sábado, 10 de abril de 2021

Frank Lloyd Wright



Uma referência a Frank Lloyd Wright ouvindo esta canção: So Long Frank Lloyd Wright, do álbum Bridge Over Troubled Water, 1970, de Simon & Garfunkel

Frank Lloyd Wright [1867-1959] foi um arquiteto cujo conceito central em sua obra era o da personalização, do projeto individualizado, conforme o sítio onde fosse instalado, e a sua finalidade. No início da sua carreira, trabalhou com Louis Sullivan, um dos pioneiros em arranha-céus da Escola de Chicago. Responsável por mais de mil projetos, dos quais mais de quinhentos construídos, 
Frank Lloyd Wright influenciou com as suas ideias e obras o nascimento de uma nova arquitetura. É considerado um dos arquitetos mais importantes do século XX.

Antes de se tornar um dos maiores arquitetos de todos os tempos, ele estudou engenharia por apenas dois semestres. Mas abandonou o curso e foi trabalhar para Chicago como desenhador no escritório de Silsbee, um arquiteto de renome. Tornou-se a figura chave da arquitetura orgânica, exemplificada pela Casa da Cascata, nesta foto a seguir, uma das mais famosas casas do mundo.




Um desdobramento da arquitetura moderna que se contrapunha ao International style europeu. A sua obra inclui não apenas os edifícios originais dos mais diferentes tipos: casas, templos, escolas, hotéis, museus; também os elementos a serem empregues no interior das suas construções, desde os vitrais às mobílias, para além de outros detalhes como objetos de decoração. Fallingwater house ou Casa Kaufmann (nome de família do seu primeiro proprietário) é uma residência localizada 50 milhas a sudeste de Pittsburgh, em Bear Run, na Estrada Rural 1, secção Mill Run de Stewart Township, Condado de Fayette, Estado da Pensilvânia. O edifício foi projetado em 1934. No entanto, a sua principal característica é o facto de ter sido erguido parcialmente sobre uma pequena queda de água, servindo-se dos elementos naturais ali presentes: pedras, água e vegetação, como constituintes da composição arquitetónica. Assim como em várias obras de Wright, incluiu novos materiais muitos deles ainda experimentais à época em que foram utilizados.




O proprietário era o homem de negócios Edgar Kaufmann Sr., cujo filho Edgar Jr. fora aluno de Wright em arquitetura. Foi construída no meio de um bosque, no interior de uma propriedade da família. Originalmente utilizada como residência de verão da família, a casa hoje é um museu. Em julho de 2019, a Casa da Cascata e uma seleção de outras 7 propriedades de Wright foram inscritas na lista do Património Mundial sob o título "A arquitetura do século XX de Frank Lloyd Wright".

Elogiada pela Time magazine, pouco depois da sua conclusão como "o mais belo trabalho" de Wright, também está listada na Life List de 28 lugares - "A visitar antes que seja tarde demais" - da revista Smithsonian.




sexta-feira, 9 de abril de 2021

No livro "Woke" Titania McGrath é Andrew Doyle





Andrew Doyle, travestido de Titania McGrath, alegadamente uma ativista de todas as causas, escreve agora este livro, com o título "Woke", como se fosse uma empenhada militante das lutas "arco-íris" e, sobretudo, da justiça social que os extremistas nos EUA referem como SocJus. Andrew Doyle é um comediante, dramaturgo, jornalista e um sátiro político irlandês da Irlanda do Norte, que já anteriormente havia criado o personagem fictício Jonathan Pie em coautoria. 
Doyle é de origem católica irlandesa, e nasceu em Derry, Irlanda do Norte. Ele é formado em inglês e doutor em poesia renascentista pela Universidade de Oxford. Ele apareceu na Sky News como membro do painel em The Moral Maze na BBC Radio 4. Foi palestrante no Battle of Ideas Festival, em Londres, evento anual organizado pelo Instituto de Ideias. Ele se considera de esquerda, mas é crítico de elementos da política de esquerda, em particular do politicamente correto e da política identitária. Mas, por outro lado, foi a favor do Brexit e apoiou Jeremy Corbyn durante as eleições gerais do Reino Unido e 2017.

Woke, uma sátira do ativismo destes dias, é o retrato do delírio que invadiu uma legião de ativistas com pretensões de se baterem pela justiça social. Titania McGrath é uma «ativista interseccional», seja lá o que isso for, de 24 anos de idade. Ela jura-nos que a justiça social se conquista juntando uma bandeira "arco-íris" no perfil do Facebook, ou intimidando quem diga desconhecer o significado de «não binário», ou chamando nazi a quem pense votar num partido conservador. Em suma: os que defendem a liberdade de expressão são "criptofascistas". A loucura do fundamentalismo está presente em várias colorações da direita, como se viu com Trump, mas também tingiu fortemente uma certa visão da esquerda progressista que distorce o que é o progresso.

Woke é um termo que se refere a uma perceção e consciência das questões relativas à justiça social e racial. O termo deriva da expressão do inglês vernáculo afro-americano "stay woke" (mantém-te acordado). No final da década de 2010, Woke foi adotado como uma gíria mais genérica, amplamente associada às causas protagonizadas pela esquerda, que inclui o feminismo e o ativismo LGBT. Teve recentemente o seu apogeu resultante do movimento Black Lives Matter. Tendo sido usado mais lá para trás, nos tempos mais recentes o termo aparece na música "Master Teacher" do álbum New Amerykah Part One (4th World War), 2008, da cantora de soul Erykah Badu. Ao longo da música, Badu canta a frase: "I stay woke". Embora a frase ainda não tivesse qualquer conexão com questões de justiça, a canção de Badu é creditada posteriormente para simbolizar estas questões. "Stay woke" em essência, estar sempre acordada, desperta ou sempre vigilante, entrou na cultura popular, com a ideia de que essa consciência deve ser conquistada. Em 2012, os utilizadores do Twitter, incluindo Erykah Badu, começaram a usar "woke" e "stay woke" em relação a questões de justiça social e racial e #StayWoke surgiu como uma hashtag amplamente usada. 

A melhor forma de desconstruir o perigo do radicalismo é a sátira. Em Woke assistimos à irrisão por absurdo das loucuras identitárias: do radicalismo feminista; das extravagâncias de género; do apeamento de estátuas e do cancelamento da cultura. 
As frases (verdadeiras) em epígrafe de cada capítulo são tão delirantes como as do humorista. Como esta de Munroe Bergdorf, modelo transgénero: “Podes ser um sem-abrigo e desfrutar dos privilégios dos brancos". Ou, em relação ao Daesh: “Pelo menos não pode ser acusado de islamofobia.” Woke passou a ser levada pelos humoristas como uma "paranoia saudável, especialmente sobre questões de justiça racial e política". Assim, tanto a palavra como o conceito de cultura política Woke foram sujeitos a paródias e críticas de ambos os lados do espetro político. Barack Obama, expressou comentários que foram interpretados como uma crítica à cultura Woke, afirmando que "essa ideia de pureza e de que você nunca se compromete e está politicamente acordado, e todas essas coisas devem ser rapidamente ultrapassadas. O mundo é uma coisa muito complicada e cheia de ambiguidades, em que até não, também, as boas pessoas cometem erros. 

