terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Viagens - Dakar


Morreu no domingo passado Hubert Auriol, vencedor de três edições do Paris-Dakar. Estava há mais de um mês internado com covid-19. Francês vivendo em Garches, era conhecido nas lides automobilísticas por "O Africano", por ter nascido em Addis Abeba, Etiópia, para além da sua vocação africana.

As minhas viagens agora são sem sair de casa. Mas não dou o tempo por perdido, antes pelo contrário, já tenho dito aqui que pelas leituras em livros e ultimamente através do manancial que é a Internet, tenho descoberto outros sentidos em lugares onde já estive, e ao mesmo tempo conhecido sítios onde nunca estive, mas depois destas ricas viagens até parece que estive. E viagens assim se podem prolongar, repetir e aumentar através de leituras ou do estudo de mapas, fotografias e filmes. É económico, não cansa, não é arriscado, podemos parar em qualquer momento, voltar quando nos apetecer, contemplar calmamente, tudo aquilo que se torna impossível numa viagem real.

Abdou e Mariem são dois jóvens casados, e ela está à espera de bebé, o quarto filho. Não se admirem porque, como diz Abdou, a mulher andar com a barriga plana significaria que alguma coisa não estava bem, porque era contrário à natureza. O ritmo da natureza exige que a mulher dê, uma vez por ano, a prova da sua fertilidade generosa à natureza.

Os dois pertencem à comunidade fula, o maior grupo étnico do Senegal. A pele deles é mais clara do que os outros habitantes da África Ocidental naquela latitude. Léopold Senghor, um grande poeta senegalês, tinha orgulho na sua gente, e lamentava a humilhação do branco europeu durante séculos ao povo africano. Uma das teorias reza que os antepassados do Senegal chegaram ali vindos do Egito antigo, quando o Sara ainda era verde. E mais, o historiador e linguista senegalês Cheikh Anta Diop, sustenta que os gregos antigos, da civilização grega, também tinham as raízes da sua civilização assentes em terras africanas das margens do rio Nilo. Já para não falar das origens africanas da humanidade.

Aliás, foi nestas teses que Sartre e Camus se inspiraram para os seus escritos acerca do mundo multicultural e da relação Eu-Outro. O Senegal obteve a independência em 1960. E Léopold Senghor, que convivia no Quartier Latin com essas e outras grandes figuras, foi eleito presidente. E em 1963, Senghor levou a cabo a concretização de um sonho, em Dakar, com a realização do Primeiro Festival Mundial de Artes Negras. 


sábado, 9 de janeiro de 2021

Anamnese de um enfarte do miocárdio (primeira parte)


A seguir ao jantar, num dia a meio do mês de junho, tendo comido pouco, e ainda à mesa, começou a sentir uma sensação estranha, a imagem e a conversa da mulher e do filho a distanciarem-se, ele a perder a nitidez da visão, como se os seus sentidos estivessem a escorregar para outro nível, até que um enjoo o impeliu da mesa num ímpeto vertical em direção ao corredor, apercebendo-se de que já estava todo encharcado em suor, sentou-se num degrau das escadas a resvalar para o chão, na altura em que a mulher chegou e se apercebeu de que algo de grave se estava a passar com ele.

De imediato a mulher dele pegou no telefone fixo e pediu ajuda a uma amiga médica que morava perto. A amiga foi rápida a chegar. E as duas mulheres mais o filho de dez anos meteram-se com ele no carro e dirigiram-se rapidamente para o Centro de Saúde local.
«O ar fresco da noite fez-me vir à tona e apercebi-me que era um trambolho. Mas não me doía nada. O que me estava a saber bem era o ar fresco da noite a entrar pelo carro dentro. Ao chegar ao Centro de Saúde já não via nada, embora sentisse roídos e pessoas a falar. Sabia onde estava, por trabalhar aí como médico, há quinze anos, conhecia o edifício como a palma das minhas mãos.»
Ao ser observado por um colega que conhecia disse: «ouço-te, mas não te consigo ver. Mas diria que não estou cego, porque vejo um halo luminoso onde tu estás.»

Ele apercebia-se do corpo do colega pelo halo luminoso que envolvia o seu corpo, uma cercadura de luz amarela e brilhante de onde saía uma voz conhecida, mas como se saísse de um altifalante. De resto sentia uma calma tal que não estava nada preocupado com o que se estava a passar com ele. Depois dos procedimentos de suporte básico, meteram-no numa ambulância a caminho de uma unidade hospitalar mais diferenciada.
«Estou dentro de uma ambulância e várias vozes a falar, tudo a balançar e a chocalhar à minha volta. A máscara de oxigénio começa a incomodar-me no nariz, e de olhos abertos só vejo uma luz em arco dentro de mim. Fecho os olhos: igual, luz em arco. Sinto-me entorpecido e mole, a resvalar mansamente para um adormecer. Não tenho bem a certeza, mas acho que vejo ali o meu corpo em baixo deitado num plano inferior àquele em que me encontro - o meu eu solto numa espécie de túnel circular envolto numa luz intensa amarelada numa textura translúcida como azeite em garrafa. Isto é o tal túnel, pensei, e estou-me a ir embora, ao mesmo tempo surpreendido com a minha calma.»
«De súbito um estremeção no corpo, como acontece às vezes quando estamos quase a adormecer. A máscara do oxigénio comprime-me o nariz. Abro os olhos e refilo: esta merda magoa-me. É horrível respirar assim. Inspiro fundo como para ter a certeza de estar inteiro. Reconheci a Urgência do Hospital, enquanto a maca abria caminho para o interior eu ia encarando em contrapicado sucessivas cabeças a esticarem-se sobre aquele chouriço amarrado a uma maca. Os basbaques do costume, voyeurs de berma de estrada, a cocar se a encomenda que agora chega vem em melhor ou pior estado do que a que chegou cinco minutos antes. De mim não hão de eles sacar nada! »
«O médico usa óculos, e desenrola diante dos olhos atentos a tira de papel quadriculado do eletrocardiograma. Abana a cabeça e diz: "aqui não parece haver nada Ora vamos lá tirar a camisola para ver isso melhor". E dirige a mão para o estetoscópio que usa como se fosse uma estola de borracha e metal aninhado no pescoço: "tente ser cooperante e ajude a levantar". Finco o corpo nos cotovelos, levo as mãos à cintura e puxo para cima com toda a força para desprender a fralda da t-shirt preta do cós das calças de ganga. Nesse momento tudo cessou de existir.»
Agora segue-se o relato médico: 


A cara e a boca torceram-se num esgar, os olhos reviraram-se nas órbitas e todo o seu corpo foi violentamente sacudido em convulsões com descontrolo de esfíncteres, seguido de paragem cardiorrespiratória. Na reanimação foi preciso recorrer ao desfibrilador. Voltou ao mundo dos vivos, e depois de estabilizado foi internado na unidade cuidados intensivos cardíacos (UCIC). O cardiologista finalmente vai ao encontro da colega amiga do paciente e diz: "o caso é bastante grave, não dê muitas esperanças à mulher dele". Passava da meia noite.

