua cólera. Em Atenas, usava-se como eufemismo a expressão Semnai Theai (σεμναὶ θεαί), ou deusas veneradas.

As Erínias são divindades ctónicas presentes desde as origens do mundo, e apesar de terem poder sobre os deuses, não estando submetidas à autoridade de Zeus, vivem às margens do Olimpo, graças à rejeição natural que os deuses sentem por elas (e é com pesar que as toleram, pois devem fazê-lo). Por outro lado, os homens têm-lhes pânico, e fogem delas.

As Erínias são representadas normalmente como mulheres aladas de aspeto terrível, com olhos que escorrem sangue no lugar de lágrimas e madeixas trançadas de serpentes, estando muitas vezes acompanhadas por muitos destes animais. Aparecem sempre empunhando chicotes e tochas acesas, correndo atrás dos infratores dos preceitos morais.

A escalada dos protestos contra o confinamento na Europa




Estamos em Amsterdão, na Museumplein, um espaço público onde se localizam três grandes museus: Rijksmuseum; Museu Van Gogh; Stedelijk – e uma sala de concertos Concertgebouw. Agora aos fins de semana as pessoas juntam-se aqui para protestar contra o confinamento. Ao fim de um ano de restrições por causa da pandemia, um novo fenómeno espalha-se pela Europa. Os protestos contra o confinamento crescem, tornam-se violentos, partem a sociedade ao meio.

Perpendicular ao Museumplein, localiza-se a rua Pieter Cornelius Hoofstraat, uma das ruas comerciais mais importantes de Amsterdão, onde se concentram as lojas mais luxuosas. As montras, agora, estão todas tapadas com painéis de madeira. A porta da Louis Vuitton, aliás, desapareceu completamente atrás de um paredão de blocos de cimento. Depois do que está a acontecer, os comerciantes temem as pilhagens e tentam proteger-se. 




Na foto vê-se um rapaz a pintar um taipal, mal ele foi colocado. Subitamente três drones começam a sobrevoar o relvado do Museumplein, emitindo uma mensagem sonora repetidamente. “Esta manifestação não foi autorizada. Dispersem rapidamente. A polícia vai intervir e recorrer ao uso da força.” Nos minutos seguintes algumas pessoas levantam-se e abandonam o terreno. A maioria, contudo, decide ficar. É domingo, são quatro e meia da tarde, A batalha está prestes a começar.

À medida que a tarde corria, a multidão tinha engrossado. Nas redes sociais circulara a informação de que a polícia iria deter quem viesse manifestar-se, por isso muita gente explicava que só tinha vindo beber um café. Grupos inteiros sentavam-se em roda no chão, com termos e chávenas. Entre eles circulavam muitos miúdos em idade de liceu, em regra vestidos de negro, com capuzes e bonés. São sobretudo eles que enfrentam a polícia. Trazem bolsos carregados de pedras, foguetes e petardos nas mochilas. Alguns são imediatamente revistados e detidos. Outros passam. O ambiente começava a ficar mais pesado. Depois de os drones avisarem a multidão do Museumplein para dispersar, percebeu-se imediatamente que a polícia de choque tinha cercado todo o jardim, deixando apenas uma escapatória aos manifestantes: para sul, em direção à Van Baerlestraat. Primeiro, avançou uma carrinha blindada que os protestantes cercaram e conseguiram fazer recuar. Um foguete explodiu no relvado, e segundos depois dezenas de agentes do corpo de intervenção, armados de escudos e bastões, investiram em corrida pelo lado norte.

As medidas de restrição na Holanda intensificaram-se há quatro meses: os restaurantes fecharam no final de outubro, as lojas e as escolas em dezembro. Há um fator importante para explicar a escalada de violência. Na altura em que as restrições mais duras foram anunciadas - o recolher obrigatório -  o país apresentava os números mais baixos desde setembro, tanto nos contágios como nos óbitos. O executivo justificou o aperto das medidas com o aparecimento de uma nova estirpe de coronavírus vinda do Reino Unido. Para centenas de holandeses, no entanto, o argumento não convenceu.

Em França, nos últimos dias, perante o aumento substancial de novos casos de coronavírus, impulsionados pela disseminação das variantes britânica e sul-africana, a imprensa francesa dava como certo o anúncio de um terceiro confinamento. No entanto, apesar de registar números próximos ou acima dos 20 mil casos diários há mais de duas semanas e com os hospitais a começarem a dar sinais de rutura, o governo francês, tendo consciência da agitação social que se está a gerar e a escalar por toda a Europa contra o confinamento, recuou, optando apenas por um maior controlo nas fronteiras, o encerramento de alguns estabelecimentos comerciais e um reforço policial para garantir o cumprimento do recolher obrigatório. “A questão do confinamento é legítima, mas conhecemos o seu pesado impacto para os franceses. Acreditamos que ainda temos uma hipótese para o evitar”, afirmou o primeiro-ministro francês, Jean Castex, no final de um Conselho de Defesa extraordinário convocado pelo Presidente Emmanuel Macron. Apesar de reconhecer que as medidas atuais não estão a resultar, Macron e o seu governo vão tentar adiar ao máximo a introdução de um novo confinamento, apostando mais na fiscalização das medidas em vigor do que na introdução de novas restrições.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Vacina à covid-19 – Balcãs – Leste Europeu – China