Em entrevista ao The Spectator, a personagem revelou que foi criada por pais que a "esbanjaram" com "presentes e dinheiro" para distraí-la da sua "opressão". Ela foi acordada através da passagem bíblica da Limpeza do Templo. Frequentou os Estudos Culturais da Universidade de Oxford antes de concluir um mestrado em Estudos de Género. Defendeu tese com uma dissertação inovadora sobre o tecnopaganismo e a natureza corrosiva da futuridade cis-masculina. Descreve-se como uma vegan militante. Além do mais, uma poeta melhor do que Shakespeare. A personagem fictícia de Titania McGrath foi criada em abril de 2018 através de uma conta anónima no Twitter para a personagem. A conta é uma paródia do Twitter que foi, segundo Doyle, projetada para gozar com a cultura Woke.

O horizonte é nublado e o futuro incerto



Paisagem iluminada por milhares de velas, pequenas chamas com o propósito de salvar a próxima colheita de uvas e produção de vinhos e conhaques caros. Um efeito colateral que os fotógrafos Aurélien Ibanez e Hubert Lamy captaram e partilharam para nosso deslumbre e encantamento.

 



A intensa geada de primavera na região de Borgonha, em França, obrigou os produtores vinícolas a tomarem medidas drásticas para salvar as culturas: recuperando uma prática antiga, cobriram os campos com milhares de velas que evitaram a formação de geadas, através de uma pequena subida da temperatura que contrariou a vaga de frio que atingiu a região. Em Chablis, os vitivinicultores conseguiram combater os efeitos do mau tempo graças a esta prática ancestral, que resulta em imagens de grande beleza.



 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Atrofia cortical posterior





Atrofia cortical posterior é uma síndrome neurodegenerativa, geralmente devido à doença de Alzheimer. Os primeiros sintomas começam pelo comprometimento progressivo da visão espacial - síndromes de Balint e Gertsmann - ou percetiva (agnosia visual, alexia). A memória episódica e a função executiva são poupadas até estágios mais avançados. O exame oftalmológico é normal nestes casos. Ataxia visual, simultagnosia, alexia, agrafia, acalculia, desorientação espacial e negligência unilateral (síndromes de Balint e Gerstmann), são jargões técnicos para descrever os sintomas desta doença neurológica degenerativa. O seu diagnóstico mais amplo só começou em 1988, com a série Benson, embora obviamente já existisse antes disso. A atrofia cortical posterior foi descrita formalmente pela primeira vez por Frank Benson e a sua equipa, em 1988, embora sem dúvida existisse sem ser reconhecida por muito mais tempo. 

A maioria dos pacientes inicialmente consultam um oftalmologista, que posteriormente os encaminha para a neurologia, geralmente numa fase mais tardia. A princípio, a memória é normal ou quase normal, e não há demência, mas a evolução é progressiva. Assim, o início é insidioso, com sintomas de falha visual, limitação do campo visual, mas com o aparelho visual normal. Alguns pacientes se perdem no próprio bairro ou mesmo dentro de casa, e para esses casos Benson usou o termo “agnosia ambiental”. É comum surgirem em seguida outras dificuldades: confusão entre esquerda e direita, dificuldade para escrever e fazer cálculos, e até agnosia para os próprios dedos, uma tétrade de problemas denominada síndrome de Gertsman. Alguns pacientes podem ser capazes de reconhecer e associar cores, mas não de dizer o nome delas, um caso chamado de 'anomia cromática'. Mais raramente, pode ocorrer dificuldade para acompanhar movimentos e dirigir a visão para um alvo específico. Em contraste com essas dificuldades, a memória, a inteligência, a perceção intuitiva e a personalidade tendem a preservar-se até uma fase mais avançada da doença. Segundo Benson, cada paciente que ele descreveu “pôde relatar a sua história, tinha noção dos eventos correntes e mostrou considerável perceção intuitiva do seu problema”. Embora a atrofia cortical posterior seja sem dúvida uma doença degenerativa do cérebro, as suas características parecem diferir consideravelmente das formas mais comuns da doença de Alzheimer. Nestas, os pacientes tendem a sofrer flagrantes alterações na memória, raciocínio, compreensão e uso da linguagem e, em muitos casos, no comportamento e personalidade, além de geralmente perderem mais cedo a noção do que está a lhes acontecer (o que talvez seja para eles uma bênção).

Atrofia cortical posterior é apenas um diagnóstico anatómico; denota a parte do cérebro mais afetada. Porém, nada diz sobre o processo básico da doença, não explica porque essas partes do cérebro são afetadas e não outras. Há casos publicados em que os pacientes tiveram alucinações e delírios de reconhecimento, como a síndrome de Capgras, e outras. O quadro clínico pode ser assimétrico, com negligência unilateral do espaço, extinção visual e até hemianopsia. Alterações discretas no tónus muscular, reflexos palmo-mentonianos, defeitos de memória e defeitos linguísticos foram compatíveis com a doença de Alzheimer; e a longa evolução tira a possibilidade da variante visual da doença de Creutzfeldt Jacob. As condições neurodegenerativas têm variantes topográficas: às vezes comprometem um ou outro hemisfério, às vezes a região do hipocampo, áreas linguísticas ou áreas pré-frontais, áreas de associação parietal explicaria as síndromes de Balint e Gerstmann, o comprometimento das áreas de associação temporária à existência de afasias, alexias e agnosias visuais. A causa dessas variações não é óbvia, pode depender de diferenças subtis nos processos patológicos ou da vulnerabilidade seletiva de vários sistemas neurais.

Excertos de um caso de Oliver Sacks:

Uma pianista com 67 anos de idade, começou por consultar um oftalmologista porque andava a ter dificuldade para ler as partituras, algo inédito na sua vida. No consultório do oftalmologista não teve problemas em ler individualmente todas as letras da tabela optométrica até à última linha, mas o caso mudou de figura quando lhe foram colocadas à frente palavras escritas. Simplesmente não conseguia ler palavras. E o mesmo se passava para ler música numa pauta. Foi então encaminhada para um neurologista. E foi na consulta de neurologia que ela revelou pela primeira vez que já havia três anos que notara as suas dificuldades com a leitura de música. A sua capacidade para escrever estava preservada, e ela continuava a manter uma copiosa correspondência com ex-alunos e colegas. Portanto, tecnicamente a isto chama-se alexia sem agrafia. Um ano depois da primeira consulta de neurologia, ocasionalmente ia cometendo erros embaraçosos com o reconhecimento de pessoas, incluindo familiares e amigos.  

No testes, saiu-se particularmente mal no reconhecimento de desenhos, por exemplo: chamou alicate a uma banana; e a uma caneta disse que era uma navalha. Conseguia ler, mas devagar, letra a letra e só depois as juntava para inferir a palavra. E tinha dificuldade de reconhecer em fotografias figuras públicas e gente famosa. Em contraste, com esses graves problemas visuais, a sua compreensão da fala, repetição e fluência verbal estava totalmente normal. Uma tomografia por emissão de positrões (PET na gíria) - um exame capaz de detetar ligeiras mudanças no metabolismo de várias áreas cerebrais, mesmo quando elas parecem anatomicamente normais na TAC ou Ressonância - mostrou diminuição da atividade metabólica na parte posterior do cérebro, o córtex visual. Essa redução era mais acentuada do lado esquerdo.