É um novo dia, e a narrativa volta na primeira pessoa:
«Acordei com o tropel dos rodízios pela calha do teto: a cortina que me embrulhou durante a noite recolheu contra a parede. Uma voz simpática deu-me os bons dias e perguntou como passei a noite. Cabelo negro, asa de corvo, e curto. E como ave que é, cantarola. Com uma grácil extensão do queixo ela aponta o meu peito: "parece um Cristo!; olhe só, marcas de murros, uma queimadela do desfibrilador!" Tento sentar-me na cama para observa melhor. "Quietinho. Não vai sair da cama por nada está bem?" O meu aspeto exterior pode ser assustador, o quadro clínico será porventura reservado, mas não fosse a proibição de me levantar da cama diria que estou de perfeita saúde. Isso é deveras confuso, sentirmo-nos como é costume e tratarem-nos como se fôssemos estourar a qualquer momento. Tinha passado uma semana quando fui chamado para fazer um ecocardiograma. Um tipo moreno e magro, sentado ao computador disse: "Você teve um enfarte extenso, mas está a recuperar bem".»
No dia seguinte o seu médico assistente disse-lhe que no dia seguinte ia a Santa Marta fazer uma coronariografia. Não tardou aparecer a enfermeira para rapar os pêlos do púbis e de ambas as virilhas. Começou a sentir uma aragem de sorte para os seus lados.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Velhos e Eutanásia



«Velhos estão a morrer. E nem todos de corona. Toda a gente, naquela altura da vida a que se convenciona chamar “de certa idade”, tem medo. Não são precisas palavras, o medo lê-se no corpo, e lê-se com clareza no corpo dos velhos. 
[...]
Os mais velhos estavam acompanhados. O velhote caminhava em passinhos trémulos, como uma criança a aprender a andar. Caminhava curvado, e notava-se que a altura do esplendor da vida não tinha sido aquela, tinha sido mais alto, a velhice obrigava-o a curvar-se como um prédio empenado. Um velho tem tantas coisas de criança, incluindo a impaciência e a lágrima fácil. 
[...]
Ao contemplar os velhos do hospital, o medo dos corpos assustados com a novidade incompreensível da doença que gosta de atacar os velhos, os doentes, os pobres, os fracos, recitei o poema em pensamento não conseguir comer um pêssego porque escorrega das mãos e os ossos não seguram os sólidos, trata-se de sobreviver à solidão a que este vírus condenou os velhos. 
[...]
O telemóvel de última geração não salvará os velhos. Já ninguém lê livros. E a idade não deixa ler. Na solidão das salas e das casas, a companhia que lhes resta, no cansaço do dia, é a televisão.» 
«O diploma que está prestes a sair do Parlamento não chegará a Belém antes de dia 17. E como o Presidente tem 20 dias para promulgar ou vetar isso dá-lhe folga para se quiser, só decidir depois das eleições. Certezas sobre se a lei será vetada ou promulgada só depois da esperada reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo tem dito que o facto de como católico convicto ser contra a eutanásia nunca poderá determinar a sua decisão na hora de vetar ou promulgar uma lei. Possibilidade da “antecipação da morte” em casos de “sofrimento extremo, com lesão definitiva ou doença incurável e fatal, quando praticada ou ajudada por profissionais de saúde”»
Em vez de eutanásia prefiro dizer morte voluntária. Em todo o caso, numa altura em que a velhice em Portugal, como em todo o mundo, está a ser dizimada por esta pandemia, e por causa disso a transtornar a cabeça dos governantes, e a pôr a vida dos países de pernas para o ar, à partida, poderá ser difícil de compreender como falar-se de morte voluntária numa altura destas. Nas palavras de um psiquiatra do Hospital Magalhães Lemos, numa recente entrevista, a dimensão do suicídio em Portugal é maior do que os números podem fazer crer, pois há ocultação e suicídios mascarados. Este psiquiatra defende que o suicídio é tão disfuncional como qualquer homicídio. Ele sabe do que está a falar pois tem trabalhado em programas de prevenção do suicídio. Há cerca de um milhão, ou talvez mais, de mortes por suicídio todos os anos no mundo. Por razões de estigma cultural os registos de suicídio no Alentejo são mais elevados do que no norte de Portugal. É uma questão de défice de registo. Mas uma coisa é verdadeira: em períodos de pandemia a taxa de suicídios desce.

Falar do suicídio é como se, para chegarmos à claridade, tivéssemos de empurrar uma porta de madeira muito pesada que oferece resistência à pressão, rangendo nos gonzos. E depois de passarmos o umbral em vez de vermos luz, mergulharmos em trevas. O mundo do suicídio é um mundo fechado. É um tabu.

Por isso, não era bem deste suicídio que queria falar. É da morte voluntária a que alguns chamam suicídio assistido, que os órgãos de comunicação social insistem em chamar eutanásia, palavra simultaneamente estigma e tabu, cheia de mitos. Aquele que se elimina a si próprio é um suicida. Ao passo que o suicidário é o que transporta em si a morte voluntária mas obedecendo a um projeto ou programa político, ou religioso. Há o assassinato-suicídio que se refere a uma situação em que o autor de um homicídio se suicida após a morte da(s) vítima(s). O que parece ser um pacto geralmente é na realidade um assassinato. Um pacto de suicídio são aqueles casos, em todo o caso raros, de casais de idosos sem descendentes ou família por perto, decidem os dois pôr termo à vida em simultâneo. São casais idosos. E há um outro caso especial que é o suicídio ao ralenti ou em câmara lenta. Ou seja programado a longo prazo por si e para si de uma forma lenta e sistemática, invariavelmente suave, não violenta. E há o ataque suicida, quando um atacante comete um ato de violência contra outros (geralmente um grande número de pessoas), normalmente para atingir um objetivo militar ou político, que resulta na sua própria morte. Estes casos de suicidas são considerados como atos de terrorismo.