A China tornou-se o principal ator estrangeiro na região dos Balcãs, sobretudo na Sérvia, onde tem investido milhares de milhões para garantir influência e controlo económico. Ora, essas relações permitiram à Sérvia adiantar-se na campanha de vacinação contra a covid-19. A Sérvia já vacinou mais de 6% da população, que anda à volta de sete milhões (Portugal 3,32%), uma percentagem que só é ultrapassada na Europa pelo Reino Unido. Não podendo contar com Bruxelas, a Sérvia virou-se para Oriente: o país quer entrar na UE, mas é também uma aliada da Rússia, e agora uma amiga da China. O país começou a vacinar a sua população contra a covid-19 a 24 de dezembro com vacinas da Pfizer. Mas desde então esse impulso ocidental parou. A esmagadora maioria das 1,1 milhões de doses importadas pelo governo de Belgrado são da Sinovac, a vacina feita pela Sinopharm, empresa que tem o apoio do Estado Chinês, e também da vacina russa Sputnik V.

A Macedónia do Norte não conseguiu negociar diretamente com a UE e para já depende única e exclusivamente de uma doação da Bulgária. A Bósnia Herzegovina começou negociações paralelas com a Rússia e a China. Montenegro, por outro lado, passou de depender a 100% do COVAX para negociar diretamente com os fabricantes das vacinas: fecharam um acordo com a Sinopharm e estão a considerar a vacina russa. A Ucrânia, por outro lado, já rejeitou fazer negócios com a Rússia, mas também ainda não conseguiu fechar um acordo com Bruxelas ou com os Estados Unidos. Logo, virou-se para a China: encomendou 1,9 milhões de doses da Sinovac e está à espera das 8 milhões de doses do COVAX. No Cáucaso do Sul a situação não é melhor: Arménia e Geórgia não têm conseguido garantir acesso às “vacinas ocidentais”, mas também não confiam por aí além na Sputnik V. Por isso, a Geórgia disse que ia esperar até que os “testes necessários” estivessem concluídos antes de se comprometer com a vacina russa. E a Arménia fez uma encomenda simbólica para apenas pequenos grupos de risco. Na região, só o Azerbaijão está a beneficiar de Moscovo: rejeitou a oferta chinesa da Sinovac, e mandou vir quatro milhões de doses russas, dependendo da aprovação da vacina pelos reguladores.

Em vez de dizer que as fronteiras do continente europeu a leste são indistintas, eu retiraria a palavra continente e ficava apenas com Europa, aquela designação dos gregos antigos e Heródoto:
"A Deusa que foi raptada e levada para Ocidente no dorso de um touro branco". 
É claro que, como é um conceito cultural, a Europa é uma longa história de consciência de si própria. Eu aqui vou incluir no meu conceito de Leste Europeu o conceito de Balcãs com os seguintes 9 países - Eslovénia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro, Albânia, Sérvia, Kosovo, Macedónia do Norte, Bulgária; e mais 9 países a leste até ao Cáucaso - República Checa, Eslováquia, Hungria, Roménia, Moldávia, Polónia, Bielorrússia, Ucrânia e Rússia até aos Urais. E não incluiria os países do Cáucaso (Geórgia, Azerbaijão e Arménia).




Destes Estados do Leste Europeu não têm como língua oficial uma das línguas eslavas a Hungria, onde se falam línguas urálicas; e a Moldávia e a Roménia que falam línguas latinas. Por outro lado, quanto à escrita - Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Bulgária e Macedónia - utilizam exclusivamente o alfabeto cirílico. Sérvia, Bósnia-Herzegovina e Montenegro - utilizam dois alfabetos cirílico e latino 
concomitantemente. Todos os outros utilizam exclusivamente alfabeto latinoUm outro aspeto da multiplicidade do Leste Europeu tem a ver com a grande heterogeneidade religiosa. O Catolicismo é religião predominante na Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Eslovénia e Croácia. O Cristianismo Ortodoxo predomina na Rússia, Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia, Roménia, Bulgária, Sérvia, Montenegro e Macedónia. E o Islão predomina na Bósnia-Herzegovina e Albânia.

As Nações Unidas, numa tentativa de acabar com a conotação histórica do termo Leste Europeu que vinha do tempo da Guerra Fria, não incluem no Leste Europeu os países dos Balcãs, preferindo incluí-los no Sul Europeu juntamente com a Grécia e Chipre. E também retiraram os países Bálticos do Leste Europeu, considerando-os do Norte Europeu. Por exemplo, a Finlândia e a Estónia partilham os mesmos valores, o mesmo sistema económico e político, bem como língua, religião e várias tradições. Daí a tentativa de transformar o Leste Europeu num termo puramente geográfico, diminuindo ou mesmo excluindo a sua conotação histórica, e vendo-a como a península ocidental da Eurásia. Limites marcados por grandes massas de água a norte, oeste e sul; a leste pelos montes Urais e o rio Ural; o Mar Cáspio a sudeste; as montanhas do Cáucaso e o Mar Negro. Os geógrafos da Rússia geralmente incluem os Urais na Europa, e o Cáucaso na Ásia