Outro ano mais tarde já não conseguia reconhecer as letras ou os números individualmente, embora ainda não tivesse dificuldade para escrever frases completas. Passou a ter uma agnosia visual mais geral, até para reconhecer figuras. Descreveu assim uma delas: “Vejo um V, muito elegante, dois pontinhos aqui, depois uma oval, com dois pontinhos brancos no meio. Não sei o que é”. Ela ficou embaraçada, rindo, quando se lhe disse que era um helicóptero. Ela agora via apenas características individuais de um objeto, ou figura, e não conseguia sintetizá-las, vê-las como um todo, e muito menos interpretá-las corretamente. Se lhe mostrassem a fotografia de um rosto, ela só era capaz de perceber se a pessoa estava com óculos, e mais nada. Olhando para os desenhos de um livro de testes neurológicos, ela disse a respeito de um lápis: “Pode ser muitas coisas. Poderia ser um violino… uma caneta”.

Os neurologistas interrogavam-se se a sua dificuldade para reconhecer desenhos era devida simplesmente ao caráter esquemático do traçado, ou à bidimensionalidade e pobreza de informações? Ou será que refletia uma dificuldade de nível superior na perceção e representação em si? Será que ela se sairia melhor com objetos reais? Apenas uma agnosia para representações, portanto. 
E efetivamente, só parcialmente se saía melhor com objetos reais.

Pensa-se que o reconhecimento de representações requerer aprendizagem, não é uma aptidão inata. A compreensão de um código ou uma convenção precisa de ser ensinada. Os antropólogos dizem que pessoas de culturas primitivas que nunca viram fotografias podem não reconhecer que elas são representações de alguma outra coisa. Se um complexo sistema para o reconhecimento de representações visuais precisa de ser construído especialmente pelo cérebro, essa capacidade pode ser perdida com uma lesão nesse sistema, da mesma maneira como se pode perder a compreensão da escrita, por exemplo, ou de qualquer outra habilidade adquirida por aprendizagem.

Esta pianista não era capaz de perceber facilmente, num relance, oito ovos. Precisava de os contar um a um. A isto costuma-se chamar deficiência de visão de conjunto ou gestalt. Ela contou que com os condimentos era
 “um desastre”. Vinham todos em frascos idênticos de tampa vermelha, e obviamente ela não podia ler os rótulos. Por isso, explicou, “eu cheiro!… e peço ajuda de vez em quando”. Acerca do micro-ondas, que ela usava com frequência, comentou: “Não vejo os números. Vou experimentando. Cozinho, provo, verifico se precisa ficar mais um pouco”. Ela pousou os biscoitos num prato em cima da mesa. Mas alguém mudou o prato dos biscoitos para o outro lado da mesa. Quando voltou, olhou para a mesa, mas não viu os biscoitos. Os biscoitos estavam bem ali na mesa, no prato, à sua frente, mas como o prato fora mudado de lugar ela não sabia mais onde estavam, não sabia sequer onde procurar. Ela passou a usar uma estratégia de memória, que consistia ter sempre um lugar certo para cada coisa. E assim, quando precisava de uma coisa,  procurava-a pelo lugar que ocupava.

Perguntei o que ela via numa das paredes. Primeiro ela virou a sua cadeira, não para a parede, mas para a janela, e disse: “Vejo prédios”. Virei a cadeira colocando-a à frente da parede. Tive de a conduzir passo a passo. Perguntei se via luzes. E ela respondeu "Sim, ali e ali". Demorei a perceber que ela estava a olhar para um sofá sob as luzes, embora acertasse na cor dele. Ela observou alguma coisa verde em cima do sofá e disse corretamente que era um cordão esticado. Contou que a sua fisioterapeuta lhe dera um cordão semelhante. Perguntei o que ela via acima do sofá (uma pintura abstrata com formas geométricas), e ela respondeu: “Vejo amarelo… e preto”. Perguntei o que era, e ela arriscou: algo relacionado com o teto. Ou um ventilador. Um relógio. E depois acrescentou: “Na verdade, não sei se é apenas um objeto ou muitos”. Mas Lilian claramente não fazia a mínima ideia de ser uma pintura. Podia ser parte da estrutura da sala. Ela não conseguia distinguir uma pintura vistosa da parede propriamente dita, mas era capaz de reconhecer instantaneamente uma pequena foto sua num CD. Como podia identificar um fino cordão verde mas não via, ou não reconhecia, o sofá onde ele estava? Como usava relógio de pulso, perguntei como via as horas.  Ela não podia ver os números, explicou, mas calculava com base na posição dos ponteiros. Mostrei-lhe então, de brincadeira, um estranho relógio que possui, em vez de números, símbolos de elementos químicos (H, He, Li, Be etc.). Ela não percebeu nada diferente no relógio, pois para ela aquelas abreviaturas não eram nem mais nem menos inteligíveis do que seriam os números.

Fomos dar uma volta a pé, eu de chapéu de cor berrante para facilitar o reconhecimento. Lilian ficou desnorteada diante dos objetos de uma vitrine — mas até eu fiquei. Era uma loja de artesanato tibetano, para nós tão exóticos que podiam ser marcianos. Curiosamente, a loja ao lado Lilian reconheceu de imediato e mencionou que passara por lá a caminho do meu consultório. Era uma relojoaria, com dezenas de relógios das mais variadas formas e tamanhos. Seu pai era apaixonado por relógios. A anomia de Lilian, a sua dificuldade para encontrar palavras, também se agravara. Quando lhe mostrei fósforos, ela reconheceu-os visualmente, mas não conseguiu dizer “fósforos”, descrevendo-os assim: “isso é para acender o fogo”. Eu andava intrigado com as extraordinárias variações da função visual de Lilian. Algumas delas, ao que parecia, estavam relacionadas com a afeção do córtex visual. Dez anos antes, a sua performance na leitura de música também era assim, aparecia e desaparecia.

Era surpreendente, por exemplo, percebia expressões faciais numa minúscula fotografia, e, no entanto, grande parte do tempo lhe fosse difícil reconhecer pessoas. Conseguira categorizar palavras, por exemplo, se se referiam a coisas “vivas” ou “não vivas”, mas não sabia dizer o que eram. Essa categorização poderia ser possível em certo grau, apesar da sua lesão cortical. Teriam de entrar em jogo outras partes do cérebro ainda intactas. Num sistema lesado há menos reservas, menos redundância, e é mais facilmente perturbado por outros fatores como fadiga, stress, febre . . . Lilian fora engenhosa e resiliente nos onze ou doze anos decorridos desde o início da doença. Buscara recursos interiores de vários tipos: visuais, musicais, emocionais, intelectuais. Apesar de tudo isso, Lilian achava que o seu ouvido estava tão bom como sempre, e ela ainda conseguia lecionar para alguns alunos de música que iam ao seu apartamento. Mas, fora isso, já não tocava piano com frequência.