A morte voluntária é um modo de morrer. Só que é livre e controlada pela própria pessoa. É claro que não é por dar na real gana de alguém. É uma decisão que tem razões que o coração desconhece, uma causa, portanto, seja ela um cancro ou Alzheimer, ou ocorra por causa de uma outra coisa.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Os inimigos da democracia e seus cúmplices


Milhares de manifestantes apoiantes de Trump, invadindo o Capitólio e alguns deles conseguiram aceder ao interior, apesar de a segurança ter tentado impedir com gás lacrimogénio. Numa destas fotos vê-se que os seguranças armados se preparam para disparar caso manifestantes entrem mesmo na sala onde estão senadores. Inclusivamente, noutra foto, vê-se um apoiante de Trump numa atitude impensável após ter invadido o escritório de Nancy Pelosy. 
No mesmíssimo momento em que liguei o aparelho, um grupo de apoiantes de Trump invadia o Capitólio, acicatados por ele, o ainda presidente até ao dia 20 deste mês de um país democrático, mas que à vista desarmada mais parece uma ditadura governada a ferro e fogo. um homem que foi eleito há quatro anos, mas que politicamente nada o distingue de um dos mais infames ditadores. Independentemente do que o legitima, devemos perguntar onde estão os outros republicanos que respeitam a democracia? Sem dúvida um homem perigosíssimo,, não apenas para os Estados Unidos da América, mas também para todo o mundo, na medida em que figuras como esta, devíamos saber porquê, são dados a contagiar muitos imitadores. Estou a lembrar-me de André Ventura, que poucas horas mais tarde esteve em 'prime time' a debater com o atual Presidente da República, ambos candidatos presidenciais às próximas eleições no dia 24 deste mês. O caso da América não foi tema, mas não teria feito mal, uma oportunidade para confrontar Ventura com o comportamento inadmissível que o seu ídolo continua a ter. Podia ser confrontado com as repercussões do discurso de ódio que ele próprio alimenta aqui. Os grupos de fanáticos que aqui está a criar. 

Sou de opinião que, mal os EUA entrem novamente na normalidade democrática, Trump devia ser processado judicialmente por ter sido o principal instigador à rebelião e à invasão indevida, por parte de alguns arruaceiros, da Casa da Democracia Americana. Inclusivamente, para além de terem destruído portas e janelas do Capitólio, vimos nas imagens alguns dos manifestantes transportarem nas suas mãos objetos simbólicos do Parlamento, para além de quase todos serem portadores de volumosas mochilas às costas. O que tinham dentro essas mochilas? Nada de bom, presumo!

A América não pode ficar impávida e serena. As lideranças cúmplices do Partido Republicano também devem ser responsabilizadas e pedidas explicações quanto ao aproveitamento oportunista deste monstro para uso dos seus próprios interesses. U monstro populista que ameaçou a própria república. Esta é a última oportunidade para os republicanos honrarem Lincoln e fazerem a coisa certa, porque a democracia americana está sob ataque. Donald Trump não desiste de  boicotar o caminho de Joe Biden para a Casa Branca. Nem os mais pessimistas previam uma invasão ao Capitólio no exato momento em que o Congresso se preparava para validar o voto dos grandes eleitores de todos os Estados. Esta insurreição, promovida por Donald Trump, exige do Partido Republicano uma demarcação muito clara. 

O objetivo da turba 
era impedir à força a certificação da eleição de Joe Biden pelos congressistas. Partiram vidros, vandalizaram as instalações, tiraram fotos indecorosas e trouxeram para a Casa da Democracia americana a bandeira da Confederação, fação sulista e esclavagista derrotada na Guerra Civil do século XIX. Horas antes da sessão Trump anunciou na Casa Branca: “Vamos marchar até ao Capitólio!”. E ficou a assistir. Só após horas de violência, com a sessão parlamentar suspensa e os representantes do povo levados para local seguro, lançou um vídeo no Twiter a pedir aos sequazes que fossem para casa. Não deixando e lançar o mesmo tipo de provocações que há meses tem lançado incessantemente: “Amamos-vos, sois muito especiais”. “A eleição foi roubada”. 

Intermezzo: por cá prosseguem na televisão os debates entre candidatos às eleições Presidenciais. E também não deixa de preocupar o que se ouve sair da boca de um dos candidatos que se tem declarado fã de Trump. Até uma pivô moderadora não quis acreditar no que estava realmente a ouvir do candidato da extrema direita palavras com atrocidades de igual calibre trumpista. A dizer que se for presidente não será presidente de todos os portugueses. Não será presidente dos coitadinhos. Hipócrita, como se estivesse revoltado contra a condição humana, quando disse numa tirada à doutor Fausto, que o que queria era a alma dos portugueses. Não consigo imaginar o vapor de água retido na Regi, para que as coisas continuem a parecer o mais normal possível. E não, nada disto é normal. A imagem do homem fica-nos cravada como um espinho. É penoso, um espinho que nos dói. Nada é mais preocupante do que não podermos fazer nada. Não conseguimos fazer-nos ouvir sem as câmaras, para dizer que não somos todos da sua igualha. Mandá-lo voltar para trás, para o século XII. Para o século XII não, que ainda dá cabo das catedrais. Para a caverna do troglodita, lá estará em sua casa, no paraíso imaculado. O olho do cu, como disse Guillaume Apollinaire.

Disse: "vou dormir". E apaguei o televisor.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Roleta-russa


"Roleta-russa" é uma expressão metafórica que se usa naquelas situações de incerteza em que as pessoas se encontram, potencialmente perigosas, mas que ainda assim se quer correr o risco com ações nitidamente temerárias, mas com pretensos ares de bravura, raiando a imprudência.  

Mikhail Lermontov [1814-1841]no romance “Herói do Nosso Tempo” - um escritor, poeta e pintor romântico russo, conhecido por "o poeta do Cáucaso", o poeta russo mais importante após a morte de Alexander Pushkin em 1837, e a maior figura do romantismo russo - é dos primeiros escritores a introduzir o tema na literatura. A sua influência na literatura russa continuou a fazer-se sentir nos tempos modernos, não apenas através da sua poesia, mas também através da sua prosa, uma espécie de fundação do romance psicológico na tradição da literatura russa.