No entanto, quando mencionei o quarteto de Haydn que ela havia tocado para mim, o seu rosto iluminou-se. “Fiquei fascinada com essa música”, disse. “Nunca a ouvira antes. Raramente ela é tocada.” E contou-me de novo que não conseguira tirar a música da cabeça e fizera um arranjo para piano, mentalmente só num dia. Pedi que tocasse a música mais uma vez. Lilian de início se fez de rogada, mas depois, persuadida, quis ir até o piano, só que foi na direção errada. O marido corrigiu-a delicadamente. Ao piano, ela no começo enganou-se, tocou notas erradas e pareceu angustiada e confusa. “Onde estou?”. Mas depois começou a tocar maravilhosamente, os sons foram crescendo, ganhando calor, fundindo-se. Claude ficou surpreendido, e comoveu-se: "Há duas ou três semanas que ela não tocava nada”. Enquanto tocava, Lilian olhava para o alto, cantarolando baixinho a melodia. Tocava com todo o seu imenso talento artístico, com toda a capacidade e sentimento que demonstrara antes, e a música de Haydn elevou-se em turbulência, uma altercação musical. E então, quando o quarteto chegava aos acordes finais, à resolução, ela disse simplesmente: “Tudo está perdoado”.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Os Macondes




Há uma intervenção étnica na "guerra" em Cabo Delgado, com "unidades de Macondes, antigos combatentes, alguns já com uma idade avançada, que “caçam” nas matas os 'jihadistas'. Os grupos terroristas em Cabo Delgado, que realizaram ataques no distrito de Palma, visam atingir os megaprojetos de gás natural em Afungi.

Os Macondes resistiram sempre a serem conquistados por outros povos africanos. Depois vieram os muçulmanos, os traficantes de escravos, os portugueses, e a mesma resistência se manteve. Não foram subjugados pelo poder colonial até 1920.

O grupo étnico ocupa o nordeste de Moçambique e o sueste da Tanzânia com o rio Rovuma pelo meio que os divide em Macondes de Moçambique e Makondes da Tanzânia. Precisamente, escrito Makonde na Tanzânia e Maconde em Moçambique. Os dois grupos desenvolveram línguas separadas ao longo do tempo, mas compartilham uma origem e cultura comuns.

Durante a década de 1960, os ataques ao império colonial português foram lançados a partir do Planalto de Mueda. Inclusivamente, parte do apoio financeiro à Frelimo derivava da venda de arte Maconde, tendo-se tornado a espinha dorsal do movimento revolucionário. E ainda hoje continua a ser um grupo influente na política do país.

Os Macondes são exímios escultores em madeiras nobres, nomeadamente pau-preto, sendo a sua arte conhecida mundialmente. Roberto Yakobo Sangwani, nos finais da década de 1950 deixa a sua casa em Moçambique e vai para a Tanzânia. Aí desenvolve o estilo Dimoongo (poder de força), também conhecido como Ujamaa. As esculturas da Árvore Genealógica, que também são referidas como "Árvore da Vida", geralmente datam da década de 1950. No entanto, acredita-se que foi introduzido já na década de 1930, quando a primeira exposição foi realizada no Centro Cultural dos Novos, em Moçambique. O estilo original representava um vencedor numa luta livre e levado em ombros pelos seus colegas, que são representados num conjunto de figuras. 




Algumas versões posteriores foram esculpidas mostrando uma figura feminina no topo de um conjunto de figuras. É um dos oito estilos artísticos dos Maconde, sendo os mais representativos: Ujamaa; Shetani; Binadamu.

Um género especial de arte ritual tradicional Maconde são as máscaras características de Mapiko /Lipiko, que têm sido usadas em danças tribais que acompanham rituais de passagem de idade. Essas máscaras são cuidadosamente esculpidas a partir de um único bloco de madeira clara (geralmente 'sumaumeira brava') e podem representar espíritos shetani, ancestrais ou personagens vivos (reais ou idealizados). O dançarino as usa para que ele veja através da boca da máscara ou fixe-a em sua cabeça, e a máscara enfrenta diretamente para o público, quando ele se curva para a frente.

Estilo Shetani ("diabo" em suaíli) são expressões da mitologia e espíritos dos Maconde. Este estilo usa a aparência de traços físicos do outro mundo, características faciais distorcidas, e às vezes de animais para significar o reino espiritual. Acredita-se que a essência de Shetani tome cinco formas: humana, mamífero, peixe, pássaro e réptil.

Estilo Binadamu, mais naturalista, captura a essência dos papéis sociais dos Maconde. O mais comum são as representações de homens fumando e mulheres cumprindo tarefas domésticas.




Muito antes de a arte Maconde se tornar de interesse comercial, o propósito desta forma de arte estava na sua caracterização de espíritos malignos durante as cerimónias dos ritos de passagem. Os mais notáveis são as iniciações masculinas para idade adulta, que é marcada pela circuncisão. Começa por uma dança ritualista: Mapiko. Ao longo desta dança há três partes ativas: uma dançarina mascarada representando um homem morto que veio assombrar a aldeia, o Mashapilo ou um espírito maligno buscando espalhar malícia e perturbar a saúde e, por último, o jovem que passa por essa transição para a masculinidade que é conquistar essas entidades. Ambos os dançarinos mascarados são expressões simbólicas do mal que deve ser enfrentado e derrotado pelo menino que em breve será homem.

Após esta dança, um rapaz receberá a operação do Mkukomela, ou do "Hammerer": a circuncisão. Passará dias longe da população em geral com outros homens e rapazes num abrigo chamado Likumbi. Há uma mudança física que inclui aprender a caçar e cuidar da terra. Há também uma mudança social na qual os homens são ensinados a se juntar à sua comunidade como homens. São ensinadas virtudes de qualidade moral, como considerar os anciãos e a maneira apropriada para as relações sexuais. Uma vez curados da operação, o Likumbi é destruído com fogo, e eles herdam novos nomes.

As esculturas de madeira também estão presentes durante a iniciação feminina, mas num estágio diferente da iniciação masculina. Uma vez casada, ela carregará uma boneca de madeira para promover a fertilidade.

«Poderíamos compreender as suas mentes, quase nelas penetrar»



T. E. Lawrence - Os Sete Pilares da Sabedoria
Em Novembro de 1917, Allenby estava pronto a iniciar um ataque geral contra os Turcos em toda a sua extensão da sua frente. Os Árabes deveriam ter feito o mesmo no seu sector; mas eu receava arriscar tudo numa única jogada, e, em vez disso, planeei a capciosa operação do corte do caminho-de-ferro do vale de Yarmuk, para provocar a desordem na retirada turca prevista. Este meu passo teve o fracasso que merecia.
Nós, na frente árabe, estávamos em grande intimidade com o inimigo. Os nossos oficiais árabes tinham sido oficiais turcos e conheciam pessoalmente todos os chefes do outro lado. Haviam recebido o mesmo treino, pensavam da mesma maneira, tinham o mesmo ponto de vista. Sondando os métodos de abordagem dos árabes, poderíamos explorar os Turcos: poderíamos compreender as suas mentes, quase nelas penetrar. O relacionamento entre nós e eles era universal, porque a população civil da área inimiga estava inteiramente do nosso lado, sem subornos nem persuasão. Em consequência, o nosso serviço de espionagem era o mais amplo, o mais completo e o mais seguro que era possível imaginar.

Esse aliado era Meinertzhagen, um estudioso de aves, que fora parar ao Exército e cujo ardente e imoral ódio ao inimigo se traduzia tão depressa na astúcia como na violência. Não era homem de meias medidas. Era lógico, profundamente idealista e tão compenetrado das suas convicções que não se importava de atrelar o mal ao carro do bem. Era um estratego, um geógrafo e um homem dominador de riso silencioso, que sentia tanto prazer em enganar um inimigo (ou um amigo) com qualquer manobra pouco escrupulosa como em esmagar os miolos de um bando de alemães encurralados, um a um, com a sua clava africana. Os seus instintos eram estimulados por um corpo imensamente poderoso e um cérebro selvagem, que decidia qual a melhor maneira de atingir os seus fins, sem qualquer impedimento de dúvida ou hábitos. Meiner preparou falsos documentos do Exército, elaborados e confidenciais, que indicariam a um experiente oficial de estado-maior posições erradas da formação principal de Allenby, uma direção errada do ataque iminente e uma data com alguns dias de atraso. Esta informação foi transmitida através de cuidadosas insinuações, por meio de mensagens telegráficas. Quando soube que o inimigo as captara, Meinertzhagen partiu em missão de reconhecimento, com o seu livro de anotações. Foi avançando sempre, até que o inimigo acabou por vê-lo. Na sua fuga a galope, perdeu todo o seu equipamento, e por pouco não perdia a vida também, mas sentiu-se recompensado por ter observado as reservas inimigas por detrás de Gaza e todos os seus preparativos na deslocação para a costa efetuados com menos urgência. Simultaneamente, uma ordem do Exército, dada por Ali Fuad Paxá advertia o seu Estado-Maior contra o transporte de documentos de documentos pela linha férrea.


 
Lawrence (Peter O'Toole) com Ali ibn Hussein (Omar Sharif) no filme Lawrence da Arábia, 1962, dirigido por David Lean, roteiro de Robert Bolt e Michael Wilson baseado nos Sete Pilares da Sabedoria de T. E. Lawrence.
Eu estava mais bem montado que a maior parte deles, na camela vermelha que encabeçava a nossa procissão a Beidha. Era um animal longo e inclinado, com uma passada enorme, como o avanço de um êmbolo, e difícil de suportar; vigorosa, mas não inteiramente mecanizada, pois havia coragem no esforço persistente que a levava a esforçar-se para chegar sempre à linha da frente. Aí, depois de ultrapassados todos os concorrentes, a sua ambição morria numa passada sólida, mais longa alguns centímetros que a dos camelos normais, mas muito semelhante à dos outros animais, excetuando o facto de proporcionar uma sensação de confiança na imensa reserva da sua força e da sua resistência. Os indianos, muito rígidos na sela, como se montassem a cavalo, faziam o melhor que podiam. Juntei-me a Ali ibn Hussein, que montava uma rara e velha camela de corrida. O animal devia ter uns 14 anos, mas nunca enfraqueceu o passo nem se sacudiu durante toda a noite. Com a cabeça baixa, avançava naquele passo rápido, de joelhos pendentes, próprio de Nejd, que tanto facilitava a vida do cavaleiro. Começou a chuviscar, e o solo tornou-se escorregadio. Um camelo sirhani caiu. Um dos beni sakhrs caiu. A chuva parou e começámos a andar mais depressa.

Os beni sakhrs queriam honra, e os serahins tinham feito uma tão triste figura que reclamavam mais aventuras. Fazer rebentar comboios era uma ciência exata, quando o atentado era feito deliberadamente, com um grupo suficiente, com metralhadoras em posição. Feito de improviso, podia tornar-se perigoso. A dificuldade, desta vez, residia nos artilheiros indianos, que embora fossem bons quando devidamente alimentados, perdiam grande parte das suas qualidades quando tinham frio e fome. Não queria arrastá-los sem rações para uma aventura que poderia demorar ima semana. Não havia crueldade alguma em fazer os árabes passarem fome; não morriam por causa de uns dias de jejum. E lutavam tão bem como sempre, mesmo de estômago vazio. E, se as cousas se tornassem muito difíceis, podiam sempre matar e comer os seus camelos. Mas os indianos, embora fossem muçulmanos, por princípio recusavam-se a comer carne de camelo.

sábado, 3 de abril de 2021

Terrorismo em Cabo Delgado





Cabo Delgado faz parte de um território que antes da sua colonização já integrava uma região altamente instável e conflituosa, conhecida por Costa Suaíli, que vai desde o corno de África até ao sul da província de Nampula. A Costa Suaíli, ao longo da história, mesmo antes da chegada dos portugueses, foi sempre um território muito instável, de vários tráficos: marfim, escravos e recursos naturais desde a caça furtiva às madeiras preciosas. Por isso, não é de estranhar que a província de Cabo Delgado esteja referenciada internacionalmente desde que passou a ser conhecida a sua riqueza em gás natural e petróleo. 

Foi então que, em 5 de outubro de 2017, um grupo de insurgentes ocupou a cidade distrital e o porto de Mocimboa da Praia por dois dias. Em 13 de agosto de 2020, os insurgentes tomaram novamente o porto de Mocímboa da Praia, um ponto estratégico, portanto. Na altura, pelo menos 1.500 pessoas foram mortas e cerca de 250.000 fugiram de suas casas. Desde então, a guerra se expandiu rapidamente. Agora, os números são muito mais avassaladores.

Os integrantes dos grupos terroristas são, por um lado, moçambicanos jovens que por várias razões aderiram à radicalização, supostamente islâmica, em que a frustração das expectativas construídas pelo discurso oficial, ao longo dos tempos e que não se efetivou, tem sido crucial, na medida em que as imensas riquezas que a província de Cabo Delgado possui não justificaria os problemas de ordem económica e social por que estão a passar. Assim, o distrito de Mocímboa da Praia continua ocupado pelos terroristas, os funcionários públicos têm-se manifestado contra as exigências do governo para o regresso aos postos de trabalho nos distritos que as autoridades consideram fora do perigo terrorista e as populações deslocadas estão a ser reassentadas em outros distritos não apenas da própria província de Cabo Delgado, mas também nas províncias de Niassa, Nampula e Zambézia.

Estes jovens construíram expectativas de serem integrados na cadeia de valores, na exploração dessas imensas riquezas. Não tendo sido contemplados adequadamente, foram absorvidos pela economia de garimpo ilegal. As autoridades ao tentarem regularizar o sistema económico da província atuaram com medidas altamente repressivas, o que provocou um generalizado sentimento de revolta. Por outro lado, a necessidade de concessão de terras às grandes companhias de exploração de gás e petróleo provocou um conflito no processo de reassentamento das populações. Tudo isto tornou o ambiente da província de Cabo Delgado altamente tóxico e explosivo, um terreno fértil para o incremento do terrorismo internacional. Considerando a evolução da perícia militar que os terroristas demonstraram em três anos, de outubro de 2017 até ao final de 2020, estes jovens moçambicanos tiveram de ser treinados, enquadrados e financiados por forças estrangeiras.