Em "O Herói do Nosso Tempo", o protagonista Gregory Alexandrovich Pechorin diz que não há predestinação. Propõe que se faça um jogo com apostas. Começa por colocar vinte peças de ouro sobre a mesa. Um tenente dos dragões do czar, de origem sérvia - Vulič - com paixão pelo jogo, aceita o desafio. Vai ao armário onde estão armas de vários calibres, umas carregadas outras não, e pega numa à sorte. Ninguém sabe as pistolas que estão carregadas e as que não estão. Vulič pergunta: "Senhores! Quem me vai pagar 20 peças de ouro? Encosta a pistola à testa e pede a Gregory para atirar uma carta ao ar. Mal a carta toca o chão, ele prime o gatilho. Nada acontece. Vulič volta ao armário e pega noutra pistola ao acaso. Mas desta vez aponta a arma para a tampa de uma panela pendurada sobre a janela, e não à sua cabeça. Puxa o gatilho e ouve-se um disparo. Um estrondo e fumaça que se espalha pelo aposento.

Existem várias versões e lendas que explicam a origem deste jogo: uma versão diz que os oficiais do exército russo jogaram este jogo mais com o intuito de impressionar o inimigo com a sua bravura. Em 1917, quando tudo se precipitava para o fim, os oficiais russos acreditavam que estavam a perder não apenas o país, a família e dinheiro, mas também a honra e o prestígio perante os seus aliados. Sentados em qualquer lugar à volta de uma mesa entre amigos, era frequente, de repente, um dos oficiais pegar no revólver, colocar apenas uma bala no tambor, rodar o tambor, e depois encostar o cano à têmpora e puxar o gatilho. A probabilidade de o cérebro do oficial ir pelos ares era de um em sete. Às vezes era o que acontecia. O revólver mais utilizado pelo exército russo no início do século XX era o revólver Nagan M 1895. Há descrições de armas de seis tiros, mas a deles era de sete. Nos contos e romances a referência era a de seis tiros. 

Bem, no fim de contas, a "roleta russa" é mais um produto da ficção que se estendeu também ao mundo cinematográfico. Incontáveis ​​tramas foram criadas em torno desta peculiar faceta humana. Até chegou a correr a versão de que tinha sido o escritor norte-americano Georges Arthur Surdez quem cunhou o termo "roleta russa" . Ele havia publicado um conto homónimo na revista “Collier”, em 1937. No conto, o protagonista é um soldado francês que narra o seu testemunho: oficiais russos a jogar à roleta russa com toda a banalidade, chegando algumas vezes a acontecer à mesa dos cafés. Mas a verdade é que nenhum escritor russo do período anterior à Revolução Bolchevique de 1917 aflora sequer o vocábulo “roleta-russa”, seja em obras biográficas ou históricas, seja em obras de ficçãoAté mesmo o trecho de Lermontov descreve uma situação em que se usava uma arma de tiro único, carregada ou não, e não um revólver.   




No filme de 1978 – The Deer Hunter, três soldados americanos são capturados durante a Guerra do Vietname e forçados a jogar roleta russa enquanto os seus captores apostam nos resultados. Uma variação especialmente brutal do jogo: só o último jogador é que não morre. O jogo acontece numa sala de bambu por baixo da qual os outros prisioneiros são mantidos. De modo que o sangue dos perdedores escorre para baixo sobre os futuros concorrentes. Mike, visita Steven numa instalação de veteranos com ambas as pernas amputadas, e um braço paralisado. Steven quando regressou soube que a sua Angela lhe foi infiel, e por isso recusa-se voltar para casa. O que era intrigante era Steven estar a receber regularmente grandes somas de dinheiro vindas do Vietname. E conta isso a Mike. Este ao saber isso, diz que desconfia que é Nick que está por trás desse mistério. Depois de convencer Steven a voltar para Angela, Mike volta ao Vietname em busca de Nick. Vagando por Saigão, uma cidade num estado de caos brutal, Mike acaba por encontrar Julien, e pede-lhe que o leve ao sítio onde se encontra Nick.

Mike, finalmente consegue entrar no antro do jogo da roleta-russa. Vê Nick na mesa de jogo. Mal consegue sentar-se à sua frente, enfrenta-o, tentando a via da persuasão. 
Nada consegue. Nick havia-se tornado um profissional daquele jogo macabro. Nick nem sequer reconhece Mike. Mike insiste desesperadamente tentando trazer Nick de volta à razão. Mas Nick, que agora é um viciado em heroína, mantém-se indiferente. Mike entra no jogo disparando contra a sua cabeça, e ao mesmo tempo vai evocando memórias dos tempos em que eles iam à caça na sua terra. Nick finalmente sorri, mas já é tarde demais. Puxa o gatilho e Mike começa a ver o sangue a jorrar da cabeça de Nick, morrendo à sua frente. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

No melhor pano pode cair a nódoa da teoria conspirativa, negacionista e pseudocientífica


Muitos de nós ficam estupefactos por ver cientistas, que até dado momento da sua carreira, depois de se terem tornado referência e revelado grandes expoentes na sua área de estudo, manifestarem pontos de vista ou opiniões sobre outras áreas do conhecimento completamente disparatadas. Um exemplo, que vem agora a propósito, é o do cientista inventor da técnica do PCR (Polymerase Chain Reaction) – que é a técnica mais fiável nos testes à presença de infeção pelo vírus SARS-CoV-2 da atual pandemia covid-19 – Kary Banks Mullis [1944-2019]. Um bioquímico americano cujo reconhecimento pela invenção da sua técnica lhe valeu o Prémio Nobel da Química em 1993 com Michael Smith. A sua invenção da Reação em Cadeia da Polimerase é hoje um padrão em biologia molecular, ao ponto de muitos biólogos dizerem que o PCR faz a demarcação 'do antes e do depois' em biologia.

Depois da brilhante ideia, Mullis abraçou uma variedade de convicções pseudocientíficas, tornando-se um negacionista das alterações climáticas e do facto de o vírus HIV causar a SIDA, chegando até a mostrar-se crente na astrologia. Não é o primeiro Nobel a abraçar convicções pseudocientíficas, fenómeno que talvez represente a mais exclusiva manifestação do efeito Dunning-Kruger. Mas isso não descredibiliza a boa ciência feita por Mullis, extensamente confirmada por outros cientistas.

As pessoas demasiado incompetentes conseguem estender a sua incompetência quando se trata de avaliar a sua própria ignorância e estupidez. Este fenómeno foi objeto de estudo em psicologia cognitiva por dois investigadores, que ficou com o seu nome “efeito Dunning-Kruger”. Inclusivamente, daqui se pode reconhecer a falta de credibilidade por parte destes negacionistas que movimentam cartazes com o slogan “pela verdade”, surpreendentemente comprometidos com profissões tais como jornalistas, juristas e até médico, padecendo da mesma sina. É precisamente a ignorância que faz mover presunções de certeza atrevida 
sobre qualquer assunto. 

De tempos a tempos emergem estes demónios do medo do conhecimento. Lembremo-nos do conflito surgido nos anos da década de 1990 envolvendo criacionistas e tribos do Lakota e dos Cheyenne River Sioux reabilitando antigos mitos de criação dos povos nativos americanos contestando a teoria dos cientistas antropólogos  e arqueólogos de que os seres humanos entraram no continente americano vindos da Ásia atravessando o estreito de Bering 13.000 anos a.C.
Sabemos de onde viemos. Somos descendentes do povo Búfalo. Eles vieram do interior da Terra depois de os espíritos sobrenaturais terem preparado este mundo para que a humanidade aí vivesse. Se os não-índios preferem acreditar que evoluíram de um macaco, seja. Nunca encontrei nem sequer cinco Lakotas que acreditassem na ciência e na evolução.
É claro que nessa altura estava ao rubro a atração por parte de alguns cientistas da antropologia cultural e etnologia pelo relativismo e construtivismo pós-moderno, com a seguinte tese: "a ciência é apenas uma das muitas maneiras de conhecer o mundo. A ciência é mais um sistema de crenças tão válido como a mundivisão das tribos nativas. Por isso a ciência deve ser rejeitada como forma privilegiada de ver o mundo". Por muito impressionante que sejam estas afirmações, não teriam qualquer importância se não tivessem um grande acolhimento entre académicos de algumas faculdades norte-americanas no campo das humanidades e ciências sociais. Faziam circular a ideia filosófica de que existem muitas formas igualmente válidas de conhecer o mundo.

Como é que tantos académicos contemporâneos acabaram por se deixar convencer de uma doutrina tão radical? Uma das explicações reside no acordar académico para as questões pós-coloniais e para o despertar dos povos cujas tradições e culturas foram divididas por estranhos a régua e esquadro. Por exemplo, antes da Primeira Guerra Mundial uma família do agora Iraque que tinha parentes noutra família da atual Síria de tempos a tempos visitavam-se mutuamente sem terem de pedir licença a ninguém. Sucede que depois esta região foi traçada a fronteiras com linhas imaginárias nos mapas. Mas o terreno ficou na mesma. Então um membro de uma dessas famílias interroga-se a que título um estranho qualquer lhe vem dizer que continuar a visitar os seus parentes do lado de lá tem de ter um papel autorizado por uma repartição distante e estranha ao modo de vida que as suas famílias e os seus ancestrais sempre tiveram ao longo de séculos?

Ora, legitimamente muitos académicos foram sensíveis a tais argumentos. Era preciso arrumar as ideias. E, por conseguinte, o primeiro passo teria de ser ideológico e não científico. O melhor pensamento filosófico do nosso tempo teria de afastar as conceções objetivistas do passado. E esta conceção transformou-se num movimento que atravessou todas as questões sociológicas que se prendiam com a política. Este movimento pós-moderno levou de arrasto outras questões que já estavam latentes há muito tempo e que se prendia com o patriarcado. Todo o conhecimento, dizem, é socialmente dependente porque todo o conhecimento é socialmente construído. Segundo esta ideia, a verdade de uma crença não é uma questão de como as coisas se relacionam com uma realidade que existe de forma independente.

Sobretudo aquelas pessoas cuja organização cerebral se pode classificar de "paranoide", ou seja, com tendência para a paranoia que consiste em interpretar o mundo com desconfiança desmedida devido a um sentimento persecutório, resvalando facilmente para as chamadas teorias da conspiração, não compreendem que faz parte da ciência cometer erros. Só que a sua vantagem é que faz parte da sua essência detetá-los e não professar certezas. Ao contrário do que se possa pensar, a certeza não é estatuto que faça parte da ciência. É muitas vezes na tentativa e erro, voltar a tentar corrigir os erros e voltar a errar, até que algo de eureka acontece com força suficiente para que uma larga camada de cientistas se renda à evidência dos factos. A ciência não é só um corpo de conhecimento. É também, e acima de tudo, o método para o obter, ou seja, o modo como se acrescenta novo conhecimento ao que já existe. O processo científico depende da interação, tanto cooperativa como competitiva, entre cientistas. Não há ciência sem comunicação, que começa entre pares antes de chegar ao conhecimento público. Em suma, a ciência é feita por uma comunidade cuja troca de conhecimento é cada vez mais multidisciplinar. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Saber fazer perguntas para obter as melhores respostas: como será a nossa vida depois disto?


Uma coisa é a ciência como empreendimento humano, tal como a arte e a política, como parte da cultura humana para melhor viver neste planeta enfrentando as suas agruras. Outra coisa é o cientismo acrítico e a tentação do domínio total das forças da natureza.

Uma pergunta muito repetida nos média ultimamente é se a nossa maneira de estar no mundo vai mudar. E esta pergunta sendo feita no contexto da pandemia, subentende-se que esteja também implícito o problema das alterações climáticas e do aquecimento global. Que outras razões teríamos para tal pergunta? Todavia, uma das explicações para as pessoas estarem apenas focadas na pandemia é porque os governos, os cientistas e os média se têm focado demais na pandemia. E por outro lado o registo contínuo dos mortos por covid-19 algum efeito terá sobre o medo das pessoas da morte. A
s pessoas ao verem gente a morrer, um efeito imediato e sentido como diretamente implicado no vírus, desperta muito mais medo do que noções menos tangíveis em relação aos efeitos do aquecimento global provocado em parte pelo mantra do crescimento económico dos países indexado ao PIB (Produto Interno Bruto) em vez de outros parâmetros de bem-estar sustentável. 

Racionalmente sabemos que é o sofrimento por que passamos antes de morrer que nos deve meter medo, e não a morte em si. A morte, em si, e o que irá acontecer no mundo sem nós deveria ter a mesma relevância que os imensos séculos em que ainda não existíamos. E isso pode-nos incomodar se pensarmos que podemos conhecer o passado, mas não podemos conhecer o futuro sem passarmos por ele. E para não nos incomodarmos com a morte temos de tomar consciência de que a nossa finitude é como é, e não nos adianta nada lamentar esse facto. É por isso que não nos podemos deixar embalar: quer pela antiga ideia de um qualquer tipo de vida depois da morte; quer pela ideia utópica de que a ciência está prestes a descobrir o verdadeiro elixir da eterna juventude, e quem sabe, a vitória final sobre a morte.