O presidente e atual líder da Frelimo - Filipe Jacinto Nyusi, que foi ministro da Defesa de 2008 a 2014 venceu as eleições presidenciais de 2014 e 2019. Mas segundo organizações internacionais a eleição de 2019 foi caracterizada por casos de fraude, intimidação e assassinatos de líderes da oposição, bem como observadores eleitorais. Alegadamente 
Nyusi recebeu até 2 milhões de dólares em subornos em 2014 em conexão com empréstimos ilegais (também conhecidos como "dívidas ocultas"), o que causou uma crise económica no país quando ele era o Ministro da Defesa e/ou depois. A tendência de redução da pobreza observada entre 2009 e 2015 desacelerou rapidamente; o número de pessoas pobres aumentou em aproximadamente um milhão no período 2015-2018, passando de cerca de 21,3 para cerca de 22,2 milhões de pessoas, localizadas principalmente nas áreas rurais das províncias centrais. Desde março de 2015, pelo menos 10 figuras de alto nível foram mortas no país. Estes incluem líderes de partidos de oposição, jornalistas e académicos. 

Nyusi é da etnia Maconde, tendo nascido em Namau, no distrito de Mueda, província de Cabo Delgado.
No início da Guerra da Independência de Moçambique foi levado para a Tanzânia, atravessando o rio Ruvuma. Em 1973, aos 14 anos, juntou-se à Frelimo e recebeu treino político e militar em Nachingwea, na Tanzânia. Em1990, concluiu o seu curso de engenharia mecânica na Academia Militar Antonín Zápotocký (VAAZ) em Brno, República Checa.

Os Macondes são um grupo étnico bantu que ocupam desde tempos imemoriais a província de Cabo Delgado, principalmente no planalto de Mueda e Muidumbe e se estende pelo sudeste da Tanzânia, e uma pequena presença no Quénia. O povo maconde é famoso não apenas pela sua bravura guerreira, mas também pela sua arte escultórica. A literatura confirma que desde a década de 1930 as esculturas de origem maconde já estavam sendo comercializadas devido à situação socioeconómica e política da população maconde, cujo planalto em Moçambique nesse mesmo período estava recém-dominado. Como alternativa de fonte de renda, novos tipos de esculturas passaram a ser feitas com o objetivo de agradar aos compradores. Ao norte do rio Rovuma, essas mesmas tendências ocorriam desde o final do século XIX, no entanto, lá elas não foram prosseguidas em razão de diversas mudanças sociais e culturais marcadas, especialmente, pela influência do islamismo, cuja religião, diferente do catolicismo, interdita a representação da figura humana.




Nas províncias centrais, Mariano Nhongo, que foi eleito líder do grupo dissidente chamado "Junta Militar da Renamo" (JMR), renegou o acordo de paz de 2019 entre Nyusi e Ossufo Momade. A JMR afirma que Ossufo Momade, eleito presidente da Renamo em eleições internas contestadas após a morte do líder histórico da Renamo Afonso Dhlakama em 3 de maio de 2018, traiu a ideologia partidária. Nhongo alega que Ossufo Momade deve renunciar ao cargo de presidente da Renamo. A guerra nas províncias centrais continua até hoje. Há ataques em estradas que ligam o sul ao resto do país. Viajar por estrada só é possível quando acompanhado por veículos militares. Nhongo publicou um documento detalhando os requisitos para um possível acordo de paz com o governo de Nyusi. A JMR alega que todos os cargos estatais relevantes, promoções e oportunidades de emprego no país exigem ser um membro registado do partido Frelimo no poder. A repressão à liberdade de imprensa e liberdade de expressão é a regra. O governo de Nyusi foi acusado de reprimir a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão por parte da IA e de outras organizações nacionais e internacionais. Vários jornalistas foram atacados, sequestrados e mortos no país durante o governo de Nyusi. Alega-se que esses crimes não são investigados e que as instituições públicas são usadas para intimidar jornalistas.

Apesar de Moçambique ter um território de configuração geográfica complicada e possuir dentro do seu território uma população composta de muitas etnias e muitas línguas, a sedimentação do sentimento de unidade nacional, desde o processo da Luta de Libertação Nacional e do período revolucionário que desencadeou a guerra civil de 16 anos, tem vindo a demonstrar que o separatismo não é uma questão a considerar perante a insegurança e os conflitos que decorrem neste momento em Moçambique.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Bruaás e Hossanas


Dizem as Escrituras e reza a lenda que Jesus Cristo foi triunfalmente aclamado no domingo passado pelo povo cantando hossanas quando chegou a Jerusalém, montado num jumento, e hoje foi julgado. Em tempo de Pessah, ou Páscoa judaica, que recorda a saída dos judeus do Egito. Jesus foi trocado por um ladrão, Barrabás (literalmente, filho do pai), que há quem sustente ser um revolucionário contra a ocupação romana. Neste preciso momento, em Braga, são 3 da tarde, ouço um estrondo do rebentamento de um só foguete. Vou à janela e vejo uma transeunte a passar, e pergunto: “O que foi?” “Morreu Jesus”, disse ela.

É melhor começar do princípio. A Pessah, que significa passagem, celebra a libertação do povo hebreu do Egito. Mas ainda antes disso, o Senhor diz a Abraão, um pastor nómada da Mesopotâmia: “Deixa o teu país, a tua família e a casa de teu pai e parte para o país que te indicarei." Abraão instala-se em Siquém, e mais tarde são conduzidos para o Egito. Aqui o faraó redu-los à escravatura. E é então que no tempo de Moisés, por volta do século XIV antes de Cristo, fogem entrando pelo Sinai. Há quem diga que os seguidores de Moisés eram os fiéis a Akhenaton, o faraó que instaurou o culto de Aton, o Deus único.

Moisés encontrara a sarça ardente que lhe dera indicações da Terra Prometida e de como guiar o povo até essa terra de leite e mel. A saída faz-se ordenada, mas depois o faraó decide ir atrás deles. É quando as águas do mar Vermelho deixam passar os fugitivos, no local onde hoje passa o canal do Suez. Depois disso, Moisés recebe as Tábuas da Lei no monte Sinai, mas o povo errante anda 40 anos pelo deserto até se instalar na Palestina. Por volta do século X antes de Cristo edificam-se reinos, nomeadamente os de Saul, de David e de Salomão. Capital em Jerusalém, constroem um majestoso santuário – o Templo de Jerusalém, que em 597 antes de Cristo é destruído pelo babilónio Nabucodonosor. Hebreus são levados para o Cativeiro de Babilónia, que no reinado de Ciro, 60 anos depois, são autorizados a regressar à Palestina. Aí chegados, reconstroem o Templo em Jerusalém. Até que chegam os Romanos e conquistam a Palestina, cem anos antes de Cristo. Nessa altura já ouvimos falar em judeus por todos os centros mercantis do Mediterrâneo de lés a lés. Um terço da população de Alexandria são judeus. E em 70 depois de Cristo ter nascido, os judeus revoltam-se contra Roma. Tito, não está com meias medidas, arrasa Jerusalém, e os judeus desaparecem daqui. Nesta altura já Jesus de Nazaré tinha morrido há 40 anos, mais coisa menos coisa.