Como tudo o que é demasiadamente humano, a globalização trouxe coisas boas e más. A globalização contribuiu tanto para que o vírus SARS-CoV-2 se espalhasse quase instantaneamente por todo o mundo a partir do primeiro foco numa cidade chinesa; como para que se conseguisse uma vacina em tempo recorde. A globalização fez desta epidemia um evento global. Noutros tempos de acentuada entropia social (epidemias, catástrofes naturais e guerras) as zonas de crise eram circunscritas e permitiam sempre a fuga a partir de dentro ou o auxílio a partir de fora. Neste caso, a crise está em todo o lado e por isso não há fuga possível nem auxílio externo suficiente.

Uma das  consequências tem a ver com a saúde mental da população. Além disso, há a clivagem entre gerações: os mais novos tendem a considerar-se a salvo; e os mais velhos ou se resignam que morrer faz parte da vida quando já vai longa, ou então acabam os seus dias vivendo muito aterrorizados. Esta clivagem geracional está a dar azo a um grande mal-estar nas famílias, que tanto faz terem os seus velhos em casa, como tê-los nos lares eufemisticamente ditos de terceira idade ou residências sénior. Portanto, uma clivagem societária geral e perigosa. Ouvem-se de novo ideias malthusianas, mais ou menos disfarçadas, quando se pensa que esta epidemia irá dizimar grupos-alvo, como os maiores de 70 anos, os portadores de doença crónica ou os presos. Ou seja, pessoas consideradas mais descartáveis. 

De uma coisa podemos ter a certeza: todas as sociedades irão empobrecer de forma acentuada. A
 recuperação poderá ser lenta, precisamente porque não há zonas tampão. Para além das mortes pelo novo coronavírus, muitas outras existirão causadas pelo decréscimo de recursos públicos, falências, desemprego e falta de expectativas de vida. 

Um outro problema, que irá surgir inevitavelmente, tanto mais que já estava em curso no Ocidente por causa dos fluxos migratórios sul-norte, é o do crescimento de regimes autocráticos. E esta tendência será ainda mais reforçada quando a China através do seu expedito sistema de desinformação convencer o mundo popular de que foi mais eficiente a combater a pandemia do que as democracias. O regime chinês mostrou as suas limitações (falta de transparência). Mas também a sua capacidade, assente em parte na restrição das liberdades individuais, de voltar a controlar o crescimento económico, e com isso a paz social. Por contraste, os regimes democráticos, mais transparentes, e mais cuidadores das liberdades, sofreram mais mortes, e economicamente ficaram mais "ó tio ó tio". Se a abordagem democrática tiver claramente menos sucesso do que a abordagem autocrática, isso será um problema no futuro próximo. Muitos regimes democráticos, incluindo na Europa, estão já sob pressões populistas de extrema direita que desejam aplicar políticas nativistas e autoritárias. Se as democracias não tiverem sucesso no combate, poderão entrar em deriva autoritária.

As crises climática e migratória, que são globais e necessitariam de respostas globais, mostraram uma tendência para o nacionalismo e para as estratégias nacionais independentes. O que isso pode provocar nas pessoas, sobretudo nas mais jovens, é um sentimento do peso, da urgência e da seriedade da vida que contraste em absoluto com a leveza, a descontração e ligeireza com que se tende a viver hoje nas sociedades que são mais responsáveis pela destruição do planeta. Só um tal sentimento, se for generalizado, pode mudar o muito que precisa de ser mudado no modo como vivemos e nos organizamos. É difícil crer nisso; é ainda mais difícil prever isso; mas é isso que é desejável.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Quem Salvar?


Neste momento já está a decorrer a aplicação da vacina contra a covid-19 na população, um pouco pelo mundo onde nas últimas 24 horas ficaram infetadas mais cerca de 752.000 pessoas, e morreram devido à covid-19 quase 15.000. Como ainda não há vacinas para todos, e mesmo se houvesse seria impraticável ser vacinada toda a gente num único dia, há que estabelecer critérios de prioridade. E como em tudo na vida humana, nestas questões nunca há unanimidade. Neste caso específico da pandemia, em que os mais vulneráveis são os mais idosos, parece sensato dar prioridade aos mais idosos. Mas há quem introduza um raciocínio diferente, semelhante ao raciocínio utilizado nos cenários de guerra: nesta situação estaria implícito que os profissionais de saúde, equivalentes aos jovens soldados numa guerra, tanto uns como outros são os que asseguram a sobrevivência da população. 

As mães sabem que precisam de ir à frente dos filhos, que ainda têm uma vida pela frente para ser vivida. É o que se ouve dizer em circunstâncias tais. Ter toda a vida à frente é uma máxima que se aplica às crianças e aos jovens. Não tem sentido aplicá-la aos velhos. Aquele que viveu mais anos já realizou mais possibilidades do que aquele que viveu  menos. Isso não diminui em nada a aflição sem medida que acompanha as decisões em causa. 

Por outro lado, quando é a população inteira que está ameaçada, os mais novos devem ter prioridade porque são os que têm mais chances de sobreviver e de ter mais tempo futuro para fazer alguma coisa a fim de salvar o mundo. Portugal optou por começar pelos profissionais de saúde. Outros países optaram por começar pelos mais velhos. 

Assim, é conforme determinadas circunstâncias que ora prevalece uma decisão, ora prevalece a outra. Neste caso somos inclinados a pensar que não existem verdades absolutas em questões morais. O princípio das decisões intuitivas em coletivo, como por exemplo no cenário de um Serviço de Urgência Hospitalar, os profissionais de saúde não têm tempo para decidir em obediência a leis cristãs, ou a moralismos estoicos, kantianos ou utilitaristas. Não se decide em nome de um bem absoluto, de uma lei moral ideal ou de um resultado útil. Mas têm em conta uma orientação científica que aconselha o cálculo das probabilidades de salvação. Não é racional apostar salvar os casos que a ciência sabe que à partida são casos perdidos, com pouca chance de salvamento. Mas atenção, não são critérios ou considerações estatísticas ou probabilísticas, que subordinam a ação, mas sim a avaliação caso a caso consoante critérios já estabelecidos pela ciência e o estado da arte da profissão médica. Nestas situações-limite, o poder está na ação, que é o máximo de poder de vida possível.