Os caminhantes de Santiago


«Por muito que Henrique Maximiliano tentasse sacudir dos pés a poeira, nem por isso se livrava de ser o filho de um homem que elevava ou baixava o custo das mercadorias e fazia empréstimos aos príncipes. A mãe encheu-lhe os bolsos de vitualhas e entregou-lhe, às escondidas, o dinheiro para a viagem. Não esquecera os belos escritos, trazia os bolsos cheios de pequenos volumes forrados de pele de cabrito, sacados de antemão, à conta da futura herança, da biblioteca de seu tio, o cónego Bartolomeu Campanus, que colecionava livros. De vez em quando, nalguma quinta isolada, uma viúva caridosa oferecia-lhe do seu pão e do seu leito. Trocava gracejos com aqueles com quem cruzava e ia-se informando do que se passava de novo. A partir da etapa de Lá Fère, precedia-o, no mesmo caminho, um peregrino, à distância de umas cem toesas. Caminhava depressa. Aborrecido por não ter com quem falar, Henrique Maximiliano estugou o passo: “Rezai por mim em Compostela” pediu, jovial, o flamengo. “Acertais, para lá me encaminho”. Virou a cabeça debaixo do capuz de burel, e Henrique Maximiliano reconheceu Zenão. “Salve, ó primo!” saudou, cheio de alegria, Henrique Maximiliano.»
[De “A Obra ao Negro”, Marguerite Yourcenar]




Santiago é uma atração dos caminhantes e andarilhos de todos os tempos, tendo criado uma rota para trilhar: O Caminho de Santiago. 
O Caminho de Santiago é uma rota milenar seguida por milhões de peregrinos desde o início do século IX, quando foi descoberto o sepulcro do Apóstolo Santiago o Maior. Desde então, pessoas das mais diversas procedências percorrem os Caminhos que conduzem à Catedral onde se veneram as relíquias do Santo Apóstolo, dando origem a um fenómeno que se mantém e reforça de dia para dia. Os Caminhos de Santiago são por isso um denominador comum da cultura europeia pelo que estes itinerários, que são espaços públicos de convergência e harmonia, devam ser respeitados e promovidos. Neles, qualquer caminhante se sente um cidadão do mundo, o que lhe dá a oportunidade de perspetivar as suas convicções num sentido universal de abertura e de tolerância.

As peregrinações a Santiago de Compostela a partir de Portugal intensificam-se no Século XII com a independência do país, assumindo assim, particular relevo a estrada real Porto/Barcelos/Ponte de Lima/Valença onde confluem quase todas as demais, reforçando este percurso como a espinha dorsal dos caminhos portugueses de Santiago. O Caminho Português de Santiago, faz uso de trajetos antigos que cruzam bosques, campos agrícolas, aldeias, vilas e cidades históricas assim como, cursos de água através de pontes, algumas deixadas pelos Romanos desde o tempo da ocupação do Império. O Caminho é ainda marcado por capelas, igrejas, conventos, alminhas e cruzeiros, nos quais não falta a imagem do Apóstolo Santiago. Por aqui tem passado uma multidão de gente anónima: caminheiros, viajantes, almocreves, mercadores, feirantes e romeiros. É provável que também gente eclesiástica e da nobreza.  

O Liber Sancti Jacobi, também referido como Codex Calixtinus ou Códice Calixtino, que existe no Arquivo da Catedral, é um manuscrito iluminado do século XII que chegou a ser roubado 
por um eletricista, ex-funcionário da Catedral de Santiago de Compostela, tendo, contudo, sido recuperado em 2012. É conhecido do grande público pelo seu livro V, que se constitui no mais antigo guia para os peregrinos que faziam o Caminho. Inclui conselhos, descrições do percurso e das obras de arte nele existentes, assim como usos e costumes das populações que viviam ao longo da rota. Os demais livros do códice contêm sermões, narrativas de milagres e textos litúrgicos diversos relacionados com o Apóstolo. 




O caminho do peregrino é uma coisa muito boa, mas é estreito. Porque a estrada que nos leva à vida é estreito; por outro lado, a estrada que leva à morte é largo e espaçoso. O caminho do peregrino é para aqueles que são bons: é a ausência de vícios, o impedimento do corpo, o aumento das virtude, perdão para os pecados, o pesar para o penitente, o caminho dos justos, amor dos santos, fé na ressurreição e a recompensa dos abençoados, uma separação do inferno, a proteção dos céus. Afasta-nos de comidas saborosas, faz a gordura gulosa desaparecer, evita a volúpia, constrange os apetites da carne que atacam a fortaleza da alma, limpa o espírito, leva à contemplação, torna modesto o arrogante, eleva os humildes, ama a pobreza. Odeia a repreensão dos que se movem por ganância. Ama, por outro lado, a pessoa que dá ao pobre. Recompensa aqueles que vivem na simplicidade e fazem boas ações; e, por outro lado, não arrasta aqueles que são avarentos e iníquos das garras do pecado.

Tendo-se convertido no terceiro centro de peregrinação da cristandade, só superado por Roma e Jerusalém, a partir do século XI ou XII chegavam a Compostela peregrinos vindos dos mais diversos pontos da Europa: Occitânia, Navarra, Aragão, Catalunha, Britânia, Alemanha, Escandinávia...

[De “A Obra ao Negro”, Marguerite Yourcenar - continuação]

No romance “A Obra ao Negro”, Marguerite Yourcenar põe Henrique Maximiliano Ligre na estrada, a caminho de Paris, por pequenas etapas, depois de ter deixado a casa paterna em Bruges. E numa encruzilhada do Caminho encontra-se com um filósofo/cientista/místico: Zenão, que, por acaso, ainda é seu primo. Estamos no tempo de Francisco de Valois, rei de França por pouco tempo – Francisco II (10 julho 1559 – 5 dezembro 1560), que tendo nascido a 19 de janeiro de 1544, morre a 5 de dezembro de 1560, com 16 anos. Era filho de Henrique II de França e de Catarina de Médici. O Imperador Romano-Germânico era Carlos V, que havia partido para sempre em 21 de setembro de 1558.
Henrique Maximiliano imaginava, para lá das montanhas couraçadas de neve: planícies ruivas, cidades cinzeladas como cofres regurgitantes de oiro, jardins cheios de estátuas, salas cheias de manuscritos raros; mulheres vestidas de seda afáveis para o grande capitão; toda a espécie de requintes de mesa e de deboche e, sobre as mesas de prata maciça, em ânforas de vidro de Veneza, o brilho macio do malvasia.
Ao passar por Dranoutre, onde seu pai possuía uma casa de campo, persuadiu o feitor a deixá-lo trocar o cavalo que levava, que já coxeava, pelo mais belo animal que havia na cavalariça do banqueiro. Vendeu-o mais tarde em Saint-Quentin, em parte porque essa magnífica montada aumentava como que por magia as contas somadas na ardósia dos taberneiros, em parte porque equipagem tão rica o impedia de saborear a seu bel-prazer as alegrias do caminho. Para fazer render o seu pecúlio, que se lhe escapava por entre os dedos mais depressa do que imaginara, comia juntamente com os carreteiros o toucinho rançoso e o grão dos albergues mais miseráveis e dormia à noite sobre a palha, perdendo, contudo, de bom grado, em rodadas e ao jogo, o dinheiro assim economizado com melhores pousadas. 
“O cónego Campanus passou o Inverno todo em Bruges, à vossa espera; em Lovaina, o magnífico reitor arranca os pêlos da barba com a vossa ausência; e eis-vos agora aqui, numa curva do caminho, como sei lá quem. Porque correis como um mendigo as estradas da França? Estás mascarado, de tolo” 
Notou Henrique Maximiliano, observando com curiosidade o hábito do peregrino.
“Pois estou” admitiu Zenão. “Mas já andava cansado de todo aquele restolho dos livros. Prefiro soletrar um texto com vida: mil e um algarismos romanos e árabes; caracteres que tanto correm da esquerda para a direita, como os dos nossos escribas, como da direita para a esquerda, como os dos manuscritos do Oriente. Emendas, que são a peste ou a guerra. Rubricas traçadas a sangue vermelho. Signos por toda a parte e, aqui e além, manchas ainda mais estranhas que signos... Que trajo há mais cómodo para se passar despercebido?... Os meus pés deambulam pelo mundo como insetos na penumbra de um saltério.” 
“Mas porquê ir a Compostela? Não vos estou a ver sentado entre monges obesos a cantar com voz fanhosa.” 
“Que tenho eu a ver com esses madraços, com esses vitelos? Mas, o prior jacobita, de Leão, é amante de alquimia. Trocou correspondência com o cónego Bartolomeu Campanus, nosso bom tio, esse pobre idiota que às vezes se aventura, inadvertidamente, inadvertidamente, até aos limites interditos."
Henrique Maximiliano, então, cuspindo para a estrada os últimos caroços, disse: 
“A paz está pela hora da morte, irmão Zenão. Os príncipes disputam-se as terras como os bêbados nas tabernas disputam a comida. Aqui, na Provença, este bolo de mel; acolá, o Milanês, uma empada de enguias. De tudo isto hão de tombar umas migalhas na minha boca."
“Ineptíssima vanitas” tornou secamente o jovem clérigo. “Ainda ligais assim tanta importância ao bafo saído da boca dos outros?” “Tenho dezasseis anos” escusou-se Henrique Maximiliano. “Dentro de quinze, já se poderá ver se por acaso serei igual a Alexandre. Dentro de trinta, saber-se-á se valho ou não o defunto César. Pois irei eu passar uma vida inteira a medir pano numa loja da Rua das Lãs? Trata-se de ser ou não ser um homem.”
“Tenho vinte anos” calculou Zenão. “Se tudo correr pelo melhor, tenho à minha frente cinquenta anos de estudo, antes que este meu crânio se transforme em caveira. Ide procurar heróis e devaneios em Plutarco, irmão Henrique. A questão, para mim, é ser mais do que um homem.” “Vou para as bandas dos Alpes” declarou Henrique Maximiliano. “E eu” disse Zenão “para o lado dos Pirenéus.”
Calaram-se. A estrada plana, ladeada de choupos, apresentava, à sua frente, um fragmento do livre universo. O aventureiro do poder e o aventureiro do saber caminhavam lado a lado.
“Vede” prosseguiu Zenão “Para lá desta aldeia, há outras aldeias, para lá desta abadia, outras abadias, para lá desta fortaleza, outras fortalezas. E no interior de cada castelo de ideias, de cada pardieiro de opiniões sobrepostas aos pardieiros de madeira e aos castelos de pedra, a vida empareda os loucos e abre uma fresta aos sábios. Para além dos Alpes, há a Itália. Para além dos Pirenéus, a Espanha. De um lado, a terra de Giovanni Pico della Mirandola, do outro, a de Avicena. E, mais além ainda, o mar, e, para lá do mar, na outra borda da imensidão, a Arábia, a Morávia, a Frigia, as duas Américas. E, por toda a parte, vales onde se recolhem os simples, rochas onde se escondem os metais, cada um dos quais simboliza um momento da Grande Obra, engrimanços colocados entre os dentes dos mortos, deuses cada qual com a sua promessa pessoal, multidões em que cada homem se apresenta como centro do universo. Quem pode haver tão insensato que se deixe morrer sem ter dado, pelo menos, uma volta à sua prisão? Como vedes, irmão Henrique, sou na verdade um peregrino. Longo é o caminho, mas eu sou jovem."
“O mundo é grande” disse Henrique Maximiliano. “O mundo é grande” repetiu Zenão com ar grave.
Separaram-se na encruzilhada mais próxima. Henrique Maximiliano escolheu a estrada principal. Zenão seguiu por um atalho. De repente, o mais novo dos dois voltou atrás, até junto do camarada; e, pondo a mão no ombro do peregrino, disse:
“Lembrais-vos, irmão, de Wiveline, aquela menina pálida que outrora defendíeis sempre que nós, crianças maldosas, lhe beliscávamos as nádegas, à saída da escola? Pois ela ama-vos; pretende-se ligada a vós por um voto; ainda há bem pouco recusou as ofertas de um almotacé. A tia esbofeteou-a e pô-la a pão e água, mas ela persistiu na sua. Diz que espera por vós até ao fim do mundo, se for preciso.” Zenão, estacou e perpassou-lhe no olhar de indeciso, que logo se desvaneceu, como uma nuvem de vapor ao contacto com as brasas. “Paciência” disse ele. “Que há de comum entre mim e essa tal rapariguinha das bofetadas? Há alguém à minha espera. Vou até lá.” E fez-se de novo ao caminho. “Quem é?” perguntou Henrique Maximiliano, estupefacto. “O prior de Leão, esse desdentado?” Zenão virou-se: “Zenão” disse. “Eu mesmo.”

Viagem




Para algumas famílias, as viagens de verão já estão decididas: cá dentro. Numa altura pan-e-pós-epidémica, a busca por destinos nacionais está mais alta do que nunca. Por quanto tempo vão evitar passar longas horas dentro de um avião, ninguém sabe.

Agora, após tantos meses de aviões apeados, as companhias de aviação desdobram-se em mordomias, e condições específicas, para encorajarem o turista a viajar de novo. Além de seguirem os cuidados recomendados pelos órgãos mundiais de saúde, muitas companhias adotaram medidas próprias, como o distanciamento entre um passageiro e outro, e recursos que prometem manter o ar “saudável” dentro do avião.




Para quem gosta de viajar, saber que a atividade pode voltar a acontecer com o máximo de segurança possível, é uma ótima notícia. Até pode ser uma grande oportunidade para escolher um bom destino, ainda que de uma forma completamente diferente do que os viciados das viagens estavam acostumados.

É um dado adquirido que locais com maior concentração de pessoas vão estar desfavorecidos. Como tal, o medo de contrair uma doença será, com toda a certeza, um fator decisivo na escolha de um destino de viagem. Os turistas evitarão, cada vez mais, locais com multidões como: praias superlotadas, monumentos ou museus com filas infindáveis, espaços comerciais demasiado concorridos ou centros urbanos sobrelotados. Os turistas irão privilegiar, nos próximos tempos, destinos menos convencionais e mais tranquilos, com menor circulação de pessoas e melhores condições de segurança. Tal poderá devolver, a longo prazo, uma maior autenticidade aos centros históricos das grandes cidades, que muitos acusavam de se estar a descaracterizar devido aos excessos da atividade turística.



A nova realidade, provocada pela Covid-19, tem levado a que os viajantes privilegiem, cada vez mais espaços abertos ao ar livre, com menor aglomeração de pessoas e maior contacto com a Natureza. O Turismo de Natureza vai-se tornar um setor com bastante procura nos próximos tempos.

Isso irá estimular atividades mais amigas do ambiente como caminhadas, escaladas, campismo ou canoagem, e por aí fora. Uma das vantagens que poderá sair desta crise epidémica é o maior respeito pela Natureza e uma maior preocupação com a questão ambiental.