Quem salvar? Esta é uma pergunta retórica, mas quando se está em pleno teatro de ação não nos é permitido perguntar. Só na prática real se toma a decisão e aí não se faz a pergunta. Não há teoria. Passei muitas vezes por situações dessas, sobretudo no Serviço de Urgência, quando nos entrava em simultâneo pelo serviço dentro, por exemplo, um grande acidente de viação com vários feridos, uns muito graves, outros graves, e para complicar, um outro caso com uma intoxicação por organofosforados, na gíria rural ingestão de “remédio do escaravelho” voluntária com propósitos suicidas. Há nesses cenários um princípio intuitivo que é coletivo. Não é por acaso que todos assumem o chamado espírito de equipa, médicas e enfermeiras em ação no Serviço de Urgência. Esse princípio intuitivo tem a ver com a expectativa e o preenchimento das possibilidades. 

Não se pode aceitar de ânimo leve questões dilemáticas. Os filósofos da ética são peritos em fazer experiências de pensamento, de que o dilema do "motorista do trólei" desgovernado é um dos mais conhecidos. Neste caso o motorista não tem tempo para pensar, nem está em equipa, e isso faz toda a diferença. A minha versão é diferente da versão canónica dos filósofos:
Um motorista vai a descer uma ladeira; e quando começa a travar ao aproximar-se da passadeira para peões num cruzamento, de repente, perde os travões. Para não atropelar um peão que vai a passar guina para a esquerda e galga o passeio, quando iam cinco pessoas a passar. Infelizmente nenhuma das cinco pessoas se salvou. Uma tragédia que vai para além das vítimas. Mais duas pessoas ficam irremediavelmente também vitimadas pelo chamado síndrome pós-traumático: o motorista e a vítima potencial que não chegou a ser atropelada na passadeira.
Começando por esta, ao tomar consciência do sucedido foi apoderada pelo sintoma de culpa, porque era ela que devia ter morrido e não as cinco pessoas. Este sentimento é um pouco semelhante ao do único sobrevivente de um acidente de aviação em que morreram todos os passageiros menos um, essa pessoa que ficou com um sentimento de remorso, porque é um privilegiado, beneficiando de uma injustiça divina. Quanto ao motorista, passou a ser invadido, agora sim, pela problematização de um dilema. Só que se trata de um dilema a posteriori, que se pode resumir no “Se”, assim: “Se não tivesse desviado o trólei só teria matado uma pessoa em vez de cinco”.
Mas este dilema do motorista, com o contrafactual - qualidade versus quantidade - tornar-se-ia interminável não se tivesse dado um golpe de teatro ao ter-se vindo a saber mais tarde  que os cinco indivíduos que morreram atropelados faziam parte de uma seita, veio a saber-se a posteriori, que estavam a preparar um atentado a uma escala semelhante ao do 11 de setembro de 2001. E ainda por cima a pessoa que se salvou era um médico voluntário dos Médicos sem Fronteiras. 
Estamos a navegar na lógica dos sistemas e dos dilemas. Haverá um sistema que possa ser aplicado, a não ser na base de uma pressuposição? Para Platão, num navio a naufragar, a prioridade no salvamento deveria ser dada às boas pessoas em detrimento das más. Platão deveria ser daqueles contra a pena de morte, exceto para os “hitlers”.

Em ética filosófica há dois tipos de raciocínio padrão: o utilitarista à moda de John Stuart Mill; e o deontologista à moda de Immanuel Kant. O raciocínio utilitarista não garante a justiça. Mas o outro sistema também não o faz. O mais justo nem sempre é praticável. O que seria mais justo não é praticável porque envolve juízos sobre o valor moral das pessoas. E quem é que tem a autoridade máxima para o fazer? O campo da verdade moral não é semelhante ao campo da verdade científica

Quem salvar? Será que Platão é consistente e robusto? Se só pudermos salvar uma pessoa em duas, será mais justo salvar a pessoa A, que é generosa, altruísta e deu importantes contributos para outras pessoas, do que a pessoa B, que é egoísta, mesquinha, frívola e de tal modo autocentrada que nunca contribuiu para um mundo melhor?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um vinho do porto pelo Natal




Muito pouco, um dedo...

Célebre em todo o mundo, os ingleses que o digam, pertence às grandes famílias dos vinhos doces naturais ou vinhos de licor, que conservam os seus aromas de frutos frescos mediante o contributo da aguardente que suspende a fermentação da uva.

O porto branco é destinado a aperitivo, mas é o tinto que é servido em portos de honra. Os rubis são portos jovens com menos de três anos. Os tawnys são envelhecidos em cascos de carvalho e há-os de várias idades a parir dos dez. E os vintages também são datados, mas o envelhecimento faz-se na garrafa.

Não é boa ideia, depois de aberta a garrafa, ser guardado por muito tempo, como era antigamente hábito em muitas casas portuguesas. Ouvia-se às vezes esta frase pelo Natal: "Esta ainda é do Natal do ano passado". Ora, como a música de fundo à refeição, o fundo da garrafa do porto também deve ser evitado.

Por isso um porto é um bom pretexto para no Natal se brindar à paz e saúde da família, numa ou duas rodadas servido em copos pequenos, não mais que um dedo ou dedal, para rimar com Natal.

A cada soçobrar das provas o poeta responde com uma salva de porvir. 

René Char

Pela porta do cavalo . . . ou do gato


Aproxima-se a consoada de Natal, e este ano o Natal não se vai parecer com outros Natais no que respeita a beijos e abraços, casas cheias de gente, dez, vinte e até trinta pessoas em salas com pouco mais, ou menos, de quarenta metros quadrados. Recordo-me de um ano termos ido consoar a casa duns tios. Um pouco antes de irmos para a mesa, vejo, sem querer, o tio a passar pela janela um peru acabado de assar numa padaria. Era uma surpresa que os tios nos queriam fazer, porque em princípio seria apenas o tradicional bacalhau com todos. Acontece que eu, tendo a mania de andar de um lado para o outro para aquecer os pés, vi. Foi o caso, o peru entrou em casa pela porta do cavalo.

A porta do cavalo tanto serve para entrar como para sair. Serve para entrar num emprego por cunha ou por meios pouco canónicos. Serve para um político sair de forma despercebida quando quer fugir às perguntas dos jornalistas, ou a alguém que queira evitar uma espera desagradável. Diz-se que José Sócrates, no tempo em que esteve no governo, e mesmo depois, recebia dinheiro pela porta do cavalo: 
“Eu entregava-lhe aquilo de uma forma discreta. Eu não fazia recolha de dinheiro. Fazia recolha de envelopes. E o juiz pergunta: “E não tinha a noção de o que lá estava era o dinheiro. E Ele responde: Não! E o inspetor tributário exclama: “Ó Sr. João, pelo amor de Deus!” e Ele responde: “Pelo amor de Deus digo eu”. Inspetor tributário: “Aquilo é pago pela porta do cavalo”. O Sr. João: “Se é dinheiro vem de um esconderijo, não é de um banco”. 
Houve tempos em que médicos, que queriam tirar uma especialidade, mas não queriam submeter-se à prova nacional de acesso às especialidades, porque era uma prova muito difícil, arranjavam um padrinho que os aceitassem no seu Serviço para “tirar a especialidade à Ordem”. Faziam o internato “entrando pela porta do cavalo”, e no fim não se submetiam ao exame final da especialidade, que era o exame oficial instituído pelo Ministério da Saúde. Mas podiam submeter-se ao exame à Ordem dos Médicos. Aprovados no exame à Ordem, eram especialistas. Legal para o exercício da especialidade, não na parte Pública, mas na Privada. Mas podiam concorrer a uma vaga posta a concurso no Serviço onde haviam feito o estágio. E assim entravam no quadro hospitalar em competição com os outros colegas que não tinham usado a porta do cavalo.

Nos palácios e palacetes toda a gente sabe que não faltam portas por onde sair, como, por exemplo, a porta da cavalariça. É claro que para entrarmos, é sempre pela porta principal. O mesmo acontece nas praças das corridas de touros, onde há portas destinadas ao público, aos toureiros, aos touros e aos cavalos. Para os toureiros, a maior honra é sair da arena em ombros pela porta grande, enquanto o público aficionado ovaciona. O toureiro "sair pela porta do cavalo" significa, por contraste, sair de forma despercebida sem honra nem glória.  

Como uma coisa puxa a outra, a minha imaginação voou para os Natais passados na casa da minha avó materna quando era criança. E estou a recordar-me que a minha avó tinha um gato, e de uma das portas da loja que tinha uma gateira. A minha avó havia pedido a um inquilino, que era carpinteiro, para recortar na parte de baixo da porta uma portinhola gótica, para o gato poder entrar e sair à vontade, quando lhe apetecesse, que nesse aspeto os gatos são muito independentes de vontade. Era para o gato cumprir o seu papel de guardião das ratazanas que se faravam de lhe roer as batatas. Excelentes batatas que ela cultivava, e que comíamos no Natal cozidas com o bacalhau, trazidas para a mesa numa púcara de barro com água quente por baixo para manter o cozido aquecido por mais algum tempo ao longo da refeição para quem quisesse bisar.




Noutro Natal mais recente, o gato, que ainda tínhamos, desapareceu da noite de 24 para 25.  Depois de tomar uma água das pedras na cozinha, fui ao terraço procurá-lo. Nada, podia ser que tivesse pulado o muro para o terraço do vizinho de um dos lados, porque do outro lado, apesar de também haver um gato da mesma raça, era impossível dado ter uma rede bem alta. Portanto, era do outro lado que podia estar, onde também aprecia um gato preto de uma vizinha do primeiro andar. Mas de gatos nenhum sinal deles. Que grande porra, vou ter de andar à procura dele noutros lados, disse eu cá para mim, logo no dia de Natal. Os gatos levam vida de gato, são animais inteligentes, é sabido etc. e tal. Os gatos quando desaparecem, é porque não querem que ninguém os chateie. Mas voltarão quando tiverem fome, é claro, ideava eu com os meus pensamentos.

Naquele terraço também já há uns dias que não via ninguém por lá. Era uma passagem para gatos, e para o "homem aranha" que assaltou um primeiro andar entrando pela janela. Como o sol já me escaldava a cabeça, apesar de ser inverno, não estava vento ali, fui buscar um boné ao armário do escritório. E eis o meu espanto, quando o gato muito sorrateiro dá um salto lá de dentro, e impávido e sereno, como se nada tivesse acontecido, dirigiu-se em direção ao sítio da casota de areia e das tigelas da água e comida seca, num andar de arlequim. Alguém tinha fechado as portas de correr do armário onde no dia anterior tinham estado escondidas as pendas de Natal. Deixei-o ir. Coloquei o boné na cabeça e fui para o terraço. 

As placas de cimento, marcadas no chão, a receber o calor e eu os raios de sol. Algumas nuvenzinhas flutuavam no céu, nítidas e precisas em contraste com um azul de Viana. No meu terraço apenas pontuavam dois vasos: um com uma oliveira e outro com um Abeto-falso também nomeado por Espruce-da-Noruega. E o terraço da direita a abarrotar de todo o tipo de plantas, um alpendre de lona, portátil, e uma piscina de plástico para criança, e brinquedos de churrasco. Aparentemente, as cadeiras brancas não eram usadas há meses (ou anos) e estavam cobertas de terra em pó. Em cima de uma mesa pétalas colocadas pelo vento e pela chuva de outros dias. Pela janela, um sofá de couro, uma TV enorme, uma prateleira com um aquário de peixes tropicais, e dois troféus de algum campeonato. Num terraço mais distante avistei uma enorme casota de cão, sem ver o cão. E um avançado com telhado de chapa zincada um pouco amolgada pelo salto do "homem aranha", depois de ter assaltado o primeiro andar por volta das quatro da madrugada, era verão e dormia-se de janela aberta, e ouvia-se o clamor de pessoas à janela do prédio do outro lado da rua a vê-lo fugir com um portátil debaixo do braço, a correr aos pulos pelos terraços.

Quando me virei, vi alguém à janela no prédio do outro lado da rua. Acendeu um cigarro com um fósforo que atirou para a rua com um movimento que deu para perceber que já estava bem familiarizado com o gesto. Não deu para ver bem quem era porque eu estava de óculos de sol, e com o boné enterrado até às orelhas. A vinte metros de distância deu para ouvir uma voz, para perceber que era uma voz de homem. “Nem me fale!”, ouvi, ele a fumar sem mudar de posição, fazendo-me lembrar outra pessoa, e eu a retirar-me para dentro de mansinho.